Valena – Capítulo 17

Publicado em 03/09/2018
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17. Mãos Vazias

– Meu marido… tinha muito orgulho… de você. É a… filha… que sempre… quisemos ter… e nunca… pudemos. Que a… graça… da Fênix… esteja sempre… com você.

Valena não pôde fazer nada além de sair de perto e observar, impotente, enquanto Azelara Caraman era assolada por uma nova e intensa crise de tosse e a sacerdotisa Gaia Istani pedia para que os curandeiros se adiantassem para tentar lutar uma batalha fadada ao fracasso para tentar salvar, mais uma vez, a vida da esposa do falecido imperador.

Joara Lafir segurou Valena pelo braço.

– Venha, vamos deixar eles trabalharem.

Sabendo que não tinha mais o que fazer ali, Valena assentiu e deixou-se conduzir para fora do quarto. Sem dizer nada, a princesa de Chalandri continuou caminhando, com certa determinação, levando-a até uma varanda de onde podiam avistar os bem cuidados jardins do palácio. Quando Valena se apoiou na amurada e ficou encarando, sem ver, as nuvens pesadas que anunciavam uma chuva iminente, Joara colocou a mão em seu ombro.

– Você está bem?

– Não sei. Tudo parece estar desmoronando. É como se… – Valena se interrompeu e balançou a cabeça, lutando para conter as lágrimas. Não poderia chorar agora. A última coisa que o imperador e a esposa precisavam era a herdeira do trono demonstrando fraqueza e protagonizando uma cena patética.

– Como se estivesse ficando sozinha? – Joara sugeriu.

Valena olhou para ela, surpresa.

– Mais ou menos.

– Eu sei como é. Quando minha mãe morreu, eu também me senti perdida no mundo.

Voltando a olhar para as nuvens escuras, Valena suspirou.

– Eu… sinto como se ela fosse a minha última aliada aqui dentro.

– Sabe que isso não é verdade. Ainda tem a Guarda Imperial, os conselheiros, e…

Valena sacudiu a cabeça e levantou uma mão, interrompendo-a.

– Que tal falarmos de outra coisa? Como está se saindo em Aldera?

Joara fez um beicinho, indicando contrariedade, mas depois sorriu.

– Eu AMO aquela cidade! Por acaso já disse isso antes?

– Só umas 40 vezes.

– E é a mais pura verdade! É um lugar lindo! Tantas coisas para ver, tantas pessoas para conhecer…

– E é a única cidade no mundo onde mora um certo moreno musculoso.

Joara riu.

– É, tem isso também.

– Fico feliz por você. Desculpe por não ter conseguido visitar seu pai.

– Não se preocupe. O sultão compreendeu a situação e pediu para eu lhe transmitir seus pêsames.

– Obrigada. Eu… – Valena hesitou – queria agradecer por vir me visitar, por… estar aqui.

– Ei, somos amigas, não somos? Estarei aqui sempre que precisar.

– Eu gostaria de poder conhecer o sultão pessoalmente, mas no ritmo que as coisas estão indo, não sei dizer se isso será possível.

– Quando você vai assumir o trono?

Valena apertou os punhos.

– Não sei.

Joara arregalou os olhos.

– Como é? Você não é a sucessora do imperador? O que está havendo?

– Os conselheiros acham que não estou pronta. Não vão me permitir assumir o trono antes de completar 17 anos.

– Puxa! Isso deve ser frustrante. Mas você tem quase a mesma idade que eu, então não deve estar faltando muito tempo, não é?

– Isso se não inventarem alguma outra desculpa até lá.

Joara franziu o cenho e se preparou para fazer uma pergunta, mas se interrompeu ao ver a aproximação dos sete membros do conselho imperial, que caminhavam pela trilha do jardim lá em baixo, se dirigindo para a entrada de uma das torres. Uma grande comitiva de servos e soldados os seguiam.

