Lassam – Capítulo 15: Decisões

Publicado em 11/05/2017
< 14. Genealogia Lista de capítulos 16. Perigo >

lassam-cap-15t

15. Decisões

A tarde chegava ao fim quando finalmente a carroça coberta do hospital chegou. Alvor e Edizar se surpreenderam quando o sábio de olhos verdes pulou agilmente de dentro dela e se aproximou deles.

– Boa tarde, senhores.

– Senhor – responderam ambos, respeitosamente.

Alvor não sabia qual era a maneira correta de cumprimentar aquele homem. Ele não era um oficial do exército, mas exercia uma posição extremamente influente na província, de forma que até o general obedecia a ordens dele. No entanto, ali estava ele, pegando uma carona numa velha carroça de hospital, usando roupas simples e andando tranquilamente ao lado de meros soldados e enfermeiros.

– Boas notícias – disse o sábio. – O embate terminou. A cidade está tranquila e aqueles que foram sugestionados já voltaram ao normal.

– Que alívio – respondeu Alvor. – Tivemos muitas baixas?

– Infelizmente, houve algumas. No entanto, é fato que essa situação tinha potencial para se tornar uma verdadeira catástrofe. A atuação da equipe especial foi magnífica, aspirante. Estamos em débito com vocês.

– Obrigado, senhor – Alvor levou a mão à parte de trás da cabeça, sem jeito.

– Como estão as coisas por aqui?

Enquanto Edizar conduzia os enfermeiros até o alquimista, Alvor fez um rápido relatório sobre o fatídico encontro dele com os jovens. O sábio pareceu particularmente fascinado pelas condições de saúde de Cariele.

Logo os enfermeiros passaram, levando Dafir Munim sobre uma maca. O homem estava adormecido, sob o efeito das poções para dor.

– Eu estava dizendo ao sábio que Dafir nos contou uma história e tanto – disse Alvor, quando Edizar se juntou a eles novamente.

– Considerando a gravidade daqueles ferimentos, estou surpreso por ele ter conseguido falar tanta coisa – comentou Edizar.

Os três observaram enquanto a maca era colocada sobre uma espécie de colchão de palha no chão da carroça e os enfermeiros o examinavam uma última vez. Um soldado aproximou-se, trazendo um bonito cavalo malhado. Após entregar as rédeas ao sábio, ele voltou correndo para a carroça que já estava partindo em direção ao hospital.

O sábio pegou uma folha de papel enrolada de dentro de uma bolsa presa à sela de sua montaria e a estendeu para Edizar.

– Isso pode ser útil. Trata-se da fórmula para anular o encanto de sugestão usado pelos baracais.

– Obrigado, senhor.

– Em relação a esses dois jovens, vocês diriam que algum dos dois, digamos… se descontrolou durante essa ocorrência?

– Eu não diria isso, senhor – respondeu Edizar. – O que temos é apenas um buraco em uma velha parede e o desabamento de um telhado mais velho ainda.

– E um alquimista com muitos ossos quebrados – acrescentou Alvor.

– Mas vivo – retrucou Edizar.

– Um alquimista bastante poderoso, pelo que me consta – disse o sábio de olhos verdes, lançando um olhar à carroça, que virava uma esquina e sumia de vista. – Você disse que a especialidade da moça é conjuração?

– É o que diz a ficha dela – respondeu Alvor.

– Eu realmente não creio que ela tenha se descontrolado – insistiu Edizar. – A menos que as habilidades dela tenham mudado muito nos últimos anos, o que me parece pouco provável.

– Concordo – falou Alvor. – Um conjurador do nível dela poderia facilmente transformar todo esse lugar em cinzas. Inclusive ela fez algo assim uma vez, alguns anos atrás, quando ficou sabendo que estava doente. Mandou um quartel inteiro pelos ares, com proteções místicas e tudo.

– Você a vem monitorado há quanto tempo, aspirante?

– Desde que ela começou a chamar a atenção do pessoal de inteligência. Não tenho os números comigo agora, mas sei que, sob a orientação da tenente Oglave, em pouco mais de dois anos, ela mandou uma parcela muito significativa da população criminosa desta cidade para a masmorra. E sozinha.

– Entendo. Se me permite uma sugestão, eu recomendo modificar um pouco sua tática de monitoramento.

♦ ♦ ♦

Cariele e Daimar foram recebidos com uma grande ovação quando entraram no alojamento da fraternidade. Ou melhor, Daimar recebeu uma ovação, pois ninguém fazia a menor ideia de quem era aquela magricela careca cheia de marcas de queimadura, e que ainda por cima usava um uniforme da academia largo demais para ela, além de todo sujo e rasgado.

Todos ficaram em um silêncio aturdido quando Daimar agradeceu as boas-vindas, mas que ele iria levar Cariele até o quarto dela. Ele preferia esperar um pouco antes de revelar a identidade dela para todo mundo, mas ela havia deixado claro que não queria esconder nada de ninguém.

Cariele ouviu suas amigas a chamarem, preocupadas, mas não estava com o menor ânimo para se socializar no momento.

– Obrigada – disse a ele, ao abrir a porta de seu quarto. – Preciso tomar um banho e encontrar alguma coisa que me sirva no meu armário. Mais tarde conversamos.

– Tudo bem – respondeu ele, antes de se aproximar e dar-lhe um breve beijo nos lábios. – Estarei no refeitório.

Ela tratou de fechar e trancar a porta, antes de se recostar nela e soltar um suspiro. Aquilo era difícil, mas não havia mais volta. A única alternativa era encarar. Juntando toda a sua coragem, ela endireitou-se e foi até a janela, começando a puxar as cortinas, mas logo mudou de ideia e resolveu fechar ambas as folhas, mergulhando o quarto numa suave penumbra.

