Lassam – Capítulo 14: Genealogia

Publicado em 03/05/2017
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14. Genealogia

– Não sabia que essas coisas eram tão poderosas – comentou o capitão, enquanto passava um martelo para Cristalin.

– E não são – respondeu ela, pegando a ferramenta e usando-a para desentortar uma barra de metal, antes de começar a pregá-la num pedaço de madeira. – Ele está usando alguma fonte externa de energia. Esses filhos da mãe são muito bons nisso.

Não muito longe deles, a luta titânica prosseguia. O dragão dourado, muito ferido, tentava se defender dos ataques das presas mortais de um gigantesco monstro em forma de leão. Ambos já haviam perdido suas asas na batalha, mas apesar dos ferimentos, prosseguiam com o embate no solo, de forma violenta.

As casas e os prédios ao redor estavam quase que completamente destruídos, e grande parte dos que ainda estavam em pé ardia em chamas.

– E o nosso aliado não pode usar também?

– Claro que pode. Como você acha que ele foi capaz de matar todos os outros?

– Os preparativos para o portal estão prontos, tenente – disse o sábio de olhos verdes, aproximando-se. – Não gostaria de compartilhar conosco qual é o plano do senhor Gretel para forçar nosso inimigo a entrar nele?

– Sem tempo agora. Apenas abra esse negócio quando eu der o sinal.

Ela endireitou-se e correu na direção dos monstros, levando consigo a tábua cheia de barras de metal pregadas.

– Senhor – disse o capitão ao sábio – se esse plano der certo, o que faremos depois? Quero dizer, vamos deixar aquele monstro livre?

O sábio contemplou a batalha por um momento. As duas gigantescas criaturas agora andavam uma ao redor da outra, se analisando, com olhos brilhantes.

– Eu vejo apenas um monstro, capitão. O responsável por todo esse caos.

– Delinger Gretel disse a todos que tudo isso está acontecendo por culpa dele.

– Monstros não sentem culpa, capitão. Muito menos arriscam a vida tentando corrigir seus erros.

– Mas como podemos deixar uma criatura como essa solta por aí?

O sábio pensou em dizer que conhecia muitos humanos bem mais poderosos e perigosos que aquele dragão, mas decidiu que no momento não tinha tempo a perder debatendo aquele assunto.

– Não se preocupe. Se eu entendi direito a estratégia dele, o senhor Gretel não tem nenhuma intenção de permanecer “solto por aí”.

Aproveitando que Delinger estava distraindo o inimigo, Cristalin se aproximou de ambos e jogou a tábua no chão, lançando alguns itens sobre ela, antes de correr para longe, levantando o braço. Reconhecendo o sinal, o sábio se concentrou para iniciar o processo de ruptura espacial. Nesse momento, o dragão dourado lançou-se sobre o leão e ambos rolaram pelo chão, passando por cima da armadilha idealizada pela tenente.

Imediatamente, as duas criaturas foram envolvidas por um poderoso campo energético, que lançava faíscas para todos os lados. Aos poucos, a energia deles começou a ser absorvida por aquele campo negativo e, enquanto se debatiam inutilmente, suas forças se esvaíam e seu tamanho diminuía.

Impressionados, o capitão e os demais soldados viram os dois monstros encolherem progressivamente até voltarem à forma humana. Só então a armadilha mística se desativou e ambos puderam voltar a se mover. Nesse momento o sábio terminou o encantamento e uma espécie de esfera negra surgiu poucos metros à frente deles.

O leão se mostrou ser apenas um adolescente franzino, com o corpo bastante ferido e coberto com assustadoras manchas negras. Também bastante ferido, Delinger adiantou-se e tentou agarrá-lo pelo pescoço. O outro reagiu e os dois começaram a medir forças.

Cristalin olhou na direção em que estava o sábio e o capitão e sorriu, fazendo um gesto de continência alguns segundos mais longo do que o normal.

O capitão perguntou, confuso:

– O que ela vai fazer?

– Como eu pensava – disse o sábio, com um suspiro desanimado.

O rapaz conseguiu repelir o ataque de Delinger e os dois se separaram por um instante. Sendo aquela a chance que Cristalin esperava, ela utilizou um encantamento de arrancada e saiu correndo na direção do inimigo, com a intenção de atingi-lo com o ombro. O oponente já tinha recuperado suas forças o suficiente para conseguir se proteger do ataque, mas não para evitar ser lançado vários metros para trás, caindo diretamente dentro da esfera negra e desaparecendo.

Cristalin e Delinger trocaram um olhar por um momento, antes de virarem e correrem na direção da esfera, saltando para dentro dela. O encantamento do portal, subitamente, começou a falhar, e a esfera foi se encolhendo aos poucos até desaparecer.

O capitão disse ao sábio:

– Por que você fechou o portal? Abra de novo, temos que tirar a tenente de lá!

– Não fui eu quem fechou. Foi ela. Deve ter acionado alguma forma de expurgo logo que entrou. Dificilmente conseguiremos encontrá-los novamente, a menos que eles mesmos encontrem uma saída, o que é pouco provável.

– Mas por que ela faria algo assim?

– A armadilha tinha o efeito de absorver a energia externa da criatura por apenas alguns poucos instantes. A fonte de energia do monstro é grande, muito maior que a do senhor Gretel. Com o tempo, ele poderia encontrar uma forma de abrir um portal de volta. Eles provavelmente o seguiram para impedir que faça isso.

– Se a intenção era neutralizar o monstro, qual a razão desse portal? Por que não fizeram isso aqui mesmo?

