Lassam – Capítulo 17: Ofensiva

Publicado em 28/05/2017
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17. Ofensiva

A casa em que Bodine estava morando com seus amigos não chegava a ser uma mansão, mas estava bem perto disso. Tratava-se de uma construção relativamente nova, de três pisos e feita de pedra em vez de madeira como outras ao redor. Devia ter espaço mais do que suficiente para umas três famílias morarem dentro, o que não era de se surpreender, afinal, os pais daqueles rapazes eram pessoas de posses.

Cariele não sabia exatamente o que esperar, mas com certeza não era ver o delinquente que destruíra a mansão Gretel recostado na parede ao lado da porta, olhando para eles como se não tivesse nenhuma preocupação na vida.

– Ele está nos esperando – disse ela.

– Não é “ele”, é “ela” – revelou Daimar.

– Como é?

– Deve ser uma baracai. E parece bastante ferida.

Cariele fechou os olhos e tentou enxergar através dos sentidos dele. De uma forma confusa, as imagens de Bodine e de uma morena bem mais baixa do que ele se sobrepunham. A garota não parecia ter mais do que quinze anos de idade e dava para ver manchas negras em quase todas as partes do corpo que estavam expostas pela roupa, larga demais para ela. Ela usava as mesmas roupas de Bodine, uma camisa sem mangas e uma calça velha, cujas pernas pareciam ter sido rasgadas e arrancadas pouco abaixo dos joelhos.

– Então é assim que os baracais enxergam uns aos outros? Conveniente. Podem se reconhecer não importa que aparência assumam.

A novidade daquilo tudo não deixava de ser fascinante para ela. Os sentidos especiais de Daimar realmente eram incríveis. Ela podia “ver” tudo o que estava acontecendo ao redor deles de olhos fechados. Não havia nem mesmo a necessidade de se focar numa única direção específica: ela podia dizer tudo o que havia à sua frente, atrás, à direita, à esquerda e até mesmo acima deles, sem precisar mover a cabeça.

– Não sei – replicou Daimar. – Dizem que sou só um “meio” baracai, então não dá para ter certeza se é assim mesmo que eles enxergam.

– Já que está esperando por nós vamos ver o que “ela” quer – disse o tenente.

Caminharam pela rua, com cuidado, atentos aos arredores, acompanhados por três soldados, de armas em punho. Cariele também segurava seu bastão enquanto Ivar carregava uma grande lança com ponta dourada.

A baracai não parecia nem um pouco impressionada ou temerosa. Olhava para eles com uma expressão vazia, como se não tivesse emoção nenhuma.

Daimar já enfrentara negociações tensas antes. Afinal, vinha ajudando a gerenciar os negócios da família há anos. Já tivera que apaziguar brigas, acalmar ânimos, cobrar favores de concorrentes, já chegara até mesmo a ter que despedir pais de família, o que considerava a pior coisa que alguém poderia fazer naquele ramo. Mas nenhum negócio sobrevive apenas fazendo caridade, e quando ele tinha que escolher entre manter a estabilidade financeira de uma família ou manter o negócio lucrativo a ponto de conseguir pagar dezenas de outros empregados, não havia escolha. Não quando os demais empregados eram mais produtivos e também tinham família para sustentar.

Ele já imaginava que o encontro com aquela criatura à sua frente seria tenso. Ela devia ser uma das últimas sobreviventes da tribo, talvez até mesmo a última. Da sua tribo, ele tinha que lembrar a si mesmo, pois por mais que se esforçasse, não conseguia sentir nenhuma ligação com aquele povo. Claro que amava o pai e tinha adorado a mãe, mas ele sempre havia vivido no seio do império. Ele gostava do império, apesar de todos os problemas. Havia muita maldade no mundo, mas era evidente que a maioria das pessoas fazia um esforço genuíno para cuidar uma das outras e gerar inovações que viessem a melhorar a vida de todos cada vez mais.

Ele simplesmente não sentia afinidade com um povo que decidiu se afastar e se isolar do resto da humanidade apenas por causa de seus poderes. Não quando haviam pessoas ali dispostas a apoiá-lo, mesmo se sentindo um pouco apreensivas em relação a ele, como aqueles soldados. Estavam todos ali, dispostos a lutar a seu lado, da mesma forma como tinham estado ao lado de seu pai.

E, lógico, havia Cariele, que não apenas o aceitava, como o amava pelo que ele era. Ela o incentivava a se soltar, a conhecer seus poderes, a aceitar a si próprio. E estava disposta a ficar ao lado dele, independentemente do que acontecesse. Era impossível saber se conseguiria passar por toda essa provação sem enlouquecer, caso ela não estivesse com ele.

No momento, ali estava ela, andando a seu lado, de olhos fechados, utilizando os sentidos dele para avaliar toda a área ao redor. E aquilo despertou uma emoção tão forte dentro dele, que pela primeira vez se sentiu realmente grato por ser descendente daquela raça. Aquela ligação especial com ela lhe parecia a coisa mais vital do mundo no momento. Até mesmo a leve sensação de embriaguez que o aroma constante dela em suas narinas causava havia se tornado uma parte especial e necessária dele, apesar da distração que aquilo lhe causava, às vezes.

A cerca de dez metros de distância de “Bodine”, Daimar fez um gesto de mão pedindo que todos parassem.

– Onde estão meus amigos? – Daimar não queria soar agressivo ou nervoso, pois não era bom demonstrar esse tipo de sentimento em uma negociação. Mas era bem difícil se controlar.

A estratégia de Ivar era que Daimar tentasse conversar com a baracai, caso tivesse oportunidade. Era provável que a única pessoa que membros daquela raça pudessem dar ouvidos seria o filho de Delinger.

– É surpreendente que você possa sustentar uma aparência tão saudável – respondeu ela, usando uma voz rouca e feminina, que parecia bastante estranha saindo da boca de Bodine. – Há quanto tempo os humanos vêm o alimentando com sangue? Ou você simplesmente o suga do corpo deles quando tem vontade?

