Lassam – Capítulo 13: Cerco

Publicado em 29/04/2017
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13. Cerco

Os dias seguintes de Daimar e Cariele foram bastante movimentados. Fizeram enormes progressos no trabalho, ou melhor na “aposta”, conforme gostavam de se referir àquilo. Nos momentos vagos, ela o levou para conhecer os lugares favoritos dela nos jardins. Ele, por outro lado, começou a mostrar para ela diversos fatos interessantes em relação à arquitetura e decoração da academia, em especial os efeitos visuais dos lustres que antes ela considerava “horrendos”.

Ficou claro para ambos que as visões que tinham da instituição não faziam jus ao conjunto total das características do lugar. Daimar reconheceu que tinha uma visão muito acadêmica de tudo e Cariele percebeu que tendia a ver somente o lado prático, o que a impedia de apreciar muitas coisas. Quando as visões de ambos eram analisadas em conjunto, a coisa toda parecia adquirir um valor muito maior, muito mais interessante.

Não demorou muito para se tornarem o casal mais famoso da academia. Os fofoqueiros de plantão se divertiam espalhando histórias sobre o “mais novo alvo da maior caçadora de fortunas de Lassam” ou sobre a “mais nova conquista do mais depravado delinquente da instituição”. Ou ainda sobre os motivos de Daimar ser o único a apresentar algum interesse em Cariele, agora que o ritual de beleza dela estava perdendo o efeito.

Ambos descobriram que tinham um no outro seu maior aliado, e juntos enfrentaram de cabeça erguida o descaso e o escárnio de boa parte das pessoas.

Caras novas entraram na fraternidade, outras saíram, e no fim, Daimar percebeu que o clima ali dentro mudou completamente, se comparado ao primeiro dia em que ele entrou naquele alojamento. Não apenas pelo fato de agora haver mulheres ali, mas havia se estabelecido uma atmosfera de disciplina e respeito que extrapolou em muito as expectativas dele. E também ficava cada vez mais óbvio que todos ali dentro torciam para as coisas darem certo entre ele e Cariele. Considerando que existia animosidade em relação aos dois em quase todos os lugares dentro da instituição, a fraternidade acabou se tornando um refúgio seguro para os dois, um lugar onde podiam relaxar e agir normalmente sem se preocupar em seriam julgados ou terem que se defender de ataques gratuitos.

E havia ainda, é claro, aquela ligação sobrenatural entre eles. Cariele explicou a ele sobre a “brincadeira” que fizera com a cadeira, em que ela estava tentando confirmar se ele transmitia os pensamentos ou emoções a outras pessoas além dela. E, desde então, os dois se divertiram fazendo “pegadinhas” um com o outro em momentos inusitados, o que só comprovou que aquele vínculo afetava mesmo apenas a eles.

Perceberam que as sensações, sentimentos, e às vezes, até mesmo os pensamentos de um podiam ser transmitidos ao outro. Se estivessem juntos, ela podia andar de olhos fechados pelo ambiente, de certa forma “acessando” os sentidos dele para se guiar. Também era interessante ver os sentimentos dela sendo transmitidos a ele quando ela se sentia particularmente nervosa, faminta ou entediada.

– Então você acha que essa ligação telepática é culpa minha?

– Não acho que isso seja “culpa” de ninguém – respondeu ela. – Mas acho que tem a ver com a forma como seus sentidos funcionam. Lembra do dia da batalha entre os dragões? Eu achava que você tinha espiado através do meu túnel de observação, mas por mais poderoso que você fosse, não seria matematicamente possível fazer isso a menos que eu te passasse algumas coordenadas. Basicamente, você estava lendo a minha mente.

– Mas por que isso só funciona às vezes, e não o tempo todo?

– Normalmente é assim que esse efeito funciona: começa fraco ou errático e vai se fortalecendo com o tempo.

– Isso quer dizer que vamos chegar a um ponto onde vou poder saber o que você está pensando a qualquer hora?

Ela sorriu.

– Talvez. Só tome cuidado que isso é uma lâmina de dois gumes.

Ela não entendia direito como podia se sentir tão tranquila em relação àquilo. Para alguém que passou tantos anos acostumada a contar apenas consigo mesma, a possibilidade de compartilhar seus mais profundos pensamentos com outra pessoa deveria ser algo desconfortável ou assustador, não deveria? Mas tudo o que ela sentia era o fortalecimento de seu relacionamento com ele, o que gerava um sentimento de pertencer, algo tão forte e fundamental que não deixava espaço para dúvidas.

Em tão pouco tempo, seu amor tinha se tornado tão profundo, tão intenso e completo, que não conseguia mais imaginar sua vida sem ele. E graças àquela misteriosa e mágica ligação entre eles, ela podia perceber claramente a reciprocidade do sentimento.

Só havia o problema de não conseguirem se tocar. E aquilo estava se transformando em um verdadeiro martírio, pelo menos para ela. De alguma forma, a atração física que ele sentia era bem menos intensa, o que aumentava a suspeita de que os sentidos dele estavam detectando algum problema com ela. Infelizmente, ela não conseguiu progressos na investigação sobre esse assunto.

Ele se aproximou dela e a abraçou pela cintura, olhando-a com carinho.

