Carmim – Capítulo 1

Publicado em 12/05/2019
< Dedicatória Sumário 2. Rotina >

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1. Fúria

A guerra é uma coisa horrível. Suja, brutal, desumana. Nela, nada importa além de derrotar seus oponentes, e isso sempre envolve morte e destruição.

No entanto, por mais que não goste dela, Sulana Lautine não consegue evitá-la. É algo visceral, profundamente enraizado dentro dela, uma necessidade absoluta, algo que não há como evitar.

Sua vida tem sido uma longa série de batalhas, uma atrás da outra. Por mais que lute, parece que nunca é suficiente. Vitória ou derrota não significam nada. Apenas o calor, o frenesi da batalha podem saciar sua sede. Sede essa que fez com que perdesse tudo. Não há mais alegria ou tristeza. Até mesmo a raiva por ter nascido assim já se esvaiu há muito tempo.

Bem como a esperança de que as coisas algum dia possam vir a mudar.

Neste momento, os soldados do Exército Vermelho conseguiram invadir a fortaleza que Sulana e seus aliados estão defendendo. Por fim, ela se vê encurralada dentro do salão principal, onde inimigos continuam aparecendo, não importa quantos deles ela derrote.

Sua oponente no momento é uma mulher jovem, que não deve ter nem vinte anos, mas seu rosto já está marcado por inúmeras batalhas. Por um momento, um pensamento se infiltra na névoa vermelha que parece envolver sua mente devido ao frenesi da batalha.

Ela deve ter levado uma vida dura, assim como eu.

Surpresa e um pouco irritada consigo mesma pela súbita empatia que sentiu pela moça, Sulana se força a voltar a se concentrar.

Infelizmente, apenas uma de nós sairá daqui viva.

Com sua incrível agilidade, Sulana se esquiva facilmente do ataque da moça e, sem piedade, golpeia-lhe o plexo solar com toda a sua força.

O peitoral metálico da armadura dela é afundado de forma assustadora. Sem nenhum escudo místico que pudesse protegê-lo, o corpo da adversária recebe todo o impacto e ela cai no chão, seu corpo se convulsionando por alguns instantes, até se aquietar.

Feliz ou infelizmente, no meio de uma guerra, um único oponente caído não significa muito. Sempre aparece outro e mais outro, numa sequência infindável. A única forma de manter a sanidade é não enxergar seus oponentes como pessoas, mas sim como monstros, criaturas sem personalidade, caráter ou humanidade. Esse tipo de distanciamento, de desumanização, é algo que Sulana consegue com impressionante facilidade. Ainda mais quando tomada pela febre da batalha, como agora.

Olhando para a porta do salão, ela nota dois outros soldados correndo em sua direção, aparentemente dispostos a vingar sua companheira caída. Eles soltam gritos de guerra e avançam, brandindo suas lanças de aparência mortal.

Sem se abalar, Sulana levanta ambos os braços, seus punhos misticamente impenetráveis defletindo para cima as pontas das lanças. Surpresos, os soldados lutam para recuperar o equilíbrio e segurar as armas para impedir que saíssem voando de suas mãos.

Sulana então aproveita para efetuar um movimento de arrancada, alcançando um deles com duas passadas largas e atingindo seu peito com um fulminante golpe de cotovelo.

O corpo do homem já não tinha mais vida muito antes de atingir o chão.

O outro soldado se recupera e tenta voltar ao ataque, mas Sulana é mais rápida. Abaixando-se, ela se esquiva por baixo da ponta da lança enquanto projeta uma das pernas para a frente, conseguindo atingir o pé de apoio do soldado, fazendo com que ele desabe no chão.

Antes que o infeliz possa esboçar qualquer reação, seu punho o atinge de forma implacável no pescoço, encerrando, definitivamente, a batalha. Para ele, pelo menos.

Respirando pesadamente, Sulana olha ao redor, tentando identificar qual seria sua próxima vítima. Então pisca, confusa, ao perceber que não há mais ninguém vindo em sua direção. Tudo o que vê são mais de uma dezena de corpos espalhados pelo chão de pedra.

Não sentindo mais nenhuma hostilidade vindo de parte alguma, ela respira fundo e tenta se acalmar, de forma a poder voltar a raciocinar com clareza.

Quanto menos tempo passa sob o efeito da febre, mais rápido consegue se controlar, e essa luta foi muito mais breve do que o de costume. Mesmo assim, levou vários instantes até ela finalmente conseguir identificar seu companheiro num canto, sob as janelas.

Ele está sentado no chão, com as costas apoiadas na parede, pressionando um pedaço de tecido sobre o flanco direito. A julgar pelo volume do sangramento, parece ser um ferimento bastante grave. Ele olha para ela, entre temeroso e impressionado.

Levantando uma das mãos com um pouco de dificuldade, ele fez um aceno desajeitado.

– Oi? Sou eu, Ronam, lembra?

Sulana estava acostumada a ver outras pessoas com medo dela. Com sua pele bronzeada, seus cabelos loiros desalinhados ameaçando escapar do rabo de cavalo na nuca, seu corpo grande, cujos músculos fortes podiam ser vistos através das fendas e rasgões dos trajes surrados e encardidos que usava, e aqueles olhos negros, que ainda não tinham perdido completamente o brilho selvagem e avermelhado causado pela febre, era difícil alguém olhar para ela e não se sentir intimidado.

