Carmim – Capítulo 2

Publicado em 19/05/2019
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2. Rotina

Sulana acorda, sozinha, em sua própria cama. Sentando-se, ela alonga os músculos.

Aparentemente, Derione tinha usado os poderes dele para transportá-la de volta à cabana em algum momento no meio da noite. Se não fosse pelo fato de estar sem roupas e pelo leve desconforto que sentia em algumas partes do corpo, não teria problemas em acreditar que a noite passada era apenas fruto de sua imaginação.

Eu passei mesmo a noite com um cara? E com Derione, ainda por cima?

Sulana não costuma se aproximar de outras pessoas, principalmente daquela forma. Então, a única explicação em que consegue pensar para seu próprio comportamento era a euforia que sempre sente após uma batalha. Euforia essa que agora a impulsionava a se levantar e encarar o dia.

Não vou mesmo conseguir entender o que aconteceu ontem, então, dane-se. Tenho coisas demais para fazer, para ficar me preocupando com isso.

Empurrando para o fundo da mente os sentimentos desconfortáveis causados pela lembrança da noite anterior, ela se levanta. Seu corpo está cheio de energia, pronto para encarar qualquer desafio. Até mesmo a ideia de ajudar na lavanderia do abrigo lhe parece atraente.

Humm… que fome!

Ela salta da cama e veste as primeiras peças que encontra na pilha de roupas velhas e gastas sobre a mesa. Há uma sacola de couro pendurada numa das paredes, na qual ela enfia a mão, retirando uma fruta lá de dentro. Trata-se de um tufax, uma espécie de maçã gigante, pouco maior que um abacate, que é cultivada em climas frios. Tem uma coloração vermelho amarronzada e um sabor que é considerado ácido demais pela maioria das pessoas.

Hummmm… Bem do jeito que eu gosto.

A fruta é devorada em questão de instantes enquanto ela sai da cabana e aprecia a quietude dos arredores.

Este lugar está se tornando um tédio. Há meses não aparece nenhum monstro ou animal feroz por aqui. Talvez eu deva esquecer aquele abrigo e procurar algum lugar mais interessante ao sul.

Um leve sorriso vem aos lábios dela quando imagina o quanto Derione ficaria furioso se ela se mudasse para o meio de uma zona de guerra.

Pegando dois baldes, Sulana e percorre o curto trajeto até o córrego próximo. Depois de enchê-los com água, ela retorna à cabana e os deixa de lado. Então, com uma empolgação que não sente há semanas, inicia seus exercícios matinais.

Mais de meia hora depois, os primeiros raios do sol a atingem enquanto treina equilíbrio, sustentando-se com apenas um braço enquanto mantinha as pernas para o ar.

Voltando a pôr os pés no chão, ela vira o rosto suado para o horizonte e aprecia a paisagem por algum tempo, enquanto sua respiração volta ao normal. Então, voltando até onde tinha deixado os baldes, rapidamente se livra das roupas, atirando-as dentro de um deles enquanto pega o outro e vira sobre sua cabeça. A sensação da água gelada sobre sua pele quente devido ao esforço físico é bastante agradável.

Hora de começar o dia, ela pensa, com um suspiro satisfeito.

O abrigo onde Sulana trabalha fica há pouco menos de uma hora de caminhada da sua cabana. Aliás, a cabana não é exatamente “dela”. Trata-se apenas de uma velha construção abandonada para a qual se mudou quando os alojamentos do abrigo haviam se tornado escassos, já que o número de necessitados havia aumentado devido aos diversos ataques de monstros ocorridos na região nos últimos meses.

Ela acabava de passar pelo portão de madeira caindo aos pedaços quando ouve alguém chamando seu nome.

– Sulana! Estava imaginando quando você apareceria!

Uma jovem se aproxima caminhando com dificuldade, com o auxílio de muletas. Tinha um largo sorriso no rosto, os olhos azuis brilhando e seus longos cabelos loiros estavam enrolados em uma longa trança feita de lado, e que lhe caía pela frente do corpo até abaixo dos seios, balançando de um lado para o outro enquanto ela se movia. Suas roupas, apesar de apresentar inúmeros remendos, ainda conservavam um pouco de sua elegância original, denunciando a origem abastada da moça.

Este lugar havia se tornado a última esperança de sobrevivência de dezenas de pessoas. Muitos haviam perdido quase todas as suas posses, outros haviam perdido parte da saúde. Outros ainda, sua sanidade. Linete era uma das que haviam perdido as três coisas.

– Você tem que consertar a parede do meu quarto – diz Linete, com uma exagerada expressão de preocupação no rosto. – Ela vai cair, qualquer hora dessas!

Sulana a encara por um instante, antes de responder:

– Eu sou boa em derrubar paredes, não em consertá-las.

– Não sei como vocês deixaram esses prédios ficarem nesse estado! Quero dizer, eles são sólidos. Foram erguidos pelo exército imperial, antes do golpe de estado. – Como sempre, ela falava rápido, pulando de um assunto para o outro de forma súbita e confusa. – Você sabe, não é? Aquele que dividiu o império e lançou Ebora no completo caos em que vivemos hoje.

Normalmente, Sulana simplesmente ignora a tagarelice da garota, mas hoje ela se sente tão bem que, quando se dá conta, está incentivando o falatório:

– Você parece saber muito sobre esse assunto.

Um enorme sorriso se forma no rosto dela.

– Eu sei tudo sobre o assunto, sou muito bem informada, você sabe. Minha família era uma das mais influentes da província. A verdade é que um dos coronéis da Província Central enlouqueceu e assassinou o imperador, com a intenção de tomar o lugar dele. Mas aí ele foi derrotado pelo filho do general.

Certo, talvez essa não tenha sido uma boa ideia, Sulana pensa, enquanto seu estômago se manifesta. A caminhada havia aberto seu apetite novamente e tudo o que queria no momento era cravar os dentes no que quer que encontrasse na cozinha.

