Lassam – Capítulo 2: Clichê

Publicado em 11/02/2017
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2. Clichê

Cariele Asmund sentia-se esgotada. A lição prática daquele dia se estendera desde o nascer até o pôr do sol, e os estudantes não tiveram folga nem mesmo no horário de almoço, uma vez que a pauta de estudos do dia envolvera também práticas de boa alimentação. Diferentemente da maioria de seus colegas, no entanto, ela não se ressentia com a pesada carga física e mental de lições como a de hoje. Afinal, ela aprendera algumas coisas bem interessantes, que permitiriam que ela aprimorasse diversas de suas técnicas de combate. De qualquer forma, o dia fora bastante exaustivo, o que era um problema, uma vez que, para ela, a parte mais interessante dele começaria agora.

Tentando fugir do cansaço e do sono, ela deu alguns tapinhas nas próprias bochechas e depois sacudiu a cabeça algumas vezes, controlando a respiração da forma como aprendera anos antes. Inspire. Concentre. Expire. Libere. Expanda a consciência. Repita.

Agneta aproximou-se e sentou-se ao contrário na cadeira da frente, apoiando os braços no encosto enquanto reclinava-se na direção de Cariele, encarando-a com curiosidade.

– O que está fazendo?

– Meditação expansiva.

– Para quê?

– Preciso ficar afiada para a noitada de hoje.

– Você vai ter um encontro hoje? Sério? Depois de ficar mais de doze horas ouvindo sermão e aprendendo coisas que provavelmente nunca iremos usar na nossa vida?

Depois não sabe porque nunca tem créditos suficientes para avançar no curso – pensou Cariele, incomodada com o pouco-caso que a amiga fazia daquelas disciplinas. Não que fosse deixar Agneta ou qualquer outra pessoa saber que não concordava com aquilo.

Ela deu um sorriso travesso.

– Está brincando? Eu praticamente vivi para esse encontro, hoje. E, se no processo, eu consegui convencer alguém de que prestei atenção nos instrutores, eu considero como um bônus.

Cariele se levantou e pegou seus livros, dirigindo-se para a porta da sala, enquanto Agneta a seguia, levando a mão à boca para ocultar um bocejo.

– E quem é o gato da vez?

– Não sei ainda.

Agneta levou vários segundos a mais do que o normal para entender. Sinal claro de que estava realmente acabada.

– Você está toda animada por causa de um encontro às cegas?

– O que posso dizer? O cara é bonito e rico.

Cariele olhou para os dois lados do longo corredor. Ali era bastante movimentado naquele horário, com o encerramento das últimas aulas das turmas do período da tarde. Havia dezenas de estudantes indo e vindo, alguns conversando apoiados nas paredes, outros andando apressados, correndo o risco de tomar bronca dos monitores. E, falando em monitores, Cariele conseguiu identificar quatro deles se movendo por entre os estudantes, fazendo seu trabalho de vigiar, reportar e encher o saco daqueles que saíam da linha.

– Só você, mesmo. – Agneta sacudiu a cabeça. – Aliás, por que cargas d’água alguém como você iria precisar de um encontro desses? Os caras fazem fila para sair com você.

– Esse me pareceu promissor. Minha colega de quarto finalmente conseguiu um encontro com o que ela acha que é o amor da vida dela, mas por alguma razão, em vez de quererem ficar sozinhos, eles decidiram marcar um encontro a quatro, cada um deles levando um amigo.

Pelo canto dos olhos, Cariele percebeu a negra alta em roupas casuais, que as seguia discretamente à distância. De novo. Ela sabia que essa monitora só estava fazendo o trabalho dela e que provavelmente aquilo não era pessoal. Mas não deixava de ser um pé no saco. Tentou ocultar a irritação estendendo um dos braços e se espreguiçando, buscando aliviar um pouco a sensação de desconforto dos músculos cansados.

Agneta olhou para ela com um sorriso provocador.

– Céus, encontro às cegas é tão clichê!

– Clichê ou não, garanto que amanhã você vai estar me implorando para saber de todos os detalhes.

– Ora, mas isso é o mínimo que eu posso fazer, como uma boa amiga. Acha que eu iria te negar o prazer de se gabar do seu novo brinquedinho? Aliás, como sabe que já não conhece esse cara?

– É um moreno do terceiro ano de Comércio. Tenho certeza de que ainda não peguei nenhum moreno daquela turma.

– Com a frequência com que você sai com caras, nem sei como seria possível ter certeza de uma coisa dessas.

– Há! Amadora!

– Não tenho energia no momento para discutir com você. A propósito, ficou sabendo das últimas notícias sobre o meu príncipe encantado?

Cariele olhou para a amiga com expressão irônica. Agneta só falava de um único homem há dias, mas ela decidiu perguntar assim mesmo, só para provocá-la:

– Quem?

