Valena – Capítulo 12

Publicado em 21/04/2018
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12. Chave de Braço

O imperador Sileno Caraman era um homem magro, perto da casa dos 60 anos e que tinha os cabelos quase completamente grisalhos, com apenas algumas poucas mechas mantendo o loiro original.

Sua face direita era tomada pela marca da Fênix, um desenho muito similar ao que Valena agora tinha, mas a águia retratada no rosto dele era menor, mais delgada, mais delicada. De qualquer forma, era claramente visível, mesmo à distância, parecendo brilhar em certos momentos. Valena imaginou se algum dia sua marca também pareceria tão viva, pulsante e cheia de energia daquela forma.

– Aproxime-se, minha filha – disse ele, levantando-se do trono e estendendo as mãos para ela. – Deixe-me olhar para você.

A imponência na voz dele era amenizada pelo brilhante sorriso. Ela não deixou de notar que, além de parecer ter todos os dentes na boca, eles ainda eram incrivelmente brancos, o que era extremamente raro em pessoas daquela idade.

As roupas que ele usava, no entanto, não eram tão imponentes assim. Até mesmo os trajes de Valena, em ricos tons de dourado e vermelho, pareciam mais impressionantes. Ele vestia uma túnica branca, de mangas compridas com detalhes em verde nos punhos e na barra, que encostava no chão. Exceto por uma fita dourada lhe envolvia a cintura, amarrada de lado, ele não usava nenhum tipo de acessório ou enfeite. Na verdade, até mesmo os dois soldados que montavam guarda dos dois lados do pedestal onde ficava o trono pareciam muito mais bem vestidos do que o imperador, em seus impecáveis uniformes em tons de vermelho e preto.

A sala do trono era impressionante. Era grande o suficiente para comportar umas duzentas pessoas sentadas, apesar de no momento estar praticamente vazio. Uma linda pintura tomava conta de quase todo o teto, retratando uma águia em pé sobre um ninho, com as asas abertas e olhando para baixo, na direção dos filhotes que levantavam os biquinhos abertos para ela. Sem perceber, Valena ficou parada, olhando para cima, fascinada, por um longo tempo. Talvez longo até demais.

Sempre sorrindo, o imperador foi caminhando até ela por sobre o tapete vermelho que, apesar de limpo, dava a impressão de ser bastante velho, estando um pouco manchado e desgastado em várias partes.

– Vejo que gostou da pintura – disse ele, parando ao lado dela e levantando a cabeça, avaliando a obra de arte com aparente orgulho.

– Não… não era o que eu esperava.

Ele a encarou.

– E o que você esperava?

– Não sei. Algo imponente, poderoso, desafiador.

O sorriso dele se ampliou.

– E você acha que o trabalho de uma mãe, o ato de cuidar de seus filhos, não pode ser considerado algo “poderoso” ou “desafiador”?

– Sim, mas… o desenho parece ser… não sei, sobre proteção e carinho ao invés de… conquista e dominação.

O imperador desviou o olhar para a sacerdotisa Gaia Istani, que estava um pouco atrás de Valena.

– A Grande Fênix parece ter feito uma escolha impecável, não acha, irmã?

– Como sempre, senhor.

Valena ficou olhando de um para o outro, constrangida, até que o imperador voltou a encará-la.

– Sua percepção está correta, minha jovem. O que você descreveu é exatamente o efeito que eu planejava, a sensação que eu gostaria que as pessoas tivessem quando entrassem aqui. Segurança, conforto, esperança. Esta é a missão que nos foi confiada: levar estes sentimentos a milhões de pessoas, desde velhos como eu até jovens como você. Todos são guerreiros que travam diariamente suas batalhas para permanecerem vivos e trazerem progresso para si mesmos, suas famílias e seu país, e nossa função é servi-los.

Ele ficou olhando para ela com expressão de expectativa. Valena piscou, tentando imaginar o que seria adequado responder depois de uma colocação como aquela.

– Parece… complicado.

Ele levantou a cabeça e soltou uma risada.

– Tem toda razão, filha, tem toda razão. Mas, diga-nos, como se sente? Soube que ocorreram alguns eventos um tanto súbitos e… perturbadores com você. Está tudo bem?

Ela olhou para as próprias mãos e franziu o cenho.

– Desde que acordei no palácio não senti mais nada, mas antes parecia que eu estava queimando. – Ela desviou o olhar para a sacerdotisa. – Pensando bem, você não me disse o que eu tinha.

– Acreditamos que seu corpo está se adaptando a sua nova natureza – respondeu Gaia.

Valena olhou para o imperador.

– Isso é sempre assim? Quero dizer, também aconteceu com o senhor?

Sileno Caraman limpou a garganta e balançou a cabeça.

– Não. Comigo foi um processo gradual que levou bastante tempo, assim como com os outros antes de mim. Por isso Acreditamos que você é muito especial. Agora, vamos nos sentar. Temos muito o que conversar.

