Lassam – Capítulo 4: Envolvimentos

Publicado em 25/02/2017
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4. Envolvimentos

Isso é o tal mundo das pedras?

A voz da mulher saía abafada por causa da máscara de tecido xadrez embebida em vinagre que estava firmemente amarrada por um nó atrás da cabeça, ocultando quase todo seu rosto.

Delinger Gretel não viu sentido naquela pergunta e rapidamente a classificou como um comentário retórico, coisa que os humanos gostavam bastante de fazer. Isso era uma das poucas características do comportamento deles capaz de irritá-lo. Se ele estivesse num lugar desconhecido, hostil, com leis físicas diferentes do que estava acostumado e tendo que economizar cada respiração devido ao ar pesado e venenoso, a última coisa que pensaria em fazer era desperdiçar suas forças comentando o óbvio.

Não dava para ver nada além de pedras, literalmente por todos os lados. De todos os tamanhos e formas imagináveis, desde pequenos pedregulhos até formações com vários quilômetros de diâmetro, todas flutuando no ar, a maioria estacionária, mas algumas se movendo lentamente de um lado para o outro.

Não havia sol ali. A iluminação do lugar também era gerada por pedras, cujo processo de ignição fora iniciado por algum mecanismo bizarro da física do lugar, transformando-as em algo similar aos cristais de luz contínua, muito utilizados no mundo dos humanos. Era possível ver pedras brilhantes por todos os lados, apesar de elas obviamente serem em número muito pequeno se comparadas a todos os tipos de rocha que vagavam por aquela imensidão.

A locomoção não era difícil, você podia facilmente pular de uma pedra para outra. A gravidade ali era criada pelas rochas individuais, então, se você saltasse longe o suficiente para ultrapassar a metade da distância até a rocha seguinte, ela iria atrair você e fazê-lo cair sobre ela. Se saltasse diretamente para cima e tivesse uma flutuando sobre você, estaria correndo o risco de ser atraído para ela e acabar caindo de cabeça.

A temperatura era amena, constante o tempo todo, exceto perto das pedras mais brilhantes, onde as coisas ficavam um pouco mais quentes. Uma brisa suave passava pelo local onde estavam, mas Delinger sabia que os ventos daquele lugar eram bastante instáveis e podiam se tornar um problema se subestimados.

Por incrível que pareça, existia bastante vida por ali. As rochas maiores, principalmente as que tinham formato circular, costumavam apresentar vegetação na superfície e até vida animal. Algumas delas chegavam a ser totalmente cobertas por florestas.

Para se chegar a qualquer lugar naquele labirinto tridimensional eram necessárias duas coisas. A primeira era ter algum tipo de aparato ou habilidade especial para saber se orientar. E a segunda era conhecer o caminho. Poderia levar anos para mapear uma trilha segura de poucos quilômetros.

Delinger conseguia se orientar muito bem pelo olfato, uma vez que o fedor do lugar para onde deviam ir era tão forte e desagradável que podia ser sentido por várias dezenas de quilômetros. Assim, assumiu a dianteira fazendo sinal para que os outros dois o seguissem.

Ele podia muito bem dar conta daquela missão sozinho, tinha certeza disso. Mas a engenhosidade dos humanos já o surpreendera por tantas vezes que ele sabia que não devia recusar uma oferta de ajuda como aquela. Com outros de sua raça Delinger sabia lidar, estava preparado para eles. Também não tinha problema em se virar naquela dimensão artificial, já viera tanto ali que era quase um segundo lar para ele. Sua preocupação era com o imprevisto, o desconhecido. Era impossível se precaver contra todas as variáveis envolvidas numa situação como aquela. E, por causa disso, ter aliados com mente aberta e adaptável poderia fazer toda a diferença.

Os companheiros o seguiram sem dizer nada, movendo-se silenciosamente sobre a superfície da rocha alaranjada sobre a qual estavam.

A mulher se chamava Cristalin Oglave, mas gostava de ser chamada pelos apelidos “Cristal”, “Crista” ou “Cris”. Quanto maior o nível de intimidade que se tivesse com ela, menor era o diminutivo pelo qual você tinha a honra de poder chamá-la. Quem acabava de conhecê-la era relegado a usar os títulos “oficial” ou “tenente”. Por alguma razão, ela considerava que Delinger estava no nível máximo de intimidade com ela, podendo não só chamá-la do que quisesse, mas também reivindicar diversos outros privilégios. Ele não tinha muito interesse em estabelecer vínculos com ninguém no momento, mas tinha que admitir que ela era bastante tentadora. Na casa dos 40 anos, mas com o corpo muito forte e bem cuidado graças à rotina de treinamento militar, ela tinha a pele escurecida por anos e anos de trabalho ao ar livre, cabelos negros e sedosos, que mantinha muito curtos para não prejudicar seus movimentos, e olhos inteligentes, de um castanho bem escuro. Ela vestia um traje curioso, composto por uma camisa sem colarinho nem mangas, aliás, as mangas pareciam ter sido arrancadas, sabe-se lá se de propósito ou não. Usava também uma calça cortada pouco acima dos joelhos e um par de botas militares bastante gasto. O decote da camisa dela era profundo o suficiente para deixar antever a faixa de tecido com a qual ela envolvia os seios com várias voltas.

A característica mais interessante de Cristalin, no entanto, não era a aparência, mas sim suas habilidades de combate. Quando necessário, ela podia ser extremamente rápida e mortal. Ela levava uma pequena mochila nas costas, que Delinger sabia não conter apenas rações de emergência, pois ela nunca saía em missão sem carregar consigo diversos tipos de arma.