– Daimar Gretel, oras! Por acaso existe algum outro?

– Não para você, aparentemente.

– Ele expulsou um cara da fraternidade Alvorada.

– Imagino que isso seja prerrogativa do cargo de barão.

– O cara que foi expulso está sendo acusado de estupro.

Cariele encarou a amiga, séria. Aquele crime era considerado o mais hediondo de todos, geralmente punido com a pena capital.

– Quem foi a vítima?

– Dizem que foi a Ebe Lenart, do terceiro ano de História.

– Você está brincando?

– Por quê?

– Essa garota pega mais caras do que eu. Às vezes até mais de um ao mesmo tempo.

– E daí?

– Para que alguém iria ter o trabalho de forçar ela a fazer uma coisa que ela faz com qualquer um, e de boa vontade?

– Uau! Estou vendo uma ponta de inveja aí?

Cariele riu.

– Não seja ridícula. Essa vadia já fingiu estupro uma vez para se vingar de um cara que não quis se engatar com ela.

– Sério? Onde ouviu isso?

Droga! Devo estar mais cansada do que imaginava – pensou Cariele, respirando fundo.

– Esquece. Acho que foi só um boato infundado. Você tem razão, eu não deveria estar falando assim dos outros. Devo estar mesmo com um pouco de inveja da técnica dela. Pegar dois de uma vez parece interessante, mas nunca tive coragem.

Agneta não se convenceu muito com aquela explicação, mas estava cansada demais para insistir.

♦ ♦ ♦

Daimar Gretel também estava exausto. Não tivera aulas no período da tarde, por isso resolvera se fechar na biblioteca e se dedicar integralmente a seu projeto particular. O artigo estava ficando maior e tomando corpo conforme ele se aprofundava no assunto e encontrava mais evidências, contra e a favor de sua tese. Se aquilo funcionasse, seria uma invenção que provavelmente revolucionaria a vida das pessoas. Pena que aquele artigo iria demorar um pouco para ficar pronto, afinal ele tinha pouca – para não dizer nenhuma – afinidade com as disciplinas de Física Energética e Cálculo. Ele sempre se deu muito melhor com as disciplinas humanas do que com as exatas, mas aquele projeto em particular exigia um certo nível de conhecimento nas duas áreas, então ele se debruçara por boa parte do dia sobre livros de matemática tentando encontrar algum sentido em todos aqueles “x”, “y” e “z”, necessários para cálculos de velocidade, aceleração, área, volume e intensidade energética.

Ele massageava os olhos cansados no momento em que Egil entrou na sala e o encarou com uma expressão de expectativa. Daimar sussurrou para ele:

– O que houve?

Egil respondeu, no mesmo tom:

– Você esqueceu?

Daimar ficou vários segundos encarando o amigo, até notar as roupas novas e o cabelo dele, penteado com capricho. Então, num gesto lento e desanimado, apoiou o cotovelo na mesa antes de dar um tapa de leve na própria testa.

Egil apoiou-se na parede e cruzou os braços, com um sorriso divertido no rosto.

Finalmente, Daimar levantou a cabeça e começou a juntar suas coisas, em silêncio. Por mais desinteressante que fosse a perspectiva dos próximos eventos daquela noite, ele assumira o compromisso de ajudar o amigo.

Minutos depois, ambos saíam da biblioteca e tomavam o caminho dos alojamentos.

– Desculpe – disse Daimar. – Acabei me distraindo com os estudos e esqueci da hora.

– Sem problemas – respondeu Egil. – Mas cuidado para não estudar demais ou essa sua fachada de delinquente de que você tanto gosta não vai durar muito.

– Tenho apenas pouco mais de uma semana de prática. Com o tempo eu vou melhorar. Espero.

Egil riu.

– Não se preocupe, a noitada de hoje vai te dar bastante experiência.

Daimar franziu o cenho.

– Hei! Eu pensei que isso seria um encontro de casais. No que é que você está querendo me meter? Algum tipo de orgia?

Dessa vez Egil gargalhou.

– Aí depende de você. Mas ouvi falar que sua acompanhante tem material mais que suficiente para satisfazer qualquer um, sozinha.

– Devo informá-lo que tenho a saudável política de olhar com desconfiança para uma afirmação como essa quando a identidade da pessoa em questão é mantida em sigilo.

– Isso é só para tornar as coisas mais interessantes.

– Você sabe quem ela é.

Egil deu de ombros.

– Posso dizer que ela vale a pena, e muito. Pode me agradecer depois, viu? Não costumo fazer favores dessa magnitude para ninguém, mas eu quis te compensar pela ajuda que você me deu e por tudo o que fez na fraternidade.

