Lassam – Capítulo 1: Prioridades

Publicado em 05/02/2017
< Prólogo: Desafio Lista de capítulos 2. Clichê >

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1. Prioridades

Para Cariele Asmund, a Academia de Lassam era um lugar esquisito. Por fora, o edifício principal era cheio de abóbadas, arcos e colunas, com estátuas de mulheres seminuas ladeando a grande escadaria. Aliás, o pessoal devia gostar muito de estátuas por ali, pois elas podiam ser encontradas em todo lugar: nos jardins, nas paredes e até nos telhados. Havia estátuas de pessoas, de cavalos, de pássaros, de elefantes, de cachorros… enfim, de quase tudo o que você pudesse imaginar. Pelo menos as estátuas de humanos retratavam pessoas vestidas ou com certas partes ocultas de alguma forma. Aquele lugar passaria muito do nível do bizarro se acrescentassem nudez a essa lista.

A decoração do interior dos prédios era pior: além de contar com um número desnecessário de estátuas, ainda existiam candelabros, vasos, luminárias e quadros por todos os cômodos. Os quadros, geralmente muito velhos, retratavam cenas absurdas ou tão mal pintadas a ponto de serem impossíveis de uma pessoa normal entender. Nem mesmo as salas de aula escaparam das garras do decorador mais criativo e insano de todos os tempos. Mesas e cadeiras de madeira escura, cheias de detalhes e decorações inúteis, faziam com que você se sentisse como se tivesse passado por um portal mágico e ido parar no passado, pelo menos uns cinquenta anos antes. Era incrível como as coisas podiam parecer tão novas e tão velhas ao mesmo tempo.

A única parte daquele lugar de que ela realmente gostava eram os gigantescos jardins. Ali, a grama e as flores bem cuidadas formavam um espetáculo à parte, tão bonito e envolvente, a ponto de Cariele conseguir se esquecer da existência das onipresentes estátuas. Havia muitas e muitas árvores por ali, e naquela época do ano muitas delas estavam completamente floridas, num multicolorido espetacular.

Se pudesse, Cariele preferia fazer tudo nos jardins: estudar, se exercitar, comer, dormir e, principalmente, namorar.

Na falta de um namorado, no entanto, dormir parece uma ótima alternativa – ela pensava, enquanto jogava os cabelos para trás e recostava a cabeça no encosto do banco de pedra, olhando distraída para a cobertura natural formada por galhos, folhas e flores, acima dela.

Com 19 anos de idade, Cariele tinha longos e ondulantes cabelos, cujos fios tinham coloração que variava do loiro claro até o dourado, formando uma massa exótica e volumosa que lhe chegava quase até a cintura. Era um pé no saco tomar conta daquela cabeleira, mas o efeito visual era fantástico e valia muito a pena. Seus olhos, de um tom claro de azul, destacavam-se de forma intrigante com sua pele clara e com a delicadeza do rosto em formato oval. Para completar aquele quadro, ela ainda tinha um corpo espetacular, de estatura mediana, com todas as curvas nos lugares certos, que ela fazia questão de manter sempre em forma através de uma rotina de treinamento aprendida no exército e praticada diariamente de forma quase religiosa. O resultado é que ela preenchia o uniforme da academia de uma forma como poucas mulheres conseguiam, com a calça comprida e a camisa clara se aderindo de forma tentadora a suas curvas, enquanto o blazer escuro acrescentava um elemento de seriedade e mistério à sua figura.

Sua aparência física causava impacto onde quer que fosse e ela gostava disso. Pena, pensava ela, que muito pouco de toda aquela beleza fosse natural.

– Cari!

De forma preguiçosa, Cariele levantou a cabeça para ver uma de suas amigas, correndo por entre as árvores e sorrindo de forma entusiasmada.

– Oi, Gê. Que cara de felicidade é essa? Quem você andou comendo hoje?

A amiga se aproximou do banco ofegante pela corrida e levou a mão ao peito enquanto tentava recuperar o fôlego.

