Carmim – Capítulo 5

Publicado em 29/06/2019
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5. Morte

– Cuidado, ele vai disparar de novo!

Belísar levanta a cabeça ao ouvir a urgência na voz de Falcione.

Há cerca de 50 metros deles, uma criatura humanoide com pele de um tom amarelado e cujo rosto era desprovido de olhos, nariz ou boca, levanta uma das mãos preparando um novo ataque.

Ainda tentando recuperar o fôlego depois de ter usado seus poderes para bloquear o ataque anterior, o general grita:

– Todos atrás de mim!

Então, levantando a mão direita, ele ativa os estabilizadores de seus ombros. Faíscas elétricas começam a sair de sua mão, cada vez mais rápido e em uma quantidade cada vez maior. Em segundos, sua força se intensifica a ponto de formar uma espécie de escudo eletromagnético.

A misteriosa criatura amarela aponta a mão para o alto e uma onda de energia negra brota do chão, serpenteando pelo ar e atingindo o escudo energético com violência. As energias medem forças entre si durante algum tempo, nenhuma conseguindo superar a outra e logo ambas se dissipam no ar, como se nunca tivessem existido.

O general desativa os estabilizadores e umedece os lábios ressecados, enquanto encara a criatura. Mesmo ela não possuindo expressão facial, ele não tem dificuldade em adivinhar-lhe as intenções.

– Ele está juntando forças para atacar de novo! Quanto tempo mais, Norlando?

A voz irritada do sábio vem de vários passos atrás dele.

– Não tenho como prever uma coisa dessas, homem!

– Estamos recebendo leituras claras, senhor – relata a tenente Emelin, que operava um dispositivo místico sob a supervisão do sábio. – O encanto está funcionando!

– Não conseguimos o que precisamos ainda – ralhou Norlando. – Foco, menina!

– Sim, senhor!

Falcione tenta acionar um artefato que está em suas mãos, e grunhe, frustrada, ao não conseguir.

– Este bastão não funciona mais! A carga deve ter se esgotado! Nossas opções defensivas estão se esgotando!

– Pela misericórdia! – Belísar exclama, frustrado.

Ele sente a exaustão o afetando, tornando seus membros cada vez mais lentos. Mas não há alternativa, ele precisa usar seus poderes mais uma vez.

Respirando fundo, ele une suas mãos e uma pequena esfera energética azulada surge à sua frente. Quando suas mãos se separam, a esfera explode gerando uma espécie de buraco no espaço do qual surgem oito diferentes descargas elétricas que se curvam no ar, tomando a direção da criatura.

O monstro abre os braços, invocando uma barreira de energia sombria que anula a maior parte dos raios, mas dois deles mudam de direção no último instante e contornam a barreira, curvando-se novamente pouco depois para atingi-lo pelos flancos.

Como a criatura estava com os braços abertos, os raios acertam primeiro em suas mãos, e ela solta um grunhido inteligível, coisa que nem deveria ser possível, uma vez que ela não tem boca.

Quando os raios finalmente se dissipam, o monstro se endireita devagar, olhando para as mãos, obviamente feridas.

– Na mosca – resmunga Belísar, sem energia para demonstrar alegria. – Vai levar algum tempo até ele regenerar as mãos, melhor vocês aproveitarem aí atrás, porque da próxima ele não vai pegar leve.

O monstro levanta a cabeça, como se olhasse para cima. Imediatamente, uma parte do chão logo à frente dele começa a escurecer.

Belísar arregala os olhos.

– Norlando! Ele vai abrir um portal!

– Deixa ele!

– Está louco? Ele pode trazer uma horda para cá, incluindo outros da raça dele!

– Só mais um minuto!

– Não temos um minuto!

– Quase lá… quase lá… – resmunga o sábio.

– Traduzindo as leituras – reporta Emelin.

– Vamos! Só mais um pouco… – Norlando diz, por entre os dentes.

Depois de alguns agoniantes segundos, a tenente exclama:

– Tradução confirmada!

– Pronto, general! – Norlando grita, com triunfo na voz. – Pode dar cabo dele!

Sem perder tempo, Belísar cruza os braços e levanta a cabeça, ativando simultaneamente todos os estabilizadores. Uma descomunal onda de energia o envolve, fazendo-o flutuar e forçando Falcione e os outros a se afastarem. Então ele fecha os olhos e aciona o último gatilho mental, fazendo com que a energia o lance na direção do monstro com uma velocidade inimaginável.

Tudo escurece por um momento. Os sentidos do general estão tão sobrecarregados com o fluxo energético que ele nem sente a colisão.

Quando volta a abrir os olhos, ele está deitado no chão em meio a uma pequena cratera. Seu corpo está exaurido, sua visão borrada, seus ouvidos estão zunindo e ele sente um cheiro quase insuportável de sangue.

Belísar se apoia nos braços e se senta, percebendo que sua pele perdeu completamente a sensibilidade. Ele não consegue sentir a textura e nem a pressão do chão contra sua mão. Não há como saber se sofreu algum ferimento mais sério na explosão, pois provavelmente sua capacidade de sentir dor também está comprometida.

– O senhor está bem? – Falcione pergunta, a seu lado.

Ele pisca um instante para tentar focalizar o rosto dela. Leva mais um momento para conseguir entender o que está dizendo.

– Isso foi… melhor do que eu imaginava.

Ela o ajuda a se levantar e ele tem dificuldade para manter o equilíbrio, mas sabe que é melhor se manter em pé, pelo menos até que seus ouvidos parem de zunir.

– O ataque… foi efetivo?

– Foi perfeitamente bem-sucedido ­– responde ela.

– Feridos?

– Apenas alguns arranhões. Como evacuamos a vila antes da chegada dos monstros, os aldeões estão todos sãos e salvos. E os soldados também estavam a uma distância segura, obedecendo à sua ordem para recuar logo depois que o amarelo apareceu.

Ele faz uma careta e olha o caos à sua volta.

– Nós destruímos completamente a vila.

– Podia ter sido pior.

Soltando um suspiro, ele volta a encará-la.

– Não podemos continuar nesse ritmo. Já é o terceiro amarelo com o qual temos que lidar esta semana.

– Sim, sem contar que, com o artefato do laboratório desativado, nada impede que os demônios invoquem monstros cada vez mais fortes. É bom que o plano de Norlando dê certo.

– Há! Conseguimos!

