Lassam – Capítulo 11: Confiança

Publicado em 15/04/2017
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11. Confiança

O supervisor de assuntos gerais da Academia de Lassam bocejava enquanto redigia mais um tedioso relatório, quando a porta de sua sala foi aberta abruptamente, fazendo-o quase cair da cadeira de susto.

– Mas o que é isso, barão? Não tem modos não? Droga! Olha o que você fez! – Ele apontou para a enorme mancha que se formou sobre a folha que estava trabalhando, devido à pena, que tinha derrubado. – Isso é jeito de entrar no local de trabalho dos outros? O que quer dessa vez?

– Estou procurando a instrutora Cristalin Oglave.

– E acha que vai encontrá-la aqui?

– Eu acho que ela está desaparecida.

– Como é?

– Fui no posto militar onde ela trabalha, mas ninguém lá sabe dela, parece que tirou uma licença ou algo assim. Ela não está em casa e também não está em lugar nenhum na academia.

– Quando foi a última vez que você a viu?

– Ontem à noite tivemos uma aula com ela.

– Ontem à noite?! Não sei como as coisas eram na cidade de onde veio, mas por aqui ninguém aceita denúncias de desaparecimento depois de tão pouco tempo. E posso saber, em nome da Fênix, o que está fazendo aqui? Que assunto é esse tão urgente que você tem para tratar com ela, afinal?

– Eu… bem…

– Ora, faça-me um favor! Tem uma boa justificativa para estar aqui desperdiçando meu tempo? Sim ou não?

– Sim, eu tenho, mas… ah, droga, deixa para lá.

– Não teste a minha paciência, rapazinho. Não tenho tolerância a esse tipo de brincadeira. Saia logo daqui antes que eu decida lhe aplicar uma punição por perturbação da ordem e desacato. E pense muito bem da próxima vez que tiver um impulso irresistível de vir me atazanar de novo!

– Desculpe – foi tudo o que Daimar conseguiu dizer antes do homem empurrá-lo para fora e bater a porta na cara dele.

Suspirando, ele começou a caminhar na direção do alojamento quando avistou Britano Eivindi vindo em seu encontro.

– Então é aí que você está! Aconteceu alguma coisa? Você deveria estar na sala de aula.

Daimar apontou um dedo para ele.

– Você! Você sabe onde ela está, não sabe?

– Perdão?

– Cristalin! Onde está a tenente?

– Não sei. Nesse horário deveria estar na sala dela, no posto.

– Não está. Disseram que ela tirou uma licença ou algo assim.

– Tem certeza? Talvez ela apenas não estivesse querendo receber você.

– Ela não estava em lugar nenhum daquele prédio! Também não está na academia. Ela sumiu!

Britano estreitou os olhos.

– Você andou invadindo de novo?

– Não, só usei aquilo, como é que vocês chamam? Percepção?

– Estabelecimentos militares possuem proteção contra esse tipo de habilidade.

– Bom, se eles têm isso, não me afeta. Onde mais ela poderia estar?

– Barão, acho que seria melhor você se acalmar…

– Não venha falar para eu me acalmar!

Então, ele ouviu uma voz feminina muito familiar à sua direita.

– O que há com você?!

Virando-se naquela direção, ele avistou Cariele e Janica se aproximando, parecendo ambas muito preocupadas.

O que aconteceu naquele momento foi algo totalmente estranho para ele. O som da voz e a presença de Cariele invadiram seu corpo, parecendo acordar todas as suas terminações nervosas. Ele sentiu como se tivesse mergulhado numa refrescante piscina, como se estivesse sendo lavado de toda a tensão e aflição que passou nas últimas horas.

A preocupação de Cariele aumentou ainda mais ao vê-lo ficar parado olhando para ela sem dizer nada com uma expressão estranha no rosto.

– Você está bem? O que houve?

– Hã… o que você está fazendo aqui?

– Britano não conseguiu te encontrar e veio me perguntar se eu tinha visto você. Como você nunca some desse jeito eu estava ajudando os monitores a procurar.

Ele deu um sorriso bobo.

– Você estava me procurando?

– Não seja idiota, metade da fraternidade está procurando também. Seus amigos estão todos preocupados.

– Desculpe.

– Você não parece muito bem, barão – disse Janica. – Venha, vamos nos sentar ali, acho que você precisa de um descanso.

Os quatro se dirigiram a uma das inúmeras mesas de pedra que pareciam existir por toda parte nos jardins da academia. Cariele se sentou diretamente na frente dele enquanto os monitores se acomodaram um de cada lado.

– Por que estão todos preocupados? Deve fazer uma hora, se muito, que eu saí.

– Olhe para a posição do sol, barão. – Cariele apontou para o céu. – Você sumiu depois do almoço e já é quase fim da tarde.

– Ouvimos vários relatos de pessoas que viram você correndo por aí – disse Britano. – Como isso não é de seu feitio, é natural que seus amigos se preocupem.

Ele suspirou.

– Eu só fui até o posto militar. Queria falar com a tenente, mas não achei ela em lugar nenhum. – Ele voltou a olhar para Britano. – Não era para ela que você reportava? Você não tem mais nenhum contato com os militares? Na ausência dela você trabalha para quem?

– Eu trabalho para a academia. O supervisor me orientou a reportar para ela, mas como instrutora e não como tenente. Na ausência dela… – Britano fez um gesto significativo na direção da sala da supervisão, de onde Daimar tinha acabado de ser expulso.

– Droga!

– Escute, você está muito agitado – disse Cariele. – Que tal respirar fundo e começar a contar tudo desde o início?

