Valena – Capítulo 13

Publicado em 13/05/2018
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13. Boca de Ouro

Valena havia antipatizado instantaneamente com o conselheiro Malnem Rianam no momento em que o conhecera. Não que os demais conselheiros não lhe dessem calafrios também, mas aquele homem era bem mais soturno e assustador. E a esposa dele, Odenari, não ficava para trás. Pareciam um casal de góticos, perambulando pelo palácio em roupas escuras e antiquadas e caminhando quase sem fazer barulho. Pareciam os fantasmas encenados em uma daquelas óperas chatas a que era obrigada a assistir, acompanhando o imperador.

Não que aqueles dois não fossem um casal simpático. Nas rodas da alta sociedade, os dois simplesmente brilhavam. Eram carismáticos, alegres e irreverentes, todos os adoravam.

Malnem também estava sempre muito bem informado sobre os acontecimentos em todo o império. Sileno Caraman confidenciou a Valena que ele era o comandante de uma das maiores redes de inteligência do país, que empregava oficiais espalhados por pontos estratégicos de todo o continente, encarregados de reunir e compilar informações de relevância estratégica. Isso permitia ao imperador ter uma visão mais ampla e mais precisa da real situação do interior das províncias e assim decidir acertadamente sobre a forma mais eficiente de investir os limitados recursos que o palácio recebia na forma de impostos.

– Se nosso ouro é limitado, porque não cobramos uma taxa maior? – Valena havia perguntado, em certa ocasião. – Quero dizer, assim daria para ajudar a todo mundo, não daria?

Caraman sorriu e explicou:

– Lembra de quando você trabalhou como mensageira? Você acharia justo se eu tomasse metade do dinheiro que você ganhava com tanto sacrifício e o desse para outra pessoa?

– Claro que não!

– Esse é o princípio da cobrança de impostos, filha. É uma quantia que os trabalhadores confiam a nós, subtraída do pagamento que tanto sofrem para conseguir. O dever de quem está no trono é garantir que esse o dinheiro seja aplicado em algo que traga benefícios para o pagador de impostos de forma a compensar o valor com que ele contribuiu. Por exemplo: construímos pontes, estradas e mantemos a cidade limpa, dessa forma o trabalhador pode ter mais saúde e viver melhor. Manter abertas rotas de comércio e garantir meios de transporte rápidos e seguros também ajudam em muito o dia a dia das pessoas. Mas todos esses benefícios não serviriam de nada se os impostos fossem tão altos que prejudicassem a vida do cidadão. As pessoas ficam bem mais produtivas quando têm sonhos e objetivos, mas para isso precisam de uma boa perspectiva, precisam saber que existe alguma chance de realizar suas ambições.

– Acho que entendi. Mas já que não podemos cobrar impostos maiores, porque não usamos alquimia para produzir mais ouro?

– Porque, mesmo que isso não fosse proibido, não serviria para muita coisa. O ouro é valioso apenas porque é um metal raro e difícil de encontrar na natureza. Aumentar a quantidade dele em circulação irá fazer com que perca seu valor e faça as coisas ficarem mais caras. Pense assim: o que as pessoas fazem com dinheiro?

– Compram coisas.

– Exatamente. E se as pessoas tivessem mais dinheiro, poderiam comprar mais coisas, não é verdade? O problema é que a quantidade de produtos no mercado não vai aumentar apenas porque as pessoas têm mais dinheiro. O ferreiro que produz vinte ferraduras por dia vai continuar produzindo apenas vinte ferraduras por dia. E com as pessoas podendo comprar mais, o estoque da ferraria vai acabar.

– O ferreiro não poderia comprar mais metal e contratar um ajudante?

– Sim, mas pense que o mesmo que aconteceu com o ferreiro aconteceria simultaneamente com todas as pessoas, incluindo os mineiros que produzem o ferro. Não é possível todos contratarem ajudantes, porque não existem tantas pessoas assim no país. Por fim, com tanta procura por ferraduras, ficaria cada vez mais difícil conseguir metal e, por causa disso ele se tornaria mais caro. Consequentemente, o ferreiro vai precisar cobrar mais pelo que produzir. E o mesmo vai acontecer com bares, tavernas, alquimistas, enfim: todo mundo.