Os oficiais arregalaram os olhos, espantados com a desagradável colocação, enquanto Cariele apertava os punhos ao redor do bastão, furiosa. Daimar estreitou os olhos. Os baracais não deviam saber sobre o sangue. O alquimista tinha garantido que aquele segredo, pelo menos, tinha sido guardado.

– Eu não sou como você, e você sabe disso – retrucou Daimar. – Meu pai natural é um humano. Todo o sangue que eu preciso é o meu próprio.

Ele não tinha ideia se aquilo era mesmo verdade, mas precisava de todos os pontos de vantagem que pudesse conseguir.

– Você é uma aberração, é uma afronta a tudo pelo qual nosso povo lutou durante séculos. Sua existência é simplesmente inadmissível. Mas é um erro que agora será corrigido. Como Delinger não está mais entre os vivos, não restou mais ninguém capaz de protegê-lo, ou à sua cidade, de nossa justa fúria.

Daimar podia sentir a tensão vinda dos soldados ao ouvirem aquilo, mas não via razão para ele mesmo se alarmar. A ideia de perder seu pai era horrível, mas depois de tudo o que esse monstro à sua frente tinha feito, ele duvidava muito de que qualquer coisa que dissesse pudesse ser verdade.

O local estava completamente cercado por soldados, apesar de não ter ninguém à vista além deles. Daimar podia sentir a presença ao redor dele e tinha certeza de que a baracai também podia. Doente como estava, ela não teria a menor chance numa luta direta contra metade do exército de Lassam, ainda mais com ele e Cariele ali. A infeliz deveria saber muito bem disso.

– Ninguém está interessado em suas bravatas – disse ele. – Seu único trunfo são os estudantes que você sequestrou. Deixe eles irem e ninguém fará mal a você.

O rosto de “Bodine” se modificou pela primeira vez, mostrando uma expressão ironicamente desafiadora.

– Me acusa de lançar “bravatas”, enquanto as lança você mesmo. Por que os aleives que saem da sua boca seriam dignos de atenção?

– Porque eu sou o filho de Delinger Gretel.

– Por acaso é ignorante do embuste que Delinger manteve por tanto tempo, para sua própria diversão? Ele não era capaz de procriar, por isso permitiu que Norel tivesse relações com outro. A palavra que melhor define você é “bastardo”. Ou os humanos já se degradaram tanto a ponto de isso ser tão comum que nem lembram mais o significado dessa palavra?

Ora, ora, e não é que a cretina sabia falar grosso?

– Se sua intenção é me irritar, pode esquecer. Delinger me ensinou tudo o que eu sei, inclusive a não me intimidar diante de ninguém. E também, através do exemplo, ele me ensinou a nunca mentir. Desista e liberte meus amigos e você estará livre. Podemos até mesmo ajudar a procurar uma cura para sua doença, se quiser.

– É fato que uma maldição divina não pode ser removida. Apregoar o contrário apenas mostra o seu desconhecimento sobre fatos a que ousa se referir.

– Nada é impossível. Se algum fato resiste a nossas tentativas de mudá-lo, é meramente porque não temos conhecimento suficiente sobre ele.

Aquela era a frase preferida de Delinger. Daimar o ouvira dizer aquilo inúmeras vezes desde que se conhecera por gente.

A expressão no rosto da criatura agora era de ódio. Daimar, aparentemente, não era o único que tinha ouvido Delinger dizer aquilo.

– Não admito que se dirija a mim usando as palavras de um traidor imprestável! Quanto conhecimento ele conseguiu adquirir depois de viver tanto tempo entre essa raça imprestável? Ou se esqueceu que o fato de ter se tornado a meretriz dele não serviu em nada para sua progenitora?

De onde vem tanta raiva, afinal? – Daimar pensou.

Ela está tentando ganhar tempo.

Cariele, pare de apertar esse bastão, está machucando suas mãos, até eu estou começando a sentir dor.

Não se distraia.

Quem está me distraindo é você. Apenas ignore ela e relaxe.

Em voz alta, Daimar disse:

– Escute, moça, não sei como sabe tanto, ou pensa saber, sobre a vida de meus pais, mas sua opinião sobre mim ou minha família não me incomoda. Então por que não diz logo alguma coisa que realmente interessa? Onde estão meus amigos?

– Como pode se preocupar tanto com humanos? Se soubesse do que são capazes, não suportaria respirar o mesmo ar que eles!

– Eu sei do que são capazes. Na verdade, eu sei muito bem do que todos nós somos capazes. Afinal, todos somos humanos, incluindo eu e você.

– Não ouse me comparar a essa raça maldita! Você não sabe nada sobre mim ou meu povo!

– Eu sei que vocês acreditam numa velha lenda que diz que uma entidade concedeu poderes especiais a um grupo de humanos, e que esse grupo decidiu se isolar dos outros.

– A partir do momento em que recebemos a dádiva nos tornamos muito superiores aos humanos!

– A meu ver, não há diferença alguma. Vocês sentem dor, sentem raiva, sentem orgulho, e muitas outras coisas, igual a qualquer pessoa. Acha que meu pai teve que fingir algo para viver no império? Pois saiba que ele nunca precisou fazer nada além de ser quem ele era. Acha que esses poderes que temos são especiais? Pois existem pessoas aqui muito mais poderosas que nós.

– Compreendo. Delinger o aliciou a acreditar em todo esse despropósito. Não há salvação para você, assim como não houve para ele. – “Bodine” se virou e abriu a porta da casa, antes de lançar um olhar para Daimar por sobre o ombro. – Se quer seus… amigos de volta, então venha buscá-los.

Tendo dito isto, ela entrou e encostou a porta sem muito cuidado, deixando-a levemente entreaberta.

Daimar olhou para o tenente, com uma expressão frustrada no rosto.

– Você foi muito bem – disse Ivar. – Ela não queria negociar, só humilhar e ofender você.

– Ela pareceu ora indiferente, ora irritada, ora desesperada – comentou Daimar. – Não acho que esteja raciocinando direito. É impossível prever o que nos aguarda se formos atrás dela.