– No outro dia você me disse que, antes do ritual, você não tinha “várias outras coisas” além dos cabelos. Sei que você não gosta de falar sobre isso, mas parece ser algo que a incomoda. Não quer dividir comigo?

Ela suspirou e olhou para aqueles olhos castanho-claros que pareciam capazes de enxergar sua alma. E agora, com aquela ligação entre eles, talvez fossem mesmo.

– Eu nunca vou poder ter filhos.

Ela conseguiu dizer aquilo de uma forma tão tranquila que surpreendeu em muito a si mesma. Aquele fato era o que mais a tinha abalado depois de ter se recuperado dos efeitos da enorme explosão que havia dilacerado boa parte de seu corpo. Ela contou a ele sobre os meses de tratamento e regeneração, e de diversas outras sequelas que o acidente causou. Do fato de ter perdido o uso de um braço, de uma perna, de um olho e de ambos os ouvidos.

A esperança de todos era que o ritual desse a ela uma nova chance de ter uma vida normal. Mas, apesar de seus membros, visão e audição terem sido plenamente recuperados, a modificação corporal não teve qualquer efeito sobre seu útero, que continuava irremediavelmente danificado.

– Eu não me importo com isso – foi a resposta dele.

Vendo a sinceridade no fundo daqueles olhos, a única coisa que ela conseguiu foi abraçá-lo apertado.

Naquele momento, ambos se lembraram de que os efeitos do ritual pareciam estar acabando, e que não havia como prever o que aconteceria com ela daqui para a frente. A possibilidade de ela voltar a ficar incapacitada era aterrorizante demais e nenhum dos dois quis tocar no assunto.

Os tais segredos do passado de Daimar continuavam sendo um mistério para eles. O alquimista tinha simplesmente desaparecido. Apesar de ele fazer visitas diárias à Rua das Camélias, nunca conseguiu encontrar o homem. E como Delinger e Cristalin também não deram mais nenhuma notícia, tudo o que podiam fazer era esperar.

Em certo momento, Daimar decidiu abrir o tal envelope sigiloso que Delinger pedira para entregar ao alquimista, mas descobriu que não havia nada dentro. A teoria de Cariele é que a missiva tinha alguma proteção mística que se ativou quando o envelope foi aberto, mas não tinha como ter certeza.

Um outro assunto que começou a ficar bastante popular entre os estudantes da academia era sobre o ataque dos monstros voadores. Aparentemente, o episódio estava se transformando em uma espécie de atração turística para Lassam. Muitas pessoas vinham conhecer a cidade onde “dragões lutavam nos céus”, apesar de não ter aparecido mais nenhum monstro nas redondezas deste então. Alguns iam embora desapontados, outros diziam que “sabiam o tempo todo que aquilo tudo não passava de uma grande farsa”.

Bem que Cariele gostaria que tudo fosse uma farsa, assim, não existiriam diversas pessoas internadas no hospital devido a ferimentos sofridos durante o ataque, antes de o dragão dourado aparecer e atrair os demais para longe das ruas.

Apesar de o exército ser enfático ao dizer que aquilo tinha sido um caso isolado e que não voltaria a ocorrer, Cariele não conseguia se livrar da impressão de que não tinha acabado. Não havia como evitar imaginar se não havia uma ligação direta com o problema no qual Cristalin e Delinger Gretel estavam trabalhando. Apesar de não conversarem sobre esse assunto, ela sabia que Daimar também já tinha feito essa associação. O comportamento da instrutora tinha sido muito suspeito naquela tarde no terraço.

Pensar em Cristalin fazia com que Cariele lembrasse que não tinha mais um “emprego”. A tenente realmente a tinha ajudado bastante naqueles dois anos, sempre encontrando uma ou outra missão para ela, mesmo quando havia contingente disponível. Duvidava que fosse encontrar algum outro tenente que simpatizasse com ela da mesma forma. Agora, com Daimar disposto a financiar sua pesquisa, ela não tinha mais necessidade de fazer aquele trabalho, mas lhe era desagradável a ideia de nunca mais prender criminosos. Aquilo tinha feito parte de sua vida por tanto tempo, que a perspectiva de nunca mais sair em missões lhe parecia tediosa e insossa, mesmo que conseguisse vir a resolver os problemas de sua vida amorosa.

Suas costelas já tinham se curado e ela, graças à Fênix, não precisava mais usar aquele unguento de odor desagradável. Não se sentia, exatamente, pronta para outra experiência como aquela última missão, mas seu corpo tinha acumulado bastante energia e ela começava a se sentir ansiosa por um pouco de ação.

E foi nessa atmosfera, de preocupações, dúvidas, ansiedade e excitação, que teve início a sequência de ocorrências que mudaria para sempre a vida dos dois.

♦ ♦ ♦

Querendo passar o máximo de tempo que pudesse com ela, Daimar se oferecera para ser o parceiro de treinamento de Cariele todas as manhãs.

Foi com certa surpresa que ela descobriu que ele era bastante competente em luta corpo a corpo, herança das muitas brigas em que andou se metendo na adolescência. A força física dele também era muito maior do que o normal para alguém do porte dele sem uso de encantos místicos. Ele podia ter muito menos técnica e experiência do que ela, mas a força e a malícia dele acrescentavam um nível de desafio bastante interessante ao embate.