– Não achei que o trabalho do imperador fosse tão difícil!

– Sim. Precisamos usar nossos recursos com sabedoria, por isso o trabalho do conselheiro Rianam é fundamental. Ele vem trabalhando incansavelmente pelo bem do país há décadas e mais do que provou seu valor durante esse tempo.

No entanto, por mais razoáveis que fossem os argumentos do imperador, Valena não conseguia confiar no homem. Ainda mais quando ele estava ao lado do coronel Narode.

Rianam e Narode eram parecidos, fisicamente falando. Ambos eram loiros e tinham olhos azuis. Ambos eram altos e exalavam elegância em seus movimentos e na maneira de falar. A grande diferença entre eles ficava por conta do comprimento do nariz e do tamanho da barriga, medidas essas onde Rianam ganhava com larga vantagem. De qualquer forma, Valena não gostava de nenhum dos dois.

O coronel era uma espécie de braço direito do conselheiro, além de também ter ligações com a Guarda Imperial, sendo visto com frequência ao lado do general Leonel Nostarius. Viera conversar com Valena diversas vezes, sempre muito educado, humilde e espirituoso. Ela podia até se divertir com as tiradas dele, mas confiança, definitivamente, era algo ele nunca lhe despertou, pelo menos não totalmente.

Isso, inclusive, a deixava intrigada. Ela nunca tinha se sentido daquela forma em relação a ninguém e não sabia direito como lidar com aquilo. E o fato do coronel ficar se reunindo com o conselheiro com tanta frequência e em horários estranhos a deixava ainda mais desconfortável, de forma que ela adquiriu o hábito de evita-los sempre que podia.

– Percebi que você costuma esquivar-se da presença de algumas pessoas que frequentam o palácio – disse-lhe um dia o professor Lutamar Romera, um dos maiores e mais poderosos sábios do império, que também fazia parte da Guarda Imperial.

Valena não soube como responder àquilo. Ao ver a reação dela, o professor sorriu.

– Ficar sem uma boa resposta para uma crítica como esta pode pegar muito mal para nossa futura imperatriz, sabia?

– Eu…

– Vamos fazer o seguinte: vou deixar de lado o treinamento que eu tinha em mente para você e vamos trabalhar um pouco em suas habilidades de conversação. Afinal, você precisa saber se comunicar bem para que seus súditos possam entender corretamente suas ordens, não é?

E foi assim que, por vários meses, ela se viu envolvida no que lhe pareceu o treinamento mais estranho, desconfortável e infrutífero de sua vida. Sua frustração com os métodos de ensino do professor Romera era tão grande que ela levou um certo tempo para perceber os benefícios de tudo aquilo.

– Vejo que o tempo que passa com a Guarda Imperial está rendendo bons frutos, alteza – disse Malnem Rianam durante um jantar.

– Tenho certeza que o mérito é todos deles, conselheiro – retrucou ela, de forma quase automática. – Os generais Nostarius e Nevana são dedicados e exigentes, o que os torna ótimos instrutores.

– É mesmo?

– Bom, meus músculos doloridos me dizem que não seria uma boa ideia insinuar o contrário, pelo menos não na presença deles.

Todos no salão riram, exceto pelo general Nostarius, que parecia nunca se descontrair. No entanto, a expressão dele se suavizou levemente, o que a fez concluir que não havia se ofendido.

– É muito bom ver que está se adaptando à vida no palácio – disse o coronel Narode, com um sorriso.

Valena olhou para ele.

– Devo admitir que, depois que eu compreendi que o senhor e o conselheiro Rianam têm assuntos de alta importância para tratar e que não é de mim que ficam falando quando se reúnem, passei a me sentir bem melhor.

Outra onda de risadas. Narode riu e lhe lançou um olhar intrigado.

– Acreditava que estávamos tramando algum plano nefasto, alteza?

– Depois de notar as suas… reuniões tão tarde da noite nos aposentos do conselheiro, admito que certamente me pareceu algo assim. Vocês são homens de muitos segredos, coronel.

A maioria dos presentes voltou a rir, mas nem todos. Valena percebeu várias trocas rápidas de olhares. Odenari Rianam sorria, parecendo serena, mas seu rosto estava bem mais vermelho do que o normal. Se ela já não estivesse desconfiada do conselheiro antes, com certeza ficaria agora.