– Por enquanto, ninguém, mas a noite ainda nem começou – respondeu a recém-chegada, divertindo-se com a brincadeira, antes de soltar um suspiro dramático e se jogar no banco ao lado de Cariele. – E você, como foi com o Falcão? Me diga, quero detalhes!

Cariele voltou a recostar a cabeça no banco.

– Não foi.

– Como assim, não foi? O cara estava, tipo, totalmente a fim!

– Só não rolou, Gê. Isso acontece, sabia?

– Quem é você e o que fez com minha amiga?

Aquilo fez com que Cariele se endireitasse no banco, rindo, e se inclinasse para frente, apoiando os antebraços nos joelhos.

– Agneta Eivor Niklas!

– Ah, não! Ela me chamou pelo meu nome completo! E agora, quem poderá me defender?

Agneta, ou “Gê”, para os íntimos, era uma garota pequena e magra, da mesma idade de Cariele, e que parecia não ter preocupação alguma na vida além da diversão. Era irrequieta e gostava de ficar em movimento o tempo todo. Mesmo agora, no breve tempo em que ficara sentada ali, já tinha cruzado e descruzado as pernas duas vezes e agora brincava com as pontas de seus curtos cabelos castanhos. Eram amigas desde que Cariele abandonara o serviço militar e viera para cá, há pouco mais de dois anos.

– Eu defendo você – disse Cariele – se me contar o motivo dessa alegria toda.

– F-a-l-c-a-o-til!

– Já disse, não aconteceu nada.

– E por que não aconteceu nada? Normalmente você estaria se gabando de quantas vezes chegou lá e de o quanto sua estamina é maior do que a de quem quer que seja.

Cariele encarou a amiga, genuinamente surpresa.

– O quê? Eu não faço isso!

– Claro que faz! Toda vez. E você sabe muito bem, não se faça de besta!

Desviando o olhar, Cariele forçou um sorriso brincalhão, enquanto balançava a cabeça.

– Está bem, está bem, eu faço, admito.

– E então?

– Então o quê?

– O encontro, sua tonta! Desembucha logo!

– Ah, não foi nada de mais. Só… não somos compatíveis, eu acho.

– Você está brincando comigo? O cara é todo bombado, gentil e apetitoso! Que história é essa?

– Bom… eu acho que não posso contar.

– Hã?! Que frescura é essa agora? Desde quando nós guardamos segredo uma da outra?

Ah, se você soubesse, pensou Cariele.

– Bom, digamos que ele… bem, ele é pobre.

O queixo de Agneta caiu e ela ficou olhando, embasbacada, para a amiga e totalmente sem reação, o que era uma cena muito rara, mesmo tendo durado apenas alguns segundos. Ao vê-la abrir a boca para proferir mais uma enxurrada de perguntas, Cariele ergueu uma das mãos, pedindo calma.

– Escute, isso é sério, está bem? – Cariele suspirou. – Não pode contar isso para ninguém. Ninguém mesmo!

– Tá, tá, entendi. Desembucha!

– Ele não quis me levar para a casa dele. Aí comecei a fazer perguntas e, conversa vai, conversa vem, ele acabou soltando a bomba: o pai dele perdeu a fortuna. Até mesmo a mansão onde moravam teve que ser vendida. Ele está morando de favor na casa de um parente.

– Que barra! Como isso aconteceu?

– Ele não entrou em detalhes, e eu também achei melhor não perguntar.

– A família dele era uma das mais badaladas da cidade. Que coisa! – Agneta ficou em silêncio e estudou com atenção o rosto de Cariele por alguns instantes. – Tá, eu sei que você não se aguenta de vontade de arrumar um cara rico. Sei que você investiu muito nesse seu visual de garota fatal aí e merece ter retorno disso, mas você ficou sabendo que o cara não tem mais onde cair morto e simplesmente resolveu dar um pé na bunda dele, sem nem mesmo tirar um gostinho?