O outro homem era chamado Edizar, e era um daqueles que se orgulhava de ser chamado de “sábio”. Com quase 50 anos, devia ter, no mínimo, uns 30 de experiência dando aulas nas academias de Mesembria. Tinha pele pálida, cabelos castanhos curtos, desgrenhados e um pouco oleosos. Os olhos verdes eram um pouco pequenos demais para seu rosto, que no momento estava parcialmente coberto por uma máscara de tecido igual à de Cristalin. Usava trajes comuns às pessoas de sua profissão: manto longo de um tom marrom escuro e um chapéu pontudo da mesma cor, que ele provavelmente usava para evitar se queimar ao sair no sol. Era um profundo conhecedor de física e possuía grande afinidade energética, sendo capaz de conjurar efeitos místicos bastante poderosos. Carregava um bastão velho e retorcido que parecia mais com um emaranhado de cipós, mas que Delinger sabia ser muito poderoso nas mãos certas.

Dos três, Delinger era o que parecia mais desleixado, pois usava um de seus trajes de montaria mais velhos, que era bastante gasto e apresentava furos em diversas partes devido ao excesso de uso. Ele sabia que as chances de ter suas roupas completamente destruídas durante aquela missão eram bem grandes, por isso, nem valia a pena se preocupar com aparência.

– Estamos muito longe? – Edizar olhava ao redor, parecendo fascinado.

– Infelizmente, sim – respondeu Delinger. – O portal nos trouxe para uma região isolada das ilhas principais. Teremos que dar várias voltas e isso vai demorar um pouco. Lembrem de racionar a água. Duvido que algo daqui seja adequado ao consumo de vocês.

– Nem precisa falar duas vezes – comentou Cristalin, olhando para um buraco no chão ali perto, que estava cheio de um líquido viscoso e esverdeado de aspecto nojento. Para completar a cena, alguma coisa ainda parecia estar nadando no meio daquela gosma.

Depois de várias horas saltando de pedra em pedra, finalmente chegaram ao destino: uma rocha negra gigantesca coberta por todos os lados pelo que parecia ser uma floresta de árvores mortas. Numa determinada região, podia ser avistada uma clareira e uma espécie de altar feito com pedras polidas.

O cheiro ali era forte demais, obrigando Delinger a proteger o nariz e a boca com um pano, da mesma forma que os outros dois. Eles tinham muita sorte por seus sentidos não serem capazes de captar aquele odor.

Aproximaram-se com cuidado, atentos aos arredores, mas ali não parecia haver nenhuma alma viva a quilômetros, a única coisa que se ouvia era o uivar do vento soprando sobre as pedras que flutuavam acima deles.

Delinger parou diante do altar e olhou para Edizar. Se o homem realmente era tudo o que disseram dele, saberia o que fazer.

Encostando a ponta do curioso bastão no chão, o sábio encostou nele seu antebraço direito e fez alguns movimentos com o pulso.

– Tem bastante energia armazenada aqui – concluiu Edizar, olhando para Delinger. – Suficiente para exceder minhas escalas. Mas não há nenhum catalisador, e duvido que os materiais deste lugar possam reagir a essa frequência. Isso é um ponto de extração de energia, e construído por alguém do nosso mundo, ou que, pelo menos, usa uma faixa energética similar à nossa.

– Imagino que isso signifique “alvo confirmado” – disse Cristalin. – Como destruímos esse negócio?

– Não creio que seja possível – respondeu Delinger.

– Talvez até seja, mas está fora de cogitação, seria perigoso demais, tem tanta energia acumulada aqui que nem consigo medir – comentou Edizar. – Mas dá para selar.

– Selos não são permanentes – disse Delinger, balançando a cabeça. – Precisamos dispersar o fluxo.

– Dispersar? – Edizar fez uma careta, perplexo. – Como?

Delinger conhecia mais de uma forma de fazer aquilo, mas tratavam-se de habilidades naturais de seu povo e que os humanos não tinham. Ele pesava suas opções quando seus pensamentos foram interrompidos por uma súbita vibração no ar, captada por seus sentidos especiais.

– Tarde demais! Estão aqui. – Delinger arrancou o tecido que tinha amarrado sobre o nariz e a boca, fazendo uma careta por causa do cheiro forte. – Vou distraí-los. Vocês dois, achem uma forma de inutilizar esse altar. Ou fazemos isso, ou morremos tentando.

Cristalin se adiantou.

– Eu vou com você!

– Esqueça! Sua missão é proteger a ele – disse Delinger apontando para o sábio. – Vocês dois vieram aqui por uma razão, com a qual ainda não sei se concordo. Provem que eu estou errado.

Dito isso, Delinger se afastou, correndo numa velocidade inacreditável e executando um absurdo salto de mais de cinco metros de altura, girando no ar de forma a cair em pé sobre a rocha maior acima deles. Em seguida, continuou correndo até sumir de vista.

– Que bom ser valorizado – ironizou Edizar.

– Se ele não acreditasse em nós, não estaríamos aqui – respondeu ela, encarando o altar. – E agora, como faremos isso?

– Não sei como dispersar essa coisa. Mas conheço um tipo de selo que pode extrair energia da fonte e dissipar pelo ambiente com o passar do tempo.

– E levaria quanto tempo para dissipar tudo?

– Com essa quantidade de energia e os materiais que tenho comigo? Provavelmente uns 234 mil e 500 anos.

Cristalin olhou para cima e ouviu estanhos rugidos e sons de pedras se partindo.

– E como podemos reduzir esse tempo para menos de meia hora?

– Precisaríamos gerar vibrações harmônicas de Moriak para estabilizar um catalisador, depois teria que energizar um médium, mas dá para fazer isso direto da fonte com o catalisador funcionando. O médium precisaria ser envolvido por proteções de Rochald… não, Adelamont seria melhor. E então seria só invocar um selo épico. Mas não tenho como gerar as vibrações e nem…

– Que tal usar bastões de madeira envolvidos com antigliterase?

Edizar olhou para ela, surpreso.

– Para as vibrações harmônicas, você diz? Pode funcionar. Mas onde vamos encontrar isso?

– Deixa comigo!

Ela então saiu correndo na direção do buraco cheio de gosma verde mais próximo do qual se lembrava.

Vinte e sete minutos depois, Delinger retornou. Estava todo rasgado e coberto de sangue, apesar de não parecer ferido. Cristalin e Edizar apenas lançaram um rápido olhar a ele, antes de voltarem a se concentrar no que estavam fazendo.