Narode ia responder, mas foi interrompido pelo general Nostarius.

– Existe algum assunto de estado importante do qual devemos ficar cientes, coronel?

Pelo visto, não era só Valena que estava desconfiada de algo.

O salão caiu num silêncio desconfortável. Foi apenas por um segundo, mas ela tinha certeza de ter visto Narode empalidecer.

– Nada com que deva se preocupar, general – interveio o conselheiro Rianam, com um sorriso apaziguador. – Raramente temos algum tempo livre para passar com os amigos ultimamente, então, quando surge alguma oportunidade, aproveitamos para nos reunir em meus aposentos para beber e relembrar os velhos tempos.

Aquele episódio representou uma verdadeira guinada na vida de Valena. A forma como conseguira colocar o conselheiro e o coronel na defensiva a encheu de orgulho, tanto que acabou passando boa parte da noite revivendo a cena e rindo consigo mesma. A partir daquele dia, ela deixaria de ser uma figura decorativa, que ficava quieta em seu próprio canto e fazia apenas o que lhe mandavam. Afinal, era a sucessora do trono, não era? De agora em diante trataria de agir como tal. Era seu direito.

Mas, verdade seja dita: na prática, acabou não mudando muita coisa. Sua rotina permaneceu exatamente igual. A única real diferença é que ela agora se sentia mais confiante, no controle de si mesma. Passou a ver até mesmo os tediosos e cansativos treinamentos com outros olhos.

E aquela situação ainda lhe trouxe um bônus muito bem-vindo: de repente, ficou muito mais fácil evitar a companhia indesejada do conselheiro ou do coronel.

– Devo dizer que a coerência e a assertividade de seus diálogos tiveram uma melhora significativa, alteza – elogiou o professor Romera, dias depois.

– Obrigada. Percebi que palavras podem ser bem mais poderosas do que eu imaginava.

– Fico contente que tenha entendido isso. Mas lembre-se de que esse é um poder que deve ser usado com sabedoria.

♦ ♦ ♦

– Trazer a paz e a prosperidade ao nosso povo é e sempre será a nossa prioridade – Valena dizia, com muita emoção na voz, para a multidão de milhares de siderianos que lotavam a praça principal da capital de seu país, que agora voltaria a ser uma província do império. – Isto não é um “golpe de estado”, estamos apenas reunindo novamente duas nações que conviveram em harmonia por tantas décadas e que foram separadas por uma artimanha atroz de um grupo mesquinho de pessoas. Eu já disse isso antes, e repito: nós nos comprometemos a restaurar os meios de transporte de vocês, tão irresponsavelmente danificados, e a levar novamente a prosperidade e a esperança a todas as comunidades. – Ela fez uma pausa, enquanto a multidão emitia sons e gestos de aprovação. – E em relação aos soldados siderianos, são todos livres para voltar para suas famílias e encontrar outras ocupações se esse for seu desejo. Mas para aqueles que quiserem continuar acreditando e lutando por este glorioso país, o novo governo dará boas-vindas. O general Linaru continuará comandando as tropas, com a mesma disciplina e eficiência com que o vem fazendo há tantos anos. E para aqueles que ainda não me conhecem ou que não confiam em mim… saibam que ninguém os forçará a nada. Quando estiverem insatisfeitos com a minha liderança, falem, se manifestem. Preciso saber o que meu povo está pensando, pelo que está passando, para que eu possa tomar decisões acertadas e corrigir o que estiver errado. O objetivo da existência do império não é gerar poder e riqueza para mim ou para qualquer outro governante. O objetivo do império é dar uma vida mais digna para cada um de nós.

A ovação foi enorme. Após o fim do discurso, a capitã Imelde e sua tropa tiveram dificuldade para abrir caminho pela multidão para que Valena pudesse chegar até a ponte de vento recém-restaurada no centro da praça.

As dúvidas que Valena tinha em relação àquela situação não a impediram de apreciar o carinho com o qual estava sendo tratada. Ela sorriu e acenou para todos durante o curto trajeto.

