Lassam – Capítulo 10: Aposta

Publicado em 08/04/2017
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Carta

10. Aposta

Cristalin chegava em sua casa no meio da tarde, agradecendo aos céus por seu expediente ter acabado mais cedo naquele dia. Exausta como estava, não percebeu nada de diferente até entrar no quarto alugado… e tomar o maior susto ao encontrar um homem sentado em seu sofá, todo à vontade.

– Mas o quê?!

Delinger Gretel olhou para ela com uma expressão preocupada.

– Você não parece bem.

Ela tratou de fechar a porta devagar e trancá-la antes de se virar para ele.

– O que está fazendo aqui?

Ele se levantou e parou na frente dela com os olhos fechados daquela forma que ele às vezes gostava de fazer… e que a deixava muito desconfortável. Ela apenas ficou parada, deixando-o usar seus sentidos para examiná-la, por um instante que pareceu uma eternidade.

– Sente-se – disse ele, finalmente. – Vou providenciar algo para você comer.

– O que o faz pensar que vou permitir que fique todo à vontade em meu quarto?

– O fato de você mal ter forças para se aguentar em pé. Sente-se.

Ele apontou para o sofá antes de virar-se para o fogão à lenha e começar a se preparar para acender o fogo. Suspirando, Cristalin chegou à conclusão de que não adiantava brigar com ele. Afinal, estava mesmo muito cansada. Então, acomodou-se no sofá e olhou para ele.

– Por que veio aqui?

– Vim pedir para você entregar uma carta ao Daimar.

– E por que você mesmo não entrega? Por que não vai vê-lo e acaba logo com isso?

– Não posso.

– Por que não?

Ele riscou uma pederneira com a parte cega de uma faca várias vezes, até que a palha começou a queimar, então ajeitou o carvão e a lenha em volta, antes de se voltar para ela.

– Não conseguirei seguir em frente com isso, se eu olhar para ele agora. Preciso manter o foco.

– Você sempre pode desistir. Ninguém está obrigando você a fazer nada.

– Eles estão tomando o elixir, tenente. E há bastante tempo. Esta cidade estará em sérios problemas se eu não fizer nada.

– Cris.

– Eu não…

– Mesmo depois de tudo o que aconteceu você ainda insiste nessa baboseira? Não é um pouco tarde demais para dizer que “não quer se envolver”?

– Olhe para o seu estado!

– Nunca me senti tão bem na minha vida.

Ele soltou uma exclamação entre divertida e perplexa, antes de encher um caldeirão de água e colocá-lo sobre a chapa de ferro.

– Você pode acabar morrendo. Preciso acabar com isso logo, não quero ter que… fazer aquilo de novo.

– Sou mais resistente do que pensa – disse ela, colocando os pés sobre a mesinha de centro e soltando um bocejo.

– Estou vendo – retrucou ele, irônico.

– Como descobriu sobre o elixir?

– Encontrei aquela fêmea hoje de novo. Ela confirmou que eles queriam usar a energia do mundo das pedras para fazer mais daquela poção maldita. Já devem ter perdido completamente a sanidade.

– Isso só significa que eles irão se destruir sozinhos. Você devia descansar.

– Você não sabe o que está falando. Não teve que ver seus próprios pais… – Ele balançou a cabeça, incapaz de continuar.

– Sim e eu também nem imagino com é ver um cônjuge passar por isso. No entanto, se você continuar, vai gastar energia demais e acabará enfraquecendo. E eu não vou suportar ver essa mesma tragédia acontecer com você!

Ele suspirou.

– Desculpe. Não posso atender às suas expectativas. Essa era outra razão pela qual não queria me envolver.

– Podíamos, sei lá, ir embora para bem longe. Enquanto eu estiver viva, você não correria perigo…

Ele balançou a cabeça, resoluto.

– Já tentei isso antes, com Norel. E você sabe o que aconteceu.

– Isso não é justo!

– O que não é justo é eu te deixar desse jeito. Pálida, esgotada… até sua pele está diferente, opaca, sem vitalidade.

– Daqui a uns dias estarei pronta para outra.

– Não pode estar falando sério!

– Pode contar com isso! E nem pense em sair por aí dando uma de vingador solitário, porque daqui para frente eu estarei do seu lado o tempo todo.

– Você tem seu trabalho…

– Para o inferno com ele.

– Como pode dizer isso? Você dedicou mais da metade de sua vida para construir essa carreira!

– E agora achei algo muito mais importante. É assim que as coisas são. E, quando eu disse que nunca me senti tão bem na minha vida, eu falava sério. Não há mais volta para mim também. Não posso mais permitir que passe por tudo isso sozinho.

♦ ♦ ♦

Daimar se aguentou até quase o fim do dia, mas não resistiu e acabou cabulando uma aula para voltar ao alojamento da fraternidade. Por pura sorte, acabou encontrando Malena no corredor.

– Como ela está?

– Olá, barão! – A morena sorriu para ele. – Ela está bem, está descansando. Eu chamei a curandeira e ela aplicou um bálsamo que tirou toda a tensão, com isso acabaram os sintomas e ela adormeceu. Vai acordar nova em folha. Ou melhor… quase.

– Como assim?