Assegurando-se que a janela estava completamente fechada e travada, ela aproximou-se da mesa e removeu a tampa do candelabro, que logo banhou o quarto todo com sua luz amarelada. Então sentou-se e ficou encarando a si mesma no espelho por um longo momento.

Seus olhos continuavam com o mesmo tom azul claro. Eram a única parte de sua aparência que nunca tinha mudado, exceto pelo fato de ter perdido um deles naquela maldita explosão.

Agora que olhava com atenção, ela começou a perceber algumas coisas que estavam diferentes da última vez em que se olhara no espelho antes do ritual.

Além de não haver mais um buraco horripilante no lugar de seu olho esquerdo, a orelha e a sobrancelha esquerda também tinham ressurgido. Ela passou um dedo sobre os pelos negros e não sentiu nada de diferente. Era como se sempre tivesse estado ali. Pensando bem, depois de uma boa noite de sono ao lado de Daimar, ela não sentia absolutamente nada de estranho em nenhuma parte de seu corpo. Se fechasse os olhos e esquecesse sua aparência externa, ela podia facilmente fingir que o dia anterior não tinha existido. Não havia absolutamente nada que parecesse fora do lugar.

Depois que percebera que tinha… mudado, Cariele estivera tão apreensiva com seu corpo que havia se recusado a tirar suas roupas, até mesmo quando a curandeira pedira para examiná-la.

Daimar não tivera escolha além de pegar um traje emprestado, pois o uniforme dele havia sido totalmente destruído, primeiro pelo ataque do alquimista, e depois pela transformação dele. Ela, no entanto, não quisera trocar de roupa, primeiro por não gostar da ideia de vestir algo que fosse de outra pessoa, mas principalmente, pelo pânico que tinha sentido ante a perspectiva de olhar para o próprio corpo, de ver o que tinha perdido, de encarar o que tinha voltado a se tornar.

Tinha se recusado até mesmo a remover as botas. Daimar havia oferecido mandar um de seus empregados passar na fraternidade e pegar algumas roupas, mas ela havia recusado. Queria estar em um lugar familiar quando tivesse que lidar com aquilo.

Endireitando-se, ela removeu o blazer arruinado e desabotoou os primeiros botões da camisa, antes de respirar fundo e olhar para baixo. E constatou, aliviada, que seu seio esquerdo estava ali, no local onde, antes do ritual, havia apenas pele queimada. Ela apalpou a mama com cuidado, mas não parecia haver nada de errado com ela, exceto pela cor avermelhada, como de toda a pele ao redor. Nem mesmo o peso do seio lhe parecia diferente, o que era estranho, pois o volume a que estava acostumada, aquele que o ritual tinha lhe concedido, era bem maior. Também deveria ser mais pesado, não devia?

Ela terminou de tirar a camisa e se levantou para se olhar no espelho. A marca da queimadura cobria todo o lado esquerdo do seu corpo, com a pele avermelhada clareando aos poucos até atingir seu tom pálido natural, formando uma linha irregular que descia por entre os seios indo até a virilha. A pele queimada da cabeça, rosto, pescoço e mão esquerda, além de avermelhada, era irregular, levemente enrugada. No restante do lado esquerdo do corpo, no entanto, apesar da vermelhidão, a pele continuava macia e suave ao toque.

Terminando de se despir, ela concluiu que seu corpo não estava nada mau. Se Daimar tinha aceitado tão facilmente seu rosto, provavelmente não teria nenhum problema com o resto.

Ela riu de si mesma e se olhou criticamente por alguns instantes.

O ritual tinha lhe dado um corpo bem mais voluptuoso, coxas mais grossas, quadris mais largos, cintura mais fina. Não, pensando bem, sua cintura tinha permanecido igual, todo o resto é que tinha aumentado. E agora que o efeito do ritual se fora, ela parecia bem mais magra. Seus músculos, no entanto, estavam todos ali, apesar de menos pronunciados.

Seu pé esquerdo, que tinha sido quase totalmente perdido na explosão, parecia perfeitamente bem. Ele apresentava o mesmo tom avermelhado e enrugado de outras áreas queimadas, o que incluía parte da perna, mas só o fato de ele estar ali já era motivo de alegria.

Ela voltou a encarar seus próprios olhos no espelho, percebendo que não desgostava daquela aparência, pelo menos não tanto quanto imaginara. Por um instante, ela considerou o quanto daquela aceitação se devia à reação de Daimar. Ou melhor, à falta de reação dele, uma vez que continuara olhando para ela da mesma forma que antes, como se nada tivesse acontecido. Talvez fosse por causa dos outros sentidos dele, que provavelmente produziam uma “imagem” mais interessante para ele do que a aparência física.

De qualquer forma, olhando para si mesma agora, ela sentia uma espécie de alívio, como se um grande peso tivesse sido tirado de suas costas. Lembrou-se de repente que não precisava mais fingir ser uma garota “descolada”. Não precisava mais impressionar as outras mulheres e muito menos se mostrar atraente para os homens. Aquilo nem era possível agora, mesmo que quisesse. Então ela percebeu o quanto sua vida social tinha sido vazia e insatisfatória nesses últimos dois anos. Se não fosse pelo seu trabalho com a tenente, nunca teria suportado passar por tudo aquilo.

Estava tão perdida em pensamentos, que tomou um grande susto ao ouvir uma batida na porta, seguida pela voz abafada de Malena.

– Cari? Você está aí?

– Cariele! Abra já essa porta!

Aquela ordem, naquele tom de voz, não poderia vir de ninguém além de Hadara. Tratando de enrolar-se em um lençol, ela destrancou a porta e a abriu, surpresa com a própria falta de pudor.