O general Linaru a esperava, com um impecável uniforme novo, usando no peito, com orgulho, o emblema com a imagem da Fênix. Aliás, o uniforme ficava muito bem nele, muito melhor do que o antigo, estabelecido por aquela maluca. Valena ainda não confiava totalmente nesse homem, depois de ele ter despachado assassinos atrás de sua cabeça, mas a história que ele contou foi comovente o suficiente para convencer os senadores. E, além disso, as tropas siderianas eram extremamente leais a ele, o que, por si só, já era razão suficiente para dar o benefício da dúvida.

Ao lado do general estava a nova governadora, Felis Tiriane, filha mais nova do antigo governador, cruel e covardemente assassinado por Odenari Rianam. Valena não estava muito certa de que podia confiar naquela garota. Disseram que ela tinha quase trinta anos, mas não parecia ter passado dos 19. Com os cabelos loiros presos em duas tranças, óculos de lentes grossas e o corpo miúdo, ela tranquilamente passaria desapercebida em meio a qualquer grupo de estudantes em uma das universidades de Mesembria. Valena imaginou se, agora que não precisava mais viver escondida de uma tirana que queria matá-la, a garota ganharia alguns quilos, pelo menos o suficiente para perder aquele aspecto esquelético.

De qualquer forma, Tiriane era conhecida e querida por uma boa parte da população, por ter aparecido publicamente ao lado do pai inúmeras vezes, e sua escolha para o cargo foi sugerida pelo governador Leonel Nostarius e aceita por unanimidade entre o senado.

Valena cumprimentou o general e a nova governadora com fortes apertos de mão. A algazarra feita pela multidão ao redor não permitiria uma conversa, então, não havia mais o que fazer além de acenar mais uma vez para seus novos súditos antes de subir na ponte de vento, em meio a seus leais soldados, e assim voltar para casa.

O primeiro ato da imperatriz assim que adentrou o palácio imperial foi dispensar a capitã e sua equipe, que haviam trabalhado incansavelmente nesses últimos dias. Com sua costumeira postura irreverente, eles soltaram gritos animados de alegria e abraçaram uns aos outros, como se tivessem recebido a melhor notícia do mundo. Alvor Sigournei convidou todos para ir “encher a cara”, inclusive estendendo o convite para a imperatriz, ao que recebeu uma cotovelada da capitã Imelde.

Valena ainda ria da atitude deles enquanto entrava na sala do trono, onde o Dragão de Mesembria a aguardava para uma audiência.

– Devo dizer que aquele seu último discurso na Sidéria foi emocionante, alteza.

– Oh, vocês estavam lá? – Valena perguntou, enquanto apertava-lhe a mão. – Mas não precisa ser educado sobre isso. Oratória não é um de meus pontos fortes. Por mais que o professor Romera tenha tentado me ensinar, nem sempre consigo me expressar da forma como gostaria.

– Você foi ótima – disse a esposa do Dragão, Cariele Asmund, adiantando-se para cumprimenta-la também. – Mas por que essa cara? Você acabou de reanexar uma província ao império. Não é esse o primeiro passo rumo ao seu objetivo?

Valena vivia se esquecendo do assustador poder de percepção que aquele casal tinha. Ela havia adentrado aquele recinto sorrindo, nunca poderia imaginar que alguém conseguiria enxergar o que se passava em seu íntimo.

Ela deu um suspiro cansado.

– Meu objetivo é ver as pessoas vivendo felizes e em paz. E isso será impossível enquanto os conselheiros imperiais continuarem controlando Halias, Lemoran ou as Rochosas.

– Ou a Sidéria – disse Daimar Gretel. – Você retomou uma das províncias, agora faltam apenas três. Quatro se contarmos Ebora, mas aparentemente o conselheiro Raduar está fora do jogo por lá.

– Sim – concordou Valena. – Parece que tanto Ebora quanto Mesembria conseguiram se livrar do lixo sem minha ajuda. Quanto à Sidéria, não fizemos realmente muita coisa. Odenari Rianam derrotou a si própria.

– Não necessariamente – disse Sandora, que estava sentada em um canto do salão com um livro diante de si. – O que a deixou sem reação foi o fato de você tê-la enfrentado daquela forma.

