Lassam – Capítulo 12

Publicado em 22/04/2017
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12. Rebeldia

A revelação de Cariele caiu sobre Daimar como se fosse uma bomba. Ele precisou de alguns segundos para absorver aquilo e conseguir esboçar uma reação. Então ele sorriu.

– Bem, fico muito satisfeito em ouvir isso.

– Pensa que estou brincando?!

– Não, claro que não. Mas não é todo dia que se ouve uma declaração como essa. Desculpe minha reação, mas não tenho como evitar. Afinal, eu me sinto de forma bastante similar em relação a você.

Desde o dia em que uma parte de seu cabelo caiu, Cariele vinha tentando se acalmar e deixar de lado o terrível pensamento de que poderia perder a aparência que ganhou naquele ritual. De que tudo o que ela havia planejado poderia ir por água abaixo.

De alguma forma ela tinha conseguido segurar as pontas. Até que aqueles infelizes a provocaram dizendo que ela era uma farsa. Então, subitamente ela não conseguia mais se controlar. Ela não queria mais se controlar. Tudo o que queria era colocar toda aquela raiva e frustração para fora. Queria acabar logo com tudo aquilo.

E só agora percebia que tinha revelado demais.

Não consigo mais suportar a ideia de ficar com ninguém além de você.

Sim, ela tinha dito aquilo, com todas as letras. E ele agora estava dizendo que se sentia da mesma forma em relação a ela.

Sem conseguir se controlar, ela levantou a cabeça e soltou uma risada histérica.

Daimar voltou a ficar sério ao vê-la continuar rindo, enquanto lágrimas escorriam dos olhos dela. E mais ainda ao vê-la levantar as mãos para cobrir os olhos enquanto continuava soltando aquele riso forçado. Então ele se adiantou para segurá-la, quando o corpo dela começou a tremer e as pernas pareceram não ser mais capazes de sustentar seu peso.

Ajoelhado diante dela, ele a segurou firme contra o peito enquanto a risada se transformava num choro quase convulsivo.

Ele imaginou quanto peso uma pessoa forte como ela deveria estar carregando para chegar àquele estado emocional. Apertou-a um pouco mais ao concluir que nunca realmente a compreendera, e, a bem da verdade, nunca fizera grandes esforços naquele sentido. Sim, ele correra atrás dela, tentando descobrir informações sobre sua vida, mas o tempo todo tivera uma ideia completamente errada dela e das motivações que a moviam.

Um longo tempo depois, quando ela parecia ter se acalmado um pouco, ele perguntou:

– É a doença do seu pai, não é?

Ainda com o rosto colado ao peito dele, ela perguntou, confusa:

– O quê?

– É por isso que você está estudando. Para isso queria tanto dinheiro. Para encontrar uma cura.

Era uma explicação tão simples, tão lógica, que ele ficou com vontade de chutar o próprio traseiro por nunca ter pensado naquela possibilidade antes.

Ela afastou-se, virando de lado e apoiando as mãos sobre o calçamento enquanto sentava-se no chão e estendia as pernas para a frente. Depois de ele já ter descoberto tanto sobre ela, não faria muita diferença que soubesse o resto.

– Os sábios chamam de “mal do desacoplamento progressivo”. É uma condição na qual seu corpo gradualmente vai perdendo a conexão com o espírito, então o fluxo de energia vital vai diminuindo cada vez mais até… parar.

Ele sentou-se no chão ao lado dela, contente por poder dar um alívio aos próprios joelhos.

– É isso que está acontecendo com você?

– Como assim?

– Isso aqui − disse ele, gentilmente tocando a pele branca da cabeça dela, uma espécie de ilha na linda cabeleira loira.

– Não. Isso aí é só o efeito do ritual que está desvanecendo.

– Então o que disse àquele pessoal é verdade.

– Sim.

– Mas como pode ter tanta certeza disso? Não pode ser, sei lá, algum outro tipo de doença?

Com um pouco de dificuldade, ela puxou uma das pernas da calça que usava até acima do joelho.

– Olhe aqui.

Ele viu que a pele da parte de trás do joelho dela estava escura, avermelhada e enrugada, como se tivesse sofrido uma feia queimadura.

– Mas o que foi isso?

– Minha perna inteira era assim. Essa pele aqui é minha verdadeira aparência. – Ela apontou para a falha no couro cabeludo. – E isso aqui também. O ritual me deu uma pele nova, mas aos poucos ela está caindo. Eu venho sentindo algum desconforto em várias partes do corpo há bastante tempo, mas nas últimas semanas… bom, você está vendo.

– Você não tinha cabelos?

– Não. Também não tinha diversas outras coisas.

– Mas… por quê? Qual é a causa disso?

– Um acidente que aconteceu há uns três anos.

– Que tipo de acidente?

– Do tipo que, quando ocorre dentro de uma base militar, nós somos proibidos de falar a respeito.

Aquilo não era totalmente verdade, mas ela sentia que voltaria a chorar se contasse aquela parte de sua vida para ele. Na verdade, ela não queria nem mesmo pensar sobre aquilo no momento.

– Entendo. Mas nesse caso, o exército não deveria fazer algo a respeito?

– Eles fizeram. Colocaram todos os recursos que tinham na época à disposição do meu pai – ela puxou uma mecha de cabelo para a frente e a observou enquanto deslizava os dedos por ela. – E este foi o resultado.

– Você não deveria voltar lá e ver se eles não encontram alguma forma de consertar isso? Sei lá, refazer o ritual ou algo assim?

