Valena – Capítulo 14

Publicado em 29/05/2018
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14. Guarda Baixa

Valena se sentiu irracionalmente ameaçada quando ficou sabendo da existência de uma certa princesa.

– Como é que é? Uma “princesa”? Como assim? Quem é essa? Por que ninguém nunca me falou nada sobre isso antes?

O conselheiro Malnem Rianam exibiu um daqueles sorrisos irritantes, que a fazia ter vontade de golpeá-lo na boca com a empunhadura da espada. Nada a deixaria mais satisfeita do que vê-lo tentar falar de forma pedante com aqueles dentes todos quebrados.

– Todos nós ficamos surpresos com a notícia, alteza. Estamos negociando com o sultão de Chalandri já há algum tempo, mas não sabíamos que ele tinha uma filha. E ainda mais com o fato dele decidir enviá-la até nós em uma missão de paz.

Ela franziu o cenho.

– “Sultão”?

– É o como o povo de lá chama seu monarca – explicou o professor Romera.

– Isso soa muito parecido com…

– Sim, alteza, nós sabemos – o professor a interrompeu, antes que ela proferisse um dos palavrões lemorianos mais cabeludos de seu repertório.

Aquilo fez com que Sileno Caraman soltasse uma gargalhada, no que foi imitado por quase todos no salão. Valena olhou para o rosto descontraído do imperador e sentiu-se bem consigo mesma. Desde que Azelara Caraman havia contraído um tipo incomum de febre que a mantinha presa à cama, necessitando dos cuidados constantes de curandeiros, seu marido parecia ter perdido muito de seu brilho e vigor, demonstrando pouco em comum com o homem que a recebera com tanto entusiasmo naquele mesmo salão no ano anterior. Se receber uma repreensão do professor Romera era o preço necessário para animar o homem, Valena estava disposta a pagá-lo de bom grado.

– Onde fica este lugar, afinal? – ela perguntou ao professor.

– Em um outro plano existencial. É um mundo similar ao nosso e com leis físicas quase análogas, mas dominado por um extenso deserto.

– E as pessoas de lá são iguais a nós?

– Sim. Inclusive, evidências como a similaridade entre a língua deles e a de Verídia indicam que ambos os povos são originários da civilização Damariana. Sabemos que Damaria tinha um impressionante controle sobre portais dimensionais e é bem possível que existam muitos outros planos habitados por seus descendentes.

Valena virou-se para o imperador.

– E vocês querem que eu recepcione essa tal princesa?

– Vocês duas têm quase a mesma idade e ambas estão destinadas a governar uma nação – respondeu ele. – Têm muito em comum.

Tendo sido a única princesa neste mundo há tanto tempo, Valena não se sentia nem um pouco entusiasmada em ter seu espaço invadido.

– E por que ela tem que vir aqui? Por que, ao invés disso, não me mandam para lá?

Ela fez aquela pergunta olhando de lado para o conselheiro Rianam. O homem se remexeu no lugar, parecendo um pouco incomodado, até que o imperador respondeu:

– Pretendemos fazer isso. Só foi decidido que nós teríamos a honra de sermos os anfitriões na primeira visita. Na verdade, não importa muito quem visita quem, o importante mesmo é as nações se conhecerem e estreitarem relações. A expectativa é que consigamos estabelecer rotas comerciais que possam beneficiar a todos.

O conselheiro Rianam levantou uma mão. Como sempre, Valena não deixou de perceber que se tratava de uma mão lisa e macia, cuja pele apresentava um tom rosado, típico de quem não praticava nenhuma atividade física.

– Se me permite um adendo, meu senhor, seria crucial causarmos uma boa impressão neste primeiro encontro. Precisamos deixar claro o nosso comprometimento com este acordo, e ao mesmo tempo garantir que o mesmo será ser mantido durante anos.

Ele lançou um olhar de soslaio a Valena depois de dizer aquilo, o que a deixou furiosa.

– Mas é claro que manterei esse acordo! Como ousa insinuar o contrário?

O imperador olhou de um para o outro, de cenho franzido, mas não disse nada. O conselheiro se remexeu no lugar, constrangido.

– Perdoe-me, alteza, talvez tenha me expressado mal. O que eu queria dizer é que precisamos demonstrar nosso comprometimento. Mostrar que estamos fazendo todos os esforços ao nosso alcance para manter a estabilidade de nosso país. E… bem… correm boatos de que vossa alteza está tendo dificuldade em obter progressos em seu treinamento.