O grande problema, no entanto, era aquela bendita ligação telepática, que volta e meia se manifestava fazendo com que um soubesse o que o outro faria em seguida. Como resultado, a luta ficava frustrante, infrutífera e, às vezes, hilária.

Depois de várias tentativas frustradas de fazer um treinamento para valer, ambos acabaram deitados lado a lado sobre a areia, gargalhando.

– A culpa não é minha – disse ele. – É esse seu perfume, que fica me distraindo.

– Não duvido – respondeu ela, rindo. – Esse cheiro distrai até a mim.

– Não creio que até isso você consegue sentir também?

Exibindo sua incrível agilidade, ela fez um movimento com as pernas e se projetou para cima, caindo em pé.

– Parece que posso sentir qualquer coisa que você sente, desde que seja algo intenso. E essa sensação em particular é bem marcante.

Ele se forçou a se pôr em pé.

– Então você pode ter uma ideia pelo que passei nessas últimas semanas. Tive sérios problemas para dormir.

– Pobrezinho.

– Ei! Isso é golpe baixo.

Ela voltou a rir.

– Acho que já é hora de irmos – disse ele, olhando para o céu, que começava a ser iluminado pelos primeiros raios de sol. – Antes que nossos guarda-costas resolvam aparecer por aqui.

– Eles devem é estar se agarrando lá no telhado – disse ela, começando a recolher os cristais de luz contínua dos suportes nas estátuas.

– Com inveja?

– Bastante.

Ele sorriu, enquanto entregava a ela o cristal que tinha recolhido.

– Sabia que essas estátuas representam antigos deuses da guerra?

– Vai dizer que essas coisas feias também têm séculos de idade?

– Não. Mas acho que são reproduções de obras bem antigas. Andei lendo um pouco sobre elas depois que vim aqui naquela primeira vez.

Cariele sorriu enquanto ouvia a explicação dele. Ao passarem pelos diversos corredores até a saída do prédio, ele, como de costume, já a tinha feito pensar de forma completamente diferente naquelas estátuas e naquela arena de treinamento em si.

Não sei como ele consegue levantar tanta informação tão fácil, ou como consegue memorizar tudo desse jeito, pensava ela, enquanto abria o portão externo.

– Anos de prática – respondeu ele saindo e olhando ao redor.

Ela estacou e olhou para ele.

– Eu disse aquilo em voz alta?

– Hã? Pensando bem, eu acho que não.

A telepatia entre eles parecia estar ficando mais forte, eles às vezes percebiam a linha de pensamento um do outro, mas nunca a ponto de um conseguir literalmente ouvir o que o outro estava pensando.

Tentando fazer um teste, ele olhou para ela brevemente e fechou os olhos, imaginando-se fazendo uma pergunta.

Pode me ouvir?

Ouvindo claramente os pensamentos dele, ela sorriu e virou-se para trancar o portão.

Sim. Nossa ligação está se fortalecendo mais rápido do que eu imaginava.

Para Daimar, aquilo era uma coisa fantástica e miraculosa, e ele estava ansioso para explorar todas as… possibilidades. Infelizmente, aquele não parecia ser o momento apropriado.

Você disse que tinha autorização para treinar nesse lugar, certo?

Sim. Por quê?

Porque tem um grupo vindo para cá, com cara de poucos amigos.

Cariele virou-se na direção que ele apontava e viu dois homens e duas mulheres marchando na direção deles. Vestiam roupas civis, mas pela forma como se moviam, ficava claro que eram soldados, ou, pelo menos, tinham treinamento militar. E estavam todos armados.

Continuando a conversa mental, Daimar perguntou:

Conhecidos seus?

Não que eu me lembre.

Os recém-chegados pararam a uns dez metros de distância.

– Você é Daimar Gretel?

Instintivamente, Cariele se posicionou na frente de Daimar.

– E se ele for?

O que parecia o líder apontou para os dois.

– Peguem eles!

Imediatamente, os outros sacaram suas espadas e avançaram.

Fique atrás de mim, pediu ela, silenciosamente, enquanto sacava o bastão de seu esconderijo, no bolso de fundo infinito. Como suas armas ainda não estavam prontas, ela tinha que se contentar com a que a mulher da ferraria tinha lhe emprestado.

Sentindo-se como se estivesse dentro da mente dela, Daimar pôde visualizar perfeitamente todas as etapas do movimento que ela fez a seguir. A forma como ela moveu os braços a fim de girar o bastão à sua frente algumas vezes, as estimativas de peso e velocidade dos alvos que ela fez, antes de efetuar um cálculo quase instintivo que levou a três números distintos que usou para direcionar os movimentos do corpo e para extrair energia do simulacro equipado na arma, para que ela pudesse manipular uma outra coisa, algo sem forma definida, que ficava dentro dela mas que não fazia parte de seu corpo, sendo algo mais metafísico, mais espiritual. E, enfim, viu os movimentos do corpo e daquela força interior interagirem entre si, canalizando energia do ambiente ao redor, antes de finalmente liberá-la violentamente.

