Valena – Capítulo 11

Publicado em 18/03/2018
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11. Balaio de Gato

Após aquela absurda e surreal experiência de voar pelo céu envolta em chamas, trombar em uma montanha e cair de uma absurda altitude a ponto de abrir uma cratera no chão e depois conseguir se levantar e sair de lá andando, Valena não se sentia nada bem. Lidar com as implicações daquela… coisa que tinha aparecido em seu rosto estava fora de suas capacidades no momento.

O mundo de repente parecia ter ficado maluco. A sensação de irrealidade era tão grande que ela mal percebeu para onde estavam indo até que pararam na frente de um grupo de oficiais e Evander disse:

– Valena, este é o general Leonel Nostarius.

Valena olhou para o rosto sério do homem, para aqueles olhos negros que emanavam inteligência e poder e ficou completamente sem ação. Para deixar as coisas ainda mais estranhas, o general e todos os outros oficiais ao redor prestaram continência.

Abobalhada, ela deu uma espiadela para trás para ver se alguém importante tinha chegado de repente, mas tudo o que viu foi Evander, que lançava a ela um sorriso amigável. Sonhadora, ela pensou que ele ficava ainda mais bonito quando sorria.

– Você está bem?

Ao ouvir aquela voz grave e séria, ela imediatamente voltou a olhar para o general. Claro que ela o conhecia, provavelmente não havia alma viva no império que ainda não tinha ouvido falar de Leonel Nostarius, praticamente uma lenda viva. O homem comandara durante décadas uma tropa de elite conhecida como Guarda Imperial, composta pelos mais poderosos e eficientes soldados que já se ouvira falar. Ele também havia causado uma verdadeira revolução com suas táticas inovadoras de administração, tendo transformando o exército imperial em algo muito maior do que uma simples força militar, fundando academias, treinando ferreiros, artesãos e alquimistas e levando o progresso a todo lugar, mesmo às comunidades mais isoladas. O próprio emprego de Valena existia apenas por causa desse homem.

– Hã… olá. Não, digo… sim… ah, aragti! Quero dizer, estou bem, sim.

O general lançou-lhe um olhar avaliativo, antes de se dirigir a Evander.

– O que aconteceu?

O subtenente deu de ombros e apontou para o Monte Efígeo.

– Eu fui pego na explosão que causou aquele desmoronamento. Valena apareceu voando e me pegou, mas acabamos trombando na montanha e caindo. Minha concha de proteção absorveu o impacto, primeiro com a montanha e depois com o chão, então estamos bem. Mas a neutralização de inércia desse poder pode deixar as pessoas bastante desorientadas, quando experimentam isso pela primeira vez.

Valena olhou para Evander, piscando, confusa. Então, era aquilo que tinha acontecido? Apesar da patética tentativa dela de salvá-lo, no fim ele é quem a tinha salvo. Mas porque ele falava daquela forma, como se fosse o culpado por ela estar fazendo papel de idiota na frente dos oficiais?

– Entendido – disse o general, antes de olhar para trás e fazer sinal para uma mulher de baixa estatura, com cabelos de um curioso tom negro azulado que lhe caíam um pouco abaixo dos ombros e vestia roupas simples. – Gaia?

Com um sorriso sereno, a mulherzinha se aproximou.

– Tudo bem com você, criança? Venha conosco. – Ela lançou um breve sorriso para um dos soldados. – Se esse simpático oficial puder nos levar até um local mais reservado, vamos cuidar de você. Está com fome?

Ainda perplexa com tudo aquilo, Valena caminhou ao lado da mulher, que lhe colocou um braço ao redor da cintura enquanto seguiam o “simpático oficial”, que parecia extremamente satisfeito por ter sido endereçado daquela forma.

As coisas pareciam ficar cada vez mais confusas. Em que tipo de balaio de gato ela havia se metido, afinal?

Ela parou, de repente e olhou ao redor.

– Minhas coisas… onde estão minhas coisas!?