– Porque, capitão, eles pensam como você.

– Como assim?

– Eles acreditam que Delinger Gretel é um monstro perigoso demais para ficar à solta.

♦ ♦ ♦

– Céus! O que será que aconteceu com essa garota? – Edizar Olger olhava, preocupado, para o corpo que o dragão colocava sobre uma pilha de palha com todo cuidado.

– Ela parece estar melhor do que esse cara aqui – respondeu o aspirante Alvor Sigournei, abrindo um frasco e despejando uma poção azulada sobre o rosto e o pescoço ensanguentados do outro homem, que permanecia dentro do cocho de madeira.

Edizar se aproximou da moça com cuidado, tratando de manter a criatura em seu campo de visão. Ele já tinha trabalhado várias vezes com Delinger Gretel, mas nunca tinha precisado interagir com o homem quando ele estava… transformado. E o filho dele conseguia ser tão intimidador naquela forma quanto o pai, talvez até mais.

A moça tinha perdido todos os fios de cabelo da cabeça, que estavam amontoados no chão em pequenas pilhas loiras. O mais preocupante, no entanto, era a pele avermelhada e enrugada que cobria quase toda a parte esquerda da cabeça, rosto e pescoço dela. Parecia ter sofrido uma queimadura e tanto. O curioso é que não havia nenhum sinal de ferimento recente. A respiração estava preocupantemente fraca, bem como o pulso. Ela usava um uniforme da Academia de Lassam, todo rasgado e sujo, o que permitia ver que o braço e a perna esquerda também apresentavam marcas de queimadura.

Edizar fez um rápido encanto de detecção energética, não ficando muito surpreso com o resultado obtido.

– O corpo dela está bem, acho que o problema não é físico.

– Queria poder dizer o mesmo desse cara aqui – respondeu Alvor, enquanto tentava fazer tudo a seu alcance para salvar a vida do homem ferido.

O dragão grunhiu ameaçadoramente quando Edizar levou a mão até o peito da moça e a tocou de leve, pronunciando algumas palavras ininteligíveis. Ela pareceu tomar um choque e se sentou bruscamente, fazendo Edizar se sobressaltar e cair sentado. Ela respirou pesadamente por um instante, como se tivesse ficado muito tempo prendendo a respiração.

Edizar tratou de se levantar e se afastar quando o dragão abaixou a cabeça na direção da moça. Ela abriu os olhos, olhou para a fera diante dela e deu um sorriso um tanto quanto débil.

– Você está bem!

Então ela levantou uma das mãos e tocou o enorme focinho. Nesse momento, a criatura começou a brilhar e a encolher cada vez mais, ficando disforme até assumir a forma de um rapaz.

– Parece uma cena de romance brega – disse Alvor, sorrindo enquanto o casal se abraçava. – O que você fez para acordar a moça?

– Nada – respondeu Edizar. – Eu ia tentar usar um encanto de energização, mas não tive tempo.

– Eles têm um elo mental – respondeu uma voz débil atrás deles. – Ele deve ter chamado por ela, e isso a acordou.

– Oh, que bom que você acordou também – disse Alvor, ajoelhando-se novamente ao lado do homem ferido. – Você é o alquimista Dafir Munim?

– Sim.

♦ ♦ ♦

Cariele sentia-se acabada. Todo seu corpo doía e latejava. A pele estava muito sensível, principalmente nas partes que mais tinham sido queimadas tantos anos atrás. Sentia uma dor de cabeça muito forte, como se estivessem enfiando espinhos em seu crânio. A boca estava seca e com gosto de areia.

Daimar aproximou-se, usando roupas velhas e fora de moda, que ele provavelmente devia ter pego de um dos armários do alquimista, e lhe estendeu um copo com água.

– Tome.

Ela forçou-se a tentar beber um pouco do líquido, mas sua língua parecia inchada e dolorida, e ela teve que desistir depois do primeiro gole, tendo um acesso de tosse.

– Tudo bem, tudo bem, devagar – disse ele, pegando o copo de volta e fazendo-a se recostar nas almofadas. – Como se sente?

– Como se tivesse tomado a maior surra da minha vida. E além disso, estou horrível, não sei como você consegue olhar para mim.

– Bobagem, você está ótima. E olha só isso – ele aproximou-se e deu-lhe um beijo nos lábios.

Quando ele se afastou, ela levou a mão ao lábio inferior, surpresa.

– Mas o quê…?

Ele sorriu.

– Viu só? A sensação ruim desapareceu completamente. Posso beijar você o quanto quiser agora.

Ela se mexeu sobre as almofadas, procurando uma posição mais confortável. Suas forças pareciam estar retornando aos poucos e o mal-estar começava a desaparecer.

– Mesmo com essa pele queimada?

– E o que tem? Acha que eu iria me horrorizar por causa disso? Você nem mesmo piscou quando me viu… daquele jeito.

– Eu meio que já desconfiava, então não foi nenhuma grande surpresa.

– Bom para você. Se eu não estivesse tão preocupado com você na hora eu acho que teria tido um chilique quando percebi no que tinha me transformado.

Ela soltou um riso fraco.

– Que amável da sua parte se preocupar tanto assim comigo. Mas o que aconteceu? Minhas memórias estão confusas… achei que você tinha morrido.

– É, eu também.

O aspirante Sigournei entrou na sala.

– Então você é mesmo Cariele Asmund?

– Ah, você – resmungou ela, desconfiada.