Sentindo-se tranquilizado pela presença dela, ele acabou seguindo a sugestão e mostrou a carta de Delinger. Estava desobedecendo uma ordem direta da tenente ao fazer aquilo, mas não conseguiu evitar. De uma forma que ele não sabia explicar, tinha confiança absoluta nela, e Britano e Janica também eram profissionais treinados, que ele passara a conhecer e confiar nas últimas semanas.

Cariele terminou de ler a missiva e olhou para ele.

– Ele diz para “procurar um alquimista”. Do que se trata?

– Meu pai me deu um endereço e pediu para eu falar com alguém que mora lá.

– Na Rua das Camélias – concluiu Britano.

– Isso mesmo. Ele disse que tem algo importante sobre o meu passado que esse alquimista pode me contar.

– E você não foi até ele? – Cariele perguntou.

– Fui até lá uma vez, mas acabei desistindo e vim embora antes de entrar. – Daimar olhou para Britano. – Tem certeza de que ninguém falou nada a você sobre isso?

– Ninguém me disse nada. Mas quando eu reportei para a tenente que você tinha ido até lá, ela não se mostrou nem um pouco surpresa.

– Ela sabia de tudo o tempo todo!

Cariele deixou a carta, que ainda segurava, sobre a mesa e se endireitou, cruzando os braços.

– Olha, eu sei que você está preocupado com seu pai e tudo mais, mas será que você não está exagerando um pouco?

– Como assim?

– Seu pai disse que está em uma missão com o exército…

– Uma missão perigosa!

– …e a tenente, aparentemente, está junto com ele. Você não conhece a Cris há muito tempo, mas eu sim. Aquela mulher pode ser uma verdadeira mestre na arte do improviso, mas ela nunca corre riscos desnecessários. Seu pai está em boas mãos.

– Mas essa carta soa como uma despedida!

– Leia de novo. A única coisa que ele disse foi que não tem previsão de quando vai voltar.

Daimar pegou o papel e passou os olhos novamente pela caligrafia caprichada de Delinger.

– Acho que… você pode ter razão.

Britano fez um gesto de cabeça para Janica, e os dois se levantaram. Cariele olhou para eles, curiosa.

– Aonde vocês vão?

– Estaremos por perto – respondeu Janica.

Britano olhou para Daimar.

– Barão, se precisar de alguma coisa, pode contar conosco a qualquer hora.

Com isso, os dois monitores se afastaram, caminhando lado a lado, cochichando e sorrindo um para o outro. Pareciam um perfeito casal de namorados.

Daimar suspirou.

– Acho que eu fiz uma tremenda tempestade em copo d’água, não foi?

– Eu acho normal você se preocupar. Eu pulava da cadeira toda vez que ficava sabendo que alguma coisa tinha mudado no quadro do meu pai no hospital.

– Obrigado.

– Pelo quê?

– Por ter vindo até aqui. Por ter falado comigo. Eu estava com os nervos à flor da pele. Acho que tem um monte de gente gostando bem menos de mim depois dessa tarde.

– Depois que seu pai voltar, você pode pedir desculpas para todo mundo e explicar o que aconteceu. Agora, vamos dar um jeito nisso aqui.

Ela pegou a carta das mãos dele e segurou diante de si durante alguns segundos, enquanto se concentrava. Logo o papel começou a mudar de cor, assumindo um tom amarelado e ela largou a folha sobre a mesa. Imediatamente o papel pegou fogo e, em segundos, foi consumido e transformado em pequenos montes de cinzas.

Ele ficou tão surpreso com a ação dela, que quando pensou em reagir já era tarde demais.

– Por que fez isso?!

– Foram ordens da tenente, não foram? Você já leu a carta, já sabe que seu pai se importa com você, sabe que ele sente muito por ter transformado você em um delinquente e sabe que ele te considera a coisa mais importante do mundo. Quantas vezes você leu e releu esse papel?

– Um monte de vezes.

– E se ficasse com ele, continuaria relendo. Isso não seria bom para você.

Ele sorriu.

– Não é você quem gosta de dizer que não se importa com ninguém além de si mesma?

– Eu preciso de você. Tenho um trabalho e uma apresentação para fazer que valem todos os créditos do bimestre. E se isso não fosse motivação suficiente, no processo ainda vou calar a boca de um monte de fofoqueiros egoístas que me expulsaram da equipe deles. Então, barão, eu quero que você esqueça essa confusão com a tenente e venha comigo para a biblioteca.

– Acho que esse foi o melhor convite que eu recebi em toda a minha vida.

Cariele levantou-se e saiu caminhando, sabendo que ele iria correr para acompanhá-la.

Sabia que não havia sido totalmente honesta. Quando ficara sabendo que Daimar tivera uma espécie de “chilique” e saíra correndo que nem louco pela academia, ela quase morrera de preocupação. Ele podia ser um enxerido, mas era uma pessoa geralmente calma, comedida. Ela imaginara que algo muito ruim podia ter acontecido, e infelizmente, tinha razão. Receber uma carta como aquela seria uma barra para qualquer filho. Felizmente ela conseguira acalmá-lo um pouco, mas seria bom ficar de olho nele por algum tempo.

Pensando bem, mesmo que não tivesse todas aquelas razões lógicas e razoáveis para ajudá-lo, ainda existia a irritante compulsão que sentia em cuidar dele. Querendo ou não, estava presa àquela situação. Ela percebeu que a única forma de ela se afastar dele num momento como aquele seria se ele lhe pedisse. E aquilo seria tão doloroso que ela não conseguia nem mesmo se forçar a imaginar.