– Bom dia.

A velha curandeira arregalou os olhos, surpresa, e a olhou de cima a baixo, antes de empurrá-la para dentro do quarto e puxar Malena para dentro pelo braço, antes de fechar a porta com um estrondo e trancá-la.

Malena, aparentemente, não sabia o que dizer, limitando-se a olhar para Cariele com preocupação, da mesma forma que tinha feito quando ela havia chegado ao alojamento com Daimar.

– Seu corpo reverteu quase que completamente – constatou Hadara, aproximando-se dela e analisando com cuidado a pele de seu rosto e da cabeça. – Mas está com uma cor bem mais saudável, se minha memória não me falha. Tire esse lençol, deixe eu dar uma boa olhada em você.

– Um bom dia para você também – respondeu Cariele, irônica. – O que está fazendo aqui?

– Com toda a confusão de ontem nessa cidade, imaginei que você tivesse se metido em problemas. Agora cale-se e tire esse pano da frente para eu poder avaliar o tamanho do estrago.

♦ ♦ ♦

Daimar percebeu que se sentia muito bem, enquanto tomava um gole de um excelente vinho que alguém tinha trazido ilegalmente para dentro da academia. Como Britano e Janica também tinham copos nas mãos enquanto conversavam animadamente num canto, ele imaginou que aquela pequena transgressão talvez não fosse causar tantos problemas como ele inicialmente tinha pensado.

Seu corpo estava bem menos dolorido depois de uma das melhores noites de sono que ele tivera em meses. Sem contar que acordar ao lado de Cariele tinha sido uma das mais fantásticas experiências da vida dele.

Por isso, ele estava de muito bom humor, enquanto conversava animadamente com Egil, Falcão e mais uma série de pessoas. O refeitório estava lotado, e havia mais um monte de gente do lado de fora, como se aquilo fosse uma espécie de festa. Mesmo tendo sido decretado recesso de três dias, a maior parte dos estudantes tinha preferido não se aventurar fora dos muros da academia, e aparentemente, alguém tinha decretado que a fraternidade Alvorada era o ponto de encontro mais “quente” do lugar.

A luta de Daimar e Cariele, ao lado dos monitores, contra os soldados sugestionados parecia ser o assunto mais interessante do mundo para aquele pessoal. Ele já tinha ouvido diversas versões diferentes do acontecimento, algumas sangrentas e outras hilárias. Mas todos pareciam considerar ele e Cariele como se fossem deuses da guerra ou algo do gênero, exagerando bastante o papel que tiveram na batalha. Aquilo, pelo menos, valeu umas boas risadas.

Participar daquela confraternização estava sendo muito bom para ele. Depois de ter passado por aquela situação surreal no dia anterior, ele estava mesmo precisando pôr os pés no chão e relaxar um pouco. Esquecer, nem que fosse por pouco tempo, a estarrecedora verdade sobre sua origem, e as implicações que aquilo traria para sua vida daqui para a frente.

Claro que a perspectiva de ter Cariele consigo tornava tudo bem mais fácil de encarar. Se ela conseguia olhar para ele como se nada tivesse acontecido, então ele também podia aceitar o fato de ser um membro de um outro povo, uma raça que estava entrando em extinção. Bem como o fato dele próprio poder estar condenado ao mesmo destino que eles.

Era curioso que aquele fato não o incomodava em absoluto, principalmente depois de saber da doença de Cariele, de perceber que ambos carregavam uma maldição similar. No fim, aquilo acabara se tornando apenas mais um elo a uni-los.

Ainda havia a preocupação com seu pai, a necessidade que tinha de encontrá-lo, de confrontá-lo, de dizer que o compreendia, e que, apesar de todos os desentendimentos que tivera com ele, nunca realmente o odiara. Mas, no momento, Cariele era sua prioridade. Delinger entenderia isso. A vida dela tinha acabado de virar de pernas para o ar e ela precisava dele. Assim como ele precisava dela.

Também havia Dafir. Não sabia o que pensar sobre ele. Apesar de o alquimista afirmar que era seu pai natural, Daimar não conseguia se esquecer da expressão do rosto dele quando o atacou. Não houvera raiva, não houvera medo, só uma determinação assassina, e aquilo era bastante perturbador. Daimar teria sérias dificuldades para acreditar na história dele, se não fosse pela confirmação de Alvor e Edizar, que haviam lutado ao lado de Delinger, e que afirmaram ter ouvido relato similar dele quando lhes pedira para protegerem seu filho adotivo.

E havia a memória do ataque que sofrera. Era quase impossível esquecer a sensação de seu corpo simplesmente se desligando depois de receber aquele ataque, de ele deslizar para o chão e perder lentamente a consciência, repreendendo-se por ter caído no que parecia uma armadilha, e por estar deixando Cariele sozinha. Sem contar a sensação estranha que veio depois, de acordar aos poucos, absolutamente sozinho e isolado de tudo e de todos. Sem Cariele. Sentira como se estivesse num corpo diferente, algo viscoso, quase líquido, que parecia escorrer pelo chão como água derramada. Então tinha ouvido a voz de Cariele dentro de si, percebendo que seu vínculo com ela estava se restabelecendo, que ele não estava mais sozinho, e que ela estava ali fora, a seu alcance, e que precisava dele. De alguma forma, seu corpo tinha começado a se mover sozinho e a crescer, se transformar. Ele se lembrava do impacto de seus pés no chão, quando se colocara entre ela e o alquimista, que tinha ficado miraculosamente menor, tão pequeno que ele poderia facilmente esmagá-lo com as mãos. Mas, para sua frustração, a batalha já tinha acabado e o inimigo estava caído, sem condições de se mover. Então ele olhou para sua amada, apenas para perceber que ela também estava largada no chão, imóvel. Lembrava-se de pegá-la com cuidado, de vê-la tão pequena entre suas mãos e de ter dado vazão a toda a sua frustração com um enorme rugido. Lembrava-se de Alvor e Edizar olhando para ele com expressões estupefatas e de ter tentado pedir ajuda a eles. E depois, do alívio quando Cariele finalmente acordou e olhou para ele com aquele lindo sorriso.