– Não precisa fazer essa cara. Dessa vez não estou aqui por sua causa. Meu batalhão todo foi acionado para ajudar a proteger a cidade. Consegue se levantar? O alquimista quer falar com vocês dois.

Com o apoio de Daimar, ela se levantou e caminhou até um quarto grande, com livros e quinquilharias espalhados por toda parte.

Dafir Munim estava deitado numa cama, com uma curandeira terminando de enfaixar-lhe o peito, enquanto Edizar observava, sentado em uma cadeira junto à janela. Alvor tirou um monte de objetos estranhos de cima de uma cadeira e fez um gesto para que Cariele se sentasse. Ela assentiu e se acomodou ali, com a ajuda de Daimar, que ficou em pé ao lado dela.

– Você é forte – disse o homem a Cariele, assim que a curandeira saiu do quarto.

Dafir devia estar na casa dos 50, apesar de ser difícil dizer com certeza com tantos hematomas e curativos no rosto. Ele tinha um queixo largo e olhos inteligentes, de um tom castanho esverdeado.

– Você tentou nos matar!

– E você me impediu. Serei eternamente grato por isso.

– Como é?!

– Eu nunca me perdoaria se tivesse… feito algum mal ao meu filho. – O alquimista desviou o olhar para Daimar, que franziu o cenho.

– O quê? Filho? Que história é essa?

O homem suspirou.

– Então, Delinger não contou nada, não é?

– Não, mas ele insistiu que eu viesse conversar com você.

– Eu nunca imaginei que você fosse herdar os poderes de sua mãe. Não a esse nível, pelo menos. Quando eu vi você na minha frente, pensei que se tratava de um dos… outros.

– Certo – disse Cariele, olhando para o homem com desconfiança. – Estamos ouvindo. Comece do princípio.

Dafir olhou novamente para Daimar.

– Sua mãe descende de uma antiga linhagem conhecida como “a tribo baracai”.

Conta uma antiga lenda que, na chamada “Era dos Dragões”, existia uma tribo que vivia na parte sul do que hoje conhecemos como as Montanhas Rochosas. Essa tribo foi atacada diversas vezes por feras voadoras, e muitos de seus membros pereceram. Uma fera, particularmente perversa, usou seus poderes de destruição para lançar um veneno fortíssimo, na forma de uma névoa esverdeada, sobre os lugares onde as pessoas moravam. Além de causar diversas doenças, o veneno tirou a visão de todos os membros da tribo. Mesmo depois que a névoa se dissipou, os efeitos permaneceram. E não apenas isso: desde então, todos os bebês da tribo passaram a nascer desprovidos de olhos.

Foi então que dois membros da tribo, um rapaz e uma moça recém-casados, decidiram procurar uma das Grandes Entidades para pedir ajuda. Sem visão e doentes, o casal percorreu um imenso território selvagem, subindo e descendo montanhas. Alguns dizem que os dragões se divertiam vendo os dois caminharem em círculos ou errando o caminho e depois tendo que voltar, e que por causa disso não os devoraram. Ninguém sabe direito como sobreviveram durante os longos meses de jornada, há quem diga que se alimentavam apenas de vegetais que encontravam no caminho, mas outros contam histórias de que eles eram muito inventivos e conseguiam construir armadilhas para capturar pequenos animais. O fato é que, com muito esforço, o casal conseguiu chegar até o santuário de uma das entidades, que era conhecida como Dulgarir, que quer dizer “grande terremoto”.

A entidade então perguntou a eles: “O que vocês buscam?”

O homem respondeu: “Queremos uma esperança de sobrevivência para o nosso povo”.

Já a mulher disse: “Queremos paz”.

A entidade teria ficado tão comovida com a coragem e dedicação daquele casal, que decidiu dar a todos os membros remanescentes da tribo e a seus descendentes três bênçãos.

A primeira delas foi o desenvolvimento dos sentidos, para compensar a falta da visão, uma vez que a tribo e toda sua descendência estava condenada a viver para sempre na escuridão.

A segunda foi a habilidade de se transformarem em criaturas maiores, de forma a poderem se defender de qualquer atacante.

E a terceira foi um presente a todos da tribo que tivessem sentimentos tão sinceros um pelo outro como aquele casal. Um elo mental que os uniria ainda mais, permitindo que um até mesmo pudesse ouvir os pensamentos do outro, mesmo a grandes distâncias. A entidade teria ficado tão fascinada pela forma como aqueles dois se entendiam tão bem com poucas palavras ou toques que decidiu conceder aquele sentimento de união a todos os membros da tribo.

“Vão e vivam em paz”, foi o que Dulgarir disse.

Assim, o casal voltou para casa de modo triunfal, matando todos os dragões que se colocaram em seu caminho. Eles então reuniram o que restou da tribo e reconstruíram seu lar.

Tribos vizinhas começaram a chamá-los de “baracais”, que no antigo idioma das tribos das montanhas, significa algo como “pessoa iluminada” ou “pessoa poderosa”.

Séculos se passaram e a tribo cresceu, tendo fundado uma segunda vila em uma montanha próxima. Então, um dia essa segunda vila foi atacada por bárbaros humanos. A lenda conta que os bárbaros também tinham conseguido a bênção de Dulgarir para as suas conquistas, e por causa disso eles eram insuperáveis na arte da guerra. A vila baracai foi completamente devastada e os habitantes, aniquilados.

O restante da tribo, ao saber do ocorrido, preparou-se para a guerra. Usando seus grandes poderes, aprenderam a abrir portais para outros mundos, de onde passaram a drenar energia para se fortalecer. Então, depois de alguns anos, quando tinham reunido poder suficiente, eles atacaram os humanos, tanto os bárbaros quanto todas as tribos vizinhas, no que ficou conhecido como “o grande massacre”.

