Carmim – Capítulo 9

Publicado em 05/05/2018
< 8. Confronto Sumário 10. Desígnio >

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9. Lembranças

– Que alívio – disse Giarle. – Todos disseram que não tinha como você ter sobrevivido àquela batalha, que já estava condenada antes mesmo de partir para cima do demônio daquele jeito, mas eu sabia que você era diferente, que as coisas não podiam acabar assim!

– Não faço ideia do que está falando – retrucou Sulana, enquanto encarava os quatro soldados vermelhos que estavam parados a uma certa distância, lançando a ela olhares desconfiados.

– Como não?! – Giarle exclamou, surpreso. – Era você, na praia da Galena, não era?

Farta daqueles olhares, Sulana se adiantou e agarrou Giarle pelo colarinho, sem nunca deixar de fitar os soldados. Imediatamente, eles sacaram suas armas, soltando exclamações abafadas de “coronel”.

– “Coronel”? – Sulana estreitou ainda mais os olhos, encarando Giarle. – Posso saber por que os vermelhos o estão chamando assim? E ainda mais mostrando tanta determinação em proteger você?

Ele havia se surpreendido um pouco com o movimento rápido dela, mas, fora isso, não apresentou nenhuma outra reação. O homem parecia não ter nenhum medo dela.

Como que para comprovar aquilo, ele riu.

– Acalmem-se – disse ele, aos soldados, enquanto Sulana o soltava. – E guardem essas coisas antes que alguém se machuque. Eu disse que queria vir sozinho, vocês me seguiram por sua conta, então tratem de ficar quietos.

Os soldados voltaram a guardar suas armas, os homens parecendo aliviados, mas as duas mulheres entre eles agora olhavam para Sulana com irritação ao invés da cautela de antes.

Giarle se virou para ela, ajeitando a gola da túnica.

– Depois do que você fez na praia, achei que tinha se libertado também.

– Já disse que não sei nada sobre isso. Quer fazer o favor de se explicar?

– Você não se lembra?

Ela deu de ombros.

– Estão me dizendo que fiz um monte de coisa nos últimos dias das quais não me recordo.

Ele franziu o cenho por um momento, então sua expressão se iluminou.

– Ah, deve ser isso! Você sofreu ferimentos muito sérios, é possível que tenha tomado alguma pancada na cabeça. Ou talvez o trauma dos ferimentos tenha sido muito grande. Já vi pessoas passando por isso antes, com o tempo você deve se lembrar.

– Que seja. O general está controlando sua mente?

– O quê? Não!

– Então porque está com eles?

Giarle suspirou.

– Já parou para pensar no porquê de ter se juntado à rebelião?

– Para lutar.

– Sim, mas lutar pelo quê?

– Eu não preciso de um motivo, ninguém que venha de onde eu vim precisa.

– Eu não acredito nisso, e acho que, no fundo, você também não.

– Você não me conhece.

– Sabe por que eu chamei você para o meu grupo?

– Por que você quer se deitar comigo.

Giarle arregalou os olhos, muito surpreso. Atrás dele, os soldados tiveram reações variadas. Um dos homens levou a mão à boca, para ocultar o riso, no que levou uma cotovelada do outro. Uma das mulheres revirou os olhos, enquanto a outra ficou parada, de queixo caído.

– Alguma vez eu a forcei a fazer algo que não quisesse? – Giarle perguntou, estreitando os olhos, assim que conseguiu se recuperar da surpresa. – Ou a constrangi de qualquer forma? Raios, alguma vez eu sequer cheguei a dar a entender que tinha intenção de me envolver com você?

– Não – respondeu ela, com os dentes cerrados.

Os soldados olhavam para eles como que hipnotizados, sem perder nem uma palavra.

– Então não venha jogar na minha cara fatos sobre os quais eu não tenho o menor controle!

Ele parecia sincero. E tinha que dar um ponto para ele por não ter tentado negar algo tão óbvio. E a verdade é que ele realmente nunca tinha sugerido nada, com ou sem palavras. Diferente de outros, como Derione, Giarle não havia tomado nenhum tipo de iniciativa.

– Você me fez uma pergunta, eu respondi. Talvez o tenha julgado mal, mas como poderia saber?

Ele respirou fundo, tentando se acalmar.

– Minha família… meus pais e meus irmãos… todos eles lutaram no conflito das montanhas.

