Valena – Capítulo 16

Publicado em 18/08/2018
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16. Barra Pesada

– Tem certeza de que está bem? – Joara perguntou, pela quarta ou quinta vez.

– Sim, que tal falarmos sobre outra coisa? – Valena resmungou, enquanto brincava com a comida, sem muita vontade de leva-la à boca.

– É que aquela batalha com o tenente foi incrível. Qualquer pessoa que eu conheço estaria acabada depois de gastar tanta energia.

– Talvez sejamos mais resistentes do que vocês.

– Não sei não. Todo mundo daqui que conheci até agora me pareceu muito normal.

– Quantos de nós você viu lutando além de mim?

– O tenente – Joara respondeu, com um sorriso.

Aquilo fez com que Valena soltasse uma risada.

– Ainda não acredito que ele desmaiou daquele jeito. Imagino que eu deva fazer uma visita depois que ele recuperar os sentidos.

– Isso seria muita consideração da sua parte. Posso ir com você?

Valena encarou a outra com o cenho franzido.

– Está interessada nele, por acaso?

– Você está?

– Claro que não!

– Então por que se preocupa?

Sem saber direito se deveria se sentir ultrajada ou divertida com o comportamento da outra, Valena sorriu e sacudiu a cabeça.

– Você às vezes é tão desbocada que fica difícil acreditar que seja mesmo uma princesa.

Joara torceu os lábios, numa expressão irônica que, estranhamente, deixou a filha da mãe ainda mais bonita.

– Eu poderia dizer o mesmo de você, sabia?

Valena levantou a sobrancelha e inclinou a cabeça para o lado, com uma expressão irônica no rosto.

– Por acaso está insultando a herdeira do trono de Verídia?

– Se a carapuça serviu…

As duas se encararam por um momento e depois caíram na risada.

Valena levantou sua taça e esvaziou-a, mais para ganhar tempo e encontrar o que dizer do que realmente por sede. Nem gostava tanto assim daquele tipo de bebida e a tolerava apenas porque servir aquilo parecia ser uma espécie de norma de etiqueta para entreter visitantes.

– Talvez eu venha a abolir essa regra quando assumir o trono – ela acabou dizendo, em voz alta.

– Perdão? – Joara perguntou, surpresa.

– Ah, não é nada, desculpe. Só estava pensando que, quando for imperatriz, pretendo encontrar uma cultura bem mais lucrativa do que as uvas de primavera.

Completamente confusa, Joara resmungou um “hã”.

– Dessa forma, os vinicultores ficarão felizes e não se importarão quando eu proibir a fabricação dessa aan la dabooli karin aqui. – Valena apontou para a garrafa do caro vinho branco.

A princesa a encarou com os olhos arregalados, aparentemente sem entender nada.

– Vai dizer que você gosta dessa coisa? – Valena perguntou, apontando para a taça intocada de Joara.

O rosto da princesa se iluminou.

– Ah, sim, claro… quero dizer… não! Digo… Esta bebida não é algo que eu esteja acostumada, então… creio que ainda seja cedo para emitir uma opinião.

Joara parecia ter perdido completamente a autoconfiança de repente. Como para comprovar aquilo, ela tentou tomar um gole do vinho, mas acabou derrubando a taça. O cristal de que era feita era muito resistente e não se quebrou ao se chocar com o chão, mas seu conteúdo acabou sendo espalhado por todos os lados. Um pouco dele caiu sobre as vestimentas da princesa, que ficou olhando para a mancha no tecido, horrorizada.

Aquilo fez com que Valena se lembrasse dos primeiros dias logo depois que passara a morar no palácio, e do medo enorme que tinha de fazer ou dizer algo errado, ou então, de estragar alguma coisa.

Ao ver que os servos se adiantavam para ajudar, ela levantou a mão e os dispensou com um gesto. Depois de uma breve referência, eles saíram do aposento.

Valena então se levantou e contornou a mesa, aproximando-se de Joara e lhe entregando um guardanapo confeccionado com um fino tecido de cor vermelha.

A princesa agradeceu e começou a se enxugar.

– Desculpe-me por ser tão desastrada.