– Não há mais o que fazer. Foi uma jogada arriscada desde o começo. Sabe por que modificação corporal é considerada um tabu? É porque você só pode fazer um ritual como este uma vez na vida, e raramente funciona. No meu caso eu tive muita sorte de ter mantido essa aparência por tanto tempo.

Ele olhou para ela de cenho franzido.

– Quem mais sabe disso tudo?

Ela suspirou.

– Eu, meu pai, Hadara, que é a minha curandeira, e alguns oficiais da primeira divisão do exército. E agora você.

– Nem mesmo Cristalin?

– Não. A menos que ela tenha desconfiado e pedido minha ficha.

– Que barra. Deve ser complicado segurar um fardo desses sozinha.

Ela apenas balançou a cabeça, incapaz de responder.

– E quanto a essa doença do seu pai? Por que você está se sacrificando tanto por isso? Não devia ser responsabilidade do império procurar por uma cura? Não é para isso que cobram impostos?

Cariele soltou um resmungo de contrariedade, enquanto apoiava as mãos atrás de si e levantava a cabeça para olhar a cobertura natural acima deles, na qual dezenas de pássaros celebravam o fim de tarde pulando de galho em galho e cantando alegremente, indiferentes a qualquer coisa além de seus próprios instintos.

– Você sabe qual é a maior causa de mortalidade no império?

– Aí você me pegou. Não lembro de ter lido muita coisa sobre esse assunto.

– O parto. Milhares de mães e crianças morrem todo ano, praticamente um em cada 50 casos de gravidez resulta em luto. Agora imagine que você esteja comandando um país com muitos milhões de habitantes, no que você iria investir? Em combater algo que afeta 1 em a cada 50 pessoas ou em algo que ocorre com 1 a cada, sei lá, um milhão de pessoas? Até hoje houveram apenas oito casos documentados de desacoplamento progressivo.

– Mesmo assim, isso não me parece muito justo.

– Pesquisa exige muito tempo e dinheiro. Meu pai descobriu que sofria do mal muito antes de eu nascer. Passou quase a metade da vida trabalhando nisso e gastou praticamente todo o dinheiro que tinha, sem nunca chegar a nenhuma conclusão prática.

– E você pretendia continuar o trabalho dele.

Ela suspirou e fechou os olhos.

– Essa era a ideia. Encontrar um cara muito rico e convencê-lo a investir uma pequena fortuna todo ano na minha pesquisa.

Ele franziu o cenho.

– E como pretendia convencer alguém a fazer isso?

Ela olhou para ele.

– Fazendo qualquer coisa que ele quisesse.

Então, para sua satisfação, ela o viu corar pela segunda vez desde que o conhecera.

– Hã… isso é… como eu poderia dizer… você… realmente estava determinada a… se vender por isso?

Ela cruzou as mãos atrás da cabeça e se deitou na calçada.

– Para falar a verdade, não sou muito fã de pessoas ricas.

Ele olhou para ela levantando uma sobrancelha.

– E não adianta me olhar desse jeito – disse ela. – Desenvolvi essa antipatia muito antes de conhecer você.

Ele se deitou também, ao lado dela.

– Vários criminosos que eu prendi eram delinquentes filhos de famílias ricas – explicou ela. – Tendo dinheiro suficiente, você sempre encontra algum jeito de fugir da forca ou da masmorra. Alguns casos que eu trabalhei foram bem… frustrantes. Quando vim para cá descobri logo que existe muita criminalidade aqui, então tive a ideia de encontrar alguém de quem eu pudesse… me aproveitar, sem sentir remorsos.

Ele sorriu.

– Devo considerar então que, por causa disso, você não me considerava adequado?

Ela sorriu também.

– Não fique muito convencido. – Ela fez uma pausa e soltou um suspiro. – No fundo eu acho que tentei provocar você de propósito naquele primeiro encontro. Queria entender você, ver sua reação. Fiquei um pouco surpresa por você nunca agir como um mau caráter.

– Ainda não consigo acreditar que você pretendia se unir a alguém assim.

– Eu tinha pouco tempo. E, em minha defesa, devo dizer que não tinha a menor intenção de me tornar escrava de alguém ou coisa do tipo.

– Eu ainda não entendo como alguém tão inteligente pôde pensar num plano tão idiota.

Ela riu. Não se lembrava da última vez que se sentira tão leve antes.

– Talvez eu não seja tão inteligente assim.

– Você pretende continuar a pesquisa de seu pai? Mesmo depois que… quero dizer…

Mesmo depois que a doença dele atingiu o estágio terminal, era o que ele pretendia dizer, mas como se pergunta algo assim sem parecer um babaca insensível?

Ela suspirou de novo, entendendo perfeitamente o que ele quis dizer.

– Sim eu pretendo continuar. Por mais que me doa dizer isso, agora é tarde demais para fazer algo por meu pai. Mas mesmo assim eu quero uma resposta. Quero saber o que é essa doença e como curá-la. Quero fazer algo que possa ajudar a vida de alguém.

– E pretende encarar essa empreitada sozinha?

– Não, claro que não. Meu pai fez muitos amigos ao longo da vida. Diversos deles estão dispostos a trabalhar comigo, desde que não precisem sacrificar o bem-estar de suas famílias no processo. Quando eu disse a eles que estava procurando um patrocínio, eles se animaram e me pediram para chama-los assim que conseguisse.

– E o que você faria se eu decidisse patrocinar você?