– Até o momento isso está soando mais como castigo do que como compensação. Espero mudar de ideia até o fim da noite. Ah, e que me lembre, nem fiz tanta coisa assim para merecer essa consideração, então essa história ainda me soa como algum tipo de pegadinha.

– Você colocou aquela cambada para trabalhar. Hoje eu consegui até mesmo usar o banheiro do vestiário sem vomitar antes. E nem depois.

Daimar tirou uma pequena caderneta do bolso e colocou-a sobre a pilha de cadernos e papéis que carregava, abrindo-a e virando algumas páginas.

– Antes que eu me esqueça, tenho uma lista de coisas para serem providenciadas. Pode passar para nosso tesoureiro?

Egil se aproximou e deu uma olhada nas anotações, como sempre se impressionando com o nível de organização com que o novo barão gostava de trabalhar. O antigo ocupante daquele cargo fez um verdadeiro favor à fraternidade ao se mudar para outra cidade.

– Tome, tire a folha – disse Daimar, estendendo a caderneta. – Veja se o indivíduo ainda não saiu para a gandaia e passe para ele. Vou me trocar e encontro você no bar.

♦ ♦ ♦

O local escolhido para o encontro era um ambiente neutro e sem nada muito digno de nota acontecendo ao redor. O bar era discreto, sem muitos chamativos e bastante comum, se comparado a outros que existiam na cidade. Era um lugar calmo, com iluminação suave e com garçons e garçonetes usando uniformes pretos circulando por entre mesas cobertas com toalhas escuras. Um homem arrancava acordes melodiosos de um piano aos fundos, enquanto uma moça bastante jovem em vestido de noite soltava a voz, entoando uma antiga canção romântica popular.

Os quatro chegaram quase ao mesmo tempo, todos vestidos com roupas formais e elegantes, como era de praxe naquele tipo de situação. Egil e a companheira de quarto de Cariele se cumprimentaram com beijinhos no rosto e sorrisos luminosos, trocando algumas amenidades. Tudo muito normal, muito simples, muito clichê.

Cariele Asmund, no entanto, sentia-se como se tivesse tomado um soco no estômago. O que também não deixava de ser um clichê. O homem que deveria ser seu acompanhante era um espetáculo, muito melhor que suas mais loucas fantasias. Pele super bronzeada, cabelos negros como a noite e olhos castanhos que a encaravam com uma fascinação que espelhava a dela. As roupas dele eram de excelente qualidade, mas discretas, em tons escuros. A forma como ele se movia e sorria também era de arrasar. Uma sensação de agitação e euforia a envolveu por completo e até mesmo os pelos de sua nuca se arrepiaram. Percebendo que estava prendendo o fôlego por tempo demais, ela se forçou a voltar a respirar, desejando que ninguém tivesse percebido. Para alguém que tinha tanta experiência com homens, sentir-se daquela forma com um completo desconhecido era desnorteante, quase assustador.

Daimar Gretel, por sua vez, sentiu-se completamente embasbacado ao encontrar aquela loira. Os elogios velados do amigo lhe pareciam agora insuficientes e frívolos comparados com a realidade. Os longos cabelos dela acabavam com qualquer determinação que alguém poderia ter de ignorá-la. Macios. Brilhantes. Perfumados. Ela usava um vestido longo em tom escuro, com uma fenda lateral que chegava até quase a metade da coxa e deixava antever a renda da parte superior da meia escura. A parte de cima do vestido era fechada até o pescoço e tinha mangas curtas, revelando braços longos e surpreendentemente fortes. Os inúmeros detalhes em couro e metal no corpete não permitiam ter muita certeza, mas ela parecia ser bastante curvilínea. Os olhos azuis o encaravam como em transe, tão agradavelmente surpresos quanto os dele deveriam estar. E aquele perfume… mesmo à distância, ele podia perceber claramente o cheiro dos cabelos e da pele dela, ambos realçados por cremes ou outros produtos de beleza. De qualquer forma, seu perfume natural era intenso e estava mexendo com ele de uma forma que nunca experimentara antes.

Egil e a namorada perceberam a demorada troca de olhares entre os dois e sorriram com cumplicidade um para o outro.

– Daimar, deixa eu lhe apresentar – disse Egil, depois de alguns instantes. – Esta morena aqui se chama Malena Ragenvaldi, e é do primeiro ano de Artes. E essa loira é Cariele Asmund, do segundo ano de Ciências Místicas. Garotas, esse aqui é meu amigo Daimar Gretel, do terceiro ano de Comércio.