– Posso buscar para você – ofereceu Evander, surgindo ao lado dela, de repente. – Se me disser do que precisa e onde está.

– Eu… levava uma bolsa… quando estava subindo o morro…

– Entendido – respondeu ele, num tom de voz praticamente idêntico ao do general. – Vá com a sacerdotisa e descanse, pode deixar que eu busco para você.

Valena apenas ficou olhando, um pouco apalermada, enquanto o subtenente prestava uma rápida continência para o general, que se limitou a assentir. Em seguida ele se voltou e saiu andando apressado pelas ruas da cidade.

Então ela piscou e olhou ao redor. Quando haviam voltado para a cidade? Ela devia estar bem pior do que pensava para não ter reparado nisso antes.

– Como esse rapaz é prestativo, não?

Valena olhou para a sacerdotisa, ainda um tanto confusa.

– Eu… acho que sim.

– Não se preocupe – disse a mulherzinha, voltando a abraça-la pela cintura. Valena devia ser pelo menos uns 15 centímetros mais alta que ela. – Ele vai voltar logo, enquanto isso, vamos levar você para descansar um pouco.

O soldado as levou até um dos alojamentos da base militar de Linarea. Gaia ajudou Valena a se deitar na cama e se ajoelhou ao lado dela.

– Como se sente?

– Estranha. O que é essa coisa em meu rosto? Parece que está queimando…

A sacerdotisa pareceu espantada.

– Você não sabe o que é essa marca? Não teve sonhos, presságios? A Grande Entidade não entrou em contato com você?

– Não, tudo o que eu sei é de repente eu estava no meio de um fogaréu enquanto flutuava no ar. E agora estou toda dolorida – Valena fez uma careta enquanto começava a coçar o braço esquerdo. – E acho que me queimei também.

– Não pode ser – disse a sacerdotisa, desamarrando os cordões que prendiam suas roupas e olhando espantada para a pele de seu peito. – Pelo espírito!

– O que está acontecendo? Está ardendo! O que eu tenho?

– Calma, criança – disse Gaia, colocando a mão em sua testa. Imediatamente Valena relaxou, apesar da agonia que sentia na pele. – Durma. Cuidaremos de você, não se preocupe. Apenas descanse.

♦ ♦ ♦

Os raios do sol do início da manhã a acordaram. Ela virou-se para o outro lado, tentando fugir daquele incômodo e voltar a dormir, mas o raio de sol foi mudando de posição, incidindo sobre ela, e depois sobre a parede branca à sua frente, refletindo de volta em seu rosto.

Suspirando, desanimada, ela levou a mão aos olhos e levantou o tronco, sentando-se e tentando se lembrar de onde estava. Então o lençol que a cobria escorregou e ela percebeu que não estava vestida. Com uma pequena exclamação de surpresa, ele puxou o lençol contra si e olhou ao redor. Parecia ser a casa de alguém, uma casa muito maior e melhor do que a pocilga onde morava. As paredes eram de pedra e tinham sido meticulosamente pintadas com um tom suave de amarelo. O espaço era muito grande e tinha enormes janelas, por onde entrava o sol da manhã. Diante da também enorme cama com dossel havia o mais bonito tapete que ela jamais vira em sua vida. Haviam vários armários e cômodas junto às paredes, além de algumas mesas com cadeiras e uma grande lareira em uma das paredes.

Uma suave batida na porta a assustou. Procurou ao redor, mas não viu suas roupas em lugar algum. Pensou em procurar alguma coisa nos armários, mas o som da porta se abrindo fez com que ela se encolhesse na cama, puxando o lençol até o pescoço.

Então a sacerdotisa entrou, carregando uma bandeja com comida.

– Bom dia – cumprimentou a recém-chegada, com seu costumeiro sorriso sereno. – Ficamos felizes que tenha acordado. Parece muito bem, como se sente?

Quando a mulher fechou a porta, Valena relaxou um pouco.

– Bem, eu acho. Onde estamos?