– Linete…

A moça, no entanto, a ignora e continua tagarelando, seu rosto cheio de empolgação.

– Então, os conselheiros imperiais decidiram tomar o poder para eles e dividiram o império entre si. Ainda não se sabe direito como eles conseguiram fazer com que o povo aceitasse o golpe. Mas algumas pessoas não gostaram disso, como o General Vermelho, que se rebelou e derrotou o conselheiro imperial que tentou tomar o poder em Ebora.

– Linete!

– Sim?

– Falo com você depois, está bem?

– Claro! Sabe, Sulana, eu adoro você!

Aquilo deixa Sulana sem ação por um momento. Estava acostumada a ser tratada com desprezo, frieza e hostilidade. Demonstrações de carinho eram tão raras em sua vida que não sabia direito o que fazer com elas.

– É sério! – Linete exclama. – Você é a única daqui que tem paciência para conversar comigo!

Sulana a encara, incrédula por algum instantes. O absurdo da situação é tão grande que ela não consegue se conter e acaba caindo na risada.

– O que foi? – Linete pergunta, confusa.

– Nada. Deixa pra lá.

Uma borboleta passa voando entre vocês e Linete a encara com olhar sonhador por um momento.

– Que coisinha mais linda! Vem aqui, bonitinha! Vem com a mamãe…

Ela esquece completamente de sua deficiência e tenta dar um passo na direção da borboleta, perdendo o equilíbrio. Por puro reflexo, Sulana se adianta e a segura antes que se esborrache no chão.

– Ah… ela foi embora! – Linete se lamenta, fazendo beicinho.

– Tenha um pouco mais de cuidado, sim?

– Com o quê?

A pergunta é completamente inocente. Como alguém obviamente tão inteligente pôde ficar com as faculdades mentais tão seriamente comprometidas era um mistério.

– Com nada. Esqueça.

– Está bem. Sabe, tem uma coisa que eu queria te perguntar.

Sulana solta um suspiro.

– O que é?

– Você é tão forte, tão independente… Por que cuida de nós? Quero dizer, você poderia morar em qualquer lugar do mundo! Por que aqui?

Aquela era uma boa pergunta. Sulana já tinha pensado muito sobre isso.

– Eu não vim para cá para cuidar de vocês, Linete. Não sou uma pessoa altruísta ou idealista.

Nesse ponto, Derione está completamente certo a meu respeito. Nunca viria para cá se fosse só para arranjar comida e limpar a bagunça de um monte de desabrigados cheios de… problemas.

Linete a encara, com expressão de surpresa.

– Então por que está aqui?

– Eu vim aqui para lutar.

– Contra os monstros, você quer dizer? Foi nessa época que você veio, não foi? Quando os portais dimensionais surgiram?

Sulana suspira novamente e olha para o céu.

– Estamos bem no centro da província. Esta foi a região mais afetada pelos ataques. Vim para cá em busca de ação. Sou uma guerreira, vivo para lutar.

– Nesse caso, imagino que tenha se divertido muito naquela época… Pelo menos até os portais pararem de se abrir, não é?

– Sim.

– Mas então você resolveu ficar. Quero dizer, por que não foi procurar… ação em outro lugar?

– Fiquei aqui porque achei que esse aglomerado de gente no meio do nada pudesse atrair mais confusão.

– Mas aí você foi resolvendo as confusões tão rápido que logo elas pararam de acontecer. Não sente falta da ação?

– Sim – Sulana responde, desviando o olhar.

Ela sentia tanta falta que começara a procurar outros tipos de… entretenimento. Como, por exemplo, se envolver nessa guerra civil. E, justamente quando as coisas estavam ficando melhores, Derione tinha que aparecer de novo. Será que ele não tem mais o que fazer além de ficar se metendo em minha vida?

Linete olha para ela com um enorme sorriso.

– Foi muito bom conversar com você Sulana! Você é minha heroína! Que tal vermos o que o velho Riodes fez para o desjejum?

Levemente aliviada com o fim daquela conversa, você caminha devagar ao lado dela enquanto se dirigem para a construção maior. Exceto pela tagarelice de Linete, o lugar estava calmo. A maioria dos habitantes do abrigo devia ainda estar dormindo.

Sulana olha de lado, vendo a moça manejar as muletas com cuidado por entre as ervas daninhas.

– Como está seu pé? – Sulana pergunta.

– Como sempre. Dá para acreditar que eu quase perdi uma perna por causa de um arranhão?

– Achei que sua perna quase tinha sido devorada por um troll.

– Sim, mas eu escapei do bicho. Só que, enquanto fugia, eu tropecei num espinheiro. Dá para acreditar que um arranhãozinho poderia deixar alguém assim? – Ela faz um gesto de cabeça na direção das muletas. – Se aquilo acontecesse hoje, não teria problema nenhum, pois vocês todos estariam aqui para me ajudar. Mas, na época, eu estava sozinha. – De repente, o queixo da moça treme e Sulana percebe, horrorizada, que Linete está prestes a cair no choro. – E agora, meu pé vai ficar assim para sempre!

– Tudo bem, Linete, calma. Vamos procurar algo para comer, está bem?

A moça passa a mão pelos olhos e encara Sulana com um sorriso radiante.

– Você é a minha pessoa favorita no mundo inteiro!

Sulana solta um suspiro exasperado e desvia o olhar. Chegando até a construção onde ficava a cozinha e o refeitório, ela não se faz de rogada e vai logo escancarando a porta.

– Bom dia, Riodes.

O velho senhor de barba branca e cara amarrada a olha por sobre o ombro enquanto mexe algo num grande caldeirão ao fogo.

– Sulana. Chegou bem na hora, estou precisando de lenha.

– Puxa, Riodes! – Exclama Linete, entrando no aposento. – Está cada vez mais ranzinza! Nem para retribuir um “bom dia”?

Sulana agarra um velho machado que estava pendurado na parede e era tão velho e tinha sido afiado tantas vezes que a lâmina devia estar com menos da metade do tamanho original.