– Falando neles…

– Olha só… o monte inteiro de soo saarid andando junto. Lierte, Pienal, Gerbera, Rianam, Radal, Raduar e Dantena.

Joara sorriu, fazendo uma boa ideia do que significava aquele xingamento, pois conhecia a enorme implicância que Valena tinha com aquelas pessoas.

– Curioso. Eu não tinha reparado antes, mas alguns deles têm nomes parecidos, não?

– É porque não são nomes, são títulos.

– É mesmo? Não sabia disso.

– Rianam, o perspicaz. Lierte, o esperançoso. Pienal, a fortaleza. Gerbera, a astuta. Radal, o habilidoso. Raduar, o iluminado. E Dantena, o sábio. O imperador criou esses termos usando como base palavras da antiga língua damariana, que representavam as virtudes que ele afirmava que cada um tinha. Depois de mais de trinta anos sendo chamados dessa forma, acabaram passando a usar os títulos como sobrenome. A maioria das pessoas nem se lembra mais dos nomes verdadeiros deles.

– Bom, Pienal, pelo menos, eu sei que merece esse título. Aquela mulher é assustadoramente… grande.

Valena deu um meio sorriso.

– É, ela é enorme. E dizem que é muito forte também. Eu a desafiei para um combate amigável uma vez. Ela recusou, alegando que seus dias como soldado estavam encerrados.

– Alteza?

Valena virou-se para encarar o rosto sério e pesaroso da sacerdotisa e soube instintivamente que a última amiga de verdade que tinha entre os residentes daquele palácio tinha acabado de deixa-la. Para sempre.

– Ela se foi?

– O Grande Espírito a recebeu de braços abertos, filha. Devemos nos alegrar, pois ela partiu deste mundo para encontrar a felicidade definitiva. Teve uma vida longa e produtiva, passou por provações que nem podemos imaginar, mas agora está gozando de seu merecido descanso.

– Por quanto tempo ela ficou doente? – Joara quis saber.

– Vários meses – respondeu Valena. – Começou na época em que seu pai e o imperador estavam combinando a sua vinda para cá.

– E o que ela tinha?

– Não era da vontade do Espírito que tivéssemos esse conhecimento – respondeu a sacerdotisa, que em seguida fez uma breve descrição dos sintomas da doença de Azelara.

– Curioso – disse Joara, pensativa. – Essa febre é muito similar ao que minha mãe sofreu ao ser picada por um escorpião vermelho. Tem certeza que o imperador nunca levou a esposa para conhecer nosso deserto?

♦ ♦ ♦

Eliar Radal não estava nem um pouco satisfeito. A transpiração escorria, abundante, por seu pescoço, rosto e, para sua irritação, também pela testa alongada devido à calvície pronunciada, obrigando-o a limpar a região constantemente para impedir que o suor entrasse em seus olhos. Seu corpo franzino tremia a cada golpe que aplicava sobre um pedaço de metal incandescente com uma marreta.

Levantou a cabeça ao perceber que Aumirai Dantena entrava no aposento, arrastando no chão a barra do luxuoso manto que usava.

Com ansiedade, Radal perguntou:

– Conseguiu algo?

– Não, mas Odenari teve uma ideia. Ela vai forçar os prisioneiros a ativarem a fissão. Até que ela consegue ser útil de vez em quando. E você? Já terminou isso aí?

Com exagerada violência, Radal deu um último golpe sobre o metal.

– Eu não sou Malnem! Disse a vocês que isso iria demorar! E por que deixou aquela retardada sozinha?

– Não estou gostando desse seu tom, Eliar. Não depois de todo o esforço que eu tive para libertar você. Não sou nenhum estúpido. Pienal e Gerbera estão de olho nela.

Radal jogou a marreta sobre uma mesa.

– Não é nenhum estúpido? Fala isso depois de ter descarregado a Godika Goenika para criar um patético campo de expurgo sobre o palácio por alguns minutos? E de ter desperdiçado completamente a chance de dar cabo da imperatriz?