Os olhos de Sulana tornaram-se bem maiores, com a expressão de surpresa que surgiu em seu rosto. Uma expressão que poucas pessoas já tinham visto.

– Todos que lutaram nas montanhas morreram.

– Sim – ele engoliu em seco. – Todos, sem exceção.

Os dois se encararam por um instante, antes de Sulana perguntar:

– Se é assim, porque me aceitou?

– Meu pai não morreu exatamente nas montanhas. Ele conseguiu voltar. Infelizmente os ferimentos eram sérios demais e ele acabou morrendo alguns dias depois. Mas antes, ele… ele me fez prometer que nunca deveria odiar o povo das montanhas. Ele acreditava que seu clã não fazia nada daquilo… “por mal”, digamos assim.

Ele fez uma pausa, olhando para o céu. Sulana olhou para os lados, notando que tanto o Exército Vermelho quanto o grupo de rebeldes pareciam impacientes. Não poderiam perder muito tempo ali.

Giarle passou a mão pelos cabelos. Se a intenção era ajeitá-los, falhou miseravelmente, pois continuaram tão arrepiados quanto antes.

– Assim, quando fiquei sabendo que alguém do clã das montanhas estava se juntando a nós, eu pedi para que ficasse no meu grupo. Você foi uma tremenda surpresa para mim.

– Por quê?

– Você tem muito pouco em comum com o resto de seu clã.

– O que quer dizer com isso?

– Eu cresci ouvindo histórias, as lutas das quais minha família participou. Sejamos francos: seu povo não usava subterfúgios, eles agiam por instinto, quase como animais. Atacavam e matavam pessoas sem provocação e nunca, em hipótese nenhuma, se aliavam com outros que não fossem da mesma estirpe.

– Isso não quer dizer nada. Não resta mais ninguém da minha… estirpe além de mim. Não tenho opção além de aceitar quaisquer outros aliados que eu conseguir.

– Para seu povo sempre existia a opção da morte.

Aquilo era verdade. Ainda podia se lembrar do dia em que Linaru Lautine a havia mandado embora.

Por que não vem comigo? ­– Sulana tinha perguntado.

Porque não podemos – tinha sido a resposta.

Era uma batalha sem esperança, todos sabiam daquilo. Mas Sulana tinha sido a única a fugir, apesar de terem tido bastante tempo e oportunidade para tal. Nem mesmo as outras crianças quiseram ir embora. A princípio ela também não quisera, mas seus pais a fizeram prometer que iria. Disseram que a sobrevivência dela os deixaria felizes e realizados. Ela nunca entendeu direito aquilo, mas acabou concordando.

Assim, ela cumpriu aquela promessa estúpida. E viveu mergulhada em um inferno de culpa e sofrimento desde então, do qual só conseguia sentir algum real alívio quando liberava sua fúria.

– Você nunca reage a provocações – continuou Giarle. – Não se descontrola, nem mesmo ao usar seus poderes. Você não é como eles. Nunca foi, e nem será.

– Cale essa boca!! – Sulana exclamou, de forma tão inusitadamente enfática que fez com que Giarle se calasse e a ficasse encarando, de olhos arregalados.

Por que aquele idiota tinha que ficar fazendo com que se lembrasse do passado?

Com gestos enfáticos, ela apontou para os lados, para os dois exércitos prontos para se engalfinharem a qualquer momento.

– Por que estamos perdendo tempo com essa conversa inútil?!

– Escute, você nunca sentiu uma excitação, um ímpeto sempre antes de qualquer batalha junto à rebelião?

Ela abriu a boca para falar algo, mas se interrompeu e ficou encarando os olhos escuros dele por um longo tempo.

– Você sabe do que estou falando, não sabe? Uma força quase palpável que nos levava a agir? Aquilo era a nossa motivação. Quase ninguém entrava para a rebelião por causa de nossos ideais. Se pensar bem, a rebelião não tem nenhum ideal, a única coisa que fazíamos era lutar contra os vermelhos. De qualquer forma. Pagando qualquer preço.

Sulana pôs as mãos na cintura.

– Você está dizendo que nós é que estávamos sendo controlados?

Assim que disse aquilo em voz alta, algo dentro dela mudou, a vontade de lutar, de superar os inimigos, de repente desaparecendo, deixando no lugar um vazio tão grande que ela levou a mão ao peito e piscou os olhos diversas vezes, surpresa.

Giarle se aproximou e pôs a mão em seu ombro, preocupado.

– Você está bem?

– Sim… acho que sim… Que raios…?