– Ah, sim, me perdoe. Aqui é o palácio imperial – respondeu a sacerdotisa, aproximando-se da cama e colocando a bandeja ao lado de Valena, que sentiu água na boca. – Deve estar faminta. Pode comer, isso fará bem a você.

– Onde estão minhas roupas?

– Receio que elas estavam muito danificadas, pois tivemos que tirá-las às pressas para poder medicar você, sinto muito por isso. Mas não precisa se preocupar. – Gaia caminhou até uma cômoda e tirou diversas peças de lá, antes de trazê-las até a cama. – O imperador ficará contente em fornecer o que você precisar.

Valena, que estava mordendo um pedaço de pão com vontade, se imobilizou ao ouvir aquilo e levou a mão ao lado direito do rosto, sentindo o relevo que ainda lhe era estranho.

– Então, isso aqui é mesmo a…

– Sim, querida. Você foi abençoada com a maior das honras do império.

A sacerdotisa entregou-lhe um espelho de mão. Valena pegou-o e arregalou os olhos ao ver as linhas douradas que claramente formavam o desenho de um pássaro de fogo. Um desenho perfeito demais para ter sido feito por mãos humanas. Ela tocou o próprio rosto e pôde sentir o relevo da imagem na pele ainda um pouco sensível.

– Como…? Por quê…?

– Não cabe a nós julgar os desígnios dos Eternos, criança. Resta-nos apenas a incumbência de aceita-los e vivermos nossas vidas de forma digna. Você recebeu uma grande dádiva e deve honrá-la.

Bisadaha i yareeyeen!

A sacerdotisa levou a mão aos lábios, parecendo horrorizada, ao ouvir aquilo.

– Minha filha, por favor não use tal linguajar.

Valena abaixou o espelho e estreitou os olhos.

– O que importa a bass do meu linguajar numa hora dessas?!

– Eu lhe imploro que evite proferir tais coisas. Essas palavras subvertem de forma nefasta o belo e harmônico idioma de meus ancestrais.

A sacerdotisa não estava dando uma ordem. Olhando para ela dava para perceber que realmente estava fazendo um pedido, uma súplica. Valena achava aquilo uma coisa banal, mas para aquela mulher parecia muito importante.

– Me desculpe.

Gaia sorriu.

– Sei que tudo isso deve ser difícil para você. Vamos, coma. Precisa restaurar suas energias.

Valena deixou o espelho de lado e voltou a dar uma mordida no pão, antes de olhar novamente para a sacerdotisa.

– A senhora disse que precisou me medicar? O que eu tinha?

– Era apenas o seu corpo se adaptando ao seu novo poder.

Valena olhou para seus antebraços, que pareciam normais.

– Estava ardendo para wanaagsan. – A sacerdotisa pareceu tremer nas bases ao ouvir o xingamento, o que fez Valena se sentir mal. – Oh, desculpe.

– Houveram algumas complicações, mas nada que deva afligi-la.

– E aquilo vai voltar a acontecer? Quero dizer, eu sair voando de repente sem saber como ou por quê? E depois passar por… complicações de novo?

Gaia suspirou.

– Filha, você recebeu uma excepcional dádiva e possui um poder grandioso. É natural que surjam algumas atribulações. Mas estaremos sempre aqui para servir e acorrer em toda desventura que possa advir.

Valena voltou a comer até que se lembrou de outra coisa.

– Minhas coisas! Onde estão minhas coisas?! A carta que eu estava levando…

A sacerdotisa a encarou, surpresa.

– Oh. Fique tranquila. Termine de comer e vista-se. Tem uma pessoa esperando para falar com você desde ontem. Ele está com seus pertences e poderá deixa-la a par dos acontecimentos.

Valena olhou para os ricos e trabalhados trajes que Gaia tinha jogado sobre a cama e notou que talvez, aquela situação toda pudesse lhe trazer alguns benefícios muito bem-vindos.

– Só mais uma coisa, minha filha: é da vontade do Grande Espírito que seja mantido em sigilo o fato de termos trazido você para cá desacordada.

– O quê? Por quê?