– Falou o idiota que, mesmo liderando todo um exército, perdeu uma batalha para um mísero grupo de sete pessoas.

– Levei aquele demônio até ela, como você queria, não levei? O que não adiantou de nada, diga-se de passagem, pois em vez de matá-la ele agora a está ajudando. Você é uma lástima como líder, Dantena!

– Termine logo essa porcaria! Caso contrário, quando eu recarregar o artefato, você será o meu primeiro alvo!

– Cale essa boca! Se pudesse fazer isso sozinho, eu não estaria aqui. Se acha o sabichão, mas está é morrendo de medo!

– Eu não tenho medo de ninguém!

– Ah, é? Pois deveria. Narode está morto, Rianam está morto, Lierte está morto, Raduar está morto, Odenari, Pienal e Gerbera estão… – ele balançou as mãos no ar, sem saber como explicar – daquele jeito.

– Porque são todos perdedores. Não se comparam a mim. Rianam era descuidado e impulsivo, não me admira que a bastarda o tenha liquidado. Lierte tentou atacar o Dragão de Mesembria sem saber do que o homem era capaz. Raduar foi tentar brincar de Deus com aqueles demônios e provavelmente foi devorado por eles. E as mulheres… elas são fracas.

– Você não está pensando direito, está fazendo uma besteira atrás da outra. Não está conseguindo nem mesmo manter o controle sobre os mercenários.

– Estou avisando: cale a boca e volte ao trabalho!

– Quanto tempo acha que vai demorar para o exército imperial bater à nossa porta? Aquele ataque ao palácio foi, praticamente, um convite!

– Por isso transferimos todos os artefatos e os prisioneiros para cá. Nunca vão nos encontrar, e quando entrarem no país, ficaremos sabendo em um instante. Meu plano é perfeito. Isso é, desde que você pare de falar e termine logo isso aí!

Nesse instante, uma criatura humanoide cuja pele era feita de um tipo flexível de rocha avermelhada entrou pela porta, carregando nas costas uma enorme caixa de madeira.

Radal trincou os dentes, descontente com a interrupção, mas decidiu ficar quieto e voltou ao trabalho, pegando um balde de água e despejando sobre o objeto ainda incandescente sobre a bigorna, o que levantou uma pequena nuvem de vapor.

– Coloque naquela mesa – disse Dantena ao golem, apontando para um móvel no canto.

A criatura obedeceu e colocou a pesada caixa no chão, antes de começar a tirar de dentro dela as diversas partes da enorme armadura do Avatar, dispondo-as cuidadosamente sobre a mesa.

– Ótimo, ótimo, ótimo! – Dantena exclamou, enquanto esfregava as mãos ao se aproximar dos objetos. – Quanto de carga você conseguiu?

Uma nuvem de vapor se levantou enquanto a rocha avermelhada da criatura se desmanchava, revelando a imagem de um homem de baixa estatura, com grossas sobrancelhas e nariz pontudo, vestindo um manto de um tom indefinido entre marrom e verde.

– Pouca. Não estamos prreparradas parra atividades delicados como essa – o sotaque do homenzinho era bastante pronunciado e soava muito estranho aos ouvidos de Radal.

Dantena franziu o cenho.

– Eu te dei dezenas dos mais poderosos artefatos já criados no império!

Artefatos que ele não tivera escrúpulos em roubar do palácio depois da morte do imperador, Radal pensou consigo mesmo.

– Serria mais inteligente usarr arrtefatas como estavam. Drrenarr enerrgia dessa jeito serr desperrdícia.

Não pela primeira vez, Radal imaginou se as pessoas realmente falavam daquele jeito no mundo de onde o homem viera ou se aquele sotaque não seria devido a alguma deficiência na língua dele.

– Não pedi sua opinião – respondeu Dantena, seco, enquanto tirava um objeto retangular do bolso e o aproximava das peças da armadura dourada. – Mas o que é isso? Não tem quase nada de energia aqui! Leve isso de volta e termine o que eu mandei.