♦ ♦ ♦

Era difícil não gostar daquele homem. Sileno Caraman era inteligente, cortês e carinhoso. Valena foi apresentada à esposa dele, Azelara Lorante Caraman, uma mulher pequena e de traços comuns, de cabelos negros e com a voz bastante enfraquecida pela idade avançada. Eram surpreendentes a familiaridade, o carinho e a intimidade com que o casal se tratava.

Surpresa, Valena percebeu que era a primeira vez que conhecia um casal onde ambos os cônjuges eram anciões, já que a expectativa de vida no império não ia muito além dos 40 anos.

Infelizmente, Sileno e Azelara não foram abençoados com filhos. Talvez aquela fosse a razão pela qual ambos tratavam a quase todos, incluindo Valena, com tanto carinho. Era como se tivessem abraçado todo o império, tornando cada soldado, cada cidadão em uma espécie de filho adotivo.

Definitivamente, era quase impossível não gostar deles.

Naquela mesma tarde, o imperador fez um pronunciamento oficial, na forma de um discurso na praça principal de Aurora, onde apresentou Valena ao povo, anunciando, com uma alegria contagiante, que sua sucessora havia sido finalmente escolhida.

Ainda tomada por uma sensação de irrealidade, Valena pronunciou as palavras que fora instruída a dizer, e das quais nem se lembraria mais tarde. A única coisa que ficou gravada em sua mente foi a reação das pessoas. As palmas entusiasmadas. Os gritos de alegria. Ela estava sendo aceita incondicionalmente por aquela gente que nem a conhecia e aquilo lhe causou uma sensação intensa, quente, profunda. Definitivamente, poderia se acostumar com aquilo.

Entre lágrimas de emoção, ela prometeu a si mesma que nunca iria desapontá-los. Não foi capaz de dizer aquilo em voz alta, mas o povo pareceu entende-la muito bem, a julgar pela grande comoção.

– Como podem aceitar alguém que nem conhecem, dessa forma? – Valena perguntou a Sileno, quando voltavam ao palácio.

Ele sorriu.

– Isso faz parte da natureza das pessoas, minha filha: sempre estão dispostas a aceitar umas às outras.

– Isso não é verdade, não é sempre é assim.

– Não, quando existe alguma coisa coibindo a verdadeira natureza humana, como medo, dor, tristeza ou sofrimento. Mas quando damos ao povo uma vida digna, ele florescerá numa sociedade alegre e acolhedora.

– Mas como posso fazer para impedir que as pessoas sofram?

O sorriso dele se ampliou.

– Você faz todas as perguntas certas, filha, eu não poderia imaginar alguém melhor para assumir meu lugar. O fato é que as pessoas sempre irão sofrer por uma coisa ou por outra. Nosso objetivo, como governantes, é providenciar auxílio, consolo, inspiração e esperança, de forma que elas consigam superar seus problemas e prosseguir com suas vidas.

– Isso parece… difícil.

– Sim, é uma tarefa bastante complexa. E que exige bastante preparação e treinamento.

♦ ♦ ♦

Valena imaginou várias coisas quando o imperador falou em “treinamento”, mas nunca passou por sua cabeça que aquilo pudesse envolver a humilhação de tomar surras dos maiores guerreiros do país.

A primeira “lição” que ela recebeu foi como aguentar a dor de ter a articulação de seu cotovelo quase arrebentada até o oponente ficar satisfeito e decidir aceitar seu pedido de rendição.

Ainda segurando seu punho junto ao peito enquanto a prendia ao chão passando as pernas por sobre seu pescoço e tronco, o grandalhão chamado Erineu Nevana, atual general da divisão de Halias, sorriu enquanto dizia:

– Tenho duas lições importantes para você hoje, moça – a voz dele era grave e intensa, um pouco intimidadora, apesar do sorriso. – A primeira é que uma boa chave de braço resolve qualquer luta mano a mano.

Ele levantou as pernas e a libertou.

Qashin! – Valena praguejou, quando finalmente conseguiu se sentar, segurando o braço dolorido. – Eu poderia aprender se simplesmente me dissesse isso ao invés de quase me matar.

O homem se levantou com surpreendente agilidade para alguém daquele tamanho.

­– Você precisa primeiro sentir a dor para entender o potencial de um golpe. Agora, venha cá, deixa eu lhe mostrar outra coisa.

Imaginando que outras formas de tortura ela iria enfrentar em seguida, Valena se levantou, com dificuldade. Respirando fundo, ela pensou, com sua natural teimosia, que não daria àquele grandalhão a satisfação de vê-la implorar por um fim àquele sofrimento.

Erineu pareceu bastante satisfeito quando ela se aproximou dele, com expressão desafiadora, apesar das pernas trêmulas e do braço ainda latejante.