Valena ficou vermelha e abriu a boca para interromper aquele arrogante asqueroso, mas o imperador levantou a mão direita, comandando assim a ambos para que se calassem. O salão caiu em um silêncio tenso.

– Eu não gostaria, em hipótese nenhuma, que qualquer um de meus súditos, seja ele quem for, se sentisse obrigado a fingir ser algo que não é ou a forjar uma habilidade que não domine. E a responsabilidade sobre o treinamento de Valena é minha e de mais ninguém.

Foi a vez de Rianam ficar vermelho. Sabendo que não seria nada prudente argumentar quando o imperador usava aquele tom, tratou de abaixar a cabeça e juntar as mãos, fazendo uma leve reverência.

Valena normalmente se sentiria nas nuvens ao ver aquele infeliz ser colocado em seu devido lugar, mas algo no olhar do imperador lhe dizia que ia sobrar para ela também.

♦ ♦ ♦

As semanas seguintes foram um verdadeiro martírio para ela. Os membros da Guarda Imperial pareciam decididos a exauri-la de todas as formas possíveis.

Luma Toniato a obrigava a correr incontáveis quilômetros todas as manhãs, dando várias voltas ao redor das dependências do palácio imperial. Não satisfeita, ainda a forçava a subir a torre mais alta do palácio pelo lado de fora, às vezes com o uso de cordas e às vezes utilizando de encantamentos do tipo patas de aranha. O mais irritante de tudo é que a mulher corria e escalava ao lado dela, nunca parecendo se cansar, mesmo sendo, pelo menos, uns trinta anos mais velha.

Erineu Nevana fez seus ombros e olhos doerem muito, tentando acertar alvos móveis usando arco e flecha. E quando ela estava esgotada fisicamente, ele a forçava a recomeçar o treinamento, mas usando habilidades místicas ao invés de armas. Somente quando suas energias estavam completamente esgotadas a ponto de não conseguir conjurar nem mesmo o mais débil dardo de fogo, ele a deixava em paz.

Galvan Lemara a levou a lutar contra gorilas, ursos, tigres e, até mesmo, um avestruz. A princípio aquilo tudo lhe parecera tão absurdo e surreal que mal conseguia acreditar que fosse verdade. Mas, conforme recebia na pele os golpes mais estranhos e doloridos de sua vida, se viu obrigada a aprender a usar os poderes que a Fênix havia lhe concedido de maneiras que, de outra forma, nunca poderia imaginar.

Lutamar Romera a fez ler até não aguentar mais. Livros de história, filosofia, física, matemática, e até mesmo contos e lendas. A maioria daquilo lhe despertava pouco ou nenhum interesse, mas o professor a forçou a conhecer os fundamentos e conceitos de tudo. Aquilo a fez desenvolver um grande respeito pelos sábios que passavam suas vidas lendo, escrevendo e fazendo aqueles estudos tediosos, pois eles obviamente tinham muito, mas muito mais paciência do que ela.

Gaia Istani lhe apresentou as agruras de praticar natação nos lagos mais gelados e nas praias mais traiçoeiras do império. Quando Valena começou a pegar o jeito da coisa, a sacerdotisa a levou a praticar mergulho, saltando de lugares cada vez mais altos, até chegar ao ponto de ter que usar habilidades místicas para controlar a queda e se proteger do impacto com a água congelante.

Dario Joanson a usou como assistente para treinamento de cadetes. Em diversos tipos de jogos de guerra, o capitão a colocou para enfrentar verdadeiras legiões de adversários, em combates com as regras mais estranhas possíveis, o que, às vezes, gerava situações absolutamente hilárias. Valena tinha que admitir que aquele treinamento era bastante divertido, mas muitas vezes tinha dificuldade para dormir devido aos músculos doloridos pelo excesso de esforço.

E ainda havia Leonel Nostarius. O homem que, de alguma forma, conseguia fazer um treinamento de esgrima durar horas, de maneira que Valena só se desse conta do passar do tempo quando não tinha mais energia nem mesmo para segurar a arma. E mesmo tendo se esforçado e derramado tanto suor quanto ela, ele ainda saía marchando com elegância, enquanto ela quase precisava ser carregada para dentro.

E, se como não bastasse toda a tensão daquele brutal treinamento físico e mental, aliada à perspectiva de receber uma princesa de um outro mundo, da qual todos elogiavam a beleza, elegância e poder, o imperador a forçou a praticar vezes e vezes sem conta as etapas do augúrio, algo que ela não dominava, mas que parecia ser o poder mais importante de qualquer pessoa que já tivesse recebido a marca da Fênix.

Até que um dia, finalmente aconteceu.