Daimar, por sua vez, estava perplexo com a facilidade com que Cariele o tinha feito se acalmar e olhar para a situação de forma mais objetiva. Mais uma vez ficou claro que ela era muito mais do que a aventureira inconsequente que fingia ser. O que ela representava para ele ia muito além daquela sensação incômoda que o fazia perder o sono às vezes. Ela era a companheira, a aliada que qualquer um gostaria de ter para o resto da vida.

♦ ♦ ♦

A noite passou muito rápido. Depois de encontrarem a primeira pista em relação aos artefatos no livro que Daimar tinha sugerido antes, os dois se envolveram numa intensa busca por respostas, consultando livro atrás de livro e tendo que visitar as prateleiras dos mais diversos assuntos.

Aparentemente a invenção inicial tinha sido uma daquelas ideias geniais que acabavam sendo mal implementadas, causando constrangimento e descrédito para o inventor. No entanto, como o potencial da coisa era bem grande e abrangente, diversas pessoas acabaram criando invenções mais simples baseadas na ideia original.

Já estava quase na hora da biblioteca fechar quando toparam com um nome que Daimar reconheceu.

– Eu conheço essa família – cochichou ele. – São os administradores da nossa forjaria em Lassam.

– Isso bate com as dicas que a Cris nos deu – respondeu ela, sussurrando. – Laboratórios, hospitais, ferrarias.

– Você tem aulas amanhã?

– Não. Agora só na semana que vem.

– Que tal darmos uma passada lá? A propósito, ainda precisa consertar suas armas?

– Sim. Posso aproveitar e resolver isso também. Ih, lá vem a bibliotecária. Acho que estamos prestes a ser expulsos.

Minutos depois, ambos deixavam o prédio, aproveitando o clima ameno e agradável de fim de outono.

– Logo, logo, deve começar a esfriar – comentou ele.

– Ainda bem que Mesembria tem clima temperado – disse ela. – Minha cidade natal é quase na divisa com Lemoran, e os invernos por lá são bem intensos.

– É. Isso é uma das coisas que eu gosto em Lassam. Maresia também fica mais ao norte. Lá parece que tudo é mais intenso, inverno mais frio, verão mais quente, primavera mais florida…

– “Maresia” é um nome curioso. Cidade litorânea?

– Sim. A sua é também, não é? Olha que interessante, ambos nascemos perto do mar.

– Sim, mas de lados opostos do continente.

– Não deixa de ser interessante. Você veio sozinha para cá? Conhece algum conterrâneo seu que viva por aqui?

– Vim com meu pai, quando o quadro dele piorou.

– Quanto tempo faz isso?

– Dois anos.

– Que barra, hein?

Ela deu de ombros, decidindo retomar o assunto anterior.

– Nunca topei com nenhum conhecido por aqui. – Graças aos céus, completou ela, em pensamento.

– Deve ter sido solitário. Quero dizer, vir para uma cidade nova, sem conhecer ninguém.

– Eu estava mesmo precisando de uma mudança de ares. E quanto a você? Encontrou algum conterrâneo por aqui?

– Só a Gerda e a Brigite, aquelas duas que você conheceu ontem.

E que passaram a noite com ele.

– Ah… elas agiam mesmo como se… conhecessem você há bastante tempo.

Algo no tom de voz dela fez com que ele se sentisse subitamente culpado.

– Hã… escute… sobre aquelas duas, tem algo que eu preciso te contar.

– Você não precisa se explicar para mim.

– É que acho que as coisas não são como você está pensando.

– Você não passou a noite com elas?

– Sim, passei, mas…

– Eu também já passei muitas noites com homens. Quero dizer, nunca com mais de um ao mesmo tempo, mas de qualquer forma, você não precisa se explicar para mim.

Aquilo não era novidade para ele, mas o fato de ela ter colocado em palavras lhe causou uma sensação extremamente desagradável.

– Elas estavam precisando de ajuda com os estudos.

Como é?!

– É que elas são muito brincalhonas, sabe? Falaram tudo aquilo na sua frente para tentar me deixar constrangido. E conseguiram.

– Tem ideia do quão furada parece essa explicação?

Ele pensou um pouco e acabou rindo.

– Sim, tenho, mas não posso fazer nada sobre isso. A verdade é que as duas eram minhas vizinhas em Maresia e estudavam na mesma academia que eu. Tínhamos o costume de dormir um na casa do outro com frequência.

– Vai querer me convencer de que nunca teve interesse em nenhuma delas?

– Não, não vou. Mas nunca aconteceu nada.

– Sei. E vocês passaram a última noite estudando?

– Não. Como sempre, elas acabaram pegando no sono depois de umas duas horas. História e Filosofia, para elas, é bastante tedioso.

– Então acho que tenho algo em comum com elas.

Cariele ainda não sabia se podia confiar nele, mas o alívio que sentiu ao ouvir aquela explicação foi tão grande que chegou a deixá-la com as pernas bambas por um instante.

– Que pena – disse ele. – Eu gosto de História, acho muito satisfatório aprender sobre a origem das coisas, das pessoas, das palavras. Olhe aquela estátua ali, por exemplo. – Ele apontou para um busto esculpido no topo de um pilar de granito. – Sabia que ela foi feita 352 anos atrás, logo depois que o grande lago que tinha nesta região foi evaporado enquanto as grandes entidades lutavam entre si?

Ela parou e encarou a estátua. Havia um nome gravado na rocha.

– É mesmo? Nunca ouvi falar desse cara. E por que, numa situação dessas, alguém se daria ao trabalho de esculpir uma estátua ao invés de, sei lá, correr para procurar um abrigo?