– Não estamos certos da razão pela qual seu corpo reagiu dessa forma. Até que este mistério esteja esclarecido, precisamos ser cuidadosos, para sua própria segurança.

♦ ♦ ♦

Quem estava esperando para vê-la era o sargento Lacerni.

– Que bom poder ver que está bem – disse ele, parecendo aliviado, enquanto lhe devolvia sua bolsa. – Ninguém aqui me dava detalhes do que estava acontecendo, já estava começando a ficar preocupado.

– Parece que não consegui entregar a carta…

Ele a encarou, perplexo, por um momento, antes de cair na risada.

– Acredito que você tem coisas muito mais importantes do que isso para se preocupar no momento, menina.

– Mas era urgente…

– Sim, uma carta urgente de uma mulher casada avisando ao amante que não iria comparecer a um encontro. – Ele voltou a rir ao vê-la arregalar os olhos. – Um jovem oficial do exército levou a carta até seu destinatário. Depois fez algumas perguntas a ele, uma vez que o homem estava escondido no topo do morro enquanto ocorria aquela confusão toda. Como o homem também era um soldado… bem, essa história vai ter sérias consequências para a carreira dele.

– Mas, como você…?

– O rapaz fez a gentileza de vir até a nossa base e reportar tudo. Ele também trouxe suas coisas e sua montaria de volta.

Ela estranhou aquilo.

– Mas por que alguém se daria a todo esse trabalho?

– É procedimento padrão. Afinal, você é menor de idade e estava sob o cuidado de militares. Precisavam tentar localizar e avisar sua família, caso você tivesse uma.

– Oh.

Nesse momento, uma oficial feminina apareceu na porta.

– Com licença, alteza. O imperador solicita sua presença.

– “Alteza! Olha só isso – Lacerni riu e deu alguns tapinhas amigáveis no ombro de Valena. – Vá lá, garota. Sua nova vida começa agora.

Ela deu um sorriso sem graça.

– É o que parece – ela ficou séria e olhou para o sargento, que lhe sorria, parecendo muito orgulhoso. Ele começava a aparentar os sinais da idade, com fios prateados começando a aparecer entre os cabelos negros. Alguma vez ela tinha lhe agradecido por tudo o que ele tinha feito? – Na verdade, sargento, eu nunca disse isso antes, mas acho que minha “nova vida” começou foi dois anos atrás. Isso aqui não é nada em comparação com aquilo.

Então, sem querer olhar para ele, ela deixou a bolsa sobre a cama e se dirigiu apressada para a porta.

O sargento levou um longo tempo para conseguir se recompor o suficiente para poder sair do aposento.

♦ ♦ ♦

O senador Edizar Olger havia levantado várias objeções contra aquele plano. Sendo ele o único representante de Mesembria no senado imperial, Valena se sentia na obrigação de ouvir o que o homem tinha a dizer, mas naquele caso, onde sua vida e possivelmente a de inúmeros cidadãos estavam em jogo, ela não iria dar para trás.

– Eu não sou nenhum especialista em viagens dimensionais, alteza – ele insistia.

– Segundo seu governador, você é o sábio com maior experiência nesse tipo de fenômeno – retrucou ela.

– Eu trabalhei com um tipo muito específico de portal, mas só depois de receber instruções detalhadas sobre o funcionamento dele de outra pessoa.

– Senhor Olger – Sandora chamou a atenção do homem. – Apenas precisamos da assistência de alguém que faça uma boa ideia de com o que estamos lidando aqui.

– Além disso, não tem razão para se preocupar – insistiu Valena. – Aragti, mesmo que isso não funcione, não terá problema nenhum, não pretendemos teletransportar pessoas.

O sábio ajustou o chapéu pontudo.

– Com todo respeito, alteza, se isso não funcionar, pode ser que essas suas “bombas” acabem indo parar em qualquer lugar. Dentro do seu palácio, por exemplo, ou em locais cheios de crianças.