Levou bastante tempo para ela se convencer de que tudo não havia passado de um sonho. Estava tão exausta que era fácil acreditar que simplesmente havia caído no sono, sentada no chão daquela torre, sentindo o vento nos cabelos e o sol no rosto enquanto tentava canalizar suas energias para abrir um canal de comunicação com o Eterno, como o imperador gostava de se referir à Grande Fênix.

Valena viu-se, de repente, em um local estranho, disforme, com nada além de nuvens coloridas formando estranhos padrões, por todos os lados. Então algo falou com ela, mas não com palavras. Era como se ela, de alguma forma, tivesse adquirido acesso aos pensamentos de outra pessoa e eles fluíssem para dentro dela.

– O que o Eterno lhe disse? – Sileno Caraman havia perguntado.

– Um monte de coisas sem muito sentido – ela respondeu, sem saber direito como explicar. – Parece que me foi preparado um companheiro ou algo assim. Alguém por quem eu me sentiria atraída e que complementaria minha… força.

– Isso é esplêndido!

– Isso é idiotice! Por que eu precisaria de um… companheiro?

– Ora, todos precisamos de entes queridos.

– Ele… ela disse que eu devia compartilhar meu poder com esse homem, me unir a ele de formas… – ela ficou vermelha. – Nem sei como explicar isso.

O imperador sorriu.

– Uma união afetiva funciona assim, você compartilha tudo. E recebe tudo em troca. Chega um ponto em que você até começa a imaginar se realmente é merecedor de receber tantas bênçãos com tão pouco esforço de sua parte. Não há nada mais simples, mais crucial, mais satisfatório, mais realizador do que dividir sua vida com a pessoa que realmente ama.

O problema era que havia um detalhe sobre aquele augúrio que ela não tivera coragem de revelar, nem para o imperador e nem para ninguém. Segundo o Eterno, não haveria apenas um “companheiro”, mas vários. Uma tropa inteira deles. Estaria ela condenada a se tornar uma vadia, uma mulher que entrava e saía de relacionamentos o tempo todo, nunca conseguindo encontrar alguém que a completasse a ponto de poder dividir com ela o resto de sua vida?

Pessoas que trocavam parceiros amorosos com muita frequência eram muito malvistos naquela sociedade. E a mera possibilidade de não conseguir se tornar uma imperatriz respeitada, como seus predecessores, a enchia de angústia.

Lembrou-se de seu relacionamento com Barlone, do quanto fora divertido e gratificante. Na época ela imaginou que nunca precisaria de mais ninguém, que nenhum outro seria capaz de deixa-la tão realizada. Podiam não ter nenhum sentimento mais intenso os ligando, mas sempre acreditara que aquilo viria com o tempo, caso não tivessem sido separados daquela forma.

E então ela se deu conta de nunca tomara nenhuma atitude para reencontrá-lo. Teria ele significado tão pouco para ela? Será que o fato de ter ido tão longe no relacionamento com Barlone sem estar apaixonada por ele era apenas um sintoma de seu próprio caráter? Estaria ela destinada a repetir esse ciclo de novo e de novo sem nunca encontrar alguém com quem realmente se importasse? Alguém que amasse de verdade?

Notando sua palidez e apreensão, o imperador disse:

– Tente não pensar muito sobre isso. Não temos controle sobre o futuro, então o máximo que podemos fazer é viver o presente da melhor forma que pudermos. Que tal deixar isso de lado por enquanto? Venha, vamos descansar um pouco e procurar algo para comer.

Depois daquilo o imperador anunciou publicamente que Valena tinha, pela primeira vez, conseguido realizar um augúrio com sucesso. A expressão de decepção no rosto do conselheiro Rianam foi a única real satisfação que ela teve, pois as imagens que a entidade havia colocado em sua cabeça iriam assombrá-la ainda por muito tempo.

♦ ♦ ♦

Sandora Nostarius concluiu que não gostava de Cariele Asmund. Apesar de ser obviamente muito perspicaz, inteligente e possuir um nível de afinidade mística muito superior a todos os limites que Sandora imaginava que existissem, a esposa do Dragão, em sua opinião, falhava em um quesito básico, fundamental: não dava o devido valor os detalhes.

Ela trabalhava com suposições. Ao invés de investir sua energia em verificar primeiro todas as premissas e assim garantir que seu trabalho estivesse sendo construído sobre bases sólidas, a mulher muitas vezes seguia seus instintos, assumindo que várias hipóteses fossem verdadeiras e atacando um problema por diversos ângulos, até encontrar resultados que pudesse usar de forma prática.