– Ah, ela tem um machucado feio no lado direito do corpo, parece que está com algumas costelas quebradas também. Vai ter que andar com o peito enfaixado por alguns dias, mas fora isso está tudo bem.

Ele baixou o tom de voz, perguntando com cuidado:

– Ela disse como se machucou?

– Disse que caiu um tombo, mas não acredito muito, não. Acho que ela andou foi se metendo em alguma briga ontem à noite. Você não ficou sabendo de nada, não é?

– Eu sabia que ela tinha saído, mas não que tinha se machucado. Achei que ela estava só… não, deixa para lá.

Por mais que ainda estivesse ressentido pelo que ela fez com ele, Daimar não tinha o direito de revelar segredos dela. Sim, ele pensou que ela estava apenas cansada, afinal ela não mostrara nenhum sinal de estar se sentindo mal quando a vira derrubando uma parede de pedras com a maior facilidade. E nem depois, quando a encontrara, furiosa, no posto militar.

Mas, pensando bem, fora ingenuidade dele acreditar nisso. Ela devia ter passado por maus bocados naquele lugar. Qual a chance de alguém conseguir prender mais de 150 criminosos perigosos sem sofrer nenhum arranhão?

– Certo – respondeu Malena, estranhando um pouco a expressão que viu no rosto dele. – Obrigada por me chamar para cuidar dela, barão. Eu vou voltar ao quarto agora, não quero deixar ela sozinha por muito tempo.

– Vocês duas estão precisando de alguma coisa?

– Não, mas é muito gentil de sua parte se preocupar, obrigada.

– Qualquer coisa, é só mandar me chamar.

Aliviado por saber que Cariele estava bem, e ao mesmo tempo frustrado por não conseguir deixar de se preocupar com ela, ele tratou de dar meia volta e se dirigir novamente ao prédio principal da academia.

O sol começava a se esconder no horizonte, criando um espetáculo multicolorido no céu, enquanto os cristais de luz contínua brilhavam no alto dos postes, compensando a perda de luz natural e mantendo assim muito bem iluminados os jardins e as estradas do interior da enorme propriedade da Academia de Lassam.

Ele estava quase chegando à escadaria principal quando ouviu o barulho de uma carruagem se aproximando e se virou para ver, reconhecendo imediatamente o veículo da tenente Oglave.

Os imponentes e bem cuidados cavalos pararam imediatamente quando o condutor puxou as rédeas. Então a porta lateral se abriu e Cristalin desceu, vestindo seu uniforme de instrutora e parecendo bem mais disposta do que na véspera, apesar de ainda apresentar uma certa palidez.

Ela dispensou o condutor, que agitou novamente as rédeas e a carruagem partiu, levantando uma pequena nuvem de poeira.

Ela olhou para ele e sorriu.

– Que coincidência, barão, queria mesmo falar com você.

Ele levantou as mãos.

– Eu não fiz nada.

– Ótimo. Continue assim que não terá problemas – disse ela, andando na direção da escadaria. – Venha comigo.

Sem dizer nada, ele a seguiu pelos corredores, passando por diversos estudantes, além de monitores, instrutores e outros empregados da academia, todos se movendo apressados para concluir suas últimas tarefas do dia e ir para casa.

Cristalin o levou até uma sala no segundo piso, que Daimar concluiu ser o gabinete dela. Com uma naturalidade nascida da prática, ela tirou uma chave do bolso e destrancou a porta, fazendo um gesto para que ele entrasse.

O lugar não tinha quase nenhum enfeite, mas estava abarrotado com livros, caixas e papéis. Havia dois quadros nas paredes com gravuras de pergaminhos contendo fórmulas matemáticas escritas com uma fonte estilizada. O artista que pintou aquilo era muito bom, pois mesmo ele que entendia pouco do que aqueles símbolos significavam conseguia admirar a beleza da obra.

– Belos quadros.

– Você gostou? – Ela olhou para ele, surpresa, após fechar a porta. – Achei que física não fosse o seu forte.

– E não é mesmo, mas de arte eu entendo um pouco e essas pinturas têm um certo atrativo, algo bem mais abstrato do que o que elas estão retratando.

Cristalin foi para trás da escrivaninha e se sentou.

– E eu achando que fórmulas algébricas, por si só, já eram mais abstração do que qualquer um poderia desejar. Aqui, tome. – Ela tirou um envelope do bolso e estendeu para ele.

Ele olhou para o papel, desconfiado.

– O que é isso?

– Uma carta do seu pai.

– Você sabe onde ele está!

– Sim, eu sei.

Ele pegou o envelope e o abriu, revelando várias folhas cuidadosamente dobradas, escritas com a caligrafia caprichada e inconfundível de Delinger Gretel.

– Ele não está viajando.

– Não. Está trabalhando em um caso, junto com a minha unidade.

– Como aquelas missões secretas da Cariele.

– Exato.

Daimar suspirou.

– Isso quer dizer que você não vai me contar mais nada a respeito, certo?

– Certo.

– Foi ele quem pediu para colocarem Britano na minha cola, não foi?

– Sim, foi uma medida preventiva, caso algo… inesperado acontecesse.

– Pode ao menos dizer quando acha que isso vai acabar?