– Não temos escolha – declarou Cariele.

– Não, não temos – concordou Ivar, virando-se para um dos soldados. – Mande todos se aproximarem e ficarem a postos. A qualquer sinal de problemas, entrem em ação. O sábio Edizar está no comando a partir de agora.

– Sim senhor – disse o rapaz, saindo em disparada.

O tenente fez um gesto na direção da porta, olhando para Cariele.

– Senhora Asmund, se quiser fazer as honras, estaremos logo atrás de você.

♦ ♦ ♦

Para Cristalin Oglave, a alquimia era uma ciência fantástica. Tudo o que existia era composto por uma parte física e uma parte imaterial, que também era conhecida como “energética” ou “mística”. Modificações na composição ou no volume de uma das partes afetava diretamente a outra, o que permitia, em termos leigos, “transformar” um material em outro.

Claro que, na prática, a coisa não era, nem de longe, tão simples. Mas com o devido conhecimento e possuindo o grau de afinidade adequado, uma pessoa podia fazer, praticamente, qualquer coisa.

A chamada “arte da cura”, tão estimada pelas pessoas e praticada em hospitais por todo o império, não deixava de ser um processo alquímico, que consistia em equilibrar a ligação entre o corpo e o espírito, de forma a fazer com que os tecidos se regenerassem e a saúde se restabelecesse.

Considerando que o espírito humano, também conhecido como “alma” podia ser uma fonte infinita de energia, o processo alquímico da cura podia saltar várias etapas, de forma a fazer com que muita gente pensasse que tratar ferimentos fosse algo completamente diverso de criar ou consertar uma arma encantada. Mas, na verdade, tratava-se de fenômenos bastante similares, regidos pelas mesmas regras.

E, no momento, Cristalin estava determinada a, mais uma vez, confirmar aquele fato.

Ela conhecia muito pouco das nuances e práticas modernas da arte da cura. Nunca se interessara muito pela disciplina, uma vez que a afinidade dela era muito maior para outras coisas. Ela poderia ter se tornado uma alquimista profissional se quisesse, mas devido a uma série de acontecimentos, ela acabou entrando para o mundo militar e, inesperadamente, acabou tomando gosto pela coisa. Assim, passara toda a sua vida adulta concentrada em proteger e servir, usando seus conhecimentos e habilidades para ajudar pessoas e prender criminosos.

Mas, naquele momento, quem mais necessitava da ajuda dela era ela própria.

A dor do tornozelo vinha ficando mais forte a cada dia e o inchaço era visível. Poções curativas não podiam fazer muito além de postergar a morte dos tecidos, o que certamente levaria à necessidade de uma amputação. E o estoque que ela tinha não duraria por muito tempo, então era necessário resolver aquele problema, e rápido.

O som de batidas ritmadas podia ser ouvido não muito longe dali. Os nômades já deviam ter montado seu novo acampamento. Ficar tão perto daquele povo era muito perigoso. Eles pareciam pessoas normais, eram capazes de criar ferramentas e armas, conseguiam até mesmo construir casas de madeira, mas fora isso, pareciam animais. Tinham costumes estranhos, como por exemplo o que ela chamava de “batucada”, onde pelo menos um deles ficava batendo em troncos de madeira ocos ou em pedaços de bambu o tempo todo, dia e noite. Eles não falavam, interagiam o mínimo possível uns com os outros e eram extremamente agressivos com qualquer coisa que lhes parecia estranha. Ela e Delinger tiveram um breve encontro com eles logo que chegaram a esse lugar e, ao perceber que não havia como dialogar, tiveram que fugir para evitar um conflito.

Ao ouvir barulho de passos curtos e rápidos, Cristalin afastou ligeiramente a folhagem e viu que uma das nativas tinha terminado a coleta de frutas das árvores próximas e estava, provavelmente, voltando para junto dos outros. Ela não devia ter mais do que dezoito anos e tinha a pele escura, mas não necessariamente negra, a cor tendia mais para uma espécie de cinza azulado. Tinha o corpo pequeno, com uma estatura bem abaixo da média das mulheres do império. Vestia-se com peles de animais costuradas de forma bastante rudimentar, com algum tipo de cipó. Nos braços ela carregava uma espécie de bolsa, também feita de forma rudimentar com couro e cipós. A bolsa estava cheia de frutas e raízes.

Ela parecia apressada e tinha uma expressão fechada no rosto, como se não estivesse satisfeita com algo, mas o que realmente importava para Cristalin é que a nativa tinha o item que ela precisava. E, melhor de tudo, estava sozinha.

Então, saindo dos arbustos, exclamou:

– Ei!

A moça virou-se e, ao vê-la, imediatamente contorceu o rosto numa expressão de fúria. Mas não teve tempo suficiente para nenhuma outra reação, pois foi atingida entre os olhos pela pequena bola que Cristalin arremessou contra ela. Com o impacto, a bolinha estourou, liberando uma pequena nuvem de um pó fino, cor de areia.

Imediatamente, a nativa levou a mão aos olhos, soltando a bolsa que segurava e fazendo com que a mesma se espatifasse no chão espalhando frutas para todos os lados. Então, depois de ter inalado o pó algumas vezes, os membros da mulher começaram a ficar pesados e ela caiu de joelhos, antes de perder a consciência e desabar no chão.

Cristalin aproximou-se, andando de forma desajeitada com as muletas no terreno irregular. Olhando para ambos os lados, ela abaixou-se devagar e pegou a sacola de couro do chão, sacudindo-a para que o restante do conteúdo caísse. Para sua sorte, além daquele couro, dois dos demais ingredientes que ela precisava também estavam ali, o que lhe facilitaria um pouco as coisas.

Ela pôs as duas raízes sobre a sacola e enrolou o couro, enfiando o embrulho improvisado dentro da própria camisa. Então voltou a agarrar as muletas e se levantou, afastando-se da nativa o mais rápido que podia.

Infelizmente, não conseguiu chegar muito longe.