– Do jeito que você fala parece que eu é quem enfiei a insanidade na cabeça dela.

– De qualquer forma, alteza, temos uma proposta para lhe fazer – disse o senhor Gretel.

– Sentem-se – disse Valena, adiantando-se e sentando no banco ao lado de Sandora. Então notou nela uma palidez que lhe pareceu incomum. Teria se esforçado demais? Decidindo que teria que conversar com ela sobre isso depois, Valena se virou para o casal que se acomodava do outro lado da mesa. – Sou toda ouvidos.

– As histórias sobre a retomada da Sidéria já correm por todo o país – disse o Dragão. – E com grande ênfase na facilidade e precisão com que vocês chegaram até o castelo, sem contar o novo e inovador tipo de portal de vento com o qual transportaram as tropas lá para dentro.

Desgostosa, Valena se lembrou de quão perto estiveram do fracasso e que, provavelmente, nunca teriam chegado até o palácio inimigo sem a ajuda do general Linaru. Teria que ser muito mais cuidadosa daqui para a frente. Não se perdoaria se voltasse a colocar Sandora e seus aliados em tão grande perigo novamente.

– Ótimo – respondeu ela, guardando seus pensamentos para si. – Espero que isso faça com que nossos inimigos tremam nas bases.

– Não sei quanto a nossos inimigos, mas o povo de Mesembria está bastante impressionado – comentou Cariele.

– É mesmo? – Valena perguntou, agradavelmente surpresa.

– Tive uma reunião com os prefeitos das principais cidades e com as lideranças militares – disse o Dragão. – E parece ser um consenso de que, se o império está se reerguendo, todos querem fazer parte dele.

Já não era sem tempo, Valena pensou consigo mesma.

– Fico honrada, senhor Gretel. Mas você disse algo sobre uma “proposta”.

– Estamos preocupados com ela – disse Cariele, apontando para Sandora.

A bruxa encarou a esposa do Dragão, com aquela expressão impassível que lembrava muito a de seu sogro, Leonel Nostarius.

– Eu?

– Sandora, você é uma peça fundamental do novo império – disse Daimar. – Já presenciamos do que é capaz e queremos que continue lutando ao nosso lado. Precisamos de você.

Valena pensou em comentar algo como “isso é porque você não viu o marido dela em ação”, mas então considerou que Sandora realmente merecia um reconhecimento por tudo o que tinha feito.

– Com isso eu concordo plenamente – disse ela, atraindo o olhar inexpressivo da bruxa para si.

– Mas não poderá continuar lutando por muito tempo nesse ritmo – contrapôs a esposa do Dragão. – Sua condição atual é muito delicada. Está sentindo dor neste momento, não está?

Sandora apertou os lábios por um momento, mas depois assentiu.

– Sim.

– O quê? – Valena a encarou, preocupada. – Por que não me disse nada?

– Por que não tive oportunidade. Começou hoje de manhã.

O Dragão limpou a garganta.

– Nossa proposta, alteza, é que tenhamos autorização para cuidar da saúde dela. Cariele vem trabalhando com mulheres grávidas já há bastante tempo e temos instalações adequadas para monitorar o feto e garantir que esteja tudo bem.

Valena olhou para ele, confusa.

– Mas eu achei que vocês já estivessem cuidando dela.

Sandora suspirou.

– Ele quer dizer, em caráter permanente.

– Permanente não – contrapôs ele. – Apenas até que possamos descobrir o que há de errado e corrigir o problema.

– Seus fluxos energéticos estão alterados – disse Cariele. – Pode sentir isso, não pode?

– Sim. Mas por que se preocupam tanto comigo? Devem existir milhares de outras mulheres grávidas por aí para vocês tratarem.

– Você tem padrões energéticos únicos. Estamos muito próximos de entender algumas etapas da gravidez e do parto que são para nós um completo mistério, e eu estou certa de que você nos dará pistas muito importantes. O fluxo que liga seu corpo e seu espírito é peculiar, ele nos permite realizar algumas leituras que são praticamente impossíveis de serem feitas na maioria esmagadora das mulheres. Pense que estará ajudando não apenas a si própria, mas também a todas as futuras mães que poderão ser beneficiadas pelo que descobrirmos.