O processo todo teve tantas etapas, tantas nuances diferentes, que pareceu levar uma eternidade, mas, na verdade, tudo aquilo levou menos de um piscar de olhos.

Quando ela terminou o último giro do bastão, o encantamento gerou uma onda de choque energética que se propagou em formato de leque na frente dela, atingindo os três soldados mais próximos e jogando-os para trás, além de arruinar os canteiros de flores mais próximos e derrubar dois postes.

Então ela gritou para eles:

– Exijo uma explicação para isso!

A resposta do líder foi apontar uma besta para ela e disparar vários dardos na sequência, obrigando Cariele a segurar o bastão na vertical e conjurar uma barreira etérea em forma de cunha, que defletiu os projéteis para os lados.

Um dos soldados caídos se levantou e utilizou um ataque do tipo arrancada, disparando na direção dela com incrível velocidade. Ela conseguiu aparar o ataque sem grandes dificuldades, mas as duas mulheres também entraram na briga, forçando-a a dividir sua atenção para repelir os ataques dos 3 ao mesmo tempo.

O líder! Preciso que você derrube o líder!

Daimar viu que o homem em questão estava recarregando a besta.

Como?

Sua capacidade espiritual é bem forte, eu posso sentir.

O que eu faço?

O processo todo foi bem complexo, com diversas etapas que só puderam ser vencidas através de tentativa e erro, mas a vasta experiência dela no assunto, aliada àquela ligação, que parecia unir as mentes dos dois a ponto de parecer que tinham se tornado um único ser, permitiu que ele aprendesse o que tinha que fazer na velocidade do pensamento.

Soltando um grito, ele se ajoelhou e desferiu um violento soco no chão. As pedras à frente dele começaram então a voar pelos ares, levantadas por uma onda de choque que brotava do chão e se movia, afastando-se dele em linha reta e com altíssima velocidade, enquanto ia perdendo força aos poucos até desaparecer, mas não antes de causar uma trilha de destruição no calçamento, e de atingir em cheio uma das mulheres e o líder, que tomaram um duro golpe e foram arremessados violentamente para o alto e caíram de cara no chão.

Com golpes físicos precisos e eficientes, Cariele conseguiu rapidamente desarmar e machucar os outros dois atacantes o suficiente para que ficassem caídos no chão sem poderem fazer nada além de soltar murmúrios de dor. Ela olhou para Daimar e viu que ele já tinha incapacitado a outra mulher e naquele momento derrubava o líder com um invejável cruzado de direita.

A sensação que se apoderou dela foi fantástica. Nunca em sua vida havia sentido tanto orgulho, satisfação e senso de unidade. Parecia desproporcional que tudo aquilo fosse fruto de um pequeno ato que exigiu uma quantidade tão pequena de esforço da parte dela. Se amar significava sentir-se daquela forma, então ela podia compreender porque tantos gostavam de criar poesias, odes e aquelas baboseiras todas.

Sorrindo, ela tratou de pegar os pequenos bastões especiais que sempre carregava consigo e eram conhecidos como algemas, para imobilizar os dois atacantes que tinha derrubado. Com a precisão nascida da prática, ela os fez deitar de bruços e enrolou os bastões ao redor de seus pulsos.

– Nada mal, hein? – Daimar disse, sorrindo, quando ela se aproximou dele. – Pena que essa parte do jardim nunca mais será a mesma.

Você nunca deixa de me surpreender, pensou ela. Nunca imaginei que tivesse tanto potencial.

Eu também não, mas duvido que exista alguém mais incrível que você.

Cariele se abaixou e virou o líder de bruços, imobilizando os braços dele da mesma forma que tinha feito com os outros.

– O que está acontecendo? – Ao não receber resposta, ela agarrou o homem pelos cabelos e levantou a cabeça dele. – Qual a razão deste ataque?

Em resposta, o homem soltou um grito a plenos pulmões, ao que ela respondeu empurrando-lhe a cabeça para baixo, golpeando-o contra o chão gramado num ângulo determinado de forma a deixá-lo imediatamente inconsciente.

Acho que isso foi um pedido de reforços, pensou Daimar. Ouço gente correndo nessa direção, e acho que são soldados como esses aqui.

Ótimo! Vamos quebrar a cara de mais alguns deles e conseguir respostas.

Você parece gostar tanto disso que está até me assustando.

Os dois correram na direção dos soldados, que foram pegos de surpresa e mal tiveram tempo de reagir, sendo devidamente espancados e derrubados em tempo recorde.

Daimar sorriu.

Contra nós dois, ligados dessa forma, soldados normais não têm a menor chance.

Ela concordava, mas era melhor tomar cuidado.

Mantenha a guarda. Ainda não sabemos o que está acontecendo.

Com muita satisfação, Daimar observava aquela faceta de Cariele, que era nova para ele. O soldado. Tenaz, implacável, inventivo, decisivo. Mas, acima de tudo, era fácil perceber o quanto ela gostava daquele tipo de ação. É como se ela tivesse nascido para aquilo. Não era apenas por uma questão monetária que ela decidira se tornar caçadora de recompensas. Aquele trabalho simplesmente era parte dela, tanto quanto sua aparência ou seus conhecimentos de física. Era algo que a definia. Pela primeira vez desde que a conhecera, ele finalmente teve a impressão de que começava a entendê-la de verdade.

