Lassam – Capítulo 16: Perigo

Publicado em 17/05/2017
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16. Perigo

A tarde já ia pela metade quando o casal finalmente decidiu sair do quarto.

– Boa tarde, pombinhos! – Baldier Asmund os saudou, observando-os com um sorriso, antes de deixar de lado o livro que lia para ajeitar as almofadas atrás de si até encontrar uma posição mais confortável na velha poltrona.

– Oi, pai – respondeu Cariele, soltando um grande bocejo enquanto se dirigia à cozinha.

– Boa tarde – disse Daimar, sentando-se em uma das cadeiras de encosto alto que ficavam ao redor da mesa. Aquelas cadeiras, diga-se de passagem, pareciam ser o artigo mais caro ou vagamente luxuoso que existia naquela casa.

– A governanta me disse que vocês só voltaram hoje de manhã.

Daimar imaginou que seu cansaço deveria estar mais do que aparente, então, não fazia sentido fingir que nada acontecera.

– Passamos a noite na praia.

– É bom ser jovem.

Cariele entrou na sala carregando duas canecas e entregou uma delas a Daimar, com um discreto sorriso, antes de se acomodar ao lado dele.

– Como está se sentindo hoje, pai?

– Como sempre. Meus níveis de energia ainda estão todos dentro das escalas, então, vocês ainda vão ter que me aguentar por algum tempo.

Daimar apoiou os antebraços na mesa e entrelaçou os dedos das mãos.

– Senhor Baldier, ouvi dizer que é muito respeitado entre os sábios de Mesembria.

O homem soltou uma risada.

– Sabe como dizem por aí… as pessoas temem o que não entendem.

Cariele riu, quase se engasgando com um gole de cerveja. Daimar olhou de um para o outro, confuso.

– Desculpe, acho que não entendi.

– Aqueles autoproclamados “sábios”, na verdade, não sabem de muita coisa. Tudo o que eu fiz foi terminar de resolver algumas equações que outras pessoas não tiveram tempo enquanto ainda estavam vivas. Só porque ninguém pensou em fazer isso antes de mim, alguns me atribuem uma genialidade que não tenho. A maioria deles, por outro lado, não quer dar o braço a torcer e alegam que o meu processo é complexo demais. Mas na verdade são eles que não têm disciplina e metodologia como os sábios de antigamente, por isso não me entendem. E, ao verem os experimentos confirmarem todas as minhas soluções, algo que são incompetentes demais para conceber, se sentem intimidados.

Daimar olhou para Cariele.

– Algo me diz que o que seu pai fez foi um pouco mais importante do que ele está dando a entender.

Ela confirmou com um movimento de cabeça, sorrindo.

– Ele resolveu quatro problemas que foram considerados paradoxos por séculos. Muitos dos efeitos que eu mostrei a você ontem são perfeitamente descritos por fórmulas derivadas de um dos Teoremas Asmund.

Baldier teve uma reação curiosa ao ouvir aquilo.

– Argh! Pelo amor da Fênix! Deixa eu morrer primeiro antes de usar meu nome assim!

– É só uma homenagem, pai. E merecida.

– Esse tipo de homenagem se dá a gênios. E só se pode ter uma razoável certeza de alguém ter sido um gênio ou não séculos depois de sua morte. Qualquer um pode muito bem acordar inspirado amanhã e encontrar uma prova de que o teorema está errado. Conhecimento não se constrói da noite para o dia.

Com um sorriso, Daimar levantou-se e entregou uma folha de papel ao velho senhor.

– Eu adoraria saber a opinião do senhor em relação a essa ideia.

Curioso, Baldier pegou o papel e estreitou os olhos, enquanto lia atentamente as anotações. Daimar retornou a seu lugar e levou a caneca aos lábios, tomando um longo gole da cerveja para disfarçar o nervosismo.

Devagar aí, não vá ficar bêbado na frente do meu pai!

Ele baixou a caneca abruptamente, com um súbito acesso de tosse. Quando finalmente conseguiu se recuperar, ele lançou a Cariele um olhar ameaçador.

Estou com sede, dá licença?

Ela o olhou com uma expressão zombeteira.

Problema seu. Se está cansado, a culpa é toda sua.

Não é não. Como eu poderia imaginar que você era tão depravada?

Então já está se dando conta da fria em que se meteu quando decidiu namorar comigo?

Sim. Acabei de perceber que estou condenado a ficar permanentemente exausto e sorridente como um boboca até o fim dos meus dias.

– Um conselho a vocês dois – disse Baldier, sem tirar os olhos do papel, fazendo com que o casal se sobressaltasse. – Se querem trocar segredinhos de casal entre si, sugiro que controlem melhor suas expressões faciais. A menos que não se importem que o que quer que estejam conversando deixe de ser segredo.

– Desculpe – disseram os dois, em uníssono.

Baldier baixou o papel e olhou para Daimar, apontando um dedo para a folha.

– De quem foi essa ideia?

– Foi dele – respondeu Cariele.

– Isso aqui é simplesmente genial – declarou Baldier, devolvendo a folha. – Se isso funcionar, e tudo indica que pode funcionar, irá melhorar a vida de muita gente.

Cariele sorriu para Daimar.

– Eu não disse?

– Obrigado, senhor.

Baldier encarou Daimar com seriedade.

– Senhor Gretel, se o que está querendo é me impressionar, saiba que já fez isso no momento em que entrou nessa casa com minha filha pela primeira vez.

– Ora, eu…

– Você vem fazendo um ótimo trabalho cuidando dela, e isso não é nada fácil.