Nem dez minutos haviam se passado quando ela ouviu um urro furioso e passos correndo em sua direção. Olhou para trás e viu a expressão raivosa da nativa.

Droga! Ela devia ter dormido por horas!

– Afaste-se!

A moça a ignorou e continuou se aproximando.

– Eu avisei – disse Cristalin, largando uma das muletas e pegando algo do bolso, que atirou no chão entre elas.

Subitamente, o solo explodiu, lançando terra e pedregulhos para todos os lados, além de levantar uma pequena nuvem de fumaça. A nativa foi atingida em cheio pela explosão, sendo lançada para trás com força.

Para surpresa de Cristalin, no entanto, a mulher voltou a se levantar e avançar na direção dela, ignorando completamente os inúmeros ferimentos que sangravam profusamente.

Será que essas pessoas não sentiam dor? Não tinham senso de sobrevivência? Nem mesmo animais irracionais continuariam atacando depois de serem feridos daquela forma.

Encurralada, Cristalin sacou uma pequena adaga de um bolso escondido e a arremessou para a frente com toda a força que tinha, o movimento fazendo com que ela caísse de costas sobre o chão coberto de folhas secas.

A nativa esboçou uma leve expressão de surpresa, ao ver a arma cravada em seu ventre. Então ela parou de andar e tocou a adaga, que imediatamente liberou uma mortal descarga elétrica, fazendo com que ela soltasse um grunhido horrível antes de tombar, sem vida.

Cristalin suspirou aliviada, quando percebeu que a nativa não iria mais importuná-la. Então forçou-se novamente a recolher as muletas e a se levantar. Lançando um último olhar para trás, ela tratou de se afastar dali.

Horas depois, ela amarrava o couro roubado da nativa ao redor de seu tornozelo ferido, antes de derramar sobre ele a poção improvisada que ela tinha preparado. Felizmente, ela sempre saía de casa levando consigo uma série de instrumentos e utensílios para situações como aquela.

Pegando um pedaço de madeira que queimava na fogueira, ela levantou a cabeça e fechou os olhos.

– Grande Fênix, me dê forças!

Então ela aproximou o fogo do couro, que imediatamente se incendiou, provocando uma reação violenta, lançando faíscas para todos os lados.

O grito de dor que ela deu pôde ser ouvido a quilômetros de distância.

Depois de um bom tempo, a dor começou a desaparecer aos poucos, e ela soltou um gemido de alívio.

Era muito perigoso usar alquimia para religar ossos quebrados daquela forma, mas seria muito mais perigoso para ela continuar naquele lugar hostil com mobilidade reduzida.

Ela olhou para o tornozelo. O couro e a poção tinham desaparecido, e a pele estava escurecida e apresentava algumas queimaduras. Mas o mais importante é que a dor excruciante que sentia há semanas finalmente se fora.

Com cuidado, experimentou mover os dedos dos pés e quase riu com a abençoada sensação de voltar a se sentir inteira de novo. Então, uma outra sensação, ainda mais agradável, a atingiu, quando percebeu seu elo com Delinger voltar a se formar.

Você está vivo!

Fico feliz que você também esteja. Estive em uma aflição constante desde que perdemos contato.

Vaso ruim, lembra? E você? Por que não está aqui? Não conseguiu vencer?

Sim, eu venci. Em vários sentidos.

Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

Isso quer dizer que não vai voltar?

Não posso mais, sinto muito.

Aquilo a devastou, muito mais do que a dor física que sentira momentos antes. Tentando segurar as lágrimas, ela se forçou a dar um sorriso.

De qualquer forma, que bom que conseguimos voltar a nos falar. Tenho uma boa notícia para você.

♦ ♦ ♦

Cariele empurrou a porta e olhou para dentro, analisando o interior da casa com cuidado. Estava tudo em silêncio. Ela podia ver uma sala de estar com móveis caros, quadros na parede e um lustre pendurado no teto que devia conter várias dezenas de minúsculos cristais de luz contínua.

Fique atento à sua retaguarda – ela pediu a Daimar.

Por quê?

A baracai não tentou sugestionar nenhum de nós.

Talvez ela não visse necessidade.

Ou talvez ela já soubesse que tínhamos nos precavido contra isso.

Você acha que ela está com o alquimista?

Acho coincidência demais ele ter sumido do hospital.

Checando seu escudo corporal e a carga energética do bastão, Cariele arriscou dar dois passos para dentro da construção. Não havia dúvidas de que aquilo era uma armadilha, a questão era que tipo de armadilha seria. Pelas leituras energéticas dos instrumentos militares, era muito pouco provável que a casa fosse explodir ou algo do gênero, e os caríssimos escudos místicos militares podiam dar a eles uma boa segurança por algum tempo. Mas todo cuidado era pouco.

Daimar e os outros a seguiram, devagar.

Havia uma escadaria à esquerda, mas Cariele preferiu seguir até a porta que levava à cozinha. Subitamente, o ambiente começou a escurecer e a luxuosa casa começou a adquirir a aparência de uma caverna. A porta por onde entraram subitamente desapareceu, para desespero do soldado que tinha ficado de guarda ali. Em poucos instantes, não havia mais sinal da casa, e tudo caiu na escuridão.

– Fiquem calmos – ordenou o tenente, levantando um pequeno cristal brilhante, que iluminou o lugar.

Estavam em uma câmara grande e húmida, com estalagmites apontando do chão e estalactites de aspecto assustador pendendo do teto. O chão era irregular, tendo uma água esbranquiçada escorrendo por ele em vários pontos em direção a uma abertura mais adiante.

Cariele tirou um lenço do bolso e o utilizou como venda, amarrando-o atrás da cabeça e cobrindo seus olhos.

Daimar olhou para ela.

– O que está fazendo?

– Emprestando seus sentidos. Nessa situação, eles são mais eficientes do que a minha visão.

Quer dizer que, agora que são convenientes, você não odeia mais meus sentidos, não é?

Eu não disse isso.