– Claro que sim – responde ela. – Tudo bem aí?

Ronam Tonise é nativo de Halias, apresentando os característicos olhos castanhos pequenos e levemente repuxados nos cantos. A pele dele apresenta uma coloração mais pálida do que as pessoas desta região, e seus cabelos pretos e lisos também se destacam entre os nativos. Devia estar próximo dos 30 anos, e é um dos principais membros da Resistência. Sem Ronam por ali para anular as defesas místicas dos vermelhos, seria praticamente impossível derrotar qualquer um deles com um único golpe, mesmo com toda a força que a fúria lhe concedia.

– Vou sobreviver, eu acho – ele força um sorriso. – Mas obrigado por perguntar. Sabe, por um momento, você me deixou preocupado ali.

– Por quê?

– “Por quê”?! – Ele tenta rir, mas é impedido por um ataque de tosse. Depois de se recuperar, ele dá um meio sorriso. – Ver um mulherão, cheio de músculos e com olhos vermelhos brilhantes derrubando soldados profissionais como se não fossem nada, e usando apenas as mãos nuas? Acha que isso é algo que se vê todo dia?

– Quantas batalhas já lutamos juntos?

– Duvido que algum dia vá me acostumar com isso.

– Não foi você quem disse uma vez que não tinha medo de nada?

– É… me pegou nessa. Mas sabe que eu sempre vou confiar em você.

Sulana levanta a cabeça e olha ao redor, estranhando a ausência de ruídos de combate.

– O que houve? Não estou gostando desse silêncio.

– Simples: a batalha acabou. Esses aí eram os últimos.

– Não pode ser! Eu estava esperando muito mais do que isso!

Ronam engole em seco e faz uma careta de dor.

– Ugh! Bom, eu estou contente que tenha acabado.

Sulana olha para ele sem saber direito o que fazer. O mero pensamento de tratar os ferimentos de outra pessoa lhe dá calafrios.

– Espere aí, vou procurar alguém.

Ela sai do salão e atravessa um longo corredor, saltando sobre os corpos caídos. Os raios do sol do fim da tarde entram pela porta da velha fortaleza, destruída pelo ataque, iluminando os vestígios da batalha: sangue e destruição.

Não havia soldados vermelhos à vista, o que era estranho. O exército do usurpador era gigantesco. Se houvesse um confronto direto entre a totalidade das forças deles e da resistência, Sulana duvidava que seus aliados tivessem a menor chance. Por sorte, os soldados vermelhos tinham que proteger as cidades que dominavam, então nunca atacavam com força total. Mas o Exército Carmim, como era conhecido devido à cor vermelho escura dos uniformes, nunca demorava muito antes de escravizar as pessoas das cidades dominadas, aumentando suas fileiras.

O líder daquele exército, que tinha se declarado governante da província, era frio e calculista, um demônio sem alma, que não se importava com nada além do poder. Apesar disso, ele era muito astuto. Não era possível que todo o contingente inimigo que Sulana vira antes do início da batalha tivesse sido derrotado, pelo menos não tão rápido.

O general deve ter chamado suas tropas de volta. Mas por quê?

Neste momento, uma voz vinda de um dos corredores adjacentes lhe chama a atenção.

– Sulana!

Giarle Miliens, um dos chamados “coronéis da resistência” vem correndo em sua direção. Ele tem cabelos loiros curtos e arrepiados, um rosto angular e um nariz que parece ter sido quebrado pelo menos duas vezes. Apesar de ter um ótimo condicionamento físico, ele é muito magro, quase sumindo dentro daquele uniforme militar que ele tanto gosta, e que pertencera a um império que não mais existia. Um casal de membros da resistência vinha logo atrás dele.

– Aí está você. Tudo bem? Está ferida?

– Ronam está no salão principal e precisa de ajuda.

Sem hesitar, o casal de rebeldes sai em disparada na direção indicada. Sulana então solta um suspiro e arquea as costas, num alongamento desajeitado, na tentativa de aliviar um pouco os músculos que ainda latejavam, desejosos por mais ação.

– Estou contente por estar tudo bem com você – diz Giarle. – Fiquei preocupado quando não a vi junto com os outros.

– Fomos separados durante a batalha. Corremos para aquele salão porque seria o melhor lugar para Ronam usar os poderes dele e me dar uma vantagem na luta.

Giarle assente, pensativo. Parece não saber muito bem o que dizer.

– E então? Nós vencemos? – Sulana pergunta.

– Não, não vencemos – responde ele, num tom desanimado.

– Como assim?

– Fomos enganados. A tropa que nos atacou não era tão numerosa quando nos fizeram acreditar.

– Mas avistamos um exército enorme lá das muralhas!

– Usaram algum tipo de subterfúgio, ilusão, sei lá. O fato é que, enquanto enfrentávamos esses gatos pingados, o resto da tropa vermelha tomou Mercília.

– Não!

– Sim. Temos que sair daqui. Vamos recuar para o leste.

– Mas como podem ter chegado à cidade? Não teriam que passar por nós para isso?

– Não sabemos, mas isso foi um desastre. Não temos mais mantimentos e nem equipamentos de reserva. Mercília agora é deles, assim como tudo o que deixamos lá.

– O que faremos agora?