Belísar se vira na direção da voz e vê Norlando comemorando animadamente, com os braços levantados.

– Uau, isso foi incrível! – Emelin exclama, ao lado do sábio.

O zumbido no ouvido, pelo visto, já tinha diminuído, pois Belísar estava conseguindo ouvir com clareza os gritos excitados à distância.

– Pelo visto, temos boas notícias.

– Sim – responde Falcione –, uma coisa que parece em falta ultimamente. O senhor acha que consegue andar?

Ele se endireita, afastando-se dela e dando alguns passos cuidadosos.

– Parece que sim. Desta vez eu já conhecia bem as forças e fraquezas desse bicho, então não precisei me exaurir completamente.

Devagar, ele caminha até onde Norlando comanda seus assistentes na construção de alguma bugiganga mística.

– Ah, general – diz o sábio, em tom de saudação. – O senhor teve uma excelente performance, como sempre.

Belísar assente.

– O que conseguiu?

– Identifiquei a frequência mental dele. E com tudo o que gravei usando meu materializador telepático, posso dizer que consegui tudo o que eu queria!

O general troca um olhar com Falcione. Ela, obviamente, também não faz ideia do que o homem está falando.

– Parabéns, Norlando – diz Belísar. – Você é um sábio excepcional. Poderia nos dizer, por favor, o que conseguiu descobrir?

– Descobri que eles não esperavam encontrar o senhor aqui, e que foram pegos de surpresa. Esse amarelo era o último na ativa no momento e vão levar um bom tempo até conseguirem invocar outro. Temos tempo mais do que suficiente para invocar a nova muralha se começarmos agora. Por isso já iniciamos os procedimentos e…

Falcione sacode a cabeça e levanta uma mão, interrompendo a fala rápida e excitada do homem.

– Conseguiu tudo isso lendo a mente de um monstro?

– Esses amarelos não são simples monstros – responde Norlando. São mais como altos oficiais da horda de monstros. Eles comandam os demais como se fossem tenentes. São muito mais inteligentes do que pensávamos.

– E eles obedecem às ordens dos demônios? – Belísar pergunta.

– Como cachorrinhos adestrados. Não questionam e nem hesitam.

O general vira a cabeça na direção da pequena cratera, à distância.

– E não se importam de lutar até a morte, aparentemente.

– Isso é porque são imortais – retruca o sábio.

– O quê? – Falcione exclama, surpresa.

– Quero dizer, todos eles são – continua Norlando. – Quando sua energia vital é obliterada, eles são transportados de volta para seu mundo de origem. É por isso que se transformam em poeira. – Ele franze o cenho por um instante. – Eu já não tinha explicado isso para vocês antes?

O general volta a encará-lo.

– Antes você tinha dito que isso era uma teoria.

Aquilo pareceu enfurecer o homem.

– “Teoria” é o mais alto grau de confirmação de uma hipótese na física! Para algo ser considerado “Teoria”, é necessário que…

Belísar levanta uma mão.

– Tudo bem, Norlando, nós entendemos. Obrigado por esclarecer. O que mais descobriu?

– Nada. Não tenho tempo agora para decodificar toda a gravação.

– Então o que seus assistentes estão fazendo? – Falcione pergunta.

– Ora! Dando início à invocação da muralha, obviamente! Se não tiver mais nada, senhor, gostaria de voltar a supervisionar…

– Sim, claro, pode ir.

Norlando volta a passar instruções para os assistentes.

– Parece que os dois dias de descanso fizeram muito bem para ele – Falcione comenta.

– É. Creio que eu nunca o tenha visto tão… motivado.

Nesse momento, Norlando se irrita com algo que Emelin fez e a enxota dali, argumentando que deixasse aquelas tarefas com mãos mais experientes. Um pouco decepcionada, a tenente caminha até onde o general e Falcione estão.

– O… o senhor… tem mesmo certeza de que quer fazer isso, general?

– A muralha, você quer dizer? No momento, não temos alternativa.

– Mas uma muralha cercando toda a província? E sem torres de controle?

Ele balança a cabeça.

– Não temos como construir torres. Não para esse muro. Levaria meses, e não temos todo esse tempo.

– Mas isso quer dizer…

– Quer dizer que – Falcione a interrompe –, quando o muro estiver completamente construído, ele não vai permitir a passagem de nada e nem ninguém. Ebora ficará isolada do resto do mundo. Permanentemente.

A tenente se empertiga, desconfortável.

– Mas, isso é…

Belísar levanta uma mão, a interrompendo.

– Pense assim: qual é o limite de uma muralha? Até que altitude ela tem efeito?

Emelin olha para ele, surpresa.

– Entre um e dois quilômetros, eu suponho, mas…

– E o que tem acima disso?

– O… campo místico?

– Exato. A muralha não consegue impedir o fluxo de energia do campo, não é?

– Não, claro que não! Nada pode!

– Isso quer dizer que não estaremos, exatamente, presos, não?

Ela franze o cenho por um instante, até compreender.

– O senhor quer dizer… o senhor se refere… às pontes de vento imperiais?

– Exato. Elas permitem transportar pessoas de um local a outro através do campo místico, se não estou enganado.

– Sim, mas… as nossas pontes foram destruídas, e não temos nenhum sábio com treinamento para…

– O sábio que criou a primeira ponte também não tinha treinamento. Só precisamos pesquisar para encontrar uma forma de fazer com que funcione. E isso é o que você e os outros sábios foram treinados para fazer, não é? Pesquisar, eu quero dizer.

– Sim, senhor! Então o senhor quer que eu…

– Vá em frente. Os outros vão demorar um pouco para concluir essa invocação.

– Sim, senhor! Obrigada, senhor!

Ela sai correndo, toda animada, e pega um enorme livro de uma das bolsas que estão no chão por ali. Em seguida, se senta de pernas cruzadas no solo arenoso e começa a procurar algo avidamente pelas páginas.

Falcione observa a outra por um instante antes de dar um leve sorriso.

– O senhor conseguiu mesmo deixar a garota empolgada. Acha que ela tem alguma chance de sucesso?

– Se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos meses é que não devo subestimar ninguém e nem duvidar de nada.

♦ ♦ ♦

Sulana caminha em silêncio pelos campos, os quatro rebeldes vindo logo atrás dela.

– Tem certeza de que é para sudeste mesmo? – Alasdio pergunta, acariciando os fios de seu enorme bigode.