– Pai!

– Para ser sincero eu não fiz muita coisa – disse Daimar. – Ela, por outro lado, já me salvou algumas vezes.

– Mesmo que não perceba, está sim, fazendo um ótimo trabalho. Nada me deixa mais feliz do que ver minha filha sorrindo.

– Vou me lembrar disso.

– Ótimo.

– Então, o senhor não tem nada contra, se eu e ela… quero dizer…

Ao invés de responder a Daimar, Baldier olhou para Cariele.

– Você encontrou um par e tanto para você, filha, eu, no seu lugar, não teria feito escolha melhor.

– Obrigada, pai – respondeu ela, com um sorriso radiante.

Depois de todo o arrebatamento que tomou conta deles na noite anterior, dessa vez eles se contentaram em ficar quietinhos nos braços um do outro na cama do quarto de hóspedes. As experiências pelas quais passaram tinham sido fonte de grande euforia, mas também os tinham deixado exaustos.

Daimar tinha aprendido a controlar sua transformação e descobriu que aquilo não era nada ruim. Na verdade, era muito libertador ser capaz de bater as asas e voar sem rumo. Era como se todo um novo universo se descortinasse para ele, de repente. Sentia-se como se tivesse encontrado uma parte de si mesmo que estivera procurando por anos, sem nem mesmo saber disso.

Cariele, por sua vez, tinha descoberto que, agora que não tinha mais que manter a aparência de mulher fatal, tinha alguma reserva de energia que podia gastar, o que era um grande alívio, pois não precisava mais depender exclusivamente de armas especiais e artefatos para poder lutar.

E então, depois que ambos já tinham voado por horas e gasto a maior parte de suas reservas energéticas criando flutuações de todos os tipos que podiam, tinham voltado para a praia e caído um nos braços do outro, ansiosos por um outro tipo de descoberta.

E agora, tudo o que queriam fazer era descansar.

Na manhã seguinte, ambos acordaram cheios de disposição. Considerando o quanto tinham sido agradáveis aqueles dois dias, era uma pena terem que voltar para casa, mas tinham coisas para fazer.

O sol começava a aparecer no horizonte quando chegaram até a ponte de vento, junto com Baldier Asmund, que fez questão de acompanhá-los. Segundo ele, o curandeiro tinha recomendado que fizesse bastante exercício, e nada era melhor do que uma caminhada matinal.

– Se precisar de qualquer coisa, é só mandar um mensageiro que nós viremos correndo – disse Cariele, dando um abraço apertado no pai.

– Não se preocupem comigo, vocês dois. Vão e aproveitem bem o começo dessa nova vida juntos.

– Obrigado por sua hospitalidade – agradeceu Daimar, apertando a mão de Baldier. – Vou me esforçar para atender suas expectativas.

– Assim espero. A propósito, eu ia quase esquecendo. Um amigo de vocês passou em casa ontem à noite.

Daimar e Cariele se entreolharam.

– Quem?

– Um homem de cabelo e sobrancelhas brancas. Chegou pouco antes da meia-noite. Eu disse que vocês já tinham se recolhido e que pretendiam voltar para Lassam hoje cedo. Então ele agradeceu e disse que conversaria com vocês quando chegassem lá. Disse que não era nada urgente e que não queria incomodar vocês, só queria saber se estavam bem.

– Seria o Britano? – Perguntou Daimar.

– Sim, acho que era esse mesmo o nome dele.

– Mas não faz sentido. Por que ele viria atrás de nós nesse horário? E para que se dar ao trabalho de vir até aqui e ir embora sem falar com a gente? Aliás, como ele nos encontrou?

– O endereço está na minha ficha – lembrou Cariele. – Creio que é melhor irmos direto para a academia e ver o que ele quer.

– Sim, tem razão. Obrigado por tudo, senhor Asmund.

– Tchau, pai, obrigada!

– Por nada! Sempre que quiserem, minha casa é de vocês.

Baldier acenou para eles até que a ponte de vento foi ativada e o casal desapareceu de vista.

A praça principal de Lassam parecia calma. Havia uma fila de pessoas do outro lado, onde ficava uma outra plataforma de vento. Apesar das duas plataformas poderem servir a ambos os propósitos, cidades de médio porte ou maiores costumavam reservar uma para saída e outra para entrada de pessoas na cidade. Algumas cidades muito grandes possuíam várias plataformas para ambas as finalidades.

– Tem muita gente indo embora da cidade ultimamente – comentou Daimar, enquanto se afastavam da plataforma.

– Imagino que não dá para culpar ninguém por isso – respondeu Cariele, olhando desconfiada para um soldado que se aproximava deles, esbaforido.

– Bom dia, oficial, algum problema?

– Você é Daimar Gretel?

– Sim, sou eu mesmo – disse Daimar, depois de trocar um rápido olhar com Cariele. – O que posso fazer por você?

– Recebi ordens do tenente Ivar de entregar uma mensagem. – O homem pegou uma folha de papel do bolso e a estendeu na direção dele.

Depois de pegar o papel, Daimar o desenrolou e começou a ler em voz alta.

– “Favor comparecer ao local de sua residência civil assim que possível, para tratar de assunto de grande urgência, e de seu total interesse”. Mas que raios…?

Cariele olhou para o soldado.

– Oficial, há quanto tempo recebeu essa ordem?

– Há cerca de uma hora, senhora.

– Obrigada, vamos para lá imediatamente.