Para Daimar, aquilo foi totalmente inesperado. Então, aquela era a caçadora de fortunas da qual tanto ouvira falar? Não fazia sentido. O brilho daqueles olhos azuis profundos indicava claramente que tinha muito mais personalidade ali do que a aparência sugeria. Ela não era, nem de longe, uma garota superficial ou frívola, de alguma forma ele tinha certeza absoluta disso. Ou será que aquilo era apenas o que ele queria acreditar? Será que ela provocava propositalmente esse tipo de reação nos homens? De repente, se sentiu muito decepcionado.

O leve estreitar de olhos do moreno indicou a Cariele que ele estava chocado ao conhecer a identidade dela e forçava-se a disfarçar. Ela também tentou acobertar a própria decepção jogando o cabelo para trás e colocando um sorriso brilhante no rosto. Então aquele era o tal barão? Ela podia entender agora porque Agneta sonhava tanto com ele. Afinal, a amiga dava muito valor a aparências. De repente, ela se deu conta de que a amiga poderia muito bem vir a desprezar a própria Cariele se um dia viesse a descobrir a verdadeira aparência dela. Aquele pensamento causou uma dolorosa pontada no peito e então veio a irritação. Quem aquele homem pensava que era para encará-la daquele jeito e fazê-la sentir-se insegura daquela forma?

– Prazer em conhecê-lo – disse Cariele, por entre os dentes, estendendo a mão para Daimar, que não deixou de notar o desprezo por trás do sorriso.

– Digo o mesmo – respondeu ele, no mesmo tom, enquanto apertava a mão dela no que devia aparentar um cumprimento formal. Mas ambos puseram tanta força naquele aperto que ele pareceu mais uma declaração de guerra.

– Que bom conhecê-lo pessoalmente, Daimar – disse Malena, com voz hesitante, antes de se voltar para Egil. – Vamos nos sentar?

Daimar não se deu ao trabalho de cumprimentar a morena, pois estava certo de que não a reconheceria se a visse outra vez. Seu olfato aguçado estava completamente tomado pelo aroma da loira, que eclipsava tudo o mais que acontecia ao redor. E isso o estava deixando muito desconfortável. Por que, em nome dos céus, ela o afetava tanto?

– Sim, vamos – respondeu Cariele, lançando um olhar ameaçador à sua colega de quarto. Mataria Malena mais tarde. Isso, é claro, depois que matasse aquele bastardo atrevido que volta e meia levantava a cabeça sutilmente na direção dela como se a estivesse… farejando. Que raios havia de errado com aquele cara? Que raios havia de errado com ela?

Egil olhou de um para o outro, um pouco inseguro com o climão.

– Que tal jantarmos? A comida daqui é muito boa.

– Sim, estou morta de fome! – Malena exibiu um sorriso trêmulo, parecendo tão encabulada quanto o namorado.

Infelizmente, nem a comida e nem a conversa sobre trivialidades ajudou a quebrar aquele clima incômodo. No começo, Cariele e Daimar trataram de se ignorar mutuamente, mas a tensão pareceu ir crescendo cada vez mais, e ao final da refeição, já estavam quase chegando ao ponto de trocar olhares raivosos abertamente.

– Que tal se a gente agora…  – começou Egil.

– Estou cansado de segurar vela – disse Daimar, interrompendo o amigo. Então ele virou-se para Cariele, com um sorriso forçado. – Que tal se deixássemos os dois pombinhos aproveitarem a noite deles?

– Essa é a melhor ideia que ouvi a noite toda – respondeu ela, com uma expressão satisfeita.

– Mas seria indelicado de nossa parte deixarmos vocês sozinhos. – Insegura, Malena buscou o olhar de Egil.

– Não se preocupem conosco – disse Daimar. – Temos alguns assuntos para discutir e depois iremos para casa. Vocês vão em frente com o que quer que tenham em mente.

– Está mesmo tudo bem? – Malena perguntou a Cariele.

– Sim, claro, não se preocupe.

Daimar se levantou da cadeira e estendeu a mão a Cariele.

– Me acompanha?

– Claro – disse ela, levantando-se também e agarrando a mão dele, fazendo questão de apertar com bastante força e recebendo o mesmo tratamento em troca.

Egil olhou para o amigo com uma expressão de culpa.

– Daimar, me desculpe, eu não queria que as coisas acabassem assim…

– Do que está falando? – Daimar desviou o olhar da expressão fascinantemente desafiadora do rosto de Cariele para encarar o amigo. – Não era esse o plano? Cada casal seguir seu caminho no fim da noite?

– Mas não faz nem uma hora que chegamos…

– Então, estamos só adiantando um pouco as coisas – disse Cariele. – Divirtam-se. Conversaremos amanhã.

– Quanto à conta… – começou Daimar.

Egil levantou uma mão e sacudiu a cabeça, enfático.

– Deixa comigo.

– Vamos! – Cariele saiu caminhando, quase arrastando Daimar, que mal teve tempo de fazer um gesto de despedida ao outro casal.