Mais de três anos já tinham se passado, mas mesmo depois de todo esse tempo, Cariele ainda não conseguia evitar de sentir uma pontada no peito a cada vez que alguém se referia aos métodos que ela utilizara para obter aquela aparência. Por um momento, ela se perguntou se continuaria sentindo vergonha do fato pelo resto de seus dias. Mas se tinha uma certeza na vida era de que nunca deixaria que alguém percebesse.

– Para resumir a conversa, sim, foi mais ou menos isso. E ele… bom, ele não gostou muito.

– Também, pudera, né, sua tonta? Sabe, eu não te entendo. Não querer se casar com o cara eu até aceito, pois você quer se dar bem na vida e tal. Não concordo, mas aceito. Agora, deixar de encarar uma festinha romântica a dois por causa disso? Por acaso, sabe o significado da palavra “desperdício”?

– Substantivo masculino. Ação ou efeito de desperdiçar ou gastar em excesso.

Agneta ficou olhando incrédula para ela durante um instante, até entender e soltar uma risada.

– O que é isso agora? Você está imitando um dicionário? Desde quando você faz esse tipo de piada?

– Acredito que deve ser por falta de uma boa noitada.

– O que, pelo que eu entendi, você não teve porque não quis.

Cariele suspirou.

– Sim, isso, continua, pisa, pisa mais.

– Quando sei que você merece, eu piso mesmo.

– Agora, esquece isso e me conta o motivo da sua alegria.

O rosto de Agneta se iluminou.

– Menina, você não vai acreditar. Conheci um cara muito gostoso hoje. Mas muito mesmo. Acho que é o melhor que já vi na minha vida. Estou apaixonada!

– É mesmo?

– Sim! Ele é tipo autoritário e tal, tem todo aquele charme antiquado que te deixa toda arrepiada, sabe? Ele se mudou para cá faz uma semana e já roubou o posto de barão da república Alvorada.

Os estudantes da Academia se dividiam em grupos chamados “repúblicas”, também conhecidas como “fraternidades”. Cada república tinha seu próprio espaço, que era composto por um ou mais prédios contendo ambientes de estudo, laboratórios, alojamentos, piscina, sauna e o que mais conseguissem manter com um limitado orçamento mensal fornecido pela Academia. Era tarefa dos estudantes se organizar e gerenciar aquele espaço da melhor forma possível, responsabilizando-se pela limpeza e manutenção do lugar. Participar de uma república não era simplesmente uma atividade extra: era parte oficial da grade curricular da instituição. Se uma república fosse mal administrada ou desorganizada a ponto de não atender aos critérios pré-estabelecidos, os membros perdiam créditos e podiam chegar a perder todo um período, assim como acontecia com disciplinas normais, como Matemática ou História. Os estudantes não eram, necessariamente, obrigados a morar na república, mas todos tinham que pertencer a uma.

As repúblicas se dividiam em três tipos: masculinas, femininas e mistas. Alvorada era o nome da república masculina mais popular e influente de todas. O líder da república era conhecido como “barão” ou “baronesa”.

– A república Alvorada mudou de barão? – Cariele ficou subitamente interessada. Os membros daquela república tinham fama de serem delinquentes, dando mais valor a festas e a diversão do que aos estudos, mas eram, em sua grande maioria, muito ricos. – Quem é ele?

– É um gato! E tem um rosto espetacular, todo másculo e imponente. E a voz dele, então?

– Qual o nome dele?

– Daimar. Não é um nome fofo?

– Tem certeza de que ele não é mais um causador de problemas?

– Que pergunta! Mas é claro que é! Dizem que é o pior de todos, por isso que elegeram ele como barão. Lindo, gostoso e malvado. É ou não é o homem perfeito?

Cariele riu.

– Com certeza. Agora detalhes, menina, quero detalhes! Como conheceu ele?

♦ ♦ ♦

Para Daimar Gretel, a Academia de Lassam era um lugar fascinante. O edifício principal era uma verdadeira obra de arte em estilo neoclássico, originalmente projetado para ser uma construção simples e funcional, tendo sido posteriormente adornado com diversos símbolos da cultura damariana, como as tradicionais colunas e as imponentes abóbadas, sem contar a majestosa escadaria principal. Estátuas representando as mais diversas entidades místicas conhecidas, bem como de grandes heróis dos últimos séculos, podiam ser vistas por todos os lados. Parecia não haver um único objeto naquele lugar que não fosse a representação de algo mais antigo, mais profundo.