Então ele a golpeou rapidamente em várias partes do corpo com as pontas dos dedos. Não foi, necessariamente, um ataque, pois ela não sentiu nada mais do que um leve e rápido desconforto nas regiões atingidas, mas, de repente, ela sentiu seu corpo se aquecer, como se uma força enorme se apoderasse dela.

Confusa, ela olhou para ele. Erineu fez um gesto, apontando para as pernas dela e depois para o próprio pescoço, antes de assumir uma posição de combate, com o corpo levemente inclinado.

Tomada por um súbito e inexplicável impulso, ela tomou um pouco de distância e depois correu na direção dele, saltando e envolvendo-lhe o pescoço com as pernas, enquanto girava no ar. Tudo ocorreu tão rápido que ela mal registrou o que acontecia. Tanto que tomou um susto quando ouviu o baque causado pelo choque do gigantesco corpo do homem contra o chão arenoso.

As pessoas que estavam assistindo fizeram uma pequena algazarra, entre palmas, gritos e assobios.

Levantando-se, ela olhou para ele, abismada, ainda sentindo os resquícios daquela súbita e quase incontrolável energia que a tinha envolvido.

Com outro enorme sorriso, ele lhe estendeu a mão e ela apressou-se a ajudá-lo a se levantar. Apesar da violência do tombo, ele não parecia ter recebido nenhum dano.

– Essa é sua segunda lição de hoje: quando você decide confiar e fazer o que os mais velhos mandam, coisas interessantes acontecem.

– Como…?

– Ativei os seus pontos pujantes, liberando parte dos seus poderes. Com o tempo você vai aprender a fazer isso sozinha. Achei importante você ter um vislumbre do que é capaz, pois Nostarius e Joanson vão fazer você sofrer tanto nas mãos deles que provavelmente vai pensar em desistir de tudo logo na primeira semana. – Ele apontou para a pequena depressão formada no chão onde as costas dele haviam se chocado com violência. – Quando isso ocorrer, lembre-se de que, se aprender a usar isso direito, é capaz de derrubar qualquer um. E essa é a razão pela qual não podemos pegar leve com você.

O general Nostarius e o capitão Joanson, que assistiam a tudo de uma distância segura, não pareceram gostar nada de ouvir aquilo.

– Você está estragando toda a surpresa, general – reclamou o capitão, no peculiar tom informal com o qual aqueles oficiais gostavam de se tratar.

Valena olhou para as próprias mãos, um sorriso se formando em seu rosto apesar da respiração, ainda pesada.

Xubnaha taranka!

Estava tão entusiasmada que levou um tempo para perceber a reação das diversas pessoas ao redor às palavras que ela gritou, que poderiam ser consideradas um pouco… pesadas. Alguns franziram o cenho, outros sorriram, sem entender. Dois deles levaram a mão à boca, nitidamente chocados. Leonel Nostarius apertou os lábios. Joanson e Lemara se entreolharam por um momento, antes de caírem na risada e a sacerdotisa Gaia Istani levou a mão à testa, balançando a cabeça.

♦ ♦ ♦

O treinamento com a Guarda Imperial teve seus altos e baixos. Mais baixos do que altos, para falar a verdade, pois Leonel Nostarius realmente a fez sofrer bastante durante as lições de esgrima, e os outros membros da guarda também não ficavam muito para trás em seus níveis de exigência. No entanto, as lições que foram mais frustrantes, e também as mais marcantes, foram as ministradas pelo imperador em pessoa.

– Você deve elevar sua consciência, abandonar seu corpo físico para poder se tornar um com a Grande Fênix – dizia ele.

Valena precisava apertar os lábios para evitar soltar algum praguejamento ou dizer algo desrespeitoso como “falar é fácil”. O fato é que não conseguia entrar em contato com a entidade, por mais que tentasse.

Havia conseguido dominar diversos poderes, incluindo a chamada forma da Fênix, onde ela era envolvida por chamas místicas e ganhava a habilidade de voar, entre outras coisas. No entanto, parecia ser consenso entre todos que os maiores poderes de um portador da marca da Fênix era sua habilidade de conversar diretamente com o “Eterno”.

– Talvez tenha algo errado comigo – reclamou ela, em determinada ocasião.

– Não há nada errado com você – Sileno respondeu. – Tenho certeza disso, pois recebi essa revelação logo que a vi pela primeira vez.

– Então, qual é o problema? Por que eu não consigo aprender essa shahwada?

– Talvez ainda seja muito cedo para isso. Vamos tentar uma outra coisa. Diga-me: você conhece o favor divino?

– Não.

Ele assentiu.

– Às vezes me esqueço de que sua iniciação foi muito diferente da minha. Preciso lhe mostrar uma coisa.

Numa parte remota e desértica do império viviam algumas tribos conhecidas como “o Povo do Sol”. Tratavam-se de pessoas de pele muito escura, que se adaptavam de forma impressionante à vida naquele território árido, onde chuvas ocorriam apenas algumas poucas vezes ao ano. Aquela gente não apenas se dava bem com aquele clima: elas precisavam dele para viver, não conseguiam se adaptar a outras altitudes e necessitavam receber diariamente na pele os intensos raios solares refletidos por aquela areia para se manterem saudáveis. Infelizmente, o clima estava sendo inclemente demais naquela região nos últimos anos e eles enfrentavam uma das maiores secas de sua história.