Sandora balançou a cabeça.

– Não posso me afastar daqui. Tenho vários assuntos a resolver, como o problema de Valdimor.

– Esqueça isso – retrucou Valena. – Posso cuidar dele.

– Não sabemos se ele já foi exposto à minha aura por tempo suficiente para se libertar. Ele pode voltar a atacar você.

– Você não vai poder ficar perto dele para sempre.

– E você não tem o direito de arriscar sua própria segurança por minha causa.

Aquilo foi dito num tom calmo, mesmo assim, teve um impacto considerável. Todos ficaram em silêncio por um longo momento, até que Valena assentiu.

– Tudo bem, então ele vai com você. Ao lado de Gram e Valdimor você deve ficar em segurança.

– Ainda tenho outras pendências – insistiu Sandora. – Precisamos consertar as pontes de vento da Sidéria. Você quer resolver isso o mais rápido possível, não?

– Os sábios de Mesembria podem ajudar com isso – ofereceu Cariele. – Estão todos muito interessados em descobrir como você criou aquela ponte de vento portátil, diga-se de passagem.

– Nesse caso, vão ficar desapontados, pois não foi isso que eu criei. Inclusive, tenho quase certeza de que a construção de algo dessa natureza é impossível. O que eu fiz foi criar uma ponte provisória, fundamentalizando os componentes no próprio local.

Valena tinha uma leve noção do processo de “fundamentalização” de uma ponte e sabia que aquilo podia levar semanas. De repente, se deu conta do quanto aquele plano maluco tinha dependido das habilidades excepcionais de Sandora.

Notou então algo estranho. Sandora tinha usado um tom completamente atípico dela, lembrava até uma criança birrenta.

– Você está exausta – concluiu. – Esse seu problema está cobrando um preço muito alto de você, e lutar a meu lado não está ajudando. É melhor você ir com eles e fazer o possível para resolver isso.

Sandora fechou os olhos, parecendo contrariada, mas não disse nada.

– Não se preocupe, vai dar tudo certo – disse o Dragão.

– Você não pode garantir isso – respondeu Sandora. – Lembre-se de que eu já destruí uma das suas cidades.

– Fiquei sabendo – disse ele, sorrindo. – Mas isso foi quando eu não estava por lá para impedir. Pode acreditar, pensamos muito sobre isso e tomamos precauções. Além disso, Cariele sempre tem diversos planos de contingência.

♦ ♦ ♦

A conversa com Valdimor não foi muito fácil.

– Respostas – exigiu ele. – Você prometeu respostas.

Traiçoeiro, o corpo dela tinha reações intensas sempre que estava perto dele. A respiração se acelerava, o coração batia mais forte, o peito parecia se apertar. Aquilo a deixava desconfortável e preocupada, principalmente porque a reação parecia ir se tornando cada vez mais intensa. Hoje até suas pernas estavam um pouco trêmulas.

– Sim. Eu esperava que a rainha nos desse algumas, mas você viu o estado dela, não viu? E quanto a você? Não se lembrou de nada?

– Sim. Gritos. Gemidos. Dor. Sofrimento.

A forma como ele disse aquilo, a encarando nos olhos e com uma expressão perigosamente parecida com antecipação, a deixou horrorizada. Pôde sentir quase todos os pelos do corpo se arrepiarem.

– Pare com isso!

– Você sabe algo.

Ela fechou os olhos e engoliu em seco.

– Sim, mas eu vou contar, não precisa ficar me torturando com esse negócio de “gritos e gemidos”.

– Ver você gritar parece divertido.

Ela o encarou de olhos arregalados. Os olhos dele agora tinham um brilho de provocação.

– Já disse para parar com isso.

– Você sabe algo – ele repetiu. – Por que não fala?

Ela ficou vermelha.

– Porque é complicado, está bem? Tem a ver com meus poderes, algo que não consigo entender porque a dayacan da Fênix não fala comigo!

Ele franziu o cenho.

– Da-ia-cã?

– Filha da mãe, ordinária, fret, desclassificada, ku faraxsaneyn, miserável!

Ele a encarou, perplexo, por um momento, então soltou uma gargalhada. Ela ficou ainda mais incomodada ao perceber que aquela expressão divertida no rosto dele a afetava tanto quanto a de seriedade. Talvez até mais.