– Isso é estatisticamente improvável – retrucou Sandora. – Mas ter conosco alguém habilidoso e capaz de se preocupar com esses detalhes é a razão de termos pedido sua presença.

O homem deu um suspiro inconformado, mas retornou ao trabalho. Valena olhou para Sandora, surpresa.

– Por acaso andou tendo aulas de negociação com Lutamar Romera e não fiquei sabendo?

– Isso se chama bom senso.

– Curioso ver você dizendo isso – retrucou Cariele Asmund, olhando para Sandora com o cenho franzido. – Se tivesse algum bom senso, não estaria se colocando na linha de frente em seu estado.

Sandora olhou para ela.

– Vamos ser francos aqui. As chances de eu sobreviver a essa gravidez são praticamente nulas. Eu sei disso e você também. Não vou ficar escondida em algum lugar esperando minha hora chegar. E se eu ainda estiver entre os vivos daqui a cinco meses, ficarei muito mais satisfeita em saber que fiz tudo o que pude para tornar esse mundo um lugar melhor para meu filho.

Os presentes ficaram todos em silêncio e retomaram suas atividades.

Valena se afastou, pensativa. Não era capaz de saber o que faria se estivesse na mesma situação da bruxa, e também era difícil determinar se o que a levava a agir daquela forma era coragem ou medo. De qualquer forma, todos ali estavam dispostos a arriscar suas vidas pelo império, não apenas Sandora. Isso tornava o peso de ser uma imperatriz bem mais difícil de carregar.

Valdimor e Gram estavam ajudando os soldados a colocarem os pesados artefatos em seus lugares. Tentando não olhar para o peito desnudo daquele… daquela criatura, ela se aproximou dele com o dedo em riste. Ele deixou o que carregava no chão e a encarou com olhar interrogativo.

– Eu sei quem é o responsável por você ter perdido a memória.

Aquilo o fez arregalar os olhos.

– Eu também sei – continuou ela – o porquê de você ter vindo com aquela história de tortura para cima de mim. – Apesar de estar falando em um tom de voz baixo, Valena percebeu que Gram ouvia cada palavra, e com interesse. – Eu sem quem fez isso com você antes de te entregar para nós. Nem mesmo Sandora seria capaz de derrotar você com um único golpe sem ajuda.

– Quem?

Ela sacudiu a cabeça.

– Você não precisa saber isso. Não agora.

Ele cruzou os braços, impaciente.

– Deseja algo mais?

– Eu quero que você saiba porque está aqui. Quero que esteja ciente que a aura de proteção de Sandora é o que está livrando você do controle que sofreu durante tanto tempo. Quero que saiba que não era nossa intenção arrancar você das garras de quem quer que seja, mas já que você foi jogado no nosso colo, nós decidimos cuidar da baqti dessa sua carcaça.

– Pare.

– Não vou parar! Você vai precisar lutar hoje, e toda vez que isso acontecer você vai se sentir tentado a voltar para o outro lado. Até agora eu nunca levantei um dedo contra você, não de verdade, pelo menos. Mas isso aqui é importante. Se você se colocar em meu caminho hoje, eu vou matar você. E não me olhe desse jeito, eu já matei antes e posso muito bem fazer de novo quando necessário. Se quiser ir embora agora, a escolha é sua.

Ele levantou uma das mãos tentando tocar o rosto dela, mas Valena se esquivou, dando dois passos para trás, e só então sentindo, horrorizada, que uma lágrima lhe escorria pelo rosto.

Visivelmente irritado, Valdimor lhe deu as costas e caminhou na direção dos soldados, que continuavam descarregando as carroças. Valena respirou fundo e se virou para voltar para junto dos outros, quando sentiu uma mão cadavérica em seu ombro e sentiu um tremor involuntário percorrer todo o seu corpo.

Por que raios a Fênix lhe dava tantas provações, afinal? Quem, em sua sã consciência, iria aceitar numa boa um grupo de aliados como aquele?

Devagar, ela virou a cabeça e encarou os brilhantes olhos vazios de Gram. A morta-viva a soltou e fez com as mãos enluvadas alguns gestos típicos de militares. Força. União. Avante. Com ênfase no “avante”.