Sobre o altar, havia uma flutuação energética formando um estranho caractere, como se alguém tivesse desenhado no ar com tinta dourada. Os dois humanos estavam fincando estacas de metal no chão, formando um semicírculo diante do altar. Para isso usavam porretes de madeira, que já estavam bastante danificados, o que fazia Delinger concluir que estavam envolvidos naquela atividade já há um bom tempo.

Sem falar nada, ele se moveu silenciosamente até a mochila de Cristalin que estava no chão em um canto e tirou dela um cantil. Então, com um gemido de dor, ele se sentou com as costas apoiadas em uma rocha e tomou um abençoado gole de água enquanto observava o trabalho dos humanos.

Depois de fincarem as últimas estacas, eles se afastaram vários passos antes de Edizar pegar seu cajado, que estava todo melecado com alguma substância azulada, e erguê-lo no ar, balançando-o algumas vezes. Imediatamente, colunas de energia quase transparente surgiram de cada uma das estacas, elevando-se a vários metros de altura. Então, o caractere dourado que pairava no ar brilhou um pouco mais e do altar brotou uma forte rajada do que parecia uma fumaça amarelada, que atingiu as colunas de energia e espalhou-se por todas as direções, dissipando-se aos poucos. No fim, as colunas de energia desapareceram e as estacas de metal tinham sido todas misteriosamente arrancadas do chão pedregoso, e estavam espalhadas por todo o lugar.

Recolhendo as estacas e as guardando dentro de um objeto pequeno, que deveria ser uma bolsa de fundo infinito, Cristalin perguntou:

– Terminamos?

Edizar encostou o bastão no chão e apoiou o antebraço nele, ignorando a gosma azul, enquanto fazia os gestos necessários para medir o fluxo de energia do altar.

– Sim – respondeu ele. – Ainda tem muita energia lá, mas a escala é exponencial decrescente, e já passamos muito do ponto médio. Daqui para frente precisaremos de um número absurdamente maior de tentativas de cada vez para conseguir o mesmo efeito. Em alguns dias, a runa dará conta do resto, se ninguém quebrar o selo antes.

– Bom trabalho – disse Delinger, tapando o cantil e deixando-o de lado. – Vocês erradicaram quase toda a energia dessa coisa, nem vou perguntar como, mas, bom trabalho!

– Obrigado – respondeu Edizar, tentando inutilmente limpar a gosma de sua manga.

Cristalin lançou um olhar crítico a Delinger.

– O que houve com você? Está ferido?

– Só no orgulho – respondeu ele, fechando os olhos por um instante.

Espero que esteja feliz onde quer que esteja, Norel, e que me perdoe por eu ter gasto todo o restante da essência que me concedeu dessa forma.

– Você parece acabado – comentou Edizar.

Delinger apenas soltou mais um suspiro cansado.

– Esse é o momento em que você deveria dizer algo como “é porque você não viu o outro cara” – disse Cristalin, lançando um olhar zombeteiro para Delinger.

Aquele comentário lhe soou extremamente mórbido, considerando que ele acabara de abreviar a existência de vários membros de sua tribo, e da forma mais violenta, mais extrema, que ele jamais imaginara a si próprio empregando. Mas não havia tempo e nem necessidade de discutir aquele assunto.

– Vamos embora – disse ele, levantando-se com dificuldade. – Mais deles podem aparecer a qualquer momento.

Cristalin observou o semblante fechado dele por um instante, antes de voltar ao trabalho de juntar suas coisas.

– Quanto antes, melhor.

– Vamos voltar por ali – disse Delinger, tomando a dianteira.

Enquanto saltavam de rocha em rocha, Cristalin perguntou:

– Então, quer dizer que salvamos o mundo?

– Não, mas eu diria que evitamos que Lassam fosse varrida do mapa – respondeu Delinger. – Pelo menos pelas próximas semanas. Não sei exatamente o que fariam com toda essa energia, mas a julgar pelas ameaças deles, seria algo bastante destrutivo.

– Esses seus conterrâneos possuem recursos perigosos – comentou Edizar.

– Sim – concordou Delinger. – E é por isso que vamos tirá-los deles.

♦ ♦ ♦

Cariele Asmund tinha saído com uma quantidade considerável de homens nos últimos dois anos. E, de certa forma, aquilo fora divertido e gratificante, além de muito educativo. No entanto, ela não se lembrava de nenhuma vez em que realmente tenha se sentido atraída por alguém antes do encontro. Ela sempre encarara sua vida amorosa como uma espécie de treinamento, necessário para saber satisfazer o cara ideal quando o encontrasse. Ela descobrira que boa parte dos homens, principalmente os que se encaixavam na maioria de seus requisitos, tinha o ego bastante sensível e por isso tinham tendência a ficar muito satisfeitos ao conseguir satisfazer sua parceira. Então, ao invés de simplesmente deixar o homem fazer o que quiser, ou de fazer o que ele quisesse, ela adotou a estratégia de sempre encontrar formas para que ambos pudessem relaxar e se divertir. Com isso acabara ganhando alguns bons amigos do sexo masculino. E também um número considerável de antagonistas, de ambos os sexos.

Mas o que a estava preocupando era o fato de, pela primeira vez, estar tentada a sair com alguém apenas porque queria. O barão da Alvorada nem mesmo se enquadrava em seus requisitos. Quer dizer, ele até que era rico, bem-apessoado, inteligente, forte, tinha bom senso, sabia lutar e… oh, droga! Em qual requisito ele não se encaixava mesmo? Ela tinha certeza de que existia uma meia dúzia de bons motivos para ficar longe dele, mas no momento não conseguia pensar em nenhum.

O mais enervante é que ela tinha um encontro marcado para hoje. E era com um dos melhores “candidatos” que ela tinha encontrado. O cara era gentil, amigável, divertido e… entediante. Droga de novo! Ela nunca nem pensara em usar qualquer coisa similar a “tédio” para descrever esse rapaz antes, mas agora o pensamento lhe vinha à mente automaticamente, como se seus padrões tivessem subitamente aumentado para um patamar absurdo.

