Lassam – Prólogo: Desafio

Publicado em 29/01/2017
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Prólogo: Desafio

O cheiro de terra úmida permeava o ar, provocado pela pancada de chuva que se foi tão rápida quanto surgiu. Pelo visto, as chuvas de verão continuavam sendo assim naquele lugar, pegando as pessoas completamente desprevenidas.

Aquele pensamento trouxe uma inesperada sensação de paz a Delinger Gretel. Saber que algumas coisas nunca mudam certamente era um conforto, refletia ele, enquanto saía de sua casa recém-alugada e lançava um breve e apreensivo olhar para o céu. Ao ver que as nuvens estavam se dispersando, dando lugar ao céu azul do verão, ele caminhou pela calçada até o portão de ferro, abrindo-o com facilidade antes de sair para a rua e observar a movimentação das pessoas. Assim como ele, todos estavam voltando a seus afazeres, após a brusca e violenta chuva que, por alguns momentos, se assemelhara às lendas mitológicas que falavam sobre “a fúria dos céus”.

Então ele virou-se e contemplou sua nova casa, concluindo que era um bom lugar. Sólido, durável. Uma construção bastante intrincada, erguida sobre uma fundação resistente e habilidosamente bem estruturada. Pessoas comuns costumavam dar bastante valor à aparência majestosa do lugar e a seus belos e bem cuidados jardins. Mas Delinger há muito tempo havia desistido de tentar pensar como os outros habitantes do império, e considerava a casa apenas como um abrigo, um lugar para proteger sua família da fúria dos elementos. E, para tal finalidade, nada melhor do que um prédio bem construído como aquele.

Delinger tinha a aparência de um homem que já tinha entrado na casa dos cinquenta anos, o que, naquela época, era considerado o fim da linha para muitos, uma vez que superava a média de longevidade da população em geral. Tinha cabelos pretos revoltos e olhos de um tom incomumente claro de castanho. Sua pele também se destacava entre os habitantes da cidade, tendo uma tonalidade acastanhada que lembrava o bronzeado natural exibido pelos que trabalhavam ao ar livre, mas de uma cor bem mais rica e intensa. Seus trajes deixavam clara sua posição na sociedade: alguém que tinha posses e se interessava em usar tecidos de qualidade, sem se importar muito com o preço.

A família que ele havia contratado para transportar sua mudança também já estava voltando ao trabalho e começavam a descarregar os móveis de dentro dos carroções, que formavam uma pequena fila, estacionados um atrás do outro junto à calçada de pedras irregulares.

Ele estava cansado. Tinha sido uma longa viagem, e uma que ele nunca imaginou que faria desde que partira dali anos antes. Mas promessas não valem nada quando não se tem intenção de cumpri-las, por isso ele não teve escolha. Também existiam formas muito mais rápidas – e bem mais caras – de se viajar hoje em dia, mas ele fizera questão de vir com o filho pelas estradas de Mesembria, de forma a vivenciarem toda a grandiosidade da província e sua incrível variedade de paisagens, cidades e pessoas.

Na calçada do outro lado da rua, alguns trabalhadores fincavam um alto poste de madeira, em cujo topo havia um artefato brilhante no interior do que parecia ser uma pequena cúpula de vidro. Provavelmente se tratava do novo dispositivo de iluminação noturna, do qual o prefeito tanto gostava de se gabar.

A cidade de Lassam tinha mudado bastante nas últimas décadas, mas continuava tendo a mesma atmosfera mística e envolvente de sempre. A mesma atmosfera que fizera com que ele decidisse abandonar seu povo para viver ali. Só esperava que o destino estivesse do seu lado e que a decisão de retornar a esse lugar não se mostrasse um completo desastre.

Existiam algumas vantagens em morar por ali, como a Grande Academia, que seria perfeita para seu filho, ávido por conhecimento e carente de disciplina e boas amizades. Delinger só esperava que pudesse continuar vivo por tempo suficiente para ver o filho se estabelecendo naquela sociedade.

Uma súbita e incômoda sensação fez com que ele estreitasse os olhos e se virasse, olhando para a rua que se estendia à distância, margeada ocasionalmente por muros, cercas verdes e bosques.

Aparentemente já sabiam que ele se encontrava ali.

Após uma rápida conversa com um dos carregadores, Delinger os deixou trabalhando e saiu caminhando pela calçada, ignorando as pequenas poças de água e o barulho dos cavalos e carruagens que trafegavam por ali. Após alguns minutos, chegou a uma praça onde pequenos bancos e mesas esculpidos em pedra pareciam disputar espaço com as árvores. Era um daqueles lugares onde as pessoas gostavam de passar tempo conversando, comendo fora de casa ou levando os filhos para brincar. Mas, naquele momento, havia uma única pessoa ali, recostada em um grosso tronco, obviamente esperando por ele.