– Vamos recuar. Tomaremos o caminho leste e depois vamos nos separar. Quero que aguarde no abrigo, assim que possível, entraremos em contato com você.

– Muito bem.

Sulana nota alguma coisa estranha na expressão dele.

– Você… está bem?

Ele fecha os olhos e solta um longo suspiro, antes de voltar a encará-la, com um sorriso.

– Apenas cansado. Não se preocupe. Vá para junto dos outros. Encontraremos vocês lá fora.

Assentindo, ela observa enquanto ele caminha na direção do salão. Então ela solta um suspiro enquanto alonga novamente os músculos, percebendo que está bem mais cansada do que imaginava.

Então, sua audição aguçada capta a voz de Giarle vindo do final do corredor. Ele está conversando com os outros rebeldes.

Parece que falam sobre mim.

Curiosa, Sulana se esgueira pelo corredor devagar, se aproximando da entrada do salão e cola as costas à parede, ao lado da porta. As vozes de seus aliados chegam altas e claras até ela.

– Ela fez tudo isso sozinha?! – Giarle exclama, surpreso.

– Foi tudo tão rápido que mal consegui acompanhar – é a resposta de Ronam. – Depois que eu quebrei a fase dos escudos deles, todos vieram para cima de mim achando que eu era a ameaça maior. Só perceberam a burrada que fizeram quando começaram a cair um a um. Do jeito que ela se move rápido, eles mal conseguiam vê-la antes de partir para o além.

– Ela devia ter protegido você – diz um dos rebeldes, com indignação na voz.

– Onze, doze… tem treze corpos aqui – diz Giarle. – Todos soldados Carmim. Dois contra treze. Seria impossível vencer uma batalha como essa sem receber alguns golpes. Eu diria que os dois se viraram muito bem.

O rebelde não pareceu nada convencido.

– Essa mulher é um perigo! Olha para esses corpos! Isso é coisa que se faça a um ser humano?

– Não se esqueça que esse pessoal faria a mesma coisa conosco, se tivessem oportunidade – responde Giarle. – Também não me parece que ela tenha exagerado. Repare que aquela coitada ali tomou um único golpe. Com uma desvantagem numérica dessas e tendo a força que Sulana tem, você provavelmente faria um estrago igual ou pior que esse. Ela é resistente, mas não invulnerável. Se hesitar numa batalha como essa, você morre.

O rebelde solta um grunhido de desagrado.

– Por que está defendendo a mulher? Você está dormindo com ela, por acaso?

O salão fica em silêncio por alguns instantes.

– E se estiver? Que diferença faz?

Sulana arregala os olhos, surpresa. A hostilidade dos rebeldes ela entende perfeitamente, pois vem lidando com o medo e o ódio das pessoas desde a infância. Só é difícil de entender por que alguém como Giarle se daria ao trabalho de defendê-la. E insinuando que poderia estar tendo um relacionamento com ela, ainda por cima.

Uma sensação quente surge em seu peito por um momento. Já faz tanto tempo, que ela nem se lembra direito da última vez em que sentiu algo assim.

Confusa com aquilo tudo, Sulana trata de se afastar dali o mais rápido possível. Estava quase chegando na entrada principal quando estaca de repente, sentindo uma presença atrás de si.

Ela se vira e é surpreendida por um por um rosto masculino bastante familiar, cujos olhos turquesa a encaram com interesse enquanto a segurava pelo ombro com gentileza enquanto levava um dedo aos lábios, pedindo silêncio.

Então, de forma completamente involuntária, a febre da batalha toma conta dela. Agarrando o homem pela parte da frente do manto que usava, ela o lança com violência contra uma porta.

Ele solta uma exclamação de surpresa e ela percebe que alguma coisa o protegeu do impacto. Ele deve ter um escudo místico ao redor do corpo.

– Sulana! Sou eu!

Sem se importar com o que quer que seja que ele está dizendo, ela se lança contra ele, atingindo-lhe no peito com seu ombro com toda a sua força. O surpreendentemente resistente escudo místico dele aguenta, mas a grossa madeira da porta, não. Os dois acabam caindo no chão dentro do aposento, rolando entre pedaços de madeira quebrada.

Ambos se levantam, meio cambaleantes e se encaram por um momento. Ele levanta os braços, aparentemente disposto a falar alguma coisa.

No entanto, ela não está disposta a ouvir e avança sobre ele novamente, o atingindo com um soco no rosto, seguido por outro, e depois outro.

– Aggghh! Pare com isso!

Ela o ignora e o atinge novamente. E mais uma vez. Vendo que seu escudo místico começava a falhar, o homem levanta uma das mãos e toca em seu peito. O toque é suave e inofensivo. Mas o encantamento místico que o contato libera é fulminante. Sulana é lançada para o outro lado do aposento, chocando-se violentamente contra a parede de pedra.

– Sulana, se controle! Temos que sair daqui!

Nesse momento, ambos ouvem passos pelo corredor, indicando que os membros da resistência estão se aproximando.

– Ouviram aquilo? – Giarle exclama.

– A porta quebrada! O barulho veio de lá!

De alguma forma, a voz de seus amigos penetra na névoa vermelha que nubla seus sentidos e Sulana se dá conta do que está acontecendo. Ela perdeu completamente o controle! Isso não acontece há anos. Ela então leva a mão ao rosto, lutando para se acalmar.

– Está melhor agora? – Sussurra o homem.