Infelizmente, da mesma forma que o líder da primeira leva, aqueles homens não fizeram nada além de gritar depois que foram derrubados, o que forçou Cariele a deixá-los inconscientes para que calassem a boca.

Não falam nada quando estão em pé, menos ainda depois que caem – concluiu ele.

Nem sinal de Britano e Janica – lembrou ela. – Algo pode ter acontecido no alojamento.

Então vamos para lá.

Não avistaram ninguém durante o trajeto, o que era uma clara indicação de que o ataque que sofreram não era um caso isolado. Era como se a academia tivesse sido evacuada.

Ao se aproximarem do alojamento da fraternidade, avistaram uma enorme confusão. Correram para lá ao perceberem que Britano, Janica e mais dois monitores enfrentavam um grande grupo de soldados uniformizados. Os membros da fraternidade assistiam a tudo das janelas do segundo andar, parecendo bastante assustados.

Com precisão e eficiência, Daimar e Cariele entraram na luta e trataram de colocar todos para dormir. Esses soldados eram mais bem treinados e equipados do que os outros, levando Cariele a gastar um pouco de energia e Daimar a “praticar” mais algumas vezes sua recém aprendida habilidade, para o azar do calçamento.

Os estudantes formaram uma espécie de torcida organizada nas janelas e vibraram, felizes, quando a batalha acabou. E acabaram tomando uma bela bronca de Britano.

– Se querem ser úteis – disse ele, depois de passar-lhes uma bela descompostura– preparem cordas e itens de primeiros socorros e levem tudo para o refeitório!

Cariele olhou para Janica.

– O que está acontecendo? Por que esses soldados estão nos atacando?

– Estão sendo afetados por um tipo de controle mental. Pelo que sabemos, isso está acontecendo por toda a cidade.

Apesar de diversos tipos de encantamentos místicos serem parte do dia a dia das pessoas do império, controle mental era algo bastante raro. Primeiro porque era uma espécie de sacrilégio, que desagradava fortemente tanto a Grande Fênix quando o Espírito da Terra, as duas entidades que tinham grande influência no governo e eram veneradas em quase todo o continente. Segundo porque, apesar de ser possível em teoria, era algo bastante complicado de se pôr em prática devido à natureza da ligação da mente com o espírito e à forma como a energia fluía.

Daimar franziu o cenho.

– Mas como isso é possível?

– Também não sabemos.

Britano aproximou-se deles enquanto os outros dois monitores começaram a levar os soldados desacordados para dentro.

– Felizmente, ninguém morreu – disse ele. – Mas seria bom não se empolgar demais nesse tipo de batalha, barão. Dois dos que você atingiu estão em estado crítico.

– Não pode esperar que eu pegue leve quando estão tentando me matar.

– De qualquer maneira, não é seguro para você permanecer aqui.

– Por quê?

– Esses soldados estavam perguntando por você e fazendo todo tipo de ameaça se você não aparecesse e se entregasse. Parece que você é o alvo principal.

– Mas que raios?

– E a tenente Oglave mandou uma mensagem – continuou Britano. – Você deve ir até a casa do alquimista.

– Estou indo lá todo dia, mas nunca encontro ninguém.

– Ele estava detido em algum lugar contra a vontade, mas a tenente o libertou e o mandou para lá. – O monitor albino se voltou para Cariele. – A tenente também deu uma missão para você. Assegure-se de que o barão consiga chegar até o alquimista em segurança. Se fizer isso, ela vai usar toda sua influência para reintegrar você ao batalhão.

Era engraçado como, às vezes, as prioridades das pessoas pareciam mudar completamente de uma hora para outra. Duas semanas atrás, Cariele teria ficado eufórica ao receber uma oferta como aquela. No momento, no entanto, aquilo simplesmente não significava nada.

– Você realmente acha que eu preciso de incentivo para cumprir essa missão?

– Eu, não. Mas a tenente, aparentemente, não conhece você como nós.

– Vem vindo mais um grupo – alertou Janica.

– Vão pelos fundos – ordenou Britano. – Vamos segurar eles aqui e proteger o alojamento. Quanto mais longe vocês dois estiverem daqui, melhor para todos nós.

♦ ♦ ♦

Delinger Gretel desferiu um poderoso soco no soldado, que em circunstâncias normais seria suficiente para separar-lhe a cabeça do corpo, mas graças aos escudos pessoais e outras técnicas de proteção, o homem apenas caiu desacordado. Provavelmente ficaria sem alguns dentes por um tempo, mas pelo menos ainda estava vivo.

Olhou ao redor e viu que seus supostos aliados já haviam neutralizado os demais membros daquele batalhão de elite, que tinha sofrido o encanto de sugestão. Era fácil para ele ver que aqueles homens e mulheres, apesar de lutarem a seu lado, não confiavam nele e não gostavam de sua presença ali.

O ruído de galopes chamou sua atenção e ele se virou para ver uma conhecida e seriamente danificada carruagem virando a esquina. O condutor, que usava bandagens nas mãos e na cabeça, puxou as rédeas com força, fazendo com que os animais parassem. Então Cristalin Oglave saiu pelo enorme buraco que havia na lateral do veículo, bem onde, um dia, houvera uma bela e delicada porta.