Ela ficou séria e sentou-se, lançando um olhar cauteloso para ele.

– E por que faria isso?

– Malena me disse que você estava machucada. Tem certeza de que deveria estar se deitando e levantando desse jeito? Não vai piorar suas costelas?

– Minhas costelas estão ótimas, obrigada. Estão muito bem protegidas por uma faixa especial cheia do unguento mais fedorento que Hadara conseguiu encontrar. Com seu nariz, nem sei como você aguenta ficar por perto.

– Mesmo? – Como que para confirmar, ele levantou o nariz e fechou os olhos enquanto farejava o ar. – Não sinto nada de diferente. Para mim, você continua com o mesmo cheiro agradável de sempre.

De repente, Cariele começou a sentir um perfume suavemente adocicado, profundo, envolvente, e estranhamente familiar. Ela olhou para os lados, para cima e para baixo, mas não conseguiu identificar de onde vinha. Parecia estar em toda a parte.

Ele abriu os olhos e voltou a encará-la.

– Mas, voltando ao assunto, meu pai me deixou responsável pelos bens da família, então eu tenho dinheiro. Você não deveria tentar… me convencer a te ajudar?

Ela olhou para ele, esquecendo-se momentaneamente do perfume.

– Eu não vou me aproveitar de você dessa forma.

– E por quê?

– Por que você está envolvido comigo. Isso não é justo.

Ele se sentou também.

– Mas esse é justamente o ponto. O que é importante para você, é importante para mim também.

– Você não sabe o que está falando. Sabe o quanto custa uma pesquisa como essa?

– Não. Por que não me diz?

– Se contar com a equipe completa que estou querendo, estamos falando de cerca de um milhão de moedas de ouro.

Ele riu, zombeteiro.

– Só isso?

Por ano.

– Oh. – Ele ficou sério imediatamente. – Isso já é um problema. Durante quantos anos?

– Meu pai trabalhou por quase trinta.

– Mas não tinha um orçamento como esse.

– Não, mas já sabemos que não é uma pesquisa simples. Não há como estimar quanto tempo isso levaria.

– Você estava mesmo disposta a levar um delinquente à falência, hein?

– Isso seria um bônus. Mas você não é um delinquente.

Ele teve uma súbita inspiração.

– E que tal o meu projeto? Se eu investisse um pouco e focasse em criar algo que pudesse vender, daria para conseguir um montante razoável.

– Mas não o suficiente.

– Não, mas daria para investir nos outros negócios, abrir mais lojas, expandir as coisas. Poderíamos ser capazes de manter esse orçamento de pesquisa que você quer em menos de um ano.

Ela o encarou, séria.

– Isso é mesmo possível? Sem vender nada e sem tirar o emprego de ninguém?

Ele sorriu.

– Oh? Agora você se preocupa com isso? Não pensou que, se acabasse com a fortuna de algum infeliz, isso também poderia acontecer?

A bem da verdade, Cariele nunca tinha parado para pensar de verdade naquele plano maluco. Ela simplesmente não tinha conseguido imaginar outra alternativa, e estava transtornada com a piora progressiva do quadro de seu pai e ansiosa para fazer alguma coisa, qualquer coisa.

– Está bem, eu posso não ter pensado em alguns detalhes…

– Em muitos detalhes, eu diria.

– Mas você não me respondeu. Aquilo que disse é possível?

– Você viu o projeto, não viu? Você mesma disse que era “genial”. Eu conheço o potencial dos negócios da minha família. Com o investimento certo, posso aumentar em muito os nossos lucros.

– Eu posso terminar meu curso em seis meses, talvez menos. Tudo depende de…

– Conseguir os créditos da classe especial – disse ele, levantando-se e estendendo a mão para ela.

Sem nem mesmo pensar, ela aceitou a ajuda dele, o que o deixou bastante satisfeito.

– Você também ainda não me respondeu – afirmou ele, continuando a segurar a mão dela. – O que você faria se eu decidisse patrocinar você?

Ela olhou no fundo dos olhos dele e sentiu-se derreter.

– Eu prometi a mim mesma que faria qualquer coisa que meu benfeitor quisesse. E quantas vezes ele quisesse.

– Uau! E quem pode resistir a uma proposta dessas?

Ele a puxou para si e ela passou os braços pelo pescoço dele. Continuaram se fitando por um longo tempo, um tanto indecisos, lembrando-se do que acontecera antes.

Daimar então segurou o queixo dela e gentilmente virou-lhe o rosto de lado, encostando em seguida os lábios em sua bochecha. A sensação estranha ocorreu novamente, obrigando-o a se afastar, sobressaltado.

Ao mesmo tempo, ela o soltou e franziu o cenho enquanto levava a mão aos próprios lábios.

Ele riu, sem graça.

– Que tal acrescentarmos um orçamento extra para pesquisar o que raios tem de errado comigo?

– Não é só você. Eu senti isso também. Na boca e não no rosto. Foi como se eu tivesse tocado os lábios em algo esquisito… vazio, sem vida.

– Hã… certo – disse ele. – Esse negócio está ficando cada vez mais estranho. – Ele soltou um suspiro exagerado e deu uma olhada nos arredores antes de voltar a olhar para ela. – Sou só eu que estou achando isso extremamente frustrante?

– Não, não é só você – Respondeu ela, com um sorriso.

Frustrada, mas de certa forma contente com o fato de ele também estar, ela inspirou fundo e voltou a sentir o mesmo perfume de antes. Na verdade, ela o estivera sentindo o tempo todo, mas parecia uma sensação tão familiar, tão normal, que era quase como se estivesse com ela há anos e só a percebesse quando se concentrava nela.