Ela levanta os olhos surpresa, ao perceber que ele, de alguma forma, tinha surgido a seu lado. Ninguém deveria ser capaz de se mover tão rápido.

– Derione? – Sulana pergunta baixinho.

Sulana imaginava que a maioria das mulheres consideraria esse homem bastante atraente, se pudessem vê-lo. Sua pele é branca, muito branca, mas seus cabelos são negros como a noite, caindo soltos pelos ombros. Tem um rosto que expressa força e determinação, com um queixo quadrado e sobrancelhas largas, que quase se encontravam pouco acima do nariz. Usa um manto longo, de tecido fino e de cor branca, que lhe cobre do pescoço aos calcanhares.

– Sim, sou eu. Vamos sair daqui.

Ele agarra a mão dela e a puxa na direção da janela. Ainda um tanto confusa, Sulana o segue, lembrando-se de que ele sempre prefere manter distância dos rebeldes, por alguma razão. Ela decide ir com ele por enquanto para então conseguir algumas respostas. Como, por exemplo, o que raios ele está fazendo aqui.

Ao se aproximar da janela aberta, ele solta a mão dela e salta para fora. Sem hesitar, ela faz o mesmo. Depois de um mergulho desagradável na água malcheirosa do fosso do castelo, os dois sobem para a outra margem.

Sulana olha na direção da janela e percebe que os rebeldes estão olhando para ela e gritando alguma coisa, que não dá para ouvir direito devido à distância. Ela levanta uma das mãos e faz um gesto, tentando indicar que está tudo bem, antes de se virar para Derione, como sempre, intrigada com o fato de ninguém mais conseguir vê-lo além dela própria.

Ele faz um gesto de cabeça indicando para que o seguisse e se embrenha entre as árvores. Lançando um último olhar a seus amigos, ela vai atrás dele.

– O que está fazendo aqui? – Sulana pergunta.

– Tentando evitar que você cause ainda mais estragos. Na verdade, eu é quem deveria estar perguntado o que você está fazendo aqui! – Ele olha para ela, de cenho franzido. – Olha o seu estado! Atacando qualquer um cegamente daquela forma! Está perdendo completamente o controle!

– Aquilo foi culpa sua! Aparece no meio de uma batalha, me dando um susto daqueles! Como quer que eu reaja?!

– Como uma pessoa normal. Com surpresa, raiva, medo. E não com esse nível de agressividade.

Sulana para e cruza os braços.

– Então aquilo era um teste? Para saber se eu atendo aos seus padrões?

Ele para de caminhar também e se vira para ela.

– Você nunca vai conseguir viver uma vida normal enquanto não aprender a se controlar.

– O que seria uma vida normal? E quem você pensa que é para ficar me pregando peças? – Ele abre a boca para retrucar, mas ela levanta a mão para interrompê-lo. – Você não fez nada nos últimos anos além de atazanar minha vida. Até onde eu sei, é possível que você nem mesmo exista! Eu posso muito bem ter enlouquecido e estar falando comigo mesma no meio do mato neste momento!

Ele a encara, muito surpreso.

– Não seja ridícula.

– Ridícula? O que eu sei sobre você, além de aparentemente ser invisível? Tudo o que me disse foi aquela baboseira sobre ser um protetor dos fracos e indefesos. Bom, eu não sou fraca, muito menos indefesa, então, que raios você quer comigo?!

Ele solta um suspiro e balança a cabeça. Quando volta a falar, sua voz agora tem uma entonação completamente diferente.

– Por favor acalme-se. Perdoe meu comportamento. Eu imaginei que você tivesse adquirido um controle maior sobre a febre. Não imaginei que isso fosse se transformar nessa confusão. Me desculpe.

Aquilo era novidade. Ele normalmente nunca se dava ao trabalho de se mostrar arrependido de nada. Sulana respira fundo e descruza os braços, tentando se acalmar.

Ele então estende a mão para ela.

– Venha, vou tirar você daqui.

Sulana estuda o rosto dele por um instante. Não fazia ideia de porque, de repente, a aparência dele estava lhe chamando tanta atenção, mas tinha que admitir que sim, ele era bonito. E sua beleza natural era ainda mais acentuada pela aura de mistério que parecia envolvê-lo.

– Tudo bem – respondeu ela, ansiosa para acabar logo com aquilo e se ver livre dele.

♦ ♦ ♦

Marcelius Belísar marcha para a praça principal da cidade chamada Mercília, avaliando as estruturas que via ao redor. Felizmente, as casas estão todas intactas, sem danos decorrentes de batalha. Teria sido muito diferente se os cidadãos não tivessem se rendido assim que o cerco começou. De qualquer forma, ele considera que isso é excelente, pois vai poupar bastante tempo, trabalho e recursos.

Mas, apesar da rendição, alguns moradores ainda eram valentes o suficiente para lhe gritar insultos através das janelas. Um ou outro brado de “oportunista”, “covarde” e “assassino” podem ser ouvidos ocasionalmente. Obviamente, todos ali sabem muito bem quem ele é.

Ou, pelo menos, pensam que sabem.

Não era de estranhar que o reconhecessem, pois Belísar não é uma figura que possa ser chamada de “discreta”. Principalmente quando usava o traje que lhe dera o apelido de “General Vermelho”.