Cariele não entendia porque se sentia tão irritada e tão ansiosa por confrontar aquele delinquente. Ela realmente não queria estragar mais ainda a noite da amiga, mas não podia negar que seu desejo de ficar sozinha para falar o que quisesse para aquele homem era uma possibilidade tentadora demais para deixar passar.

Daimar se sentia aliviado ao sair daquele lugar. Não precisaria mais tentar fingir interesse na comida, na bebida e nem na conversa. Agora podia se concentrar totalmente naquilo que estava lhe aguçando todos os sentidos. Sentia-se ansioso por uma briga, e aquela loira não parecia a fim de terminar a noite sem provocar uma.

Nenhum dos dois se importou com o fato de estarem andando pela rua de mãos dadas. Os olhares curiosos dos transeuntes também foram totalmente ignorados, bem como a beleza da cidade banhada pela suave luz da lua crescente, complementada por cristais de luz contínua no alto de postes a intervalos regulares. No momento, ambos tinham coisas demais na cabeça para se importarem com qualquer coisa além deles mesmos.

Subitamente dando-se conta de que tinham entrado nas dependências da academia e que se encontravam em meio aos amplos jardins, Cariele parou e olhou ao redor, confusa. Ao ver que ainda segurava a mão de Daimar, tratou de soltá-lo e se afastar alguns passos dele. Sua mente agora estava em branco. Simplesmente não conseguia mais se lembrar da razão de tê-lo arrastado até ali. O que foi que deu nela, afinal? E quantas vezes já tinha se perguntado isso essa noite?

A atmosfera tinha se modificado completamente de uma hora para outra, o que deixou Daimar totalmente perdido. A raivosa e provocadora loira agora parecia indecisa e insegura, o que, por alguma razão inexplicável, o fez sentir-se culpado. Tentando não parecer ameaçador, ele caminhou até um banco ali perto e sentou-se, suspirando enquanto fechava os olhos. Não sabia qual era o problema dela, mas se o que quisesse era dar a noite por encerrada e esquecer aquela confusão toda, ele com certeza não iria protestar. Considerando o quanto ansiara por um bate-boca minutos atrás, essa súbita vontade de deixar tudo de lado não tinha a menor lógica. Não que a maior parte daquela noite tenha feito muito sentido.

Vê-lo sentar-se em um dos bancos preferidos dela fez com que Cariele se sentisse bastante incomodada.

– Certo, vamos esclarecer algumas coisas – disse ela, o que fez com que ele abrisse os olhos, surpreso por ela ainda estar ali e mais ainda por ter se aproximado e parado bem na frente dele. – Não costumo ser rude daquela forma, mas algumas coisas que você faz me deixam desconfortável.

– Hã? – Ele franziu o cenho. – E o que foi que eu fiz?

– Para começar, isso – disse ela, apontando para o rosto dele.

– “Isso” o quê?

– Quando eu chego perto parece que… bem, você levanta o rosto dessa forma, e isso me incomoda porque parece que você está… sei lá, me cheirando.

Daimar a encarou, muito surpreso, por um instante.

– Ah, isso.

– Então você sabe do que eu estou falando?

– Bem, sim…

– E por acaso faz de propósito, para irritar as pessoas?

– Não, não, isso é meio que por instinto. Mas estou surpreso que tenha percebido já quase ninguém nota, a menos que conviva comigo por bastante tempo.

– O que quer dizer com “por instinto”?

Ele suspirou. Como explicar algo que nem ele entendia direito?

– Eu acho que tenho o olfato um pouco mais desenvolvido que o da maioria das pessoas. O estímulo é tão forte que às vezes faz com que eu mova o corpo sem perceber para sentir melhor.

Era uma explicação racional, clara, objetiva, que justificava perfeitamente aquele comportamento dele. Mas, por algum motivo, ela não conseguia digerir aquilo.

– E que tipo de cheiro estava sentindo em mim? – Ela cheirou os próprios pulsos e embaixo dos braços, o que fez com que ele sorrisse.

– Nada com que deva se preocupar. Sua pele e seus cabelos têm um aroma único e muito agradável. Quero dizer, pelo menos depois que consegui isolar a essência dos perfumes artificiais que está usando, pois eles dificultam sentir qualquer outra coisa.

Aquilo a fez corar como uma adolescente, o que era irritante uma vez que achava ter perdido toda sua inocência muito tempo atrás.

– Você é esquisito.

– Sou diferente. – Ele deu de ombros, mostrando um sorriso charmoso. – A maioria das pessoas têm algumas características únicas. Essa é apenas um pouco mais pronunciada.

– Você não é um delinquente.

Ele franziu o cenho.

– E por que diz isso?