– Por aqui – disse ela, em voz alta, liderando o grupo na direção da passagem.

Um dos soldados perguntou:

– Mas como vamos voltar?

– Edizar Olger vai cuidar disso – foi a resposta do tenente. – No momento, vamos apenas nos focar na missão, entendido?

– Sim, senhor – responderam os dois soldados.

Atravessaram a passagem e entraram em outra câmara, bem maior. A escuridão era total, e o cristal de luz contínua não era forte o suficiente para iluminar o lugar inteiro.

– Também não tem ninguém aqui – disse Daimar.

O tenente olhava ao redor, franzindo o cenho.

– Este é um dos mundos baracai?

– Não sei. – Daimar olhou para Cariele. – Se fosse, eu deveria sentir alguma afinidade com o lugar?

– De acordo com o que o aspirante Alvor nos disse, sim. A teoria de seu pai é que os mundos alternativos de onde tiram sua energia não foram “descobertos” pelos baracais, mas sim criados por eles. São como versões maiores das bolhas de espaço alternativo que usamos, mas com características diferentes devido à frequência energética singular que eles usam.

– Ah… por “bolhas de espaço alternativo” você quer dizer coisas como esse seu bolso sem fundo?

– Ele não é “sem fundo”, mas sim, é isso mesmo.

O tenente levantou uma sobrancelha.

– Vocês acham que não foi a baracai quem criou este lugar?

– Eu duvido – disse Cariele.

– Você parece muito certa disso.

– Tenho meus motivos.

Cariele parou de repente, analisando com cuidado uma vibração que sentiu, vinda do teto. Os outros pararam também, em alerta.

Daimar, se o que o alquimista disse for verdade, quanto mais energia você gastar, maior a chance da degeneração se manifestar no seu corpo.

Estou ciente.

Está disposto a continuar com isso mesmo assim?

Se não estivesse, não estaria aqui.

Então, está na hora de mostrar o quão cabeça dura você pode ser.

Você vai estar do meu lado não importa o que aconteça?

Tanto quanto você pretende estar do meu.

Então, lá vamos nós! Parede da direita, certo?

Sim, parece ser a mais fina.

Só não se esqueça de que você ainda está me devendo uma calça mágica.

O tenente estranhou ao ver Daimar arrancar as roupas, apressado.

– Mas o quê?

– Máscaras! – Cariele gritou, tirando um tecido xadrez do bolso e amarrando sobre o nariz e a boca.

Você fica uma graça com a cara toda coberta de pano desse jeito.

Devia se preocupar mais com o fato de estar mostrando esse traseiro branco para todo mundo. Notou que ela está esperando do lado de fora?

Sim, deixa comigo.

O tenente e os soldados também colocaram as máscaras improvisadas e olharam, com certo espanto, enquanto Daimar assumia aquela que ele chamava de “terceira forma”.

Seu corpo brilhou e cresceu, adquirindo a aparência de um gigantesco rinoceronte, com mais de três metros de altura e cerca de oito de comprimento.

Ele então virou-se para um determinado canto da caverna e, depois de arranhar o chão pedregoso algumas vezes com uma das patas dianteiras, arrancou naquela direção, fazendo o chão tremer.

– Atrás dele! – Cariele gritou, a voz levemente abafada pelo tecido enquanto corria naquela direção, sendo seguida pelos demais.

Daimar concentrou sua energia da forma como Cariele havia lhe ensinado e materializou uma espécie de concha energética na frente de sua cabeça um segundo antes do impacto com a parede de pedra. A espessura da rocha era considerável, mas o poder de destruição de uma arrancada feita por uma criatura com aquele peso e poder muscular era uma força, praticamente, irresistível.

Com um enorme estrondo, a parede cedeu, com inúmeros pedaços de pedra sendo arremessados para fora com violência e abrindo um enorme rombo.

O tenente olhava para ela um tanto confuso.

– Do que estamos correndo?

– Da morte.

Como se estivesse apenas aguardando aquela deixa, o teto da caverna tremeu e começou a desmoronar. Mal tiveram tempo de sair pela abertura antes da câmara inteira vir abaixo.

O ar ali fora era denso, pesado e tinha um tom alaranjado. Logo que saiu da caverna, Daimar sentiu imediatamente seu corpo reagir e se adaptar, sem que ele precisasse fazer nada para isso. Cariele e os outros, no entanto, não tinham aquele poder e, de acordo com o que ouviram, precisariam usar as máscaras molhadas em vinagre para conseguir respirar.

Mesmo sabendo do perigo que enfrentava, Daimar não conseguia evitar de sentir-se dominado pela excitação. Seus sentidos estavam mais aguçados do que nunca, permitindo que ele tivesse noção total de tudo o que havia a seu redor. Conseguira dominar muito bem duas transformações depois de apenas uma noite praticando, sob a tutela de Cariele. E colocar aquelas habilidades em prática lhe causava enorme satisfação.

Seus sentidos haviam percebido a baracai ali fora esperando por eles, por isso não foi nenhuma surpresa quando notou uma bola de fogo voando em sua direção.

Quase que por instinto, ele reuniu suas energias da forma como Cariele lhe havia mostrado e a concentrou nas quatro patas. O chão pedregoso se afundou embaixo dele quando ele saltou, a energia mística o projetando para cima com violência para bem alto, apesar do enorme peso daquele corpo.

A bola de fogo se chocou contra o chão próximo de onde ele estava, gerando uma enorme explosão e lançando terra, pedra e fumaça para todos os lados. Devido à alta densidade do ar, no entanto, a velocidade com que a fumaça se espalhava foi diminuindo rápido, até ficar quase que completamente parada, formando uma espécie de nuvem alaranjada.

Uma vez no ar, Daimar ativou novamente seus poderes de transformação, assumindo a forma de dragão. Satisfeito consigo mesmo, ele percebeu que suas asas também se adaptavam automaticamente ao ambiente, se tornando mais grossas e musculosas, o que lhe permitia manobrar razoavelmente naquela atmosfera densa.