– Não, não posso. As coisas estão um pouco complicadas no momento.

– Entendo. Obrigado por me contar.

– Eu achei que você merecia saber, pelo menos, isso. Só não se esqueça que ninguém, absolutamente ninguém mesmo pode saber dessa história, caso contrário tanto eu quanto seu pai estaremos correndo risco de vida. Guarde muito bem isso aí, de preferência queime depois de ler. Mas agora, onde estão suas coisas? Vá buscar, a aula complementar vai começar em vinte minutos.

♦ ♦ ♦

A maioria das salas e dos corredores dos prédios da academia eram tão bem planejados e tinham janelas tão amplas que os cristais de luz contínua eram ofuscados pela luminosidade natural durante o dia. Mas naquele momento, quando o entardecer dava lugar à noite, os artefatos brilhavam em toda a sua glória. Dispostos em lustres e candelabros, os pequenos pedaços de rocha em ignição perpétua, como eram chamados por alguns físicos, formavam um espetáculo à parte.

Daimar estava grato pela ótima iluminação do ambiente, enquanto organizava as coisas em seu armário. Tinha saído com tanta pressa naquela tarde para ver como Cariele estava que jogara suas anotações de qualquer jeito lá dentro, e agora estava complicado encontrar o que precisava levar para a aula.

Como se o seu pensamento tivesse o poder de invocá-la, ele a sentiu entrar no salão e dirigir-se ao armário dela, que ficava do outro lado, depois de várias fileiras de armários de madeira. A presença dela era tão marcante para ele que ofuscava completamente a das outras duas moças que estavam com ela. A sensação de tê-la ali perto despertava sentimentos tão intensos que ele demorou para perceber que tinha se imobilizado, esquecendo completamente do que estava fazendo.

Balançando a cabeça com certa frustração, ele terminou de reunir seu material e fechou o armário, dirigindo-se à saída, quando foi abordado por uma das amigas de Cariele.

– Olá, barão!

– Olá – respondeu ele, virando-se para ela. – Achei que suas aulas já tinham terminado.

– Ah, nós viemos aqui apenas para dar apoio moral para a Cari.

– Oi, barão – disse a outra amiga, saindo de trás da fileira de armários. – Que bom, agora podemos deixar a Cari a seus cuidados.

Aquelas duas também eram membros da fraternidade Alvorada, fazendo parte do sexteto que ocupava a ala feminina. Daimar achava curioso o fato de que Cariele não parecia ter uma ligação afetiva muito forte com nenhuma delas, exceto Agneta e Malena, mas todas as garotas demonstravam gostar muito dela.

– Eu posso cuidar muito bem de mim mesma – declarou Cariele, aparecendo com uma pequena pilha de livros e papéis embaixo do braço. – Obrigada pela preocupação de vocês duas. Agora já podem ir para a noite e se divertirem.

Depois de alguns comentários bem-humorados e alguns olhares nem um pouco discretos na direção dele, as duas foram embora, deixando Daimar e Cariele em um silêncio desconfortável.

Ele limpou a garganta.

– Está se sentindo melhor?

– Sim. Obrigada por avisar a Malena. Ela me ajudou bastante.

– Disponha. Eu… acho melhor irmos para a sala, senão vamos nos atrasar.

– Sim, vamos.

Os dois caminharam em silêncio pelos corredores quase vazios. Ele percebeu que ela ainda estava um pouco pálida, mas nada muito preocupante. Ela parecia descansada, tinha a respiração e os batimentos cardíacos em ritmo normal e a temperatura corporal dela também era a mesma de sempre. O que quer que a tivesse acometido, parecia não ter deixado resquícios.

Subitamente ele se deu conta dos próprios pensamentos e perguntou-se desde quando ele conseguia ouvir a respiração e o coração de outra pessoa daquela forma. E até mesmo o calor dela ele conseguia sentir, mesmo a mais de um metro de distância. Não era só uma impressão, como o cheiro dela que parecia ficar em seu nariz quase o dia todo. Ele realmente podia ouvir e sentir o corpo dela. Mesmo fechando os olhos, ele conseguia saber exatamente onde ela estava e acompanhar cada movimento que ela fazia.

Percebeu claramente quando ela olhou para ele e franziu o cenho.

– Por que está andando de olhos fechados?

– Ah, desculpe – disse ele, olhando para ela e descobrindo que o que ele via não parecia combinar muito bem com o que sentia. – Apenas treinando meus sentidos.

– Não comece a usar essas coisas em mim de novo, por favor.

– Isso é quase como pedir para eu não ver você ou não ouvir sua voz enquanto fala comigo.

– Se não ficasse me seguindo por aí seria bem fácil de não me ver nem me ouvir.

– Desculpe por aquilo. Não vou fazer de novo.

– Assim espero – respondeu ela, com uma expressão de quem não estava muito convencida.

– Posso fazer uma pergunta?

– Pode fazer o que quiser. Se eu vou te dar atenção, é outra história.

– Naquela noite quando nos encontramos pela primeira vez, Janica comentou que “se meter em brigas não fazia parte do seu acordo”. Do que ela estava falando?

– Ela disse isso?

– Sim.