Furiosa consigo mesma, Cariele terminou de enrolar uma toalha nos cabelos, envolveu o corpo com outra e deixou o banheiro do alojamento, andando descalça pelo corredor, cumprimentando com um sorriso duas garotas que passaram por ela. As duas a ignoraram, como sempre, mas isso não a afetava mais. Arrumara tanta briga por causa de suas paqueras que hoje em dia era desprezada por quase todas daquela fraternidade. De vez em quando ela se sentia um pouco solitária por causa disso, mas então se lembrava que estava quase atingindo seu objetivo e que logo nada daquilo iria mais importar.

Entrando no quarto, que parecia mais vazio do que nunca uma vez que Malena ficaria internada por mais alguns dias, ela fechou a porta e se aproximou do grande espelho na parede, olhando-se criticamente. Ela parecia saudável, mantivera o peso, sua pele estava perfeita, os cabelos também. Enfim, por fora parecia tudo igual, mas por dentro ela sentia que estava uma bagunça total. Então, suspirando, ela desenrolou os cabelos com cuidado e pegou o primeiro recipiente de uma porta de seu armário, se preparando para o tedioso e quase diário ritual de tratamento para manter aquela cabeleira apresentável.

Então voltou a olhar no espelho enquanto passava a mão por entre os cachos. E parou, petrificada, ao perceber que uma das vibrantes mechas simplesmente se soltou, escorregou por sua mão e caiu no chão, formando um pequeno monte prateado ao lado de seus pés.

♦ ♦ ♦

Daimar passou o primeiro dia da semana em casa, trabalhando em seu projeto particular. Ou, pelo menos, tentando. O pai tinha lhe entregado aquele maldito envelope, gerando mil e uma dúvidas na cabeça dele. Egil e Malena continuavam internados, em observação; aparentemente, algo estragado tinha caído no barril de cerveja do bar, e essa… mistura tinha reagido com a dolaneodiproma e causado um quadro crônico de intoxicação. Se fosse apenas um caso de sobredose, eles já estariam em casa agora. Cariele tinha feito um diagnóstico absolutamente perfeito.

Cariele.

Ela era a principal causa de sua dificuldade de concentração. O perfume dela continuava com ele o tempo todo. Aparentemente ele tinha conseguido superar o problema de insônia, pois dormira muito bem na noite anterior, mas a presença dela era uma constante em seus sentidos e pensamentos.

Depois de algumas perguntas a membros da fraternidade, ele descobrira que ela era muito mais popular do que ele imaginara. Entre os estudantes mais ricos e mais promissores da academia, ela parecia já ter namorado com todos. A garota era uma contradição ambulante. Parecia que, a cada vez que a encontrava, descobria coisas que o fazia mudar a concepção que tinha dela. E nada que ele vira até agora parecia combinar com aquela história de ela estar caçando um marido rico. Mas ela mesma não desmentira aquilo, então devia ser verdade.

Ele tinha que parar de pensar naquilo, pois sabia que não levava a nada, mas não conseguia impedir que seus pensamentos se voltassem na direção dela com uma frequência irritante.

De repente, algo na brisa vinda através da janela chamou sua atenção e ele estacou, tentando farejar melhor. Então, estreitando os olhos, deixou a pena de escrever de lado, levantou-se e saiu do quarto, descendo as escadas devagar e com cuidado.

O homem estava vestido com trajes amarrotados e usava um chapéu velho, de tecido, enfiado na sua cabeça a ponto de quase ocultar os olhos. Estava sentado em um banco do outro lado da rua, a uns 60 metros à direita. Dava mordidas ocasionais em um pedaço de carne seca, que ele mastigava um pouco e depois forçava garganta abaixo com goles de rum, que ele tomava direto do gargalo da garrafa. Parecia um mendigo.

Daimar apareceu do lado dele de repente, fazendo com que o homem tivesse um sobressalto, derrubando a garrafa com o resto da bebida no chão.

– O que está fazendo aqui?

Ao ouvir aquilo, o homem limpou a boca com a manga e levantou a cabeça para ele, revelando a pele albina e as sobrancelhas brancas.

– E o que isso lhe interessa?

– Você não tem o direito de me seguir fora da academia.

– E por que acha que estou te seguindo?

– E o que faz aqui, bem diante da porta da minha casa? E vestido desse jeito?

O monitor suspirou, levantando-se e recolhendo a garrafa.

– Certo, já que pareço estar incomodando, vou procurar outro lugar para fazer meu lanche. A propósito, você está com ótima aparência hoje. Que bom que não está mais perdendo o sono por causa de rabos de saia.

Dizendo isso, o homem saiu andando como se nada tivesse acontecido, tomando o último gole da garrafa e a arremessando dentro de um barril de lixo.

Daimar cerrou os punhos com força, mas permaneceu no lugar, observando o outro até que sumisse de vista.

Que raios significa isso? Como foi que ele ficou sabendo que tive problemas para dormir? O que está acontecendo aqui?!

♦ ♦ ♦

A julgar pelas sombras no teto e paredes do quarto, o sol já estava se pondo. Cariele estava encolhida na cama, onde passara as últimas horas, quando finalmente ouviu uma batida na porta.

– Quem é? – Quase não reconhecia aquela voz hesitante como a sua própria.

– Sou eu, menina! Abra logo essa porta, que coisa!

Reconhecendo a voz de Hadara, Cariele tratou de pular da cama e correu para destrancar a porta, antes de escancará-la, agarrar a velha senhora pelo pulso e puxá-la para dentro do quarto, trancando novamente a porta em seguida.

– Você está enlouquecendo, por acaso? O que deu em você?