Ela soltou um suspiro.

– Escute, eu estou cansada. Vou tentar fazer um augúrio novamente para esclarecer isso, aí quando eu tiver uma resposta eu falo com você, está bem? Por enquanto, eu preciso que você acompanhe Sandora até Mesembria e fique lá com ela.

Ele assentiu.

– Mais fácil confiar nela. Você? Estranha. Segredos demais.

Valena ficou observando ele se afastar, enquanto refletia.

No império existia a expressão idiomática “ter boca de ouro”, que significava algo como conseguir expressar bem seus argumentos, ser persuasivo e popular.

Ela mesma nunca se considerara assim, mas já recebera muitos elogios por seus discursos. Já conseguira resolver com relativa facilidade disputas entre os senadores com algumas palavras bem escolhidas. Fizera com que o povo da Província Central e da Sidéria a aceitassem e até mesmo festejassem o fato de estarem sob seu governo.

Então por que era tão difícil falar com aquele homem?

Ela olhou para a porta fechada do quarto que ele ocupava e suspirou. Valdimor tinha sido instalado logo ao lado do de Sandora, ali na torre oeste. Não havia luxo e nem muito conforto, tendo em vista que os dormitórios daquele lado eram normalmente destinados aos empregados. Mas a bruxa havia recusado terminantemente um quarto maior e mais confortável, alegando que aquele era mais fácil de manter limpo e organizado e que não queria ninguém mexendo nas coisas dela, nem mesmo os servos.

Pensando bem, Sandora tinha, praticamente, adotado Valdimor desde que ele fora trazido ao palácio. Ela passou a maior parte do tempo ao lado dele, primeiro na masmorra e depois aqui nessa torre. No início Valena ficara apreensiva em deixa-lo perambular solto pelo palácio, mas o homem, surpreendentemente, não criava problemas. Por causa da vigilância constante de Sandora, talvez? De qualquer forma, assim como a bruxa, ele não precisava de ninguém para fazer limpeza, preparar banhos e nem mesmo para lavar suas roupas. Os servos tinham um pouco de medo dele por conhecerem sua natureza, mas nunca foi reportado nenhum incidente. O homem comia o que colocassem na frente dele e nunca reclamava de nada. Valena desconfiava até mesmo que algumas das servas estavam apaixonadas por ele, o que não era de se estranhar.

Sentindo uma pontada desconfortável em seu íntimo, ela balançou a cabeça, desanimada.

Como ela queria que ele fosse Barlone. Valdimor despertava nela a mesma atração, os mesmos anseios que seu primeiro namorado. Era algo primitivo, intenso. Se fosse Barlone, no entanto, ela se sentiria segura, pois teria certeza que aquele sentimento era puro, imaculado, e não uma maldição lançada sobre ela por uma entidade mesquinha que lhe enchia de obrigações e depois lhe dava as costas e desaparecia sem deixar vestígios.

– Alteza? Teria um minuto?

Valena se virou e encarou o rosto moreno e envelhecido de Luma Toniato.

– Oh! Sim, com certeza, eu também queria falar com você. Vamos subir, preciso respirar um pouco de ar fresco.

As duas tomaram a escadaria e saíram na sacada do topo da torre.

– Você tem bastante energia para alguém da sua idade, não?

A outra riu.

– Não sou tão velha assim, mas de qualquer forma, obrigada. Prática de atividade física e uso de habilidades místicas tende a prevenir um pouco dos efeitos da idade.

Valena se apoiou no parapeito e apreciou a magnífica vista. Dava para ver a cidade toda dali de cima.

– Olha só esse cenário. Deve ser por causa disso que Sandora gosta tanto dessa torre. Aposto que passou boa parte das noites namorando aqui em cima.

– Realmente, é uma vista impressionante. Algo a perturba, alteza?

– Só estava pensando em quantos mistérios e coisas não resolvidas existem na minha vida. Uma entidade supostamente todo-poderosa desaparecida; uma bruxa, uma morta-viva e um demônio assassino lutando a meu lado; um ex-tenente bonitão que consegue, sozinho, destruir um eterno e que, ainda por cima, conquista e engravida a bruxa… – ela balançou a cabeça, demonstrando incredulidade.