Cariele suspirou.

– Certa vez eu me meti em uma confusão dentro da academia e acabei… mandando algumas pessoas para o hospital.

– Achei que o trabalho dos monitores era policiar os corredores e jardins para evitar esse tipo de coisa.

– Bem, digamos que o monitor que tentou apartar a briga foi um dos que ficaram… feridos.

Ele arregalou os olhos.

– Você está brincando?

– Agneta e outras moças testemunharam a meu favor e me livrei das acusações de agressão. Mas com a supervisão da academia as coisas não foram tão simples. Com muito sacrifício eu consegui um acordo onde eu deveria evitar me meter em confusão, caso contrário seria expulsa. Foi assim que me deram a chave daquela arena de treinamento, para que eu pudesse “dar vazão aos meus impulsos” através de exercícios físicos e assim suprimisse meus “instintos violentos”.

Ele riu.

– Obviamente eles não conheciam você.

Ela olhou para ele.

– Não conte vantagem, pois você também não me conhece.

– Aparentemente, não. – Ele a estudou por um momento. – Espere um pouco, Janica não parecia saber dessa história da chave.

– Poucas pessoas sabem disso – ela respondeu, dando de ombros.

– Entendo. E emocionalmente, como você está? Agneta me disse que você estava preocupada com a saúde de seu pai.

Nesse momento chegaram nas escadas, que ela subiu com cuidado, tendo assim uma boa desculpa para adiar a resposta. Como poderia responder àquilo?

Quando chegaram ao andar superior, ela lhe lançou um olhar zombeteiro.

– Você tem recursos para descobrir a resposta sozinho, não tem?

Ele a encarou com expressão irônica.

– E correr o risco de ser preso?

– Achei que você fosse um bisbilhoteiro crônico.

– Eu consigo parar quando sei que passei do limite.

Ela suspirou. De repente ele não parecia mais tão ameaçador e irritante quanto antes.

– Me desculpe por abrir queixa contra você. Eu estava fora de mim, depois de tudo o que aconteceu.

– Só se você me desculpar por meter o nariz nos seus assuntos.

Ela pensou por um momento, mas acabou balançando a cabeça.

– Eu nunca fiquei realmente ofendida com isso – admitiu.

– Que bom. Mas você está fugindo da minha pergunta. E seu pai?

Ela suspirou.

– Sim, ele está muito doente. Semana passada fiquei sabendo que é terminal.

– Oh. Lamento muito.

– Obrigada. Faz parte da vida, eu acho.

– Eu perdi minha mãe quando tinha dez anos. Foi uma barra.

– É mesmo? Você era muito ligado a ela?

– Bastante. Ela era uma pessoa incrível. Ou, pelo menos, é assim que me lembro dela. E sua mãe, como era?

– Não sei, eu não a conheci. Ela morreu durante o parto.

– É mesmo? Lamento.

– Já estamos chegando, então é melhor deixar as lamentações e desculpas para uma outra hora.

Chegaram na sala e, silenciosamente, dirigiram-se para seus lugares, nos lados opostos do ambiente, que tinha as mesas e cadeiras formando um círculo, sendo que a mesa da instrutora estava posicionada bem no meio dele.

Agneta estava sentada nos fundos e fez questão de não olhar para nenhum dos dois quando entraram. Daimar também percebeu que alguns dos outros estudantes que estavam ali evitaram contato visual com Cariele, mesmo ela passando bem diante deles.

Cristalin chegou alguns minutos depois, bem como os estudantes que faltavam. Depois de anotar os nomes dos presentes, a instrutora se levantou, esfregando as mãos.

– Muito bem, vocês todos tiveram performance razoável nas nossas últimas aulas, então eu decidi dar uma pequena recompensa. – Enquanto os estudantes se entreolhavam e murmuravam exclamações de surpresa e antecipação, ela tirou duas peças de dentro de uma sacola e as colocou sobre a mesa. Lembravam crânios humanos, cada um deles esculpido em um tipo bem distinto de rocha, mas tinham um formato estilizado, com muitas linhas retas e não eram exatamente idênticos. – Alguém conhece essas belezinhas aqui?

Daimar franziu o cenho, tentando se lembrar de onde havia lido algo em relação a esculturas como aquelas.

Já Cariele estudava os dois objetos com interesse. Tudo neles, desde a matéria-prima com que foram feitos até os intrincados entalhes, dava a impressão de que se tratavam de artefatos com enorme potencial canalizador de energia.

Os demais estudantes tiveram variadas reações, entre surpresa, confusão e perplexidade.

– Ninguém? Nesse caso, é bom irem se acostumando. Essas duas relíquias serão seus novos melhores amigos durante as próximas semanas. Vou dividir vocês em duas equipes. Vejamos… quem está do meu lado direito contra quem está do meu lado esquerdo. Serão sete contra sete. Cada equipe vai ficar com um artefato e no dia da Fênix vão me entregar um trabalho por escrito, com tudo, e quando eu digo tudo, quero dizer tudo mesmo sobre ele. O que é, quem criou, quando, como, por quê, para que serve, como é utilizado, quais os efeitos que causa, quais os efeitos colaterais, pelas mãos de quem já passou, como chegou até minhas mãos e, principalmente: por que são tão feios.