Hadara era uma curandeira aposentada, que havia cuidado da família Asmund desde muito antes de Cariele ser concebida. Tratava-se de uma mulher no final da casa dos 40, com a pele branca levemente enrugada e marcada ocasionalmente por uma ou outra sarda. Tinha olhos castanhos inteligentes e cabelos castanhos encaracolados, que chegavam até os ombros. Usava um vestido azul simples, com mangas curtas e saia rodada longa de cor azul escura já um pouco desbotado devido ao longo tempo de uso. Trazia uma pequena maleta de couro em uma das mãos, onde normalmente carregava seus apetrechos e produtos de cura. Era uma das pouquíssimas pessoas que sabia a verdade sobre a aparência de Cariele e, nesse momento, a única em quem ela podia confiar.

Aflita, Cariele apontou um dedo hesitante para o pequeno monte de cabelo no chão.

– Olha aquilo!

– De onde saiu isso? – Hadara abaixou-se e pegou alguns fios, apertando-os entre os dedos. De repente, encarou Cariele, de olhos arregalados. – Não me diga que…

Cariele virou a cabeça de leve e levantou algumas mexas, deixando visível uma pequena região do couro cabeludo que estava limpa e lisa, como se fosse uma clareira em uma floresta.

– Oh, querida! – Hadara largou o cabelo no chão e puxou Cariele para si, num abraço apertado. – Estou certa de que há uma explicação. Não precisa assumir o pior, isso não vai fazer bem a você e nem a ninguém!

– Papai contou a você sobre os outros sintomas, não contou?

– Sim, sim, mas mesmo assim não podemos assumir nada antes de fazer alguns testes. Você tem que ir a um hospital.

– Não!

– Cariele!

– Não, tia! Não quero ir. Muita gente lá me conhece, se a notícia disso se espalhar, vou perder tudo o que consegui nesses últimos anos. Você não pode me pedir isso!

– Você estudou sobre isso, não estudou? Você sabe o que está em jogo aqui. Tenho certeza de que esses sintomas não são nada com o que se preocupar, mas você precisa ter a melhor assistência possível.

– Por favor, tia!

Não passou despercebida a Cariele a ironia da situação, pois no dia anterior uma amiga tinha lhe feito exatamente a mesma súplica e ela a ignorara completamente. E o fato de ela ter levado a amiga ao hospital à força salvara a vida dela. Mas, no momento, o medo e a frustração que sentia eram grandes demais para lhe permitir pensar com clareza.

Hadara suspirou.

– Tudo bem, que tal fazermos um acordo? Eu faço todos os exames que conseguir, e, se realmente não tiver nenhum sintoma grave, que é o que eu acho que vai acontecer, fazemos do seu jeito. Mas se eu encontrar qualquer leitura problemática, suspeita ou que eu não saiba interpretar, você vai direto para o hospital, sem reclamar. Pode ser?

Cariele acenou afirmativamente com a cabeça, aliviada.

– Ótimo. Agora, sente-se na cama. Ah, e antes que eu me esqueça, tome. – Hadara tirou um envelope de um bolso do vestido e estendeu para ela. – Uma moça mal-humorada pediu que eu entregasse a você.

Cariele pegou o envelope, curiosa, tirando de dentro dele uma carta escrita à mão que ela começou a ler enquanto Hadara colocava a maleta em cima da cama e a abria, imaginando por onde começaria os exames. Quando finalmente se decidiu por uma varinha de ponta brilhante, percebeu que Cariele tinha ficado muito quieta de repente e olhou para ela, ficando preocupada ao ver que a moça estava muito pálida.

– O que houve?

– Estou sendo expulsa. Estão me expulsando da fraternidade!

– Mas isso é um absurdo! Qual é a razão?

– Diz aqui que eu me envolvi com uso de entorpecentes!

– Oh! Pela Deusa!

Agora lágrimas escorriam pelo rosto de Cariele.

– E tudo porque eu ajudei uma amiga! O que elas queriam que eu fizesse? Que deixasse ela lá para morrer?! Aquelas malditas, melequentas, miseráveis! Elas nem fazem ideia de quantas vezes eu salvei o traseiro de todas elas!

Hadara voltou a abraçar Cariele.

– Calma, minha filha! Calma!

– Você não conhece essas vadias! Elas adoram aumentar histórias! Vão inventar um monte de coisa, vão fazer de tudo para acabar comigo, e por pura diversão!

– Nesse caso, é uma boa coisa você se desassociar delas, não? Qual a razão para permanecer num lugar onde não te respeitam?

– Não sei, tia, eu não sei mais!

♦ ♦ ♦

No dia seguinte, quando um funcionário de cara sonolenta chegou para abrir a porta da sala da equipe de supervisão da academia, topou com Daimar, aguardando impacientemente do lado de fora. O homem o cumprimentou com um “bom dia” desanimado e destrancou a porta, entrando e escancarando as janelas antes de se sentar atrás de uma mesa e lançar um olhar desanimado ao garoto, que também havia entrado e parado no meio da sala, de onde o encarava.

– Qual o problema, barão?

O título de “barão” não tinha valor em nenhum outro lugar além da fraternidade, mas as pessoas, por alguma razão, gostavam de chamá-lo daquela forma. Talvez fosse apenas para mostrar que sabiam quem ele era.

– Quero fazer uma queixa contra um dos monitores.

O supervisor levou a mão à testa e a massageou por um instante, antes de sacudir a cabeça, aparentemente tentando afugentar o sono.

– E qual é a queixa?

– Ele anda me seguindo pela cidade, fora dos limites da academia.

– E por que ele faria isso?

– É o que eu gostaria de saber. A propósito, não vai me perguntar de qual monitor estou falando?

– Não. Eu sei quem é.

Daimar estreitou os olhos.

– É mesmo?

– Sim. Vou ser bem claro com você, filho, tem muitos figurões preocupados com você.

– Mas por quê? O que eu fiz para atrair tanta atenção?

– Não estou autorizado a dizer.

– Isso é algum tipo de brincadeira?

– Não, garoto. – O homem o encarou. – Posso garantir a você que isso é muito sério. Faça um favor a si mesmo e finja que não tem uma sombra seguindo você. Vai ser melhor para todo mundo.

Daimar bufou e virou-se, saindo intempestivamente pela porta.

Por que seu pai tinha que ter saído de viagem logo agora? Bem, de qualquer forma, ele tinha certeza de que, quando voltasse, não ficaria nada satisfeito por estarem tratando o filho dele dessa forma.

