Lassam – Capítulo 18: Determinação

Publicado em 04/06/2017
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18. Determinação

Daimar estava sentado, impaciente, em um dos bancos do posto militar que antes era comandado por Cristalin Oglave. As coisas estavam surpreendentemente organizadas por ali, considerando que a tenente estava desaparecida e seu pretenso substituto estava agora trancado numa cela da masmorra.

O miserável! Por que, raios, eu não quebrei o pescoço dele?

Interrompendo seus pensamentos assassinos, Daimar se levantou quando o aspirante Alvor Sigournei se aproximou e lhe estendeu uma pilha de roupas e um par de sapatos.

– Imagino que manter-se nessa forma consuma sua energia – disse o recém-chegado, apontando para o torso coberto de escamas de Daimar. – Este uniforme acabou de vir da lavanderia e creio que seja do seu tamanho.

– Obrigado – agradeceu Daimar, aceitando a pequena pilha. Ele começava a vestir a camisa do uniforme, quando percebeu a aproximação de uma ruiva atraente, que foi recebida por Alvor com um sorriso cortês.

– Senhor Gretel, essa aqui é uma de minhas colegas de tropa, sargento Loren Giorane, da província da Sidéria.

A moça não aparentava ser muito mais velha do que Daimar, e usava um uniforme num tom marrom esverdeado similar à camisa que ele estava vestindo. Com a insígnia metálica de sargento brilhando do lado esquerdo do peito, ela pareceria com qualquer outro soldado dali, se não fosse pelo grande número de facas e punhais que ela carregava presos por quase toda parte no uniforme.

– Prazer em conhecê-lo, senhor Gretel.

– A sargento Loren é nossa especialista em interrogatórios.

Daimar cumprimentou a moça com um gesto de cabeça, antes de vestir rapidamente as calças e se virar para Alvor.

– Me dê boas notícias, por favor.

Alvor puxou duas cadeiras de um canto, de forma que ele e a sargento pudessem se sentar de frente a Daimar.

– Ouvi dizer que ficou esse tempo todo no hospital – disse Alvor, depois de se acomodar. – Está com fome? Podemos providenciar alguma coisa, se quiser.

– Não, obrigado.

Daimar terminou de fechar os botões da camisa, considerando a praticidade daquilo. Entre os mais ricos daquela sociedade, usar botões nas roupas era quase uma marca de ostentação. Por causa disso, ele próprio não estava muito acostumado a eles, pois apesar de todo o dinheiro da família, eles nunca realmente chegaram a frequentar a “alta sociedade”. No entanto, surpreendentemente, ele não teve problema nenhum em usar os pequenos, discretos e práticos objetos para fechar a veste.

Então ele desativou a transformação, vendo as escamas desaparecerem de sua pele como se nunca tivessem existido. Sentir que tinha aquele controle sobre seu corpo lhe dava uma sensação boa, reconfortante, apesar de toda a raiva e preocupação que sentia.

A sargento observou com certa fascinação as mãos dele voltando ao normal, antes de sacudir a cabeça e limpar a garganta.

– Tudo o que podemos dizer no momento, senhor Gretel, é que conseguimos identificar o encanto que foi lançado sobre o tenente Ivar.

Daimar sentou-se e começou a calçar os sapatos.

– Como assim? Ele não estava sugestionado, como tantas outras pessoas?

– Receio que o caso dele, bem como dos soldados dele, seja um pouco mais complicado.

– Por quê?

– Existem nuances demais no encanto.

Daimar olhou para ela.

– E o que isso quer dizer?

– O senhor já deve ter ouvido sobre pessoas que nascem com certas afinidades místicas e que sofrem… digamos… acidentes fatais por causa disso.

– Sim, claro.

– Vamos supor alguém que tenha afinidade de conjuração de relâmpagos, como o senhor. A primeira vez que essa pessoa for usar essa habilidade, intencionalmente ou não, pode ser que ela use um ponto focal deslocado da posição ideal. Isso pode acontecer devido à falta de prática. Nessa situação, existe uma pequena chance de o ponto focal usado ficar em algum ponto dentro do corpo da pessoa ou até mesmo atrás dela.

– E quando o relâmpago é conjurado, ele atinge o próprio conjurador. – concluiu Daimar, enquanto flexionava os dedos dos pés, testando os calçados e concluindo que davam para o gasto.

– Isso mesmo. Conforme as pessoas ganham experiência, os encantamentos vão naturalmente ganhando “ajustes”, como salvaguardas para situações perigosas como essa, ou melhorias nos efeitos. É a isso que nos referimos como “nuances”. Analisando a energia residual, às vezes é possível perceber resquícios deles.

Ele estreitou os olhos.

– Você está querendo dizer que quem hipnotizou o tenente era muito mais experiente.

– Exato.

– O alquimista – concluiu Daimar. – Ele deve estar ajudando a maldita.

– Todas as evidências indicam que sim – respondeu Alvor.

A sargento continuou:

– Mesmo que estivesse usando uma técnica que acabou de adquirir, a vasta experiência dele acrescentaria automaticamente diversas nuances ao encanto, pois isso é algo que as pessoas fazem instintivamente.

– Ele já devia estar sugestionado quando tentou me matar.

– É possível – concordou Alvor.

– E aquela história toda que ele contou pode ser mentira.

– Talvez, mas não encontramos nenhuma contradição com as coisas que já sabíamos.

Daimar suspirou. Não adiantava se preocupar com aquilo agora.

– Conseguiram reverter a sugestão do tenente?

– Isso será um pouco complicado – respondeu Loren. – O tratamento para essa variação pode levar alguns dias.

– Cariele conseguiu fazer com que os estudantes da academia voltassem ao normal com apenas um gesto.