Os estudantes soltaram risos nervosos.

– Na semana seguinte após a entrega, cada equipe irá fazer uma apresentação para cinco instrutores que farão papel de juízes. Não haverá limite de tempo e todos deverão falar ou fazer algo de construtivo na apresentação. Uma equipe não poderá assistir à apresentação da outra. Cada um de vocês receberá uma pontuação individual, no entanto, a equipe que somar mais pontos será usada como base de comparação, o que quer dizer que todos da outra equipe serão penalizados com a diferença de pontos entre as duas equipes. Se a equipe da direita fizer 20 pontos a mais do que a da esquerda, todos da equipe da esquerda serão penalizados em 20 pontos. E essa pontuação é o que vai decidir os créditos de vocês nesse bimestre.

– Mas isso é injusto – reclamou uma moça.

– Não é, não – retrucou Cristalin. – A chave aqui é trabalho em equipe. Vocês precisarão trabalhar juntos para tentar nivelar as notas de todo mundo. Quem for mal na apresentação provavelmente ficará sem crédito nenhum a menos que faça parte da equipe vencedora. Na verdade, dependendo do resultado, a equipe perdedora inteira poderá ficar sem créditos.

Um outro levantou a mão.

– Mas onde vamos encontrar informações sobre essas coisas? Não vai nos dar nem uma dica?

– Ah, sim vou. Temos uma excelente biblioteca no prédio ao lado. Também tem muitos lugares nessa cidade onde vocês poderão encontrar muita informação. Laboratórios, ferrarias, casas de alquimia, hospitais. A lista é grande.

Durante a meia hora seguinte, os estudantes crivaram Cristalin de perguntas, mas ela não deu mais informações, mandando que eles se organizassem e investigassem por conta própria. Afinal, não existiam muitos artefatos no formato de um crânio humano por aí.

Daimar viu o pessoal da sua equipe se organizar com razoável eficiência e não viu razão para assumir a liderança. Ele estava acostumado a manter o controle das coisas, mas depois da conversa com Cariele ele começou a se perguntar se não vinha se comportando como um controlador compulsivo nos últimos anos. Talvez fosse uma boa experiência apenas se deixar levar e ver o que acontecia. Apesar de ele ter dúvidas sobre a capacidade de boa parte daquela equipe.

Já Cariele, por sua vez, foi lançando sugestões e tentando organizar as coisas na equipe dela desde o começo. Daimar notou que ela parecia muito motivada para aquele desafio, e isso poderia ser um problema sério para a equipe dele.

No entanto, em determinado momento, as coisas na equipe dela começaram a ficar estranhas. As outras moças começaram a questionar se ela merecia liderar alguma coisa. Reagindo a comentários maldosos, ela devolveu alguns deles e não demorou muito para as coisas esquentarem a ponto de ofensas começarem a ser gritadas a plenos pulmões.

Perplexo, Daimar viu os seis outros membros da equipe se voltarem contra ela a ponto de exigir que ela saísse, alguns deles repetindo em altos brados as mesmas acusações que ele tinha visto Agneta fazer contra ela.

Então, mais perplexo ainda, ele viu sua própria equipe discutindo entre eles o que fariam se Cariele mudasse de equipe. Viu que nenhum deles estava disposto a trocar de lugar com ela. Na verdade, nenhum deles parecia querer ficar na mesma equipe que ela, incluindo Agneta.

Sem entender direito como as coisas chegaram a esse ponto, ele olhou para Cristalin e percebeu que a instrutora acompanhava com atenção cada palavra que era dita, mas não esboçava nenhuma reação. O que, raios, ela estaria tramando?

Por fim, Cariele decidiu parar de discutir e declarou que não pertencia mais àquela equipe, o que fez com que a confusão terminasse, apesar de todos continuarem olhando para ela com reprovação.

Ela olhou para o outro lado e não demorou a perceber que a outra equipe também não a queria.

Então ela empalideceu visivelmente. A julgar por aquela reação, ganhar aqueles créditos era muito importante para ela.

– Instrutora! – Ele levantou a mão. – Permissão para criar uma terceira equipe!

A sala inteira caiu em silêncio, todos parecendo muito surpresos. Até ele mesmo estava surpreso. Não tinha o hábito de se meter voluntariamente nesse tipo de confusão.

– Não – foi a resposta, curta e grossa.

– É a maneira mais simples de resolver esse conflito.

Cristalin pensou por um momento.

– Certo, vamos ver. Quem quer fazer uma equipe com Cariele, levante a mão!

Ao ver todos ficaram em silêncio, Cristalin lançou um olhar irônico a Daimar.

Vendo que até mesmo Agneta se recusava a ficar do lado da antiga amiga, ele se levantou.

– Eu fico na equipe dela.

O silêncio continuou. Ninguém mais se manifestou. Cariele olhava para ele com uma expressão que não deixava dúvidas sobre o que estava pensando. Que raios acha que está fazendo?

Cristalin balançou a cabeça.

– Dois artefatos, duas equipes – sentenciou ela. – Última chance, resolvam essa picuinha agora mesmo ou eu vou mudar as regras e as coisas podem ficar muito ruins para alguém.