A decoração do interior dos prédios era ainda melhor. Obras de arte de vários séculos de idade podiam ser vistas por todos os lados e nas mais diversas formas. Desde quadros pintados pela esposa do primeiro imperador de Verídia até vasos confeccionados pelos chamados “Grandes Imortais”, que habitaram a região da província de Halias há milênios. A maioria das salas era iluminada por candelabros de origem inguna, que possuíam pedras de luz contínua com uma discreta variação de cor, com a habilidade de formar imagens ilusórias de diversas cenas históricas, dependendo da direção e da forma como você olhasse para elas. Os móveis eram todos da melhor qualidade, sempre com acabamento neoclássico, cheios de detalhes criados com técnicas milenares de talhamento de madeira. Era incrível como aquelas coisas podiam parecer tão novas e tão antigas ao mesmo tempo.

Mas a parte daquele lugar que ele mais gostava era a gigantesca biblioteca. Com câmaras e mais câmaras nas quais as paredes eram preenchidas até o teto com prateleiras repletas de livros e grandes espaços de leitura com ventilação, umidade e temperatura meticulosamente controladas, o lugar representava a epítome da civilização, com tudo o que a humanidade tinha de melhor para oferecer.

Daimar gostaria de poder passar todo o seu tempo ali dentro, mas infelizmente aquilo não era possível. Recostando-se na cadeira de estudo, ele levantou a cabeça e olhou para o teto da sala, que era quase totalmente tomado por uma pintura retratando uma cena doméstica de uma mãe escrevendo num livro com uma pena, enquanto um menino a observava com olhos brilhantes de expectativa. Reconhecendo a assinatura do artista, ele concluiu que aquela obra de arte tinha séculos de idade, e que fora cuidadosamente preservada durante o passar dos anos. Considerando que os prédios da Academia não tinham sido construídos há mais do que algumas poucas décadas, aquela pintura com certeza devia ter sido trazida de algum outro lugar, mas o acabamento fora tão bem feito que dava a impressão de ter sido pintada ali mesmo. Claro que sempre havia a possibilidade de ser apenas uma cópia da pintura original, mas ele duvidava disso.

Com seus 20 anos de idade, Daimar, assim como seu pai e sua falecida mãe, tinha cabelos pretos e olhos de um tom castanho claro bastante incomum. Tão incomum que nunca vira nenhuma outra pessoa, além de seus progenitores, com íris daquela mesma tonalidade. Sua pele, também herança genética de seus pais, apresentava uma cor natural que lembrava um saudável bronzeado. A semelhança com os pais, no entanto, terminava por aí. Seu rosto tinha um formato um tanto quadrado, com uma estrutura óssea que passava uma impressão de força e determinação, o que era intensificado por sua altura, bem acima da média.

Ele não se importava, particularmente, com a própria aparência e gostava de usar os cabelos bem curtos, para não ficarem atrapalhando. Também não se importava muito em ficar fazendo centenas de flexões e agachamentos para ganhar massa muscular, como uma quantidade considerável de rapazes da idade dele gostava de fazer. Tinha um porte que poderia ser considerado atlético e que lhe proporcionava uma considerável afinidade com esportes de corrida, mas pelos quais ele não tinha nenhum interesse, além dos créditos acadêmicos em Educação Física. Ele admitia que estava alguns quilos acima de seu peso ideal, mas não se importava muito com isso. Da mesma forma como não se importava muito em manter o próprio uniforme engomado e impecável, como seus colegas. No momento, sua camisa apresentava alguns amassos por ter sido jogada descuidadamente no chão do quarto na noite anterior, e a calça tinha uma pequena mancha na coxa direita, causada por algo que ele nem sequer se lembrava de ter derramado ali. O blazer, pesado demais para o clima do lugar (pelo menos na opinião dele), estava pendurado na cadeira ao lado.