– O que será que está acontecendo? – Daimar perguntou, correndo para acompanhar as passadas largas dela.

– Algo sério deve ter ocorrido durante a madrugada. A tropa não costuma usar soldados como mensageiros, ainda mais esse tenente em particular.

Apesar da preocupação, Daimar se sentia tão bem que não resistiu a dar um sorriso enquanto a olhava de lado.

Se a coisa realmente é tão urgente, poderíamos ir voando, que tal? Estaríamos lá em dez minutos.

É mais provável que fôssemos derrubados do ar em cinco. Depois do que aconteceu por aqui, os soldados provavelmente vão atacar primeiro e fazer perguntas depois.

Como você é pessimista.

Por que não se transforma em algo mais discreto, como um cavalo, por exemplo? Eu não me importaria de cavalgar você.

Vou me lembrar disso mais tarde.

Ambos entraram em uma carruagem de aluguel, após Daimar prometer algumas moedas extras ao condutor se os levassem até seu destino em velocidade máxima.

– Quem é esse tenente Ivar?

– É o oficial que comanda o primeiro batalhão de Lassam. Na ausência da Cris, imagino que ele esteja encarregado da tropa dela também.

Ele podia perceber um certo sentimento de desgosto emanando dela toda vez que alguém citava o nome do tenente.

– Você não gosta dele.

Ela deu de ombros.

– Tem muita gente nesse mundo de quem eu não gosto.

Estalando o chicote, o condutor fez com que os cavalos quase voassem pelas ruas da cidade, ainda quase sem nenhum movimento àquela hora da manhã. Em pouco mais de vinte minutos, ele puxava as rédeas e fazia com que a carruagem parasse em frente à mansão Gretel. Ou melhor, ao que restava dela.

♦ ♦ ♦

A neblina ácida era densa e tinha um cheiro horrível. Parecia ter sido criada especificamente para confundir seus sentidos, pensava Delinger, enquanto pulava de um galho para outro. A julgar pelo aspecto do chão, o melhor curso de ação parecia ser se manter o mais longe possível dele, pois estava coberto por uma versão líquida e, ao que tudo indicava, bem mais mortal daquela névoa.

Era surpreendente que aquelas árvores mortas conseguissem permanecer de pé, mesmo no estado petrificado em que se encontravam. Boa parte dos ramos e folhas já tinham se perdido há muito tempo, deixando apenas troncos e galhos quebrados. O que quer que tenha deixado a floresta daquele jeito, parecia ter acontecido há muito, muito tempo.

Ele parou e aguçou os sentidos por um momento, tentando se orientar. Imaginou como estaria Cristalin. Perdera contato mental com ela pouco depois de entrar na névoa, e agora, parecia que apenas o cheiro dela, impregnado em suas narinas mesmo depois de tanto tempo, era só o que o impedia de sucumbir à maldição e enlouquecer. Sabia que tinha que manter aquele maldito baracai longe dela, apesar de que a deixar sozinha naquele lugar também não lhe parecera correto.

Mas ela era capaz de cuidar de si mesma, não era? Soltando um riso triste, ele concluiu que, no estado em que ele se encontrava, ela provavelmente representaria um desafio muito maior ao outro baracai do que ele.

E ela ainda tinha a vantagem de não precisar ficar pulando de galho em galho como se fosse algum tipo de macaco. Como é que aquelas árvores permaneciam em pé, afinal? Há quanto tempo essa floresta estaria assim?

Ele sacudiu a cabeça, ao perceber que seus pensamentos voltavam a andar em círculos. Aquilo estava ocorrendo com irritante frequência, o que era uma evidência de que ele já passara em muito da possibilidade de redenção. Tudo o que lhe restava agora era enlouquecer aos poucos até que sua mente finalmente parasse de funcionar.

Por isso havia se separado de Cristalin. Ela não estaria mais segura a seu lado. Ninguém estaria. Só existia uma única coisa que ele podia fazer por ela agora. Se livrar da ameaça que estava por ali em algum lugar.

De repente, uma leve brisa o atingiu, clareando seus sentidos por um momento, o que lhe permitiu encontrar o que estava procurando.

Finalmente.

Usando o que restava de suas forças, ele saiu em disparada, saltando de um tronco ao outro.

Percebeu que sua presa não estava muito longe. O infeliz pulava de uma árvore para outra tentando fugir, mas estava muito fraco, o que o tornava lento demais. Delinger sabia que, com o artefato que o outro carregava consigo, poderia facilmente escapar se lhe desse tempo suficiente para absorver a energia necessária do ambiente. Não podia deixá-lo escapar de novo.

Isso acaba aqui. Para nós dois.

Usando toda a energia que conseguiu reunir, ele saltou, usando uma flutuação mística para empurrá-lo pelo ar, caindo diretamente sobre seu adversário. O impulso era grande demais para permitir qualquer tipo de equilíbrio sobre o galho, então Delinger se concentrou apenas em agarrá-lo com força e levá-lo consigo, enquanto despencava na direção da mortal gosma ácida.

Muito longe dali, Cristalin caminhava com dificuldade pelo terreno pedregoso, com a ajuda de um par de muletas improvisadas. Exausta, ela sentou-se em uma grande pedra, ajeitando com cuidado a perna ferida, protegida por talas também improvisadas.

Pela milionésima vez, ela repreendeu a si mesma por ter sido tão idiota a ponto de se descuidar na luta contra aquela louca descontrolada. Mesmo sozinha, ela já dera conta de outros baracais antes. Por isso, era difícil aceitar que tinha deixado aquela fugir, mesmo depois da maldita ter esmagado os ossos pouco acima de seu tornozelo direito.