– O encanto lançado no tenente e nos soldados dele é bem mais complexo e provavelmente leva bem mais tempo para ser conjurado. No caso do ataque à academia, a baracai teve que sugestionar uma quantidade grande de pessoas em apenas alguns minutos.

– Certo. E quanto ao interrogatório? – Daimar não conseguia impedir de revelar a fúria em sua voz ao se lembrar da expressão no rosto do tenente enquanto cortava as roupas de Cariele. – Conseguiram arrancar alguma coisa do infeliz?

– Sim – respondeu ela. – O encanto da verdade teve total efeito, mesmo ele ainda estando sugestionado.

– O que ele fez com Cariele?

A sargento e o aspirante se entreolharam por um instante.

– Acreditamos que ele não sabe de nada sobre o estado dela – respondeu Alvor.

– Como assim?!

– Ele usou nela uma técnica chamada adormecer, que é um encanto de nível muito baixo. Tanto que costuma ser eficaz apenas em crianças. Ela só foi afetada por causa da algema, que anulou todas as defesas místicas dela.

– E por que ela não acordou ainda?!

– Sinto muito, mas não sabemos.

Daimar passou a mão pelos cabelos.

– E de que me adiantou poupar a vida daquele imbecil?

A sargento limpou a garganta e falou, devagar:

– Se me permite, senhor Gretel, eu acredito que essa foi uma decisão acertada da sua parte.

– Ah, é mesmo?

– Sim, pois tudo indica que a senhora Asmund só continua viva por causa dele.

Daimar baixou os braços e lançou um olhar carregado de incredulidade e irritação a ela.

– Ele resistiu à sugestão – ela tratou de explicar. – As ordens que ele recebeu da baracai eram para matá-la assim que tivesse a oportunidade.

– Mas… como?

– Nossa teoria – disse o aspirante – é que o tenente tinha uma certa… obsessão pela senhora Asmund. E esse sentimento era grande o suficiente para conseguir sobrepujar o poder de sugestão. Ao invés de usar a oportunidade para matar, ele decidiu fugir com ela.

– Eu sabia! Devia mesmo ter dado cabo do maldito quando tive a chance! Sempre achei estranho o jeito que ele olhava para ela. Não entendo como deixam uma pessoa assim chegar ao posto de tenente.

– Um dos efeitos da sugestão é a quebra das inibições – respondeu Loren. – Ele resistiu à ordem para matar, mas não ao resto do encanto. Ele confessou que chamou a senhora Asmund para sair várias vezes, anos atrás, mas parou de assediá-la a partir do momento em que ela deixou claro que ele a estava incomodando.

– Todos nós temos sentimentos dos quais não nos orgulhamos – explicou Alvor. – Mas temos o nosso senso de certo e errado, que nos inibe de fazer certas coisas. O melhor exemplo disso é justamente o fato do senhor ter poupado a vida dele. E o encanto de sugestão simplesmente remove todas essas inibições.

– Está bem, que seja. E quanto ao esconderijo? Ele deu alguma pista de onde a maldita pode estar? Ou os meus amigos?

– Não – respondeu a sargento. – Ele viu os demais estudantes sendo levados para algum lugar, mas ele mesmo nunca foi até lá.

Tomado pela ansiedade em voltar para o lado de Cariele, Daimar concluiu que os oficiais não tinham mais nenhuma informação relevante, e se levantou.

– Eu vou embora.

– Espere… – disse Alvor, se levantando também.

– Tem algo de útil a me dizer, aspirante? Porque tenho a impressão de que estou apenas perdendo meu tempo aqui.

– Entendo. Posso remover esse emissor do seu pulso, se quiser.

Daimar olhou para o pequeno aro metálico em seu braço como se o visse pela primeira vez. Tinha se esquecido completamente daquilo. Alvor tinha pedido para usá-lo para que ele e os demais soldados pudessem segui-lo até o cativeiro de Cariele.

Graças àquele objeto, as Tropas Especiais conseguiram chegar à velha masmorra a tempo de salvar a vida de Edizar Olger. E, justiça seja feita, também a de Nielsen Ivar, pois naquela hora Daimar já estava perdendo a paciência com ele, que não parava de repetir que não sabia o que tinha de errado com Cariele ou o porquê de ela não acordar.

– A propósito, você ainda não me explicou como essa coisa permanece no meu braço mesmo quando mudo de forma.

– Eu não saberia dizer. Tudo o que sei é que é uma das invenções de seu pai.

Daimar olhou da pulseira para Alvor e depois para a pulseira de novo, surpreso.

– Ele costumava usar um desses quando partia para a batalha, deixando um coletor de emissões com a tenente Oglave ou com o sábio Edizar. Facilitava bastante o nosso trabalho de monitorar as batalhas e evacuar as pessoas de áreas de risco.

– Não sabia que meu pai criava esse tipo de coisa.

– Ele tem um histórico bem longo de colaboração com o exército.

Aquilo era novidade para Daimar. Delinger sempre tivera boas relações com as autoridades, considerava muitos deles amigos pessoais, mas nunca passou pela cabeça dele que o pai pudesse trabalhar para o exército.

– Não sabia disso.

– Posso lhe passar os nomes de alguns oficiais que trabalharam com ele, se quiser.

– Obrigado. – Daimar pensou um pouco antes de voltar a encarar o aspirante. – Acho que vou ficar com essa pulseira, já se mostrou útil uma vez, talvez volte a ser novamente.

– Não se sente desconfortável sabendo que podemos monitorar seu paradeiro o tempo todo?

– Não tenho nada a esconder. – Daimar olhou para a sargento e depois de volta para o aspirante. – E, de qualquer forma, vocês mostraram ser de confiança.

– Obrigado.

– E quanto à baracai? Encontraram algum sinal dela?