– Sim – responde Petroir –, devemos estar chegando.

– Não estou gostando disso – retruca Alasdio. – Esse lugar está muito estranho.

– Óbvio que é estranho. Você, por acaso, já se esqueceu de onde estamos?

– Parece que está tudo abandonado – comenta Lura. – Mato tomando conta das plantações, animais soltos perambulando por aí… Será que ainda existe mesmo uma cidade nessa direção?

– Claro que sim! – Petroir responde, enfático. – Ou, pelo menos existia, até um ano atrás.

Um cheiro desagradável e familiar vindo da direita subitamente chama a atenção de Sulana. Ela para e se vira naquela direção, avaliando os campos com atenção.

– O que foi? – Ronam pergunta.

– Silêncio!

Com cuidado, ela caminha na direção de um agrupamento de árvores. Desconfortáveis, os outros se entreolharam por um momento, antes de segui-la. Conseguem alcançá-la minutos depois, no meio de numa plantação destroçada do outro lado do pequeno bosque.

Então, cada um deles tem uma reação diferente.

Ronam empalidece e fica imóvel, com a boca entreaberta, como se tivesse entrado em um tipo de transe.

Lura cobre a boca com uma mão, mortificada, lágrimas vindo a seus olhos.

Alasdio olha ao redor com olhos arregalados e leva ambas as mãos à cabeça, chocado.

Petroir se vira e corre para o meio das árvores, antes de se ajoelhar e esvaziar o estômago.

Sulana avalia mais uma vez a cena desagradável à sua volta. Quando se luta em uma guerra, desenvolve-se uma certa resistência a cenas de morte e destruição, de forma que ela e os outros não se impressionam facilmente. Mas, mesmo tendo participado de batalhas sangrentas por tanto tempo, nenhum deles está preparado para isso.

O que está à sua frente não é um campo de batalha, é uma cena grotesca, perpetrada com um grau de crueldade muito acima do que qualquer um deles imaginava existir.

Sulana não está acostumada com as emoções que a envolvem e isso a deixa inquieta, desconfortável. Para tentar se livrar da sensação, ela engole em seco e avança, caminhando com cuidado pelo meio dos corpos mutilados. Há uma grande variedade deles: homens, mulheres, velhos, jovens, crianças e até bebês. A violência da qual foram vítimas havia sido tão grande que é difícil até mesmo contar quantos eram, tendo em vista que vários corpos estavam, literalmente, em pedaços.

– Mas… o quê…? – Alasdio exclama, abobalhado.

– O… o sangue ainda está fresco – comenta Ronam, depois de se recuperar da surpresa inicial.

– Que tipo de carniceiro faria uma coisa dessas? – Lura pergunta, ainda cobrindo a boca com a mão.

– Carniceiros – diz Sulana. – Foram vários. E tinham armas muito afiadas.

– Misericórdia! – Alasdio exclama.

Notando um padrão nas marcas no solo, Sulana começa a caminhar, determinada, numa certa direção.

– Onde você vai? – Ronam pergunta, surpreso.

Ela para e olha para ele por sobre o ombro.

– Estão perto.

– Misericórdia… – diz Alasdio, novamente.

Ronam olha para ele, preocupado.

– Cara, você não parece bem. Vá ver como está o Petroir. É melhor ninguém ficar sozinho.

O homem balança a cabeça algumas vezes e sai quase correndo na direção das árvores.

Sem dizer nada, Sulana volta a caminhar.

Ronam e Lura se encaram por um momento. Então, num acordo tácito, ambos cobrem os narizes e saem andando, atrás dela.

Na meia hora seguinte, os três atravessam um vale e chegam até um moinho de vento em meio a um grande campo de trigo.

Ronam olha para trás, preocupado.

– Cadê aqueles dois? Já deviam ter nos alcançado.

– Talvez tenham decidido voltar – sugere Lura. – Eu não poderia culpá-los.

– Escutem! – Sulana sussurra.

Todos ficam em silêncio e ouvem o barulho de conversas abafadas do outro lado da construção.

– Tem alguém atrás do moinho – Ronam conclui, baixinho.

Sulana respira fundo e aperta os punhos, seus sentidos identificando imediatamente o perigo. Os sons e cheiros são inegáveis. Há inimigos perigosos ali. E possivelmente em número maior do que os três podem dar conta.

Sem hesitação, ela sai correndo pela pequena trilha que contorna o moinho. Ronam e Lura a seguem apenas para estacarem, estarrecidos, ao verem ela segurando uma menina pelo pescoço, as pequenas pernas balançando no ar. Ao redor, há meia dúzia de pessoas, que parecem uma família de refugiados, vestidos em trajes sujos e rasgados. Todos encaram os recém-chegados com perplexidade. Parecem assustados e indefesos.

– Sulana – diz Lura –, o quê…

Ela se interrompe quando vê Sulana apertar com toda a força. O terrível som de ossos se quebrando reverbera pelo local, fazendo Ronam e Lura se encolherem, horrorizados.

No entanto, eles se surpreendem ainda mais com o que acontece a seguir. A menina se desintegra no ar. Tudo o que resta dela após alguns segundos é um pó que escorre pelas mãos de Sulana e forma uma pilha esbranquiçada no chão.

Os refugiados então reagem, avançando em sua direção enquanto suas peles se tornam cada vez mais escuras e suas mãos se transformam em apêndices que lembram ferrões, pontudos e afiados.

Por puro reflexo, Ronam imediatamente junta as mãos e se concentra, tentando ativar sua habilidade especial, enquanto a febre da batalha toma conta do seu corpo de Sulana.

O primeiro monstro tenta atingi-la com um golpe de ferrão, mas, utilizando a agilidade concedida pela febre, ela rola pelo chão, esquivando-se por pouco do golpe e levantando-se, em um movimento contínuo. Girando no ar, ela atinge o monstro no flanco com um forte chute que o lança para longe.

O segundo monstro aproveita que ela ainda está recuperando o equilíbrio para atacar, mas Sulana consegue segurar o ferrão no ar, espalmando a afiada lâmina de ambos os lados. Forçando o “braço” do monstro para cima, ela faz com que ele perca momentaneamente o equilíbrio. Então ela respira fundo e retesa o corpo, preparando um movimento de arrancada.

A fúria confere uma força sobre-humana a seus músculos e ela se lança contra a criatura, atingindo-a no peito com o ombro com violência. O monstro não parece sofrer danos, mas é arremessado para trás, derrubando também os outros dois que vinham atrás dele.