♦ ♦ ♦

Depois de um dia cansativo, com muitas aulas teóricas e práticas, principalmente de matemática, Daimar não estava se sentindo particularmente sociável. O fato de ter que encarar sabe-se lá quantas horas a mais de aulas complementares não ajudava a melhorar seu humor.

Durante o dia ele chegara a fantasiar algumas vezes como seria ter aulas na mesma turma que Cariele, de estudar junto com ela, de serem colegas, mas depois se lembrou de que aquele albino infeliz só começou a segui-lo daquela forma depois que Daimar a conhecera. E, pelo que pudera perceber, ela também tinha uma monitora a vigiando o tempo todo, então era bem provável que ela fosse o foco daquele problema.

Daimar não conseguia entendê-la, não fazia ideia do que pensar sobre ela. Mas isso, infelizmente, não era suficiente para impedir seu coração de se acelerar estupidamente ao senti-la se aproximar, como agora.

No corredor, há dezenas de metros de distância, Agneta observava a aproximação de Cariele, com sua usual animação.

– Cari! Adorei o visual. Nunca tinha visto você cobrir a cabeça antes! – Agneta sacudia a cabeça enfaticamente em aprovação ao lenço branco com estampa floral que Cariele tinha amarrado em forma de faixa, deixando apenas a franja e a parte de trás da cabeça descobertas.

– Oi, Gê – Cariele cumprimentou a amiga, sem muito entusiasmo, enquanto continuava caminhando devagar na direção da sala onde teriam a primeira aula complementar da semana. Pela primeira vez, ela sentiu-se feliz por sua amiga ser tão relapsa nos estudos. Já que seria forçada a ter aulas que não precisava, ao menos não ficaria sozinha em meio a seus novos colegas, que ela sabia serem compostos em boa parte por preguiçosos e delinquentes.

– Uau, você parece péssima, amiga! Que baixo astral é esse? O que está rolando?

– Estou pensando para onde eu vou agora. As hortênsias não me querem mais.

– Como é? As vadias da sua fraternidade estão te chutando?

– Sim.

– Que barraco! Mas por quê? Andou batendo boca com elas de novo?

Cariele olhou para a amiga com expressão irônica.

– Vai dizer que você não ouviu nada sobre o que aconteceu no fim de semana?

– Quer dizer, o fato de você ter me passado a perna e conseguido um encontro com o meu príncipe antes de mim? Sim, eu fiquei sabendo, sua traidora!

Meio contra a vontade, Cariele acabou rindo.

– Me disseram que vocês fizeram uma festinha e tanto e que rolou de tudo, e que o outro casal foi parar no hospital. Achei essa história estranha, quer dizer, você fazendo festinha já virou tradição, mas a parte do pó de estrela me pareceu forçada. Espera aí! Vai dizer que aquelas hienas estão te chutando por causa de um boato infundado?

Cariele suspirou, aliviada e feliz por ter a confiança incondicional da amiga.

– Ao que parece, sim.

– Que vadias! Quer saber? Acho que isso é a melhor coisa que te aconteceu! Se agem desse jeito, é porque não são suas amigas de verdade. Você merece coisa muito melhor! – Agneta fez um biquinho, que, na opinião de Cariele, era muito fofo.

– Eu te amo, Gê. Já te disse isso?

– Sim, mas pode repetir à vontade, não me importo. Ah! Tive uma ideia! Vem cá, vem cá! – Muito excitada de repente, Agneta puxou Cariele para um caminho que levava a um jardim, um pouco afastado do corredor principal.

Cariele riu de novo enquanto era arrastada pelo braço.

– O que é isso, sua maluca? Está me sequestrando por quê?

– Psiu! Fale baixo! Escute, você realmente saiu com o príncipe?

– Você quer dizer o barão? Não acho que aquilo possa contar como um encontro. No final, tivemos uma briga e quase acabamos saindo no tapa.

Bem, tinha sido um pouco mais violento do que aquilo, mas Agneta não precisava saber, precisava?

– Melhor ainda, quer dizer que você causou uma impressão forte nele.

– Sim, uma impressão fortemente negativa.

– Detalhes, detalhes. Escuta só, tive uma ideia que pode resolver o seu problema e ainda me aproximar do meu príncipe. Ah, eu sou um gênio!

– Agneta, o que você…

– Não! Psiu! Fale baixo! Que tal eu e você entrarmos para a fraternidade Alvorada?

– Quê? Do que está falando? A Alvorada é uma república masculina!

– Sim, mas o barão tem poder para mudar isso, não tem?

– Eu sei lá! Que conversa é essa, Agneta?

– Pense bem! Todo mundo está comentando sobre um suposto caso entre vocês dois. Se acharem que as coisas entre vocês são sérias, logo vão perder o interesse. E pronto! Você tem uma fraternidade nova, cheia de ricaços dando sopa, eu saio da minha e vou com você para fazer companhia e ainda de bônus fico coladinha no meu príncipe.

– Isso é ridículo! E acha que ele vai querer enfrentar a burocracia de mudar as regras da fraternidade apenas para aceitar nós duas como membros?

– É mesmo, não é? E se convidarmos mais algumas amigas para irem conosco?

– Gê, eu acho é que essa ideia já está indo longe demais…

– Deixa comigo, deixa comigo! E quanto à sua colega de quarto? O queridinho dela é da Alvorada também, não é?

– Os dois ainda estão no hospital. Acho que saem de lá amanhã.

– Ela estava envolvida nessa história de pó de estrela, não estava? Acha que as hortênsias vão encrencar com ela também?

– Não sei – respondeu Cariele, pensativa. Estava tão preocupada com os próprios problemas que nem considerara a possibilidade de a amiga ser expulsa, assim como ela. – Talvez.

– Certo, amanhã você fala com ela e a convida para vir com a gente. Eu vou falar com mais algumas amigas nossas. Acho que podemos juntar um bom grupo, só com garotas do nosso nível. Vai ver só, o barão não vai ter como nos recusar!