– Vamos para a biblioteca – sugeriu ela.

♦ ♦ ♦

Novamente, a noite passou rápido. Quando deram por si, a bibliotecária já estava vindo para mandá-los ir embora, que era hora de fechar. A quantidade de anotações que eles tinham acumulado era tão grande que foram obrigados a guardá-las nos armários da biblioteca, já que não tinham como levar tudo aquilo, principalmente por causa da chuva que ameaçava cair a qualquer momento.

– Semana que vem temos muitos lugares para visitar – disse Daimar, enquanto andavam apressados pelo calçamento de pedras. – Se fecharmos essas pontas soltas, acho que o trabalho já está praticamente pronto.

– Isso rendeu bem mais do que eu esperava – respondeu Cariele. – Você é muito bom nessas coisas.

– Não teria nem conseguido nem sair do lugar se você não estivesse ajudando. Um projeto como esse precisa muito mais de cérebro e instinto do que de organização.

– Se está me elogiando para tentar se dar bem comigo, sinto informar que está perdendo seu tempo – disse ela, sorrindo.

– E quanto a você? Conseguiu descobrir alguma coisa sobre o… mistério do beijo?

– Mais ou menos. Descobri que, na verdade são dois problemas. Um de cada um de nós.

– É mesmo? E qual é o seu?

– Não sei ainda, estou trabalhando nisso.

– Isso quer dizer que você pesquisou o meu primeiro?

– Não exatamente.

Nesse momento, a chuva começou a cair, forçando-os a correr. Mas, infelizmente, não conseguiram chegar ao alojamento antes de ficarem completamente ensopados.

Cansados e rindo, os dois entraram pela porta principal e toparam com Janica e Britano, que os aguardavam no hall de entrada.

– Que alívio – disse Janica, entregando toalhas a eles. – Por um momento, pensei que iam ficar aguardando a chuva passar em algum lugar. Se eu tivesse que sair nesse toró atrás de vocês eu ia ficar bastante irritada.

– Vocês normalmente ficam atrás de nós – disse Daimar, enxugando os cabelos. – Como é que chegaram aqui antes?

– Estávamos observando do telhado do alojamento – respondeu Britano. – Vimos quando saíram da biblioteca e descemos aqui quando começou a chover.

– Não sei direito o que pensar de vocês – declarou Cariele. – Estavam lá em cima para nos vigiar ou para ficarem os dois sozinhos curtindo a companhia um do outro?

– Britano fez um chá quente – disse Janica, ignorando Cariele completamente. – Vão trocar as roupas, depois venham para a cozinha. Melhor se aquecerem para não pegar um resfriado.

Após uma rápida troca de roupas, eles se encontraram no refeitório, onde sentaram ao redor de uma mesa segurando canecas fumegantes enquanto o forte vento soprava lá fora.

Em horas como aquela valia a pena fazer parte de uma fraternidade com orçamento tão generoso, pensou Cariele, bebericando seu chá. Aquele tipo de bebida era perfeito para esse tipo de situação, mas estava bem longe de ser um produto que pudesse ser considerado “popular”.

– Nós presenciamos o que aconteceu hoje à tarde – Britano disse a ela. – Se quiser registrar uma reclamação formal contra aquele bando, podemos testemunhar a seu favor.

– É – concordou Janica. – Aquilo foi totalmente gratuito, e sua reação foi exemplar. Ah, e sinto muito pelo seu… segredo – ela apontou para a cabeça descoberta de Cariele. – Depois de você ter mostrado isso para eles daquele jeito, acho que todo mundo já deve estar sabendo.

– Imaginei mesmo, quando a bibliotecária não pareceu nem um pouco surpresa ao me ver assim. De qualquer forma, não quero reclamar de ninguém. Quero só terminar esse curso o mais rápido possível.

Janica olhou para a cabeça dela mais uma vez.

– Não vai mais voltar a usar lenços?

Cariele balançou a cabeça.

– Isso não importa mais.

– Obrigado por ficarem aqui nos esperando – disse Daimar. – Isso foi bastante gentil da parte de vocês.

– Cuidar do bem-estar dos estudantes é nosso trabalho – respondeu Britano.

Enquanto eles falavam, Cariele percebeu que aquela era uma ótima ocasião para testar uma teoria. Com cuidado para ninguém perceber, tirou um simulacro do bolso e o apertou com força por baixo da mesa.

– Sabia que você ia falar algo assim – Daimar disse a Britano, rindo. – Mas de qualquer forma, nós… aaaaaaaau!!

Os monitores se sobressaltaram ao verem Daimar e Cariele saltarem do lugar de repente. Ela logo voltou a se acomodar, mas ele se levantou de forma apressada, fazendo a cadeira cair para trás.

– O que foi? – Janica olhou de um para o outro, preocupada.

– Tem alguma coisa na minha cadeira – disse Daimar, tocando com cuidado no assento do móvel caído e recolhendo imediatamente o dedo. – Está fervendo. – Ele olhou para os outros três, franzindo o cenho. – Algum de vocês está querendo me pregar uma peça ou algo assim?

Janica olhou para Cariele.

– Tem algo errado na sua também?

– Não. Acho que eu só reagi ao susto dele, mesmo.

Britano levantou-se e examinou a cadeira caída.