– Vazio no peito, frio no estômago, ânsia de vômito?

– Um pouco, mas como sabe?

– Aconteceu comigo também. Se bem que eu tive uma reação bem mais… intensa do que essa.

– O que quer dizer?

– Não sei como você conseguiu lutar contra uma daquelas coisas sem ter quebrado esse feitiço antes, mas, graças a isso, agora temos uma chance. Com o demônio morto, o controle que têm sobre os rebeldes se enfraqueceu. Talvez, se conversarmos com os outros, possamos libertá-los também.

– Eu ainda não me lembro de…

Ela se interrompeu e olhou ao redor, sentindo uma presença. Então uma figura transparente pareceu sair dos arbustos e saltar, levantando voo na direção da tropa rebelde.

– O que foi aquilo? – Giarle perguntou.

De repente, um enorme alvoroço pôde ser ouvido entre os rebeldes, entre rugidos, gritos e explosões.

– Nosso tempo acabou – Sulana concluiu, antes de sair correndo naquela direção.

– Iniciem a ligação telepática, agora! – Giarle gritou aos soldados, enquanto tirava uma luneta do bolso para analisar a confusão, à distância. – Droga! Precisamos avisar a todos que o inimigo se revelou.

♦ ♦ ♦

Marcelius acordou com uma grande dor de cabeça. Com um gemido, ele virou o rosto de um lado para o outro sobre as peles que lhe serviam de travesseiro, mas ao perceber que aquilo não lhe trazia nenhum alívio, fez uma careta e se forçou a levantar o tronco, levando a mão à nuca dolorida e soltando um gemido abafado.

Ao abrir os olhos, tudo lhe pareceu turvo e embaçado. Piscou várias vezes, tentando focalizar as imagens e descobrir onde estava… e estacou ao perceber que era observado.

– Bem-vindo ao mundo dos vivos.

Aquelas palavras foram ditas num tom brusco e não muito amigável, mas ele podia perceber a preocupação e o alívio por trás delas.

– Falcione – disse, tendo dificuldade para focalizar o rosto dela.

– Abram as cortinas!

Àquele comando dela, uma forte luminosidade invadiu o ambiente, fazendo com que uma dor aguda percorresse toda a cabeça dele. Marcelius levou a mão aos olhos e não conseguiu evitar soltar um novo gemido.

– A curandeira disse que você vai se sentir dessa forma por algum tempo, é o efeito das poções. E que não deveria ficar no escuro, pelo menos não depois que acordasse.

Ele abaixou a mão e tentou abrir os olhos devagar. Sabia que ela tinha razão, já passara por aquilo antes e, a julgar pelas experiências anteriores, quanto menos tentasse evitar a luminosidade, mais rápido melhoraria.

Então olhou para ela.

Falcione continuava usando talas e bandagens nos braços e pernas e, no momento, estava acomodada sobre uma espécie de divã improvisado, tendo os pés elevados, de forma a ficarem no mesmo nível do coração. Ficar incapacitada daquela forma deveria ser horrível para ela.

– Quanto tempo se passou desde a batalha?

– Três dias – ela respondeu, parecendo contrariada.

Ele olhou em volta e percebeu que estavam numa tenda grande, aparentemente erguida sobre a areia. O barulho das ondas podia ser ouvido, à distância.

– Meus filhos…?

– Na praia, praticando luta corpo a corpo, pelo que me disseram.

– Estão bem?

– Baliorge sofreu um ferimento feio das costas, mas nada que as artes da cura não pudessem dar um jeito. Os outros dois tiveram cortes, arranhões e ficaram cobertos de hematomas, mas nada muito sério. Já estão como novos. – Ela torceu os lábios. – O mais velho está até se gabando da cicatriz que ganhou.

Apesar da dor que sentia, Marcelius não conseguiu evitar um sorriso.

– Aposto que sim.

– É bom ter você de volta.

Marcelius a encarou. A visão já estava melhorando o suficiente para que ele pudesse detectar os traços de exaustão em seu rosto.

– Há quanto tempo está de vigília?

– Não muito. Tive que prometer aos seus filhos que ficaria de olho em você, era o único jeito de tirá-los daqui de dentro por algum tempo.

Ele afastou as peles que o cobriam e olhou para a túnica vermelha que estava vestindo e imaginou quanto trabalho deveria ter dado a seus súditos enquanto estivera inconsciente. Olhou para os braceletes metálicos em seus pulsos, muito menores e de aparência bem mais frágil do que os antigos, que haviam sido destruídos durante a luta.