– Isso serr tudo. Arrtefatos forram desintegrradas na prrocesso.

– Seu inútil! Eu deveria…

– E quanto aos prisioneiros? – Radal sugeriu. – Não dá para forçar algum deles a energizar essa coisa?

Dantena se virou para ele, com expressão de quem iria vociferar algo, mas então pareceu pensar melhor e sua expressão se iluminou.

– Que grande ideia! Jester, você vai absorver tudo o que puder deles!

Tanto Radal quanto o homenzinho chamado Jester olharam para Dantena de olhos arregalados.

– Prrisioneirras estarr condenados se fizerr isso!

– Não me importo. Teríamos que nos livrar deles mais cedo ou mais tarde, então que sirvam para algo útil. Priorize os mais poderosos. Comece pelo velhote e depois vá para a princesa de Chalandri – aquilo trouxe um sorriso maldoso ao rosto dele. – Imagino quanto tempo o Sultão vai demorar para invadir Verídia quando souber que a filha está morta.

♦ ♦ ♦

– Da última vez eu prometi respostas para você – disse Valena, olhando para a expressão séria, perigosa e extremamente atraente de Valdimor. – Hoje não irei fazer nenhuma promessa. Tudo o que eu posso dizer é que, mais cedo ou mais tarde, vamos pegar o responsável por tudo o que você passou.

Ele estreitou os olhos.

– Quem?

– A pessoa que tirou você de seu mundo e o trouxe para cá, e que depois controlou você e seus amigos.

Ele apertou os punhos e lançou-lhe um olhar frustrado.

– Não sei quem. Não lembro.

Ela suspirou.

­– Acreditamos que o nome dele é Dantena. Provavelmente é ele quem está comandando aquele bando de qumbahas. Ele envenenou e matou diversas pessoas, inclusive a viúva do imperador. Foi ele quem arquitetou a divisão do império depois da morte de Narode. Tenho certeza que era ele quem estava passando instruções para Odenari na Sidéria. – Ela fez uma pausa e cerrou os punhos. – E a deixou lá para morrer, pois provavelmente achou que ela não tinha mais utilidade.

Notando a postura tensa dela, Valdimor se aproximou e tentou tocá-la no rosto, ao que Valena reagiu dando um pulo para trás, se afastando dele até que suas costas se chocaram com a parede.

O olhar dele se tornou sombrio, enquanto a analisava por alguns instantes, antes de sacudir a cabeça e dar-lhe as costas, se afastando na direção do portão.

Frustrada, Valena pensou em soltar uma torrente de palavrões, mas havia muitos soldados por perto, preparando-se para a batalha iminente, então ela se limitou a fechar os olhos e soltar um novo suspiro.

Por que ela ainda tentava insistir? Tentar conversar com Valdimor era inútil. Por mais que se esforçasse, nunca conseguiria esconder dele suas próprias dúvidas e inseguranças.

O problema é que podia ver no olhar dele a mesma vontade, o mesmo anseio, o mesmo desejo que a assolava e aquilo a fazia agir como uma completa idiota.

Se ao menos tivesse conseguido arrancar alguma coisa de Odenari Rianam…

Mas, ou aquela fret não sabia de nada sobre Valdimor ou estava doente demais da cabeça para dizer ou fazer qualquer coisa de útil.

Nesse momento, Valena sentiu uma mão em seu ombro, o que normalmente lhe causaria um sobressalto. Mas hoje, de alguma forma, ela reconheceu aquele gesto como algo familiar e, ao invés de se assustar, foi tomada por uma sensação de segurança. Virou a cabeça para encarar os olhos negros, sérios e preocupados de Sandora.

Quantas vezes essa bruxa tinha lhe apoiado no último ano? Quantas vezes havia colocado a mão em seu ombro dessa forma, a ponto de ela conseguir reconhecer instintivamente o gesto e saber quem era, mesmo de olhos fechados?