– Foi um trote – concluiu ele, referindo-se a um tipo de encantamento bem simples e geralmente sem grandes consequências que jovens e adolescentes costumavam fazer para sacanearem uns aos outros. – Já está esfriando. Não há nenhum dano estrutural.

– Só o suficiente para queimar meu traseiro – reclamou Daimar, contrariado.

Britano levantou a cadeira e a colocou de lado antes de olhar para os outros, pensativo.

– Alguma brincadeira que não deu certo, talvez?

– Se foi isso, pode ter certeza que eu vou descobrir quem foi o engraçadinho – declarou Daimar, pegando outra cadeira de uma mesa ao lado e a estudando com cuidado, antes trazê-la para o lugar onde estava sentado antes. – Ainda bem que eu não estava segurando minha xícara, senão teria espalhado chá para todo lado.

– Tome cuidado – disse Janica. – Podem ter mais “armadilhas” por aí.

– Vamos ver – falou Cariele, colocando o simulacro sobre a mesa e encostando o dedo indicador sobre ele. Logo, uma tênue luz esverdeada se espalhou pelo ambiente todo, mudando para um tom amarelado apenas ao redor da cadeira onde Daimar estivera sentado antes. – Não – concluiu ela, desencostando o dedo do artefato e fazendo com que a névoa verde se desvanecesse. – Parece que está tudo limpo.

– Aparentemente, você teve azar, barão – declarou Janica.

– Ou nós que tivemos sorte – retrucou Cariele, sorrindo.

– Por acaso, não tem limites para o que você consegue fazer com essas coisas? – Daimar apontou para o simulacro.

– Não é nada de especial. Muita gente consegue fazer detecção de energia naturalmente, sem nem mesmo precisar disso – respondeu ela. – É tudo uma questão de conhecimento e prática.

Britano olhou para Janica.

– Está tarde. Acho que é hora de ir para cama.

– Sim – concordou a monitora, antes de se virar para Daimar. – Se precisarem de alguma coisa, sabem onde nos encontrar.

Daimar e Cariele despediram-se deles e depois ficaram olhando um para o outro sem dizer nada, enquanto os monitores sumiam de vista. Aquela troca de olhares durou tanto tempo, que no fim, ambos acabaram caindo na risada.

– Parecemos dois bobos – disse ele, se sentando.

– E daí?

– Nada. Foi só uma constatação. Parecemos um casal de heróis de um livro de comédia romântica.

– Não duvido. A propósito, você gosta muito de ler, não? Como consegue encontrar o que procura com tanta facilidade naquelas prateleiras todas?

– Prática. O sistema de organização é similar em quase qualquer lugar.

– E como um delinquente mimado conseguiu adquirir tanta prática?

Ele olhou para ela por um momento.

– Não conta para ninguém?

Ela assentiu. Ele reclinou-se na cadeira e soltou um suspiro.

– Quando eu tinha doze anos eu roubei um livro.

Ela levantou uma sobrancelha, zombeteira.

– É mesmo? Não tinha dinheiro para comprar?

– Na casa diante da nossa morava uma senhora que todo santo dia vinha para a varanda e passava horas sentada numa cadeira de balanço, lendo. Naquela época eu ficava a maior parte do tempo fechado dentro de casa. Meu pai quase não me deixava sair. Contratava tutores para eu não precisar ir até a academia infantil. Eu vivia entediado, irritado com todo mundo. E de vez em quando eu dava um jeito de fugir. Sabe como é: explorar a cidade, andar na praia…

– Se meter em brigas – sugeriu ela.

– Isso mesmo. Eu aprendi muitas coisas que meu pai não aprovava. Me juntei a um pequeno grupo de adolescentes ricos tão entediados quanto eu. A gente entrava em casas, lojas, templos, o que encontrasse pela frente, apenas por diversão. Depois que a brincadeira cansava a gente voltava para casa. Quando eu era pego sempre tinha um castigo, e ele ia piorando após cada escapulida, mas sabe como as crianças são, eu não conseguia resistir. Então, um dia eu estava trancado no quarto de castigo e vi a vizinha lendo aquele raio daquele livro. E fiquei imaginando que droga poderia estar escrito ali de tão interessante. Um tempo depois eu consegui escapar de novo e invadi a casa dela, achei o livro sobre uma mesa e levei ele embora comigo. Consegui entrar em casa escondido, sem ninguém perceber, o que não era muito difícil depois de eu ter feito isso tantas vezes antes, e levei o livro para o meu quarto.

– E aí você leu o livro e ele mudou sua vida – disse ela, irônica.

Ele riu.

– Não. Quero dizer, não imediatamente. Era um livro de poesia. Não do tipo moderno de poesia, mas sim uma história contada em rimas. Eu nunca tinha visto nada parecido com aquilo antes, e lembro de ter rido muito. Achava muito divertidas aquelas rimas bobas, então comecei a ler aquilo escondido, quando estava sozinho no quarto. Devo ter lido e relido tudo umas dez vezes, até as folhas começarem a se soltar. Lembro que nos mudamos para outra casa e eu levei o livro comigo. Depois de alguns anos eu acabei esquecendo dele. Nessa época, eu estava bem mais… experiente. Vendo que não adiantava tentar me manter preso em casa, meu pai tinha me colocado na academia. E, bem, por lá eu andava por onde desse na telha. Entrava onde não podia, invadia as salas dos instrutores, levava meninas comigo lá para dentro, mexia nas coisas, conseguia as listas de questões dos exames, abria os armários dos outros estudantes, enfim: fazia o que queria.