Sileno explicou tudo aquilo a Valena enquanto sobrevoavam a região, no dia seguinte, até pousarem num pico elevado de uma região montanhosa, um lugar que parecia uma muralha de pedra feita para manter aquele mar de areia confinado. Ele então chamou a atenção dela para uma cena peculiar. Não muito distante de onde estavam, um enorme rio se aproximava do fim da cadeia montanhosa, fazia uma curva e voltava, perdendo-se em meio às formações rochosas. Era impressionante ver o quão perto do deserto estava aquela abundância de água. A parede rochosa que mudava o curso do rio não devia ter mais do que algumas poucas dezenas de metros de extensão.

– Você nem imagina quantas vidas poderíamos salvar se mudássemos o curso desse rio.

Ela franziu o cenho.

– Não dá para explodir essas rochas?

– Isso foi tentado durante muito tempo, com muito pouco sucesso. Aparentemente, existe um único poder nesse mundo, puro e intenso o suficiente para afetar até mesmo essa parede rochosa. Pelo menos durante algum tempo.

– É mesmo? – Agora, Valena estava genuinamente curiosa. – Qual?

– Tente se concentrar. Imagine-se no lugar daquelas pessoas – ele fez um gesto na direção do deserto. – Imagine o quão desesperadamente eles precisam de alento, de uma pequena dose, por menor que seja, de esperança, para continuar vivendo por mais um ano. Pondere quão grande é sua vontade de ajuda-los, de dar a eles esse alento, de se tornar a esperança de que eles necessitam. Então olhe para dentro de si mesma e eleve sua consciência, como praticamos antes. Deixe que sua intuição lhe guie. Encontre as comportas que represam sua essência. Sinta essa essência.

Valena já tinha tentado exercícios como aquele diversas vezes, sem muito sucesso, mas daquela vez foi diferente. Aquilo agora lhe parecia extremamente importante, o imperador dava a entender que vidas poderiam depender de seu sucesso. Não era mais uma questão de treinamento, de simplesmente se tornar mais poderosa. Tratava-se da vida de pessoas, do bem-estar de gente que havia festejado com empolgação a notícia de que a sucessora de Sileno Caraman havia sido escolhida. Gente que a havia aceitado de forma incondicional, algo que tinha ocorrido com ela pouquíssimas vezes em sua vida.

Era difícil descrever o que ocorrera, mas de alguma forma ela conseguiu encontrar dentro de si mesma a “essência” a que ele se referia e, seguindo o impulso de ajudar aos outros, conseguiu romper as barreiras que a prendiam. Não saberia dizer quanto tempo levou para abrir os olhos e voltar a raciocinar com clareza, mas percebeu que algo havia acontecido. A paisagem havia mudado, uma parte significativa da montanha parecia ter se movido para o meio do rio, cortando-o em dois e reduzindo a distância entre a água e o deserto para quase a metade.

Sileno Caraman sorria para ela, parecendo muito orgulhoso. Ele a ajudou a se sentar, o que a deixou agradecida, pois suas pernas estavam tão trêmulas que quase não conseguiam mantê-la em pé. Em seguida ele estendeu-lhe um cantil que ela levou à boca e bebeu com sofreguidão, mal percebendo o gosto adocicado do líquido enquanto bebia, levada pela violenta sede que sentia.

– Se você ainda tinha alguma dúvida de ser digna dessa marca, essa é a prova definitiva do contrário. É a maior evidência do seu potencial, o milagre que chamamos de favor divino, algo que pode ser usado por um portador da marca de tempos em tempos, mas nunca em benefício próprio. Descanse por um momento.

Sem conseguir responder, ela apenas assentiu, enquanto ele se voltava na direção do rio lá em baixo e abria os braços, parecendo recitar uma pequena prece.

Então, como se tivesse vida própria, o restante das rochas se moveu, devagar, aos poucos abrindo passagem para que a água fluísse para o deserto.

Muito mais tarde, sem saber direito o que dizer, Valena comentaria com o imperador o quão gratas aquelas pessoas ficariam ao saberem que haviam desviado o rio. Com muita serenidade, ele lhe explicou que ninguém nunca poderia ficar sabendo que estavam envolvidos, uma vez que aquilo os beneficiaria e, por causa disso, os efeitos do encantamento seriam não apenas revertidos, mas voltados em sentido contrário e intensificados, o que provavelmente causaria catástrofes em outras partes do continente.

♦ ♦ ♦

O ataque à Sidéria foi realizado com impressionante precisão. Não que tudo tenha saído como o planejado. Na verdade, muita coisa deu errado.