Nesse momento, os sentidos dela captam uma mudança sutil na atmosfera, o que a faz concluir que Ronan concluiu o processo de quebra de fase. A pele dos monstros subitamente muda de coloração, tornando-se mais acinzentada e parecendo ficar mais fina.

Aproveitando que a quebra de fase de Ronam desativou as proteções místicas das criaturas, Sulana corre na direção delas. Seu punho atravessa o ventre de um monstro em sua primeira arrancada. Enquanto ele cai, começando a se desintegrar, ela gira o corpo e atinge o segundo na cabeça, com força suficiente para os ossos do pescoço não resistirem ao impacto e se partirem com um estalo. Outros dois monstros se adiantam, mas ela se esquiva de seus ataques e praticamente repete os movimentos anteriores, eliminando-os da mesma forma como fez com os primeiros.

As demais criaturas observam a uma certa distância, parecendo não ter certeza se devem entrar na batalha. Neste momento, Lura recita as palavras ancestrais que ativam uma de suas habilidades.

– Vostoaki nebareos!

Uma espécie de lança energética se materializa no ar acima dela e voa à toda velocidade para a frente, transpassando o monstro mais próximo, que cai no chão e começa a se desintegrar, juntamente com os demais que Sulana derrubou.

Os demais monstros viram-se e começam a se afastar, correndo por entre os campos.

Lura leva a mão ao coração.

– Misericórdia! Nunca tinha visto monstros como esses antes!

Ainda tomada pela fúria, Sulana olha para todos os lados, avaliando os arredores, e depois sai em disparada atrás dos fugitivos.

– Céus! – Lura exclama. – Por que ela não deixa aquelas coisas para lá?

Ronam arregala os olhos.

– Os outros! Petroir e Alasdio! Os monstros estão indo na direção deles!

Quando a professora e Ronam a alcançam, um bom tempo depois, Sulana já deu cabo dos monstros. Infelizmente, ela tinha chegado tarde demais, pois seus amigos já tinham sofrido feios ferimentos.

Lura se ajoelha ao lado do primeiro rebelde caído.

– Pelo criador! Alasdio, aguente firme!

– Fácil… falar… – retruca ele, com sangue escorrendo de sua boca, bem como de inúmeros outros cortes pelo corpo.

A professora fecha os olhos e se concentra.

– Pariantes donatenai igarealia!

De forma quase instantânea, o encanto estanca o sangramento e Alasdio respira, aliviado.

– Ah… bem melhor… valeu – ele diz, com voz muito fraca.

Lura levanta a cabeça.

– E quanto a Petroir?

Após examinar o corpo do amigo por um instante, Ronam se levanta e balança a cabeça.

– Não há mais o que fazer.

– Oh, não!

Tentando dissipar os efeitos da fúria, Sulana anda de um lado para o outro e dá alguns socos no chão. O fato de ter não ter conseguido salvar um amigo tornava muito mais difícil recuperar o controle.

– Calma, Sulana – diz Ronam. – Não foi culpa sua! Não tínhamos como prever…

Sulana levanta uma mão e sacode a cabeça, ainda incapaz de falar. Então, ela se embrenha por entre as árvores, retornando minutos depois com alguns galhos e bastante cipó.

Ronam lhe lança um olhar confuso, mas não diz nada.

Pegando um dos galhos mais resistentes e pontudos, ela o finca no chão, usando o restante da sua fúria para abrir uma cova improvisada ao lado da trilha. Quando a fúria finalmente se dissipa, ela para de cavar e se aproxima do corpo ensanguentado de Petroir, em silêncio. Pegando-o nos braços com cuidado, ela o leva até a cova improvisada, onde o deposita com cuidado.

Ronam se adianta e começa a ajudá-la a cobri-lo.

– Ele lutou bem – diz Sulana, depois de alguns instantes. Ela se vira para Alasdio, ainda sob os cuidados de Lura. – Os dois lutaram. Não tive dificuldade em acabar com os monstros porque já estavam bastante feridos.

Alasdio parece ter perdido a consciência, enquanto Lura enrolava ataduras ao redor do peito dele. Ronam continua ajudando a cobrir o corpo do amigo com terra, em silêncio. Sulana voltou a se concentrar naquilo também.

O que mais pode ser dito numa situação como essa? Ter que lidar com a morte é algo comum para quem vive uma vida como a nossa. Todos sabiam dos riscos quando decidiram invadir o território do Exército Carmim.

Então por que estou perdendo tempo pensando nisso? Nunca tive problema para enterrar amigos antes, por que isso está acontecendo agora? E eu nem mesmo conhecia esse cara direito!

Depois de depositar algumas pedras sobre o buraco coberto, ela se levanta e começa a amarrar os galhos com os cipós.

– O que está fazendo? – Ronam quer saber.

– Temos que sair daqui. – Sulana faz um gesto de cabeça na direção de Alasdio. – E duvido que ele consiga andar. Precisamos de uma maca.

– Vou ficar… bem – diz Alasdio, mostrando que ainda estava acordado. – Só preciso… descansar.

– Pshhh! – Lura o repreende. – Feche os olhos e não tente falar.

Vários minutos se passam até que Sulana termina de confeccionar uma maca improvisada. Ela e Ronam estão terminando de ajeitar Alasdio sobre ela quando Lura chama a atenção deles com um sussurro.

– Vem vindo alguém!

Sulana se vira e olha para a trilha ao longe, vendo cerca de uma dúzia de cavaleiros vestidos com trajes vermelhos.

– É o Exército Carmim – diz Ronam, baixinho. – O que faremos?

– Ainda não nos avistaram – comenta Lura. – As árvores devem estar bloqueando a visão deles.

Sulana aponta para Alasdio, que está adormecido sobre a maca.

– Peguem ele e saiam daqui.

– Não podemos deixar você sozinha – protesta Ronam.

– Saiam agora e vocês três têm uma chance. Se demorarem, nenhum de nós volta para casa.

Sem esperar pela resposta, Sulana se adianta pela trilha, saindo de trás das árvores e seguindo na direção dos soldados.

Já lutei em desvantagem numérica maior antes e ainda estou viva. Se estiver sozinha, tenho boas chances.

Ela aperta os dentes.

É melhor mesmo eu ficar por conta própria. Se eu tivesse vindo sozinha hoje, ninguém teria morrido.