– Não estou aqui para bater papo ou fazer amigos, Linete – diz o velho, antes de apontar para Sulana. – E nem ela.

Sulana olha para ele.

– Tem algo para mastigar por aí?

Riodes pega um pedaço de pão de um cesto ao lado do fogão e arremessa na direção dela, que agarra o alimento no ar e dá uma satisfatória mordida, antes de se dirigir para a porta.

– Vocês dois poderiam ter um pouco mais de modos! – Linete reclama. – Sabe como é… se cumprimentarem direito e terem uma conversa civilizada antes de saírem exigindo coisas um do outro.

– Bah! Isso é perda de tempo – diz Riodes, voltando a mexer o conteúdo do caldeirão.

Sulana se dirige à pilha de madeira que havia trazido e serrado em pequenas toras, dias atrás e percebe que está chegando a hora de providenciar mais. Ela se lembra do carvalho gigante que havia derrubado na floresta no mês passado. Ele já devia estar seco o suficiente para a madeira ficar um pouco mais leve.

Quando não estava sob o efeito da febre, ela não era muito mais forte que uma pessoa normal e tinha muitas limitações, o que, às vezes, era frustrante.

Com a febre, eu poderia rachar essas toras com as mãos nuas. Mas suponho que seja melhor ser uma fracote de vez em quando do que uma monstrenga truculenta incontrolável o tempo todo.

Depois de passar algum tempo trabalhando com o machado, Sulana recolhe um razoável volume da lenha que tinha rachado e volta para o refeitório, onde empilha a lenha próximo ao fogão.

Riodes, como sempre, não fez nenhum comentário ou gesto de agradecimento. Ao invés disso, pergunta:

– Como está a guerra?

Sulana se senta à mesa ao lado de Linete, que está mastigando um pedaço de pão enquanto canta baixinho uma melodia antiga, ignorando completamente o que se passa ao seu redor.

– Perdemos Mercília.

– Que filhos de uma nuti!

– Não se preocupe, podemos ter perdido a batalha, mas essa guerra está muito longe de terminar. Aquele infeliz ainda vai sentir o gostinho da derrota.

Linete olha para Sulana, surpresa.

– Qual infeliz?

Riodes revira os olhos e volta a seus afazeres.

– O General Vermelho, Linete. O líder do exército Carmim.

– Você conhece ele?

– Não pessoalmente.

– Então por que não gosta dele?

Riodes olha para a moça, com expressão de irritação no rosto.

– Linete, o general é mau, lembra? Muita gente foi ferida por causa dele. Tonien, Irassar, Manesta, todos eles estão aqui hoje porque quase morreram na guerra.

– Sim, decidir a qual lado me juntar foi bastante fácil – acrescentou Sulana. – Aquele tirano não pode vencer.

Linete olha de um para o outro, com olhar de reprovação.

– Não é educado falar mal dos outros pelas costas, vocês sabem.

Riodes chega a abrir a boca para retrucar, mas acaba decidindo que não valia a pena e apenas balança a cabeça, voltando a encarar Sulana.

– E ainda tem o problema da escravidão. Se ele…

– Escravidão?! – Linete exclama, parecendo horrorizada. – Escravidão é proibida no mundo todo há séculos!

– Sim, Linete – responde Sulana. – Mas aquele homem a pratica sem arrependimentos. Mais de uma vez tive que lutar contra antigos companheiros, que tinham sido capturados e escravizados. Um dia desses ainda vou encarar esse general frente a frente. – Sulana bate o punho de uma mão contra a palma da outra. – E vou colocar o miserável no seu devido lugar.

– Não alimente esperanças – resmunga Riodes. – Guerras são criadas por homens que ficam protegidos atrás de suas mesas e nunca pisam no campo de batalha.

♦ ♦ ♦

Como Belísar sabia que aconteceria, seu sono foi agitado e errático, e ele acabou passando boa parte da noite acordado, acariciando os cabelos de Zelmira, enquanto ela dormia profundamente.

Considerando todas as coisas ruins que ele fez para ela, não deixava de ser uma enorme ironia o fato de que tocá-la desta forma consiga lhe acalmar. Ele imagina que isso se deva à rotina, afinal, estão casados há mais de treze anos.

De qualquer forma, o calor e a proximidade dela acabaram por levá-lo a esquecer seus demônios internos por tempo suficiente para voltar a pegar no sono.

O sol ainda não tinha nascido quando a porta do quarto foi escancarada. O casal deitado sob as cobertas fingiu não perceber nada até que duas figuras excitadas saltaram sobre eles.

– Bom dia!

Belísar abre um olho e encara a garotinha risonha de cabelos negros e olhos azuis, que o fitava com expectativa.

– Mas já?

Enquanto isso, Zelmira surpreende o garoto de olhos verdes e cabelos castanhos, agarrando-o e o envolvendo em um abraço apertado.

– Que foi, seus danadinhos? – ela pergunta. – Por que acordaram tão cedo?

– Queremos treinar com o papai – responde a menina.

– Mas o papai está cansado, meus queridos – Zelmira protesta, em um tom carinhoso. – Ele trabalhou até muito tarde ontem.

– Aaaahhhhhhh – reclama a menina.

– Mas ele prometeu – diz o garoto.

Belísar lança um longo olhar a seus filhos.

– Acho que posso arrumar um tempinho.

As crianças soltam exclamações animadas. Belísar se senta na cama e desarruma o cabelo da menina, afetuosamente.

– Eu vou começar o treinamento com o seu irmão mais velho, mas já que Falcione não está me esperando antes do meio da tarde, acho que dá para praticar bastante com todo mundo.

Enquanto as crianças riem, excitadas, Zelmira se vira para o marido, fazendo um biquinho.

– Já está pensando em correr para a outra?

O garotinho solta uma risada ao ouvir aquilo.

– Ahahaha! Papai deixou a mamãe com ciúmes!