Eles correram um na direção do outro até se encontrarem e ela pular no pescoço dele, num abraço apertado, enquanto os membros das Tropas Especiais os observavam com expressões variadas. Enojados. Perplexos. Divertidos. Deliciados.

Delinger se sentiu como Cordelius, o personagem principal de uma ópera famosa, que atraía a atenção de todos por onde passava e arrancava reações distintas e às vezes até opostas de pessoas diferentes, graças a seus discursos insanamente contraditórios. Delinger odiava o personagem, bem como óperas, em geral.

Gentilmente, ele segurou Cristalin pelos ombros e a afastou.

– Encontrou Dafir?

– Sim, ele está bem, está em casa agora. Não devem ter conseguido dobrar a mente dele, por isso o estavam mantendo preso. Estava trancado lá há mais de uma semana.

– Ele concordou em proteger Daimar?

– Claro que sim. Qualquer um nessa situação concordaria. Achei que conhecesse bem esse homem e até confiasse nele.

– Há 21 anos atrás isso era verdade. E quanto a Daimar? Temos alguém na academia?

– Só os monitores, mas recebemos sinais de que a situação está relativamente sob controle por lá. Seu filho já recebeu a mensagem para encontrar Dafir na casa dele.

– Encontrou alguma escolta confiável?

– Sim, pode ficar tranquilo. Ela é a melhor soldado com quem já trabalhei, provavelmente uma das mais competentes do país todo. Entre os membros da minha unidade, não há ninguém que seja páreo para ela, nem mesmo eu.

– Então ela pode se tornar perigosa se for sugestionada.

– Não creio que isso seja possível. Nesse departamento ela é tão casca grossa quanto Dafir, talvez até mais.

– E eu ainda não creio que, mesmo depois de tanto planejamento, ainda tenhamos sido pegos de surpresa por esse ataque.

– Não há com que se preocupar. Isso nem é um “ataque”, é só uma medida aleatória, desorganizada e desesperada. É o último recurso deles, já que frustramos os planos de dominarem as mentes das autoridades da cidade.

O grito de um dos soldados chamou-lhes a atenção.

– Tem um monstro ali na frente!

– Acho que é hora de você entrar em ação – concluiu Cristalin. – Vá lá e mostre a esses bobocas das Forças Especiais como se faz.

– Quanto mais poder eu usar, mais eles vão me temer – respondeu Delinger.

– Isso não faz realmente diferença, faz?

– Tem razão, não faz – disse ele, puxando o rosto dela para um rápido beijo nos lábios antes de se virar na direção apontada pelo soldado e sair em disparada.

♦ ♦ ♦

Daimar estava sentado no banco do condutor, controlando habilmente sua carruagem enquanto cortava as ruas quase desertas da cidade em velocidade máxima, com Cariele sentada a seu lado.

Estava pensando em dar um nome para aquele golpe – comentou ele, telepaticamente. – Que tal, “Onda Poderosa”?

Ela riu.

Só concordaria com isso se você fosse capaz de gritar esse nome bem alto toda vez antes de socar o chão.

Tem razão. Isso seria mico demais para mim.

Cuidado! Tem alguém naquele telhado!

Mas o que aquele cara está fazendo lá?

Essa não! Pule!

O quê?

Solte as rédeas e pule! Agora!

Ambos saltaram da carruagem, cada um para um lado e caíram rolando pelo chão empoeirado. Enquanto isso, uma bola de fogo cortou o ar e atingiu em cheio a carruagem, explodindo com um estrondo enquanto mandava pedaços fumegantes de madeira para todos os lados e fazendo com que os cavalos se assustassem e disparassem, arrastando atrás deles o pouco que restou do veículo.

Cariele pôs-se em pé com agilidade e olhou para o telhado tentando imaginar que tipo de contra-ataque poderia utilizar naquela situação sem acabar com boa parte do que restava da carga do simulacro. O homem começava a se preparar para disparar uma outra bola de fogo, quando uma flecha o atingiu no meio do peito, fazendo-o cair por cima das telhas e depois escorregar para o que seria uma feia queda de mais de cinco metros de altura.

Virando-se para trás, ela avistou o aspirante Alvor Sigournei, que abaixava o arco e fazia uma série de gestos rápidos para ela.

Nós cuidamos das coisas por aqui. Apressem-se e vão para o lugar combinado.

Cariele fez um rápido gesto de continência, para indicar que tinha entendido e chamou Daimar.

Vamos!

Eles saíram andando apressados, na direção da Rua das Camélias.

Ele falou mesmo tudo aquilo só com aqueles gestos? Isso é incrível.

Incrível é você ficar lendo a minha mente o tempo todo.

Ele sorriu.

Isso é, praticamente, um sonho tornado realidade. Agora você não pode mais esconder nenhum segredo de mim.

E nem você, não se esqueça disso.

De repente, um enorme rugido pôde ser ouvido, bem como o som de madeira se quebrando. Sem hesitar, ambos passaram a correr, tentando colocar a maior distância possível entre eles e a fonte do barulho.

Você viu aquilo? – Daimar perguntou.