Era a primeira vez que Gram tentava lhe dizer alguma coisa, e não é que a jahwareer era boa naquilo?

– Eu sei que você gosta dele, mas eu precisava dizer aquilo. Eu não posso hesitar, isso aqui é importante demais.

Gram bateu um punho fechado na palma da outra mão antes de fazer um gesto de continência. Era impossível saber se a morta-viva estava sendo otimista, irônica ou se estava rindo de sua cara.

♦ ♦ ♦

O plano era bem simples: distrair o inimigo enviando uma série de bombas para várias partes da Sidéria, onde explodiriam e causariam confusão, possivelmente causando a mobilização de tropas paras investigar. Enquanto isso, a verdadeira invasão começaria, pelo ar.

Os cavaleiros aéreos aguardavam, ao lado de suas águias gigantes. Sandora se aproximou do líder do pelotão.

– O senhor tem certeza que deseja fazer isso?

Leonel Nostarius colocou seu elmo negro e subiu na montaria com impressionante agilidade para alguém da idade dele, mesmo com o uso de encantamentos místicos.

– Tanto quanto você – ele respondeu, estendendo-lhe a mão. – Meu filho não está aqui, então é minha responsabilidade levar você em segurança.

Ela assentiu e aceitou a ajuda, acomodando-se na sela atrás dele, enquanto tentava se lembrar de todos os detalhes necessários para se manter sobre aquela montaria. Evander sempre lhe dissera que levava anos para adquirir a prática requerida apenas para poder voar na garupa de alguém.

– Mantenha a calma o tempo todo – recomendou Leonel. – Como eu disse antes, este é o nosso melhor animal, ele é excepcional, já conseguiu até mesmo voar sozinho carregando uma pessoa inconsciente antes, então não creio que teremos problemas. Mas se ele sentir hesitação ou medo em qualquer um de nós dois, podemos ter problemas. Fora isso, estaremos bem.

– Entendo – respondeu ela, imaginando que se aquelas palavras não estivessem vindo do melhor e mais experiente cavaleiro alado de todos os tempos, ela provavelmente teria dificuldade em acreditar.

Os demais cavaleiros montaram, enquanto os inúmeros presentes, entre oficiais, sábios, senadores e diversos outros, os observavam.

Valena se posicionou à frente dos cavaleiros e suspirou, tentando conter a própria apreensão. Muitas coisas podiam dar errado, mas não tinha tempo para pensar nisso agora.

Mais uma vez, tentou esvaziar a mente e elevar os sentidos como Sileno Caraman a tinha ensinado. Mas, como na maioria das vezes que tentou aquilo, não recebeu nenhuma resposta. A Grande Fênix não estava disponível? Ou não se interessava pelo que estava acontecendo? Talvez a entidade não se importasse tanto assim com ela. Ou seria Valena incompetente demais para conseguir fazer aquilo direito?

Ela abriu os olhos. Nada daquilo importava. Aquele império agora era seu e lutaria por ele, com ou sem a ajuda dos tais “Eternos”. Ela podia sentir o olhar de Valdimor, mesmo sem vê-lo, ele deveria estar em algum lugar no meio dos soldados, provavelmente próximo a Gram. Esperando. E, de uma forma inquietante, pensar naquilo a fez se sentir melhor, mais calma e mais determinada. Pelo visto, saber que aqueles sentimentos eram falsos e artificiais não a ajudava a se livrar deles.

Nesse momento, os sábios deram o sinal. As bombas haviam sido enviadas e detonadas.

Valena correu, saltou e abriu os braços, enquanto as chamas a envolviam. Em segundos, ela estava batendo suas asas flamejantes e ganhando os céus, seguida de perto por Leonel Nostarius e os outros cavaleiros alados.

Então, tomaram a direção do covil inimigo, preparando-se para enfrentar uma longa, cansativa e perigosíssima viagem.

— Fim do capítulo 11 —
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