Não satisfeitos em vingar-se dos humanos, os baracais se voltaram contra a entidade Dulgarir, que no ponto de vista deles, os havia traído. Utilizando a energia e artefatos de outros mundos, eles conseguiram derrotar e matar a entidade.

Antes de morrer, Dulgarir tentou remover as bênçãos que havia concedido aos baracais, no entanto, a entidade estava enfraquecida demais por causa da batalha, e tudo o que conseguiu foi lançar uma maldição que os enfraqueceria aos poucos.

O corpo dos baracais lutava contra a maldição, mas essa é uma daquelas batalhas que não se pode vencer, e eventualmente entrava num processo conhecido como “degeneração”. Partes do corpo começavam a escurecer e a se dissolver. Nem mesmo suas habilidades de transformação conseguiam reverter o processo. Se o coração fosse afetado, a morte era imediata. Mas, quando a cabeça era afetada o efeito era ainda pior, pois o indivíduo era tomado pela loucura, tendo que ser sacrificado para que não causasse mal aos demais.

Aterrorizados pela maldição, os baracais pararam de atacar as tribos vizinhas e se isolaram nas cavernas, evitando conflitos, pois quanto mais energia gastassem, mas depressa a degeneração avançava. Mesmo assim, a maldição diminuiu consideravelmente o número deles com o passar dos séculos.

Com o desaparecimento da maioria das entidades, não havia a quem pedir ajuda. Como a Grande Fênix e o Espírito da Terra eram conhecidos por proteger humanos, os baracais se recusaram a buscar o auxílio deles.

Assim, eles saíram de suas terras e vieram para o sul, tentando passar desapercebidos e evitando ao máximo o contato com outras tribos, que eles tinham passado a se referir como “outras raças”.

Bem, a lenda termina aqui. O resto da história, segundo Delinger, são fatos verídicos.

Há cerca de 70 anos os baracais criaram pela primeira vez o que eles chamam de “elixir negro”. Era uma espécie de poção que aumentava a vitalidade daqueles que a consumiam, prolongando o tempo de vida. Houve muita comemoração, afinal, pela primeira vez em séculos eles tinham uma forma de lutar contra a degeneração.

Infelizmente, eles levaram quase 20 anos para descobrir que aquele tinha sido o maior erro que cometeram. O elixir impedia sim a degeneração, mas quanto mais ele era consumido, mais ele afetava a razão. E nessa época ocorreu a maior catástrofe da tribo, quando os baracais precisaram lutar entre eles mesmos. Indivíduos ensandecidos começavam a atacar aos outros sem nenhum motivo, lutando até a morte. A população, que já era de menos de mil indivíduos, foi quase totalmente erradicada, restando apenas umas poucas dezenas, composta em sua maioria por indivíduos mais jovens e que não tinham tomado o elixir por tanto tempo. O episódio ficou conhecido como “o genocídio” e depois dele uso do elixir foi proibido.

Este foi o cenário em que nasceu Delinger Gretel. Ainda criança, ele viu seus pais sucumbirem à loucura e serem sacrificados. Desde então ele decidiu dedicar sua vida a encontrar uma cura para a degeneração. Os anciãos, que eram indivíduos mais velhos, sobreviventes do genocídio, ao verem a degeneração começar a mostrar seus efeitos, decidiram voltar a fazer experimentos com os ingredientes do elixir negro, em busca de uma cura.

Aos 17 anos de idade, Delinger se colocou radicalmente contra aquela ideia, pois ele acreditava que não havia como atenuar os efeitos daquele composto. Ele era um jovem muito inteligente e engenhoso, ganhando um certo respeito entre a tribo por causa disso, mas suas pesquisas e experimentos sobre a degeneração nunca deram resultado.

Foi nessa época que ele e Norel se apaixonaram. Ela era uma moça atraente e espirituosa. Não tinha a mesma genialidade que ele, mas se comprometeu a ajudá-lo no que pudesse.

Assim, o tempo foi passando, até que um dia, estudando a história de seu povo, uma das frases supostamente ditas pela entidade Dulgarir chamou a atenção deles: “Vão e vivam em paz”. Perceberam então que seu povo havia se isolado completamente das outras tribos e que viam os humanos normais como seus inimigos desde o ataque dos bárbaros, tantos séculos atrás.

Quando a cidade de Lassam foi fundada não muito longe das cavernas onde viviam, Delinger propôs a ideia de buscarem fazer amizade com os habitantes daqui, talvez até mesmo pedir a ajuda deles. Mas os anciãos rechaçaram completamente a ideia, convencidos de que seria impossível fazer amizade depois de tudo o que as raças tinham feito uma à outra.

Acreditando que aquela era a melhor chance que eles tinham, Delinger e Norel começaram a estudar os humanos, observando-os de longe. Os baracais nasciam desprovidos de olhos, e o casal não era exceção à regra, mas Delinger conseguiu aperfeiçoar uma transformação que o deixava indistinguível de um humano normal, e graças a isso, ele e Norel puderam entrar na cidade e andar livremente sem chamar a atenção.

Quando ficaram sabendo o que o casal estava fazendo, os anciãos ameaçaram bani-los do seio da tribo. Mas Delinger argumentou que era necessário conhecerem mais do mundo se quisessem ter sucesso na busca de uma cura, e que os humanos tinham acumulado muito conhecimento que poderia ser de utilidade para eles.