– Nada ainda. Mas estamos vasculhando a cidade.

– Lassam é grande demais, e ela pode estar em qualquer parte da área urbana ou das redondezas. Pode demorar demais para encontrar a maldita desse jeito, apenas com seus soldados.

– Tem alguma sugestão melhor?

Daimar pensou por um instante.

– Na verdade, tenho.

Depois de Daimar ter saído, Alvor e Loren se dirigiram para a sala da tenente Oglave, que o aspirante estava ocupando temporariamente.

Ela perguntou:

– Acha mesmo que esse plano dele é uma boa ideia?

Ele deu de ombros.

– Acho que não custa tentar. Os boatos sobre os poderes dele já estão correndo pela cidade toda, então, não acho que ele tem muito a perder.

– Desde que você termine rápido essa missão, por mim tudo bem.

– Por que a pressa?

– Nessa confusão toda, acabamos não tendo tempo de conversar, mas eu vim aqui para buscar você.

– É mesmo?

– Sim. – Ela estendeu um envelope para ele. – Parece que eu e você andamos atraindo a atenção das pessoas certas. Tem um certo capitão interessado em montar um grupo de elite. E nós dois fomos convocados.

Alvor arregalou os olhos ao ler o nome do remetente.

♦ ♦ ♦

A carruagem parou em frente ao hospital. Daimar sentiu uma nova pontada de apreensão no peito ao olhar para a velha construção.

Seu administrador, um homem baixo, que usava óculos e roupas que deveriam ter estado na moda uns 50 anos atrás, perguntou:

– Algo mais que deseja que eu providencie, senhor?

– Sim. Assegure-se de encontrar casas para os antigos empregados da mansão. Eles precisam de um lugar para morar.

– Temporárias?

– Não, definitivas. Dê a eles a opção de escolher a localização. Se não for possível comprar, alugue.

– Muito bem.

– A proprietária do terreno concordou em negociar?

– Com uma oferta generosa como aquela, ela teria que ser muito estúpida para não aceitar. Quero dizer, o senhor está até pagando o valor integral por um prédio que não existe mais.

– Excelente. Monte uma equipe para limpar o terreno o mais rápido possível, preciso que a construção comece logo.

– Com as especificações que o senhor me passou, será um trabalho bastante demorado e dispendioso.

– É um investimento.

– Se o senhor quer assim…

– Também quero que mande uma mensagem para todos os pais ou familiares dos membros da fraternidade Alvorada. É de suma importância que compareçam ao pronunciamento de amanhã.

– Como quiser.

Daimar abriu a porta e desceu, antes de lançar um último olhar para o administrador.

– Encontre também alguns trabalhadores e os mande à fraternidade. Muitos danos foram causados ao teto e ao calçamento do alojamento. Também seria bom fazer uma limpeza completa. Provavelmente você vai precisar de autorização da supervisão, que deverá designar um monitor para acompanhar tudo.

– Sim, senhor, cuidarei disso – disse o homem fazendo uma anotação numa das páginas amareladas de um velho caderno.

– Você está fazendo um ótimo trabalho. Sinto muito por estar aumentando suas responsabilidades desse jeito.

– Não se preocupe, senhor. Saiba que eu, assim como os outros empregados, aprecio muito tudo o que o senhor está fazendo. Nada me deixará mais satisfeito do que quando o culpado pelo sequestro dos estudantes for levado à justiça.

Daimar apenas assentiu e fechou a porta, dando um sinal para o cocheiro que agitou as rédeas. Enquanto a carruagem partia, Daimar virou-se e caminhou, decidido, para o hospital.

O pessoal que trabalhava na recepção, o reconhecendo, atendeu-o com cortesia e respeito. Assim, ele não teve problemas em chegar rapidamente até um dos quartos do terceiro piso, encontrando Baldier Asmund, que acabava de sair.

– Senhor Gretel – o pai de Cariele o cumprimentou, sério.

– Senhor Asmund. Alguma mudança no quadro?

Daimar teve um breve vislumbre de Cariele, muito pálida, deitada sobre a cama com um monte de parafernálias sobre e ao redor dela, bem como de enfermeiras se movendo de um lado para o outro, antes de Baldier fechar a porta e apontar para uma janela no fim do corredor. Os dois caminharam até lá em silêncio. Então Baldier suspirou e disse:

– Ela permanece inconsciente e seus sinais vitais estão diminuindo.

– Mas o que pode ter causado isso? Ela foi envenenada, ou algo assim?

Baldier apoiou os cotovelos na beirada da janela e olhou para fora.

– Não, nada tão simples assim.

– Mas já conseguiram descobrir o que ela tem?

– Sim. Eu estava em reunião com os curandeiros agora. Profissionais muito competentes, diga-se de passagem. Estou em débito eterno com você por estar bancando tudo isso.

– Não é minha intenção contabilizar favores, senhor Asmund. Somos uma família, não somos?

Baldier deu um sorriso triste.

– Sim, claro. Sobre o quadro dela… bem… na verdade, acho que nós já sabíamos o que ela tinha. Há anos.

Daimar empalideceu.

– O senhor quer dizer… a doença que ela combatia usando os poderes dela?

– As evidências indicam que sim. O nível de cognação transcendente dela está menor do que o meu. E olhe que o meu caso já é terminal. Me deram seis meses, no máximo. No caso dela… acho difícil que sobreviva por mais seis dias.

Daimar recostou-se na parede, sentindo como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago.

– Não pode ser! Como é possível? Ela estava ótima antes! A curandeira tinha dito que tinha ocorrido até uma regressão na doença!

– A algema.

– Como?

Baldier olhou para ele, os olhos marejados.

– O tenente Ivar manteve uma algema militar enrolada ao redor do pulso dela por mais de uma hora. Isso desligou completamente os poderes dela, que eram a única coisa que a vinha mantendo viva.