– O cheiro desse ur xun é pior do que o gosto.

– O quê?

– Estou dizendo que esse vinho, depois de seco, exala um odor tão forte que não vai querer continuar usando essas roupas. Pode acreditar em mim, tive que jogar uma das minhas melhores túnicas fora por causa disso. Venha, vou levar você até seu quarto para que possa se trocar.

Na verdade, aquilo era um pequeno exagero, mas não deixava de ser uma boa desculpa para saírem dali e irem para um ambiente mais informal.

Não que os aposentos reservados para Joara não fossem luxuosos, mas ao menos estariam sozinhas ali.

– Espero que não precise de ajuda para se trocar – disse Valena, assim que fechou a porta atrás de ambas.

– Não preciso, obrigada.

– Ainda bem, porque eu acabaria batendo em você.

Joara olhou para ela, confusa.

– Por quê?

Valena lançou-lhe um olhar de cima a baixo.

– Vocês não têm espelhos em Chalandri? Nunca percebeu o efeito que você causa nos homens e a inveja que provoca nas mulheres?

A princesa a encarou por um instante, perplexa, e então caiu na gargalhada. O acesso de riso foi tão intenso que lágrimas escorreram de seus olhos. Valena começou a se preocupar quando a outra se jogou de costas sobre a cama e levou a mão aos olhos, ainda rindo histericamente.

– Ei, para que tudo isso? Você está bem? Eu nem falei nada tão engraçado assim.

Joara balançou a mão e sacudiu a cabeça, enquanto tentava se controlar. Com um certo esforço, ela se sentou e enxugou os olhos com as costas da mão.

– Desculpe. É que foi um dia tão cansativo… eu estava tão preocupada em fazer vocês todos terem uma boa impressão de mim, estava tão tensa que…

– Com certeza você causou um xasilooni de uma boa impressão.

A princesa deu um sorriso sem graça.

– Você usa umas palavras que eu não conheço…

Valena não precisou pensar muito para se dar conta de ao que a outra se referia.

– O que as pessoas de Chalandri fazem quando batem o dedo mindinho contra o pé da cama? Vai dizer que não soltam os xingamentos mais feios que possam imaginar? Pode ter certeza que eu faço a mesma coisa, a diferença é que a maior parte dos nomes feios que aprendi quando criança eram de outra língua, então…

Joara levou uma mão à boca e arregalou os olhos. Depois voltou a ser acometida por outro acesso de riso. Valena cruzou os braços e torceu o lábio.

– Que bom ver que a estou divertindo.

– Você não é nada do que eu imaginava – Joara admitiu, depois de algum tempo. – Eu estava tão nervosa…

– É mesmo? Não parecia. Além disso, não te contaram minha história? Você é uma princesa desde que nasceu, foi treinada para governar seu país desde menina. – Valena apontou para o próprio rosto, onde ficava a marca da Fênix. – Eu recebi essa coisa apenas alguns anos atrás. Por mais que tentem me ensinar como falar, como andar, como me portar, como me vestir e sei lá mais o quê, parece que nunca é o suficiente. Às vezes tenho a impressão de que tudo isso é inútil. O Professor Romera quase tem um ataque toda vez que deixo escapar uma palavra lemoriana quando ele está por perto. Se tem alguém que deveria estar nervosa, esse alguém sou eu, não acha?

– Eu acho que você é uma das pessoas mais fantásticas que já conheci.

Valena se afastou dela e levantou as mãos.

– Ei, ei, ei! Vamos parar! Não acha que isso está indo rápido demais? Daqui a pouco você já vai estar querendo que eu seja sua melhor amiga.

– Isso deve ser interessante – respondeu Joara, sua expressão se tornando triste. – Ter uma melhor amiga, quer dizer.

Foi a vez de Valena arregalar os olhos.

– Hã… certo, acho que essa conversa está tomando um rumo estranho. Por que não troca logo essas roupas para que possamos voltar lá pra baixo e comer alguma coisa? Estou morta de fome. – Aquilo era verdade, a frustração pelo desenrolar da batalha contra Evander tinha deixado Valena sem fome, mas esse tempo passado com Joara a distraiu e a fez esquecer os sentimentos negativos. Com isso, seu apetite estava retornando com força total.