O discreto som de um sino chegou até ele, que reconheceu o sinal de que o prédio seria fechado em breve. Suspirando, massageou os olhos por um instante antes de se endireitar e começar a juntar suas anotações e a empilhar os diversos livros que estivera pesquisando. De repente, sentindo-se observado, ele levantou os olhos e notou Egil, um de seus colegas de república, na porta da sala. Depois de fazer alguns gestos rápidos com uma das mãos o rapaz afastou-se, fazendo com que Daimar suspirasse de novo. Se queriam falar com ele com urgência, provavelmente era porque alguém tinha aprontado. De novo. Pelos céus, mal completara uma semana ali e já tinha enfrentado três emergências envolvendo seus colegas. Com que tipo de delinquentes ele estava se misturando, afinal?

Ao sair da biblioteca carregando o blazer e sua mochila pendurados sobre o ombro, ele se dirigiu a passos largos na direção da república Alvorada, sua expressão de poucos amigos fazendo com que os estudantes que encontrava lhe abrissem caminho sem nem mesmo pensar duas vezes.

Ele irrompeu porta adentro na sala de reuniões da república, onde Egil e mais dois rapazes estavam sentados ao redor da grande mesa.

– O que houve dessa vez?

– Bodine vai ser expulso – respondeu o ruivo, enraivecido. Seu apelido era “Falcão” e tinha estatura mediana e um corpo entroncado, musculoso. Normalmente era calmo, sensato e comedido, razão pela qual Daimar gostava dele, mas naquele momento parecia estar com os nervos à flor da pele.

– Cala a boca, Falcão! – Bodine, um loiro com pinta de “garoto malvado”, que costumava se dar bem com mulheres, mas que agora tinha o rosto muito vermelho, indicando que andara abusando do álcool, fez cara feia para o ruivo. – Não vai acontecer nada!

– Na paz, vocês dois, na paz! – Egil, o segundo cara que Daimar mais respeitava naquela fraternidade, levantou as mãos em um gesto conciliatório. Ele era moreno e tinha um corpo compacto, mas era muito esperto e proativo.

Ao ver Falcão e Bodine se preparando para continuar o bate-boca, Daimar jogou suas coisas num canto e agarrou uma das cadeiras, levantando-a e em seguida batendo os pés dela com força no chão. Os outros rapazes deram um pulo, sobressaltados, ficando em completo silêncio enquanto Daimar se sentava de forma desleixada e apoiava os tornozelos sobre a mesa. Displicentemente, ele pegou um pequeno embrulho do bolso da calça e o desenrolou, revelando um pequeno tablete de geleia desidratada de cereais, no qual deu uma mordida, encarando Bodine por um longo tempo enquanto mastigava, em silêncio. Quando achou que já tinha criado tensão suficiente no ambiente, ele voltou-se para Egil.

– Fale. E seja breve. Estou cansado e quero encher a cara hoje.

Se meu pai me visse agora, me deserdaria com certeza, pensou Daimar.

– Conhece a Ebe Lenart? Aquela morena baixinha de trancinhas do terceiro ano? – Egil aguardou o assentimento de Daimar antes de prosseguir. – Ela disse que vai registrar queixa contra o Bodine. Ela diz que ele… bom, que ele usou poder de hipnose para… se divertir com ela.

– Ah, pela misericórdia! – Daimar olhou para Bodine, irritado. – E você conseguiu ser incompetente o suficiente para deixar ela perceber?

Os outros três encararam Daimar com expressões variando entre surpresa e choque.

– Você sabia que ele fazia isso? – Egil arregalou os olhos, incrédulo.

– Não foi culpa minha! – Bodine levantou as mãos, como se com isso pudesse se proteger do olhar do barão.

– Como assim, “não foi culpa sua”? – Daimar elevou ainda mais o tom de voz. – Você provou ela sem permissão ou não?

Acuado pela expressão de Daimar, que continuava com os tornozelos cruzados indolentemente sobre a mesa enquanto dava outra mordida no doce e o encarava com aqueles olhos que, de alguma forma, pareciam misturar frieza e fúria, Bodine começou a gaguejar.