– Conseguiram recriar os artefatos de contenção – concluiu ele.

– Nada permanente. Esses aí são só quebra-galhos para tentar manter as coisas sob controle até que os alquimistas consigam criar algo mais resistente.

– O que houve com o demônio?

Falcione suspirou.

– Está morto.

– É mesmo?

Ela desviou o olhar.

– Parece que aquela infeliz servia para alguma coisa, afinal de contas.

– Quem? Sulana? – Esquecendo-se da dor, ele arregalou os olhos. – Está tudo bem com ela? Onde ela está?

– Não sabemos. Desapareceu antes que os curandeiros pudessem examiná-la.

– Ela sobreviveu?

Falcione apertou os punhos com força.

– Parece que, depois de matar o demônio, ela arrastou você para junto das crianças e ficou montando guarda, andando ao redor de vocês, até os soldados chegarem. Se não tivesse visto as evidências com meus próprios olhos eu não acreditaria. – Ela virou o rosto para o lado, pigarreou e cuspiu no chão. – Nenhum daqueles malditos se importava com nada ou ninguém quanto atingiam o estágio terminal, apenas atacavam qualquer coisa que se movesse até que alguém lhes separasse a cabeça do corpo ou que não tivesse mais nada vivo por perto. – Falcione fechou os olhos e suspirou. – Mas, quando viu os soldados se aproximando, a infeliz simplesmente relaxou e tombou na areia. Foi levada para longe por algum tipo de encanto de transporte muito antes dos soldados a alcançarem.

Marcelius franziu o cenho ao perceber uma mudança no tom de voz dela.

– Está tudo bem com você?

Ela olhou para ele, surpresa, mas logo voltou a desviar o olhar.

– E por que não estaria?

– O que houve, Gardênia?

Falcione fechou os olhos. Ninguém mais além dele tinha a habilidade de pronunciar seu nome daquela forma. Como se fosse algo precioso, querido, fundamental.

– Eu quase a matei.

Ele franziu o cenho, imediatamente se arrependendo daquilo ao sentir uma nova pontada de dor.

– Você interceptou uma rebelde perigosa dentro das muralhas, coberta de sangue e ao lado de uma cena de carnificina.

– Passei dias furiosa comigo mesma por não ter atingido o coração ao invés do ventre dela. Mas, naquele momento, eu não queria que morresse rápido, queria que ela sofresse, para compensar ao menos um pouco de tudo o que o povo dela nos tomou. – Uma lágrima solitária caiu de seu olho bom. – Se eu a tivesse matado, se ela não estivesse aqui, você…

– Não creio que tivesse qualquer controle sobre nada disso, Gardênia. A vida é feita de escolhas, e não há justiça na maioria delas.

Aquilo era um fato inegável. Para ambos.

– Você não entende! Nossos soldados, os protetores, até mesmo Zelmira… se eu não tivesse deixado a infeliz ferida daquela forma, poderiam estar todos vivos!

Marcelius fechou os olhos por um momento, tentando manter sob controle o turbilhão de emoções que a partida de sua esposa desse mundo lhe provocava.

– Houve muitas baixas?

Ela apenas balançou a cabeça, subitamente incapaz de falar. A julgar pela expressão dela, devia haver uma quantidade considerável de novas famílias arrasadas pela perda de entes queridos.

Mas não havia nada que pudessem ter feito para impedir aquilo.

– Você está dando a Sulana muito mais crédito do que ela merece – disse ele. – Por mais forte que seja, não conseguiria parar todos os monstros sozinha. Além disso, foram os protetores quem a mandaram para cá, por alguma razão que ignoro. É possível que ela nem tivesse sido mandada se não estivesse ferida. Acredito que tenha sido mais uma das armações de Elinora.

Falcione o encarou.

– Parece que sim. Seu novo coronel descobriu que foi um deles quem sabotou nossas defesas.

– Meu coronel? Ah, você quer dizer, Miliens? Ele é um coronel da resistência, não meu. Ele continua lúcido? Onde está agora?

– Comandando nossas tropas para tentar conter um ataque rebelde. Eles conseguiram abrir um rombo na muralha e estão invadindo.

– O quê?! Droga! Tenho que… – ele se interrompeu, de repente, e olhou para ela, confuso. – Espere! Miliens está comandando uma de nossas tropas? E como os soldados concordaram em obedecer a ordens dele?