Sandora era obrigada a admitir que Cariele tinha instintos impressionantemente afiados e que conseguira realizar coisas naquele laboratório que ela própria levaria anos, ou até mesmo décadas. Mas aquilo não anulava o fato de várias de suas descobertas não terem, necessariamente, relação com as premissas consideradas.

– Você não pode assumir que esse cristal tenha qualquer ligação com o processo de cura.

Cariele franziu o cenho.

– O que está dizendo? As suas dores diminuíram, você já está se sentindo melhor, não está?

– Da próxima vez pegue um objeto qualquer, uma colher, uma pedra, uma pena ou qualquer outra coisa e use no lugar do cristal. Os efeitos serão exatamente os mesmos.

– Como é que é?! Nada disso tem a afinidade para canalizar os…

– Esse é o problema – Sandora a interrompeu. – O cristal também não tem. Não é ele quem está modificando o fluxo, é algo no ritual que você criou para usá-lo.

As duas se encararam durante algum tempo, como oponentes num jogo tentando adivinhar as cartas do outro. Nesse momento, o Dragão de Mesembria entrou no recinto com um enorme sorriso no rosto.

Cariele olhou para o marido e franziu o cenho.

– Algo nessa sua expressão me diz que não vou gostar do que vai dizer.

– Pode apostar que sim – respondeu ele, depois de cumprimentar Sandora com gesto de cabeça. – Brinia acaba de ser sequestrada.

– Ah, droga!

– Eu te disse – ele, praticamente, cantarolou as palavras. – Nunca subestime um dragão.

– Primeiro Sandora, agora você. Que saco! Querem acabar com o meu dia, é?

Sandora olhou de um para o outro e decidiu intervir.

– O que está acontecendo? O comportamento de vocês não é compatível com a revelação que o Dragão acabou de fazer.

– Oh, me perdoe – disse ele. – Eu estava tão ansioso para ver a reação dela que me esqueci que você não estava ciente da nossa aposta. Imaginamos que os ex-conselheiros imperiais tentariam usar de todos os artifícios para tentar desestabilizar o novo império. Eu concluí que poderiam tentar algo contra Cariele ou minha irmãzinha.

– E eu tinha certeza de que não seriam estúpidos a esse ponto – resmungou Cariele. – Imaginei que fossem concentrar suas energias em tentar atingir um alvo mais fácil, como você – ela apontou para Sandora. – Ou talvez algum dos senadores, o governador da Província Central ou a esposa dele.

Sandora apertou os lábios, não gostando nada de ser considerada “um alvo mais fácil”, mas tinha que concordar que, com as dores que tinha começado a sentir, aquilo era a mais pura verdade.

– Nós mandamos Brinia para um lugar seguro e deixamos a babá fingindo que cuidava de uma boneca – disse o Dragão. – De alguma forma, um intruso conseguiu se esgueirar no palácio, entrando e saindo sem deixar vestígios, e levando a boneca com ele. Devido a um encantamento que usamos, seria difícil alguém perceber que não se tratava de uma criança de verdade.

Sandora tentou se levantar da cadeira, mas uma súbita dor no ventre a impediu. Frustrada, ela gritou:

– Gram!

A morta viva escancarou a porta, que estava entreaberta, antes de adentrar no aposento olhando para todos os lados, nitidamente em estado de alerta. Valdimor veio logo atrás.

– Me ajudem a levantar.

– O que está fazendo? – Cariele exclamou. – Não está em condições de sair ainda!

Gram a ajudou a se por de pé, mas teve que segurá-la pela cintura para evitar que caísse. Ofegante, ela olhou para o Dragão.

– Vocês conseguem rastrear a tal boneca?

– Claro, mas não precisa se preocupar com isso, nossos soldados já…

Sandora o interrompeu, balançando a cabeça:

– Se eu fosse eles, nunca apostaria num estratagema tão simples.

– O que quer dizer?

– Se o bebê fosse realmente sequestrado, o que acha que Valena faria?

Daimar e Cariele se entreolharam.

– Acredito que ela reagiria como se o ataque tivesse sido direcionado a ela própria – ele disse, devagar.

– Exato. E pode ser exatamente isso o que eles querem, que ela saia numa caçada humana, ignorando o real objetivo deles.

– E que objetivo poderia ser esse?

– Não sei. Mas se me mostrarem como encontrar essa boneca, irei descobrir.