Os anciãos não gostaram muito, mas permitiram que eles continuassem as incursões na cidade. E foi então que Delinger conheceu um humano chamado Satu Munim. Meu pai.

Ele era um dos sábios da recém-formada academia, um homem muito inteligente e generoso. Conseguiu convencer Delinger e Norel a contarem a ele sua história, e prometeu ajudá-los em tudo o que pudesse. Corajoso, ofereceu-se a ir com eles até os anciãos para pedir permissão para que ambas as raças pudessem trabalhar juntas naquele problema.

Assim, numa certa manhã, meu pai partiu de Lassam ao lado dos baracais. E nunca mais retornou.

Delinger nunca me contou em detalhes o que realmente aconteceu naquele dia, apenas que um dos anciãos tentou intimidar meu pai, mas não obteve êxito. Então ele… simplesmente o matou.

Então houve uma grande luta, com o casal atacando ferozmente os anciãos. Delinger foi seriamente ferido e quando viu que Norel tinha sido capturada pelos mais jovens e que ele não teria a menor chance de sobreviver, usou suas últimas forças para escapar e assim ele chegou até a minha casa. Eu tinha 19 anos quando ele apareceu na minha frente, dizendo que sentia muito e que meu pai não voltaria mais para mim.

Eu o odiei por anos por causa daquilo, por ser o responsável direto pela morte de meu pai. Mas, por alguma razão insana, eu resolvi ajudar, cuidando de suas feridas e fornecendo abrigo e alimento até que ele começou a recobrar a saúde. Ele já estava começando a planejar uma volta às cavernas para libertar a amada dele, quando um dia, Norel apareceu à minha porta.

Os anciãos haviam gasto muita energia na batalha, e para tentar evitar os efeitos da degeneração, decidiram hibernar, através de um encanto que os faria dormir por muitos anos, até que suas forças estivessem totalmente restabelecidas. Os jovens então tinham soltado Norel, com a condição de que ela levasse Delinger de volta. Afinal, ele era o mais inteligente de todos eles e, sem os anciãos, estavam sem nenhuma liderança.

Delinger, no entanto, recusou-se a retornar, e Norel jurou nunca mais se afastar dele. Então, os dois se casaram segundo as nossas tradições e se estabeleceram em Lassam.

Usando sua genialidade, Delinger teve grande progresso no estudo de física e começou a inventar formas inovadoras de encantar objetos, como armas e armaduras. Não levou muito tempo para se tornar um alquimista de renome e juntar uma grande fortuna.

Entretanto, não eram apenas os anciãos que tinham gasto energia demais naquela batalha. Depois de alguns anos, Norel começou a apresentar os primeiros sintomas de degeneração.

Lembro do dia em que Delinger entrou em minha casa, desesperado, implorando para que eu fornecesse algumas gotas do meu sangue a ele. Fiquei perplexo com o pedido, mas ele me explicou que, de acordo com alguns velhos pergaminhos que ele teve acesso, alguns componentes do sangue de um humano normal poderiam ser a chave para deter a degeneração baracai.

Eu concordei, claro, mas não demorou muito para descobrirmos que o sangue só tinha efeito se Norel o consumisse ainda fresco. Estávamos nos recuperando da surpresa com aquela descoberta quando fomos visitados por outros baracais. Eles vieram insistir para que Delinger retornasse, mas ele se negou terminantemente a ir com eles. Quando os membros de seu povo finalmente foram embora, Norel decidiu que era hora de abandonar a experiência com o sangue. Não havia como prever o que os baracais fariam se ficassem sabendo daquilo.

Confesso que eu tinha me apaixonado por Norel já há bastante tempo. Ela era uma pessoa maravilhosa e não merecia ter sua vida tomada daquela forma. Então eu ofereci a ela o meu sangue. Disse a ela que eu estaria à disposição para quando ela precisasse. Desesperado com a perspectiva de perder sua amada, Delinger concordou com a ideia, prometendo que encontraria uma outra forma de curá-la, mas para isso, precisava que ela permanecesse viva.

Foi então que fiz a maior bobagem da minha vida.

Delinger tinha elaborado a teoria de que uma criança baracai que nascesse com sangue humano poderia ser imune à maldição. Norel tinha muita vontade de ter um filho, mas se recusava a tentar, pois não queria condenar a criança a passar pelo que ela estava passando. Então surgiu a ideia. E se o pai da criança fosse humano? A princípio parecia que aquilo era só uma brincadeira, mas ela começou a pensar cada vez mais sério naquilo até que um dia me fez a proposta. Na época, ela vinha me visitar várias vezes por semana para… bom, para pegar a dose de sangue dela. Eu estava tão encantado por ela que… bem, acabei aceitando aquela oferta maluca.

O problema é que, depois que ela finalmente engravidou, eu não suportava mais a ideia de me separar dela. Cheguei a pedir que ela abandonasse o marido e vivesse comigo, ao que ela recusou sem pensar duas vezes. Ela disse que nunca tinha me visto daquela forma, que, apesar de nosso… envolvimento ser agradável, ela nunca havia retribuído meus sentimentos.

Então, como um idiota, eu resolvi confrontar Delinger. Falei para ele tudo o que eu sentia e o quanto eu queria a esposa dele para mim. Disse a ele que ele não a merecia porque não se importava com ela. Essa foi a única vez que eu o vi realmente abalado. Ele abriu a boca e começou a falar, a descrever tudo o que ele havia passado, todos os momentos em que vivera ao lado de Norel e de tudo o que fizera por ela.