Todos continuaram em silêncio. Daimar e Cariele permaneceram em pé.

– Muito bem. Se é isso o que querem, então vamos lá. Tem alguém aí disposto a montar uma quarta equipe? Não? Então que seja. As equipes agora serão Daimar e Cariele contra o resto de vocês. Em vez de cada equipe ficar com um artefato, as duas equipes terão que falar sobre os dois. E a regra de pontuação agora será tudo ou nada. A equipe que tiver a menor pontuação média vai ter que repetir esse bimestre, ou talvez até o semestre todo, pois não irá receber nenhum crédito. E empate não é uma opção. Vou dar uma última chance de vocês se acertarem: querem reconsiderar?

Muitos riram, outros fizeram comentários zombeteiros. Daimar e Cariele se entreolharam, sérios, mas de alguma forma, aquela troca de olhares teve um efeito reconfortante em ambos.

Cariele se voltou para a instrutora.

– Vamos em frente.

♦ ♦ ♦

Quando voltavam ao alojamento, depois da aula, Daimar perguntou a ela:

– Você conhece a história de Serino Albanieri?

Cariele franziu o cenho.

– Você se refere ao sábio que aconselhou o governador de Mesembria a se render ao império?

– Argh! Não esperava isso de você!

– O quê?

– Mesembria nunca se rendeu. O que fizeram foi um acordo.

– E daí? A província deixou de ser um país livre e se submeteu ao governo imperial. Não é a mesma coisa?

– Nós temos uma parceria de ajuda mútua com o império. Isso é muito diferente de uma “rendição”.

– Isso é só semântica. Mesembria poderia até ter feito algum estrago nas forças do império na época, mas nunca conseguiria vencer. E o império também não tinha nenhum interesse em arrasar este lugar, pois aqui havia estruturas e processos estabelecidos que eram muito valiosos: alquimia, metalurgia, ferraria e sei lá mais o quê. No fim, Mesembria fez exatamente o que o império queria, o que é praticamente a mesma coisa que uma rendição.

Ele riu.

– Logo você, que entende tanto de poderes místicos, vem me falar um negócio desses?

– Qual o problema? É a verdade.

– Tínhamos uma vantagem muito grande, os veridianos tinham muito pouco conhecimento de física na época.

Foi a vez de ela de rir.

– Isso é uma falácia. A maior parte do conhecimento de Mesembria era teórico. E Verídia já dominava mais da metade do continente, tinham não apenas infantaria e cavalaria, mas também artilharia e tropas de apoio com diversos tipos de especialização. E isso nas mãos de um dos melhores estrategistas da história.

– Onde está o seu orgulho de ser mesembrina?

– Não sou mesembrina. Sou veridiana.

Aquilo era novidade para ele.

– Você não é daqui?

– Não. Nasci em uma cidade chamada Calise, no litoral da Província Central.

– Uau! Você está bem longe de casa.

– Nem me fale. Mas, voltando ao assunto, eu tenho orgulho de Mesembria. O governador conseguiu garantir um acordo muito vantajoso com o império e sem derramar uma gota de sangue sequer.

– Mas todo mundo sabe que Verídia estava em grande desvantagem na batalha em que esse acordo foi feito.

– Isso é verdade. Mas sem o acordo, Mesembria venceria aquela batalha e perderia a guerra.

– Como pode ter tanta certeza?

– Andei pesquisando e descobri que muitos dos artefatos de que os mesembrinos se gabavam na época simplesmente não funcionavam. – E o resultado daquela pesquisa tinha sido uma enorme frustração para ela. Se algumas daquelas coisas funcionassem, a vida dela hoje poderia ser muito diferente. Mas Daimar não precisava saber de nada daquilo. – Vocês não tinham nem um décimo da organização e eficiência de hoje, e que conseguiram em grande parte graças ao nosso exército.

Ele olhou para ela franzindo o cenho.

– Tem certeza de que você não é só mais uma simpatizante fanática do imperador Riude Brahan?

– Eu simpatizo com ele, sim. Um homem com sérias dificuldades de dicção, mas que era capaz de impor respeito, comandar um país, combater doenças e vencer guerras. É um exemplo a ser seguido por qualquer soldado, uma prova de que, com determinação e coragem, você pode enfrentar qualquer batalha.

– Então é isso, você nasceu em Verídia, e ainda foi soldado. Aposto que as academias militares de lá fazem lavagem cerebral em todos, para que pensem dessa forma.

Cariele olhou para trás e avistou Britano e Janica os seguindo à distância.

– Podemos perguntar para os dois pombinhos ali atrás, para saber como eram as coisas no quartel onde eles serviram.

Daimar nem precisava olhar. Podia senti-los com bastante clareza com seus sentidos aguçados.

– Deixa para lá – respondeu ele. – Eles parecem felizes no mundinho deles, não vamos atrapalhar.

– Tudo bem. Mas por que você perguntou sobre o sábio Albanieri?

– Eu imagino que é por onde temos que começar a nossa pesquisa. Lembro de ter visto um desenho bem similar àqueles crânios num livro que reúne o conteúdo de diversos pergaminhos da época.