Ele riu e parou ao lado dela.

– O homem retratado ali era um sacerdote que fez uma certa oferenda e conseguiu acalmar uma das entidades. Dizem que é graças a ele que esta região foi poupada de uma destruição ainda maior. Não há evidências que confirmem essa história, mas há várias homenagens a ele por aí. Acredito que a estátua tenha sido concluída cerca de um mês após o suposto ato de heroísmo dele.

– Quer dizer que esse negócio homenageia um homem que nem sequer sabemos com certeza se merece homenagem?

– De certa forma, sim – ele voltou a rir.

– E qual é o nexo disso?

– É mais pelo simbolismo, entende? Para mantermos acesa a esperança, para nos lembrarmos de que, mesmo diante das mais cruéis adversidades, sempre é possível encontrar uma forma de triunfar.

Foi a vez de ela rir.

– Comece a falar desse jeito por aí e pode dizer adeus à sua fama de delinquente.

Ela deu mais uma olhada na escultura. Não era uma das mais bonitas que ela já vira, mas no geral era um bom trabalho. Sólido. Durável.

Simbolismo, hein? Mas, pensando bem, fazia um certo sentido. Nomes tendem a ser esquecidos com o passar dos séculos, mas ideais podiam viver para sempre.

– Para algo que ficou 300 anos tomando chuva e vento, até que está bem conservada – concluiu ela.

– Já foi restaurada diversas vezes com o passar dos séculos. Por melhor que tenham sido os restauradores, é bem provável que esteja um pouco diferente de sua forma original.

– Certo. Imagino se todas as estátuas desse lugar têm uma história como essa.

– Eu conheço a história da maior parte delas. Posso contar todas a você, se quiser.

Ela o encarou, incrédula.

– E como pode conhecer todas as estátuas daqui tendo se mudado para cá há tão pouco tempo?

– Eu gosto de ler sobre essas coisas. Achei tudo tão fascinante quando vim para cá que passei dias inteiros estudando. Ainda tenho uma lista de leitura bem grande para terminar, mas as estátuas acho que já conheço quase todas.

Ela voltou a olhar para o rosto esculpido.

– É… parece que existe gosto para tudo mesmo…

E assim, entre conversas e provocações, os dois fizeram o restante do percurso até o alojamento e despediram-se alegremente, indo cada um para o seu quarto.

Daimar se sentia leve e animado, além de abençoadamente cansado depois de tantas horas ininterruptas de pesquisa. O cheiro de Cariele continuava em suas narinas, como uma presença constante, mas aquilo não lhe causava mais o menor incômodo. Na verdade, tinha se tornado reconfortante. Pela primeira vez ele compreendeu o que seu pai sentiu todos aqueles anos. De repente, a perspectiva de carregar aquele aroma com ele constantemente para o resto da vida não parecia nem um pouco desagradável.

Nem mesmo se ela continuasse rejeitando-o. E isso era o mais surpreendente.

Ele jogou-se sobre a cama e respirou fundo, deixando aquela sensação prazerosa se espalhar por todo o corpo. E adormeceu com um sorriso bobo nos lábios.

Cariele fechou a porta do quarto com todo cuidado para não acordar Malena e caminhou com cuidado no escuro até a pequena mesa onde ficavam produtos de beleza e também os cremes receitados pela curandeira.

Com cuidado, ela desamarrou o lenço que cobria seus cabelos e tirou a pequena tampa que a colega de quarto tinha colocado sobre o candelabro. Descoberto, o pequeno cristal de luz contínua brilhou intensamente e ela tratou de rapidamente cobri-lo com o lenço, bloqueando parte da luz e deixando o quarto mergulhado numa suave penumbra.

Então ela soltou um suspiro e sentou-se na cadeira, forçando-se a passar no rosto um daqueles desagradáveis cremes. Curiosamente, aquela tarefa não lhe parecia tão incômoda quanto o de costume.

Ela estava mais do que exausta, afinal, ficar pesquisando sobre a vida de pessoas que viveram séculos atrás estava muito longe de ser a especialidade dela. Mas ainda bem que era a de Daimar. Felizmente, ele tinha tomado a dianteira, explicando como as coisas deveriam ser feitas e não esperando nenhuma contribuição genial da parte dela.

Era bom vê-lo em seu elemento. Ele era metódico, criativo e perspicaz. Fazia questão de anotar tudo e conseguia condensar quantidades inacreditáveis de informação em poucas linhas bem escritas. Era impressionante.

Quando o creme finalmente foi absorvido pela pele, ela forçou-se a tampar novamente o candelabro e tratou de cair na cama. A perspectiva de passar boa parte do dia seguinte ao lado dele a deixava ansiosa para que a noite passasse rápido, apesar de ela tentar convencer a si mesma de que precisava ir devagar, pois estava se envolvendo demais, rápido demais e de forma intensa demais.

Ela adormeceu quase que imediatamente, envolvida por um sono profundo e reparador.

♦ ♦ ♦

A cara, mas muito discreta carruagem parou em frente à Ferraria Gretel poucos minutos depois do nascer do sol. O condutor uniformizado desceu e abriu a portinha com uma reverência.

Daimar Gretel desceu e agradeceu ao empregado com um sorriso. Naquele dia, ele vestia roupas sociais que lembravam bastante as que seu pai costumava usar. O “uniforme de trabalho”, como Delinger gostava de chamar.

Ele se virou para oferecer ajuda a Cariele, que apenas o encarou com uma sobrancelha levantada.