Então ele decidiu pôr aquela capacidade de manobra à prova e virou-se na direção de onde veio a bola de fogo, já abrindo a boca e conjurando um relâmpago.

A baracai, em forma de um dragão amarelo bem menor, se preparava para lançar um novo ataque, mas foi pega de surpresa pela velocidade de reação dele e não teve como evitar ser atingida pela violenta descarga elétrica.

Durante alguns instantes, ela não conseguiu mover as asas e começou a cair, o movimento revelando diversas manchas escuras pelo corpo dela, além de várias pequenas regiões irregulares onde as escamas pareciam ter caído e a pele branca aparecia, desprotegida.

Mas ela se recuperou rápido e voltou a manobrar, afastando-se e saindo do alcance dele, que não pensou duas vezes antes de começar a persegui-la.

Cariele e os outros escaparam do desabamento da caverna por muito pouco. Parando de correr, o tenente e os soldados olharam para trás, vendo a pilha de pedras em que a caverna tinha se transformado. Era como se a montanha inteira tivesse vindo abaixo e se afundado no chão, deixando apenas pedaços irregulares de rocha empilhados de forma aleatória.

Ivar olhou para Cariele.

– Como sabia que o lugar iria desmoronar?

– Vi através dos sentidos dele – ela respondeu, apontando para o céu alaranjado, onde Daimar continuava perseguindo o dragão amarelo.

O terreno ao redor era muito acidentado, com profundos vales e altos picos montanhosos. O lugar onde estavam era um dos raros montes de topo arredondado que podiam ser avistados. Não havia árvores ou outro sinal de vida em parte alguma. Nem mesmo sol parecia existir ali, apesar de tudo estar iluminado. Não haviam sombras e nem qualquer outro indicativo de onde estaria a fonte de luz do lugar.

– Com ele tão longe de você, ainda consegue ver alguma coisa? Quero dizer, com os olhos vendados desse jeito…

Cariele também estava surpresa com o raio de alcance daquela habilidade. Mas não teve tempo de responder, pois percebeu um movimento vindo da pilha de pedras.

– Espalhem-se – orientou ela, apertando o bastão com ambas as mãos.

Ao verem as pedras começando a se mover, os militares trataram de obedecer, colocando bastante espaço entre eles. Então, cinco criaturas humanoides que pareciam ser feitas de pedra se levantaram do meio dos escombros.

♦ ♦ ♦

– Mas que droga!

O sábio Edizar arrancou o chapéu pontudo que gostava de usar e o jogou com força sobre a mesa. Não satisfeito, desferiu um chute em uma cadeira, fazendo com que ela se chocasse com a parede, o que causou um barulhão.

– Que nervosismo é esse, meu amigo?

O sábio olhou para a porta e viu o aspirante Alvor, recostado no batente e observando-o com um sorriso.

– Ah, finalmente você chegou!

– Existem milhares de cidades no império com problemas além de Lassam, sabia?

– Também existem milhares de soldados para cuidar dos problemas das outras cidades!

– Certo, me desculpe – disse Alvor, ficando sério ao ver o nível de preocupação do outro, e aproximando-se. – Eu vim o mais rápido que eu pude. Fiquei sabendo que o tenente Ivar foi dar um passeio em outro mundo junto com o nosso casal favorito, mas o senhor não é o tipo de pessoa que costuma perder a calma desse jeito. O que houve?

– Estou tentando reabrir a droga do portal que eles atravessaram, mas não estou tendo sucesso. Tenho aqui todos os atributos da energia residual que ficou no ar quando a passagem fechou, mas não consigo refinar as equações a ponto de isolar as coordenadas de destino.

Alvor olhou para a mesa atrás de Edizar, onde havia o que parecia ser um monte de barras de metal torcidas umas em torno das outras, com pequenos cristais brilhantes afixados em posições aparentemente aleatórias.

– A meu ver, o senhor parece já ter feito quase todo o trabalho.

– Sem as coordenadas, isso tudo é inútil! O portal poderia se abrir em qualquer parte do espaço alternativo, inclusive debaixo da terra ou dentro da água, supondo que exista terra ou água por lá. Preciso encontrar algum indício da posição que eles se encontram lá dentro, ou não vai ser seguro ativar esse negócio.

– Nesse caso, por que não usa isso aqui?

Alvor tirou do bolso um pequeno dispositivo retangular de metal com diversas runas em relevo.

– Isso aí não é um coletor de emissões?

– Isso mesmo.

Edizar estreitou os olhos.

– Você grampeou Daimar Gretel?!

“Grampear” era um termo militar utilizado para indicar quando um emissor era escondido no corpo, nas roupas ou pertences de uma pessoa para monitorar sua localização. O nome era derivado do tipo mais comum de emissor, que tinha o formato de um grampo de cabelo.

– Não, nem sonharia nisso. Grampeei foi a namorada dele.

Edizar pegou o pequeno objeto e o ativou com alguns gestos, fazendo com que pequenos pontos de luz aparecessem nos cantos das runas.

– Achei que as ordens do professor tivessem sido para parar de monitorar aqueles dois.

– E foram mesmo. Mas eu ofereci um sinalizador para ela e ela aceitou de bom grado.

Virando-se para o estranho aparato sobre a mesa, Edizar começou a mover algumas das barras de metal e a trocar a posição de alguns cristais.

– E você disse para ela que o emissor estava grampeado?

– Não. Mas nem tinha necessidade. O senhor viu a ficha dela, não?

– Se tem algo que aprendi durante esses anos todos na ativa é que coisas não ditas, por mais óbvias que possam parecer, podem causar muitos problemas. Mas me diga, quantos membros das Tropas Especiais vieram com você?

– Todos os que consegui trazer. A galera toda está aí fora. A propósito, parece que o senhor se tornou bastante popular. Conseguiu conquistar várias admiradoras entre os membros da nossa tropa.

– Que honra – respondeu Edizar, irônico, sabendo que não deveria ter quase ninguém naquela tropa que tivesse mais do que a metade da idade dele.

Alvor apontou para o mecanismo em que Edizar trabalhava.