Primeiro, as “distrações” que elaboraram não tiveram tanto impacto como o esperado e o exército sideriano se deu conta da presença deles em seu espaço aéreo muito antes do que gostariam. Assim, não tiveram tempo de ativar o campo de ocultamento antes de serem avistados e logo se viram metidos em sua primeira batalha, onde foram obrigados a lançar mão de seu maior trunfo.

Seguindo as orientações de Sandora e Leonel, conseguiram ludibriar a tropa terrestre inimiga a utilizar seu ataque mais poderoso: a chamada tempestade glacial, um encanto que era uma combinação mortal de vento e gelo, capaz de cobrir uma área consideravelmente grande. Usando uma proteção mística baseada no que Sandora aprendera na câmara do Avatar, eles não só sobreviveram ilesos à tempestade, como aproveitaram a baixa visibilidade causada por ela para confundir o inimigo e escapar.

Achando que os invasores tinham todos sido derrubados, os soldados siderianos perderam um bom tempo procurando-os pelo chão até perceberem que o ataque tinha falhado. Isso deu a Valena e aos cavaleiros aéreos a chance de se reagruparem e usarem o campo de ocultamento, o que tornou a próxima etapa da viagem bastante tranquila. Pelo menos até uma tempestade natural surgir.

Os escudos místicos os protegeram do impacto do granizo, e encantos de levitação foram usados para diminuir o peso dos cavaleiros e assim permitir que os pássaros conseguissem manobrar com mais facilidade, a ponto de conseguirem evitar as correntes de vento mais intensas e manter um voo relativamente estável apesar de estarem sendo metralhados por uma quantidade absurda de pedras de gelo.

Quando finalmente saíram da tempestade, apareceram os golens de gelo voadores, provavelmente guardiões místicos invocados e mantidos por conjuradores a serviço da rainha. Pareciam dragões, sendo grandes e assustadores, mas, felizmente, não tinham nenhum tipo de ataque especial além da mordida. As bolas de fogo de Valena não tinham nenhum efeito neles, a menos que ela conseguisse lançar o projétil místico dentro de suas bocas.

Levou um bom tempo e consumiu muito de suas energias, mas, um por um ela conseguiu destruir a todos, enquanto os cavaleiros alados os distraíam. Por sorte, aquelas coisas não eram lá muito inteligentes, caso contrário, seria impossível derrota-los daquela forma.

No fim da batalha, dois dos cavaleiros tinham sido abatidos e um estava seriamente ferido. Não havia mais a opção de voltar, pois já haviam passado em muito da metade do caminho e os pássaros não poderiam permanecer no ar por muito mais tempo, depois de todo o esforço dispendido para chegar até ali.

Seguindo em frente, o próximo desafio foi a muralha invisível, uma técnica desenvolvida pelos siderianos quase um século antes, com um único propósito: neutralizar a tropa de cavaleiros aéreos de Verídia. Tratava-se de uma parede de gelo místico transparente quase indestrutível, capaz de curvar-se e se fechar ao redor de seu alvo, prendendo-o em uma enorme esfera que diminuía de tamanho aos poucos, fazendo suas vítimas perecerem numa morte lenta e dolorosa.

Como a parede era muito difícil de detectar, só se deram conta dela muito tarde, quando já tinha se fechado completamente ao redor deles. Leonel Nostarius conhecia bem aquele ataque e sabia que era, praticamente impossível escapar dele por meios normais. Felizmente, estavam preparados para aquilo.

A um sinal dele, encantos de gravidade negativa foram lançados para manter as montarias estacionárias no ar enquanto os conjuradores que existiam entre os cavaleiros começavam a lançar bolas de fogo especiais contra a barreira que os cercava. O fogo esverdeado seguia uma fórmula especial criada pelo imperador Riude Brahan e que foi usada durante a batalha que marcou a derrota da Sidéria na guerra.

As bolas de fogo, no entanto, foram imediatamente absorvidas pela barreira, o que mostrava que os siderianos haviam modificado e aprimorado o encanto, na tentativa de torna-lo inexpugnável e imune aos efeitos do “fogo verde”.

Felizmente, aquelas bolas de fogo não tinham nenhum tipo de efeito especial. Nunca tiveram. A força que Riude Brahan utilizou para romper aquela barreira havia sido outra. Algo que não podia ser usado de forma a gerar nenhum tipo de benefício ao conjurador, nem mesmo admiração, gratidão ou respeito, pelo menos não de forma direta.

Enquanto os conjuradores continuavam a lançar as bolas de fogo esverdeadas, Valena se posicionava no centro da formação, onde todos ficavam de costas para ela. Então, expandiu sua consciência. Nunca tinha precisado utilizar aquele poder depois das lições que recebera de Sileno Caraman. Mas se havia um momento para utilizá-lo, era agora. Não apenas as vidas dos mais valentes oficiais do império estavam em jogo, mas se a aan ku faraxsaneyn daquela rainha não fosse detida, coisas terríveis iriam acontecer. Era impossível prever o que os membros restantes daquele maldito conselho imperial fariam com a população se os planos de dominação deles tivessem sucesso.