– Agora vai ter que dar um presente para ela – diz a menina, risonha.

Belísar ri também.

– Não se preocupem, eu sempre tenho um presente guardado para emergências. – Ele se vira para Zelmira. – Você está mesmo com ciúmes… de Falcione?

– Ela é jovem.

– Ela não tem um olho – contrapõe o garoto.

– Nem cabelo – diz a menina.

– E é feia!

– Ei – ralhou Belísar, tentando controlar o riso. – Nada disso é culpa dela. Não sejam mal-educados.

– Não quis dizer que ela é feia. Só que a mamãe é mais bonita.

– Isso mesmo – diz a menina. – A mamãe é muuuuuuuuuuuito mais bonita!

– Ahhhhh! Seus fofos! – Zelmira volta a abraçar o garoto, enquanto Belísar balança a cabeça e solta outra risada.

Algum tempo depois, Belísar e Zelmira descem para tomar o desjejum.

– Não acredito naqueles dois – comenta ele.

– Eles são adoráveis, não são?

– Acho que o único arrependimento que vou levar para o túmulo será o de não ter a oportunidade de ver os dois crescerem, se tornarem adultos, se casarem e terem seus próprios filhos.

– Marcelius! Não quero mais ouvir nenhuma palavra sobre isso!

Ele solta um suspiro.

– Bom, independente do que aconteça, estou feliz por termos os dois.

– Se você está feliz, então todo o esforço valeu a pena.

Realmente, eram crianças adoráveis. Sagante tinha oito anos de idade e a pequena Vênega tinha sete. Foram as gravidezes mais difíceis de Zelmira. Não que alguma delas tivesse sido fácil, muito pelo contrário. Marcelius tinha ficado, de certa forma, aliviado ao saber que ela havia perdido completamente a capacidade de engravidar depois que a menina precisou ser extraída, felizmente viva, através de um corte em sua barriga. Vê-la passar por todo o sofrimento que era gerar um filho dentro de si e depois perdê-lo, como havia acontecido nada menos do que seis vezes, tinha sido uma tortura. Apenas três de seus filhos sobreviveram à gravidez e o parto.

O mais velho entrava na sala neste momento, parecendo animado.

– Bom dia!

– Bom dia, Baliorge – Zelmira se aproxima para dar um beijo no rosto do filho.

– Bom ver você se juntando a nós tão cedo – diz Belísar. – E, falando em cedo, olha só quem resolveu se apressar hoje também.

Os dois irmãos mais novos entram correndo no salão, com exclamações entusiásticas de “bom dia”.

– Nem lembro a última vez que se arrumaram e desceram tão rápido – comenta Zelmira, antes de olhar para o filho mais velho, que está se acomodando à mesa. – Sabia que aqueles dois ali resolveram fazer um ataque surpresa para nos tirar da cama?

– Claro que sabia – diz Marcelius, com um sorriso. – Provavelmente ele é quem foi o autor do plano.

Baliorge Belísar subitamente ficou muito interessado em um detalhe da toalha. Zelmira olhou para os dois pequenos.

– É verdade isso?

Os dois pequenos exclamaram um “sim”, de forma longa e animada.

Marcelius olha para Baliorge. O rapaz parece bastante ansioso para o treinamento de combate que lhe vem sido prometido há semanas.

– E por que não se juntou à sua tropa?

– Ah, pai! Eu já tenho 15 anos!

– Se quiser ser um bom líder, garoto, é bom aprender desde cedo que nunca deve delegar a seus subordinados tarefas que você mesmo não esteja disposto a realizar.

– Ah, mas o senhor vive dizendo que um governante não faz nada sozinho e precisa delegar coisas para os outros!

– Sim, mas eu mando meus soldados fazerem apenas as tarefas que eu mesmo não me importaria em fazer. – Por um momento, Belísar se recorda da expressão amedrontada daqueles invasores na caverna. – Aquelas que eu não gosto, eu não delego a ninguém, prefiro fazer eu mesmo. E, se ver que eu não posso dar conta sozinho, eu tomo a dianteira e apenas peço para meus soldados me darem apoio.

– Muito bem – Zelmira interrompe –, agora vamos comer. Se vocês três querem tanto se divertir junto com seu pai, quero que pelo menos estejam muito bem alimentados, ouviram?

Belísar passa a maior parte do dia treinando artes marciais com seus filhos.

Talvez aquilo fosse uma bênção, mas o fato é que nenhum dos três parecia ter herdado as afinidades místicas dele. De qualquer forma, eram muito fortes, rápidos e inteligentes, além de cheios de energia e animação. Treiná-los em combate era uma tarefa bastante gratificante, pois aprendiam rápido e gostavam de praticar.

Infelizmente, Belísar não tinha mais todo o tempo livre de que gostaria. Desde que começara sua cruzada para dominar a província, eram muito raros esses dias em que podia passar uma manhã ou uma tarde inteira com eles, avaliando seus progressos, vendo-os rir e se divertir.

Ao se despedir deles, no começo da tarde, ele olha para aqueles rostinhos cansados e imagina que aquela ali, provavelmente, era a única parte de sua vida que ele teria dificuldade em abrir mão, caso houvesse a possibilidade de mudar o passado. Quase tudo em sua vida estava viciado, contaminado por seus erros de tal forma que ele abriria mão sem pensar duas vezes. Mas aquelas crianças, não. Eram fortes, saudáveis, tinham um brilhante futuro pela frente.

Belísar não se considerava digno de poder desfrutar esses momentos, pois estava muito além da redenção. Mas os pequenos, apesarem de serem consequências diretas de seus erros, haviam crescido praticamente intocados por eles… inocentes, puros.

Vendo os três se afastarem um pouco, antes de se voltarem e acenarem alegremente, ele admitiu, pela primeira vez em décadas, que talvez ele próprio servisse para alguma coisa além de lutar. Ironicamente, aquilo lhe trouxe tristeza, pois, se tivesse uma revelação como aquela durante sua juventude, as coisas hoje seriam diferentes.