– Não imaginava que aquelas coisas feias fossem algo tão importante a ponto de ter ligação com a anexação de Mesembria.

– Bem, como a tenente nos dispensou das aulas dela pelas próximas semanas, temos as noites livres. Quer ir à biblioteca amanhã?

– Claro. Não podemos perder tempo, se quisermos mesmo fazer com que todos aqueles babacas percam um bimestre.

– Eles pareciam particularmente agressivos com você hoje. Por que será?

– Não sei. Provavelmente alguém andou espalhando mais algum boato.

– Quer descobrir? Posso perguntar por aí, se quiser.

– Não, obrigada. Isso não me importa mais.

– Entendo. – Na verdade ele não entendia, mas estava com medo de aborrecê-la se insistisse no assunto. – Você viu a atitude da instrutora? Ela ficou observando a confusão toda sem fazer nada.

– É mesmo? Não reparei.

– Não achou estranha a reação dela? Fiquei com a impressão de que ela nos colocou contra o resto da turma de propósito.

– No mínimo deve estar querendo me punir. Você não precisava tentar me ajudar. Acho que te devo um agradecimento.

– Não foi nada. Mas você sabe que pode entrar com uma reclamação contra ela na supervisão, não sabe? Esse desafio é injusto, pois colocou você em desvantagem.

– Está com medo de continuar?

– Não gosto de deixar as coisas pela metade. As brigas que eu compro eu vou até o fim. Estarei com você, não importa o que decida.

Ela olhou para ele, surpresa com as emoções descontroladas que surgiram dentro dela ao ouvir aquilo. Então ela balançou a cabeça, tentando se controlar.

– Eu quero ver aqueles panacas sofrerem. Vou ferrar com eles. Se acham que 12 contra 2 é muita vantagem, estão muito enganados.

– Mas e quanto ao seu…

Ele foi interrompido por duas vozes femininas, muito animadas.

– Da-i-maaaaaar!!!

Cariele olhou para a frente e viu as duas… atrevidas de antes na porta do alojamento, acenando freneticamente para o barão. Ao menos ele teve o bom senso de ficar constrangido com aquela recepção fútil e exagerada.

O sorriso dele era forçado ao perguntar:

– O que vocês duas estão fazendo aqui a essa hora?

– Que pergunta! Nós viemos para dormir com você!

Pela primeira vez, Cariele viu Daimar ficar corado. Não que aquilo importasse muito, pois ouvir aquela declaração fez com que sentisse alguma coisa se quebrando dentro de si, causando uma dor quase insuportável.

– Preciso descansar. Vou para o meu quarto – disse ela, apressada. – Boa noite.

Cumprimentando as fulanas com um gesto de cabeça, ela passou pela porta e desapareceu lá dentro.

– Ei! – Brigite olhou para Daimar, apontando para trás. – Aquela não era a moça que tinha passado mal no refeitório durante o almoço?

– Sim – respondeu ele. – Ela recebeu tratamento e já está bem melhor.

– Que bom – disse Gerda. – Ela é linda, não é? Aqueles cabelos platinados são um sonho!

– Pensando em se dar bem com a belezoca, barão?

– Não. Ela não está interessada. Viemos juntos hoje apenas porque estamos na mesma turma.

– Que bom, porque essa noite não queremos você pensando em nenhuma mulher além de nós duas!

♦ ♦ ♦

Na manhã seguinte, Cariele conseguiu convencer Janica a treinar com ela, e as duas passaram momentos bastante divertidos, trocando golpes em diversas modalidades de combate.

A monitora tinha algumas limitações físicas, em parte por ainda estar se recuperando da surra que tomara dias atrás, mas Cariele também estava se poupando devido aos próprios ferimentos, então o treinamento acabou sendo um festival de erros, gemidos de dor e risadas.

O bom humor de Cariele, no entanto, durou apenas até voltarem ao alojamento, onde ela pôde ver Daimar se despedindo das duas atrevidas com muitos abraços e beijos.

Ela tratou de dar a volta e se dirigir à entrada do lado oposto do prédio.

Parecia uma sonâmbula enquanto tomava banho e se arrumava para a aula. Sentia-se completamente perdida e seu corpo se movia apenas por força do hábito. Quando finalmente estava pronta, parou no meio do quarto e ficou olhando ao redor, tentando se lembrar do que tinha que fazer em seguida. Então, uma nova pontada no peito fez com que ela se jogasse sobre a cama, de costas, e encarasse o teto acima dela, pensativa.

Como podia estar com ciúmes? Logo ela?

Então, subitamente teve uma revelação. Seu projeto de encontrar um marido rico tinha afundado. Provavelmente nunca mais conseguiria ter interesse em outro homem. Parecia uma colocação dramática demais para ela, mas era assim que se sentia no momento. Prometera para si mesma que quando embarcasse em qualquer projeto, se dedicaria a ele com todas as forças que tivesse. Mas sentia que não tinha mais condições para encarar um marido de conveniências. Não conseguiria se dedicar a ele, por mais que tentasse.