– E sua vida era uma droga.

– Exato. Eu… ei!

Ela riu.

– O que foi? Era o que você ia dizer, não era?

– Sim, mas é bem mais vergonhoso quando você diz isso.

– Como sabe? Nunca disse isso para ninguém, disse?

– Está usando seus poderes em mim, é? Como sabe o que eu disse, fiz ou deixei de fazer?

Ela parecia estar se divertindo muito com aquilo.

– Não ligue para mim – disse ela. – Pode continuar.

Sem entender direito qual era a dela, ele pegou o bule e serviu um pouco mais de chá a ambos enquanto retomava o relato.

– Um dia, muito entediado, comecei a revirar minhas coisas e encontrei o livro. Levado pela nostalgia, me sentei no chão e comecei a ler. Mas dessa vez foi diferente. Acho que eu estava diferente, afinal agora eu tinha 15 anos em vez de 12. O que eu li dessa vez não era um amontoado de rimas com palavras engraçadas. Quero dizer, as palavras e as rimas eram as mesmas, mas o que eu realmente vi naquelas páginas dessa vez era a história de um homem que havia perdido tudo, e que trabalhou muito, mas muito duro para recuperar sua fortuna e seu prestígio na sociedade. Vi os enormes sacrifícios que ele fez e todas as provações pelas quais passou. O amor que perdeu e o novo que encontrou. O que sentiu quando segurou seu filho nos braços pela primeira vez. Era uma história de luta e superação. Quando terminei de ler o livro, eu estava sentindo inveja do protagonista. Estava desejando aquela nova vida que ele tinha trabalhado tão duro para conquistar. Então, subitamente, eu percebi que eu já tinha aquela vida. Quero dizer, não a esposa, filhos e tal. Mas tinha todo o resto.

– E quando que aquelas duas entram nessa história?

– Quem? – perguntou ele, confuso. Então, se lembrou e riu. – Ah, Brigite e Gerda? Eu ia chegar lá.

– Tenho certeza de que ia – disse ela, em tom irônico.

– Você fica uma graça quando está com ciúmes.

– Vai, prossiga!

– Depois daquilo, um dia eu resolvi ir na biblioteca. Queria ver se encontrava algum outro livro como aquele. No fim, não achei nada nem sequer parecido, mas me dei conta que existiam milhares de outros livros com histórias de pessoas, de povos, de lugares, do que você imaginasse. Comecei a ler sobre um monte de coisas diferentes e descobri que gostava daquilo. Não era como as lições dos instrutores, que nos forçavam a procurar alguma coisa naqueles livros chatos que eles traziam na sala. Era algo real, palpável, histórias que aconteceram de verdade. Acabei lendo sobre a linha de negócios do meu pai. Fiquei tão empolgado com aquilo que acabei invadindo o gabinete dele. Li tudo o que pude encontrar lá: cartas, detalhes de projetos em andamento, livros de contabilidade, puxa, tinha tanta coisa lá. Então um dia meu pai me pegou lá dentro.

– Isso não deve ter sido agradável.

– Na verdade, foi. Ele me viu ali, no meio de toda aquela papelada e me disse que aquilo ali era tudo meu, era a minha herança. E que minha mãe ficaria muito orgulhosa ao me ver me interessando pelos negócios. – Ele soltou um suspiro antes de continuar. – Bom, o resto é o resto. Passei a me envolver com os negócios da família e comecei a me esforçar de verdade nos estudos. Como consequência acabei fazendo novos amigos, incluindo Brigite e Gerda, que, por coincidência, moravam cada uma de um lado da nossa casa. Elas sempre tiveram dificuldade com disciplinas como História e Línguas, então eu acabei criando o hábito de ajudá-las sempre que pudesse.

– Sei.

– É sério − ele riu de novo. – Então, um dia tive que me despedir de todo mundo, porque estávamos nos mudando para Lassam. Logo que eu entrei aqui pela primeira vez, eu vi Falcão e Egil pregando uma peça de mau gosto em um calouro. Me pareceu que tinha algo errado. Sabe quando você tem aquela impressão de que as pessoas estão fora de seu ambiente? Que algo não combina? Então eu conheci a fraternidade Alvorada e percebi duas coisas: que a maioria eram delinquentes piores do que eu, e que boa parte deles parecia fazer aquilo não por maldade, mas por…

– Falta de um apoio, uma fundação.

– Isso mesmo. Eu entrei para a fraternidade num impulso, porque eu acho que me identifiquei com eles. Eu os entendia, sabia porque muitos deles agiam daquele jeito.

– E então você decidiu se tornar o alicerce deles.

– Você falando assim, parece meio idiota.

Ela apenas levantou uma sobrancelha, irônica.

– Tem razão, tem razão – admitiu ele, depois de pensar um pouco. – Eu também sempre achei uma ideia idiota. Mas não pude evitar. No fim, descobri que eu tinha razão sobre muitos deles. Quando o barão anterior foi embora, eu era o que mais entendia de organização e administração de recursos. Como muitos consideravam aquilo um saco, ficaram felizes quando aceitei assumir o cargo.

– Você fez um excelente trabalho aqui. Os verdadeiros delinquentes saíram e os que ficaram se inspiraram em você e melhoraram muito. Falcão e Egil, por exemplo, são ótimas pessoas.

Ele franziu o cenho.

– Você já andou arrastando sua asinha para o lado do Falcão.

Ela sorriu.