Muito diferentes.

A maioria das pessoas que trabalhavam e moravam no palácio observava de longe, fazendo uma espécie de círculo ao redor do grande pátio, como um comitê de despedida improvisado. Os que não estavam por ali apareciam nas janelas, como se o fato de ele estar partindo fosse algum tipo de espetáculo, algo tão interessante que não podiam perder de jeito nenhum. Belísar não gosta muito desse tipo de atenção, mas as pessoas parecem se sentir bem tratando-o daquela forma, como se fosse uma celebridade, um imperador ou um rei. Ele não se considerava nada daquilo, mas se o povo estava feliz pensando assim, então, que fosse.

Respirando fundo, ele força um sorriso no rosto enquanto acena para sua família, num último gesto de despedida.

– Tenha cuidado – diz Zelmira. – Estaremos aqui esperando sua volta e torcendo por você!

Ele lança um último sorriso à sua esposa. Não havia sentido em refletir sobre coisas que não podia mudar. Agora tinha trabalho a fazer. Era hora de Marcelius mais uma vez dar lugar a Belísar, o General Vermelho.

Então ele olha ao redor, para assegurar-se de que não havia ninguém muito próximo a ele. Fechando os punhos, ele sente os estabilizadores em seus cotovelos e joelhos pulsarem conforme a energia era acumulada. Logo, pequenas descargas elétricas começam a percorrer toda a extensão de seu uniforme, algumas delas atingindo o chão, enquanto ele começa a levitar, subindo devagar, a princípio, mas ganhando velocidade aos poucos, enquanto uma aura azulada similar a uma chama o envolve, até que em poucos instantes apenas a silhueta de seu corpo podia ser avistada através das energias místicas.

Após lançar um último olhar à multidão lá embaixo, ele completa o processo de ignição e se lançar pelo ar, com incomparável velocidade, cruzando os céus da província.

♦ ♦ ♦

– Sulana, já não era sem tempo! Onde você estava?

Limpando o suor da testa, ela encara o velho Riodes com irritação.

– Evitando que os animais morram de fome.

Ele a olha de cima a baixo, notando o suor e a sujeira gerados pelo trabalho duro que andou executando durante toda a manhã.

– E você quer o quê? Um prêmio? Por fazer sua obrigação?

Aquilo não fazia nenhum sentido e ambos sabiam disso, já que ela era voluntária ali e não recebia absolutamente nada por aquele trabalho, bem como ele.

Sulana leva as mãos à cintura e franze o cenho.

– O que quer?

– Temos que consertar a goteira do alojamento das crianças. Veja se encontra algo que preste na pilha de sapê para colocar no lugar da palha podre.

Ela lança um olhar para o telhado da construção em questão, notando a mancha escura no lugar onde uma depressão havia se formado e a água se acumulava sempre que chovia. Consertar aquilo a manteria ocupada por horas, e seria um bom exercício físico, mas parecia uma tarefa tão banal, tão… supérflua.

Fazia uma semana desde a batalha de Mercília. Normalmente Sulana ficava satisfeita por muito mais tempo depois de uma luta, mas por alguma razão, já podia sentir o familiar chamado da fúria.

Riodes estranha o demorado olhar contemplativo dela.

– O que foi? Vai dizer que já está cansada? Ainda não é nem meio dia.

– Estou cansada é desse seu falatório. Este lugar está um tédio.

Ele a avalia por um instante.

– Por que não vai no vale depois de consertar o telhado? Precisamos de mais sapê.

Imediatamente ela se sente mais animada ante à perspectiva de um longo passeio pela floresta.

– Pode ser.

Ela começa a se afastar para pôr as mãos à obra, quase não ouvindo o resmungo baixinho dele.

– Só você mesma para ficar alegre ao pensar em pôr os pés naquele lugar…

Uma hora depois, Sulana está andando pela parte da floresta que todos costumam evitar. Não que existam muitas pessoas nessa região que tenham vontade ou capacidade para isso.

Parece que faz anos desde que vim aqui pela última vez. Estava mesmo precisando disso.

De repente, as árvores ficam silenciosas. Ela podia sentir uma presença próxima. Algo grande, forte, perigoso. Um predador.

Com um sorriso de expectativa, ela decide ir à caça.

Ao fim da tarde, ela está em meio ao pasto das cabras, ao lado de uma velha cabana de paredes de barro, colocando a tampa em um grande barril de madeira, quando sente a aproximação de alguém. Uma animação quase eufórica toma conta dela ao reconhecer o homem através da cadência de suas passadas decididas.

– Vejo que está bem ocupada, como sempre – diz Giarle Miliens.

Ela se vira para o líder da facção rebelde, com um sorriso cheio de expectativa.

– Por favor, me diga que temos uma missão!

– Nós temos uma missão – responde ele, levantando a sobrancelha.

– Que alívio! Já estava começando a ficar louca sem algo para fazer.

Ele franze o cenho e olha ao redor.

– Pelo que ouvi por aí, coisa para fazer é o que não falta neste lugar. A propósito, o que está fazendo?

Ela olha para o barril.

– Ah, isso? Nada, só estou colocando um pedaço de couro para curtir.

Giarle tapa o nariz enquanto levanta a tampa, sabendo que alguns ingredientes usados naquele processo tinham odores bastante… característicos. Surpreso, ele pega a colher de pau que está na mão dela e a introduz no líquido, levantando um pequeno pedaço do couro submerso, de forma que pudesse vê-lo melhor.

– Onde conseguiu isso?

– Estava rondando a região, provavelmente atrás de algo mais suculento que um coelho.

– Você matou um tigre? – Ele olha na direção das construções à distância. Conhecia o lugar bem o suficiente para saber que nenhuma das pessoas que viviam ali tinham qualquer habilidade de caça. – E sozinha?

Sulana recupera a colher e volta a ajeitar o couro no barril.