– Você está bem?

– Sim – respondeu Valena, levantando a cabeça e afastando os pensamentos deprimentes. – Vamos acabar logo com essa guerra.

Tirou então um anel do bolso e começou a coloca-lo no dedo, preparando-se para se afastar na direção dos portões, mas Sandora a segurou pelo braço.

– Não use isso.

– Mas esse é o anel com encanto de âncora – disse Valena, surpresa, antes de olhar ao redor rapidamente e decidir baixar o tom de voz. – Preciso dele, caso tenha que usar o Favor Divino.

– Não precisaremos de nada disso. Guarde essa coisa.

– Sandora, achei que tínhamos concordado que precisaremos de tudo o que temos nessa batalha. Qual é o problema?

Pela primeira vez, Valena viu a bruxa parecer indecisa. Mas aquilo não durou muito tempo. Depois de alguns segundos, Sandora soltou-lhe o braço, sacudiu a cabeça e suspirou.

– Apenas guarde, está bem? Leve, se isso a faz se sentir melhor, mas não use sem falar comigo antes.

Valena estreitou os olhos.

– Pensa que irei precisar desse poder depois, é isso? Acha que essa não será a última batalha?

– Não é isso, é que… ouça, não temos tempo para discutir agora. Apenas confie em mim, está bem?

Aquele pedido soou estranho. Valena então percebeu que, desde que a conhecera, Sandora nunca tinha lhe pedido nada. Pelo menos não daquela forma, como se fosse um favor. Então a encarou com atenção e depois seu olhar foi descendo, até se fixar em seu ventre, que começava a se tornar proeminente. E se deu conta do tamanho do sacrifício que a bruxa estava disposta a fazer.

Resoluta, removeu o anel do dedo e o entregou a ela.

– É claro que confio em você. Tome, fique com ele. Caso venha a se sentir mal ou algo aconteça, use-o.

Sandora arregalou os olhos, surpresa.

– Mas não é isso que eu…

– Vamos, como você mesma disse, não temos tempo para conversa. Não podemos dar mais tempo ao inimigo. Não consegui pegar Dantena na Sidéria, mas juro que, dessa vez, não retornarei de mãos vazias.

♦ ♦ ♦

– Tem certeza de que está pronto? – Dantena olhava para a peça de metal trabalhada, franzindo o cenho.

– Tenho tanta certeza disso quanto você parece ter de que estamos seguros aqui.

– Vamos ver se o tempo que passou na masmorra não te deixou enferrujado, “o habilidoso”.

– Não mais do que o tempo que ficou livre te tornou estúpido, “o sábio”.

– Venha, Odenari. Se isso funcionar, teremos que fazer uma comemoração.

Radal suspirou, pensando em como as coisas estavam estranhas desde que fora libertado. Dantena nunca deixava barato quando alguém o chamava de estúpido. Todos os ex-conselheiros estavam se comportando de forma estranha, incluindo o próprio Radal. Ele nunca tivera problemas em ver alguém abusando de Odenari. Raios, ele havia até mesmo participado de uma das “festinhas” que o marido dela costumava promover quando vivo. Mas agora, por alguma razão, a ideia de se aproveitar de uma mulher obviamente doente lhe parecia asquerosa.

Para surpresa dele, ao invés de seguir Dantena imediatamente, como ela costumava fazer sempre que recebia uma ordem, Odenari veio em sua direção, de cabeça baixa.

– Eliar, quando voltaremos para casa?

– Casa? – Radal estranhou, franzindo o cenho. Não sabia o que era mais esquisito: a pergunta dela ou o fato de ela o chamar pelo primeiro nome.

Dantena soltou uma gargalhada.

– Ela deve realmente ter se divertido na prisão. Já me fez essa pergunta várias vezes. Caraman não tolerava “diversão” com prisioneiros, será que a nova imperatriz não compartilha da opinião dele?