– Voltando ao assunto, o tenente Ivar não tinha consciência de que algo assim poderia acontecer? Por que ele próprio não levou um emissor?

O sábio voltou a estreitar os olhos.

– É o que pretendo perguntar a ele.

♦ ♦ ♦

Os golens eram muito fortes e arremessavam rochas como se não pesassem nada. E, por alguma razão, concentravam os ataques apenas em Cariele.

Ela se defendeu como pôde, esquivando-se quando podia e destruindo as pedras com golpes especiais aplicados com o bastão, quando não tinha escolha.

Percebeu que suas reservas de fluxo energético não durariam muito se continuasse a gastá-las daquela forma, então decidiu partir para o ataque.

Girando o bastão no ar, ela criou uma corrente de ar que fez com que as rochas arremessadas mudassem de direção, algumas delas acertando diretamente os três primeiros golens.

Tendo menos adversários lançando projéteis contra ela, foi mais fácil se aproximar e derrubar os outros dois, com golpes precisos, mas que gastaram boa parte da energia do simulacro.

Quando um dos oponentes caiu, uma parte da casca rochosa que cobria o corpo dele se quebrou, revelando um rosto conhecido.

– Agneta?

Surpresa, ela usou os sentidos especiais para contemplar o rosto machucado da amiga, que apresentava uma palidez extrema e estava frio. Muito frio. Era como se estivesse morta.

Ela então virou-se para os demais golens, que estavam se levantando, e percebeu com o que estava lidando.

Soltando um grito de fúria, ela fez algumas manobras com o bastão, girando o corpo e a arma algumas vezes antes de parar abruptamente, o que fez com que uma espécie de lâmina de vento esbranquiçada surgisse e se projetasse para a frente, atingindo em cheio os quatro oponentes.

Aquilo era um movimento militar conhecido como expurgo, que tinha a capacidade de dissipar construtos e conjurações místicas, desde que, é claro, o criador das conjurações não tivesse um nível de afinidade muito maior do que quem estivesse usando o movimento. O que, felizmente, não era o caso.

A carapaça rochosa de todos eles se desintegrou, revelando outros membros da fraternidade, que imediatamente tombaram no chão, todos aparentando um estado igual ou pior do que o de Agneta.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa a respeito deles, no entanto, Cariele percebeu que, lá no céu, a baracai dava as costas para Daimar e se virava na direção dela, abrindo a boca e lançando uma enorme bola de fogo.

Ela poderia se esquivar, mas seus amigos seriam atingidos em cheio, então ela reuniu suas últimas forças e segurou o bastão com as duas mãos na direção do ataque, tentando conjurar o maior e mais forte escudo que jamais tentara fazer em toda a sua vida.

Impressionado, o tenente Ivar viu quando a bola de fogo a atingiu em cheio, mas a explosão foi completamente defletida para cima, formando um de cone de fogo por alguns instantes, antes de se transformar em uma cortina de fumaça alaranjada, suspensa no ar. Então ele correu até ela ao vê-la cambalear, aparentemente sem forças.

Sabendo que Cariele tinha seus recursos, Daimar forçou-se a se focar em sua própria batalha e aproveitou a brecha que a baracai abriu ao olhar para o outro lado e bateu suas próprias asas com força, usando um movimento aéreo de arrancada. O golpe a atingiu em cheio, danificando seriamente suas asas, o que a fez cair, girando descontroladamente.

Enquanto isso, tendo gastado mais que sua cota de energia, Cariele largava o bastão e caía de joelhos, tentando recuperar o fôlego. Percebeu o tenente se aproximando e a segurando pelo braço, mas sentia-se cansada demais para reagir, principalmente agora, que Daimar finalmente tinha conseguido atingir a miserável de jeito.

Só percebeu que tinha cometido um erro fatal quando era tarde demais.

Ivar enrolou uma algema no pulso dela. O artefato, criado com o intuito de neutralizar a capacidade de manipulação de energia mística, imediatamente cortou o elo de ligação dela com Daimar, o que lhe causou uma sensação angustiante de desorientação, principalmente pelo fato de perder o acesso aos sentidos dele.

– Mas o quê?!

Ela removeu a venda dos olhos e olhou para o tenente. Ivar mostrou-lhe então um pequeno cristal esverdeado, que brilhou brevemente, enviando uma onda de energia que fez a cabeça dela rodar. Ela mal teve tempo de se recriminar por ter deixado sua guarda aberta, antes de perder os sentidos.

Daimar notou a perda de seu elo com Cariele e virou-se na direção deles, vendo Ivar a segurar contra o peito enquanto colocava uma mão na testa dela. Então o tenente olhou para cima, na direção dele e, ao ver que era observado, levantou o braço, fazendo um sinal de “positivo”.

Por um momento, Daimar se perguntou que raio de bola de fogo tinha sido aquela para conseguir fazer com que Cariele perdesse os sentidos, sendo que, duas noites atrás, enquanto praticavam, ela tinha defletido os ataques dele como se não fossem nada.

Mas, de qualquer forma, já que o tenente estava cuidando dela, era melhor se concentrar em ir atrás da baracai e terminar o serviço.

Ele viu que ela já tinha se recuperado da queda e mudado de forma, transformando-se num felino grande, similar a um leopardo, e que começava a correr para longe. Daimar saiu no encalço dela, mas aquele ar denso não permitia que ele atingisse uma velocidade muito grande. De qualquer forma, a baracai não conseguiria ir muito longe, pois tudo o que havia mais adiante era um profundo abismo.

Minutos depois, quando ele finalmente conseguiu se aproximar o suficiente para ela ficar no alcance de seu relâmpago, ela chegou na beira do penhasco e, em vez de parar, como ele imaginava que faria, ela simplesmente continuou correndo e saltou no vazio.

Ele sobrevoou o abismo por algum tempo, apenas para confirmar o que seus sentidos já tinham lhe mostrado. Ela não estava mais ali. Tudo o que tinha restado da maldita era uma pequena nuvem de fumaça, provavelmente efeito residual da abertura de um portal.