Pareciam dois monstros gigantes lutando. Acho que o que vimos foi um deles pulando sobre o outro ou algo assim.

Aquele rugido é familiar, não acha?

Sim, me lembra daquele dragão dourado que vimos do telhado da academia.

Acha que as duas coisas têm relação?

Cristalin está envolvida. E provavelmente o seu pai também.

Em que raio de encrenca será que estou metido?

Estamos.

O quê?

Nós dois estamos metidos. O que quer que seja, vamos enfrentar juntos.

Dez minutos depois, eles pararam de correr por um minuto, para recuperar o fôlego.

– Obrigado – disse ele, ofegante. – Confesso que estou preocupado com o que possa descobrir hoje. É muito bom poder contar com o seu apoio.

– Não há necessidade de agradecer. Você esteve dentro da minha mente. Sabe que eu te amo.

– Sim, eu sei. E você também sabe que o sentimento é mútuo, não sabe?

Ela assentiu, antes de adiantar-se até a esquina e lançar um olhar cauteloso aos dois lados da rua.

Essa não! Aquela é a loja do alquimista?

Ele adiantou-se e olhou por sobre o ombro dela.

Sim.

Droga!

Três soldados observavam enquanto outros dois tentavam derrubar a porta da loja usando um grande tronco de madeira como aríete. Dava para ver duas outras pessoas caídas no chão, imóveis e aparentemente feridas.

No momento em que as fechaduras finalmente cederam e a porta caiu para a frente com um estrondo, Cariele já estava próxima o suficiente e usou a onda de choque do bastão para arremessar os soldados contra a parede.

Eles vão se recuperar rápido. Entre lá e veja se o alquimista está bem.

Não vou deixar você enfrentar todos eles sozinha!

Não seja estúpido! Estou em plena forma, já o alquimista pode estar ferido, ou pior!

Tudo bem, tudo bem! Mas se precisar de ajuda, grite.

Não precisarei.

Daimar irrompeu porta adentro e começou a averiguar os cômodos. O lugar era grande e até mesmo um pouco luxuoso, apesar da aparência externa decadente.

Haviam diversas vitrines com uma infinidade de objetos em exibição. Cada sala parecia dedicada a um tema em particular. Uma exibia pentes, broches, espelhos e inúmeros outros objetos de beleza, incluindo potes e garrafas que deviam conter unguentos e coisas do gênero. Outra exibia facas, punhais, adagas e espadas curtas de diversos formatos e cores. Outra exibia roupas e armaduras.

– Olá? Tem alguém aí? Estou aqui para ajudar!

Um súbito barulho de passos o fez virar-se para uma escadaria que levava ao andar superior.

Ouvindo os ruídos da luta lá fora ele fechou os olhos por um segundo, deixando-se invadir pelas sensações que Cariele experimentava. Excitação, um pouco de frustração, raiva, preocupação, vontade de acabar logo com aquilo. Então concluiu que ela estava bem e subiu as escadas com cuidado.

– Olá?

A primeira porta do corredor estava aberta. Parecia um quarto de dormir. Ele aproximou-se e deu uma espiada para dentro. Então, um homem que estava encostado na parede, fora das vistas de quem estivesse no corredor, pulou na frente dele e aplicou-lhe um golpe no peito com a palma da mão, jogando-o para trás até chocar-se com a parede.

Sem reação, por causa da intensa dor, ele mal conseguiu olhar para o rosto de seu agressor antes de ele realizar algum tipo de encantamento que fez com que quatro arpões de metal se materializassem do nada em seu peito e abdômen.

Não houve dor alguma, apesar dele sentir o metal transpassando-o, as pontas riscando a parede atrás dele.

– Mas o quê…?

O homem levantou a mão, da qual saiu uma espécie de descarga elétrica, que atingiu os arpões.

– Morra, monstro!

Daimar gritou, agoniado. A dor era muito maior do que qualquer pessoa podia suportar, e ele perdeu a consciência.

Cariele derrubava o último soldado quando sentiu que Daimar tinha sido atingido no peito. Virou-se e correu para dentro da construção, guiada pela ligação telepática que mostrava com clareza qual caminho ele tinha tomado. Estava na metade da escadaria quando ouviu o grito agoniado dele e chegou ao andar de cima no momento em que ele tombava no chão.

Nesse instante, o elo que tinha com ele foi cortado bruscamente, deixando no lugar apenas um enorme vazio, frio, desesperador.

Ele estava morto!

Ela olhou para o agressor, que se preparava para lançar mais algum encantamento contra o corpo caído, mas que, ao perceber a presença dela, parou e analisou-a de cima a baixo.

– Você é humana.

– Você o matou – disse ela, apertando os punhos ao redor do bastão.

– Sim. Mas por favor afaste-se que eu preciso terminar o serviço…

– Você o matou!!

O homem arregalou os olhos, surpreso, ao vê-la correndo para cima dele, e se afastou alguns passos para dentro do quarto, levantando a mão e materializando um escudo transparente.

Cariele sentiu o bastão se chocar com aquela barreira quase invisível e percebeu que tinha usado a pior tática possível. O escudo repeliu a arma com a mesma intensidade, tendo sido projetado para devolver o golpe contra o agressor. Num reflexo, ela girou o corpo e soltou a arma, que voou de sua mão e se chocou contra a parede do quarto com um estrondo.