Antigamente o gesto de ajudar uma donzela costumava ser bastante valorizado na sociedade. Mas hoje em dia, com donzelas como essa, capazes de pulverizar qualquer um que ousasse incomodá-la, aquele tipo de lógica não funcionava mais. Era uma pena. Ele deu de ombros e se afastou, dando espaço para que Cariele, Britano e Janica descessem. E constatou, com certa inveja, que a monitora não tinha nenhum problema em aceitar a ajuda do companheiro dela para descer.

– Eles realmente abrem cedo – constatou Cariele, olhando para a imponente fachada da loja, que tinha uma vitrine com diversos produtos expostos. Haviam armas, enxadas, foices, machados, atiçadores, ferraduras e diversos outros itens, dispostos de forma harmoniosa por todo o espaço. A porta da frente estava aberta e as pessoas pareciam em plena atividade lá dentro.

– São trabalhadores dedicados – respondeu Daimar, dirigindo-se para a porta.

Cariele o seguiu e se maravilhou com o interior do estabelecimento. Tudo ali era muito limpo, a despeito da poeira levantada pelos cavalos na rua lá fora. A organização também era um primor e os itens em maior destaque eram de um nível de qualidade muito superior ao que ela estava acostumada a ver.

Uma onda de saudosismo a invadiu e ela suspirou, não conseguindo evitar de imaginar se algum dia poderia voltar a trabalhar com o encantamento de peças como aquelas.

Daimar a observou com curiosidade, mas não disse nada, apenas esperou que ela viesse até o balcão, onde ele estava conversando com a esposa do ferreiro.

– Cariele, esta é Lina, nossa especialista – ele as apresentou. – Você pode mostrar suas armas para ela. Imagino que prefira privacidade para tratar de seus negócios então, se não se importar, vou lá dentro cuidar de alguns assuntos.

Com Daimar fora de vista e com os dois monitores namorando ao lado da carruagem do lado de fora da loja, Cariele tratou de aproveitar para resolver logo aquele assunto, que não deixava de ser um pouco constrangedor para ela.

– Essas armas são customizadas – concluiu Lina, após um rápido exame. – Parecem ter sido confeccionadas manualmente via alquimia. E foi um ótimo trabalho. Você sabe quem as criou?

– Fui eu mesma.

O queixo da outra quase caiu.

– Você?! Oh, me perdoe. Você… é muito talentosa.

– Talvez um dia tenha sido, hoje não faço mais essas coisas.

– É mesmo? É uma pena.

– Acha que consegue dar um jeito nelas?

A mulher voltou a analisar os objetos com atenção.

– É possível restaurar. Mas devo confessar que nosso nível de qualidade é bem inferior ao dessas peças. Será um processo um pouco dispendioso, e não posso garantir que conseguiremos restaurar completamente todos os canais místicos.

– Faça o que puder, por favor. Não estou preocupada com o preço. Acredito que a tenente Cristalin Oglave tenha deixado uma autorização para efetuar esses reparos.

Lina sorriu satisfeita.

– Oh, sim, deixou sim! – A mulher foi até uma mesa nos fundos e virou algumas páginas de um livro cheio de anotações. – Você é Cariele Asmund?

– Sim.

– Temos instruções para priorizar esse trabalho, então não irá demorar muito. Pode voltar, digamos, em cinco dias?

No passado, tendo o material e um bom laboratório, Cariele levaria bem menos tempo do que aquilo para criar uma arma nova, mas de que adiantaria reclamar? Segundo Daimar, aquelas pessoas estavam entre as mais eficientes da província.

– Você teria algo que eu possa usar até lá, caso ocorra alguma emergência? De preferência que seja de um material com nível de pureza similar ao das minhas.

– Pode ser uma espada? Não, acho que a que eu tenho não é tão similar. Mas que tal esse aqui? – Ela pegou um bastão que estava pendurado ao lado de diversas outras armas. Olhos que não fossem bem treinados poderiam achar que aquele bastão fosse a mais inferior de todas. Tratava-se de um cilindro de quase dois metros de comprimento sem nenhum tipo de ornamento.

Cariele pegou a arma e a girou no ar uma vez, antes de fazer alguns movimentos para sentir sua afinidade com o material. Não era excepcional, mas era muito boa. Numa luta puramente física ela teria dificuldades, pois fazia muito tempo que não treinava com esse tipo de arma, mas do ponto de vista místico a conversa era outra, bastaria ter um bom simulacro equipado.

– Este está perfeito. Posso levá-lo?

– Fique à vontade.

Ela então enfiou o bastão no bolso de fundo infinito e agradeceu à mulher, antes de sair em busca de Daimar.

Os dois saíram do estabelecimento 40 minutos depois, um tanto frustrados. Britano olhou para eles, curioso.

– O que houve?

– Parece que nossa pesquisa chegou num beco sem saída – revelou Daimar. – Os ferreiros não puderam nos ajudar, mesmo sendo descendentes diretos do homem que criou os artefatos.

Janica olhou dele para Cariele.

– E o que vão fazer agora? Voltar à biblioteca?

– Acho que não temos opção… – respondeu Daimar.

– Um minutinho aí – disse Cariele, lançando-lhe um olhar questionador. – E quanto ao alquimista?

– Qual?

– O da tal Rua das Camélias.

– Ah, ele.

– Vamos visitá-lo.

Ele olhou para ela, intrigado.

– Por que isso agora?

– Porque você está procrastinando. Vamos lá agora, resolvemos logo esse assunto e depois continuamos a pesquisa.

– Não há pressa.

Ela colocou as mãos na cintura.

– Você está com medo.