– Porque parece ter cérebro.

– Sinto decepcioná-la, mas devo informar que todos os delinquentes possuem cérebro, sem exceção. Só não têm o hábito de usá-lo.

Ela soltou um riso involuntário e sentou ao lado dele no banco. Ficaram ambos olhando para a lua por um longo e confortável momento.

– Você também não parece se encaixar no perfil de interesseira e aproveitadora.

– E por que não? – Ela tinha ficado genuinamente curiosa. Afinal, tinha plena consciência de sua má fama e algumas vezes até alimentava os rumores de propósito.

– Você é muito perspicaz e inteligente. E parece mais interessada na minha pessoa do que na minha aparência ou nas minhas posses. Só não sei como consegue encarar esse curso de Ciências Místicas.

Foi a vez de Cariele franzir o cenho.

– Para alguém cursando Comércio você não tem muita moral para fazer pouco de mim.

– Ora essa, Comércio estuda relacionamentos humanos, cultura, economia, leis, organização social e política. São todas disciplinas importantes e que fazem a diferença em nossa sociedade.

Ela suspirou.

– Que tal deixarmos de lado essa velha briguinha de humanas versus exatas? Já me basta ter que ouvir minhas amigas discutindo interminavelmente sobre isso todo dia.

– Como quiser – disse ele, sorrindo de novo.

– Soube que você expulsou um membro da sua fraternidade.

– Sim – confirmou ele, levantando uma sobrancelha.

– Foi por causa de uma denúncia de Ebe Lenart?

– Sim.

– Sabia que não dá para confiar em tudo que aquela figura fala?

De repente, a irritação dele estava de volta. Qual era a dela? E porque se achava no direito de julgar a decisão dele?

– Estranho, você não deveria estar do lado dela?

– E por quê? – Ela sentia que a raiva irracional de antes ameaçava voltar com tudo.

– Por que você é mulher.

– Na nossa sociedade, estupros masculinos são tão frequentes quanto os femininos, talvez até mais. Você estuda Ciências Sociais e não sabe disso?

– Na nossa sociedade, estupradores são mortos, independentemente de serem homens ou mulheres. Mas uma coisa que não sei se você sabe é que tentar se casar com alguém por dinheiro, apesar de não ser crime, não costuma ser muito bem recebido.

– E o que houve com o “você não parece se encaixar nesse perfil”?

– Não sei. Analisar o seu perfil é complicado quando você fica me julgando.

– Vai dizer que não é verdade que você espancou aquele rapaz?

Parece que os fofoqueiros de plantão estão trabalhando a todo vapor – pensou ele.

– Quebrei alguns ossos dele, sim. Por quê?

Ela se levantou e pôs as mãos na cintura.

– Talvez alguém devesse quebrar alguns dos seus para lhe mostrar o quão agradável isso é.

Ele se levantou também, imitando a postura dela.

– E talvez alguém devesse dar uma lição em você, para aprender a não meter o nariz onde não é chamada.

Ele sabia que ela estava por um fio, podia sentir o cheiro da irritação dela. Sabia também que a provocar daquela forma a faria perder o controle. Na fração de segundo que ele levou para perceber o movimento dela, retesando os músculos e inclinando-se de leve, modificando assim seu centro de gravidade em preparação para o impacto iminente enquanto começava a projetar o braço direito para a frente na direção dele, Daimar se sentiu subitamente satisfeito consigo mesmo. O orgulho de ser capaz de provocar aquela reação era estranho à natureza dele, mas não podia negar que aquilo era muito prazeroso e valeria a pena tomar alguns golpes por causa daquilo. Não que ele pretendesse apanhar sem reagir.

Então ele levantou antebraço direito para bloquear o soco dela, ao mesmo tempo em que concentrava energia onde seria o ponto de impacto para realizar um contragolpe balanceado, da mesma forma como fizera com Bodine dias antes. No entanto, para sua surpresa, ela retardou o próprio movimento alguns milésimos de segundo e, ao invés de socá-lo com força, como ele esperava, ela agarrou o pulso dele aplicando um outro tipo de contragolpe que não só anulou completamente a energia que ele tinha concentrado, como enviou para todo o corpo dele uma pequena onda de choque que o fez ter um sobressalto, impedindo-o de se mover por um instante. O efeito era efêmero, ele se recuperaria em um piscar de olhos, mas aquilo era tempo suficiente para ela emendar um outro golpe sem nenhuma chance de bloqueio por parte dele.

Daimar desejou não ter ficado tão intoxicado pelo perfume da pele dela. Por causa daquela distração, ele não se lembrara de acumular um pouco de energia antes de provocá-la. Nunca tinha sido tão relapso numa briga antes. Agora, tudo o que ele podia fazer era esperar que ela optasse pelo ataque mais simples, que considerando a posição de ambos, seria focar no abdômen dele. Não havia energia suficiente para proteger mais de uma parte de seu corpo, então ele enrijeceu os músculos da barriga e concentrou o fluxo místico ali.