Os soldados esporeiam seus cavalos ao vê-la, partindo a galope em sua direção. Então Sulana reconhece a figura que lidera os cavaleiros e percebe que pode ter cometido um erro.

– Alto! Parada aí!

A voz autoritária pertencia à mesma mulher de cabeça raspada e tapa-olho que havia encarado Sulana de forma ameaçadora em revoada.

Sem se abalar, Sulana ignora a ordem e continua avançando.

A outra para sua montaria a alguns metros de distância enquanto os demais cavaleiros formam um círculo ao redor. Olhando para os lados e vendo-se cercada, Sulana para e respira fundo, antes de voltar a encarar a líder daquele grupo.

– Ora, vejam – diz a outra –, se não é Sulana Lautine. Além de invadir o território Carmim, ainda massacra dezenas de inocentes. Pelo visto, já está saindo de controle, assim como seus pais.

Sulana estreita os olhos.

– Você me conhece? O que sabe sobre meus pais?

A mulher apeia do cavalo e desembainha uma espada.

– Eu sei muitas coisas. Como eles morreram, por exemplo.

Sulana olha para os soldados, que a encaram de volta de forma ameaçadora.

Tenho que ganhar tempo, pensa ela, levando as mãos à cintura.

– Todos sabem como meu clã morreu.

– Os que espalharam essa história não estavam lá, como eu. Sei que seu povo assassinou centenas, talvez milhares de pessoas à sangue frio. Sem nenhum motivo ou provocação. Eu entendo que queira seguir os passos deles, já que tem o mesmo sangue amaldiçoado nas veias. Mas por que vir matar pessoas aqui? Para que se dar ao trabalho de se infiltrar nas muralhas? Quer se juntar a seus pais na morte?

– Acredita mesmo que eu matei alguém? Olhe para minhas roupas. Está vendo algum sangue aqui?

A mulher olha para Sulana de cima a baixo.

– Vai inventar alguma história dizendo que foram monstros que fizeram aquilo e que você foi atrás deles para fazer justiça?

Sulana inclina a cabeça para o lado, intrigada.

– Por que essa raiva toda? O que eu fiz para você?

– Você matou muitos dos meus soldados.

Voltando a encarar os cavaleiros ao redor, Sulana reconhece dois deles, os que havia deixado inconscientes em Revoada. Ela levanta a sobrancelha, antes de voltar a encarar a outra.

– É mesmo? Acontece que seus soldados atacaram nossas cidades e mataram muitos dos meus amigos.

– Sim, e agora eu vou matar você.

A mulher faz um sinal para uma cavaleira, que imediatamente bate com um pedaço de metal em um pequeno sino ornamentado que carregava em suas mãos. Nenhum som sai do objeto, mas Sulana sente seu corpo reagir como se tivesse ouvido um enorme estrondo. De repente, ela está desorientada, sem escutar direito e tendo dificuldade para manter o equilíbrio.

Então, a fulana mulher corre na sua direção, preparando-se para aplicar o golpe final.

– Morra!

♦ ♦ ♦

Está anoitecendo quando Belísar pousa no solo, próximo à entrada de um pequeno vilarejo. Os soldados que estão de guarda o recebem demonstrando respeito e o conduzem até uma das pobres cabanas de chão batido e teto de palha.

Afastando a cortina velha e empoeirada, ele entra na residência humilde e fica parado por um instante, até seus olhos se acostumarem com o ambiente escuro.

A mulher deitada no chão em meio a uma pilha de trapos velhos tem muito pouca semelhança com a forte e orgulhosa guerreira que ele conhece. Há feios hematomas na pele raspada da cabeça e no olho esquerdo, que normalmente ela mantém coberto para não exibir as marcas do golpe que a privara da visão daquele lado, anos atrás. Seu peito está envolto com faixas apertadas, o que devia significar uma ou mais costelas quebradas. A mão esquerda e a perna direita também estavam enfaixadas e presas com talas, o que indicava mais ossos partidos.

Ele lança um olhar para a moça que está passando um pano umedecido na testa da convalescente e, imediatamente, ela assente e levanta-se, saindo do pequeno recinto, em silêncio.

Depois que a cortina da entrada é fechada, ele ajeita a fogueira, colocando mais um pouco de lenha. O fogo se reaviva e a fumaça sobre até o teto de palha, desaparecendo através dele, atravessando com facilidade a barreira de caules secos de um tipo de gramínea de grande porte bastante comum na região.

– Você sabia que muitos consideram que essa palha tem habilidades místicas? – Ele olha para Falcione, perguntando-se se ela está dormindo. – Afinal, impede a passagem da água e do vento vindos de um lado, mas não do outro.

Ela abre o olho bom e o encara.

– Chamaram… você…

A voz dela está fraca e sonolenta, provavelmente efeito das beberagens ministradas para tornar a dor suportável. E era bem possível que ela também não tenha percebido que o chamara de “você” ao invés de “senhor”.

– Não, ninguém me chamou – responde ele. – Eu vim quando percebi que estava demorando demais.

– Minha… tropa…

– Estão todos bem. Ou, pelo menos, bem melhor do que você.

– Fracotes… – ela engole em seco. – Caem… no primeiro… golpe…

– E você, que de fracote não tem nada, precisou ser espancada até não conseguir mais se mexer antes de cair, não é? – Ele a olha, divertido, por alguns instantes, mas ela não responde. – Me disseram que o responsável não foi um monstro.

– Acha que… alguém… normal… conseguiria… fazer isso…?

– Quem foi?

– Sulana… Lautine… a rebelde… do clã… das montanhas…

Belísar sente o coração se acelerar ao ouvir aquele nome.

– “Sulana”? O nome dela é Sulana?!

Falcione balbucia algo ininteligível, enquanto ele leva a mão ao queixo, pensativo.

Será possível?

Ele se recorda da guerreira loira, alta e corpulenta, vestida em trapos enquanto dilacerava um monstro atrás do outro. Depois tenta compará-la com a imagem daquela protetora de pele branca e macia, cabelos presos na nuca e usando trajes imaculados.

Sim. É possível, sim! Como não percebi antes?

A maior diferença entre as duas eram os olhos. Os da protetora eram negros como a noite e profundos, misteriosos. Os da guerreira apresentavam um sinistro brilho avermelhado, mas aquilo, pelo que Falcione lhe contara antes, podia ser apenas um efeito colateral do uso dos poderes dela.