Minutos depois, Cariele entrou na sala, ainda atordoada com o mais recente plano maluco de Agneta. Era óbvio que aquilo não ia dar em nada, tudo o que ela podia fazer era esperar até que a amiga recobrasse o bom senso. Ela começava a se perguntar até onde Agneta teria coragem de ir com aquela maluquice quando seus olhos foram atraídos para o fundo da sala e então ela se esqueceu do que estava pensando, a mente ficando completamente em branco por um momento.

A aula de hoje, obviamente era prática, pois não havia uma única mesa ou cadeira no local. As paredes também estavam cobertas com cortinas protetoras, do tipo que servia para neutralizar energias místicas de determinada frequência, geralmente usadas para impedir que os atos impensados de algum desastrado causassem danos às dependências da academia.

Mas o que realmente chamou a atenção de Cariele foi o barão, recostado na parede dos fundos, tendo uma conversa descontraída com alguns outros estudantes. A cabeça dele se voltou na direção dela assim que ela entrou, como se ele estivesse esperando por ela. E aquele pensamento enviou-lhe uma onda de calor por todo o corpo, antes de encher seu estômago de borboletas.

Ele estava tão lindo quanto antes, o uniforme da academia lhe caía muito bem. Hoje, no entanto, ele não parecia tão tranquilo como de costume, algo na postura dele a alertava de que alguma coisa o estava incomodando. Será que os boatos sobre o fim de semana estavam causando problemas a ele também?

Então ele levantou a cabeça quase imperceptivelmente enquanto as narinas se moviam também de forma bem discreta. Aquilo foi suficiente para trazer um rubor incontrolável ao rosto dela, que tratou de desviar o olhar e se dirigir ao outro lado da sala, tentando evitar novo contato visual com ele.

Agneta adentrou a sala praticamente junto com a instrutora e correu para ficar do lado de Cariele, lançando a ela um sorriso conspiratório. Ah, não, será que ela ainda estava considerando seguir em frente com aquela ideia maluca?

– Boa tarde a todos – disse a instrutora, fazendo um sinal para que um dos estudantes fechasse e selasse a porta com a cortina especial, o que fez parecer que estavam presos numa grande caixa com paredes de pano decoradas com desenhos de formas geométricas aparentemente aleatórias. Ao chegar ao centro da sala, a instrutora colocou no chão uma sacola que estava carregando e olhou ao redor. – Antes de mais nada, vou me apresentar. Meu nome é tenente Cristalin Oglave. Podem me chamar de “tenente” ou de “oficial”, por favor. Tenho formação militar, estando na ativa há mais de 20 anos e tendo me formado instrutora há 15. No momento, sou a única militar no corpo docente da academia de Lassam, ou, pelo menos, a única que continua na ativa. Prazer em conhecer a todos, espero que tenhamos um ótimo período juntos.

Cariele estreitou os olhos. Nos dois anos em que estudou na Academia, nunca havia topado com a tenente, ou com qualquer outro militar. Primeiro, a monitora a vigiando, agora isso. Estaria apenas sendo paranoica, ou tinha algo estranho acontecendo ali?

Daimar, por sua vez, perguntava-se se havia alguma ligação entre Cariele e aquela instrutora. Se a garota fosse militar, como ele imaginava, as duas deviam se conhecer, não? Mas não houve nenhum olhar, nenhum cumprimento, nada que pudesse corroborar aquela teoria.

– Certo, estamos em treze aqui, não é? – A instrutora tirou um pequeno cubo de vidro brilhante de dentro de sua sacola e ergueu para todos verem. – Vocês sabem o que é isto?

A reação dos estudantes, no entanto, pareceu não ser o que ela esperava. Ela franziu o cenho para os murmúrios de incredulidade e confusão.

– Não? Como assim, “não”? – Ela apontou para Agneta. – Você! Alguns de seus colegas parecem não estar familiarizados com esse tipo de instrumento. Poderia, por favor, nos elucidar?

Agneta abriu e fechou a boca várias vezes, totalmente confusa. Quase que sem perceber o que estava fazendo, Cariele ergueu a mão, chamando a atenção de Cristalin.

– Sim?

– É um simulacro.

A instrutora levantou a sobrancelha.

– Só isso? Poderia ser um pouco mais específica?

Droga. A intenção era apenas desviar a atenção da instrutora da amiga, não atrair a atenção de todos para si. Cariele baixou a cabeça e tentou falar num tom hesitante.

– Funciona como um tipo de… depósito de energia. Permite que pessoas com pouca ou nenhuma aptidão para conjuração consigam criar flutuações místicas.

– Muito bem. – A instrutora voltou a encarar Agneta. – Como sua colega disse, este item aqui permite que qualquer um consiga manipular energias místicas. Ou, como se dizia alguns séculos atrás… “soltar magia”.

A maior parte dos estudantes riu daquele termo antiquado.

– No entanto, para que alguém consiga utilizar o poder de um simulacro, é necessário um domínio muito bom em matemática. Não precisa ser nenhum gênio, mas saber fazer contas de cabeça e resolver questões simples de trigonometria multidimensional é essencial. Vamos lá, tenho aqui um cubo desses para cada um de vocês, além de algumas peças de madeira de formas e pesos diferentes. Aqueles entre vocês que conseguirem fazer levitar pelo menos três dessas peças de madeira até a altura do próprio olho e depois depositar a peça suavemente no chão usando apenas a energia do simulacro estará dispensado por hoje. E, para os que têm afinidade mística natural, eu já vou avisando: estou avaliando habilidades matemáticas aqui, e não o nível de poder de ninguém. Vocês vão usar a energia do simulacro, e apenas ela, para calcular o peso e o centro de gravidade do objeto, calcular a intensidade necessária de fluxo para iniciar o movimento inicial e liberar a energia aos poucos usando a sua própria geometria corporal. Examinei a ficha de cada um de vocês e sei que todos passaram nas disciplinas básicas de física que explicam o fenômeno da levitação, bem como o papel que os fluxos de energia desempenham nisso. Vamos colocar em prática o que aprenderam.