– Mas eu tirei aquela porcaria dela! Por que ela não se restabelece?

Baldier colocou uma mão no ombro dele.

– Filho, nós dois sabemos que não é assim que as coisas funcionam. Sem a oposição dos poderes dela, a doença progrediu assustadoramente rápido. E quanto mais o espírito se desliga do corpo, menor é o nível de poder que o indivíduo possui. Ela, simplesmente, não tem mais energia para reagir.

– Não, eu me recuso a acreditar nisso! Não pode ser verdade! Eu já vi ela usando uma daquelas coisas antes! A tenente Oglave mandou prenderem ela uma vez, eu vi os soldados amarrando os pulsos dela com aquilo!

– Ela me contou sobre esse episódio. O que você viu foi apenas metal maleável, não era realmente uma algema. Era tudo uma encenação da tenente para que ninguém pensasse que Cariele trabalhava para ela.

– Mas como é possível que ela tivesse uma vulnerabilidade tão grande a esse negócio durante tanto tempo e ninguém perceber? Ela mesma carregava um treco desses com ela o tempo todo! Eu vi ela prendendo gente com isso!

– Não fazíamos ideia de que tão pouco tempo de exposição ao material teria efeitos tão devastadores.

– O senhor tinha me dito que ela estava combatendo a doença! Que tipo de combate é esse que vai todo por água abaixo quando a pessoa simplesmente descansa um pouco? Isso não faz sentido!

– Acredite, filho, estou tão surpreso quanto você. Ela é um caso único, não há registro de ninguém que já tenha passado pela situação dela. Pela lógica, ela deveria ter morrido há muitos anos. Nunca entendemos direito como ela conseguiu sobreviver por tanto tempo. Existem tantas nuances dos poderes dela que contrariam diretamente as teorias da física… que essa situação era… simplesmente… impossível de se prever. Sinto muito.

Daimar forçou-se a se controlar quando viu que Baldier enxugava as lágrimas que desciam pelo rosto enrugado.

– Não, senhor. Eu é que sinto. Me descontrolei, me perdoe.

Os dois se aproximaram e trocaram um abraço carregado de tristeza.

– Se quiser fazer uma visita a ela, posso pedir ao curandeiro para liberar você por alguns minutos.

Daimar se afastou, tentando controlar as emoções.

– Não, agora não. Eu preciso… digerir tudo isso primeiro. Não acho que vá fazer bem nenhum a ela se eu entrar naquele quarto agora.

– Compreendo.

– Vou ver como estão os estudantes que ela salvou.

– Não se esqueça de se alimentar, filho. Ela não gostaria de ver você se adoentar por causa dela.

Daimar lembrou-se da expressão que ela costumava exibir quando alguém fazia algo que ela não aprovava e acabou sorrindo, meio que sem querer.

– Tem razão. Vejo o senhor mais tarde.

Baldier observou o jovem senhor Gretel se afastar com passos decididos e, subitamente, lembrou-se de um comentário que uma das enfermeiras lhe fizera sobre Cariele, semanas atrás, quando ele ainda estava internado ali.

Prepare-se, porque quando ela arrumar um namorado que valha a pena, aí sim as coisas vão mudar para valer.

Aquelas foram palavras proféticas.

♦ ♦ ♦

Felizmente, Daimar não precisou se preocupar em providenciar material ou encontrar curandeiros adequados para cuidar dos estudantes resgatados, uma vez que eles vinham de famílias abastadas e os próprios pais tomaram a iniciativa de cuidar de tudo e garantir que eles tivessem o melhor tratamento que o dinheiro pudesse pagar.

Ele passara boa parte da noite respondendo perguntas sobre Agneta e os outros, fornecendo a maior quantidade de informações que pôde para que os profissionais pudessem fazer seu trabalho. Não que ele soubesse muita coisa sobre como ficaram naquele estado, mas aparentemente, detalhes sobre a alimentação e hábitos dos pacientes podiam dar pistas importantes para que pudessem investigar.

A curandeira contratada pela família de Agneta era uma mulher de meia idade com aparência invejável e cheia de energia. Ele a encontrou numa sala reservada, sentada em frente a uma mesa com uma caneca de cerveja numa mão e um pedaço de pão na outra.

– Bom dia – cumprimentou ele.

Ela lhe dirigiu um sorriso irônico.

– Ninguém lhe disse que essa é uma área restrita, senhor Gretel?

Ele se forçou a sorrir também.

– Achei que fosse proibido consumir esse tipo de bebida dentro de um hospital.

– Faz dois dias que não prego os olhos. E, considerando a bagunça que é este lugar, nunca vou conseguir descansar por aqui, se não encher a cara antes.

– E por que não vai para casa?

– Porque tem uma vida dependendo de mim aqui, e posso ser chamada a qualquer momento – respondeu ela, aparentemente não vendo problemas em estar sob efeito da bebida quando esse hipotético chamado ocorresse. – Alguma razão em especial para o senhor estar aqui?

– Eu só queria saber se poderia ser útil em alguma coisa. E como me disseram que a senhora estava dando uma pausa para descanso, achei que pudesse querer conversar um pouco.

– Já vou avisando que, se o senhor também vier me sugerir como fazer meu trabalho, eu vou chamar os guardas.

– Não se preocupe, estou acostumado a trabalhar com profissionais. Devo supor que os pais da garota não são muito hábeis nesse sentido?

Ela riu e deixou o pão de lado enquanto tomava mais um gole da bebida.

– Sente aí – ela apontou para a cadeira do outro lado da mesa e aguardou até que ele se acomodasse. – Quer saber se os pais dela me deram trabalho? Sim, eles deram. Muito. Mas acredito que um pai tenha todo o direito de surtar quando recebe a notícia de que sua filha está morta.