Envergonhado, eu percebi que não passava de um egoísta. Não era eu quem tinha um elo mental com ela, era ele. Aquele homem amava a esposa a ponto de fazer qualquer sacrifício pela felicidade dela. Ele nunca tinha sido indiferente. Eu, em minha tolice, criei uma fantasia de que seria possível ter uma vida ao lado daquela mulher, mas aquilo sempre esteve completamente fora de cogitação, pois eu nunca seria capaz de fazer nem metade das coisas que ele… bem, eu nunca chegaria nem aos pés dele.

De qualquer forma, acabamos cortando relações naquele dia. Delinger e Norel foram embora de Lassam e eu voltei à minha vida solitária de pesquisas. Ocasionalmente, no entanto, Norel me enviava cartas com notícias sobre meu filho. Eu ficava contente pela criança estar bem e saudável, e por, aparentemente, ser um humano normal. Norel comentou numa carta que ela e Delinger ficaram tão felizes pelo menino ter olhos funcionais que decidiram mudar a cor dos seus próprios para ficarem parecidos com o tom castanho claro da íris da criança. Mais tarde eu vim a perceber que eles fizeram o mesmo com o tom de pele. Ser um transmorfo tem lá suas vantagens.

Acredito que, para não criar confusão devido à mudança de aparência, eles decidiram se mudar de novo, se estabelecendo numa cidade costeira chamada Maresia.

Um dia as cartas de Norel pararam de chegar. Eu imaginava o que tinha acontecido, mas não pude me conter e viajei até Maresia. Descobri que eles tinham encontrado um outro doador de sangue para Norel, mas mesmo assim não tinham conseguido salvá-la. No máximo tínhamos conseguido estender a vida dela por mais uns seis ou sete anos.

No fim, ela acabou perdendo totalmente razão, mesmo nunca tendo consumido o tal elixir negro. Baracais são bem difíceis de matar, e a loucura da degeneração parece fortalecer ainda mais essa característica. Delinger foi obrigado a…

O alquimista se interrompeu de repente e olhou para Daimar.

– Desculpe, filho, acho que você não precisa saber disso.

– Fale! – Daimar, praticamente, ordenou. – Quero ouvir tudo!

Olhando para o rosto transtornado e determinado daquele que acreditava ser seu filho, bem como para os dedos dele, fortemente unidos aos de Cariele, Dafir soltou um suspiro, antes de continuar.

Delinger precisou matar sua mãe três vezes, pois o corpo dela, mesmo… danificado, conseguia voltar à vida depois de um certo tempo.

Quando encontrei Delinger, ele estava perdido, completamente desiludido. Sugeriu diversas vezes que eu levasse meu filho comigo e o deixasse sozinho. Me recusei terminantemente a isso, afinal, o garoto estava bem cuidado, saudável e adorava o pai adotivo, o que mais eu podia fazer?

Passei alguns meses lá. Nesse tempo tivemos longas conversas, que pareceram ajudar um pouco. Até que Delinger, finalmente, recuperou o equilíbrio e passou a dedicar sua vida a seu filho e à sua pesquisa, o que ampliou ainda mais a grande fortuna que ele já tinha juntado até então.

Voltei para a casa e depois disso passamos a nos corresponder periodicamente, compartilhando resultados de nossas pesquisas. Ele também sempre me passava informações sobre o garoto, como ele se desenvolvia e como era inteligente.

Então, os anos foram passando e um dia, uma garota baracai apareceu à minha porta. Me disse que os anciãos tinham acordado de sua hibernação e que queriam falar com Delinger. Me recusei a conversar com ela, mas então ela me disse diversas coisas que os baracais não tinham como saber, a menos que estivessem nos espionando durante anos.

Eles sabiam da morte de Norel. Sabiam como ela tinha perecido. Sabiam que ela tinha tido um filho. E também sabiam que Delinger não era o pai.

Viajei novamente para Maresia para conversar com Delinger. Minha intenção era pedir algum dinheiro emprestado a ele para que eu pudesse ir embora para Lemoran ou Halias, tudo o que eu queria era ir para o lugar mais longe que pudesse. E sugeri que ele fizesse isso também. Mas ele se recusava a fugir. Ao invés disso, ele me convenceu a voltar para cá. Me prometeu que iria resolver esse assunto definitivamente, custasse o que custasse, e que podia precisar da minha ajuda.

Desde logo depois da morte de Norel, eu e Delinger tínhamos começado a estudar formas de lutar contra os baracais. Delinger insistia que era necessário alguém ter um meio de pará-lo caso ele viesse a se descontrolar.

– E foi então que desenvolvemos a técnica dos arpões de metal, que usei contra você – concluiu o alquimista.

Daimar estava perplexo. Era muita informação para absorver tudo de uma vez só.

– Não entendo. Afinal, por que tentou me matar?

– Cerca de uma semana atrás, um baracai me atacou pelas costas e me trancou em uma caverna. Não me queria morto, pois havia comida e água suficiente para um batalhão lá dentro. Eu acho que ele estava tentando fazer algum tipo de encantamento em mim, mas aparentemente não deu muito certo. Então, oficiais do exército apareceram, me libertaram e me trouxeram para cá. Fiquei sabendo que os baracais tinham desenvolvido uma técnica para controlar a mente de humanos e que estavam atacando a cidade. Dois soldados ficaram protegendo minha porta, mas então eles foram subitamente atacados e a porta foi arrombada. Quando vi você na minha frente, achei que era um deles e ataquei com tudo o que eu tinha, pois imaginei que não teria a menor chance contra você além do elemento surpresa.