Então, uma súbita sensação de paz a envolveu. Uma força falou com ela, um poder maior, algo que ela sentira poucas vezes desde que recebera aquela marca. Foi uma comunicação singela, simples e rápida, sem palavras, apenas um consolo, um incentivo, uma determinação. Ela estava no caminho. A Fênix queria que seguisse em frente.

A esfera transparente já estava ficando preocupantemente pequena ao redor deles quando, abrindo os braços, ela rompeu as comportas e deixou que as energias invisíveis do favor divino fossem liberadas. Nos instantes seguintes, todas as bolas de fogo que atingiram a parede invisível começaram a provocar rachaduras, que foram aumentando e aumentando, até que toda a estrutura se rompeu e os cacos dela se desmaterializaram no ar, causando um enorme estrondo.

Ainda flutuando no ar, Valena destampou o cantil que trazia pendurado na cintura e sorveu com vontade a mistura adocicada, sentindo suas energias retornarem aos poucos. Então olhou para o pequeno anel que usava em sua mão direita, a âncora que a teleportaria imediatamente de volta ao palácio imperial quando pronunciasse uma simples palavra, coisa que ela tinha jurado fazer caso o favor divino não funcionasse. Afinal, sua vida não poderia estar em jogo, as regras não permitiam usar aquele poder para salvar a si própria, pois isso seria um benefício direto.

Aquele tipo de subterfúgio lhe parecia errado e injusto, principalmente porque não haviam outros artefatos como aquele, ela era a única naquela equipe que tinha uma rota de fuga garantida.

Quando finalmente sentiu-se capaz de retomar a jornada, olhou para a frente e soltou um grito de guerra, conclamando os demais a segui-la.

­– Por Verídia!

Era hora de acabar com aquilo, o palácio da bruxa já podia ser avistado.

♦ ♦ ♦

Uma versão mais poderosa da tempestade glacial se interpôs entre eles e o palácio. Aquela, provavelmente, era a tentativa final de Odenari Rianam em mantê-los longe dela. Mas, se aquilo realmente fosse verdade, a infeliz ficaria bastante frustrada.

Quando os ventos gélidos os alcançaram, Leonel levantou a mão direita, segurando um pequeno objeto metálico, no que foi imitado por todos os demais. Um dos conjuradores disse algumas palavras num idioma antigo e, subitamente, todos os artefatos que levantavam sobre suas cabeças se desintegraram, envolvendo-os numa espécie de névoa azulada.

Assumindo a liderança, Valena voou decidida na direção da tormenta. A destruição dos contêineres tinha liberado energia suficiente para protege-los até mesmo da pior tempestade concebível, mas aquilo duraria apenas por poucos segundos e eles teriam que se apressar para conseguir chegar ao seu alvo antes do efeito se desvanecer.

Quando uma das grandes torres do palácio ficou visível, Valena soltou um suspiro de alívio. A tempestade terminava abruptamente, e apesar de ela cercar completamente o palácio por todos os lados, inclusive por cima, ali dentro não havia chuva, vento e nem neve. Apenas uma escuridão um tanto sinistra, uma vez que a tormenta bloqueava a maior parte dos raios do sol.

Em tempos de paz, o topo de torres anormalmente largas e compridas como aquela serviam para pouso e decolagem de cavaleiros aéreos, que faziam transporte de cargas para regiões não providas por pontes de vento. Por isso havia uma ampla área plana e calçada onde poderiam descer.

Valena se preparava para disparar uma bola de fogo, com o objetivo de neutralizar as sentinelas que haviam ali, mas se interrompeu ao ver um deles levantar o que parecia ser uma bandeira branca.

Os cavaleiros alados terminaram de atravessar a tempestade e surgiram atrás dela, passando a realizar voos circulares ao redor da torre. Valena trocou um olhar com Leonel Nostarius e começou a descer. Sem nenhuma hesitação, Sandora saltou da garupa de Leonel e utilizou algum artefato místico para criar um efeito de queda suave, pousando suavemente no chão de pedras da torre quase ao mesmo tempo que Valena.

– Você é Jionor Linaru – disse a imperatriz, quando uma série de relâmpagos cortou o céu, iluminando o rosto dele.

– Sim, alteza.

– Você enviou assassinos ao meu palácio.

– Aquilo foi um erro. Agora, nosso povo precisa de ajuda. A rainha… está além da redenção.

– Seus golens de gelo possuem uma agilidade impressionante – disse Sandora, se adiantando, enquanto encarava o homem.

– Eram a nossa principal linha de defesa – revelou Linaru. – Meus soldados mais fiéis arriscaram os próprios pescoços para comprometer os pontos de coerção.

Valena franziu o cenho e encarou Sandora, sem entender.