Será que ela é realmente uma protetora? Mas, se for esse o caso, ela, definitivamente, não vem do clã das montanhas. Afinal, protetores não são humanos e são enviados para este mundo diretamente dos céus.

Isso, se houver algum fundo de verdade nas coisas que Elinora diz.

Falcione percebe que ele está perdido em pensamentos.

– Você também… não parece muito melhor… do que eu…

Ele leva a mão ao pescoço e move a cabeça de um lado para o outro, tentando aliviar os músculos doloridos por toda tensão e esforço. Realmente, ele se sente como se tivesse tomado uma surra e tanto.

– Talvez você esteja certa.

– A muralha…?

Ele pega um pequeno objeto do bolso e o atira no fogo. Imediatamente, o brilho da chama se torna avermelhado e uma onda de energia se expande pelo ambiente. Os sons vindos do lado de fora silenciam e, subitamente, aquele pequeno aposento parece se afastar de tudo e todos. A sensação é como se estivessem dentro de uma bolha, flutuando no ar.

Confiante de que nada do que dissessem poderia ser ouvido por quem quer que fosse, ele se senta no chão e apoia as mãos atrás de si, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos.

– Concluída. Drenamos toda a energia do artefato que Elinora nos deu, mas o encantamento funcionou perfeitamente. Os demônios estão presos em Ebora, assim como nós.

– Descobriram… mais alguma… coisa…?

– Norlando decifrou o restante dos pensamentos do amarelo. Apesar de virem de outro mundo, eles são construtos, criados para guiar e liderar os monstros durante os ataques. Não conseguimos descobrir quem os controla porque ele não pensava em seu criador, apenas nas ordens que recebeu dele. Mas agora temos certeza de que se trata de um oportunista, querendo se aproveitar do momento em que as Grandes Entidades estão enfraquecidas para invadir este plano e tentar tomar o lugar delas.

– Então as profecias… e augúrios…

– Sim, estavam todos certos. Você estava certa.

– Se minhas certezas… valessem algo… eu… não estaria… assim…

Ele a encara.

– Eu não teria realizado nada disso sem você, Gardênia.

Ao ouvir aquele nome, que não é mais usado por ninguém além dele, ela fecha o olho e suspira. O ato, no entanto, parece lhe causar uma pontada de dor e ela se empertiga, fazendo uma careta e soltando um leve gemido.

Belísar aperta os lábios.

– Como é que ela conseguiu te deixar desse jeito, afinal?

– A… infeliz… tem a proteção… de alguma… coisa… ou de alguém…

A vontade de fazer mais perguntas é grande, mas a voz hesitante dela o faz se conter.

– Descanse. Podemos conversar quando estiver se sentindo melhor.

– Não ouse me… tratar como… uma inútil…

Ele solta um suspiro e se ajeita no chão, sentando-se de pernas cruzadas.

– Muito bem. Por que acha que que algo a protege?

Ela hesita por um instante.

– Eu usei… as técnicas de… controle que foram eficazes… contra o clã dela… – Ela olha para o teto. – Tinha certeza… de que ela estava… sob controle… a fúria estava… contida… escudo corporal… desativado… estava… indefesa… – O olhar dela se torna duro. – Então… a trespassei no ventre… com a espada… a maldita… devia estar morta… – Ela volta a olhar para ele. – Mas então… ela se libertou… de repente… e começou a… lutar como uma… louca…

– Se ela se libertou de uma técnica que afetava o clã das montanhas, isso não prova que ela não é um deles?

– Não…! A técnica… funcionou… alguma coisa… desativou o encanto…

– Espere! Você disse que a trespassou com a espada. Ela fez tudo isso com você mesmo estando mortalmente ferida?

– A febre da batalha… dá muito poder… principalmente… às portas da morte…

– E o que ela fez depois de… terminar com você e com os soldados?

– A maldita… virou as costas… e foi embora…

Ele franze o cenho.

– Como você ainda está viva? Pelo que sei sobre o clã das montanhas, quando estavam à beira da morte, entravam em um frenesi assassino. Não pensavam, não sentiam, não faziam nada além de matar qualquer coisa que estivesse à sua frente. Mas os soldados que estavam com você estão todos vivos e bem. O máximo que sofreram foram alguns cortes e escoriações. Os que quiseram lutar até o fim foram colocados para dormir com golpes na cabeça, que parecem ter sido aplicados com cuidado suficiente para não deixar sequelas. Aqueles que levantaram as mãos e se renderam nada mais sofreram. Graças a isso você foi salva, diga-se de passagem, pois eles puderam cuidar de você e trazê-la para cá.

Falcione está olhando novamente para o teto, em silêncio.

– Se ela fosse um deles, vocês não deveriam estar todos mortos?

– Eu… não sei…

– Como, não sabe?

– Ela teve… ajuda… tinha alguma coisa… lá… ela pode… ela deve…

– Você mesma me disse antes que nada consegue controlar essa gente.

Ela volta a ficar em silêncio e ele aperta os dentes, frustrado.

– Por que você a atacou, afinal?

– Houve um… massacre… Dezenas… de famílias… mortas… estraçalhadas… como se… tivessem sido… atacadas por um… animal descontrolado… – ela engole em seco novamente, obviamente afetada pela lembrança. – Seguimos a… trilha… e a encontramos…

– E você a atacou sem fazer perguntas.

– Eu…

Ela parece ficar sem palavras e fecha o olho novamente. Ele solta um suspiro.

– Você me disse que já tinha superado isso, Gardênia. Me prometeu que não agiria mais de forma irracional quando algo a lembrasse de seu passado.

Ela volta a olhar para ele.

– Ela estava… do lado de dentro… das muralhas… o que… mais… ela poderia… estar fazendo… ali?

– A maldição do clã das montanhas é similar à dos demônios, não é? Partindo desse princípio, a muralha não permitiria que alguém sob esse efeito a atravessasse. E mesmo se não fosse o caso, ela claramente lutou em legítima defesa. E ainda se recusou a usar força excessiva quando teve a chance. Ela não é um deles. Temos evidências demais do contrário para que você possa continuar afirmando isso.

– Não…! Tem que ter… outra explicação… eu sei… que ela tem… o mesmo sangue deles… eu pude sentir… você… – ela se interrompe, dando-se conta da forma inapropriada que o está tratando. – O senhor… tem que… acreditar em mim…

Ele a encara por um momento.