– Ei, barão, está me ouvindo?

De repente, Daimar percebeu que Egil acenava com a mão diante dos seus olhos. Então ele sorriu e balançou a cabeça.

– Desculpe, estou um pouco distraído hoje.

– Você está precisando relaxar um pouco – disse Falcão.

Egil olhou para Falcão, de cenho franzido.

– Cara, se você nunca viu uma namorada sua passando por maus bocados, então não tem ideia do quanto é difícil pensar em qualquer outra coisa.

– Está tudo bem – disse Daimar. – Ele tem razão, está sendo bom poder me distrair um pouco. A propósito, quem vai fazer a limpeza deste lugar?

– Não esquenta – respondeu Egil. – Essa galera é gente boa, eu falo com todo mundo depois, garanto que não vai faltar voluntários.

– Exceto pelo estrago que você fez na calçada lá fora – comentou Falcão, olhando para Daimar. – Aquilo lá vai ficar inteiramente por sua conta.

Daimar riu.

– É, eu já imaginava.

– Ótimo – disse o ruivo, levantando-se e batendo nas costas dele. – Agora, se me dão licença, vou resgatar uma donzela. Me desejem sorte.

Daimar e Egil ficaram olhando, surpresos, ao verem Falcão andar por entre as pessoas até chegar a uma mesa no fundo, onde Agneta estava sentada, sozinha, olhando para o copo em suas mãos, aparentemente sem vê-lo. Viram o amigo se aproximar dela, chamando-lhe a atenção e depois trocar algumas palavras com ela, fazendo-a sorrir. Então, Falcão puxou uma cadeira e se sentou diante dela, conversando animadamente.

Egil olhou para Daimar, incrédulo.

– Olha só, acredita nisso?

– Não sabia que ele tinha interesse nela.

– Ele chegou a comentar comigo que ela andava triste, principalmente depois de Cariele ter contado a todo mundo sobre o… você sabe…

– O ritual.

– Isso. Mas nunca imaginei que ele fosse querer animar a moça pessoalmente. A propósito, como Cariele está? Imagino que esteja sendo uma barra para ela.

– Ela está bem, por incrível que pareça. Um pouco abalada, naturalmente, mas acho que ela está reagindo muito bem. Melhor do que eu, inclusive. Escute, mudando de assunto, tenho um favor para pedir a você.

– Diga.

– Consegue cuidar da fraternidade por alguns dias?

– Claro. Está pensando em ir para algum lugar?

Daimar não chegou a responder à pergunta do amigo, pois estava ocupado demais levantando-se e olhando na direção do corredor.

Depois de alguns instantes, Cariele apareceu, trajando um engomado uniforme militar. Tratava-se de um conjunto de calças e camisa em tom verde-escuro, bem como um cinturão com diversos bolsos de couro em quase toda sua extensão, exceto do lado esquerdo, onde deveria ficar o suporte para a bainha da espada, um item que, diga-se de passagem, parecia estar faltando ali, de tão… oficial que ela parecia. A cabeça estava coberta por uma espécie de quepe, também da cor verde-escura.

As mãos e o rosto dela estavam completamente à mostra, a pele grosseira e avermelhada da queimadura contrastando com o verde do uniforme e criando uma imagem um tanto intimidadora. Ela carregava uma pasta de couro na mão direita, o que intensificava ainda mais o ar de oficial militar que ela exalava.

Ela andava, ou melhor, marchava pelo corredor de uma forma que provavelmente deixaria qualquer sargento ou tenente orgulhoso. Os lindos olhos azuis brilhavam com determinação e se suavizaram consideravelmente ao vê-lo ali, esperando por ela.

Assim que ela entrou no salão, seguida por Malena, as conversas pararam imediatamente, todos olhando para ela, surpresos.

– Boa tarde a todos – saudou ela, educadamente, e o local de repente pareceu voltar a ganhar vida, com murmúrios, interjeições de espanto, assobios e brincadeiras bem-humoradas.

Ela estava, simplesmente, sensacional. E Daimar não demorou a perceber que ele não era o único a pensar daquela forma.

Aproximando-se dele, ela lhe estendeu uma folha de papel enrolada.

– O que é isso?

– Aí cita o seu nome, por isso achei melhor ver se não faz nenhuma objeção à entrega disso na supervisão.

Curioso, ele sentou-se e começou a ler enquanto Cariele cumprimentava Egil e os demais, sendo rapidamente cercada por um grande grupo de pessoas, incluindo a maior parte dos membros femininos da fraternidade.

– Cari! É você mesma?

– De longe nem dá para reconhecer, mas esses seus olhos são inconfundíveis!

– Que visual, hein, garota? Está arrasando!

Cariele riu, um tanto surpresa. Nunca imaginara que as outras moças a tratariam com aquela familiaridade ao verem-na daquele jeito. Aquilo lhe provocou uma intensa onda de alívio.

– Calma, pessoal, só vesti isso porque é a única roupa do meu armário que me servia. Ainda bem que desisti de jogar isso fora anos atrás.

– Esse uniforme é seu?

– É verdade que você foi soldado?

Levou um bom tempo até que as amigas ficassem satisfeitas o suficiente para permitir que Cariele escapasse. Ao se sentar ao lado dele, Daimar lhe devolveu o papel.