– Ele fez um discurso emocionado dizendo que, agora que um dos demônios morreu, talvez pudesse fazer com que seus antigos companheiros voltassem à razão.

Com uma careta, Marcelius se forçou a levantar.

– O idiota vai estar morto muito antes de conseguir isso!

♦ ♦ ♦

Existiam monstros infiltrados entre os rebeldes. Centenas deles. As pessoas foram pegas completamente de surpresa, tanto pelo ataque repentino quando pelo súbito mal-estar e pela sensação desorientadora de vazio que se abateu sobre todos, quando o feitiço de sugestão foi repentinamente dissipado. Quando finalmente conseguiram reagir ao ataque, uma carnificina já havia ocorrido.

A maior parte dos atacantes parecia ser daquela espécie que tinha ferrões no lugar de braços, que Ronam havia descrito. E descrito com bastante precisão, pelo que Sulana constatava agora. Ele também havia dito que não eram muito fortes, uma vez que ela havia matado diversos deles sem muito esforço. Ao abrir caminho pelas fileiras inimigas, ela constatou que aquilo também tinha sido uma descrição precisa.

Cercada de inimigos por todos os lados, ela tratou de liberar toda a sua fúria e deixar seus instintos de combate aflorarem.

Ronam, Lura e a comandante Iraele estavam entre um pequeno grupo de sobreviventes, lutando desesperadamente para se protegerem, formando um círculo ao redor dos feridos.

Tomaram um grande susto quando Sulana pareceu irromper do nada, massacrando todas as criaturas que fossem ineptas ou idiotas o suficiente para se meter em seu caminho.

Para Ronam, o mais impressionante nela não era a selvageria ou a força bruta. Ele sabia que o leque de habilidades especiais dela era bastante limitado. Baseava-se, fundamentalmente, em três coisas: força sobre-humana, possibilidade de enrijecer a pele a ponto de absorver impactos e a capacidade de ampliar o peso do corpo diversas vezes. Nenhum desses poderes, no entanto era permanente ou automático e nem durava por muito tempo, geralmente se esvaindo em frações de segundo. Enquanto atacava e se defendia, ou mesmo quando corria mais que poucos metros com muita velocidade, ela tinha que reativar as habilidades diversas vezes e nos momentos certos. Durante uma luta, era comum ter que ativar todos os três poderes ao mesmo tempo. Se tentasse dar um soco usando a força ampliada, por exemplo, acabaria com o braço quebrado ou pior. E se usasse apenas a força e a rigidez, acabaria sendo lançada para trás com o impacto do soco.

E isso era o que mais o impressionava: a capacidade de ativar habilidades místicas centenas de vezes seguidas, com pouco ou nenhum tempo entre uma e outra, muitas vezes tendo que usar várias ao mesmo tempo. Uma capacidade nascida de uma incrível afinidade natural e aprimorada graças a muita determinação e temperada por seu inato instinto assassino.

Os olhos dela brilhavam intensamente, o tom vermelho escuro, quase violeta, indicando que a febre da batalha estava ativada com força total, ampliando seus poderes várias vezes. No entanto, Ronam sabia que isso não serviria de nada se ela não soubesse de antemão como ou quando usá-los.

– Essa doida está descontrolada! – Iraele gritou.

– Não, não está! – Ronam retrucou, dando um passo para trás para ficar no meio do círculo. – Fiquem onde estão! Mantenham a formação! Ela é a nossa melhor chance!

O chão chegou a tremer quando Sulana golpeou com toda a força as costas de um monstro que havia caído de bruços, o horrível barulho de ossos se quebrando fazendo com que todos que estavam por perto se imobilizassem no lugar, inclusive os demais monstros. Então ela se endireitou e soltou uma espécie de rosnado. Como se percebessem quem representava o maior perigo, as criaturas passaram a ignorar os rebeldes e correram na direção dela.

Ronam deu um soco na palma de sua outra mão e fechou os olhos, torcendo para conseguir efetuar a quebra de fase mais rápida de sua vida. Por sorte, os ataques de Sulana tinham uma peculiaridade incomum, que fazia com que funcionassem como uma espécie de amplificador para os poderes dele. Ronam não precisava quebrar totalmente as defesas dos inimigos, bastava diminuí-las um pouco e Sulana terminava o trabalho com seus socos e chutes.