Uma fêmea.

Estreitando ainda mais os olhos, ele se aproximou até parar a alguns metros de distância dela, analisando-a com cuidado.

Apesar de ela estar usando um chapéu grande e pontudo, bem como uma espécie de tapa-olho que cobria boa parte do lado esquerdo do rosto, ele pôde perceber que ela tinha a mesma cor de cabelos, olhos e pele que ele, o que não era nada comum entre os membros de sua tribo. Por um momento, ele imaginou se aquilo não representava algum tipo de provocação por parte deles. Ela parecia ser mais jovem que Delinger, deveria ter nascido uma ou duas décadas depois dele. Seu corpo estava quase totalmente escondido por trajes escuros e pesados.

– Você não deveria estar aqui – disse ela, num tom rouco e levemente anasalado, que comprovou a suspeita dele de que essa estranha estava sofrendo do mesmo mal que tinha levado sua esposa, tantos anos atrás.

– Eu moro aqui, você não – respondeu ele, deixando de lado o fato de ter acabado de chegar na cidade.

– Logo este lugar deixará de existir.

– Não enquanto eu estiver respirando.

– Por que insiste nisso? Já não teve o suficiente dessa rixa idiota? Por que, simplesmente, não esquece tudo isso e volta para casa?

– Minha casa agora é aqui. E mesmo que não fosse, não iria ficar quieto e deixar que vocês fizessem o que quisessem com essas pessoas, como se a vida delas não fosse mais importante que os caprichos de velhos insanos.

Ela estreitou o olhar.

– Você não pode nos impedir.

– Talvez não, mas se eu morrer, levarei alguns de vocês comigo.

– Acha que temos medo de você?

– Quer saber o que eu acho? Acho que estão preocupados o suficiente para tentar me abalar mandando uma fêmea nesse estado para ter essa conversa comigo.

– Ora, tem algo contra fêmeas? Os humanos não costumam dizer que “homens e mulheres possuem direitos iguais perante a lei”?

– É, mas para vocês, fêmeas não servem para muita coisa além de ficar na toca e procriar.

Aquilo pareceu tocar num nervo sensível.

– Você fala como se não fosse um de nós. Como se não precisasse passar seus dias contando mentiras para poder ser aceito nesse lugar. Como se algum deles fosse aceitar você, se soubesse da verdade.

– Eles tratam melhor a um estranho, do qual nada sabem, do que vocês fizeram comigo durante toda a minha infância e juventude.

– Está se iludindo, e sabe disso. Quando souberem o que você é…

– Você não sabe nada sobre eles. E mesmo que soubesse, isso não é de sua conta. Você não tem mais nada a fazer aqui. Vá embora.

– Será mesmo? E se eu tiver sido enviada para matar você?

– Não me faça rir.

– Sério, o que você faria? Iria me prender e me forçar a viver com você, se escondendo entre eles sem ajuda, perspectivas ou esperança, até que a degeneração acabasse comigo?

Delinger inspirou fundo, tentando se acalmar.

– Norel nunca recebeu ordens para tentar me matar e eu nunca a obriguei ou persuadi a fazer nada. Além disso, ela teve toda a ajuda possível. Vocês se acham superiores, mas o conhecimento deste lugar é muito mais vasto e abrangente do que o de vocês jamais será.

– Compreendo. Seu conhecimento é tão vasto que não foi suficiente para encontrar uma forma de ter um filho legítimo com aquela que você chamava de “esposa”. Aliás, como vai o bastardo? Já começou a degenerar? Ele, pelo menos, sabe pelo que vai ter que passar quando crescer?

Delinger apertou os punhos.

– Esta conversa está encerrada. – Ao ver que ela abria a boca para responder, ele a interrompeu levantando um punho. – Se me lembro bem, quase todos os seus anciãos já mataram fêmeas por muito menos do que você fez comigo hoje.

Ele podia sentir o cheiro da raiva dela. Estava no limite da fúria. No entanto, como ele previu, o condicionamento à obediência recebido desde a mais tenra infância acabou falando mais alto e ela se virou, pisando duro enquanto se afastava pela trilha entre as árvores.

A declaração de guerra tinha sido feita, pensou ele, suspirando enquanto tentava se acalmar. Agora não havia como evitar, nem fugir. Delinger não se preocupava consigo próprio, afinal, tinha vivido uma longa e produtiva vida, tivera um casamento maravilhoso e um filho do qual se orgulhava muito. Só esperava que, quando o garoto descobrisse a verdade, fosse sábio o suficiente para conseguir tocar sua própria vida, apesar de todos os erros cometidos pelo pai.

— Fim do prólogo —
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