♦ ♦ ♦

Depois de passar por tanta coisa, sobreviver a uma tentativa de assassinato, passar meses escondida, voltar, assumir o comando do império e reconquistar duas das principais províncias, Valena imaginava que já havia superado o trauma daquele primeiro augúrio. Tinha decidido que, se não fosse para ter um relacionamento com o de Sileno e Azelara, pleno, completo e definitivo, não se envolveria com ninguém.

Mas Valdimor vinha virando sua cabeça desde que pusera os olhos nele pela primeira vez. Lembrava-se até hoje do exato momento em que olhara no fundo daqueles olhos demoníacos e sentira aquela sensação indescritível, forte, avassaladora. Uma realização de que sua vida nunca mais seria a mesma.

Era infantilidade de sua parte, tinha que admitir, mas ela havia decidido que nunca se sentiria atraída por ninguém mais, que o que compartilhara com Barlone era único e que nunca sentiria nada daquilo por mais ninguém além dele. Fecharia seu coração e mandaria aquele maldito augúrio para a wasakhda.

Provavelmente fora por causa daquilo que havia concluído que aquele monstro e Barlone fossem a mesma pessoa, já que ele era o único que poderia lhe causar aquele tipo de atração. Era o único pelo qual ela se permitiria sentir algo daquela natureza.

Mas então veio a revelação de que seu antigo amante não estava mais entre os vivos e ela se sentiu completamente perdida.

Conforme convivia com Valdimor, observava os progressos dele em aprender a língua do império, as atitudes reservadas que ele demonstrava em relação a outras pessoas, a solidão que emanava dele, ela se identificava com ele cada vez mais. Ambos eram diferentes, estranhos que eram respeitados apenas por seus poderes. Se não fosse por causa deles ambos passariam despercebidos e seriam ignorados.

E essa sensação de ligação, de reciprocidade, se tornava cada vez mais intensa. E aquilo a deixava progressivamente mais assustada.

Nos últimos dias, as dúvidas sobre sua própria índole retornaram com força total. Afinal, quem em sã consciência iria se apaixonar por um demônio assassino? Ou mesmo permitir que ele vivesse sob o mesmo teto? Ou confiar nele a ponto de deixa-lo lutar a seu lado durante uma das batalhas mais importantes e perigosas de sua vida?

Tudo aquilo passou por sua cabeça enquanto sentava-se na cama, tendo acordado suada e ofegante depois de mais um daqueles pesadelos onde o povo de Verídia a perseguia e apedrejava por sua total falta de moral e seus desejos proibidos.

Devia saber que o sonho viria. Passara tempo demais tentando completar outro daqueles augúrios – queria mais é que o Eterno fosse para waa la habaaray – na tarde anterior, e quanto mais cansada e ansiosa, mais fácil era de seus demônios virem perturbá-la durante o sono. Das últimas duas vezes que havia tentado contato com a entidade havia tido sucesso razoavelmente rápido, mas dessa vez, não obtivera nenhuma resposta mesmo tentando durante várias horas.

Levou a mão ao rosto e percebeu que estava úmido pelas lágrimas, que ainda escorriam. Frustrada consigo mesma por causa daquela fraqueza, se levantou e caminhou às cegas até uma das janelas e a abriu, esperando que o ar frio da madrugada a fizesse sentir melhor.

E só então percebeu que havia algo de muito errado acontecendo.

Podia sentir o cheiro de madeira queimando. Também podia ouvir gritos. A noite estava escura. Escura demais. O palácio deveria estar todo iluminado com cristais de luz contínua mas, olhando para baixo, tudo o que via era a escuridão.

Então se deu conta de seu quarto também estava completamente escuro. Valena nunca cobria totalmente os cristais de iluminação, pois preferia dormir em uma suave penumbra do que na escuridão total. Mas, olhando agora para o local onde deveria ficar o cristal, não viu nada além do escuro.

Levantou a mão direita e tentou conjurar uma chama e não conseguiu. Era como se, subitamente, tivesse sido desconectada completamente de seus poderes.

Então a porta do quarto foi aberta devagar, revelando um homem vestindo manto e turbante, carregando uma tocha na mão direita.

Obrigando-se a não pensar no que poderia ter acontecido a seus guardas, ela o encarou, com as mãos na cintura.

– Quem é você? O que está acontecendo?

A pergunta, na verdade, era apenas para ganhar tempo. Ela sabia o que estava havendo. Era a retribuição pelo que fizera na Sidéria. Mas se esperavam que ela fosse facilitar as coisas assim como Odenari, ficariam muito decepcionados.

– Alteza – disse o homem, dando um passo para dentro e sacando uma espada curva com a mão esquerda. – Tenho uma pergunta para você.

— Fim do capítulo 14 —
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