Ao invés de uma joelhada no abdômen, no entanto, ela preferiu desferir um chute em sua virilha. Felizmente ele teve tempo suficiente para direcionar a energia mais para baixo. No entanto, a moça era muito mais forte do que imaginara, e ele não tinha energia suficiente para absorver um impacto tão intenso. Por puro instinto, ele acabou espalhando a carga cinética, de forma a distribuir o impacto por todo o corpo. No fim ele acabou caindo de costas, mas se recuperou rapidamente, rolando para o lado e se levantando com agilidade.

Ao vê-la se aproximando para atacar novamente, ele levantou os braços, num gesto de rendição e ficou imóvel. Ela imediatamente parou, encarando-o com desconfiança.

– Achei que você poderia aguentar um pouco mais do que isso – desdenhou ela.

– Não há sentido em tentar me defender. Você obviamente é muito mais ágil e tem muito mais experiência e treinamento que eu. Se quiser continuar, vá em frente, vamos acabar com isso logo.

– Você ainda não sofreu nenhum arranhão, seu covarde!

– Fisicamente, talvez, mas meu orgulho está em frangalhos.

Cariele estava mais do que impressionada pela reação dele a seus ataques. Mesmo assim, ela calculava que poderia derrotá-lo em poucos minutos se a briga continuasse. Na verdade, ansiava por desferir alguns bons golpes, mas vê-lo se render daquela forma a fez se perguntar, mais uma vez naquela noite, que raios estava fazendo.

Então, uma voz masculina e autoritária, vinda da direção dos portões, chamou-lhes a atenção.

– Certo, crianças, a brincadeira acabou!

Daimar e Cariele abaixaram os braços e viraram-se naquela direção, vendo um casal de monitores se aproximar.

Cariele imediatamente reconheceu a negra que vivia vigiando-a dentro da academia.

– Será que não tenho mais direito à privacidade nem para namorar?

– Venho monitorando você a tempo suficiente para saber que o seu conceito de “namoro” é um pouco diferente do que estava acontecendo aqui.

– É hora de vocês dois esfriarem a cabeça e irem para casa – disse o homem, que era tão alto quanto sua companheira, mas contrastava enormemente com ela na cor da pele, pois ele não podia ser mais branco. Até mesmo os cabelos e sobrancelhas pareciam prateados sob o brilho suave da luz contínua vinda da fileira de postes que margeavam as trilhas por todo o jardim.

Daimar encarou o monitor.

– Já que você me seguiu até aqui, poderia, por favor, explicar para essa cabeça quente o motivo de eu ter machucado Bodine e o expulsado da fraternidade?

– Não temos permissão para discutir esse assunto.

– Você viu o que aconteceu aqui, não viu? Ela tentou me agredir!

– Depois de você a ter provocado – disse a negra.

– E explicar a ela o que aconteceu não seria uma forma inteligente de resolver esse conflito?

Cariele viu os monitores trocarem um olhar resignado e mais uma vez ficou impressionada com o barão da Alvorada. Ele não parecia agressivo, conversava com os monitores em um tom baixo e sério, um pouco irritado talvez, mas sem nenhum tipo de ameaça ou exigência. E com aquilo, conseguiu manipulá-los a fazer o que queria.

O albino olhou para Cariele.

– Esse assunto é sigiloso, pois é um caso de vida ou morte. Entende isso?

– Sim, senhor – respondeu ela.

– Às 20 horas do terceiro dia desta semana, Daimar Gretel foi convocado por seus colegas de fraternidade para uma reunião. Durante o encontro, Bodine Gersemi confessou ter se engajado em relações íntimas com uma estudante chamada Ebe Lenart sem o consentimento dela. Daimar anunciou que não toleraria aquele comportamento e Bodine se descontrolou, forçando Daimar a se defender de um ataque físico. No processo, Bodine foi gravemente ferido e enviado à enfermaria, onde aguarda a conclusão do tratamento regenerativo para responder juridicamente pelas acusações registradas pela vítima e por nove membros da fraternidade Alvorada. Usando sua posição de barão, Daimar expulsou Bodine da fraternidade, mas isso não é mais relevante, uma vez que o acusado já confessou o crime ao promotor, sob o encanto da verdade. Nos próximos dias o julgamento deve terminar, mas a expectativa é de que o réu seja condenado à pena máxima.

– Entendo – disse Cariele, surpresa e um tanto insegura. Ela virou-se para Daimar. – Me desculpe por aquilo.

Ele deu de ombros.