– Não. Eu estava cortejando o dinheiro de um delinquente. Aí percebi…

– Que ele não tinha dinheiro e não era um delinquente?

– Sim, mas não necessariamente nessa ordem.

Ele franziu o cenho.

– Decidiu não sair com o cara porque descobriu que ele é gente boa?

– Mais ou menos.

Ele riu.

– Você é inacreditável.

– A propósito, que fim levou o tal livro que você roubou da vizinha?

– Está no meu armário, em casa. Eu tentei devolver alguns anos atrás, mas ela não quis aceitar de volta. Disse que meu pai havia comprado alguns livros novos para ela logo que ficou sabendo que o dela tinha desaparecido. Me falou que aquela obra seria muito mais útil nas minhas mãos do que nas dela.

– Então seu pai saía por aí consertado as besteiras que você fazia?

Ele suspirou.

– É. Mas, mudando de assunto, e quanto ao caso do… – ele apontou para os próprios lábios. – Você me disse que tinha um problema comigo.

– Não é exatamente um problema. É só um… fato interessante.

– Seu objetivo é me deixar curioso? Se for isso, está conseguindo.

Ela sorriu, misteriosa.

– Você é inteligente. Mais cedo ou mais tarde vai se dar conta sozinho.

– Então você tem um problema e eu tenho um “fato interessante”, é isso?

– Aparentemente, sim. – Ela estendeu uma das mãos na direção dele, com a palma para baixo. – Aqui, tente encostar sua boca na minha mão.

Ele pegou a mão dela e acariciou-a por alguns instantes, o que fez com que ela segurasse o fôlego involuntariamente. Satisfeito com a reação dela, ele se inclinou para a frente até tocar a pele dela com os lábios. Era como beijar uma parede ou um pedaço de metal. Ele se endireitou e olhou para ela, contrariado.

– É como se tivesse uma barreira que me impedisse de sentir o calor de sua pele – disse ele. – Mas parece que quando encosto a boca no seu rosto ou nos seus lábios a sensação é bem pior. – Ele se curvou sobre a mesa e envolveu o rosto dela com as mãos. – O curioso é que eu consigo sentir você numa boa, assim.

Ele acariciou-lhe os lábios com o polegar e ela fechou os olhos por um momento.

– Minha teoria é que seus sentidos aguçados estão detectando algo de errado comigo – disse ela, voltando a fitar aqueles lindos olhos castanhos. – Não tenho muita certeza ainda do que possa ser a causa, mas vou descobrir. – Com relutância, ela se afastou dele e se levantou. – Já passou da hora de eu me recolher.

– Já? – Ele parecia desapontado.

– Sim, conversamos amanhã.

– Ei! – Ele a segurou pelo braço. – Não tem nada de “errado” com você.

– Como não? Por acaso você ia querer uma namorada que nunca pudesse tocar?

– Se a namorada fosse você, isso não seria tão ruim. Esses últimos dias foram fantásticos.

– Besteira. Boa parte disso é expectativa, vontade de ir para o próximo estágio.

– Eu não sou assim! Você não pode me acusar disso!

– Você, eu não sei, mas eu sou assim. Boa noite!

Aquela declaração calou fundo dentro dele, mostrando, de forma inequívoca, que na verdade, ele também desejava muito aquilo.

– Boa noite – resmungou ele, incapaz de falar qualquer outra coisa.

Ela caminhou até a porta antes de olhar para ele por sobre o ombro.

– A propósito, me desculpe pela cadeira.

Ele franziu o cenho.

– Então foi você?! Mas por quê?

– Para ver sua reação – respondeu ela, com expressão zombeteira, antes de sair.

♦ ♦ ♦

Cristalin Oglave entrou na velha construção abandonada e suspirou. Já sabia que aquilo seria difícil, mas não imaginava que seu problema pudesse despertar a atenção daquelas pessoas.

Seu capitão e o major, superior direto dele, estavam em pé perto da porta e a saudaram com uma continência. Enquanto retribuía a saudação, ela lançou um olhar furtivo para outras nove pessoas que estavam sentadas ao redor da grande mesa. Um deles era o aspirante Alvor Sigournei, que parecia ter algum tipo de interesse em Cariele. Ao lado dele estava Edizar Olger, que havia participado da incursão ao mundo das pedras junto com ela e Delinger. Não conhecia a maior parte dos outros, mas a julgar pelas vestimentas e pela forma de se portarem ela não duvidava que fossem todos das Tropas Especiais.

No entanto, quem mais a impressionava naquela sala era o sábio que estava sentado na cabeceira da mesa. Ele a fitava com aqueles olhos verdes penetrantes como se pudesse ler a sua alma. E, sabendo muito bem de quem se tratava, ela não duvidava de que ele pudesse mesmo. Era um homem na casa dos 50, com cabelos curtos começando a ficar grisalhos e que tinha uma expressão serena, mas ao mesmo tempo parecia estar muito atento a tudo o que acontecia a seu redor. Usava trajes discretos, mas de boa qualidade.

Ela havia estranhado quando o capitão a convocou para uma reunião nesse lugar, mas a presença daquele homem era uma boa explicação para isso. Quando uma pessoa era famosa por resolver problemas, sua mera presença podia ser vista como mau agouro pela população. Então fazia sentido ele querer se manter oculto.

O capitão olhou para ela.

– Tenente, esses senhores e senhoras vieram para reforçar nossas fileiras temporariamente a fim de resolver esta crise.

Todos se levantaram e a saudaram, respeitosamente.