Daimar ficou sério.

– Ela morreu?!

– Tecnicamente, sim. A pobre coitada teve quase todo o sangue drenado do corpo. E isso ocorreu várias horas antes de ela ser resgatada.

– Mas como? Ela estava se movendo, chegou até a atacar minha companheira.

– Sim, estou ciente. Acredito que estamos lidando com alguém com habilidades necromânticas. Existem traços de energia negativa emanando da paciente. Ela está sob o efeito de um encantamento de tempo congelado ou algo similar, capaz de preservar o cadáver ligado ao espírito, de forma a conseguir se mover e realizar certas tarefas, mas sem vontade própria.

Daimar arregalou os olhos.

– Isso é horrível!

– Mas tem um lado bom. – Ela tomou um outro gole de cerveja. – O encanto necromântico deve ter sido usado imediatamente depois do óbito, ou talvez até um pouco antes. Ela não tem ferimentos sérios, só alguns arranhões e perfurações em algumas partes do corpo, por onde ela foi drenada. Se conseguirmos estimular o corpo para que produza bastante sangue e dissiparmos a energia negativa no momento certo, é possível fazer com que ela reviva.

– Uau! Nunca imaginei que ouviria alguém usar os termos “energia negativa” e “reviver” na mesma frase.

Ela riu de novo.

– Irônico, não é? Acho que demos sorte por termos começado a trabalhar com os garotos antes do encanto perder completamente o efeito. O expurgo que sua namorada usou neutralizou outros feitiços que estavam sobre eles, mas a energia negativa é um pouco mais resistente e, numa situação como essa, se dissipa bem devagar.

– Que bom.

– Resta saber o que queriam fazer com tanto sangue. Cinco garotos, todos na faixa dos 20 anos de idade e saudáveis. É um volume e tanto.

Daimar se lembrou das diversas manchas no corpo da Baracai.

– É, eu acho que sei por que a maldita fez isso com eles.

A curandeira se ajeitou melhor na cadeira e voltou a pegar o pão.

– Por que não me conta, enquanto forro meu estômago? A propósito, quer um pedaço?

– Não, obrigado, acabei de passar na taverna ali em frente, e estou satisfeito. Bom apetite.

– Obrigada, esta é minha primeira refeição desde o jantar de ontem. Foi uma noite e tanto.

– Nem me fale – ele suspirou.

– Então, vamos lá, me conte tudo.

Daimar tentou ser o mais conciso possível, mas a história dos baracais não era fácil de ser resumida. No fim, a narrativa acabou se estendendo por mais de vinte minutos.

– Que história fascinante – disse ela, antes de soltar um enorme bocejo. – Desculpe. Como pode ver, minha estratégia para chamar o sono já está funcionando.

– Tudo bem. – Ele suspirou, frustrado. – O mais desesperador nessa história toda é saber que tem mais de 20 estudantes desaparecidos, provavelmente estão todos com ela, o que quer dizer…

– Que vão aparecer mais pacientes na mesma situação de Agneta Niklas.

– Ou talvez em situações piores. Eu não entendo. O que há de tão especial no sangue humano? Por que ele tem que ser “consumido”? E como isso pode ter o poder de retardar uma doença, ou maldição, ou o que quer que seja?

– Acredito que só tem uma forma de saber. Deixe uma amostra do seu sangue conosco. Posso aproveitar que tem vários figurões por aqui e pedir ajuda para analisar.

– Mas por que analisar o meu sangue?

– Ora, você não disse que é filho de uma baracai com um humano? Se o sangue humano causa mesmo alguma reação, o seu corpo deve estar sofrendo essa reação o tempo todo. E mesmo que não esteja, ainda poderemos analisar o que acontece se misturarmos o seu sangue com o de outra pessoa. Isso deve nos dar algumas respostas.

♦ ♦ ♦

A tarde já ia pela metade quando Daimar desceu da carruagem na frente do prédio da prefeitura, perplexo com o tamanho da multidão que tinha se juntado ali. Mais ainda com a sensação de expectativa que se apoderou de todos, no momento em que notaram a aproximação dele.

O prefeito adiantou-se e veio cumprimentá-lo com um aperto de mão caloroso.

– Senhor Gretel. Estamos gratos pelo que tem feito por nossa cidade.

– Obrigado, senhor, mas até o momento não fiz nada além de revidar um ataque contra minha casa, meus empregados e meus amigos.

– Sim, claro, mas se não fosse pela sua presença e atitude, sabe-se lá quantos inocentes essa criminosa já teria transformado em vítimas.

– O senhor não vê problemas em eu conversar com essas pessoas?

– Pode ficar à vontade. Mesmo que não tivesse ouvido coisas fabulosas a seu respeito, a cidade de Lassam deve muito a seu pai.

– Fico feliz em ouvir isso – disse Daimar, apesar de não gostar daquela bajulação toda. Políticos sempre serão políticos. E ele sabia muito bem que essa gente gosta de dizer coisas para fazer com que as massas acreditem que estão do lado delas.

Daimar e o prefeito foram cortando caminho por entre a multidão até chegarem ao topo da escadaria que dava acesso ao prédio. O aspirante Alvor o aguardava lá, segurando uma pequena concha de caramujo.

– Senhor Gretel. Parece que a sua ideia atraiu mais atenção do que antecipamos.

Daimar olhou para a praça. Parecia que metade da cidade estava presente. Ele não se lembrava de ter visto tanta gente reunida em um só local antes. Reconheceu diversos instrutores, monitores, comerciantes, alquimistas, curandeiros e até mesmo diversos estudantes da academia.

– Estou vendo.

– As histórias sobre você e seu pai são o assunto mais comentado da cidade. – Alvor lhe estendeu a concha, com um sorriso. – Isso é o que dá sair voando por aí daquele jeito.

