Lassam – Capítulo 19: Recursos

Publicado em 18/06/2017
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19. Recursos

Sangue e morte estavam espalhados por toda a parte.

Cristalin engoliu várias vezes, tentando controlar a sensação de enjoo, mas aquela era uma tarefa hercúlea, principalmente devido ao fato dela própria estar coberta de sangue.

Olhou para as adagas em suas mãos por um momento. Elas estavam banhadas com o líquido escarlate e ainda pingavam, apesar de estarem escurecidas em diversos lugares onde o sangue já havia coagulado. Há quanto tempo tinha estado lutando? Quantos tinham encontrado seu destino fatal nas mãos dela?

Então ela fez um esforço para abrir os dedos calejados, deixando as armas caírem. As mãos ardiam muito, as palmas estando quase em carne viva. Seu corpo estava todo dolorido.

Mas estava acabado. Finalmente.

Homens, mulheres, crianças, velhos, estavam todos mortos.

Você não teve escolha – disse a voz telepática de Delinger.

Será mesmo? No momento, não me parece.

Tente não ser dura demais consigo mesma. Eu sei como é passar por isso, pois eu matei quase todo o meu clã. Também não foi fácil, nem indolor, mas tinha que ser feito.

Seu clã estava doente, é diferente.

Não, não é. E você sabe disso.

Aqueles nativos, na verdade, eram descendentes de uma antiga tribo que sucumbiu à loucura há muitos séculos, e foram banidos para Vindauga pelos anciões. Delinger não tinha certeza de qual havia sido a origem daquela loucura, era provável que os próprios baracais fossem os responsáveis. Ele também ignorava a razão de os anciões terem se dado ao trabalho de bani-los, principalmente considerando a animosidade que sentiam para com outros povos. Parecia mais lógico que tivessem simplesmente erradicado a todos. Como Cristalin tinha sido obrigada a fazer.

Ela se virou e encarou mais uma vez o paredão de pedra atrás dela.

Isso não teria sido necessário se eu não tivesse me deixado encurralar.

Era só questão de tempo até uma situação como essa acontecer, depois que eles começaram a perseguir você.

Ela levantou um braço, de forma a cobrir o nariz com a manga da camisa, e começou a se afastar da carnificina.

Não entendo como criaturas sem o menor senso de sobrevivência tenham conseguido permanecer vivas aqui por tanto tempo.

As pessoas conseguem ser muito teimosas, às vezes.

Quando achou que já estava longe o suficiente, Cristalin se jogou no chão, rolando sobre a poeira. O cheiro de terra seca era uma bênção, e era mil vezes preferível ficar coberta de barro e pó do que de sangue coagulado.

Quanto tempo mais terei que ficar neste lugar? Já se passaram quatro meses!

Não dá para fazer um cálculo preciso. Não aqui. E, infelizmente, com meu corpo petrificado, não serei de grande ajuda para você.

Ela respirou fundo, inadvertidamente inalando bastante poeira. Aquilo acabou provocando-lhe um ataque de tosse, que a obrigou a se sentar. Quando finalmente conseguiu se recuperar, ela apoiou as mãos no chão atrás dela e olhou para cima, onde as enormes ilhas flutuantes continuavam seu perpétuo e aparentemente aleatório caminho.

De repente, ela franziu o cenho.

Você está mesmo aí?

Que raio de pergunta é essa?

Desculpe, mas às vezes eu fico pensando se eu não enlouqueci e se nesse exato momento, eu não estou simplesmente discutindo comigo mesma.

Se eu for só uma criação da sua mente, tenho que parabenizá-la, pois você, com certeza, tem uma criatividade impressionante.

Aquilo fez com que ela tivesse um outro ataque, mas dessa vez, de riso.

Eu amo você.

Eu também a amo, Cris. Um dia de cada vez, lembra? Viva um dia de cada vez. O talismã deverá se recarregar bem mais depressa agora que… – ele interrompeu-se.

Agora que tem menos gente vivendo por aqui, uma vez que eu chacinei todos.

Eu não colocaria dessa forma, e ainda existem mais deles por aí. Mas, de maneira geral, é isso mesmo. Você tem que ver o lado positivo das coisas e seguir em frente. Pode parecer hipócrita da minha parte dizer isso agora, quando não posso mais estar aí com você, mas preciso que você sobreviva. Não se esqueça de que tem uma boa razão para isso.

♦ ♦ ♦

Cariele percebeu a forma como as pessoas a olhavam quando desceu da carruagem em frente à ferraria. Olhares que variavam de surpresa a perplexidade. As crianças ficavam com medo dela e se escondiam atrás de seus pais.