– Tem certeza de que quer fazer isso?

– Sim, estou farta de segredos.

Ele olhou ao redor e concluiu que era melhor fazer a próxima pergunta através do elo mental.

A tenente Oglave me disse que você poderia correr risco, caso alguém descobrisse os seus segredos. Tem certeza que não vai ter problema?

Desde que ninguém descubra que eu fui a responsável pela prisão de boa parte dos criminosos da masmorra, estarei bem. Ainda mais agora, com essa mudança de aparência.

Ele assentiu, voltando a falar normalmente, enquanto apontava para o papel.

– Então que tal deixamos nosso casal favorito, ali no canto, cuidar disso aqui?

Ela assentiu e os dois se dirigiram à mesa de Britano e Janica, que fizeram sinal para que sentassem junto com eles. Cariele jogou a pasta de couro e a folha enrolada sobre a mesa na frente de Britano, antes de se acomodar.

– O que é isso tudo?

– Meu pedido de dispensa das aulas pelos próximos dias. Junto com um relato do que aconteceu ontem e que me fez reverter a esta forma. E essa pasta é minha ficha militar.

Janica e Britano se entreolharam, perplexos.

– Você não precisa fazer isso – disse a monitora. – Quero dizer, sua ficha era considerada sigilosa, não era? Se entregar isso na supervisão, vai virar conhecimento público.

– Essa é a intenção.

Daimar inclinou-se para a frente.

– Vocês podem cuidar disso para nós? Vou acompanhar Cariele até a casa dela, na Província Central. Provavelmente passaremos alguns dias por lá.

– Sem problemas – respondeu Britano. – Já esperávamos por isso. O aspirante Sigournei nos disse que vocês dois foram atacados e que precisavam de tempo para se recuperar. Com um relatório militar oficial como atestado, nem precisava dessa documentação toda – ele apontou para a pasta.

– Então acho que é isso – disse Daimar. – Vocês dois ainda vão continuar sendo nossa sombra?

– Nem – respondeu Britano, tomando o último gole de seu copo. – Ficar perto de vocês é um trabalho perigoso demais para o meu gosto.

– Fomos demitidos – revelou Janica, com um sorriso.

Cariele sorriu também.

– É mesmo?

– Agora voltamos a ser monitores em tempo integral – disse Britano, pegando a garrafa e servindo mais uma dose de vinho a Janica e outra para si mesmo. – Nosso único trabalho no momento é investigar uma denúncia de que alguém vem trazendo bebidas alcoólicas para dentro da academia, o que é ilegal. Já que você, barão, que não devia permitir esse tipo de coisa, não está fazendo seu trabalho, nós temos que fazê-lo por você.

♦ ♦ ♦

A carruagem parou em frente à praça principal de Lassam e ambos desceram. Enquanto Daimar passava instruções ao condutor, Cariele olhou ao redor, sentindo-se inquieta.

Ela visitava o pai em Calise sempre que podia desde que ele saíra do hospital, mas nunca se sentira relutante em sair da cidade antes. De repente, percebeu que tinha desenvolvido uma certa afeição por Lassam nos dois anos que passara ali. Haviam muitas pessoas boas naquela cidade. A despeito do fato de ter fingido ser alguém que não era durante todo aquele tempo, ali moravam pessoas que gostavam dela e que não a julgavam pelo que tinha feito.

No centro da praça, cercada por lindos e bem cuidados jardins, ficava o artefato místico conhecido como ponte de vento, capaz de transportar instantaneamente pessoas ou coisas para qualquer ponto do império.

Daimar precisou se segurar para não rir quando os dois soldados que montavam guarda se empertigaram e prestaram continência para Cariele. Sem nem mesmo pensar no que fazia, ela retribuiu e continuou caminhando, como se realmente fosse uma oficial.

Então o casal se posicionou sobre a plataforma feita com uma rocha de um tom esverdeado. Daimar tirou um pergaminho do bolso, desenrolou-o e o colocou no chão. O objeto mergulhou na pedra como se estivesse afundando na água e a plataforma toda brilhou por um momento, até que, de repente, tudo ao redor ficou borrado. Então, o borrão desapareceu como se fosse uma cúpula que tivesse sido erguida, e a imagem de uma outra praça bem diferente surgiu diante deles.

E um outro guarda os recebeu, também prestando continência.

– Bem-vindos a Calise!

O ar ali era diferente. Daimar podia sentir o cheiro do mar, o que lhe causou uma imediata onda de saudade de sua cidade natal.

Em silêncio, caminharam até a esquina, onde Daimar contratou um dos muitos coches de aluguel que havia por ali para levá-los à residência Asmund. Enquanto o pequeno veículo os levava pelas ruas arborizadas da cidade, ele olhou para Cariele.

É muito divertido ver esses soldados prestando continência para você.

Ela balançou a cabeça.

Tolos desatentos.

Mas, com você vestindo essa roupa, ninguém pode culpá-los.

Claro que posso. Qualquer um pode vestir essa roupa, não há nenhuma lei contra isso. O que separa um oficial de um civil é sua insígnia, que tem que ficar presa aqui – ela apontou para o lado esquerdo do peito.

Mesmo assim, duvido que todas as oficiais femininas possam ficar tão bem nesse uniforme quanto você.

Comporte-se.

Minutos depois, o coche parou próximo à calçada em uma rua calma, onde as casas eram bastante simples, mas bem cuidadas. Enquanto Daimar pagava o condutor, Cariele se distraiu olhando para a vizinhança. Vendo-a perdida em pensamentos, ele se aproximou pelo lado esquerdo e deu-lhe um beijo na pele avermelhada do rosto. Ela sobressaltou-se com aquilo, o que o fez rir.