– E-eu… acho que tinha bebido um pouco além da conta, aí… aí acho que o encanto acabou saindo meio zoado. Mas não dá nada, não tinha ninguém perto, a vagabunda não vai conseguir provar nada.

Subitamente, Daimar tirou os pés de cima da mesa e bateu as solas dos sapatos no chão, com força, levantando-se e apoiando as mãos na mesa.

– V-você sabe como ela é, não sabe? – Bodine estava cada vez mais intimidado. – É a maior vadia da academia, sai com todo mundo. Inclusive, ela mesma já pediu para um monte de caras fazer hipnose com ela, é uma tara que ela tem.

– Se você fez sem ela pedir isso não quer dizer nada, seu arrombado! E, vadia ou não, ela agora é a menor das suas preocupações. Falcão, vai no alojamento e traz todo mundo que estiver lá. Agora!

O ruivo não pensou duas vezes antes de levantar-se e sair correndo pela porta lateral.

Bodine bufou e se levantou num salto, derrubando a cadeira, que caiu para trás com um estrondo. Egil levantou-se, pálido, e deu vários passos para trás até quase encostar na parede.

– O que você vai fazer? Para que chamar todo mundo?

– Vou acabar com você. E chamei todo mundo para que isso sirva de exemplo.

Sentindo-se acuado, o jovem loiro fechou os punhos e pronunciou algumas palavras, recitando o encanto de aumento de massa muscular, uma das poucas habilidades místicas que era capaz de invocar com considerável competência. Segundos depois ele empurrava a pesada mesa violentamente para o lado e corria para cima de Daimar, como um rinoceronte descontrolado.

Meia dúzia de estudantes entraram correndo pela porta lateral bem a tempo de ver Daimar acertando um soco no queixo de Bodine, que não só parou seu movimento como o arremessou vários metros para trás, onde ele caiu inconsciente e sangrando abundantemente pela boca, nariz e orelhas.

– Gunvor! – Daimar olhou para um moreno alto que estudava para ser curandeiro. – Dê primeiros socorros a esse traste e depois leve para a enfermaria. Egil, vá até a reitoria e cuide da papelada. A república Alvorada está entrando com queixa-crime contra ele. Nunca mais quero ver esse energúmeno na minha frente, e não me importo, ou melhor, até prefiro que ele pegue a pena capital por estupro. E que vocês todos fiquem avisados: se querem aprontar por aí, aprontem, se divirtam, que se explodam, não me importo. Mas eu nunca vou ver a cor da grana do meu velho se eu não conseguir passar nessa porcaria de curso! E eu quero essa grana, podem ter certeza disso! Então, se quiserem zoar por aí, não deixem que eu tome conhecimento. Porque, se até eu ficar sabendo, os pau-mandados do comitê disciplinar provavelmente vão saber também. E eu não vou ficar aqui parado olhando alguém melar a minha vida desse jeito. Se vocês não se importarem com suas próprias vidas, podem ter certeza de que eu também não vou me importar! Ah, e outra coisa: se mais alguém tiver a brilhante ideia de querer me encarar na base da pancada, que esteja preparado para passar algumas semanas na câmara de regeneração!

Seguiu-se um tenso silêncio enquanto Egil saía correndo pela porta e dois dos rapazes ajudavam o magricela chamado Gunvor a realizar alguns encantamentos de forma a preservar a vida de Bodine até que ele chegasse à enfermaria.

– Falcão, você vem comigo. O resto de vocês, preparem-se para arrumar essa bagunça assim que o monitor liberar. Se um daqueles puxa-sacos vir uma gota que seja de sangue nesse chão, vamos perder uns 30 pontos e eu já estou de saco cheio daquela biblioteca, não aguento mais fazer exame complementar.

Depois de pegar suas coisas do chão, Daimar saiu pela porta com a mesma brusquidão com a qual tinha entrado minutos antes. Falcão teve de se apressar para conseguir alcança-lo.