Ela estava feliz em ter voltado àquela forma. Não tinha nem um pouco de saudade de seu antigo corpo de mulher fatal, e fora um alívio muito grande quando ele se foi e ela pôde voltar a deixar de se preocupar com futilidades. Mas sua cabeça careca e as cicatrizes permanentes da queimadura pareciam ser um incômodo visual para as outras pessoas. Obviamente, aquelas que realmente importavam não ligavam para aquilo, mas uma das características inerentes do ser humano é querer pertencer, ser aceito no grupo em que ele está, qualquer que seja ele. E, por isso, ser vista como uma espécie de aberração não deixava de ser desagradável, mesmo ela estando satisfeita consigo mesma.

Com um suspiro, ela atravessou a calçada e entrou na loja. Lina, a esposa do ferreiro, a recebeu com um sorriso, olhando para ela com total naturalidade.

– Bom dia! Em que posso ajudá-la?

Aquela era mais uma prova de que as pessoas que realmente importavam não ligavam para sua aparência.

– Olá. Eu sou Cariele Asmund.

A outra a encarou boquiaberta por um instante.

– Oh! Me perdoe. O administrador dos Gretel me disse que você viria, mas está tão diferente da última vez que a vi, que não a reconheci.

– Vá se acostumando.

– Com certeza, com certeza. Suas armas estão prontas.

Fazia mesmo apenas alguns dias desde que ela estivera ali pela última vez? Parecia que tinha se passado toda uma vida desde então.

– Preciso de um trabalho alquímico – disse Cariele, caminhando até o balcão, sobre o qual colocou alguns objetos que tirou do bolso. – Eu quero uma fusão etérea entre esses artefatos.

Lina abriu uma gaveta e tirou dela um objeto que se assemelhava a um minúsculo martelo, tendo pouco menos de dez centímetros de comprimento. Aproximou-se dos itens sobre o balcão e bateu com o martelinho sobre o primeiro deles, um grosso anel com uma safira em formato oval.

Cariele não conseguia evitar de lembrar das escamas de Daimar toda vez que olhava para a cor azulada daquela pedra.

O anel emitiu um leve brilho e diversas fagulhas luminosas surgiram no ar acima dele. Ambas observaram atentamente os padrões de luz.

– Esse anel parece ser um artigo de alta qualidade – disse Lina. – Mas perdeu a sua carga já há um bom tempo.

– Pouco mais de três anos. Você consegue reativar?

– Sim, por sorte, temos os materiais aqui. Ele gera um campo de proteção em torno do usuário, certo? Um tipo de escudo. Ele vai ser o elemento principal da fusão?

– Isso mesmo.

Lina voltou-se para o próximo objeto, um paralelepípedo de metal no tamanho de uma caixa de joias, daquelas usadas para guardar anéis ou brincos. Da mesma forma como fizera com o anel, ela golpeou o objeto com o martelinho e observou novamente as faíscas de luz que surgiram. Então franziu o cenho.

– Mas isso aqui é um emissor. Parece militar.

– Sim, mas tenho autorização para ficar com ele. Pode reportar à base deles, se quiser.

Lina assentiu, e olhou para o terceiro objeto, que era feito de cobre e tinha o formato de uma ferradura. Lina o analisou da mesma forma que tinha feito com os outros dois.

– Isso é uma âncora?

– Presente de despedida da minha antiga sargento. Ela gostava de dizer “almeje os céus e o infinito, mas mantenha os pés no chão”.

Lina sorriu.

– Quanto simbolismo, não? Mas devo avisar que a fusão vai ativar a âncora. Com isso, o artefato final vai ficar vinculado permanentemente ao local onde a fusão foi feita.

– Sim, esse é o objetivo.

De alguma forma, Cariele sentiu o momento exato em que Daimar acordou. Fechando os olhos, ela conseguiu visualizá-lo perfeitamente, se sentando na cama, confuso, ao perceber que ela não estava lá.

Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos.

Obrigado – foi a resposta dele, carregada de alívio. – Vejo que está tudo bem com você.

– Está tudo bem com você?

Cariele abriu os olhos de repente, vendo Lina olhar para ela preocupada. Ficou muito surpresa, tanto por ouvi-la dizer em voz alta as mesmas palavras que Daimar tinha dito telepaticamente, quanto pelo fato de que, por um momento, ela tinha se esquecido completamente de onde estava.

– Ah, sim. Apenas me lembrei de uma outra coisa. – Cariele apontou para os objetos no balcão. – Pode cuidar disso com urgência? Você pode cobrar a taxa extra, é só pedir para o administrador me mandar a conta.

– Sem problemas. Mas vai levar um pouco mais de uma hora.

– Obrigada, eu aguardo.

Lina pegou os objetos e desapareceu pela porta dos fundos.

Onde, raios, você está? – Daimar parecia perplexo.

Na ferraria.

Desde quando nosso elo tem alcance tão longo?

Aparentemente, desde que meu pai me fez beber seu sangue.

Ei! Não fizemos nada tão nojento assim com você!