– Concordo que temos aliados bastante… únicos. Com certeza você entrará para a história. Como uma princesa de contos de fadas rodeada por criaturas místicas que retomou seu reino e promoveu a paz.

As duas se encararam por um momento e caíram na risada.

– Seria melhor ainda se tivesse um príncipe encantado nessa história – comentou Valena, ainda rindo.

– Dê tempo ao tempo.

– Escute – disse Valena, ficando séria. – Sabe aquela criatura que matou o imperador?

Luma aproximou-se da amurada e olhou para longe.

– Sim, claro.

– Se os conselheiros têm controle sobre uma monstruosidade daquelas, por que eu ainda estou viva? Quero dizer, da outra vez eu consegui fugir, mas por que não mandaram aquilo atrás de mim quando voltei para cá?

– Quem realmente comandava os conselheiros na época era a entidade, que tinha possuído o corpo do coronel. Com a destruição dela, imagino que eles não tenham mais como controlar ninguém.

– Eles controlavam Valdimor.

– Sim, mas através de um tipo de subterfúgio, não? Uma pedra, cristal ou algo assim.

– Sandora acreditava que Odenari iria tentar fazê-lo voltar-se contra nós, e que isso nos daria uma chance de resolver o problema dele.

– Sua aliada é bastante perspicaz, acredito que a chance de isso ocorrer realmente era grande se a rainha estivesse com o artefato. Mas creio que Odenari não era quem realmente dava as cartas. Algum dos outros conselheiros devia estar com ela, e provavelmente fugiu quando vocês invadiram o palácio.

– Mas ser foi assim, por que ele deixaria a rainha lá?

– Talvez eles acreditem que ela perdeu sua utilidade.

– Pode ser – Valena voltou a suspirar. – Fico imaginando o que vai acontecer agora. Com Mesembria e Sidéria do nosso lado, já temos capacidade militar suficiente para partir para a ofensiva. Se eles tiverem qualquer trunfo, com certeza vão usar. E por alguma razão, eu não consigo esquecer daquela coisa que conseguiu derrotar Sileno Caraman com tanta facilidade.

Luma pareceu sentir um calafrio e engoliu em seco. Valena olhou para ela, preocupada.

– O que foi? Você está bem? Espere… você… você estava no palácio aquele dia, não estava? Você viu aquele monstro? Céus, você chegou a lutar contra ele? Ah, que bobagem a minha, claro que lutou, você nunca iria ficar sem fazer nada numa situação daquelas!

– Sim… pode-se dizer que lutei.

– Se for alguma lembrança traumática, prometo que não falo mais nisso.

– Me desculpe – disse Luma, em um fio de voz. – Creio que aquela é uma batalha que nunca irei superar.

– Certo, então vamos esquecer isso e pensar no futuro. Onde acha que vão nos atacar agora?

Luma respirou fundo e pensou um pouco antes de responder.

– Qualquer coisa que eu disser será mera especulação. Você está com Radar e Odenari na masmorra. Por que não autoriza o uso do encanto da verdade neles?

Valena sacudiu a cabeça.

– Não. Isso não me parece correto.

– São criminosos, a lei do império diz que…

– Não concordo com essa lei. Não mais.

– Mas, nesse caso…

– Você não viu a expressão de Valdimor quando ele se lembrou do passado. O sofrimento dele ao se dar conta da forma com que destroçaram sua vontade e o transformaram num poço de vileza e crueldade. É um verdadeiro milagre que ele não tenha enlouquecido completamente. Não, eu me recuso. Nunca irei subjugar a vontade de ninguém. Derrotarei meus inimigos sem me valer dessas táticas desprezíveis. Não preciso disso.

Luma a encarou, surpresa. Uma lágrima escorreu de um de seus olhos antes que pudesse escondê-la. Ao ver aquilo, Valena não se conteve e se adiantou, envolvendo a mulher mais velha em um abraço.

– Me desculpe por fazer você se lembrar daquilo.

– Não se preocupe. Você já fez mais por mim do que jamais poderia imaginar. Acho que finalmente eu consegui entender por que Leonel confia tanto em você.

— Fim do capítulo 13 —
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