A princesa deu um sorriso brilhante.

– Perfeito. Me dê um minuto.

Valena foi até a janela e olhou para fora, soltando um suspiro. Então, toda aquela aura de autoconfiança e simpatia de Joara era só uma fachada? Depois da gafe no salão de jantar, ela havia se comportado como qualquer jovem normal da idade dela. Aquilo era surpreendente. Nunca imaginaria que alguém que vivera a vida toda em um palácio pudesse ficar nervosa daquela forma durante uma mera visita diplomática.

Aparentemente, a princesa não era, nem de longe, tão detestável quanto acreditara a princípio. Mas então, quando ela ressurgiu do outro aposento usando uma roupa ainda mais reveladora que a anterior, Valena concluiu que poderia muito bem continuar odiando pelo resto da vida qualquer mulher que tivesse uma aparência como aquela.

Ambas desciam as escadas conversando amigavelmente e rindo, como se fossem velhas amigas, quando foram abordadas pelo conselheiro Dantena.

Aumirai Dantena era um homenzinho careca e barrigudo, que gostava demais de falar, na opinião de Valena.

– Altezas! Finalmente consegui encontra-las! Nosso imperador deseja dirigir-lhes algumas palavras. Poderiam vir comigo, por favor?

Depois de lançar um olhar interrogativo a Joara, que assentiu, Valena respondeu:

– Claro. Sabe se é algo urgente?

– Imagino que sim, Alteza – respondeu ele, enquanto descia os degraus na frente delas. – Ele me instruiu a leva-las até o Salão da Meditação.

Aquele salão era um aposentou muito grande, provavelmente o maior do palácio, onde ocasionalmente eram realizados ritos religiosos, o que, na maior parte das vezes, significava sessões de meditação, onde os fiéis faziam orações silenciosas para a Grande Fênix.

Quatro dos outros conselheiros imperiais estavam diante das portas duplas do salão, no momento fechadas, conversando em tom preocupado com o coronel Narode.

– O que está acontecendo? – Dantena perguntou.

– Ah, Altezas – disse o coronel, com uma leve reverência. – Temo que algo inusitado esteja acontecendo, as portas estão trancadas.

– O imperador está preso aí dentro? – Valena perguntou, franzindo o cenho.

– É o que parece – respondeu o conselheiro Rianam.

– Dantena – disse Narode –, chame o capitão da guarda, vou querer ter uma palavra com ele sobre isso. Rianam, arrombe essa porta.

Sem pensar duas vezes, os conselheiros se apressaram em obedecer às ordens. Dantena saiu correndo pelo corredor, na velocidade máxima que seu corpo pequeno e fora de forma lhe permitia. Rianam se aproximou mais da porta e fez alguns gestos, obviamente realizando algum tipo de encantamento.

Depois de alguns segundos, ouviu-se o ruído de madeira se partindo do lado de dentro e então as portas se abriram.

Valena correu para dentro ao ouvir sons de combate.

Num dos cantos do salão, o imperador Sileno Caraman, usando a Forma da Fênix, conjurava um escudo de chamas para se proteger do que parecia ser um cone de frio, saído das mãos de uma criatura muito estranha. Tinha forma humanoide, mas a pele era de um tom de dourado muito similar à cor da marca do rosto de Valena, além de apresentar protuberâncias que pareciam chifres em diversas partes do corpo. Não parecia usar roupas, mas estava envolta em uma aura energética tão intensa que não era possível ver muito claramente detalhes de seu rosto ou de seu corpo. O efeito final era um tanto andrógino.

Os conselheiros soltaram diversas exclamações de espanto.

Enquanto Valena ficava paralisada, sem saber direito o que fazer, o imperador revidou o ataque, lançando uma bola de fogo que atingiu seu oponente em cheio, causando uma explosão que fez com que até as fundações do palácio estremecessem. O estrondo foi tão forte que Valena e os outros tiveram que levar a mão aos ouvidos, tentando, inutilmente, se proteger da súbita dor e desconforto que sentiram.