– Como está Edizar Olger?

– Vai sobreviver. Provavelmente vai passar meses no hospital, mas está reagindo bem ao tratamento de regeneração, apesar da idade. Deve recuperar a consciência em breve.

Daimar assentiu.

A expectativa no ar era palpável quando ele se adiantou um pouco e encarou a multidão. Todos ficaram em silêncio quando ele aproximou a concha dos lábios e começou a falar, sua voz amplificada soando alta e clara por toda a praça.

Saudações a todos! Para aqueles que não me conhecem, meu nome é Daimar Gretel. Sou o filho de Delinger Gretel, e minha família possui uma ferraria, algumas lojas e diversos outros negócios na cidade.

Estou muito grato pela presença de todos aqui. Eu havia solicitado às pessoas que trabalham para mim que espalhassem a notícia de que eu tinha um favor pessoal a pedir para todos os nossos clientes e amigos. Mas, mesmo com a ajuda do exército, não imaginava que tantas pessoas pudessem se reunir aqui para me ouvir. Isso, para mim, foi uma abençoada surpresa.

Ele fez uma breve pausa.

Tendo dito isso, peço a todos o favor de ouvir minhas breves palavras, pois eu tenho um pedido muito importante a fazer. Neste momento, eu tenho diversos amigos e entes queridos internados no hospital de Lassam, lutando contra a morte. E existem dezenas de outros jovens inocentes que nesse momento estão nas garras do inimigo, e precisam ser resgatados.

Antes de mais nada, preciso deixar bem claro alguns fatos. Minha família viveu em Lassam por muitos anos no passado, mas tivemos que nos mudar e voltamos para cá apenas recentemente. Durante mais de 25 anos, minha família guardou um segredo. Até mesmo devido ao fato de ele não ser relevante. E vivemos em paz… até agora.

O fato é que minha família descende de um clã que viveu isolado durante muitos séculos. E algumas pessoas desse clã se descontrolaram e começaram a atacar a cidade nessas últimas semanas.

Murmúrios começaram a surgir de todos os lados, enquanto Daimar estendeu a concha para o aspirante para poder despir a parte de cima do uniforme militar. A maioria das pessoas se entreolhava, não entendendo direito o que estava acontecendo. Então, Daimar entregou a camisa a Alvor e pegou a concha de volta.

Este aqui é o segredo da minha família. E de todo o meu clã.

Ele levantou o punho esquerdo e o encarou, ativando a sequência de transformação. Em segundos, as escamas azuis apareceram, cobrindo totalmente seus braços e seu torso. Exclamações de espanto vieram da multidão, alguns chegando a se afastar dele, enquanto outros tentavam chegar mais perto para ver melhor.

Alvor fez um sinal para os soldados que estavam de prontidão por ali e eles prontamente formaram um cordão humano na frente da multidão, impedindo que as pessoas subissem as escadas.

Os monstros que atacaram a cidade, na verdade eram pessoas do meu clã, que se utilizaram desta incomum habilidade de transformação, da qual todos partilhamos. E o dragão dourado, que muitas pessoas viram lutando contra os “monstros”, era Delinger Gretel. Meu pai arriscou a vida para proteger esta cidade. E eu pretendo fazer o mesmo.

Alguém gritou:

– Você é um monstro!

Se eu sou um monstro? Acho que isso depende, não é mesmo? “Monstro” é uma palavra que se usa para definir algo ameaçador, perigoso, perverso, assustador. Mas isso é apenas uma impressão pessoal, o que parece um monstro para uma pessoa, não necessariamente parece assim para outra.

– Ouvi dizer que você é metade humano!

Se sou “metade humano”? Não, isso é mentira. Eu sou humano por inteiro, igual a qualquer um de vocês. Assim como meus pais e todos do meu clã. Temos poderes incomuns? Certamente. Mas o mesmo se aplica aos curandeiros que nesse momento estão no hospital usando suas habilidades especiais para salvar vidas. Ou aos agricultores que usam sua afinidade para trabalhar na terra como ninguém mais consegue. Ou aos alquimistas, que têm o poder de preparar poções e criar artefatos. E nada disso os torna menos humanos. E muito menos, monstros.

Mas é verdade que Delinger Gretel é meu pai adotivo. Meu pai natural é um habitante de Lassam, um cidadão trabalhador e dedicado, assim como qualquer um de vocês.

Agora, querem saber o eu acho que é um “monstro”? Para mim, monstro é alguém capaz de sequestrar dezenas de jovens e mantê-los presos contra a vontade, forçando-os a fazer sabe-se lá o quê enquanto as famílias ficam aqui, desesperadas, sem ter nenhuma pista do paradeiro de seus filhos, seus irmãos, seus primos.

Um monstro é alguém capaz de atacar pessoas inocentes por motivos egoístas, ou até mesmo sem motivo nenhum. E é por causa de um monstro desses que eu vim até aqui, pedir ajuda.

Impressionados, Alvor e o prefeito observaram enquanto Daimar revelava diversos fatos sobre a baracai à multidão, encarando de peito aberto o fato de possuir os mesmos poderes que ela e ser, potencialmente, tão perigoso quanto.

Quando ele finalmente fez o pedido para que todos ficassem atentos para qualquer fato estranho que pudesse acontecer na cidade e nas redondezas, as pessoas entenderam. Concordaram enfaticamente em procurar as autoridades se algo fora do comum ocorresse. A generosa recompensa que ele ofereceu por informações que levassem à descoberta do paradeiro da criminosa foi como uma espécie de golpe final.

O problema que, antes, era dele e das autoridades, agora tinha se tornado o problema da cidade toda.