Mais dez segundos. Era tudo o que ela precisaria para dar cabo daquela doida. Mas, ao invés de lutar, a infeliz tinha preferido fugir. Cristalin a vinha perseguindo desde então. Quanto tempo fazia isso? Uma semana? Duas? Delinger dissera que o tempo neste mundo seguia um ritmo diferente. Quanto tempo teria se passado em Lassam?

Ela levantou a cabeça e contemplou o céu por um momento. De certa forma, aquele lugar era similar àquele que Delinger chamava de “Mundo das Pedras”. A diferença é que ali as escalas eram maiores. Em vez de pedras flutuando, existiam “ilhas” vagando pelo céu, como se alguma força tivesse arrancado pedaços de terra de muitos quilômetros de extensão e lhes concedido o poder de flutuar livremente por entre as nuvens. Muitas dessas ilhas, inclusive, pareciam grandes o suficiente para poderem ser chamadas de “continentes”. Era possível ver a superfície da parte de cima de algumas delas, à distância, com grandes faixas verdes e abundância de vida, em contraste com o relevo irregular, rochoso e estéril da parte de baixo. Também havia cachoeiras, nos lugares onde os rios chegavam até a borda e caíam, se desmanchando no ar depois de algumas dezenas de metros e formando lindos espetáculos de luz e cor ao serem iluminados diretamente pelos raios do sol.

O sol, diga-se de passagem, era o elemento mais curioso daquela paisagem. De alguma forma, ele nascia, cruzava todo o céu e se escondia novamente por trás das montanhas todos os dias, sem nunca ser ofuscado por nenhuma das ilhas voadoras, apesar do fato de todas elas estarem constantemente mudando de direção e velocidade de forma aparentemente aleatória.

A ilha onde estavam, basicamente, consistia de um terreno central, totalmente dominado pela névoa negra, cercado por uma cadeia de montanhas. Aquelas, inclusive, eram com certeza as maiores e mais extensas montanhas que ela já tinha visto. Ela tinha ficado curiosa para saber se existiam outras ilhas abaixo desta, mas para confirmar isso teria que chegar ao outro lado da montanha, e praticar alpinismo não estava em sua lista de prioridades no momento, ainda mais na sua condição.

Existia bastante vegetação e insetos por ali, além de muitas espécies de animais selvagens, geralmente bastante agressivos. Definitivamente, não era o local mais indicado para se tirar férias.

Cristalin olhou ao redor e viu alguns pedaços de tecido jogados no chão ali perto. Respirando fundo, ela agarrou as muletas rústicas e forçou-se a se levantar. Devagar, aproximou-se da pilha de objetos, franzindo o cenho. Com a ponta da muleta, rolou o que parecia ser uma pequena pedra circular. Ao ver a runa que estava gravada do outro lado do objeto, ela praguejou alto.

– Maldita seja!

A infeliz tinha conseguido escapar. Conseguira fugir de Cristalin por tempo suficiente para que o artefato absorvesse do ambiente a energia necessária para abrir a droga do portal.

Ela abaixou a cabeça, desanimada, uma terrível sensação de derrota apoderando-se dela.

Então olhou para sua direita. Podia ver claramente o topo da neblina negra, a zona proibida, na qual Delinger tinha entrado, perseguindo o outro baracai, sem saber que tinham restado dois deles em vez de apenas um.

Havia perdido a ligação mental com ele no momento em que tivera sua perna quebrada. A dor ainda era intensa, e aquilo dificultava bastante que se concentrasse.

Sabia que ele não tinha intenção de retornar. Sabendo de tudo o que ele tinha passado em sua vida, do quanto ele havia sofrido, ela entendia. Mas não podia evitar de sentir desesperadamente a falta dele. Ou o desejo de ir atrás dele, mesmo sabendo que seu corpo pereceria em minutos dentro daquela névoa venenosa. No fundo, tudo o que desejava era se juntar a ele, nem que fosse no esquecimento eterno.

Então ela ouviu um barulho, som de madeira contra madeira, vindo de não muito longe dali. Ela sabia o que era aquilo, e de repente descobriu que, apesar de toda a tristeza e desolação que sentia, seus instintos de sobrevivência continuavam funcionando.

Abaixando-se com dificuldade, ela pegou o artefato arredondado e colocou no bolso. Podia não ter conseguido impedir que aquela maldita escapasse, mas aquilo não ia terminar assim. Iria atrás dela, não importava quantas semanas, meses ou anos aquela pedra fosse levar para se carregar novamente.

Mas, para isso, precisava sobreviver, e isso significava se manter o mais longe possível daquele som.

Com bastante esforço, ela voltou a se pôr de pé e se afastou, o mais rápido que sua condição lhe permitia.

♦ ♦ ♦

Daimar e Cariele desceram, apressados, e ficaram encarando, incrédulos, a enorme pilha de destroços que um dia tinha sido uma bela e sólida construção. Rolos de fumaça escapavam por toda parte, denunciando que camadas inferiores da pilha de madeira e pedras ainda queimavam. O portão principal estava aberto, com dois soldados de guarda. Diversos outros se espalhavam pelo terreno, caminhando por sobre o que tinha sobrado dos jardins. Um deles jogava um balde de água sobre uma parte dos destroços, extinguindo o fogo que ainda queimava ali.

Um oficial alto e bastante atraente saiu pelo portão e aproximou-se deles.

– Senhor Gretel?

– Sim?