– Já matei muitas coisas.

– Pelo tom do pelo, me parece que era um daqueles que dão bastante trabalho.

Ela volta a tampar o barril.

– Ah, ele só usava aumento místico de força e um escudo mequetrefe. Nada muito preocupante.

Ele a encara atônito por um momento, antes de sorrir e balançar a cabeça.

– Só você mesma para fazer pouco caso de uma criatura dessas.

Sulana pega uma bacia cheia de ferramentas de carpintaria e entra na cabana. Enquanto começa a guardar cada coisa em seu lugar, Giarle se encosta no batente da porta e dá uma olhada no interior.

– Você disse que temos uma missão – diz ela. – Para onde vamos?

– Parece que os carmins não estão satisfeitos com Mercília, estão se preparando para avançar de novo. Querem agora tomar a próxima cidade do vale: Revoada.

Sulana solta um suspiro, desapontada.

– Temos que proteger outra cidade? Quando é que vamos sair da defensiva e começar a atacar?

– Se vencermos ali, será muito mais fácil retomar Mercília depois.

Ele volta a correr o olhar pelo interior da minúscula cabana que, assim como das outras vezes em que estivera ali, estava cheia de figuras entalhadas na madeira. A maioria era de animais de diversos tipos, mas havia algumas que representavam pessoas.

– Puxa! – Ele se adianta e toca em uma escultura nova, cuja madeira ainda não estava completamente seca. – Não sei como acha tempo para esculpir essas coisas, considerando todo o trabalho que faz por aqui.

Ela dá de ombros.

– As tarefas que me dão não podem ser feitas à noite.

– E por que traz as esculturas para cá? Não seria melhor guardar em sua cabana?

– Não tenho espaço para mais nada lá.

Ele dirige a atenção para duas peças maiores e mais antigas, num canto.

– Você disse que aqueles dois ali são seus pais, não é?

Sulana olha para as esculturas, avaliando criticamente seu trabalho e concluindo que já fez coisas muito melhores.

– Têm uma vaga semelhança.

– Me parecem perfeitas.

– É porque não conheceu minha família.

– Hummm…

– O quê?

– Me parece que, quanto maior a escultura, maior o significado que ela tem para você.

Ela volta a dar de ombros.

– Sei lá. Não costumo pensar muito nisso. Só uso o cinzel quando me dá vontade e não tenho nada melhor para fazer.

– Bom, aquelas duas no canto ali, com certeza, são as maiores… – ele se interrompe, de repente, surpreso. – Ei! Exceto por aquela ali!

Ele aponta para um busto esculpido em madeira, que está pendurando por um fio amarrado à viga que sustenta o teto de palha.

– Essa também é nova, não é? Não tinha visto ela antes. – Ele avalia a peça por um tempo. – É um trabalho sensacional! Quero dizer, não que os outros não sejam também. Mas olha para os detalhes desse rosto… parece tão real…

Ela muda o peso de um pé para o outro, incomodada.

– Como eu disse, estava entediada. Podemos ir agora?

Ele a ignora e continua estudando a figura.

– Isso não parece ser uma pessoa. O que é? Algum tipo de monstro com feições humanas?

– Não sei. Não me importo.

– Você não costuma entalhar coisas que não tenham importância. Ainda mais num trabalho tão grande e detalhado como esse.

– Para tudo tem uma primeira vez. Podemos ir logo?

♦ ♦ ♦

A voz grave e imponente de Falcione se faz ouvir pelos túneis subterrâneos, nas proximidades da cidade de Revoada.

– Adiante! Vamos!

– Mas senhora – reclama um soldado –, temos que cuidar dos feridos…

– Se não avançarmos agora, não teremos chance de cuidar de ninguém!

– Mas…

Belísar se aproxima.

– Encontre outro voluntário para cuidar dos outros junto com você, soldado.

– Sim, senhor!

– O restante de vocês – diz Belísar, olhando para os soldados que presenciavam a cena –, atrás de mim!

– A maior leva deles deve estar logo à frente – comenta Falcione.

Como que em resposta àquela afirmação, um coro de urros e rosnados chega até vocês, vindo dos túneis mais adiante.

– Protejam uns aos outros e não deixem que eles cheguem até onde estão os feridos!

– Vocês ouviram, vamos! – Falcione gesticula, de forma enfática, apressando os soldados a obedecerem.

Belísar se prepara para liberar seus poderes e segue com passos determinados pela passagem. Nesse momento, uma horda de monstruosidades sai das sombras e vem em sua direção, rosnando de forma ameaçadora.

Uma batalha frenética se inicia. Belísar manter o uso de seus poderes no mínimo possível, mas os oponentes são muitos, mesmo com a ajuda de sua tropa. Quando o último dos monstros finalmente cai, ele leva a mão ao peito, sentindo as familiares pontadas que indicam que havia gastado energia demais.

Falcione se aproxima dele, com uma ruga de preocupação na testa.

– Estou bem – diz ele. – Como estão os outros?

– Muito bem, graças ao senhor. Se continuarmos nesse ritmo, não deve demorar muito para conseguirmos cumprir nosso objetivo.

– Talvez. – Ele olha ao redor, pensativo. – Por que me sinto como um amador impotente toda vez que enfrentamos esses invasores?

– É compreensível. Esses seres são imprevisíveis demais.

– Não há como planejar uma estratégia infalível contra eles.

– Essa situação não pode continuar. Tenho que acabar logo com isso.

Uma oficial jovem se aproxima carregando um pesado livro em uma mão e uma pequena vara com ponta brilhante na outra, os cabelos loiros amarrados numa trança que balançava em suas costas.

– Nenhuma leitura energética nos arredores, senhor.

O nome dela é Emelin Necravis. Pode-se dizer que é a garota prodígio da tropa.

Tem olhos castanho avermelhados em um rosto de pele muito branca e coberta de sardas. Os longos cabelos loiros estão amarrados de forma displicente, o rabo de cavalo frouxo pouco fazendo para manter os fios organizados.