Surpreso e satisfeito com a reação das pessoas a seu pequeno discurso, Daimar fazia os agradecimentos finais quando percebeu um soldado, esbaforido, tentando abrir caminho em meio à multidão.

– Gostaria de pedir um favor – disse ele à multidão, enquanto apontava na direção do rapaz. – Abram espaço para aquele oficial passar. Obrigado.

Com o caminho subitamente livre, o soldado chegou até a escadaria em tempo recorde. Tentando recuperar o fôlego, ele prestou continência ao aspirante e ao prefeito, antes de se virar para Daimar.

– Senhor Gretel, estão solicitando a sua presença no hospital, com urgência.

Houve uma comoção geral entre a multidão, mas aquilo não era nada perto da intensidade da sensação avassaladora que tomou conta de Daimar. Por alguns segundos, ele ficou parado no lugar, completamente incapaz de qualquer reação, mas no momento seguinte, uma urgência incontrolável o invadiu e ele olhou uma última vez para as pessoas na praça.

– Mais uma vez, obrigado por sua atenção. Agora, se me derem licença, preciso atender a um assunto urgente. Por favor comuniquem qualquer informação que tiverem às autoridades. Obrigado.

Dito isso, ele arremessou a pequena concha para o aspirante, antes de, rapidamente, se livrar dos sapatos e da parte de baixo do uniforme que Alvor havia lhe dado e ele não tinha tido tempo de trocar até agora.

Então vamos lá, pensou ele, tentando se concentrar. 88 quilos, 1 metro e 79 de altura, escala 3 de temperatura, sem vento, sem nuvens no céu, centro de energia no abdômen…

Torcendo para estar se lembrando direito de todas as etapas, ele concluiu os cálculos e fez um gesto dramático com os braços, como se desenhasse algo no ar. Imediatamente, surgiu uma espécie de vácuo no espaço acima dele, sugando-o com certa violência para cima e o arremessando a dezenas de metros de distância do chão.

Tendo bastante espaço ali em cima, ele assumiu sua gigantesca forma draconiana e bateu as asas, tomando a direção do hospital, enquanto a multidão abaixo observava. Muitos, perplexos, outros amedrontados e alguns, muito excitados.

O prefeito olhou para Alvor.

– Colocar o garoto para falar com as pessoas da cidade foi uma estratégia brilhante, aspirante.

– Obrigado, senhor, mas a ideia foi toda dele. E eu nunca imaginaria que ele tivesse tanto carisma assim.

– É verdade, olhe para eles – o prefeito apontou na direção da multidão que se dispersava. – Agora eles têm um ícone, uma figura palpável que representa a luta contra todo esse caos que se abateu sobre nós. Ele se tornou um símbolo de esperança. Se Delinger Gretel tivesse concordado em fazer algo similar, com certeza não teríamos tantos cidadãos abandonando a cidade.

– Provavelmente.

– A propósito, aspirante, o capitão não designou ainda novos comandantes para as tropas de Lassam?

– Não, senhor. De acordo com as ordens dele, minha equipe está trabalhando junto às tropas, tentando formar novas lideranças. Como o senhor deve saber, a Quarta Divisão do Exército Imperial está bastante atarefada, e não há bons comandantes disponíveis no momento.

– O povo de Mesembria, tradicionalmente, é composto mais por intelectuais do que por guerreiros.

– Com todo o respeito, senhor, não sei se posso concordar com isso. Como o senhor Gretel bem disse, somos todos humanos, não somos?

♦ ♦ ♦

Daimar não perdeu tempo tentando entrar pela porta da frente do hospital, ao invés disso, chegou pelo teto. Ele exercitou novamente as técnicas que tinha aprendido com Cariele, voltando a assumir a “quarta forma” em pleno ar e usando um encantamento especial para pousar suavemente, surpreendendo as pessoas que estavam por ali, recolhendo as roupas que secavam ao sol, penduradas em varais rústicos.

Minutos depois, ele entrava no gabinete da administradora do hospital, que estava sentada atrás de sua enorme mesa. Diante dela, haviam quatro outras pessoas sentadas, incluindo a curandeira de Agneta. Baldier Asmund, que se encontrava em pé próximo a uma janela, virou-se para ele com uma expressão preocupada no rosto.

Daimar franziu o cenho.

– O que está acontecendo? Como está Cariele?

– Não houve mudança no quadro dela, senhor Gretel – disse a administradora. – Por favor, feche a porta e sente-se.

Daimar encarou Baldier, que apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça. Soltando um suspiro de alívio, ele encostou a porta e se acomodou na única cadeira desocupada.

– Senhor Asmund, pode fazer o favor de explicar ao senhor Gretel sobre a descoberta?

– Sim, claro – disse o pai de Cariele, adiantando-se e pegando alguns papéis do canto da mesa. – Os resultados da análise do seu sangue são fascinantes, rapaz.

Daimar levantou a sobrancelha.

– É mesmo?

– Ainda tem muita coisa que não entendemos, levaria anos para estudar todas as nuances. Mas descobrimos nele uma emanação de energia em uma frequência bastante peculiar.

– Por favor, me diga que encontrou um jeito de saber onde a baracai está se escondendo.

– Infelizmente, não. Mas creio que descobrimos uma forma de salvar a vida de Cariele.

♦ ♦ ♦

A explicação era bastante complexa e envolvia um monte de conceitos de física que Daimar não tinha a mais remota perspectiva de um dia vir a compreender.

Os curandeiros conseguiram encontrar aquilo que parecia ser a razão do sangue humano reverter a degeneração baracai. Descobriram que o sangue dele tinha emanações místicas capazes de estimular o aumento do nível da chamada “cognação transcendente”, que era a capacidade do indivíduo de manter ativa a ligação entre o corpo e o espírito. Era bastante provável que o sangue baracai reagisse a componentes do sangue humano, criando aquela reação.