– Você parou quando eu me rendi, e sou grato por isso.

– Você sabe que se meter em brigas é uma violação do seu acordo – disse a negra, encarando Cariele. – Como ele parece estar bem e essa disputa acabou antes que alguém se machucasse seriamente, vou relevar dessa vez, mas estarei de olho em você.

– Sim, senhora – resmungou Cariele, por entre os dentes.

– Agora, para casa os dois!

♦ ♦ ♦

Cariele estava grata por não encontrar sua colega de quarto quando voltou ao alojamento. Na verdade, esperava que ela se divertisse com Egil pela noite inteira, pois não estava com ânimo para conversar com ninguém no momento.

Só queria ficar ali, abraçada ao travesseiro, enquanto tentava acalmar as batidas do próprio coração. Aquela noite tinha sido surreal, ela nunca havia se descontrolado tanto, nem revelado tanto de si mesma para alguém em tão pouco tempo.

Aquele homem tinha um tempo de reação inacreditavelmente curto. Tinha conseguido neutralizar dois dos melhores golpes dela com movimentos simples e um controle de fluxo de energia surpreendentemente bom. Bem longe de ser “ótimo”, mas com certeza muito bom. Mesmo a “briga” não tendo durado mais do que poucos segundos, ela tinha certeza de que, se tivesse um pouco mais de disciplina e um treinamento adequado, ele poderia ser praticamente invencível.

Tentando sufocar uma pontada de inveja, ela enfiou o rosto no tecido macio. Afinal, ela tivera o melhor treinamento possível e sempre fora um dos mais bem disciplinados soldados de sua antiga unidade, e mesmo assim, chegara ao ponto em que estava apenas às custas de muito suor e lágrimas. E, no final das contas, todo o esforço se mostrara inútil, pois ela perdera tudo no que lhe pareceu um piscar de olhos. E agora ela não tinha nada. Isto é, nada além daquela megera a seguindo por todo lado, louca para vê-la sair da linha.

Pensando bem, Daimar não tinha afirmado que o monitor albino o tinha seguido também?

Cariele se deitou de costas, deixando o travesseiro de lado enquanto olhava para o teto, pensativa. Ele também estava sendo monitorado de perto? O que será que ele tinha feito para serem tão cuidadosos com ele dessa forma? E quanto àquela história sobre o olfato apurado dele? Seria algum tipo de habilidade mística? E por que todos diziam que ele era um delinquente? O comportamento dele não sugeria que ele fosse desleixado, bagunceiro ou mulherengo. Afinal, ele não fizera nem mesmo um único avanço na direção dela, não é?

Uma última pergunta passou pela cabeça dela antes de cair num pesado e abençoado sono:

Quem é ele?

Já Daimar estava convencido de que não dormiria aquela noite.

O perfume dela continuava em suas narinas, enviando aquela sensação quente e turbulenta para todo seu corpo, o que o deixava excitado, frustrado e irritado.

Cariele Asmund era muito bem treinada, ele tinha certeza disso. Já vira soldados se moverem como ela, canalizando energia de forma eficiente, o que permitia que lutassem melhor e por muito mais tempo. Mas seria ela militar? Isso não fazia sentido, pois existiam academias militares muito mais bem-conceituadas que a de Lassam. Estaria ela em algum tipo de missão? Ela podia estar disfarçada como uma simples aluna enquanto investigava algum crime. Talvez o alvo dela fosse algum professor corrupto. Ou um dos estudantes, talvez o filho de algum figurão, o que explicaria aqueles rumores sobre ela estar atrás de um marido rico.

Fechando os olhos, tentou deixar o assunto de lado, pois ele não tinha nenhuma evidência de nada daquilo e provavelmente estava imaginando um monte de bobagens. A única coisa que tinha certeza é que ela era intrigante.

E também era linda. Tinha uma beleza muito acima de qualquer parâmetro. Na verdade, a aparência dela era tão agradável aos olhos que parecia não combinar muito com ela. Cariele era forte, tanto de corpo quanto de espírito. Tinha uma personalidade marcante e gostava das coisas de seu jeito. De alguma forma, aquela aparência suave e angelical destoava um pouco disso. Seria mesmo verdade que ela fizera um ritual de modificação corporal? Aquilo era um tabu muito grande na sociedade deles, mas talvez ela tivesse um bom motivo.

Vendo que não conseguia parar de pensar nela, ele se deitou de bruços e tentou limpar a mente. Precisava descansar. Talvez depois de uma boa noite de sono os acontecimentos de hoje não parecessem tão irreais.

Mas suas narinas se recusavam a colaborar e continuavam a sentir a fragrância dos cabelos e da pele dela.

— Fim do capítulo 2 —
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Uma opinião sobre “Lassam – Capítulo 2: Clichê

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