♦ ♦ ♦

Daimar considerava o nível de organização da Academia impressionante. Era um sistema muito mais eficiente do que o utilizado em outros lugares. Até mesmo os governadores de algumas províncias haviam adotado técnicas de administração aperfeiçoadas nas academias de Mesembria. Infelizmente, no entanto, a burocracia em situações como aquela era tão tediosa ali quanto em qualquer outro lugar.

Encontrar um monitor para relatar o ocorrido foi fácil, passar por todos os trâmites e entrevistas, no entanto, levou várias horas. Felizmente, a possibilidade de a fraternidade ter problemas por causa daquilo era muito baixa. Haviam testemunhas e evidências suficientes para acionar o dispositivo legal que permitia quebrar a privacidade de um acusado e submetê-lo ao chamado encanto da verdade, uma forma de sugestão hipnótica que fazia com que a pessoa fosse incapaz de mentir em relação a uma determinada ocorrência.

A queixa-crime também fora protocolada e aprovada, o que significava que Bodine estava oficialmente expulso da fraternidade a partir de agora, independentemente do veredito da investigação.

De qualquer forma, depois que todos os depoimentos foram dados e todos os documentos assinados, já passava da meia-noite e a exaustão era grande. Mas não o suficiente para impedi-los de sair para “encher a cara”.

Quando já estavam sentados na mesa de um bar, com canecas de cerveja à frente deles, Daimar olhou para o amigo.

– Falcão, me diga uma coisa: por que ninguém te chama pelo nome verdadeiro?

O ruivo riu.

– Sei lá. Acho que é assim que funciona depois que um apelido pega.

– Sério? Eu nunca tive um apelido.

– Depois do que você fez hoje, eu garanto que vão inventar alguns para você.

Daimar suspirou.

– Acha que eu peguei pesado?

– Na boa? Eu já estava tão injuriado que se alguém não descesse o cacete naquele infeliz, eu mesmo ia fazer isso. E também diria adeus para essa fraternidade de privada.

Aquilo parecia estranho para Daimar, pois Falcão geralmente era calmo e não ligava muito para as estripulias dos colegas.

– Sério? Está pensando mesmo em sair?

– Ah, qual é? Parece que ali só tem babaca riquinho que não se importa com nada além do próprio umbigo. Quantas pisadas na bola tivemos só essa semana? Três?

– Com essa foram quatro. Mas essa passou de todos os limites.

– Olha isso, cara! Como é que conseguiram juntar tanto cafajeste num lugar só? Será que foi de propósito?

– Se for, acho que consideram nós dois como “cafajestes” também.

– Vai saber, talvez tenham razão.

Ambos riram e levantaram suas canecas num brinde antes de tomarem um longo e refrescante gole. Depois de limpar a boca com a mão, Falcão voltou a falar:

– Mas, sabe? Depois do que você fez ali acho que até mudei de ideia em relação a sair da república. Você colocou ordem na casa e pôs todo mundo para trabalhar, resolvendo uma porcaria daquelas tão rápido que duvido que algum mané tenha coragem para fazer besteira de novo tão cedo. Estou até curioso para ver como esses pulhas vão agir daqui para a frente. A propósito, onde aprendeu aquele golpe?

– Em um livro – mentiu Daimar. Por mais que gostasse do amigo, não tinha a menor intenção de revelar detalhes de sua conturbada adolescência.

– Sério? Acho que preciso ler mais. Foi até meio assustador. Quero dizer, com a força que você bateu, eu achei que ia explodir a cabeça ele.

– Foi só um movimento de contragolpe balanceado, do tipo que absorve e reverte a energia cinética de um corpo em movimento. Com um golpe desses não importa muito onde você acerta, a força é aplicada por toda parte ao mesmo tempo. Tanto que o curandeiro disse que ele estava com o fêmur, o rádio e mais umas cinco costelas quebradas.

– Caracoles! Isso é poderoso, hein?