– Então Cariele veio atrás de mim.

Dafir olhou para ela, notando a expressão de desafio em seu rosto. Compreensivelmente, a moça não confiava nele.

– Sim.

– E o que você fez com ela?

Dafir encarou Daimar, surpreso.

– Eu não tive oportunidade de fazer nada. Não está vendo o estado em que ela me deixou?

– Sim, mas por que ela… regrediu a essa forma?

O alquimista olhou para Cariele, que desviou o olhar.

– Acredito que a moça saiba explicar isso melhor do que eu.

Ela suspirou, mas permaneceu calada, parecendo muito indecisa.

O aspirante estreitou os olhos de repente, ao se lembrar de um dos relatórios de Janica sobre as visitas de Cariele ao hospital, e sobre a pequena investigação que ela tinha feito em relação ao estado de saúde de Baldier Asmund, em que constavam os sintomas da doença que ele tinha.

– Você tem o mal do desacoplamento progressivo – concluiu ele, olhando para ela com atenção. – Não é?

– Não – disse Daimar. – Quem tem isso é o pai dela… – ele hesitou ao vê-la fugir do olhar dele. – Não é?

– Não – respondeu ela, em voz baixa – essa doença é hereditária. E meu caso é bem mais sério do que o do meu pai.

– Você mentiu para mim?!

– Não. Você me perguntou se era a doença que tinha causado isto – ela apontou para a própria cabeça. – E eu disse que não, porque não foi mesmo.

– Você passou por um ritual de modificação corporal depois do acidente – disse Alvor, para surpresa de Edizar e Dafir. – Mas a doença reverteu os efeitos do ritual quando você se esforçou demais para… – ele fez um gesto com a cabeça na direção de Dafir.

– Mas isso é impossível – contestou Edizar. – Não existem rituais de modificação corporal. Isso é só uma lenda urbana.

– Você não diria isso se tivesse visto a aparência dela de antes – respondeu Alvor.

Dafir olhou para o aspirante.

– Desacoplamento progressivo? O que é isso?

O aspirante fez um breve resumo da doença e seus efeitos.

– Acho que faz sentido – disse o alquimista, por fim. – Ela tem uma afinidade energética fora de qualquer escala que eu já tenha visto. É bem possível que ela contenha os efeitos desse mal, se concentrar suas forças apenas para isso.

Daimar olhou para Cariele.

– Isso é verdade?

– Sim.

– Então é por isso que você gosta tanto de usar esses simulacros. Para poupar sua própria energia?

Ela deu de ombros.

– É a única forma de me manter viva. Quando tinha 15 anos, os curandeiros me disseram que eu não tinha mais do que seis meses de vida.

– Eu sempre tive dificuldade de entender algumas coisas na sua ficha – admitiu Alvor. – Não me surpreendi por você ter causado uma explosão tão grande quanto aquela, mas nunca entendi o que tinha levado você a se descontrolar tanto.

– Disseram que eu era um prodígio – disse ela, desgostosa. – Que eu seria uma das pessoas mais poderosas do mundo. Mas então veio isso. É irônico, não? Que alguém nasça com tantos poderes que nunca vai ser capaz de usar.

– Eu não diria isso – respondeu o aspirante. – Se a doença é hereditária, você a teria de qualquer jeito. O fato de ter desenvolvido tanta afinidade mística pode ter sido uma forma do destino compensar as coisas para você.

– Não poderia me importar menos com “destino” neste momento. Me esforcei tanto apenas em viver por mais um dia. Só mais um dia. Consegui fazer isso durante anos – ela olhou para Daimar, com lágrimas nos olhos. – Então eu vi você ali caído com aquelas coisas enfiadas no seu corpo. Nosso elo sumiu, e você não estava respirando. Então eu… achei que não valia mais a pena viver por mais tempo.

Daimar a abraçou e ficaram todos num silêncio desconfortável por um longo tempo.

– Parece que nosso paciente aqui precisa de descanso – comentou Edizar, apontando para Dafir, que parecia ter adormecido.

– Acho que é uma boa ideia todo mundo descansar um pouco – concluiu Alvor, batendo nas costas de Daimar. – Sendo ele seu pai natural ou não, Delinger Gretel é um cara e tanto. Você pode se orgulhar dele.

– Sabe onde ele está?

– Sim, está lá fora, lutando, como sempre esteve desde que veio para Lassam. Ele descobriu que os baracais sobreviventes voltaram a tomar o elixir negro, estão quase todos ensandecidos por causa disso e querem destruir a raça humana a todo custo. Desde então, detê-los passou a ser o objetivo de vida dele. De alguma forma, ele acha que poderia tê-los dissuadido de tomar o elixir se tivesse voltado para a caverna anos atrás, e se sente responsável por toda essa confusão.

– Eu nunca aprovei a forma de agir de Delinger – disse Dafir, de repente, mostrando que ainda estava acordado. – Mas sempre o apoiei. “Por quê?”, você pode perguntar. E eu digo: imagine a pessoa que mais ama no mundo perdendo a sanidade. Imagine você tendo que matá-la. Imagine o que você sente depois que um ato desses é concluído. Então imagine alguém passando por tudo isso não apenas uma, mas três vezes. Não é qualquer um que consegue manter a sanidade depois de tudo isso. Ainda mais tendo presenciado os próprios pais enlouquecerem e serem sacrificados quando ainda era uma criança. No entanto ele conseguiu seguir em frente e construir uma vida para o filho. Um filho adotivo, ainda por cima.