Discretamente, Cariele afastou-se, caminhando até o condutor da carruagem e estendendo-lhe algumas moedas, que o homem aceitou, muito agradecido.

– Meu nome é Nilsen Ivar, sou o tenente do primeiro batalhão.

Daimar concluiu que aquele homem devia fazer bastante sucesso com as mulheres. Tinha os cabelos castanho-claros muito bem cuidados e aparados com esmero. Os olhos, também castanhos, pareciam atentos a todos os detalhes do que via. A pele apresentava um saudável bronzeado e as roupas não escondiam a musculatura muito bem desenvolvida.

Educadamente, Daimar apertou a mão que o tenente lhe estendeu, antes de voltar-se para a cena de destruição.

– O que houve aqui? Onde estão meus empregados?

– Estão todos bem. No momento, estão em casas de amigos ou familiares. Não havia ninguém dentro da mansão quando isso aconteceu.

– Mas como? Tem uma família inteira que mora e trabalha aqui!

– Não falamos com eles ainda, mas pelo que disseram quando nos contataram, parece que, pouco antes do amanhecer, pessoas invadiram a casa e os colocaram para fora antes de destruírem o lugar.

– Céus!

Depois que o condutor tinha subido de volta na carruagem e partido, Cariele havia se aproximado da cerca formada por barras verticais de ferro, analisando rachaduras que encontrou no chão.

– Ei, garota – chamou o tenente, ao ver que ela usava um encanto de detecção mística. – O que pensa que está fazendo? Essa área está sob investigação, vou ter que pedir para que se afaste.

Daimar aproximou-se dela.

– Descobriu alguma coisa?

Ela se levantou, soltando um suspiro.

– Tem mais um deles por aí.

– Você quer dizer…?

Daimar se interrompeu ao notar a chegada de Edizar Olger, acompanhado por um senhor idoso. ele adiantou-se, ao reconhecer o mordomo de seu pai.

– Kiers! Você está bem?

– Senhor Daimar! Que bom ver você!

– Onde estão os outros? Alguém se feriu?

– Não, senhor. Estão todos na casa da minha prima e no vizinho dela. Só estão um pouco assustados.

– Que bom. Pode me dizer o que aconteceu?

– Sim, senhor. Fomos acordados antes do amanhecer por um barulho. Desci para olhar e vi que a porta da frente tinha sido arrombada e tinha dois rapazes e uma moça andando pelo andar de baixo. Aquele que parecia ser o chefe me mandou tirar todos da casa se não quiséssemos morrer queimados. Então ele cuspiu sobre um sofá, que começou a pegar fogo. Corri para cima, acordamos as crianças e saímos todos correndo no meio da fumaça. Enquanto isso eles ficaram lá, rindo e zombando de nós. Quando saímos aqui para fora, ouvimos barulho de coisas quebrando lá dentro e continuamos correndo, sem olhar para trás.

O tenente se adiantou.

– Bom dia, senhor. Eu sou o tenente Ivar, encarregado desse caso. Posso assegurar que iremos encontrar esses criminosos. O senhor consegue descrever a aparência deles?

– Sim, senhor. Aquele que pôs fogo no sofá era um grandão loiro. Não devia ter mais que uns 20 anos.

O tenente fez diversas perguntas, e quanto mais detalhes o mordomo acrescentava, mais parecido o invasor ficava com alguém que Daimar conhecia bem.

Cariele percebeu a reação dele.

Você sabe de quem se trata?

Parece ser o Bodine. Mas não faz sentido, ele não tem esse tipo de poder.

Assentindo, ela aproximou-se do sábio Edizar.

– Pode me dizer uma coisa? Baracais podem assumir a forma que quiserem, incluindo a de outras pessoas?

– Não sei dizer com certeza. Pelas explicações que Delinger nos deu, parece ser possível, mas nunca vimos ele mesmo fazendo isso.

– Duvido que meu pai faria isso, mesmo que pudesse – declarou Daimar. – A menos, é claro, que fosse forçado.

Cariele olhou para ele.

– E quanto ao alquimista? Ele conviveu bastante tempo com seus pais. Talvez devêssemos perguntar a ele.

– Eu gostaria que isso fosse possível – lamentou Edizar. – Mas ele está desaparecido.

– Como é?! – Daimar franziu o cenho.

– Ele sumiu misteriosamente do hospital há dois dias.

– Mas que raio está acontecendo?

– A academia! – Cariele exclamou, de repente, virando-se para Ivar. – Tenente!

Nilsen Ivar, que ainda pegava o depoimento do mordomo, olhou para ela, irritado pela interrupção.

– Estou um pouco ocupado no momento.

– Você mandou procurarem Daimar, não foi?

– Sim.

– Mandou um soldado à academia?

– Claro que sim.

– Ele voltou de lá?

Ivar suspirou.

– Não, moça. Mas ainda não se passou tanto tempo…

Ela deu as costas ao tenente e encarou Daimar.

Temos que voar para lá! Agora!

Não acredito que vai me fazer tirar a roupa de novo, e na frente de um monte de gente!

Pode rasgar tudo, se preferir. Mas enquanto você perde tempo se preocupando com isso, alguém pode estar em perigo.

Ah, droga!

Surpresos, Ivar, Edizar e o mordomo Kiers observaram Daimar e Cariele se afastarem, apressados.

– Ei, vocês – chamou o tenente. – Voltem aqui!

Kiers soltou uma exclamação abafada ao ver Daimar parar no meio da rua, quase deserta àquela hora, e começar a se despir.