– Aparentemente foi ele quem sabotou aqueles dragões de gelo. Notei anomalias nos movimentos deles, além de emanações que não faziam sentido. Acredito que dificilmente conseguiríamos vencê-los tão facilmente se estivessem em plenas condições.

– Mas que qashin! – Valena exclamou, nem um pouco satisfeita ao saber que não foi apenas graças a seus poderes que tinham se livrado daquela ameaça. – Como saberemos que podemos confiar nele?

Sandora deu de ombros.

– Ao menos ele parece saber do que está falando.

– Não tenho razão para mentir – protestou o general.

– Tudo bem, então ajoelhe-se e coloque as mãos na cabeça – ordenou Valena. – E seus guardas também.

– Não demos o alarme – disse Linaru, obedecendo. – Se entrarem rápido, podem pegar todos de surpresa.

– Não precisamos de surpresa – retrucou Valena.

Sandora fez um gesto na direção de Leonel que, por sua vez, sinalizou aos outros cavaleiros. Uma de cada vez, as águias gigantes pousaram no chão da torre, os cavaleiros rapidamente desmontando e removendo as selas, comandando então os animais a voltarem a seu tamanho normal.

Assim que os oficiais algemaram o general inimigo e seus homens, Sandora começou a tirar uma quantidade impressionante de pedras de sua bolsa de fundo infinito, passando instruções aos conjuradores para ajuda-la a montar o que parecia um grande quebra-cabeças.

Pouco mais de cinco minutos depois, um grande círculo de pedras esverdeadas havia sido cuidadosamente preparado. Sandora caminhou até o centro e concentrou-se. As pedras brilharam levemente por um instante antes da imagem da bruxa se tornar borrada até desaparecer por completo. Aparentemente, a ponte de vento improvisada estava funcionando perfeitamente.

Poucos segundos depois, Sandora reapareceu, acompanhada por Gram, Valdimor, a capitã Imelde e sua equipe.

Cientes de que sua missão tinha sido cumprida e sua função naquela invasão havia terminado, os cavaleiros se dirigiram silenciosamente à ponte improvisada, carregando as selas e os pássaros com cuidado. Valena fez sinal aos soldados recém-chegados para ajudarem os prisioneiros a se levantar e a tomar lugar dentro do círculo, ao lado dos outros.

Leonel lançou a Valena um olhar carregado de respeito e prestou continência, gesto que foi imediatamente imitado por todos os cavaleiros, até mesmo pelos feridos.

Com uma ponta de orgulho, Valena retribuiu o gesto, percebendo que Sandora, Gram e até mesmo Valdimor a imitavam, além dos demais oficiais que permaneceriam ali com eles. Também não passou despercebido a ela o olhar de admiração no rosto do general inimigo ao vê-los trocando aquela simples formalidade.

Então, a ponte foi novamente ativada e todos sumiram de vista.

Momentos depois, a primeira unidade de soldados imperiais surgiu dentro do círculo de pedras. Todos conheciam o plano, não havia necessidade de ordens específicas. Em silêncio, os soldados tomaram suas posições ao redor da ponte, visando protege-la até que as demais unidades chegassem.

Valena assentiu para Valdimor, que sorriu e assumiu sua forma demoníaca enquanto corria ao lado dela na direção da porta que dava acesso à escadaria. Sandora, Gram e a tropa da capitã os seguiram.

Com a ponte de vento funcional e protegida, foi impossível para as forças siderianas impedirem a completa ocupação do palácio. Mesmo que a equipe da imperatriz não fosse uma força quase irresistível, o fluxo constante de reforços chegando a todo momento garantiriam a vitória.

As forças inimigas ainda tentaram várias estratégias, como derrubar paredes e enfraquecer as fundações da torre, mas as Tropas de Operações Especiais estavam preparadas para aplicar medidas preventivas para neutralizar esse tipo de manobra.

Tendo Sandora ao seu lado, Valena se sentiu livre para usar a totalidade de seus poderes, sabendo que a aura de proteção da bruxa impediria que ocorressem fatalidades, pelo menos não dentro da área de efeito. A própria Sandora, Gram e Valdimor também se soltaram, atacando com fúria e rompendo os bloqueios inimigos de forma rápida e implacável, o que era essencial para não dar tempo às habilidosas tropas siderianas de se organizarem.

Valdimor se mostrou um aliado formidável, abrindo caminho através de portas e barricadas, enquanto atraía boa parte dos ataques inimigos para si. Sandora permaneceu de olho nele o tempo todo, usando ocasionalmente seus poderes negros para restaurar-lhe as energias. Felizmente, os temores de Valena não chegaram a se concretizar, pois se aquele demônio se voltasse contra eles naquele momento, as coisas se complicariam bastante, mesmo com as diversas precauções que tinham tomado.