Enquanto se recuperavam, a batalha prosseguia, cada vez mais intensa.

Valena levou a mão à cintura e só então se lembrou de que não estava armada. Aproximou-se então do coronel, que assistia, boquiaberto, ao embate e, sem nenhuma cerimônia, desembainhou a espada dele.

– Valena, o que você…? – Joara não conseguiu concluir a pergunta.

Naquele momento, a criatura dourada pareceu se dar conta da presença deles e lançou um daqueles fulminantes ataques energéticos em sua direção.

Apesar da exaustão que sentia, Valena tinha toda a intenção de ativar seus próprios poderes e se juntar ao imperador na luta, mas nunca teve essa oportunidade. Ela percebeu duas coisas acontecendo ao mesmo tempo, mas não havia tempo para se proteger de nenhuma delas. Uma era o ataque energético da criatura, que parecia uma enorme e azulada língua de fogo, aproximando-se dela em altíssima velocidade. E a outra era um círculo esverdeado que surgiu do chão e se projetou para cima, envolvendo a ela e aos outros. Quando o fogo azulado atingiu a energia verde, todo o ar ao redor deles pareceu ganhar vida e, de repente, era como se estivessem mergulhados em uma forte correnteza, onde ondas de energia passavam por todos os lados, parecendo disputar entre si.

As energias místicas não lhes fizeram mal, mas aquele show de luzes teve um incrível efeito desorientador. Valena levou vários segundos para voltar a identificar as formas ao seu redor e mais outros tantos para perceber que, de alguma forma, tinham ido parar do lado de fora do salão.

Joara e os conselheiros estavam tão atordoados que estavam com dificuldade para se manter em pé.

– Aquele desgraçado está muito mais poderoso do que antes – O coronel esbravejou, antes de se virar para Rianam, que sacudia a cabeça e piscava os olhos. – Onde está a Godika Geonika?

– “Matador de deuses”? – Valena se intrometeu na conversa, ao reconhecer as palavras lemorianas. – Isso é algum tipo de arma? Vocês conhecem aquele monstro?

– Sim, alteza, e essa arma é a única coisa que pode encerrar essa batalha – explicou o coronel. – Rianam?

O conselheiro fez diversos gestos dramáticos no ar, parecendo cada vez mais frustrado.

– Não consigo ativar – reclamou ele, depois de um tempo. – Parece que alguma coisa drenou a energia do artefato, ele não responde!

– Maldição!

Valena nunca tinha visto o coronel tão irritado antes.

– Eu não estou ouvindo mais nada – constatou a princesa. – Será que a luta acabou?

Eles se viraram para a porta do salão e ouviram o som de passos se aproximando. A tênue esperança que Valena teve de ver o rosto amigável e sorridente de Sileno Caraman foi esmagada quando um rosto dourado disforme, sem nariz ou boca e com olhos de um branco brilhante surgiu e olhou em sua direção.

A criatura então levantou a mão na direção deles, aparentemente com a intenção de conjurar outro daqueles ataques energéticos, no entanto, nada aconteceu. O monstro então olhou para as próprias mãos por um instante e soltou o que pareceu ser um guincho. Um som agudo e desagradável que lembrava o grito de dor de um porco.

Concluindo que aquela, provavelmente, seria sua única chance de fazer algo de útil, Valena tentou ativar seus poderes, mas, frustrada, percebeu que a única coisa que a exaustão lhe permitia era invocar a habilidade conhecida como arma flamejante, fazendo com que chamas brotassem da espada emprestada. Concluindo que teria que se conformar com aquilo, correu na direção do monstro, usando, pela primeira vez, o grito de guerra do imperador Caraman.

– Por Verídia!

O monstro, no entanto, era envolvido pelo que parecia ser uma aura de medo. Ao se aproximar dele, Valena sentiu um terror sem precedentes invadi-la. A espada flamejante escapou de suas mãos enquanto ela tropeçava e caía. A sensação de desespero era tão grande que não conseguiu fazer nada além de abraçar os próprios joelhos, em posição fetal.