Trata-se de um uniforme militar em tom carmim, com um cinturão e protetores metálicos para os cotovelos, ombros, joelhos e tornozelos, além de uma boina vermelha com uma estrela amarela bordada na parte frontal. A função original daquele traje era canalizar seus poderes, para que tivesse uma certa segurança quando precisasse usá-los, mas a combinação de cores, somada à sua postura e porte físico acabou por projetar uma inesperada imagem de força e poder, capaz de despertar o temor em seus oponentes.

Não que ele gostasse daquele efeito, mas, em uma guerra, era necessário aproveitar qualquer vantagem que se pudesse obter.

Ignorando os brados insultuosos dos cidadãos que estavam aprisionados em suas casas, ele se aproxima daquela que era um de seus oficiais mais confiáveis. A mulher é alta e corpulenta e veste uma cota de malha bastante gasta. Como se recusa a usar um elmo, sua cabeça raspada está à mostra, bem como a fita do tapa-olho que lhe esconde o olho esquerdo.

– Bom trabalho – disse ele, a título de saudação. Ela apenas assentiu, em silêncio. – E quanto à fortaleza?

– Perdemos contato com a tropa.

– Leituras de vida?

Ela abaixou a cabeça.

– Não, senhor. Acreditamos que estejam todos mortos.

Belísar estreita os olhos.

– Que tipo de resistência é essa que não faz prisioneiros, Falcione?

Aquele apelido combinava perfeitamente com a mulher, pois tratava-se do nome de uma espada de lâmina encurvada, de difícil fabricação e bastante perigosa, inclusive para quem a empunhava, caso não soubesse usá-la direito.

– Isso é porque não é uma resistência, senhor. São apenas terroristas.

– E quanto aos preparativos para a construção do muro?

– Tudo segue conforme o planejado. Os trabalhadores deverão chegar em três dias.

Belísar levanta os olhos para o céu e encara as nuvens por um momento.

– Não temos três dias. Mobilize todas as tropas disponíveis para cá. Não quero outra Iliora em nossas mãos.

– Sim, senhor. Mas devo lembrar que, se diminuirmos o policiamento nos muros, os terroristas poderão se sentir tentados a atacar.

– Deixo isso a seu encargo. No momento, eu tenho que me apressar. Tem muitos vermes se escondendo nas tocas, precisando ser exterminados.

– Não seria prudente levar mais alguns soldados com o senhor?

Ele olha mais uma vez para as construções humildes ao redor.

– Minha tropa pessoal terá que bastar. Esta cidade precisa de toda a proteção possível.

Falcione lhe dirige um olhar entre irritado e preocupado. Ela está exausta, o que é facilmente percebido pela dificuldade que está tendo em controlar suas emoções.

– Descanse – disse ele, com voz tranquilizadora. – Eu resolverei isso, como sempre faço.

Ele começa a se afastar, mas então para e olha para ela por sobre o ombro.

– Os soldados que perdemos precisam de um funeral adequado.

– Naturalmente, senhor. Já estamos providenciando.

♦ ♦ ♦

Sulana não faz nenhuma questão de entender os poderes que Derione tem, só sabe que são muito eficientes.

Em um piscar de olhos, ela se vê de volta à sua velha cabana caindo aos pedaços, há centenas de quilômetros de distância da fortaleza onde estava antes.

Olhando para as familiares paredes de troncos, ela subitamente se sente suja. Passando um olhar pelos trajes que vestia, percebe que está coberta de sangue, como sempre ocorre quando luta acometida pela febre da batalha. O mergulho no fosso do castelo não fez muito para limpar as manchas da sua roupa, apenas a deixou ensopada e cheirando mal.

– Você voltou a matar – disse Derione.

Ela levanta os olhos para ele, um tanto surpresa. Achava que ele iria apenas mandá-la de volta e não vir junto com ela.

– Ah, você ainda está aí? Achei que iria voltar para o seu vespeiro, formigueiro, colmeia ou seja lá como se chama o lugar de onde vocês saem.

– Você foi avisada das consequências caso voltasse a perder o controle.

– Eu não perdi o controle! Estamos numa guerra, caso não tenha percebido!

– Você estava tão descontrolada que me atacou!

– Porque você me deu um susto!

– E se fosse uma outra pessoa no meu lugar? Um aliado?

Sem encontrar uma resposta satisfatória, Sulana prefere ficar em silêncio.

– Você sabia que não deveria se envolver nessa guerra. Pessoas estão morrendo por sua causa.

Sulana solta um grunhido.

– Ah, me poupe! Numa guerra, pessoas morrem! Quem está na frente de combate é porque está preparado para morrer! Qual o problema em eu usar meus poderes para tentar evitar que um tirano insano domine a província e escravize todo mundo?

– Você não se envolveu nisso por idealismo, foi a fúria dentro de você quem tomou essa decisão! Lutar por um futuro melhor não era seu objetivo, o que você queria mesmo era matar!

– E daí?! Eu sou boa nisso! É a única coisa que sei fazer bem nessa porcaria de vida! Por que não posso usar esse poder para fazer algo útil?!

– E o que virá depois? Quando todos os inimigos estiverem mortos e a febre da batalha a tiver consumido, deixando-a querendo mais e mais? Você não vai conseguir parar! Seus aliados se tornarão suas vítimas e depois acontecerá o mesmo com qualquer inocente que estiver por perto! Por que acha que todos do seu clã tiveram que ser erradicados?