Conquistou a patente de tenente ainda muito jovem e hoje é uma das melhores aprendizes de artes místicas dos domínios de Belísar. No entanto, como a grande maioria dos sábios, tem certa dificuldade para interagir com outras pessoas, sendo quieta e reservada.

– Excelente – responde ele. – Parece que esses eram os últimos. Acha que este lugar é seguro, Falcione?

– Se houvesse algum portal por aqui, já teríamos encontrado – diz ela. – Nada no comportamento dessas criaturas sugere que possa existir alguma toca por aqui. Além disso, os túneis são desolados demais, não há comida ou água suficiente para eles se sustentarem – ela se vira para a moça. – Tenente, estamos na área de alcance?

– As leituras indicam que já ultrapassamos uma margem relativamente confortável além do limite mínimo.

Belísar e Falcione lançam um olhar confuso a ela.

– Não… quero dizer, sim – diz Emelin, atrapalhada. – Estamos dentro da área de alcance!

– Ótimo – responde Falcione. – Mesmo que os túneis não terminassem ali na frente, não haveria necessidade de avançar mais.

– Tenente – diz Belísar –, dê o sinal para a base enviar as tropas e mande iniciar a abertura do geoportal.

– Sim, senhor!

Falcione solta um suspiro e aperta os punhos.

– Desta vez, aqueles terroristas nem vão ver o que os atingiu.

♦ ♦ ♦

– Esta é a cidade de Revoada? – Sulana pergunta.

– Estava esperando outra coisa? – Ronam replica, com um sorriso.

– É menor do que imaginei. Tem cidades maiores na região, não tem? Por que os vermelhos decidiriam atacar logo aqui?

– Não sei. Estratégia, talvez.

Os dois passam pelos portões e observam as cabanas rústicas distribuídas de forma irregular pelo terreno.

– Dizem que, antigamente, havia tantos pássaros por aqui que, quando levantavam voo, pareciam formar uma cortina no céu – explica Ronam. – É por causa disso que decidiram dar o nome de “Revoada” quando a cidade foi fundada.

– Não vi muitos pássaros por aqui.

– É… as coisas mudam quando um monte de gente passa a morar no lugar, eu acho. A vida é difícil, as pessoas têm que comer… É uma pena.

Sulana olha na direção do centro da vila, onde Giarle está conversando com um grupo de pessoas. Seus olhares se encontram por um momento e os lábios dele se curvam em um leve sorriso, antes de ele levantar uma mão e apontar para cima com o indicador e movê-lo como se estivesse desenhando um círculo.

Reconhecendo o gesto, Sulana assente, assim como Ronam, e os dois começam a andar ao redor das casas, mantendo os olhos e ouvidos atentos.

– Parece que chegamos cedo – comenta Ronam. – O resto do pessoal provavelmente vai demorar mais um pouco.

– Só espero que isso não demore muito. Odeio esperar.

Assim como a maior parte das cidades e vilas livres da província, ou seja, que não haviam sido ainda dominadas pelo Exército Carmim, Revoada tinha um muro improvisado ao redor, obviamente construído às pressas e mantido em pé de forma bastante precária. Algumas partes dele eram feitas de pedra e outras de madeira, o que fazia com que parecesse uma colcha de retalhos gigante.

Em determinado momento, ela se aproxima da estrutura e dá umas batidinhas de leve, testando sua firmeza.

– Que nome dão para isso? “Muro”? “Cerca”?

– “Última esperança”? – Ronam sugere, com um sorriso.

Ela olha para ele, levantando uma sobrancelha.

– Tem razão, tem razão – ele diz, levantando as mãos. – O pessoal da cidade ficaria com o orgulho ferido se ouvisse isso.

– Por quê? Não é como se eles tivessem escolha quando construíram esse negócio. Duvido que conseguissem fazer um trabalho melhor do que esse. E sabe-se lá quantas vezes tiveram que reconstruir depois de algum ataque. – Ela aponta para uma determinada parte da estrutura, onde podem ser vistas marcas de garras ou mordidas.

Ronam olha para ela com um sorriso incrédulo.

– Sabe, às vezes é difícil entender você. Num momento está caçoando do negócio e no momento seguinte o está defendendo.

– Não espero que ninguém me compreenda. Nem sei se eu mesma me entendo.

Ronam levanta a cabeça e solta uma risada.

– Ao menos você parece descansada.

– Você também, e isso é outra coisa que não entendo. Dez dias atrás estava sangrando tanto que parecia estar nas últimas. Como pode hoje aparecer aqui assim, como se nada tivesse acontecido?

– Minha irmã é curandeira. Ela deu um jeitinho.

– Ah, é? E ela sabe que você está aqui?

– Hã… não.

– Se ela soubesse não o deixaria vir, não é? Você ainda não está curado.

– Besteira, estou ótimo. Além disso, você precisa de mim.

Sulana solta um suspiro impaciente.

– Escute, eu não dou a mínima para a maioria desse pessoal, mas você é um cara decente. Devia voltar para sua irmã e ficar com ela, esquecer essa guerra.

– Você esqueceria?

– Eu tenho outros motivos para estar aqui.

– Nós dois formamos uma ótima dupla.

– Você conhece a história dos membros do meu clã, não conhece?

– Sim, mas você é diferente.

– Não há diferença. Qualquer um que fique perto de mim está correndo risco.

– Não exagere – ele balança a cabeça. – E em relação aos outros, eu acho que você tem que dar um desconto. Eles só não a conhecem direito.

– Eles têm medo de mim. E talvez seja até melhor assim.

– O que há com você hoje? Por que está tão… sei lá… amarga?

– Eu sei lá! Já te disse: na maior parte do tempo nem eu mesma me entendo. – Ela sacode a cabeça e olha ao redor. – Afinal, cadê o resto do nosso pessoal? Já não deviam ter chegado?