Cariele estudou o simulacro que recebeu com interesse. Tratava-se de um artefato de altíssima qualidade, muito bem construído e com uma quantidade considerável de energia armazenada nele. Se usado corretamente, provavelmente seria capaz de abastecer uma casa, trazendo água do fundo de um poço até a superfície, ou até uma caixa d’água por uma semana ou mais, antes de precisar ser recarregado. Devia valer uma pequena fortuna.

Levantando os olhos, ela percebeu que a maioria dos estudantes parecia nunca ter visto um objeto como aquele, incluindo Agneta e também, para sua surpresa, Daimar Gretel. O barão parecia bastante inseguro, olhando para o brilho azulado do cubo em sua mão como se o objeto fosse atacá-lo a qualquer momento.

Dizendo a si mesma que não se importava com ele, Cariele sacudiu a cabeça e virou-se para a amiga. Vendo que a instrutora olhava para o outro lado, chamou a atenção de Agneta silenciosamente e sussurrou algumas instruções, esperando que a outra lembrasse de algo do ano inteiro que ficou estudando física elementar devido ao fato de ter repetido a disciplina por três vezes.

Cinco estudantes conseguiram passar no teste imediatamente, sendo devidamente elogiados e enxotados da sala pela instrutora. Cariele fingiu que estava tendo dificuldades com seu próprio cubo, enquanto tentava discretamente ajudar a amiga. Não que fosse uma tarefa fácil ensinar matemática para alguém através de gestos e sem a instrutora perceber, mas felizmente Agneta estava se lembrando do básico, e com alguns empurrões na direção certa, ela logo conseguiu pegar o jeito da coisa.

– Muito bem, caia fora daqui! –  disse a instrutora, empurrando Agneta para a porta quando ela finalmente conseguiu passar no teste.

Nesse momento, quase todos os estudantes já tinham conseguido terminar o desafio. Restavam apenas Daimar e mais dois rapazes na sala, além de Cariele. De repente, a voz irritada da instrutora atraiu a atenção de todos.

– Daimar Gretel! Eu já disse a você, nunca vai conseguir resolver esse problema por tentativa e erro. Eu sei que você conhece o básico, então que tal usá-lo para variar? – A instrutora apontou para Cariele. – Ei, você! Veja se consegue ensinar alguma coisa para esse tapado. E vocês dois aí, de volta ao trabalho! E se jogarem de novo esse negócio no teto eu prometo que faço o mesmo com a carcaça de vocês, seus inúteis!

Cariele e Daimar se entreolharam.

Ignorando os arrepios que o olhar dele lhe causou, ela percebeu que ele realmente parecia ter problemas com a disciplina e não estava fazendo corpo mole ou coisa do gênero. Ela se aproximou dele.

– Me mostre como está tentando fazer para eu ver se posso ajudar em algo –  disse ela, com voz baixa.

Daimar estava com uma recusa na ponta da língua. Não queria a ajuda de ninguém, especialmente a dela. Mas a forma como ela falou lhe pareceu tão sincera e sem afetação que ele simplesmente não conseguiu recusar. Como, raios, uma pessoa conseguia ter tantas nuances diferentes na própria personalidade? Tentar entendê-la parecia inútil, então ele simplesmente fez o que ela pediu para acabarem logo com aquilo.

– Concentre-se no seu osso esterno –  disse ela, depois que ele falhou em uma nova tentativa de levitar o objeto. – Acumule energia ali e depois tente criar um fluxo espiral no centro de gravidade da madeira.

Ele não tinha a mínima ideia do que o seu osso esterno tinha a ver com aquilo, mas fez o que ela falou e, para sua surpresa, conseguiu levitar a madeira a uns dois palmos de altura antes de derrubá-la de novo.

Ele parecia muito surpreso por ter conseguido aquela proeza.

– Como? Não entendo.

– Geometria, barão. Massa, centro de gravidade, altura, largura, profundidade e frequência. A fórmula de Barcelas vai te mostrar o melhor ponto para concentrar a energia. Mas esse ponto só vai servir para essa peça, para fazer com outra tem que refazer o cálculo.

– Odeio matemática – disse ele, frustrado.

– Apenas porque ainda não aprendeu a usar. Tente de novo com outra peça, vai ser mais simples agora.

Todos os estudantes já tinham ido embora quando Daimar finalmente conseguiu passar no teste, depois de Cariele passar um bom tempo trabalhando com ele. A disposição dela para ajudá-lo surpreendeu a ela mesma. Era o mesmo fenômeno que tinha ocorrido quando encontrara Malena desacordada. Como se a presença dele a compelisse a tentar ajudar outras pessoas, esquecendo momentaneamente de seus próprios desejos.

A instrutora bateu palmas quando Daimar fez a última peça de madeira pousar delicadamente no chão.

– Muito bem, garoto. E você, moça, daria uma excelente instrutora, sabia? A forma como conseguiu ajudar sua amiga apenas por gestos foi genial.

– Hã… eu… –  gaguejou Cariele.

– Achou que eu não estava percebendo, não é?

– Eu… a senhora não vai querer que eu faça o teste?

– Não vou perder meu tempo. Você conseguiu fazer dois cabeças duras passarem nesse teste quando eu mesma tenho dúvidas se conseguiria enfiar as fórmulas na cabeça deles. Caiam fora daqui os dois. Amanhã vamos começar com a parte realmente difícil desse curso complementar, então venham preparados.

Já estava escuro quando ambos desceram a escadaria principal. Caminhavam lado a lado num silêncio confortável, até que Daimar parou e se virou para ela.

– Escute… eu… queria agradecer pela ajuda.

Ela se virou para ele e se sentiu mergulhar naquele olhar.

– Não quero agradecimentos.

– Bem, nesse caso, se tiver algo que eu possa fazer para retribuir…

Cariele nunca se sentiu tão impulsiva na vida quanto naquele momento.

– Sim, tem uma coisa. Me deixe entrar para a sua fraternidade.

— Fim do capítulo 4 —
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