– Como eu disse, ele é um grande cara – disse Alvor, voltando a olhar para Daimar. – Mas o que me deixou bastante surpreso mesmo foi a sua transformação. Ninguém imaginava que você tivesse herdado os poderes de sua… tribo.

– Imagine eu, que nem sabia que essa tribo existia.

– Leve a moça para o outro quarto. Vocês merecem um descanso. Temos patrulhas aí fora, então pode ficar tranquilo que aqui vocês estão em segurança.

Minutos depois, os dois entravam no quarto. Então, sem fazer qualquer cerimônia, Daimar a tomou nos braços e a colocou deitada na cama, para surpresa dela.

Eu posso estar um pouco fraca, mas ainda sou capaz de subir numa cama sozinha.

Considere isso um bônus.

Ela sorriu. Voltar a ouvir os pensamentos dele daquela forma depois de tudo o que tinha acontecido era maravilhoso.

Você ficou preocupado comigo.

Que afirmação mais redundante! Claro que fiquei preocupado com você!

Você me chamou de volta quando eu desmaiei.

E você fez com que eu virasse um monstro.

Ele deitou na cama ao lado dela e Cariele se aconchegou nele.

Eu senti que estava perdendo as forças. Eu queria fazer algo para que você pudesse se defender, caso aquele homem voltasse a atacar você.

Então você entrou na minha cabeça e ativou o modo dragão.

Não foi tão ruim, foi?

Acabou com o melhor uniforme que eu tinha.

Ambos riram.

Meu uniforme também já viu dias melhores.

As caras do aspirante e do sábio Edizar quando me viram naquela forma foram impagáveis. Eu provavelmente teria rido, se não estivesse com você inconsciente nos braços. E ainda mais, desse jeito.

Ele pontuou as palavras acariciando a pele enrugada ao redor do olho esquerdo dela.

Não vai mais poder se gabar por ter conquistado a garota mais linda da academia.

Que nada, a meus olhos você está ótima.

Ela ficou séria, de repente.

Você vai atrás do seu pai, não vai?

Sim, ele pode estar precisando de ajuda. Mas no momento, vamos nos concentrar em você.

Eu estou bem.

Estou falando sério. Eu nunca conseguiria sair por aí numa aventura como essa sem você. Preciso da sua experiência, do seu treinamento, do seu poder.

Ela sorriu.

Isso foi lindo.

Vamos ver seu pai.

Como é?

Você ouviu o sábio, não ouviu? Ele disse claramente que não existem rituais de modificação corporal.

Ele pode apenas estar mal informado.

Vamos ver seu pai. Ele também pode esclarecer alguns outros mistérios.

Como o quê?

Você tinha me dito que não podia usar um braço, uma perna e um olho. Mas, a meu ver, está tudo funcionando perfeitamente.

Ela levantou o braço esquerdo e encarou a pele arruinada da mão por um instante. Agora que ela tinha parado para pensar naquilo, a pele queimada podia estar um pouco sensível, mas não a incomodava em nada. Sem coceiras, sem dores. E não era só aquilo, ela também tinha recuperado a sensibilidade em todas as partes queimadas do corpo, que antes eram insensíveis ao toque, bem como ao frio ou calor.

Tem razão. Mas tem certeza que não se incomoda mesmo em me ver desse jeito?

Ele riu.

Quantas vezes vai me perguntar isso? Para falar a verdade, eu sempre achei que tinha algo errado com sua aparência. Talvez seja por causa dos meus sentidos. É possível que eu tenha inconscientemente percebido que aquilo não era real. Gosto de pensar que é por isso que agora não tenho mais problemas em beijar você. E, para falar a verdade, essa sua aparência atual também tem seu charme.

Como assim?

Eu olho para você agora e vejo cicatrizes. E imagino o tamanho das dificuldades que você passou, o quanto você é forte por suportar tudo isso. Fico até com uma certa inveja.

Agora você está me deixando sem graça.

Ótimo. Isso desconta um pouco do constrangimento que você me fez passar por aqueles caras me flagrarem sem roupas.

Eles riram novamente.

E como foi a experiência de ser um dragão por alguns minutos?

Dolorida. Sinto como se tivesse tomado a maior surra da minha vida, meu corpo inteiro dói.

Você parece estar aceitando isso tudo muito melhor do que era de se esperar.

Para mim, essa história toda é muito surreal, estou tentando não pensar muito nela, pelo menos não ainda. Na verdade, ignorar isso é muito fácil, já que estou muito mais preocupado com você e com o que você tem passado nesses anos todos. Aliás, tem certeza que não quer ver a curandeira de novo?

Ela não encontrou nada no primeiro exame que me fez, duvido que encontre alguma coisa agora.

Então vamos descansar.

Ambos ficaram perdidos em pensamentos durante um longo instante, até que ela voltou a olhar para ele, séria.

Sabe, eu queria me desculpar.

Pelo quê?

Por me… descontrolar daquele jeito. Eu sinto que não confiei em você. Acreditei muito rápido que você… enfim, eu odeio te deixar preocupado. Prometo que nunca mais vou perder a cabeça daquela forma de novo.

Bobagem, você salvou minha vida. Dafir bate forte, me derrubou em questão de segundos. Se você não tivesse usado seus poderes, poderíamos estar os dois mortos. E tudo por causa de um equívoco estúpido.

É. Foi um engano estúpido mesmo, não foi?

Ela então sentiu o apelo irresistível do sono. Mas não antes de se perguntar: será mesmo?

 

— Fim do capítulo 14 —
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