Então, um grande brilho o envolveu e ele cresceu, assumindo a gigantesca forma de dragão, com seu corpo de mais de dez metros da altura coberto por escamas azuladas e brilhantes. A forma draconiana dele era parecida com a de seu pai, porém, sem os apêndices em forma de espinhos pelo corpo. Tinha as mesmas garras afiadas, a mesma cauda pontuda, e os chifres que se projetavam para o alto, mas no geral, a figura era bem menos intimidadora.

Cariele saltou, invocando uma lufada de vento que a impulsionou para cima com força e depois a fez descer suavemente até que estivesse montada no pescoço dele, logo acima dos ombros. Depois de virar a enorme cabeça de um lado para o outro, ele estendeu as impressionantes asas reptilianas para cima e saltou, levantando voo com grande facilidade e afastando-se, na direção da academia.

O tenente pôs as mãos na cintura.

– Filho da mãe! Então ele pode fazer isso! Você sabe quem é a moça?

– Cariele Asmund – respondeu Edizar, fazendo com que o tenente o encarasse, incrédulo. – Ela ficou daquele jeito depois do último ataque.

O tenente voltou a olhar para cima, ainda boquiaberto.

– Pela Fênix! Deve ter passado por maus bocados, coitada. De qualquer forma, parece estar com muita energia, apesar de todas aquelas queimaduras. Sobre o que os dois conversaram com você?

– Eles suspeitam que o ataque foi feito por um baracai.

– Como é? Mas foi feita uma varredura energética na cidade toda, não restava mais nenhum! Quero dizer, exceto ele – o tenente apontou para Daimar, que sumia à distância.

Edizar olhou na direção dos destroços.

– Delinger Gretel foi o responsável direto pela derrota dos baracais. Se tiver algum deles vivo, faz sentido que ataque a família dele. E devo lembrar que essas coisas podem dominar mentes.

– Droga! Cuide do mordomo – ordenou o tenente, enquanto se afastava, chamando alguns de seus soldados.

Kiers estava muito pálido. Ao ver Edizar se aproximar, ele apontou para o céu.

– O que… o que aconteceu com ele? O senhor Daimar virou um…

– Senhor Kiers, acho que precisamos ter uma conversa.

Aquilo tudo ainda era uma experiência muito nova para Daimar. Tanto a sensação gloriosa de poder voar pelo céu da cidade quanto o fato de não se importar que outras pessoas o vissem naquela forma.

Mentalmente, ele sorriu consigo mesmo ao se dar conta de que aquilo não deixava de ser uma manifestação de sua rebeldia juvenil. Afinal, se ele precisava conviver com o fato de ter aqueles poderes, então todo mundo também teria que se acostumar com aquilo.

Você não podia me fazer uma calça mágica? Algo que simplesmente sumisse quando eu me transformasse seria bastante conveniente.

Não existe “magia”. Mas acredito que seja possível criar um construto desse tipo, sim. No entanto, quem teria que fazer isso é você mesmo.

Parece complicado. A propósito, como você sabe que foi um “deles” que destruiu minha casa?

Lembra da “onda poderosa”? Detectei uma assinatura de energia residual idêntica.

Isso quer dizer que eles não só puseram fogo na casa, mas usaram ondas de choque para fazer com que ela desabasse?

Sim, mas acredito que tenha sido uma única onda de choque.

O que quer dizer que o infeliz é bem poderoso.

Provavelmente.

Tem gente no telhado do alojamento.

Cariele segurou com força nas escamas maiores do pescoço dele, que se projetavam levemente para cima em alguns pontos, e fechou os olhos, concentrando-se em tentar “ver” a mesma coisa que ele via.

E ele achou muito estranho uma das coisas que ele “viu”.

Estão usando… pijamas?

E estão conjurando bolas de fogo. Acelere!

Daimar mergulhou na direção da construção, enquanto diversos projéteis místicos eram lançados contra ele. Cariele se utilizou de sua recém-adquirida energia extra para defletir o efeito das explosões até que Daimar estivesse perto o suficiente para abrir a boca e emitir uma poderosa descarga elétrica, que atingiu o telhado da construção, abrindo um rombo na estrutura, ao mesmo tempo em que eletrocutava as três pessoas que estavam ali.

Abrindo as asas, ele reduziu a velocidade da descida e reverteu a transformação enquanto a lufada de vento de Cariele os fez descer devagar os últimos metros até pousarem suavemente sobre o telhado.

Era uma armadilha.

Sim, estavam esperando por nós.

Ela jogou as roupas para ele antes de correr na direção das pessoas caídas, tirando um frasco de vidro do bolso.

São dois instrutores da academia e um oficial.

Ela examinou brevemente cada um dos três, antes de derramar o líquido do frasco sobre eles. Quando Daimar terminou de se vestir, o soldado já tinha recobrado a consciência. E levava as mãos ao pescoço de Cariele, com nítidas intenções assassinas.

No entanto, no estado em que ele se encontrava, ela se livrou facilmente e se afastou, fazendo alguns gestos no ar. O soldado levou a mão ao rosto e gemeu, antes de voltar a fechar os olhos e cair para trás, ficando imóvel.

O que ele tem?

Estava sendo sugestionado. Ainda bem que o sábio Edizar me mostrou como anular isso.

Isso quer dizer que o responsável é mesmo um deles.

Sim – concordou ela, usando o encantamento de anulação nos dois instrutores, antes de se levantar. – Vão acordar depois algum tempo, vamos sair daqui.