Radal lançou-lhe um olhar raivoso.

– Se está insinuando que algum soldado do império fez com ela a mesma coisa que está querendo fazer, então a resposta é não. Não fizeram nada para nenhum de nós dois além de perguntas.

– É mesmo? E como sabe?

– Ela ficou na cela ao lado da minha o tempo todo.

– Que romântico. Então foi assim que vocês se tornaram tão íntimos, Eliar?

Radal trincou os dentes.

– Não deveria estar se preocupando mais com o seu plano maluco ao invés de ficar jogando conversa fora?

– Meu plano é perfeito. Assim que completar a armadura, nada vai poder me deter. Não há razão para pressa.

– Acha que o exército imperial vai ficar parado esperando para ver o que você vai fazer?

– Nunca encontrarão este lugar. E mesmo que encontrem, minhas medidas de segurança são inexpugnáveis.

– Engraçado você dizer isso – disse uma voz atrás deles.

Os três se viraram para um canto do salão e viram um homem sair de trás de uma das colunas.

– Falco?! –Radal exclamou, ao reconhecer o intruso.

– Guardas! – Dantena gritou.

No momento seguinte, diversos homens e mulheres que costumavam ser paladinos do Espírito da Terra invadiram o salão e se colocaram diante de Falco, armados com cajados e arcos.

Sorrindo, Falco Denar levantou as mãos.

– Eu pretendia ficar ali, escutando um pouco mais dessa conversa, mas não resisti quando ouvi você se referir a esse lugar como “inexpugnável”.

– Por onde esteve? – Dantena perguntou, devagar. – Achamos que tinha sido capturado no ataque ao palácio.

– Ah, você me conhece. Não é fácil me segurar. E nem me enganar, pelo menos não por muito tempo.

– Como encontrou esta fortaleza?

– Ah, foi fácil. Algum de vocês teve a brilhante ideia de mandar um grupo de idiotas para tentar sequestrar a filha do Dragão de Mesembria. Depois de falharem de forma vergonhosa, não foi difícil arrancar deles a localização de todas as fortificações com laboratórios alquímicos que vocês costumam usar. Sendo essa aqui a maior e com melhor localização, não foi difícil imaginar que vinham para cá. Fico me perguntando que tipo de incompetente revela informações tão importantes para um grupo de imbecis antes de manda-los numa missão como aquela.

Mais uma vez demonstrando a Radal que não era mais o mesmo de antes, Dantena não reagiu àqueles insultos. Ao invés disso, perguntou, simplesmente:

– Não ensinam em seu país que entrar sem ser convidado dessa forma da casa dos outros não angaria a simpatia de ninguém?

– Sim. Na verdade, estou contando com isso.

– Como assim? – Radal perguntou.

– Como sabem, estou muito interessado em um certo artefato. Um que vocês tiveram a ousadia de mentir para mim, dizendo que estava com a imperatriz.

– E acha mesmo que vamos ajudar você a consegui-lo? – Dantena perguntou, com expressão irônica.

– Dificilmente.

– Então o que está fazendo aqui?

– Distraindo vocês e ganhando tempo.

Nesse momento, uma das paredes próximas começou a emitir um brilho avermelhado e Falco rapidamente se afastou dela, se escondendo atrás da coluna. No instante seguinte, a parede explodiu, lançando poeira e fragmentos de rocha para todos os lados. Os guardas foram atingidos em cheio, dois deles receberam golpes na cabeça e rosto e caíram para trás, os demais conseguiram permanecer em pé, mas o impacto da explosão e das rochas fez com que derrubassem as armas.

Pelo buraco que se abriu na parede, Valena Delafortuna entrou, liderando o que parecia ser uma infinidade de soldados.

Então ela soltou a voz, num tom que deixaria Sileno Caraman orgulhoso:

– Rendam-se, em nome de Verídia!

— Fim do capítulo 17 —
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