– O que foi?

– Nada – ela respondeu.

– Sei – ele levantou a sobrancelha, com expressão irônica.

– Só me lembrando de quando me trouxeram do hospital, depois da explosão. Na época eu achava que nunca mais sairia de dentro de casa. Engraçado como quase nada mudou por aqui desde então.

– Espero que você tenha aprendido a lição.

– Como é?

– Depois de tantos anos convivendo consigo mesma, teve tempo mais do que suficiente para perceber que nada é capaz de segurar você por muito tempo. Eu devo ter levado umas duas horas para perceber isso, no máximo.

Ela riu.

– Que exagero. Venha, vamos acabar logo com isso.

– Está vendo só?

– Bobo – disse ela, enquanto batia na porta da modesta casa de madeira pintada de verde-claro, onde passara toda a infância e adolescência.

Foram recebidos por uma governanta idosa e sorridente, que não reconheceu Cariele imediatamente, mas ao ficar sabendo quem era ela, a envolveu num apertado abraço e lhe deu um monte de conselhos sobre remédios caseiros antes de lhes acompanhar até a porta que dava para o jardim dos fundos, onde Baldier Asmund estava ajoelhado diante de um canteiro de tomateiros.

– Sempre achei que essas coisas fossem venenosas – disse Daimar, saindo para o jardim, ao ver que Cariele continuava parada, apenas olhando para as coisas do pai, indecisa.

– Isso é só uma lenda urbana, criada por pessoas com péssimos hábitos higiênicos – respondeu o pai de Cariele, levantando-se com certa dificuldade, antes de olhar para eles. Ao ver a filha, ele estacou, surpreso, antes de abrir um sorriso brilhante. – Filha! Você… você voltou ao normal!

Cariele e Daimar se entreolharam por um instante.

– O senhor não parece surpreso – disse ela.

– Estou muito surpreso! Você está esplêndida!

♦ ♦ ♦

Minutos mais tarde, os três se sentavam ao redor de uma mesa, sobre a qual a governanta havia colocado uma jarra gigante com chá, além de biscoitos suficientes para alimentar uma dezena de pessoas.

– Deixe eu ver se eu entendi – disse Cariele, levando uma mão à têmpora. – Está me dizendo que não houve ritual nenhum?

– Sim. Rituais de modificação corporal não existem. É uma impossibilidade matemática. A primeira prova disso foi proposta há uns 30 anos, mas hoje em dia existem inúmeras outras.

Vendo a expressão frustrada de Cariele, Daimar comentou:

– Desculpe, senhor, mas não é, exatamente, a matemática por trás disso que nos surpreende.

Baldier sorriu.

– Você não acha adorável quando ela fica impaciente?

– Papai!

– Prefiro não me manifestar em relação a isso – disse Daimar, levantando as mãos e fazendo Baldier rir.

Apesar de toda a surpresa e frustração que sentia, Cariele não conseguiu evitar que seus lábios se curvassem num sorriso. Era ótimo ver o pai tão bem-disposto, ela não o ouvia falar de forma tão tranquila e descontraída há anos.

– Eu lembro de ter feito algumas mensurações das suas conjurações quando você tinha 13 anos – disse Baldier a Cariele. – Nunca fiquei tão confuso na minha vida. Nenhuma das escalas marcava nada. Levei um tempão até entender que a verdade é que não existiam escalas grandes o suficiente para medir o seu poder.

– Isso é bobagem – retrucou Cariele. – Não existem escalas ou métodos capazes de medir o poder de ninguém.

– De forma geral, não, mas certos efeitos podem, sim, ser medidos. Suas habilidades sempre foram muito superiores às que estávamos acostumados a lidar. Então, quando ocorreu aquele acidente…

– Não foi um acidente, pai. Por mais que eu saiba que isso seja errado, naquela hora eu quis acabar com tudo.

Baldier olhou para Daimar.

– Você conhece a história dela, não? Acha que alguém pode culpá-la por ela ter desejado isso?

– Eu teria feito pior – revelou Daimar, em tom sério, fazendo Cariele encará-lo, surpresa.

Baldier sorriu para ele.

– É mesmo?

– Sim. Ela tentou acabar com tudo de uma vez. Eu, com essa idade, tinha tanta revolta dentro de mim que provavelmente tentaria destruir tudo e todos primeiro, só usaria o golpe final em mim mesmo quando não restasse mais nada.

Cariele se lembrou da carta de Delinger, e do sofrimento que pai e filho passaram por causa de um segredo terrível demais para ser revelado.

Baldier sorriu e deu alguns tapinhas amigáveis no ombro de Daimar.

– Ainda bem que ela percebeu no último segundo o que estava fazendo e conseguiu se proteger da maior parte da explosão.

– Mas o esforço foi grande demais e fez minha doença progredir, e blá, blá, blá – disse Cariele.

– Conforme se recuperava, seu corpo instintivamente direcionou toda a energia que pôde para combater a doença, o que foi um verdadeiro milagre. Mas isso não era suficiente. Tratamentos de regeneração não funcionavam, pois a doença já tinha bloqueado vários pontos-chave do seu fluxo espiritual. Apenas um outro milagre poderia fazer com que voltasse a andar e a enxergar. Então eu pensei: já que seus poderes tinham feito um milagre, por que não poderiam fazer mais um? O problema é que você estava muito abalada. Tudo o que eu pude pensar na época foi numa fórmula bastante complicada, que exigiria muita concentração e sangue frio para ter a mais remota chance de sucesso. Só você conseguiria criar o tipo de flutuação necessária para aquilo funcionar, mas eu não podia jogar uma responsabilidade como essa nas mãos de uma pobre garota de 15 anos, que estava sofrendo tanto.