– Na verdade, eu joguei a força dele contra ele mesmo. O imbecil aumenta a própria musculatura sabe-se lá quantas vezes e vem para cima de mim espumando e sem nenhuma estratégia, como se nunca tivesse assistido a uma aula de treinamento de combate na vida. Estava pedindo por uma dessa.

– Agora que você mencionou, eu lembro de ter tido uma ou duas aulas sobre esse tipo de golpe. Mas se não me engano tem um limite para quanto dano alguém consegue causar com isso.

Daimar desviou o olhar.

– Acho que o livro que estudei se aprofundava um pouco mais na técnica.

– Sei. Você também falou um monte de bobagem lá, não é? Sobre “não aguentar mais ter que estudar” ou “não se importar com o que os caras façam”, e tal.

Daimar tomou mais um gole de sua caneca, refletindo sobre como responder àquilo. Acabou optando por ser sincero.

– Eu gosto de estudar. Só não espalha isso por aí.

– Só! – Falcão riu.

– E eu acho que a maioria dessa galera poderia até virar gente boa. O problema deles é que não têm disciplina. Os pais não impõem limites e aí vira essa nojeira. Aí, o único jeito de conversar com eles é falando a língua que entendem.

– Ou seja: a boa e velha “porrada” – disse Falcão, voltando a rir.

Ambos tomaram mais um gole, antes de Falcão voltar a falar.

– Mas se você pensa assim da galera, por que escolheu entrar para esta república, com tantas outras por aí?

Porque sou um idiota, pensou Daimar.

– Ah, nem sei direito, mas não importa, me colocaram de barão e agora não saio mais. Vão ter que me engolir até acharem alguém melhor para o cargo. Mas, mudando de assunto, você parece no fio da navalha hoje. O que houve? Saudades da família?

– Quem me dera! A família vai bem, o problema é ser pobre.

Daimar riu, mas Falcão apenas estreitou os lábios, desgostoso.

– Estou falando sério! Para ter uma noção, fui chutado ontem porque não tinha mais um casarão para mostrar para a mina.

– Sério? E quem é a dona dessa personalidade fascinante?

– Já ouviu falar da Princesa Prateada? Segundo ano, cabelão loiro claro, corpão sarado, pele de porcelana, nunca vi coisa igual.

– Como ela se chama?

– Cariele Asmund. É uma gata daquelas que você tem a sorte de encontrar uma vez na vida e olhe lá. Levei meses para conseguir a atenção dela e marcar um encontro e então… Puff! Deixo escapar que não tenho mais nenhum trocado na carteira e ela me manda pastar.

– Uau! Sinto muito.

Falcão terminou a cerveja e fez sinal para o atendente trazer outra.

– Não é como se fosse o fim do mundo. Eu nem estava realmente a fim dela. Quero dizer, ela é gostosa até não querer mais, só que o que eu pretendia mesmo era experimentar, sabe? Me divertir um pouco.

– Sei. – Daimar ergueu uma sobrancelha em sinal de descrença.

– É sério. E acho que a beleza dela nem é natural, ela ganhou aquilo num ritual.

Daimar arregalou os olhos.

– Ritual? Você quer dizer daqueles que…? – Daimar olhou para os lados e baixou o tom de voz. – Modificação corporal?! Misericórdia! Como você ficou sabendo disso?

– É de uma fonte confiável, mas não espalha por aí. A verdade é que ela é uma caçadora de fortunas. O objetivo dela é fisgar um marido rico, por isso investiu tudo o que tinha e o que não tinha nessa parada. E é por isso que ela não tem tempo para perder com caras como eu. Aliás, se eu fosse você, tomaria cuidado. Você é uma vítima perfeita para ela.

— Fim do capítulo 1 —
< Prólogo: Desafio Lista de capítulos 2. Clichê >

2 opiniões sobre “Lassam – Capítulo 1: Prioridades

  1. Corrigi hoje o nome da garota que acusou Bodine de estupro. O nome correto dela é Ebe Lenart (inclusive este nome aparece várias vezes nos capítulos seguintes), mas aqui, devido a uma confusão com outra personagem, o nome estava errado.

    Também foram feitas três correções sugeridas por Luis Pcit.

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