– Claro que não!

– Está sim. Por isso não foi lá ainda.

– Meu pai me disse para ir lá só em caso de emergência!

– Bobagem! Na última carta ele te mandou ir lá de qualquer forma!

Ele abriu a boca para responder, mas acabou desistindo e respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.

– Sabe, não é muito legal expor as fraquezas de outra pessoa assim na frente de um monte de gente – reclamou ele.

– Ela tem razão, barão – disse Britano. – Melhor acabar logo com isso. Podemos ir todos com você, se quiser.

– Sim – Janica manifestou-se. – E sabemos que você está passando por uma situação complicada. Em minha opinião você está se saindo muito bem, inclusive.

– Não dá para raciocinar direito com toda essa pressão – concordou Cariele. – Meu sargento gostava de dizer que “quando não é possível confiar eu seu próprio julgamento, escute pessoas em quem confia”.

– Você fala como se eu tivesse, sei lá, batido a cabeça e ficado… – ele fez círculos ao redor do ouvido com o dedo.

Britano e Janica riram. Cariele sorriu, inclinou a cabeça para o lado e olhou significativamente para ele.

– Está bem, está bem! – Daimar adiantou-se e abriu a porta da carruagem, fazendo sinal para todos entrarem. – Mas que fique registrado que eu ganhei automaticamente o direito de me meter na vida de vocês quando eu tiver vontade.

Para a decepção de todos, no entanto, o alquimista não estava em casa, e nenhum dos vizinhos conseguiu informar quando ou se ele voltaria.

♦ ♦ ♦

Após o almoço, Daimar e Cariele permaneceram no refeitório, sentados um de cada lado de uma mesa próxima a uma das grandes janelas.

Repassaram todos os pontos da pesquisa que tinham feito no dia anterior e a entrevista com os ferreiros. Então ela, graças a seu conhecimento avançado de física e objetos misticamente encantados, se deu conta de algumas incongruências naquelas histórias. Ela expôs isso a Daimar e ambos acabaram mergulhados em uma discussão envolvendo misticismo, política, motivações pessoais e diversos outros assuntos.

Em certo momento, as outras garotas da fraternidade entraram no refeitório. Agneta e Malena ficaram conversando perto da porta enquanto as outras três se aproximaram deles.

– Oi, barão! Oi, Cari! Como você está hoje?

– Boa tarde, meninas. – Daimar dirigiu-lhes um sorriso amigável.

– Olá – respondeu Cariele. – Eu estou bem, obrigada.

– Menina, fiquei sabendo que a instrutora da classe especial colocou você contra o resto da sala, e que de todos eles só o barão quis te ajudar, é verdade?

Cariele suspirou.

– Uau, já estão falando disso por aí?

– Como não, garota? Esse babado é uma coisa de louco! Você vai registrar uma reclamação, não vai?

– Eu, não.

As três fizeram uma cara horrorizada.

– Como não?!

– Simples – respondeu Daimar com toda a calma. – Nós vamos ganhar essa aposta.

– Vocês vão mesmo competir com um grupo de doze pessoas?

– Eu fui tão culpada pela confusão quanto todos os outros – disse Cariele. – E, como eu não quero retirar nada do que eu disse na sala, seria muita covardia da minha parte querer fugir do castigo. Mas não se preocupe, como o barão disse, não pretendemos perder.

Agneta parecia estar prestando mais atenção no que Cariele dizia do que na conversa que estava tendo. Em certo momento os olhares de ambas se encontraram e Agneta tratou de desviar o olhar, deu algum tipo de desculpa e saiu do refeitório.

Malena então se aproximou deles.

– Oi, Cari! Oi, Barão! Tudo bem com vocês?

Daimar e Cariele retribuíram o cumprimento educadamente, enquanto uma das moças encarou Malena, toda excitada.

– Menina! Eles vão mesmo peitar a outra equipe! Dois contra doze! É mole?

Malena olhou de Cariele para Daimar.

– Por alguma razão isso não me surpreende. – Malena virou-se para as outras. – E quanto a vocês? Não têm um trabalho para fazer também?

As moças então se despediram, não antes de exigirem participar de uma “noitada” comemorativa depois que Cariele e Daimar vencessem a aposta. Cariele estava muito curiosa sobre o que Malena e Agneta conversaram, mas achou melhor não perguntar.

– E vocês dois? – Malena puxou uma cadeira e sentou-se ao lado deles. – Vão voltar ao trabalho também? Precisam de ajuda?

– Na verdade, eu gostaria de pedir um favor – disse Daimar, estendendo uma chave para ela. – Poderia ir ao meu quarto e trazer uma pilha de anotações que está sobre a minha mesa, no canto direito? E também uma pena e um vidro de tinta?

– Deixa comigo. Volto já.

Então Daimar e Cariele voltaram à discussão anterior, ligando alguns pontos e, aparentemente, desvendando parte do mistério sobre os crânios esculpidos.

Quando Malena voltou, com os braços cheios de papéis, encontrou os dois falando animadamente e sorrindo um para o outro. Na opinião dela, era uma cena adorável.

– Pode colocar aqui, obrigado – disse Daimar, liberando espaço na mesa.

– Está tudo aí? – perguntou Malena, depois de ajeitarem tudo.

– Sim, você trouxe até mais do que eu pedi. Obrigado.

– Por nada. Vocês parecem estar se divertindo, então vou seguir meu caminho. Vejo vocês mais tarde.

Daimar se despediu e a observou se afastar. Quando voltou a olhar para Cariele, viu que ela tinha pegado uma folha de papel e estava lendo, com a testa franzida.