– Devem estar nas redondezas. Giarle não quer todo mundo aguardando num lugar só para não repetirmos o fiasco de Mercília.

– É, mas tem quantos de nós aqui dentro? Vinte?

Nesse momento, uma estranha movimentação ocorrendo entre as casas chama a sua atenção.

– O que está acontecendo? – Ronam pergunta, baixinho.

– Pshhh!

Os dois se aproximam da movimentação devagar, tomando cuidado para não serem vistos. Para sua surpresa, soldados vermelhos tinham surgido sabe-se lá de onde e estavam rendendo os moradores e os poucos membros da resistência que estavam por ali.

Com um rápido olhar para o incrédulo Ronam, Sulana entra em ação, pulando sobre o casal de soldados que está mais próximo. Com uma agilidade nascida de muito treino e condicionamento físico, ela empurra o homem para o lado e desfere uma série de golpes na mulher, finalizando com um gancho no queixo que a faz tombar para trás. Enquanto ela cai, inconsciente, o parceiro dela reage, tentando fazer algum tipo de invocação, mas Ronam levanta uma das mãos na direção do homem e utiliza seus poderes para romper a fase das energias místicas que o outro tentava manipular. Ao ver que seus poderes desapareciam de repente, o homem olha para as próprias mãos, incrédulo. Aquilo dá a Sulana tempo suficiente para se aproximar dele e colocá-lo para dormir também.

O rebelde que os soldados estavam rendendo fica ali, parado, completamente embasbacado, enquanto diversos outros soldados correm em sua direção.

– Vai ajudar ou não? – Sulana diz a ele, enquanto se preparava para o confronto.

– Mas estamos cercados!

– Se quiser se render sem lutar, o problema é seu.

Sulana sente seu sangue se aquecer, a fúria se avolumando dentro dela, quase pronta para ser liberada. Mas então, uma voz autoritária brada atrás dela.

– O que está acontecendo aqui?

Por um momento, ela olha para aquele rosto autoritário e perigoso, sentindo uma emoção estranha percorrer seu o corpo, enquanto diversos soldados cercam a ela e aos rebeldes, apontando suas lanças de forma ameaçadora.

– Rebeldes, senhor – diz um soldado. – Atacaram de surpresa e derrubaram dois dos nossos.

Seus olhos percorrem o homem autoritário de cima a baixo, notando os artefatos de metal em seus pulsos, cintura e tornozelos.

– Você é o General Vermelho!

O homem não responde. Apenas a percorre com o olhar da mesma forma como ela fizera com ele, parecendo avaliar seu nível de ameaça a partir de sua forma física. Então Sulana estreita ainda mais os olhos, quando a surpresa dá lugar a uma súbita constatação.

Posso acabar com essa guerra! Aqui! Agora! Se esse maldito morrer, o conflito se encerra!

No entanto, o homem percebe a súbita intenção assassina no olhar dela.

– Parem! Vocês não vão querer começar uma batalha aqui. Estão sozinhos, cercados, e seus aliados são meus prisioneiros.

Para enfatizar o que dizia, o general se move para o lado, permitindo que vejam Giarle, que está um pouco atrás dele, amordaçado e com as mãos amarradas atrás do corpo, ladeado por dois soldados de uniforme carmim.

– Como podem ver, seu comandante já se rendeu.

– Seu covarde! – Sulana grita. – Ao invés de tomar alguém como refém, por que não luta comigo? Vamos resolver isso como guerreiros! Ou você, por acaso, é um daqueles que só manda os outros resolverem as coisas por você, sem nunca sujar as próprias mãos?

Aquelas palavras, no entanto, acabam tendo um efeito bem diverso do que ela imaginava. Os soldados vermelhos se entreolham por um momento e… caem na gargalhada.

– Hahahaha! A moça quer tombar como uma guerreira, senhor, por que não realiza o pedido dela?

– Hehehe! Isso mesmo, queremos ver um pouco de ação!

O general lança um olhar atravessado para eles. Os soldados continuam sorrindo, não parecendo muito intimidados, mas pelo menos ficam quietos.

– Não temos tempo para diversão – diz Belísar. – Levem todos para os túneis, vamos!

– Sim, senhor – respondem os soldados.

Enquanto era levado pelos braços, Giarle encontra o olhar de Sulana por um breve momento. Ela percebe o estreitar de olhos, o brilho determinado do olhar. Estava lhe dando uma ordem. Ele queria que ela matasse o general. Não se importava com seu próprio destino, desde que a guerra terminasse.

O general vira a cabeça na direção dela.

– Quanto a você, acalme-se, agora não é hora para isso.

Uma outra sensação toma conta de Sulana. Alguma coisa, de repente, parece fora do lugar. A forma como o general está se comportando não se encaixa muito bem com a imagem que tinha dele. Pela primeira vez em muito tempo, ela fica confusa diante da possibilidade de entrar em batalha. Para ganhar tempo, pergunta:

– Você não acha mesmo que vou deixar que faça o que quiser com essa cidade, não é?

Ela tenta manter acesa a chama da fúria, mas seus instintos parecem não considerar o general como uma ameaça. Como era possível estar cercada por inimigos, na iminência de ser capturada e se sentir tão calma? Para aumentar ainda mais sua confusão, o general percebe a sua hesitação e relaxa um pouco, parecendo… aliviado?

– Não, não acho – responde ele –, e no seu lugar eu faria a mesma coisa. Mas, se puder me ouvir por um momento…

– O que pretende fazer com toda essa gente? – Sulana o interrompe.

Ele hesita por um instante, antes de responder.

– Temos que tirar todos daqui. E rápido.

– Por quê?

Neste momento, um grito vindo dos portões chama a atenção de todos.

– Estão aqui!

Sulana se vira na direção do muro e imediatamente sente todos os seus instintos de combate aflorarem. Algo estava ali fora. Algo sinistro. Hostil.

E, aparentemente, muito mais perigoso que o General Vermelho e seu exército.

— Fim do capítulo 2 —
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