Laina, Alvor, Beni e Loren iam atrás deles, protegendo a retaguarda e fazendo ocasionais piadinhas sobre o quão supérfluos eles eram ali e sobre as amizades estranhas que Sandora vivia fazendo. Em certo momento, Valdimor estava por perto e soltou uma gargalhada macabra ao ouvir uma das piadas. Os quatro se entreolharam, intimidados, e preferiram manter suas bocas fechadas dali para a frente.

Claro que existia a possibilidade de a rainha abandonar o lugar, mas Valena não se preocupava muito com isso pois sabia que, tomando o palácio real, a reanexação da Sidéria estava praticamente garantida.

Para sua extrema satisfação, no entanto, Odenari Rianam não fugiu. Ao invés disso, a infeliz a estava aguardando, junto com seus generais, em um grande salão, aparentemente usado para treinamento.

– É um campo de expurgo – avisou Sandora, referindo-se ao encantamento capaz de dissipar e neutralizar energias místicas.

– Há quanto tempo, Rianam – disse Valena, retirando o anel do dedo e o entregando a Sandora. Fazendo um gesto para que os outros mantivessem posição, ela se adiantou, devagar.

– Não posso dizer que foi tempo suficiente, sua assassina – a rainha retrucou.

– O que significa isso? Por acaso pretende desafiar a imperatriz de Verídia para um combate corpo a corpo?

– E quanto a você? Tem coragem para enfrentar um oponente como eu sem esses seus malditos poderes?

– Devo encarar você sozinha, ou esses soldados todos vão querer participar da festa?

A um gesto da outra, os oficiais siderianos recuaram até o outro canto do salão.

Valena respirou fundo e marchou na direção da mulher. Se era uma luta sem poderes que a outra queria, era isso o que teria. Assim que entrou no campo de expurgo, sentiu imediatamente um calafrio involuntário quando percebeu que os gatilhos mentais que usava para ativar seus poderes simplesmente desapareceram, como se nunca tivessem existido. A sensação de perda que se abateu sobre ela era intensa, causando um desespero similar àquele sentido quando se prendia a respiração por muito tempo. Mas nunca daria àquela maldita a satisfação de vê-la fraquejar ou hesitar.

– Perfeito, agora você está livre – disse a rainha, quando Valena parou na frente dela.

– Livre? Do quê?

– Da influência daquela entidade amaldiçoada. Aqui dentro ela não é mais capaz de obrigar você a nada.

Valena franziu o cenho.

– Do que está falando? A Fênix nunca me obrigou a nada.

– Meu marido morreu por suas mãos! Vai dizer que estava em sã consciência quando cometeu tão terrível crime?!

Perplexa, Valena não conseguiu evitar de ficar boquiaberta.

– Isso não é possível, certo? – Odenari continuou. – Você é só uma menina, uma pobre cobaia sendo manipulada pelos Eternos para fazer o joguinho deles. Mas agora você está livre. Venha comigo, posso proteger você. Posso fazer com que nunca mais seja marionete de ninguém.

– Você enlouqueceu – concluiu Valena.

– Você não sabe pelo que eu passei depois que meu amado pereceu. As coisas que tive que fazer para sobreviver! Os sonhos! Os horrores! – Nitidamente perturbada, a mulher balançava a cabeça. – Você não sabe o que eu passei – repetiu.

– Não, não sei. Mas aparentemente foi coisa suficiente para tirar sua sanidade. Não tem mesmo nenhuma noção dos absurdos que está dizendo?

– Não precisa mais temer o Eterno. Está segura aqui, não há mais necessidade de manter essa farsa.

– Mas que daahitaan?! Não há farsa nenhuma. Ninguém me comandou a tirar a vida de seu marido. Eu o matei porque eu quis! Ele me atacou e eu revidei. E não me arrependo disso.

– Não… não… não… não… – a outra começou a repetir, sacudindo a cabeça.

Valena olhou para os oficiais siderianos no canto do salão.

– Há quanto tempo ela está assim? Por que não está sob os cuidados de um curandeiro?

Os oficiais se entreolharam e deram de ombros, parecendo não acreditar no que estavam vendo.

– O que estão esperando? – Valena esbravejou. – Tirem-na daqui! Ela precisa de ajuda!

– Não! – Odenari Rianam gritou. – Ninguém vai me tirar daqui! Você é a culpada, você é a assassina! Eu vou matar você!

Apesar da situação absurda, Valena não pode deixar de sentir uma certa satisfação ao se esquivar da investida daquela maluca e desferir nela alguns golpes bem dados, antes de fazê-la gritar, aplicando-lhe a chave de braço que o general Erineu Nevana havia lhe mostrado em seu primeiro dia de treinamento. Mesmo naquele estado de insanidade, não levou muito tempo para a rainha pedir por piedade.

Valena a soltou e se sentou no chão, passando as mãos pelos próprios cabelos, toda a satisfação que sentira momentos antes desaparecendo completamente. Tinha vencido. Mas por que aquela vitória lhe parecia tão vazia?

— Fim do capítulo 12 —
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