Vai custar uma nota consertar essa bagunça.

A culpa é sua, por ainda não ter aprendido a controlar o relâmpago direito.

Ah, nem vem com essa. Você poderia muito bem ter me guiado.

Não vou estar sempre por perto para segurar você pela mão.

Você está afiada hoje, hein?

Ela parou de andar e o agarrou pelo colarinho, colando sua boca à dele para um beijo demorado.

Você foi ótimo, estou orgulhosa. Está melhor assim?

Posso me acostumar com isso.

Não se acostume.

Ela se virou e continuou a descer as escadas, imaginando que nunca em sua vida agira de forma tão impetuosa durante uma situação de perigo. E que também nunca tinha se divertido tanto e nem se sentido tão viva.

Não havia ninguém no segundo piso do alojamento, que estava uma bagunça, as portas todas abertas e objetos pessoais caídos por toda parte. Depois de descerem os últimos lances de escada, viram que o primeiro piso não estava muito diferente.

Estou sentindo pessoas se aproximando do lado de fora.

Cariele sacou seu bastão e removeu dele o simulacro. Daimar olhou para ela.

Com falta de energia? Não quer usar a minha?

Não posso usar sua energia. O máximo que consigo é guiar você para que a use. E não creio que você tenha o nível de afinidade necessário para libertar as mentes deles.

Por que não? Quem enfeitiçou eles foi um baracai.

É, mas não usando sua própria energia.

Ela segurou o simulacro com uma mão e se posicionou com um braço levantado, enquanto dava um sinal de cabeça para ele. Daimar então escancarou a porta e ela correu para fora, enquanto movia o braço no ar.

As nove pessoas que se aproximavam foram tomadas de surpresa e não tiveram tempo suficiente para reagir antes que ela terminasse de completar o movimento, e foram imediatamente afetadas por uma intensa tontura, antes de caírem no chão, inconscientes.

Daimar soltou um assobiu.

– Uau! Nove deles de uma vez? Impressionante.

– Acho que alguns se machucaram ao cair – disse ela, guardando o simulacro. – Vamos trazer eles para dentro.

– Todo mundo de roupinha de dormir, que coisa linda – comentou ele, irônico. – Parecem ser todos estudantes. Conhece alguém?

– Alguns.

Sentindo os pensamentos dela através do elo, ele a olhou, incrédulo.

– Você já saiu com todos eles?!

– Com os do sexo masculino, sim. – Quatro das pessoas inconscientes eram mulheres. – Mas achei que você tinha dito que não ligava para o que eu tinha feito no passado. Vem me ajudar ou não?

♦ ♦ ♦

– Vocês são idiotas?!

Edizar Olger estava recostado numa das paredes do refeitório, enquanto Daimar e Cariele ouviam, sentados, o desabafo do tenente, que andava de um lado para o outro.

– Se sabiam que isso podia ser uma armadilha, por que, em nome da Fênix, decidiram pular direto dentro dela? Podem me responder a isso?

– Desculpe, tenente – disse Daimar, com dentes cerrados. – Mas achamos que nossos amigos estavam correndo perigo.

– E estavam mesmo! Ainda estão, inclusive! Que diferença fez vocês saírem voando pela cidade feito loucos e assustando os cidadãos? Se existe mesmo um baracai à solta por aí, agora ele já sabe que você pode se transformar. O que vai ser agora dos estudantes e monitores que ele sequestrou?

– Tenente – disse Cariele. – Estamos perdendo tempo aqui. Temos que…

– Eu digo o que iremos fazer! Vamos colocar vocês de molho. Os dois vão ficar quietos e deixar os profissionais trabalharem.

Ela estreitou os olhos.

– Eu sou uma profissional.

– É mesmo? Se jogando de cabeça numa situação potencialmente suicida como esta?

Daimar estreitou os olhos.

– E o que vocês, profissionais, vão conseguir fazer contra um baracai? Se não fosse por meu pai, eles já teriam varrido esta cidade do mapa.

– Ora, seu…

Edizar se adiantou e colocou a mão no ombro de Ivar.

– Me permite, tenente?

Ivar olhou para o sábio por um momento e suspirou, virando-se para a parede, na qual encostou a testa, visivelmente alterado.

– Senhor Gretel – disse Edizar. – Precisamos trabalhar juntos aqui. Você tem razão quando atribui a seu pai todo o crédito pela vitória que tivemos dias atrás. Mas não apenas por causa dos poderes dele. Delinger Gretel é um estrategista nato. Ele nos contatou, pediu nossa ajuda, de forma bastante humilde, diga-se de passagem, e usou nossos recursos de maneira brilhante. As únicas batalhas em que ele teve que se envolver fisicamente foram nos confrontos diretos com os baracais, o exército cuidou de todo o resto, levantando informações, protegendo as vítimas e neutralizando aqueles que tinham sido sugestionados. Foi uma estratégia extremamente eficiente, pois Delinger poupou toda a energia dele para as batalhas, conseguindo lutar com força total e aniquilando os adversários rapidamente.

– Meu pai pode ser um dos prisioneiros desse monstro – reclamou Daimar. – Não acha mesmo que eu vou ficar parado pensando em estratégia enquanto…

– Ouça, rapaz, eu estou nesse ramo há muitos anos. O tenente aqui também. Raros são os oficiais que nunca tiveram problemas com seus entes queridos, e nós não somos exceção. Além disso, eu tenho orgulho de poder dizer que lutei lado a lado com seu pai várias vezes. Ele salvou a minha vida em incontáveis situações e nada me agradaria mais do que ter a chance de poder salvá-lo, nem que o papel que eu venha a ter nisso seja mínimo. Mas o fato é que nós realmente somos profissionais. Sabemos o que estamos fazendo, fomos treinados para isso. Já encaramos a morte de frente inúmeras vezes. Então eu lhe pergunto: por quantas situações de vida e morte você já passou em sua vida?