– Então por que você não acaba logo com isso e me mata de uma vez? Antes que esse monstro que acha que eu sou assuma o controle?

Os dois ficam se encarando por um longo tempo, as respirações aceleradas, os nervos à flor da pele. Por fim, Derione abaixa a cabeça e leva um punho à própria fronte, fechando os olhos, com expressão frustrada.

– Você não é um monstro.

– Mas você quer me mandar para uma masmorra mesmo assim!

Ele abaixa a mão e volta a encará-la.

– Não é uma “masmorra”.

– Então o que é?!

– É uma… é uma… Céus! Você quer se acalmar, por favor?

– É só você sumir daqui que eu me acalmo!

Ele balança a cabeça, frustrado.

– Não dá para conversar assim, eu não suporto isso.

– Se não me suporta, por que não vai embora e me deixa em paz?

– Não foi isso o que eu disse.

– O que quis dizer então?

– Você… você está toda suja de sangue. Não gosto de vê-la assim.

Sem nenhuma cerimônia, Sulana rasga a túnica manchada, arrancando-a do corpo com violência e arremessando o bolo de tecido arruinado em um canto.

– Satisfeito agora?

Ela nota o olhar intenso dele em seu busto, que estava enrolado por várias voltas de uma faixa feita com um tecido velho e desgastado, marcado por algumas manchas de sangue. Tendo 26 anos e, portanto, sendo bastante velha para os padrões da época, além de coberta de marcas de combate, praticamente, da cabeça aos pés, parecia incrível que alguém pudesse considerá-la atraente.

Aparentemente, havia mesmo gosto para tudo.

– Ah, então é isso que você quer? Está ameaçando me colocar na sua prisão se eu não quiser… agradar você?

Ele se empertigou, indignado.

– Eu jamais faria uma coisa dessas!

– Mas está tentado a fazer.

– Ora, eu…

– Tudo bem, eu faço o que você quiser, se prometer me deixar em paz.

Ele a olha, horrorizado. Ela sente uma certa satisfação ao perceber que conseguiu deixá-lo sem palavras. Então, surpreendendo-a, ele a encara com uma expressão triste por um longo momento, antes de abaixar a cabeça e se desvanecer no ar.

♦ ♦ ♦

A guerra é uma coisa brutal. Suja, desumana, horrível.

A única forma de manter a sanidade é não enxergar seus oponentes como pessoas, mas sim como monstros, parasitas que precisam ser exterminados para que o corpo sobreviva.

Infelizmente para Belísar, esse tipo de “desumanização” não é sua especialidade. Por mais que se esforce a não se deixar afetar, essas investidas contra invasores sempre lhe parecem como um genocídio gratuito e sem sentido. E por mais que tente lembrar a si mesmo de que a realidade não é exatamente essa, o sofrimento de seus oponentes sempre acaba o tocando, apesar de não poder fazer nada em relação a isso.

– Túneis leste e oeste limpos, senhor – informou um de seus soldados.

– Ótimo. Algumas famílias desceram por ali. Vou precisar de um time de apoio para ir atrás deles comigo. O resto deve ficar aqui, para caso…

– Senhor!

Belísar se vira para a oficial que corre até ele, esbaforida.

– O que houve?

– Dois dos nossos estão seriamente feridos, precisam de cuidados.

– E os inimigos?

– Estão todos mortos, mas tivemos que usar um pergaminho de fogo, e não tinha espaço para todos se protegerem da explosão.

– Pela misericórdia! – Belísar se vira para o outro soldado. – Reúna os outros e vão ajudar.

O soldado aponta para o túnel escuro que formava uma escada natural, serpenteando para o interior da terra.

– E quanto ao resto dos invasores, senhor?

– Eu cuido deles. Tratar os feridos e protegê-los caso mais invasores apareçam é sua prioridade agora.

– Sim, senhor!

Enquanto os soldados se afastam, apressados, Belísar se vira para o buraco no chão e solta um suspiro. Alguns dizem que ele é um dos homens mais poderosos do mundo, mas em situações como essa aquilo parecia um disparate absurdo. Afinal, que grande poder é esse, que não serve nem para proteger seus aliados quando mais precisam?

Deixando a culpa e a preocupação de lado, ele desce pelo túnel escuro, acionando o artefato em sua boina que faz com que a estrela bordada nela comece a brilhar como se fosse um cristal de luz contínua.

Não leva muito tempo para encontrar os fugitivos. Estavam todos amontoados em um canto, olhando para ele e parecendo completamente aterrorizados.

À primeira vista, parecem aldeões normais, pessoas magras, de baixa estatura, pele pálida e de expressão triste. Mas Belísar já encarou cenas como esta vezes demais para se deixar enganar. Sabe muito bem que não passam de vilões da pior espécie, aguardando um único descuido para mostrarem sua verdadeira face.

Com cuidado, Belísar toca em um de seus braceletes, preparando-se para o ataque, mas então, um dos intrusos sai das sombras e corre na direção dele, os braços se afunilando e se transformando em lâminas enquanto sua pele vai adquirindo uma tonalidade amarronzada.

Belísar levanta o punho na direção dele e libera uma descarga elétrica que o atinge em cheio no peito. A energia mística é forte o suficiente para desviar a trajetória do mostro, que cai a vários passos de distância, convulsionando, descontrolado.