Quando finalmente voltou a si, ela estava em seus aposentos, cercada pelos curandeiros imperiais. Mais tarde ficaria sabendo que o monstro tentou ataca-la fisicamente, mas que alguma barreira energética surgiu entre os dois, impedindo que ele avançasse. Então a criatura havia soltado outro daqueles guinchos agudos e se afastado correndo, tornando-se imaterial e atravessando uma parede, desaparecendo sem deixar pistas.

Apesar daquele comportamento estranho, no entanto, a criatura, aparentemente, havia cumprido seu objetivo. Dentro do salão, o imperador de Verídia havia exalado seu último suspiro.

♦ ♦ ♦

– Eu não acredito que fui tão estúpida! – Valena esbravejou. – Eles não queriam usar o artefato para derrotar o monstro. Eles estavam com medo do imperador vencer a batalha e queriam usar essa coisa para terminar o serviço!

– Acalme-se – disse Sandora, passando-lhe um cálice de água. – Respire fundo e beba um pouco disso.

– É fácil mandar eu “me acalmar” quando não faz ideia de o que aquela coisa me fez – reclamou Valena, antes de esvaziar o cálice.

– Sandora tem razão – falou Leonel Nostarius. – O passado não pode ser modificado. Podemos aprender com ele, mas não há benefício em perder a calma ou a compostura. Você disse que uma luz esverdeada surgiu e protegeu a todos do ataque da criatura. Tem alguma ideia do que causou aquilo?

Depois de respirar fundo algumas vezes, Valena olhou ao redor. Estavam em uma pequena sala do subterrâneo do palácio, para onde Sandora a havia arrastado, bem como a Leonel, para pedir maiores explicações sobre o tal “artefato matador de deuses”.

Nem mesmo o ato de traição cometido por Narode e pelos conselheiros era tão irritante quando sua própria reação àquele monstro. Mesmo hoje, mais de um ano depois, a mera lembrança do que ocorreu naquele dia ainda era capaz de lhe dar calafrios e deixa-la com as pernas trêmulas. O terror que sentira fora tão intenso, tão violento, que levou dias para conseguir voltar a andar e falar normalmente, sem tremer ou gaguejar como uma idiota.

E pensar que o imperador conseguira lutar de igual para igual contra aquela coisa. Por mais que treinasse, dificilmente conseguiria chegar ao mesmo nível dele.

– Só consigo pensar numa explicação – ela respondeu, finalmente. – Favor divino. Tenho certeza que o imperador usou seu último recurso para tirar os poderes da criatura, ou para impedir que ela ferisse qualquer outra pessoa.

– Faz sentido – concordou Leonel. – Soa como algo que Caraman faria. Como o favor divino não pode trazer benefício ao próprio conjurador, isso explica porque ele não conseguiu se salvar.

– Não entendo como um poder tão grande como esse favor divino pôde permanecer por tantos séculos em segredo – disse Sandora.

– Ei, estamos falando da vontade de uma das Grandes Entidades – retrucou Valena.

– Essa entidade não pareceu se importar muito de você ter contado sobre esse poder para nós dois antes da incursão à Sidéria.

Valena suspirou.

– É, eu devo ter colocado vocês em risco fazendo isso.

– Pessoas morreram aqui, hoje – lembrou Sandora. – Desobedecendo a Fênix ou não, estaríamos todos em risco de qualquer forma.

Nesse momento, uma pequena batida na porta chamou-lhes a atenção. Leonel se levantou e foi atender.

Enquanto isso, Sandora voltou a olhar para Valena.

– Esse seu relato revelou detalhes bastante esclarecedores sobre nossos inimigos, mas não em relação ao artefato em si.

– Eu não tenho mais informações. Aquela foi a única vez em que falaram sobre ele. Exigi explicações depois, mas fui completamente ignorada. Parece que o artefato tinha poder suficiente para derrotar o imperador, mas fora isso, não tenho ideia do que ele seja.

– Creio que eu possa ajudar – disse Luma Toniato, entrando na sala e se aproximando, enquanto Leonel voltava a trancar a porta atrás dela.

Valena franziu o cenho.