– E você resolveu inventar um ritual.

– Na verdade, foi apenas uma espécie de sugestão hipnótica. Tentamos fazer com que você direcionasse um pouco de seu próprio poder para se curar. Mas o resultado acabou sendo muito diferente do que esperávamos.

– Isso quer dizer… que aquele cabelo, aquele corpo… eram só…

– Construtos místicos – completou Daimar.

– Exato – concordou Baldier.

Ela balançou a cabeça, descrente.

– Mas ninguém é capaz de manter um construto por tanto tempo assim!

– Isso porque não era apenas um construto – respondeu Baldier. – Eram milhares, talvez milhões deles, e que se renovavam continuamente.

– Mas isso é… eu não posso… eu tive todos aqueles sintomas… coceira, enjoos, um pedaço do meu cabelo caiu!

– Não tenho respostas para isso, mas imagino que manter aquela aparência fosse bastante difícil com o pouco de energia que você podia usar.

– E quanto a Hadara? E todos aqueles cremes e poções dela? Nada daquilo era de verdade?

– Pelo contrário. Tudo era de verdade. Os construtos reagiam a estímulos externos quase como se fossem realmente parte de seu corpo.

– Eu não consigo acreditar… Quando você pediu para eu escolher a aparência que eu queria ter…

– Não era esse o efeito que eu tinha em mente – respondeu Baldier, ao ver que ela estava com dificuldade para concluir a pergunta. – Eu imaginei que você fosse se imaginar sem essas… – ele apontou para a pele avermelhada da mão esquerda dela – e pensei que isso facilitaria o processo de cura. Mas os seus poderes, novamente, se mostraram imprevisivelmente grandes. Mesmo com quase todo ele direcionado exclusivamente para a tarefa de manter você viva.

Daimar segurou a mão de Cariele, que olhou para ele por um longo instante, em silêncio, até que Baldier voltou a falar.

– Mas agora você foi forçada a direcionar a energia que mantinha os construtos ativos para outra finalidade, e eles foram dissipados. E podemos ver, claramente, que grande parte do que planejamos originalmente, de fato ocorreu. Você regenerou seus membros, sua orelha, seu olho. Até um pouco da sua pele.

Daimar encarou Baldier.

– Por que não fazemos esse “ritual” de novo?

Cariele olhou para ele, muito espantada.

– O quê? Para quê?

– Ora, você não quer voltar a ser como antes?

– Não quero mais aquele rosto falso!

– Eu quis dizer de antes da explosão.

– Não creio que seja possível – disse Baldier, balançando a cabeça. – Quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna o processo de regeneração. Depois de tantos anos, não acho que tenha mais nada que possamos fazer quanto a isso. Pelo menos não com os parcos conhecimentos de física e anatomia que temos hoje.

♦ ♦ ♦

O assobio do vento soava de forma ameaçadora, vindo do abismo. O terreno acidentado era totalmente seco e estéril, não se avistava nada além de pedras, poeira, e enormes formações rochosas como aquela onde estavam, que se estendiam por toda a parte até o horizonte, separadas por gigantescas fendas cujo fundo não podia ser avistado. O céu apresentava um tom acastanhado, que dava um aspecto ainda mais desolado ao lugar. Os raios avermelhados daquele sol minúsculo não eram suficientes para combater o frio, e as correntes de ar enregelavam até os ossos.

Mas, no momento, o ambiente hostil era a menor preocupação de Delinger Gretel. Estava ficando cada vez mais difícil manter aquela forma. Já não tinha energia suficiente para regenerar suas asas e podia sentir que seus sentidos e até mesmo seus pensamentos já não eram mais como antes. Mas não podia enlouquecer. Ainda não. Não quando Cristalin estava ali com ele. Precisava acabar logo com aquele embate.

Justiça seja feita: seu oponente parecia muito pior que ele. Aquele garoto já tinha perdido há muito tempo a capacidade de manter uma forma estável e naquele momento parecia um quadrúpede disforme, cheio de chifres e esporas de variadas formas espalhadas pelo corpo. Talvez a intenção dele tivesse sido a de se transformar em algo similar a um ouriço, mas o resultado foi apenas uma coisa bizarra e desengonçada.

De qualquer forma, o garoto ainda estava em pé e conseguia lutar. Abrindo a boca, ele emitiu um sopro de fogo na direção deles.

Enviando um sinal mental para que Cristalin ficasse atrás dele, Delinger levantou a gigantesca cabeça de dragão e soltou um rugido enquanto batia violentamente com uma das patas no chão, o que fez com que uma poderosíssima onda de choque surgisse diante dele, partindo a rocha enquanto cortava a parede de fogo em duas, defletindo as chamas para os lados. A onda prosseguiu em linha reta, quebrando o chão rochoso até atingir o garoto, que foi lançado para longe, caindo perto do abismo.

Pressentindo que o oponente ainda poderia ter alguma carta na manga, Delinger aproximou-se dele devagar, as enormes patas fazendo com que a rocha tremesse a cada passo que ele dava.

Imobilizou-se, no entanto, ao ver o garoto abrir os olhos e golpear o chão com força, fazendo com que a rocha sobre a qual estava se partisse, se desprendendo e despencando para o abismo, levando-o junto com ela.

Delinger correu para a beirada e olhou para baixo, a tempo de ver o corpo monstruoso do rapaz desaparecer numa explosão alaranjada. Então ele fechou os olhos e deixou que a energia que o envolvia se dissipasse. Seu corpo começou a brilhar e, depois de alguns segundos, ele estava de volta a sua forma humana, com enormes marcas de cortes em quase todo o corpo. Suas pernas não puderam sustentar o peso do corpo e ele caiu de joelhos.