Já não podia mais tratar aquilo como um simples caso de paixonite aguda. As coisas para ela se tornaram muito mais sérias. Tão sérias que, mesmo que ele se mostrasse interessado, ela nunca conseguiria fazer para Daimar a mesma proposta que antes ela pretendia fazer para outros, que na verdade já fizera para alguns, inclusive. Aquilo nunca seria suficiente para ela, e não tinha tempo nem recursos para correr atrás de algo que fosse. Seu tempo estava se esgotando.

Que droga! Ela precisava de dinheiro, e um marido rico era a forma mais simples de conseguir o que queria. Passara tanto tempo correndo atrás daquele objetivo que, agora que não podia mais seguir por aquele caminho, sentia-se completamente perdida.

Tinha apenas uma coisa que podia fazer: continuar estudando para terminar logo aquele curso. Mas e depois? Cristalin havia pago as vinte e quatro mil moedas que prometera, o que já era alguma coisa, mas aquilo não duraria muito tempo. Não com o projeto que ela tinha em mente.

Tinha que ir logo à loja dos Gretel para consertar suas armas, coisa que ela estava postergando. Talvez conseguisse encontrar outros trabalhos como mercenária que pagassem bem. Podia tentar procurar em outra cidade. Aldera, talvez.

Balançando a cabeça, ela tratou de se levantar, pegar seu material e sair. Uma coisa de cada vez. No momento, tinha que ir para a sala de aula.

Aquele sentimento monstruoso de tristeza e derrota não poderia durar para sempre, poderia?

♦ ♦ ♦

Depois do almoço, Daimar finalmente conseguiu algum tempo livre para ler a carta de seu pai. Dirigiu-se a uma parte afastada dos jardins e sentou-se num banco escondido entre muitas árvores.

Abriu então o envelope e começou a ler a primeira folha, surpreendendo-se bastante, pois o conteúdo era muito diferente do que tinha imaginado.

Meu filho,

Você já deve suspeitar que não estou em uma viagem de negócios, e não estou mesmo. A verdade é que estou trabalhando em um caso junto ao exército, tentando resolver um problema pelo qual sou responsável, porque minhas ações impensadas do passado acabaram por complicar tudo e colocar a vida de muitas pessoas inocentes em perigo. Você já é um adulto e tem uma cabeça sobre os ombros, apesar de não exercitar muito sua responsabilidade, por isso não vou insultar sua inteligência dizendo que o que estou fazendo é simples ou que estarei de volta em breve.

Venho nestas linhas tentar escrever as palavras que deveria ter dito há muito tempo, mas que nunca consegui.

Eu tenho muito orgulho de você. Assim como sua mãe tinha. E teria até hoje se ainda estivesse conosco. Você foi o pilar que sustentou minha existência quando Norel se foi. É a razão de eu ainda estar vivo e disposto a lutar. É a razão de eu querer trabalhar para tornar esse mundo um pouco melhor.

Sei que falhei com você em muitos aspectos. Devido à minha falta de competência como pai você acabou se tornando um tanto rebelde e aventureiro. Não culpo você pelo que aconteceu em Maresia, eu devia ter percebido antes o quanto você estava se sentindo sozinho, isolado. Você me acusou de eu o ter colocado em uma redoma, como se quisesse esconder você do mundo, e hoje vejo que você tinha toda a razão.

É doloroso para mim admitir isso, mas eu estava apavorado com a possibilidade de você vir a contrair a mesma doença que sua mãe. Essa é a verdade. Claro que isso não justifica meu comportamento em relação a você, eu sei que exagerei, e muito. Mas eu gostaria que você encontrasse um pouco de amor dentro do seu coração, só o suficiente para me perdoar. Não sei se tenho direito a pedir uma coisa dessas, mas você é a coisa mais importante do mundo para mim, e isso me faz egoísta o suficiente para pedir.

Devo confessar também que minha decisão de virmos para Lassam tinha outros objetivos, não era apenas para começarmos uma vida nova e deixarmos os erros de Maresia para trás. No passado, muito antes de você nascer, eu decidi fugir de um problema, achando que ele se resolveria por si só e que não mais me incomodaria, mas descobri que minha ausência apenas tornou as coisas muito piores, a ponto de se tornar uma ameaça para pessoas inocentes. Mesmo depois que chegamos aqui eu ainda acreditava que as coisas poderiam ser resolvidas de forma simples e rápida. Novamente subestimei o problema, e, por causa disso, não posso virar as costas para ele agora.

Você já é perfeitamente capaz de dirigir sozinho os negócios da família. Apenas mantenha as coisas organizadas, da forma como você gosta de fazer, que tudo irá se ajeitar.

Visite o alquimista. Ele irá esclarecer coisas sobre o seu passado que não seria correto eu tentar explicar por escrito. Ele é uma pessoa de confiança, pode ficar tranquilo. Espero que me perdoe por eu não poder estar presente para poder, eu mesmo, lhe contar tudo.

Com amor,

Delinger Gretel

As outras folhas do envelope tinham anotações em relação a diversas lojas e laboratórios da rede de negócios da família.

Daimar ficou ali sentado, olhando para o papel sem vê-lo por um longo tempo enquanto os pássaros cantavam e pulavam de galho em galho nas árvores ao redor dele.

Que raios?

— Fim do capítulo 10 —
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2 opiniões sobre “Lassam – Capítulo 10: Aposta

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