– Gardênia você tem que deixar o passado para trás. Eu nem poderia sequer começar a imaginar os horrores pelos quais você passou. Mas não pode deixar que isso defina quem você é. – Ela volta a olhar para o teto. – Eu pedi para que trabalhasse comigo porque eu vi em primeira mão o seu potencial. Você se tornou uma comandante excepcional apesar de seu passado e não por causa dele.

Ela olha para ele com uma expressão triste. Ele volta a suspirar.

– Não me olhe com essa cara. Você tem ótimos sentidos e consegue julgar pessoas melhor do que eu. Se você está convencida de que Sulana é filha do clã das montanhas, eu acredito em você. Estou questionando apenas porque não tenho certeza de até onde você está sendo racional e até onde está se deixando levar pelo ódio.

Ele se levanta.

– Pense no que eu disse, tudo bem? O fato de alguma coisa não fazer sentido não significa que não exista. Isso pode simplesmente indicar que não entendemos o que acontece, que não temos informações suficientes para isso.

Ela fecha o olho e assente, de leve.

– Por enquanto – continua ele –, eu quero que você descanse, recupere suas forças. Não sei se Sulana sobreviveu, mas de qualquer forma, ela é um mistério que precisa ser solucionado. Essa já é a segunda vez que ela aparece em um lugar onde não deveria ser capaz de entrar. E você é a pessoa mais capacitada para decifrar esse enigma. Nós precisamos de você. Acha que vai poder nos ajudar? Faria esse favor para mim?

Ela abre o olho e o encara, em silêncio, por um longo tempo.

– Se é isso… o que o senhor… deseja… eu posso… tentar… eu suponho…

Ele estranha a expressão que vê no rosto dela.

– Por que essa cara?

– Hã?

– Você está com expressão de quem quer dizer alguma coisa.

– É que eu… não esperava… digo… acreditava que… o senhor… não ficaria satisfeito… com o que eu fiz…

– E não estou mesmo. Você atacou sem conhecer direito sua oponente. Mas você já me viu ficando irritado com Baliorge várias vezes, não viu? O fato de eu não gostar da forma como ele se comporta de vez em quando não quer dizer que eu não reconheça o valor dele. Não me leve a mal: eu entendo as suas razões. Sei por que você age dessa forma. Eu só não quero ver ninguém se machucando. Nem você e nem ninguém.

– Acho que… o senhor… tem razão… tem muita coisa… que não se encaixa… eu não gosto de… digo… odeio quando… não consigo… entender alguém…

Lágrimas começam a escorrer dos olhos dela. Ele desvia o olhar.

– Eu gostaria de dizer que a tragédia que ocorreu com sua família nunca mais voltará a acontecer, mas isso seria mentira. Não tenho como garantir isso. E sinto muito que você tenha se deparado novamente com uma cena como aquela. Mas quero que se lembre de que agora não está mais sozinha. Toda a tropa respeita você. E estaremos aqui sempre que precisar de nós.

Ela assente.

– Eu posso… conversar com algumas… pessoas… descobrir… de onde ela veio… tem que haver… uma… explicação…

– Com toda certeza. Vou deixar isso a seu encargo. Quando descobrir alguma coisa, me avise.

Ela parece refletir por um momento antes de voltar a encará-lo.

– Conseguiram… rastrear… onde ela está…?

– Não está mais nos nossos domínios.

– Hã?

– Emelin detectou anomalias que sugerem que cinco pessoas pularam por sobre a muralha e entraram. Depois que você foi ferida, três delas atravessaram de volta.

– Mas então…

– Mas então, nada. Não há mais nenhum vestígio da presença dos outros dois em lugar algum dentro da área murada. Ou encontraram uma outra forma de fugir… ou estão mortos.

♦ ♦ ♦

Os pássaros cantam alegremente nos galhos das árvores enquanto o sol desaparece lentamente atrás das montanhas ao longe. A temperatura está amena, agradável. Estrelas surgem no céu limpo, sem nuvens. É um fim de tarde tranquilo, que normalmente prenuncia uma ótima noite de sono.

Mas para Sulana, no momento, nada daquilo significa nada.

Ela cerra os dentes com força para conter um grito de dor enquanto Derione derrama um líquido esverdeado sobre seu ventre, no local onde a espada daquela mulher a tinha trespassado.

– Agh! Quanto tempo mais isso vai levar?

– Aguente um pouco mais. Não fui agraciado com o dom da cura, por isso necessito recorrer a outros métodos.

Tentando se controlar, ela olha para o teto da cabana, imaginando vagamente que já está na hora de substituir parte daquela cobertura, já bem danificada por pássaros e insetos. Depois de mais alguns instantes, Derione finalmente guarda o frasco com o misterioso líquido verde.

– Estou orgulhoso de você – diz ele.

Ela o encara, surpresa.

– Por quê?

– Poderia ter tirado a vida de todos aqueles soldados, mas não fez isso. E não tomou nenhuma atitude agressiva antes de ser atacada.

É tão raro ele se mostrar satisfeito com qualquer coisa que ela faça que aquilo a deixa sem saber direito como reagir.

Ela volta a olhar para cima.

– Eu precisava ganhar tempo para os outros escaparem.

– Isso também é louvável. Proteger seus aliados, mesmo se colocando em risco.

– Vai mesmo ficar procurando razão para tudo o que eu fiz?

– Só estou feliz que esteja viva.

– Seus chefes realmente exigem que você fique me seguindo para onde quer que eu vá?

– Não é bem assim que as coisas funcionam, mas acredito que essa seja uma maneira de interpretar o que ocorre.

– Você não costumava ficar aparecendo com tanta frequência, antes.

– Porque nunca houve necessidade. Mas hoje estou aqui apenas para ajudar. E seu desempenho na batalha de hoje foi bastante recompensador.

Ela lança a ele um olhar de descrédito. Ele a encara, sério.

– Você tinha o elemento surpresa a seu favor. Sem tempo para se prepararem, aqueles soldados não teriam como se defender de você, o que ficou bem claro depois que eu neutralizei aquele dispositivo hipnótico em forma de sino. Mesmo com você gravemente ferida eles não tiveram a menor chance. Se atacasse de surpresa, poderia ter eliminado a todos, o que garantiria a seus amigos todo o tempo que precisassem. Você poderia até mesmo ter ido junto com eles.