E havia algo de familiar naquela fumaça. De alguma forma, ele sentia, instintivamente, o que ela significava. A baracai tinha voltado para casa. Para Lassam.

Bem que ele gostaria de saber como fazer o mesmo para ir atrás dela, mas Cariele havia lhe dito que não conseguia sentir aquele tipo de afinidade nele. Talvez, a abertura de portais fosse uma habilidade exclusiva de baracais puro sangue.

Então ele manobrou para voltar até os outros. Não demorou muito a perceber que o número de pessoas em frente à caverna desabada tinha aumentado bastante. Os reforços tinham chegado.

Antes tarde do que nunca.

Ele não gostava nem um pouco da ideia de aparecer sem roupas na frente dos soldados, mas a única forma que lhe permitia falar era a humana. Então, pousou no chão atrás de algumas rochas a uma certa distância e desfez a transformação.

Para sua surpresa, no entanto, percebeu que não tinha voltado completamente ao normal. Sua pele apresentava escamas azuis, as mesmas que ele tinha na forma de dragão. As escamas lhe cobriam o corpo inteiro, exceto a cabeça, era como se estivesse usando uma espécie de armadura. Aquilo o deixou muito confuso por alguns instantes, até ele perceber que não tinha voltado à forma humana como imaginara antes, pois o gatilho místico mental que ele usava para desfazer as transformações continuava ali, a seu alcance. Talvez tivesse assumido aquela forma de modo instintivo.

Então ele tinha descoberto sem querer uma “quarta forma”? Interessante. Aquilo estava muito longe de ser a “calça mágica” que ele queria, mas teria que servir.

O aspirante Alvor o recebeu com alegria na voz, abafada pela máscara de tecido, quando Daimar se aproximou.

– Senhor Gretel! Que bom ver você novamente.

– Olá, aspirante. Onde está Cariele?

– O tenente já a levou de volta. – Alvor apontou para uma espécie de buraco escuro no ar, para onde dois soldados, também mascarados, se dirigiam carregando uma maca improvisada com alguém amarrado nela. Ao entrarem naquela escuridão, os homens desapareceram. – Meus colegas acabaram de levar o último dos estudantes que encontramos. A propósito, gostei dessa sua aparência. Nossa tropa teria sido poupada de grande constrangimento se seu pai usasse uma forma como essa quando deixava de ser dragão.

Daimar decidiu ignorar a conversa sobre amenidades.

– Esse buraco vai me levar de volta para casa?

– Sim.

– Então, vamos! Aquela infeliz escapou de mim, mas está muito machucada. Preciso ir atrás dela e dar um fim nisso.

Infelizmente, não demorou muito para Daimar deixar a rixa com a baracai de lado.

Passando pelo buraco, ele e Alvor saíram no meio de uma rua de Lassam que estava numa situação um tanto caótica. Havia soldados feridos por toda parte, recebendo atendimento.

Alvor arrancou a máscara do rosto e olhou ao redor.

– Mas o que aconteceu aqui?

– Foi o tenente, senhor – respondeu um soldado.

– Como assim?

– Ele queria levar a senhora Asmund para o hospital pessoalmente, mas o curandeiro pediu para fazer um exame nela antes. Então o tenente se descontrolou e… bem, atacou o curandeiro. Depois mandou que os soldados dele nos atacassem enquanto ele saiu a cavalo levando a moça.

Daimar se adiantou, alarmado.

– E ninguém foi atrás dele?

– Sim, senhor. O sábio Edizar partiu em perseguição com dois dos nossos.

– Para que lado eles foram?

– Espere, senhor Gretel – disse Alvor, segurando-o pelo ombro.

– Esperar o quê?!

– Talvez queira levar isto com você.

Alvor estendeu para ele o pequeno artefato capaz de rastrear o emissor que Cariele levava consigo.

♦ ♦ ♦

Nielsen Ivar prendeu a ainda inconsciente Cariele pelos pulsos e tornozelos com correntes na velha mesa de tortura.

– O que… você está fazendo… Ivar?

Edizar Olger falava com dificuldade, transpassado no ventre pela lança do tenente, fincada à parede atrás dele.

– O que sempre quis fazer – respondeu Ivar, começando a cortar a camisa dela com uma faca. – Foram anos me aguentando, me segurando, mas agora, finalmente ela é minha!

– Você… enlouqueceu!

– Se essa cena romântica for demais para você, sábio, é só deixar de ser teimoso e morrer logo.

Neste momento, parte de uma das paredes de pedra da velha masmorra foi colocada abaixo com um enorme estrondo, o que fez com que Ivar se virasse naquela direção, apenas para encarar o frio olhar draconiano de Daimar.

– Como… como me encontrou?

Daimar voltou sua atenção para Cariele, totalmente indefesa sobre aquela mesa. Graças à Fênix, ainda estava viva.

Assumindo novamente a “quarta forma”, ele começou a caminhar, devagar, na direção de Ivar.

O tenente virou-se e correu na direção de Edizar, agarrando o cabo da lança e arrancando-a da parede e do corpo do sábio, que tombou no chão, sangrando abundantemente.

Daimar apenas continuou caminhando na direção dele, com olhar frio. Sentindo-se encurralado, o tenente usou suas próprias habilidades para juntar energia antes de sair em disparada na direção de Daimar. Um ataque de arrancada como aquele, quando usado com uma lança especial, podia ser um dos mais devastadores do manual militar.

Mas, contra aquela forma de Daimar, não teve absolutamente nenhum efeito. Não com ele tendo tempo para usar suas próprias energias para enrijecer a pele, enquanto silenciosamente ativava sobre si mesmo um encanto de imobilidade.

No final, a lança caiu no chão, partida em diversos pedaços, enquanto Daimar segurava o tenente no ar, pelo pescoço.

Cariele ficaria orgulhosa se pudesse vê-lo naquele momento.

– E agora, tenente, o que será que eu faço com você?

— Fim do capítulo 17 —
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