– Você sabe o que é a Godika Goenika?

– Sim. Fui eu quem a criou.

♦ ♦ ♦

Falco Denar estava em um dos piores dias de sua vida. Não havia dormido na noite anterior, enquanto ajudava aqueles que pensava serem seus aliados a realizar um ataque suicida ao palácio imperial. E por quê? Porque ele acreditou em uma história fantasiosa sobre a imperatriz estar de posse do Furacão do Deserto. E sobre ela ser uma menina mimada e incompetente que mal sabia segurar uma espada.

Pois bem, a menina incompetente não apenas foi capaz de desarmá-lo com a maior facilidade – mesmo ele sendo um dos melhores espadachins do deserto –, como também quase conseguiu derrota-lo com as mãos nuas, sem precisar usar nenhum dos poderes que a tal entidade havia lhe concedido.

Mas o mais perturbador foi o fato de ela negar estar de posse do artefato, e de ele acreditar nela. Talvez estivesse mesmo se tornando um idiota romântico, como alguns já haviam lhe dito, alguém capaz de acreditar em qualquer coisa que lhe contavam. Mas o fato é que ela lhe parecera muito sincera. Que razão ela poderia ter para mentir? Já seus supostos aliados, por outro lado, tinham boas razões para querer enganá-lo.

De qualquer forma, ele conseguira fugir do palácio, mas a “menina incompetente” mandou uma tropa em seu encalço. E não qualquer tropa, mas sim os mais tenazes, espertos, audaciosos e irritantes perseguidores de que tinha notícia. Nunca tivera tanta dificuldade em sua vida para despistar alguém. Foi obrigado a apostar todas as suas cartas em uma manobra arriscada, voltando à capital. Não era possível que alguém pudesse prever que fizesse isso. Agora era só conseguir acesso a uma daquelas plataformas de transporte e desapareceria daquele país para sempre.

O uso das tais “pontes de vento” era incrivelmente simples. Tudo o que precisava era jogar um pergaminho no chão para ativar o mecanismo, e estaria bem longe dali.

Não teve muita dificuldade para encontrar um comerciante que pretendia viajar para o norte e “se apropriar” de alguns de seus itens, incluindo o pergaminho de ativação da ponte. Pelo visto, cidadãos do império eram tão fáceis de roubar quanto os de Chalandri.

Ele se encaminhava calmamente para uma das plataformas de vento da praça principal de Aurora quando um dos guardas que estava por ali se adiantou e lhe apontou um martelo de batalha.

Preparando-se para correr, ele se virou, apenas para se ver com uma lâmina encostada em seu pescoço.

– Parado, em nome do império! – Laina Imelde gritou, se aproximando com espadas em punho.

Como aqueles malditos conseguiram chegar tão perto dele sem que percebesse?!

Falco tentou se afastar do punhal de Loren apenas para topar novamente com Iseo, que removia o elmo fechado e sorria para ele, balançando o martelo de batalha de modo ameaçador. Virando-se para o outro lado, viu Beni o encarando, enquanto dava soquinhos na palma da outra mão. Um pouco mais para a direita estava Alvor, já pronto para alvejá-lo com mais uma daquelas malditas flechas.

– Nos faça um favor – disse a capitã. – Resista. Eu e meus amigos estamos tão satisfeitos por termos sido feitos de trouxa tantas vezes num só dia que estamos muito ansiosos para compartilhar nossos sentimentos com você. Vamos lá. Só um movimento em falso. Não sabe o quanto isso vai nos deixar felizes.

♦ ♦ ♦

Luma Toniato lançou um olhar entre raivoso e desesperado para o homem com o qual convivia há vários meses.

– Por que você precisa ir?

– Grande parte do que está acontecendo é responsabilidade nossa – respondeu Leonel Nostarius.

Minha, você quer dizer.

– Eu era o líder da Guarda Imperial. Eu tomei decisões equivocadas em relação a Narode e aos conselheiros. Quanto a você, não estava em pleno controle de suas faculdades. Mesmo que alguém mais soubesse do que aconteceu, ninguém iria culpa-la.