– O que foi?

– O que é isso aqui? Parece um projeto para construir alguma coisa.

– Hã? Ah, droga! Malena deve ter pegado por engano. Não é nada, é só uma ideia maluca que venho tentando melhorar quando tenho tempo livre. Sabe, como um passatempo.

Cariele colocou a folha cuidadosamente de lado e pegou uma outra, começando a ler avidamente.

Constrangido, Daimar não pôde fazer nada além de observá-la enquanto ela lia as cinco primeiras folhas do projeto particular dele. Por fim, ela levantou a cabeça e o encarou, ainda com a testa franzida.

– Isso aqui é genial. – Ele percebeu que ela disse aquilo não como um elogio, mas como se estivesse constatando um fato, o que o deixou muito orgulhoso.

– Você acha?

– Já fez algum teste de campo? Construiu algum protótipo?

– Não, eu nem sei por onde começar ainda. Isso envolve muita física e matemática para o meu gosto.

– Me parece bastante simples. Tão simples que não sei como ninguém nunca pensou nisso antes. Você pode fazer uma fortuna.

– Não era exatamente essa a minha principal motivação, mas imagino que dê para fazer um bom dinheiro, sim.

– Você é surpreendente.

– Sério? Vindo de você, isso é um elogio e tanto – ele sorriu.

– Parece que cada vez que converso com você, aparece uma coisa nova, uma faceta diferente de personalidade, sei lá.

– Curioso. Essa é a exata impressão que eu tenho sobre você.

– Acho que tédio nunca vai ser um problema entre nós, não é? – ela sorriu também.

– Com certeza, não.

De repente, ambos se deram conta de que estavam debruçados sobre a mesa, com os rostos bem próximos. Então se olharam nos olhos por um longo tempo, até que não conseguiram mais se conter e começaram a se aproximar cada vez mais, sem deixarem de se fitar até que por fim, seus lábios se encontraram.

Aquilo não foi o que nenhum dos dois esperava. Foi estranho, quase que… decepcionante. Parecia ter algo de errado, alguma coisa faltando… ou sobrando.

Os dois se separaram e voltaram a se ajeitar nas cadeiras, muito constrangidos. A experiência em si não tinha sido nada boa, mas o desejo que os levou a ela, curiosamente, continuava lá, tão forte quanto antes.

– Desculpe – ambos disseram ao mesmo tempo, e aquilo os fez rir, diminuindo um pouco do constrangimento.

Ela achou melhor mudar de assunto.

– Posso ajudar você com isso depois, se quiser – ofereceu ela, apontando para o projeto dele. – Mas temos algo mais urgente para nos preocupar primeiro.

– Sim, tem razão – concordou ele, relutante, sentindo-se mais confuso do que nunca. – Vamos organizar todos esses pontos que discutimos sobre o trabalho e decidir nosso próximo passo, tudo bem?

♦ ♦ ♦

A tarde já estava quase no fim quando finalmente terminaram de revisar todas as anotações e elaborar um “plano de ataque” a ser colocado em prática na biblioteca.

Cariele soltou um suspiro satisfeito enquanto caminhavam pelos jardins.

– Fazia muito tempo desde a última vez em que trabalhei em um projeto tão minucioso – disse ela. – Duvido que a outra equipe consiga reunir tantas informações.

– Não se esqueça de que a parte mais difícil é a apresentação.

– Se você se encarregar da lenga-lenga de motivações políticas, econômicas, éticas e não sei o que mais, eu me viro com a parte de física, matemática e metodologia.

– Você é a mulher dos meus sonhos.

Apesar de ter dito aquilo em tom de brincadeira, Daimar se arrependeu imediatamente, pois aquilo voltou a trazer à tona o clima estranho que ocorreu com eles depois do beijo.

– Sabe – disse ela. – Eu não costumo… sei lá, provocar caras para depois rejeitar. Eu não sei o que aconteceu comigo hoje, só me deu uma sensação esquisita e eu meio que fiquei sem saber o que fazer.

– Uau! Você é mesmo incrível.

– Por quê?

– Por conseguir colocar isso em palavras desse jeito.

– Isso estava me incomodando, então eu resolvi fazer algo a respeito. Algum problema?

– Não, não. É que nesse ponto somos muito diferentes. Eu… eu senti algo estranho também. Sei lá, como se estivesse tocando em algo… frio, sem cor, uma coisa estranha, que não parecia ser você.

– É mesmo? Essa é precisamente a sensação que eu tive – ela franziu o cenho.

– Que bom. Estou aliviado que não seja só eu.

– Tem algo errado com um de nós.

– O quê?

– Eu achei que tinha algo a ver com… falta de química, ou algo assim. Mas esse tipo de coisa nunca é sentido exatamente da mesma forma pelas duas pessoas envolvidas. Vamos pensar de outra forma. Eu já tive relacionamentos antes, e quanto a você?

– Sim, eu tive alguns.

Aquela resposta não a surpreendeu, mas mesmo assim a deixou muito desapontada.

– E nunca sentiu isso com nenhuma outra, não é?

– Definitivamente, não.

– Tem algo errado. Esse tipo de… incompatibilidade não é normal.

Ele suspirou e moveu os ombros, sentindo-se desconfortável.

– E como se investiga algo como isso?

– Não sei. Não é como se…

Ela se interrompeu ao ver que se aproximavam de um grupo grande de estudantes, reunidos ao redor de mesas de pedra dos dois lados da calçada. Vários colegas da classe especial estavam entre eles, incluindo Agneta.