– Acredito que já conhece alguns deles, quanto aos demais, teremos tempo para apresentações mais tarde. – O capitão virou-se para o sábio. – Imagino que queira continuar a partir daqui, senhor.

– Obrigado, capitão – disse o homem, olhando para Cristalin. – A julgar por sua expressão, imagino que saiba quem eu sou, tenente.

– Sim, senhor.

– Ótimo, isso vai facilitar as coisas. Vamos nos sentar. – Ele apontou para as cadeiras vagas e aguardou que todos se acomodassem. – Inicialmente, quero deixar bem claro que todos os oficiais aqui presentes são de inteira confiança. Pode se expressar livremente aqui, tenente.

– Sim, senhor.

– Então, queremos ouvir o seu relato. Por favor nos diga como essa situação começou e o que, exatamente, iremos enfrentar.

Tentando ser o mais objetiva possível, Cristalin narrou fatos ocorridos desde que pusera os olhos em Delinger Gretel pela primeira vez, tantos anos atrás; a causa de ele ter ido embora de Lassam e o motivo de ter retornado, bem como tudo o que ele realizara, com a ajuda dela, nas últimas semanas. Terminou o relato com a promessa velada do último ancião, de fazer com que a humanidade extinguisse a si própria.

O major encarou Cristalin.

– Tenente, qual é a razão do senhor Gretel, se é que podemos chamá-lo assim, não estar presente e sob custódia?

– Eu não tenho nenhuma acusação contra ele, senhor.

O sábio levantou uma das mãos, falando com serenidade:

– Mil perdões, major, mas eu gostaria da sua permissão para fazer indagações à nossa convidada sobre esse assunto, se não se importar.

Aquele homem tinha autoridade mais do que suficiente para simplesmente ordenar que o major calasse a boca. E, pelo que Cristalin sabia, tinha poder suficiente para acabar, não só com o major, mas com todos que estavam dentro daquela sala de uma vez só, se quisesse. Por isso, ela achou incrível que falasse de forma tão educada. Não havia o menor traço de ironia ou ameaça nas palavras dele.

– Claro, senhor – respondeu o major, engolindo em seco.

– Obrigado. Tenente, poderia nos dizer o paradeiro do senhor Gretel?

– Não, senhor.

– Mas a senhora sabe onde ele está – aquilo foi uma afirmação, não uma pergunta.

– Sim, senhor.

As pessoas ao redor da mesa se entreolharam, incrédulas.

– E por qual razão a senhora prefere esconder o paradeiro dele de nós?

– Para ganhar a confiança dele e impedir que agisse sozinho na cidade sem nenhuma supervisão, eu fiz uma promessa. Não posso trair essa confiança.

– Pelo que eu entendi, tenente, todos os indivíduos da raça dele, sem exceção, sofrem com essa doença, ou maldição, como disse que alguns deles a chamam. Isso está correto?

– Sim, senhor.

– E como podemos saber se o próprio senhor Gretel não irá se descontrolar e se voltar contra nós?

Ela suspirou.

– Ele prefere morrer a permitir que qualquer inocente seja ferido.

– Você parece muito convicta disso.

– Perdão, gostaria de corrigir minha última afirmação. A verdade é que ele vai morrer antes de ferir qualquer inocente.

Aquilo causou uma onda de murmúrios entre os presentes.

O major voltou a falar, aparentando irritação.

– Tenente, está ciente de que pode estar colocando sua patente e sua carreira em risco ao ocultar o paradeiro dessa… criatura de nós?

– Sim, senhor. Com todo respeito, senhor, minha patente e minha carreira não são minhas maiores preocupações no momento. O que eu quero é salvar vidas inocentes, por isso eu reportei esses fatos ao capitão, e é por isso que eu estou aqui.

– Cuidado, tenente – avisou o capitão. – Está caminhando sobre gelo fino.

– Não se dê ao trabalho, capitão – aconselhou o sábio. – Acredito que as prioridades da tenente ficaram bem claras. Ela parece determinada a cumprir sua promessa, mesmo que seja levada daqui direto à masmorra. Não é verdade, tenente?

– Sim, senhor.

Cristalin sabia muito bem que poderiam simplesmente coagi-la a falar com o encanto da verdade, mas, com os poderes de sua raça, Delinger ficaria sabendo imediatamente caso alguém fizesse aquilo a ela, graças à ligação que os dois agora tinham.

O sábio voltou a olhar para os oficiais.

– A propósito, major, essa criatura, como o senhor o chamou, de acordo com todas as informações que temos, agiu com mais humanidade do que muitos de nós. – Ele voltou a se virar para Cristalin. – Não somos seus inimigos, tenente. Todos aqui têm o mesmo objetivo que você. Eu gostaria muito de conversar pessoalmente com o senhor Gretel, se essa oportunidade vier a se concretizar no futuro. Mas, no momento, creio que podemos nos concentrar em assuntos mais urgentes.

Aquele homem era um dos maiores heróis do império, e realmente se portava como tal, pensou Cristalin. Por um momento ela refletiu nas decisões de Delinger, ponderando se uma delas, em especial, realmente era acertada.

O sábio olhou para ela com curiosidade.

– Tem algo mais a acrescentar, tenente?

Delinger poderia saber o que era melhor para si próprio, mas não para os outros, concluiu ela.

– Sim, senhor. Delinger Gretel tem um filho. É um estudante da Academia de Lassam. Acho bastante provável que ele seja um dos alvos principais de nossos inimigos.

 

— Fim do capítulo 12 —
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