E ele, como possuía os dois tipos de sangue correndo, misturados, em suas veias, provavelmente estava completamente imunizado contra os efeitos da maldição dos baracai. Aquelas pessoas tinham acabado de provar que Delinger Gretel, mais uma vez, estava certo.

Outra descoberta interessante era que o sangue meio baracai dele podia servir como uma ponte intermediária, permitindo aumentar temporariamente o nível de cognação, mesmo quando a ligação estava quase toda comprometida.

Com a cooperação de Daimar, os curandeiros e sábios trabalharam arduamente para criar uma poção especial, o que não foi nada fácil. Como não havia tempo para refinar a técnica de separação do componente ativo do sangue dele, Baldier precisou de várias dezenas de litros de matéria-prima. Mesmo na forma de dragão, a perda de tão grande quantidade de sangue o deixou bastante enfraquecido.

Assim que a poção foi dada a Cariele, mesmo estando inconsciente, ela passou a ter acesso a parte de seus poderes. E como o corpo dela estava condicionado a combater a doença, ao receber uma nova dose de energia, ele automaticamente passou a lutar para se recuperar, gerando uma reação em cadeia que fez com que, em poucas horas, o nível de cognação dela tivesse se restabelecido completamente.

♦ ♦ ♦

O sol da manhã entrava pela janela, banhando seu rosto, quando ela recobrou a consciência.

A primeira coisa que percebeu, antes mesmo de tentar abrir os olhos, foi que a ligação mental com Daimar tinha se restabelecido. Sentindo uma sensação maravilhosa de “pertencer”, ela instintivamente acionou o gatilho mental que a permitia ter acesso aos sentidos dele.

Sentiu então que estava deitada em uma cama, provavelmente no hospital, a julgar pelos diversos instrumentos e pelas emanações místicas peculiares, presentes por toda parte. Ela inspirou o ar pelo nariz e sentiu o cheiro de ervas, que sempre a fazia passar mal. Surpreendentemente, dessa vez não houve nenhuma sensação de mal-estar. Na verdade, não se sentia tão bem há anos.

Daimar estava esparramado em uma poltrona ao lado da cama, dormindo numa posição, aparentemente, bastante desconfortável. Ele estava muito cansado e abatido, e ela podia sentir a intensidade da carga de preocupação dele.

Ela não conseguia se lembrar de nada que ocorrera depois que o tenente Ivar colocara aquele maldito cristal diante de seus olhos, mas para terem trazido ela até o hospital, e Daimar estar ali daquele jeito, algo ruim deveria ter acontecido com ela, apesar de ela não perceber nada errado em nenhuma parte do próprio corpo.

Levantando os braços, ela espreguiçou-se, alongando os músculos, privados de exercício por tanto tempo. Sem dificuldade, ela se sentou e se virou para ele, finalmente abrindo os olhos. Ele estava usando roupas brancas, bastante parecidas com os uniformes dos enfermeiros. Estava um pouco pálido, e parecia bastante cansado, mas a seus olhos, continuava sendo o mais atraente espécime masculino que ela conhecera.

Descendo da cama, ela ficou parada em pé por alguns instantes, tentando se livrar do restante da sensação de letargia provocada pelo longo tempo de sono. Então, suspirou e olhou mais uma vez para ele. Não tinha como alguém descansar direito naquela posição.

Fazendo um gesto com ambas as mãos, ela usou a técnica de aumento de força, o que a permitiu erguê-lo com facilidade e ajeita-lo com cuidado sobre a cama. Deu-lhe um pequeno beijo na bochecha antes de se afastar.

Ele permaneceu dormindo o tempo todo, mas seus lábios se curvaram levemente em um arremedo de sorriso. Esperava que estivesse sonhando com ela.

Olhando ao redor, ela localizou suas roupas, que formavam uma pilha cuidadosamente dobrada sobre uma cadeira. Livrando-se daquela camisola horrível de hospital, ela tratou de se vestir, antes de sair do quarto, abrindo e fechando a porta devagar.

Em seguida se dirigiu à janela no final do corredor, onde Baldier Asmund olhava para fora, de costas para ela.

– Oi, pai. O que está fazendo aqui?

Baldier virou-se para ela, com uma expressão enorme de alívio no rosto enrugado.

– Filha! Filha! – Ele correu para ela e a envolveu num abraço apertado. – Filha! Pela Fênix! Minha Filha!

Ela riu.

– Calma! Eu estou bem, pai. Sério! Por que tanta preocupação? O que aconteceu?

Levou bastante tempo para Baldier finalmente conseguir explicar a situação toda para ela. Estava terminando quando o aspirante Alvor apareceu.

– Senhora Asmund! Que bom ver você de volta ao mundo dos vivos!

– Aspirante.

– E onde está seu companheiro?

– Descansando. – Ela encarou Baldier com uma expressão desaprovadora. – Aparentemente meu pai quase o matou para tentar me ajudar.

Alvor riu.

– É, fiquei sabendo. Acho que depois de tudo, ele merece mesmo algum descanso.

– O que o traz aqui, oficial?

– Recebemos diversos relatos que podem nos dar pistas sobre o paradeiro da baracai.

Cariele estreitou os olhos.

– Então vamos lá, quero ouvir tudo.

O aspirante hesitou e lançou um breve olhar para Baldier antes de voltar a encará-la.

– Mas… tem certeza que está mesmo tudo bem com você? Afinal, acabou de passar por uma situação de vida ou morte.

– Não, não estou “bem”. E só vou ficar depois que acabar com a raça daquela miserável. Quando eu terminar com ela, pode escrever o que eu digo, não vai restar nenhum indício de que aquela criatura algum dia existiu!

— Fim do capítulo 18 —
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