No instante seguinte, os demais também decidem atacar.

Fazendo o possível para manter a calma, Belísar derruba a todos um por um, antes que consigam chegar perto. Quando o último monstro cai por terra, Belísar estuda a cena por algum tempo, até ter certeza de não há mais sinais de vida.

Então sente uma pontada no peito, forte o suficiente para fazê-lo trincar os dentes e lamentar o fato de ter sido obrigado a lutar um número absurdo de batalhas num único dia, o que o fez gastar muito mais energia do que deveria.

Seu trabalho ali havia terminado. Era hora de voltar para casa.

♦ ♦ ♦

Sulana havia se lavado e vestido roupas limpas. Claro que não deixavam de ser trapos velhos de segunda mão, doados ao abrigo por algum aldeão bem-intencionado, mas pelo menos estavam limpas. E aquilo era o melhor que ela podia fazer por sua aparência. Ou, pelo menos, que tolerasse se dar ao trabalho de fazer.

Ela corre os olhos pela paisagem ao redor. O sol do fim da tarde projeta raios crepusculares através das nuvens. A vegetação está verdejante e florida. A grama sob seus pés descalços é macia. Tudo ali exala paz e tranquilidade.

No entanto, ela não tem certeza se esse lugar é mesmo real. Da mesma forma como só Sulana consegue enxergar Derione, ninguém mais além dela é capaz de ver a entrada desse vale.

Talvez tudo isso seja fruto da minha imaginação. Vai saber, talvez a loucura que se abateu sobre meu clã já esteja me afetando também.

Mas, no momento, Sulana não se importa. Ela não consegue se esquecer da expressão triste de Derione, quando conversou com ele mais cedo. Apesar de toda a irritação que ele lhe causa, no fundo, ela não acredita que ele seja um mau sujeito.

Naquela hora, Sulana estivera nervosa demais e, verdade seja dita, um tanto frustrada pela batalha ter se encerrado tão rápido. Por causa disso, acabou falando um monte de bobagens.

Ela para e olha mais uma vez ao redor, indecisa.

Talvez esteja perdendo meu tempo vindo até aqui.

Sulana se vira para a direção de onde veio, com a intenção de ir embora, mas então interrompe o movimento, soltando um suspiro.

Maldição! Eu tenho que falar com ele!

Se Derione não estiver no vale, sabe-se lá quando o encontrará novamente. Talvez, nunca mais. Ela até ficaria feliz com a possibilidade de não ser mais incomodada, se não soubesse que existem inúmeros outros como ele. E, a julgar pelos poucos deles que encontrou, ela definitivamente prefere ficar o mais longe possível de todos. Derione, ao menos, se importa o suficiente para conversar com ela e deixar claro o que quer. Os conterrâneos dele não são, nem de longe, tão amigáveis.

Caminhando um pouco mais pelo vale, Sulana chega a uma cabana feita com troncos de madeira e coberta com palha seca. As trepadeiras cobriam boa parte das paredes e se embrenhavam pela palha do telhado. Dos ramos, brotavam pequenas flores de diversas cores, fazendo com que a construção quase se misturasse com o cenário ao redor.

Subitamente, uma voz irritada brada atrás dela, fazendo-a sobressaltar-se.

– Eu não vou negociar favores com você!

Pouquíssimas pessoas conseguem se aproximar de Sulana sem que perceba. Sem saber se fica irritada por ter sido surpreendida tão facilmente ou aliviada por ter conseguido encontrá-lo, ela se vira para ele.

E percebe que ele não está nem um pouco satisfeito em vê-la. Parece furioso, mas não é apenas isso. Ela podia jurar estar vendo uma ponta de tristeza em seu olhar, o que não deixava de ser estranho, principalmente para alguém que pertencia a uma raça cujo maior orgulho era não ter sentimentos.

– Me desculpe – ela disse. – Eu estava fora de mim, não devia ter dito tudo aquilo.

– O que quer aqui?

Ela fecha os olhos e respira fundo. Engolir o orgulho era muito difícil. Mas ela deve muito a este homem.

– Se quiser me levar para a prisão ou para onde quer que seja, eu não me importo.

– Está aqui para me testar? Para tripudiar sobre mim?

– Estou tentando me desculpar, mas que porcaria!

– Como soube que eu estaria aqui?

– Eu não sabia. Eu só… – ela balança a cabeça, sem conseguir concluir a sentença. – Se você não estivesse aqui eu voltaria para casa e não pensaria mais no assunto. Mas eu não podia suportar… você sabe… pensar que pudesse estar aqui… me esperando.

Aquele vale era o ponto de encontro dos dois. Derione a chamara ali diversas vezes antes. Ele dizia que era um refúgio, um local só deles, onde podiam conversar com calma.

– Isso… isso dói – ele leva a mão ao coração, como se estivesse sentindo dor física. – Minha estirpe não sente dor, não é parte de nossa natureza. Mas você, de alguma forma, consegue me provocar sofrimento. Cada vez que manda eu me afastar, cada vez que me trata como um… estorvo em sua vida, sinto como se estivesse sendo apunhalado.

Dando vazão a um impulso completamente estranho para ela, Sulana se aproxima dele devagar, até que seus lábios quase se toquem.

– Quero ficar com você.

Qualquer idiota poderia perceber o quanto aquela proximidade o está afetando.