Daimar suspirou, desanimado, e preferiu se manter em silêncio.

– E você, senhora Asmund, sabemos, pelos relatórios da tenente Oglave, que gosta de agir sozinha. Mas dessa vez, devo pedir, encarecidamente, que não nos deixe de fora. O que está em jogo aqui é simplesmente grande demais. Mesmo que não se importe com civis inocentes que possam se ferir no processo, deveria se lembrar que não está mais sozinha. Agindo sem pensar dessa forma está colocando em risco não apenas sua própria vida, mas também a do seu companheiro.

– Desculpe – disse ela, contrariada.

– Ótimo – falou o tenente, virando-se para eles. – Agora que nos entendemos, vamos aos fatos: antes da meia-noite, um dos monitores da academia viajou até a cidade de Calise, especificamente para procurar vocês dois. Ao saber que estavam dormindo e que iriam voltar para Lassam hoje cedo, decidiu deixar vocês descansarem e veio embora, sem nem mesmo deixar um recado. Isso está correto?

– Sim, senhor – disseram Cariele e Daimar, em uníssono.

– Duas horas antes do amanhecer, a academia de Lassam foi invadida por um elemento ainda não identificado e grande parte dos guardas, monitores e estudantes de vários alojamentos foram sugestionados. A fraternidade na qual vocês dois moram parece ter sido o foco central do ataque. Todos os estudantes e monitores que estavam lá desapareceram. Uma hora depois, a mansão Gretel foi atacada, supostamente por estudantes da academia. No entanto, os moradores não foram sugestionados, mas deixados livres para contar a história de como a construção foi queimada e destruída. E então vocês dois apareceram. O sábio Edizar pode continuar a partir deste ponto.

– Sim, senhor – disse Edizar. – Depois que vocês dois saíram correndo, ou melhor, voando, e de forma bastante imprudente, diga-se de passagem, nós pedimos novamente reforços da tropa de Operações Especiais e corremos para cá. Vasculhamos a academia inteira e libertamos várias vítimas de sugestionamento que tentavam impedir que estudantes e membros do corpo docente saíssem de seus alojamentos. Não há sinais de luta em parte alguma, exceto pela destruição que vocês causaram no telhado.

O tenente olhou, sério, para Daimar e Cariele.

– E vocês dois sabem muito bem o que isso tudo significa, certo?

– Sim – respondeu Daimar. – Estão querendo me atingir.

– E nosso inimigo deve estar preparando uma armadilha – complementou Cariele. – Algo provavelmente bem mais sofisticado do que um comitê de recepção com três conjuradores num telhado.

– Exato – concordou o tenente. – Pelos relatos das pessoas sugestionadas, supomos que um único baracai foi o responsável por toda essa confusão. Também é bastante provável que o inimigo não saiba que o exército conseguiu criar um encantamento de anulação do sugestionamento, o que é um grande trunfo a nosso favor. Como o baracai, aparentemente, se fez passar por um de seus antagonistas para atacar sua casa, senhor Gretel, imaginamos que essa seja a melhor pista para encontrá-lo. Se quisesse achar esse tal Bodine Gersemi, onde procuraria?

– Em um prédio velho da parte leste da cidade. Eu soube que ele se mudou para lá junto com vários rapazes que abandonaram nossa fraternidade.

– Muito bem. Me passe o endereço. Vou preparar a operação. Podemos não ser tão bons estrategistas quanto Delinger Gretel, mas vamos mostrar, pelo menos, o quanto aprendemos com ele.

♦ ♦ ♦

Cariele caminhava, impaciente, pelo quintal da casa que estava servindo como base improvisada para a operação, desviando-se dos diversos canteiros de legumes que pareciam não ser regados há semanas.

– Então, é você mesma – disse o tenente Ivar, saindo pela porta da cozinha, que tratou de fechar, antes de aproximar-se dela. – Não a reconheci quando a vi na frente da mansão. Mas agora, olhando para seus olhos, não sei como isso foi possível.

– Tenente, eu tenho um companheiro. Como sabe, eu tenho um elo mental com ele, portanto, se sua intenção for me dizer algo que ele não deva saber, é melhor não dizer nada. Mesmo que eu quisesse esconder algo dele, eu não poderia.

– Eu nem pensaria numa coisa dessas.

– Não sei. No passado, você foi bem… inconveniente.

– Eu já me desculpei por aquilo.

– Então por que me chamou aqui?

Ele estendeu a mão para ela.

– Que tal esquecermos que tudo aquilo aconteceu? Deixarmos o passado para trás? Temos uma missão importante aqui, não quero que velhas rixas venham a nos causar problemas.

– Quem está se lembrando de velhas rixas é você – disse ela, ignorando a mão dele e caminhando em direção à porta.

Ele adiantou-se e segurando-a pela mão.

– Espere!

Nesse momento, a porta da cozinha foi aberta.

– Tenente – disse Daimar, lançando um olhar frio para Ivar. – Os oficiais mandaram avisar que estão todos em posição.

– Ótimo – respondeu Ivar, soltando Cariele. – Vamos resolver logo essa encrenca.

— Fim do capítulo 16 —
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