Ao verem Cariele e Daimar se aproximando, alguns deles começaram a lançar zombarias e insultos a ela, em tom de deboche.

Cariele franziu o cenho e apertou os lábios, mas continuou seguindo em frente sem dar atenção a eles. Daimar chegou a pensar em falar umas verdades, mas ao ver que ela se esforçava para manter-se controlada, preferiu apenas segui-la em silêncio.

Conforme passavam pelo grupo e começavam a se afastar, os insultos foram ficando mais ofensivos, até que uma das moças a acusou de ser uma farsa e ter feito um ritual de modificação corporal para ter aquela aparência, perguntando-se em voz alta que tipo de aberração ela devia ter sido antes para ter feito uma coisa daquelas.

Parando de andar, Cariele virou-se e encarou a moça, enfurecida.

– Eu era uma aberração sim, se você quer saber. E já que vocês parecem ter tanta inveja de como eu sou agora, acho que é melhor vocês darem uma olhada nisso aqui.

Ela desenrolou o lenço da cabeça e virou-se de lado, permitindo que todos dessem uma boa olhada na grande falha em seu couro cabeludo.

Daimar pensou em pegá-la pela mão e tirá-la dali mas ficou completamente estarrecido ao olhar para a cabeça descoberta dela.

– Estão vendo isso? Rituais podem parecer uma coisa bacana, mas tenho uma novidade para vocês: eles raramente funcionam. No meu caso, ele já está perdendo o efeito, portanto vocês não têm mais com o que se preocupar. Logo, logo, eu voltarei a ser o dragão que era antes, ou talvez eu acabe ficando pior ainda. De qualquer forma, ninguém mais vai precisar se preocupar em ter que competir comigo!

Sem se dar ao trabalho de voltar a cobrir os cabelos, ela virou-se e saiu pisando duro.

Daimar lançou um olhar furioso na direção dos estudantes e percebeu que Agneta encolhia-se toda no banco de pedra. A infeliz podia não ter aberto a boca para falar nada contra Cariele, mas também não se deu ao trabalho de dizer nada a favor.

Ele chegou a começar a falar algo, mas acabou mudando de ideia e saiu correndo atrás de Cariele.

Alcançá-la não foi um problema, mas ela parecia tão transtornada que ele simplesmente não conseguiu encontrar nada que pudesse dizer, então apenas a acompanhou em silêncio enquanto ela continuava marchando pela trilha que cortava os jardins da academia.

Depois de um tempo, ele aproximou-se e pegou o lenço que ela segurava por uma das pontas, quase arrastando a outra no chão.

– Não vai querer recolocar isso?

– Para quê?

– Não sei. Por que você usava antes?

– Para não ficarem fazendo fofoca sobre mim!

– Já foi a um curandeiro para ver isso?

– Sim, eu fui! Foi a primeira coisa que eu fiz! Não sou uma procrastinadora como você!

– Ei, isso é injusto.

– Não me venha falar de injustiça!

– Não quer sentar e conversar um pouco?

– De que vai adiantar?

– Alguém recentemente me disse que em certas situações é bom ouvir as pessoas em quem você confia.

Ela parou subitamente e o encarou por um momento, parecendo travar um debate interno consigo mesma. Por fim, ela apontou para o lenço.

– Não preciso mais usar essa coisa, porque minha aparência não importa mais. Nunca vou conseguir me casar com um ricaço, pois não consigo mais suportar a ideia de ficar com ninguém além de você! E hoje eu ainda descobri que com você não sou capaz nem mesmo de trocar um simples beijo! Então não me venha falar em injustiça!

♦ ♦ ♦

Delinger Gretel entrou correndo na câmara e seus piores temores pareceram ganhar vida ao ver Cristalin Oglave jogada num canto da caverna, coberta de sangue.

Um rápido olhar ao redor mostrou a ele que o que quer que a tivesse agredido não era mais ameaça, pois o lugar estava coberto de sangue e de inúmeros pedaços do que um dia devia ter sido um ser vivo.

No momento em que ele começou a se ajoelhar ao lado dela, Cristalin soltou a respiração e levantou o tronco, passando a mão pelo rosto para remover o sangue e a sujeira de sobre os olhos.

– Você está bem?

Ela teve um súbito acesso de tosse.

– Exceto por essa gosma e esse cheiro insuportável, estou ótima. – Ela lutava para normalizar a respiração. – Céus! Vocês todos cheiram tão mal assim por dentro?

Ele riu, aliviado.

– Não saberia dizer. Nossos sentidos funcionam de forma diferente dos seus, então o que é ruim para você pode não ser, necessariamente, desagradável para nós. E vice-versa. Consegue se levantar?

– Sim – disse ela, pondo-se de pé com uma careta enquanto olhava ao redor. – Um a menos. Eu disse a você que eu não seria um peso morto.

– Estou vendo.

– E quanto aos outros?

– Nosso trabalho aqui está encerrado – disse ele, caminhando até um canto.

– Ótimo. Isso quer dizer que acabou?

– Não. Está faltando pelo menos mais um deles.

– Como sabe?

Delinger abaixou-se, analisando com cuidado algo que estava no chão.

– Um dos anciãos fez questão de me contar que a morte dele não seria em vão e que a justiça a nosso povo seria feita quando a raça humana extinguisse a si mesma.

– Isso não soa nada bem.

– Não. Agora pode me esperar lá fora?

– Por quê?

– Se o cheiro já é suficiente para incomodar você, acredite em mim quando digo que não vai querer ver o que eu vou fazer agora.

— Fim do capítulo 11 —
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2 opiniões sobre “Lassam – Capítulo 11: Confiança

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