Na fração de segundo que levou para virar-se novamente para o homem, ela percebeu que nada mais lhe importava. Se Daimar não estava mais com ela, não havia nenhuma razão para permanecer nesse mundo e prolongar ainda mais aquele sofrimento. Mas o responsável por aquilo iria junto com ela.

O homem levantou a outra mão e preparou-se para disparar uma descarga energética.

Com uma velocidade sobrenatural, ela adiantou-se e segurou a mão dele, pressionando com força suficiente para quebrar-lhe os dedos. Em seguida ela o soltou e atingiu-o no plexo solar com o cotovelo, arremessando-o até o outro lado do quarto, fazendo-o chocar-se contra um velho armário, quebrando e afundando as portas para dentro do móvel.

Ela percebeu vagamente que o homem usava algum tipo de escudo corporal, pois não parecia muito ferido enquanto levantava a cabeça e olhava para ela. Aquele, provavelmente, tinha sido o golpe mais poderoso que ela já tinha desferido contra alguém em sua vida, mas não tinha sido o suficiente.

Ótimo.

Ao vê-la correr na direção dele com o punho erguido, o homem levantou as duas mãos e conjurou outro escudo. Então, completamente estarrecido, viu o golpe dela romper suas proteções místicas como se elas nem mesmo existissem, e atingi-lo diretamente no abdômen.

Um enorme rombo se fez na parede, pelo qual o homem e os pedaços do armário saíram voando pelo ar, até atingirem o telhado de um velho estábulo.

O homem percebeu que seu escudo pessoal não aguentaria mais nenhum ataque como aquele. Mas não teve tempo para raciocinar, pois viu que aquela mulher insana tinha saltado atrás dele com intenção de acertá-lo com os pés.

Imaginou então que aquela poderia ser a chance dele, que se conseguisse bloquear aquele golpe, poderia virar a luta a seu favor. Então canalizou todas as energias que tinha num novo escudo. E constatou, perplexo, que ele não serviu nem sequer para desacelerar o golpe dela.

O estrondo foi grande quando metade do telhado de palha desabou.

O corpo do homem caiu dentro de um velho cocho de madeira, com diversos ossos quebrados. Tentou abrir os olhos, mas tudo o que conseguiu foi sentir um punho atingindo-o violentamente no queixo.

Dolorido e confuso, Daimar tentou abrir os olhos, mas não foi bem-sucedido. Seu corpo parecia feito de geleia, mole, amorfo. O que estava acontecendo? Como parecia não conseguir se mover, tentou usar seus outros sentidos e percebeu que havia um grande buraco na parede diante dele. Algo tinha saído por ali, fazendo um enorme estrago. O que poderia ser?

Então ele se lembrou da cena na semana anterior, quando viu uma parede de pedra ser completamente destruída e Cariele sair pelo buraco, em meio àquela fumaça esverdeada e jogando um enorme martelo de batalha para o lado como se não pesasse mais do que uma pena.

Cariele!

De alguma forma, ele conseguiu chegar até a beira do buraco. Não podia vê-la, mas podia senti-la em algum lugar ali fora. Furiosa. Perdida. Desesperada. Ele a sentiu levantando o punho para dar o golpe final em seu oponente. E, de alguma forma, ele sentiu que aquele seria o último golpe que ela aplicaria, porque a vida dela iria se esvair junto com aquele rompante de energia que ela conjurava.

– Cari! – De alguma forma, ele conseguiu gritar.

Então ele sentiu quando a mão dela se paralisou no ar. Sentiu quando ela se voltou na direção dele, não o vendo, mas sentindo-o da mesma forma que ele a sentia. Então, várias emoções a invadiram. Alívio. Alegria. Amor. Ela chegou a sorrir, antes de cair sobre os escombros do telhado desabado, inconsciente.

O aspirante Alvor e o sábio Edizar chegaram ao lugar e se depararam com a porta arrombada e diversas pessoas, seriamente feridas, caídas pelo chão. Entreolharam-se por um segundo, perplexos e então se puseram em ação. Alvor tratou de disparar o sinal de alerta para chamar ajuda enquanto Edizar examinava os feridos.

– Estão vivos, mas não por muito tempo se não tiverem cuidados.

– Algum deles é o garoto Gretel?

– Nenhum bate com a descrição.

– Vamos procurar lá dentro.

Então, ao chegarem ao segundo andar, ouviram um terrível rugido e se aproximaram do buraco na parede do primeiro quarto.

E viram um enorme dragão com escamas de um tom entre azul e prateado levantando a cabeça por entre os escombros de um telhado arruinado e olhando diretamente para eles.

– Droga, é um deles – sussurrou Edizar, dando um passo para trás. – O que vamos fazer?

– Espere – disse Alvor. – ele está segurando alguma coisa. É… acho que é uma pessoa.

Então o dragão soltou mais um terrível rugido, antes de olhar diretamente para Alvor e depois abaixar a cabeça e encostar o focinho no corpo inerte de Cariele, que ele carregava nas suas enormes garras.

 

— Fim do capítulo 13 —
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