– O… o quê?! – Ele sacode a cabeça, aparentemente tentando clarear os pensamentos. – Vai estabelecer condições? Como se estivesse se vendendo para mim?

– Não. Pode fazer o que quiser depois, eu não me importo.

Ele a encara por um momento, como se não acreditasse no que estava acontecendo. Então, com uma expressão que só podia ser descrita como “faminta”, ele a toma nos braços e a leva para dentro da cabana.

♦ ♦ ♦

Belísar entra no quarto devagar, tentando não fazer barulho. Infelizmente, não é muito bem-sucedido, pois não consegue conter um gemido quando uma pontada de dor corta seu peito.

A mulher que dormia placidamente na cama se senta abruptamente e leva a mão ao peito.

– Calma, sou eu – diz ele.

Ao ouvir a voz dele, ela imediatamente relaxa.

– Oh, que susto você me deu.

Ele se senta na cama, ao lado dela, para tentar remover as botas.

– Me desculpe.

– Não há o que desculpar. Esse é o seu quarto e esta é a sua cama.

– Gostaria de ter voltado antes, mas fomos surpreendidos por um vasto número de invasores.

– Conseguiram salvar a cidade?

– Sim, Mercília está segura. Por enquanto, pelo menos.

Ela se levanta e coloca-se à frente dele. A luz da lua, entrando pela janela, evidencia a silhueta do corpo dela, envolto pela camisola semitransparente.

Zelmira era uma mulher deslumbrante e possuía um corpo curvilíneo e muito desejável, mesmo estando próxima dos 40 anos. Aquilo eram frutos muito bem-sucedidos de todo o esforço que ela fazia para parecer feminina e, segundo ela própria, “digna” dele.

– Deixe-me ajudar.

Aquilo era outra característica dela: queria sempre ajudar, ser útil, não importava a situação, sempre com entusiasmo. Nem mesmo ele, sendo vários anos mais jovem, possui tanta energia quanto ela.

– Não é necessário, pode voltar a dormir… – ele é obrigado a interromper o que dizia, quando uma nova pontada, dessa vez no ventre, o faz prender a respiração. Aquilo era mais um sinal inequívoco de que havia se excedido.

Zelmira leva a mão aos lábios.

– Você está ferido!

– Não, não estou. É apenas cansaço, não se preocupe.

– Deite-se.

– Não é necessário, pode voltar a dormir.

– Você precisará de todo o sono que puder ter, se quiser continuar com essa cruzada. Deite-se e relaxe, me deixe cuidar de você. É bem mais rápido eu tirar essas coisas do que você quando está sentindo dor, sabe bem disso.

Belísar pensa em todas as vidas que tirou naquele dia e imagina que sentir um pouco de dor era o mínimo que se podia esperar. Mas, ao olhar mais uma vez para aqueles olhos preocupados, ele decide aceitar a oferta.

Com todo o cuidado de uma esposa zelosa e preocupada, ela o ajuda a se acomodar sobre os lençóis.

– Pronto, agora, relaxe.

Com precisão adquirida com a prática, ela remove, devagar, os acessórios do seu traje, antes de despi-lo completamente. Em seguida, ela vai até o reservado, de onde volta com uma bacia com um pouco d’água e um pano que usa para começar a banhar sua pele quase febril. Belísar solta um suspiro, sentindo seus músculos relaxarem.

– Não preciso de tudo isso.

– Shhh! Apenas feche os olhos, está bem? Me deixe cuidar de você.

Ele suspira novamente, resignado, sentindo o suave toque dela, que logo se transforma em uma suave e relaxante carícia, percorrendo toda a extensão do corpo dele. Depois de longos minutos, ela lhe dirige um sorriso.

– Você já está me parecendo bem melhor.

– Você sabe como cuidar de mim.

– Isso é bobagem – ela aponta para o cinturão metálico que estava pendurado em uma cadeira. – O que traz alívio a você é se livrar daquelas coisas.

– Eu preciso usar esses artefatos, Zelmira, você sabe disso.

– Eles o estão matando, Marcelius.

– Eles são a única coisa que pode proteger a você e a todos os outros de… mim.

– Você não precisa de nada disso. Basta fugir comigo para algum lugar bem longe daqui.

– Sabe que não posso fazer isso. Nem mesmo por você. Irei dominar este país, e se necessário o continente inteiro. E preciso dessas coisas para poder manter você em segurança, se não de meus inimigos, pelo menos de mim.

– Você se preocupa demais. – Ela se coloca sobre ele na cama, com uma perna de cada lado, enquanto o encara com aquele sorriso terno tão característico dela. – Eu não preciso ser protegida de você, aceito qualquer coisa que quiser fazer comigo.

Belísar levanta a mão e ela se inclina de leve, fechando os olhos e permitindo que a toque no rosto.

– Não sei se posso dar tudo o que você precisa – lamentou ele.

– Bobagem. – Ela se reclina mais para beijá-lo nos lábios. – Você já me deu tudo o que eu sonharia em querer nessa vida.

Eles voltam a se beijar, envolvidos no calor do momento. O desejo por descanso é esquecido enquanto outras necessidades se tornam mais urgentes.

Horas se passam até que o cansaço finalmente se torna grande demais e ele finalmente cai num sono sem sonhos.

— Fim do capítulo 1 —
< Dedicatória Sumário 2. Rotina >

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