– Talvez eu devesse mesmo ter feito isso. Aparentemente, é o tipo de coisa que todos esperam que eu faça.

Ela aperta os lábios, desgostosa consigo mesma.

Eu sei lá por que eu fiz aquilo! Parece que, depois que aquele infeliz morreu, tudo ficou diferente. Não entendo mais nada!

E de que adianta ficar pensando nisso?

Ela volta a encarar Derione, dessa vez, com raiva.

– E por que você está aqui cuidando de mim, afinal? Aquela infeliz está em estado muito pior do que o meu. Tive que quebrar diversos ossos dela até que ficasse quieta, já que aquela cabeça é dura demais para perder a consciência só com pancada. Ela não tem a mesma resistência que eu, por que não está lá cuidando dela ao invés de mim?

– Também estou orgulhoso de você por tê-la deixado viver – diz ele, esquivando-se da pergunta.

– Ora, cale a boca! Você estava lá. O que faria se eu matasse alguém na sua frente?

Ele pensa por um momento, antes de balançar a cabeça.

– Sinceramente, não sei.

Ela tenta se mexer, mas uma pontada de dor a faz desistir da ideia.

– Por que não deixou que a vadia me matasse? Assim, eu deixaria de ser um incômodo para você.

– Como pode dizer uma coisa dessas depois de tudo o que vivemos juntos?

Ela estreita os olhos.

– Se pensa assim, por que me jogou no colo do General Vermelho?

Ele desvia o olhar.

– Marcelius Belísar é um homem atormentado, que carrega nos ombros um peso grande demais para qualquer um suportar sozinho. Você e ele têm muito em comum.

– Eu?! Você acha que eu tenho algo em comum com aquele ditador?

– Muito mais do que imagina. E ele pode ajudar você.

De repente, toda a estranheza e frustração que ela vem sentindo ultimamente vêm à tona.

– Ah, sim, você acha que ele pode me ajudar com aquele problema, não é? Aquele que me torna incapaz de retribuir essa… essa afeição estranha que você parece sentir por mim. – Ela está tomada demais pela raiva para medir suas palavras. – Me diga, quando um homem se interessa por uma mulher, ele não se incomoda por ter outros homens olhando para ela? Sabia que o general se interessa por mim da mesma forma que você, talvez até mais? Por acaso já sabia disso antes de me colocar naquela praia ao lado dele? Acha que passar algum tempo com ele iria me “curar” desse problema e que eu iria retornar cheia de vontade de rolar no chão com você?

Ele dá um passo para trás, sobressaltado com aquelas palavras, mas então respira fundo e balança a cabeça.

– Sulana…

– Estou cansada disso tudo! Por que não vai embora e me deixa em paz?

– Sulana, você é importante para mim, não entende? E eu sei que, no fundo…

– No fundo, nada! Eu não gosto de você! Não tenho desejo nenhum que permaneça ao meu lado! Não quero você me ajudando! Tudo o que eu sinto por você é uma vontade enorme de quebrar essa sua cara!

Ele parece genuinamente surpreso.

– Isso não é verdade.

– Então desative esse escudo protetor para ver o que eu faço!

– Não fale assim, por favor.

– Eu não precisaria falar assim se você entendesse quando eu digo que eu não gosto de você!

– Então o que foi tudo aquilo depois da batalha de Mercília? Você veio até mim! E fez… aquilo tudo…

– Eu fiz tudo aquilo porque você parecia querer tanto que estava até sentindo dor, e eu estava embriagada pela batalha, a ponto de qualquer atividade física me parecer atraente.

Ele a olha com uma expressão estranha, sombria.

– Você não pode estar falando sério.

– Será que finalmente está entendendo que está perdendo seu tempo comigo? Nunca vou gostar, nem de você e nem de ninguém, assim como nunca vou deixar de ser uma assassina. Eu não vou mudar, não deixarei de ser o que eu sou! Se não concorda com isso, me mate, ou me jogue numa prisão ou o que quiser, mas pare de me atormentar!

Ela faz uma careta quando uma dor excruciante a atinge e o ferimento em seu ventre volta a sangrar abundantemente.

– Aaaahh!!!

– Acalme-se!

Ele cobre o ferimento com um pano e volta a despejar algo em cima, o que arde tanto que a faz ter um espasmo.

– Aaaargh!

– Fique calma, está bem? Se é isso o que quer, eu vou embora, não vou mais incomodar você. Mas por favor se acalme. Relaxe.

Sulana começa a sentir um abençoado alívio quando a região externa do ferimento subitamente para de latejar. A dor vai aos poucos sendo substituída por uma leve sensação de formigamento que vai se espalhando por todo o seu corpo.

– Por que… não fez isso… antes?

A voz dela sai um tanto grogue, sua língua subitamente parecendo inchada.

– Porque não achei que precisaria chegar até esse ponto.

Ela não consegue mais responder. Na verdade, não consegue nem mesmo manter mais os olhos abertos. Derione continua falando. Ela mal discerne as palavras, mas parece que ele fala mais consigo mesmo do que com ela.

– Com sorte, você vai dormir por tempo suficiente para a poção de regeneração fazer seu trabalho. Com você acordada, isso seria difícil, já que você se recusa a ficar parada.

Ela está entrando naquele estado entre a vigília e o sono do qual as pessoas não se recordam de nada no dia seguinte.

Algo toca a cabeça dela. Ele está correndo os dedos por seu cabelo, com carinho.

– Então… ele se interessou por você? Isso é bom. Você seria a melhor companheira que qualquer um poderia desejar, principalmente alguém como ele. Se ficarem juntos, talvez não seja mais necessário monitorarmos nenhum de vocês dois. – A voz dele fica fria, de repente. – E ficaríamos livres para ir atrás de criminosos de verdade.

De olhos fechados, ela não vê o que está ocorrendo, mas pode sentir o olhar dele em seu rosto por um longo tempo. Ela ouve barulhos que a levam a concluir que ele está colocando alguma coisa sobre a velha cômoda caindo aos pedaços.

– Já que é isso o que deseja, não voltarei mais. Mesmo que eu tenha que arcar com as consequências.

Ele hesita por um momento.

– Adeus.

Sulana não ouve mais nada e conclui que ele foi embora. Então a escuridão finalmente a envolve e ela mergulha em um sono profundo.

— Fim do capítulo 5 —
< 4. Muralha Sumário 6. Libertação

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