– Eu poderia ter acabado com tudo muitos anos atrás. Assim, nada disso teria acontecido.

– Não. Eu é quem poderia ter acabado com tudo. Mas decidi optar por não fazer isso.

Ela sacudiu a cabeça e desviou o olhar para o pátio do palácio, onde os soldados se preparavam para o ataque.

– E, mesmo na presente situação, não me arrependo de nada – continuou ele.

Ela o encarou com lágrimas nos olhos.

– Não vá. Sinto que, se você for, algo ruim irá acontecer. Estamos velhos, Leonel, perdemos a maioria de nossa vitalidade no incidente. Se você tentar usar seus poderes, seu corpo pode não aguentar.

– Isso não é uma opção, Luma. Você me conhece há mais de vinte anos, sabe que não tenho escolha. Além disso, também sabe que, em meu lugar, faria a mesma coisa, ou talvez, algo mais arriscado ainda.

– Como pode ser sempre tão frio?

Ele a encarou por um instante e levantou as mãos com as palmas para cima.

– Olhe para isso – disse ele, indicando o tremor em seus velhos e calejados dedos. – Eu não sentia medo por mim mesmo há mais de quarenta anos. Estou tão assustado que nem sei direito como lidar com isso. Mas não posso deixar de fazer o que é certo. Se eu fizer isso, aí sim, meu maior inimigo terá triunfado.

Ela o abraçou e encostou a cabeça no ombro dele.

– Eu sinto muito.

Ele retribuiu o abraço.

– Pelo quê?

– Por nunca ter conseguido livrar você do peso dessa espada. Se eu tivesse obtido êxito, você não teria que…

– Pare – ele a interrompeu. – Não adianta ruminar o passado agora. Você se sente responsável? Ótimo. Use isso de forma construtiva. Junte-se aos alquimistas de Mesembria. Encontre uma forma de usar o poder daquele machado.

Ela levantou a cabeça e se afastou dele, de olhos arregalados.

– O quê?! Não pode estar falando sério!

– Se eles tiverem mesmo encontrado uma forma de energizar a Godika Goenika, precisaremos de algo de igual poder se quisermos ter alguma chance.

– Eu não quero chegar perto daquilo! Como você pode sugerir colocar uma coisa daquelas nas minhas mãos?

O misterioso machado recuperado por Evander, que parecia ter um potencial energético fora de qualquer escala, havia sido enviado para Mesembria logo que o Dragão concordara em unir novamente sua província ao império. Essa tinha sido uma das mais acertadas decisões da imperatriz, pois, se tivesse ficado no palácio, o artefato agora estaria nas mãos do inimigo.

Leonel se aproximou de Luma e envolveu-lhe o rosto com as mãos ainda trêmulas, antes de dar-lhe um breve beijo nos lábios.

– Não há ninguém mais adequado. Os sábios podem levar décadas para ter algum progresso na análise daquilo. Mas com sua ajuda…

– Eu nem mesmo tenho mais meus poderes!

– Luma, seus poderes nunca foram, nem de longe, a coisa mais impressionante em você. Converse com Gretel. Se quer realmente assumir a responsabilidade por alguma coisa, essa é a forma correta de fazê-lo. ­– Ao ver que o general Camiro lhe fazia um sinal, pedindo para que se aproximasse, ele a soltou. – Tenho que ir agora.

Enxugando as lágrimas, Luma respirou fundo, tentando se acalmar. Então ficou olhando enquanto Leonel se afastava. Estaria mesmo disposta a voltar a se arriscar? Então percebeu a forma como seu amado se movia. Desde o incidente de Aldera que ele não tinha mais a vitalidade de antes, mas hoje parecia realmente estar sentindo o peso da idade. Tinha uma postura um pouco encurvada e favorecia de leve a perna direita ao caminhar. Ele não estava em boas condições e sabia muito bem disso. Mesmo assim seguia em frente, com sua costumeira coragem. Talvez fosse a hora de ela deixar de sentir pena de si própria e fazer algo de útil.

Ela levantou a cabeça e suspirou.

Por mais difícil que isso seja.

— Fim do capítulo 16 —
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