Quando a fase dos monstros foi quebrada, os rebeldes presenciaram uma das cenas mais violentas de suas vidas. Felizmente, os monstros se transformavam em cinzas quando eram seriamente feridos, caso contrário, o lugar teria se tornado um mar de sangue.

– Ela é sempre assim? – Iraele perguntou, perplexa.

– Está um pouco mais forte do que o de costume – comentou Lura.

Um movimento no ar chamou a atenção deles. Por puro instinto, Lura tirou um pergaminho de um bolso e o levantou, pronunciando duas palavras de uma língua antiga. Imediatamente, o pergaminho foi consumido por um fogo azulado e uma espécie de concha transparente se materializou alguns metros acima deles. Segundos depois, uma bola de fogo se chocava contra a concha com grande estrondo.

Terminando de dilacerar o último de seus oponentes, Sulana olhou para cima e percebeu, por entre a fumaça, um brilho que indicava a provável localização da criatura que havia lançado o ataque de fogo. Então abaixou-se agarrou com as duas mãos uma pedra de tamanho considerável e a girou no ar uma vez, antes de arremessa-la para cima. A criatura, cujas formas eram indistinguíveis no meio da fumaça e se parecia mais com o borrão acinzentado de uma pessoa com asas, manobrou e conseguiu se desviar com certa facilidade, preparando-se para lançar outro projétil de fogo.

Neste momento, uma lança prateada cortou o céu e trespassou o corpo da criatura, fazendo com que ela soltasse um guincho horrível e se espatifasse no chão. Sulana não perdeu tempo e correu até ela, golpeando-a repetidamente até que se transformasse em uma pilha de cinzas.

– De onde veio aquilo? – Lura perguntou.

– São os vermelhos! – Iraele respondeu, apontando na direção das árvores, não muito longe deles, onde uma parte do exército carmim engalfinhava-se com outra leva de monstros. – Como se já não tivéssemos problemas o suficiente.

Sulana pareceu não registrar a presença dos soldados. Simplesmente, deu-lhes as costas e correu com incrível velocidade, se colocando do outro lado do círculo de rebeldes.

– O que ela…? – Lura perguntou.

– Mais monstros – explicou Ronam, apontando para o topo da colina.

– Preparem-se! – Gritou Iraele.

Os soldados deram cabo de seus oponentes e avançaram. Um cavaleiro aproximou-se do que havia sobrado do monstro voador e fez um gesto com a mão. A lança prateada pareceu ganhar vida própria e saiu do meio das cinzas, flutuando até a mão dele.

Então ele olhou na direção dos rebeldes e sorriu.

– Ah, então é aí que vocês se meteram!

– Giarle?! – Eles exclamaram, ao reconhece-lo.

– Protejam aquele grupo – disse ele aos cavaleiros que o seguiam. – Vem vindo mais encrenca para cá.

– Posso saber o que significa isso? – Iraele exigiu.

– É bom rever todos vocês, mas teremos que deixar as explicações para depois – respondeu ele, se aproximando até parar diante dela. – No momento, temos bastante trabalho a fazer. A propósito, cadê sua espada?

– Uma daquelas coisas a engoliu.

Mudando a lança para a outra mão, ele tirou sua própria espada da bainha à cintura e a ofereceu a ela.

– Não era você que prometia abrir a barriga de seu oponente com as próprias mãos se ele comesse algo seu?

Enquanto pegava a arma, ela apontou com a outra mão na direção de Sulana.

– Sua namorada ali fez isso antes de mim. Pena que o infeliz virou cinzas antes de eu ter chance de enfiar a mão lá e pegar minha espada de volta.

Giarle tentou focar-se na batalha iminente, forçando-se a ignorar os cadáveres espalhados por toda a parte. Era o fim da rebelião. Depois de usá-los por tantos meses, aparentemente os demônios decidiram que não eram mais úteis e decidiram se livrar deles. Mas não antes de fazê-los abrir um rombo na muralha, dando aos monstros livre acesso aos domínios do general.

E pensar que era contra aquilo que o Exército Carmim vinha realmente lutando há tanto tempo. Vendo os soldados se prepararem para encarar os monstros com não muito além da própria coragem, ele se sentia sujo e maculado por ter se colocado no caminho deles por tanto tempo, mesmo não estando com total domínio sobre si próprio no período. Mas o dia de sua redenção estava chegando. Iria acabar com aquela guerra.

Ou morreria tentando.

— Fim do capítulo 9 —
< 8. Confronto Sumário 10. Desígnio >

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