Cristalin correu até ele.

– Tudo bem?

A voz dela saía abafada pela máscara de tecido xadrez, que lhe cobria a boca e o nariz, permitindo que respirasse naquele lugar.

– Só… cansado… – respondeu ele, tentando recuperar o fôlego. O ar desse mundo era rarefeito, o que tornava aquela tarefa difícil até mesmo para ele.

– E o monstro?

– Fugiu. Conseguiu… abrir um portal.

– Podemos ir atrás dele?

Ela passou-lhe um cantil, do qual ele tomou um longo gole antes de responder.

– Sim. Reconheci o encanto pela cor e formato da explosão. – Ele suspirou. – Não sei se ele se confundiu, faltou energia ou se fez de propósito, como um tipo de último recurso, mas ele foi para um lugar que meus primos chamavam de Vindauga.

– E isso é ruim?

Ele olhou para ela.

– Se formos para lá, mesmo que um dia consigamos sair, provavelmente não voltaremos a encontrar nenhuma das pessoas que conhecemos.

– Se não o perseguirmos, acha que ele vai poder voltar?

– Sim. E talvez não tenha ninguém para impedir que ele faça um bom estrago antes que a degeneração o mate.

– Então, o que estamos esperando?

– Precisa me perdoar por isso, mas tenho que pedir para que volte.

– Sim, seu nobre ato de macho protetor está devidamente anotado e registrado – ela estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. – Precisa de alguma coisa? Comida? Sangue?

– Comida seria bom, mas seu sangue será mais útil correndo nas suas próprias veias. Gastei energia demais, não há mais como conter a degeneração.

Como evidência daquilo, ele ergueu as mãos com as palmas para cima, exibindo os antebraços que tinham quase toda a parte interior escurecida.

– Isso só quer dizer que temos que fazer valer cada momento daqui para a frente – disse ela, sem titubear, entregando-lhe um pedaço de pão.

– Os únicos arrependimentos que tenho na vida foram não ter estado lá quando minha tribo mais precisou de mim e não ter sabido lidar com um filho adolescente. – Ele deu uma mordida e mastigou em silêncio por alguns instantes. Então, engoliu e olhou para ela. – Todos os momentos que passei com você valeram. Sem exceção.

♦ ♦ ♦

Cariele e Daimar andavam de mãos dadas pela areia, as ondas do mar ocasionalmente banhando seus pés. O sol descia lentamente, prestes a se esconder atrás das montanhas, ao longe.

– E quanto aos militares? Acha mesmo que vão largar do seu pé?

– O aspirante vai marcar minha ficha com código azul.

– O que isso quer dizer?

– Quer dizer que virei pessoa de interesse.

– Considerando tudo o que você fez nesses dois anos, praticamente sozinha, não tiro a razão de serem cuidadosos.

– Suponho que tenha razão.

– Mas é só isso? Ele vai te dar um código azul e largar do seu pé?

– Ele diz que sim. E me deu um sinalizador.

– Hã? Para quê?

– Segundo ele, para eu utilizar quando estiver precisando de algum tipo de ajuda.

– Parece útil.

– Se está pensando nisso como um sinal de emergência para chamar reforços, pode esquecer. O aspirante está voltando para Ebora. Se eu usar esse negócio, ele pode até receber o sinal, mas vai levar dias até conseguir me encontrar.

– Ah. Nesse caso, mudei de ideia. Pode jogar esse treco fora.

Ela riu.

– Vou guardar, nunca se sabe.

Ficaram um longo tempo em silêncio. Daimar percebia que as últimas revelações tinham deixado Cariele pensativa demais. E ele sabia muito bem como era ter coisa demais na cabeça.

– Ei! Alguma vez você já sobrevoou o oceano?

– O quê? Não, claro que não!

– Então que tal fazermos um passeio interessante?

– Você quer dizer…

– Por que não?

– Achei que você não fosse querer se transformar de novo tão cedo.

Ele deu de ombros.

– Que diferença faz? Esperar não vai mudar os fatos, então, vamos, pelo menos, aproveitar um pouco.

– Então, tá. Pode começar a tirar a roupa.

– O quê?

– Da última vez alguém me culpou por ter estragado seu uniforme, lembra?

– Você quer que eu tire a roupa na sua frente?

– Por que não? Eu ouvi todos os seus pensamentos pervertidos desses últimos dois dias, acha que eu iria me envergonhar com isso?

– Ei! Seus pensamentos são muito mais pervertidos que os meus!

– Se já nos conhecemos tão bem assim, não faz nenhum sentido ficar com vergonha de tirar a sua roupa.

– Então, tudo bem. Tire a sua primeiro.

– Não sou eu quem vai virar um réptil de 200 toneladas.

– Nem vem, que eu não sou tão grande assim.

Ela riu.

– Vai, logo!

Sorrindo, ele caminhou até a parte seca da areia e olhou para ela enquanto desabotoava a camisa. Percebeu que era capaz de fazer qualquer coisa por aquele sorriso. Até mesmo aceitar com alegria o fato de ser o último descendente de uma raça amaldiçoada.

Nos dias seguintes, houve dezenas de relatos na cidade, de pessoas que juravam ter avistado um monstro gigante cuspidor de fogo sobrevoando a costa. Como a maioria dos depoimentos divergia quanto ao tamanho e formato do monstro, bem como à hora do avistamento, as autoridades concluíram que se tratava de algum tipo de trote e não deram muita atenção ao fenômeno.

— Fim do capítulo 15 —
< 14. Genealogia Lista de capítulos 16. Perigo >

Uma opinião sobre “Lassam – Capítulo 15: Decisões

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s