Pode até ser, mas alguma coisa está diferente agora. Posso até visualizar você na janela. Você está olhando diretamente na minha direção.

Tem razão, estou sentindo a sua presença à distância também. A sensação aumenta quando eu fecho os olhos.

Se você tinha alguma intenção de se ver livre de mim, pode esquecer. Parece que estamos mais ligados do que nunca.

Fico feliz em saber disso.

Eu amo você, seu bobo. Obrigada por arriscar sua vida para me salvar.

E eu amo você, sua cabeça dura. Você não acha mesmo que eu tinha qualquer escolha, acha?

Me desculpe pela minha falha de julgamento durante a batalha. Não imaginei que eu pudesse ser o alvo. Não pensei que a filha da mãe me considerasse importante o suficiente para isso. Acabei me descuidando.

No final, deu tudo certo, e é o que importa.

Não necessariamente. Temos que aprender com nossos erros, não temos? Vamos atrás dela de novo. Dessa vez eu tenho um plano.

Ele riu.

Um plano principal com mais uma meia dúzia de planos de contingência?

Naturalmente.

A propósito, não preciso mais de uma “calça mágica”. Você enrolou demais para me arrumar uma e eu acabei encontrando uma outra solução para o problema.

É mesmo?

Ela sorria, divertida, quando Lina retornou. Tratou de abrir os olhos, depressa.

– Meu marido está cuidando do seu pedido. Vou pegar as suas armas.

Cariele olhou ao redor da loja por um momento.

– Sabe me dizer onde eu posso conseguir vestimentas especiais?

– Talvez. O que está procurando?

♦ ♦ ♦

– Como está, meu amigo?

Edizar Olger levantou os olhos do livro que estava lendo e encarou o aspirante Alvor.

– Ah, é você.

– Que recepção mais fria – reclamou o aspirante, com uma careta, entrando no quarto e aproximando-se da cama.

– Desculpe. Essas poções horríveis que estão me dando estão me deixando um tanto irritadiço. Obrigado por salvar minha vida.

O velho sábio parecia ainda mais velho. Tratamentos de regeneração eram bons, mas cobravam um preço. Claro que envelhecer alguns anos era muito melhor do que morrer imediatamente, mas Edizar não estava apenas parecendo mais velho, estava também muito magro e abatido. As mãos que seguravam o livro pareciam quase esqueléticas.

– Só coordenei os recursos de Lassam para que fizessem seu trabalho, amigo. Pessoalmente, eu não fiz nada.

– Eu acho que você tem feito um excelente trabalho por aqui.

– É… deve ser por isso que meus superiores querem me premiar com mais trabalho.

Edizar sorriu.

– Dizem que ter bastante trabalho é melhor do que não ter nenhum.

– Sábias palavras, como eu esperava do senhor. E aí? Pronto para nos ajudar a pôr um fim nos atos de terrorismo baracai?

– Estarei preso a essa cama por várias semanas, aspirante. Nem ir ao reservado sozinho eu posso. Uma situação altamente humilhante para alguém da minha idade.

– Mal consigo imaginar o senhor saltando no lombo de um cavalo e saindo em perseguição a um sequestrador – disse Alvor, divertido. – Se não fosse minha parceira de tropa me contando essa história, eu não teria acreditado.

O velho sábio ficou sério.

– Como está o tenente?

– Ex-tenente agora. Vai ficar confinado até pegarmos a baracai, por medida de precaução, mas depois deve voltar para casa da família dele, em Aldera.

Edizar franziu o cenho.

– Vocês não podem expulsá-lo da tropa por causa de algo que ele fez quando não tinha qualquer controle sobre seus atos!

– Concordo plenamente com o senhor. O capitão e o major, também. Mas parece que o tenente não pensa assim.

– Ele pediu baixa?

– Sim, hoje de manhã. – Alvor olhou para a janela e respirou fundo. – Ele se lembra de tudo. O que ele fez, o que falou, o que sentiu, tudo mesmo.

– Pela Fênix! Isso deve ser horrível!

– Sim, e ele não parece estar aceitando o fardo muito bem. Gostaria de pedir que o senhor tivesse uma conversa com ele, se possível.

– Absolutamente. E como está a senhora Asmund?

Alvor voltou a sorrir.

– Ah, o senhor conhece aqueles dois, ela e o namorado. Nada é capaz de abatê-los. O máximo que as desventuras da vida conseguem é fazer com que desacelerem um pouco, mas logo já estão na luta outra vez.

– Não passam de crianças inexperientes.

Alvor lançou ao outro um olhar divertido.

– Não são muito mais jovens do que eu.

– Sim, você também é jovem demais para um cargo com a importância desse que está ocupando aqui.

– Bom, antes o senhor disse que eu estava fazendo um bom trabalho, então vou tomar isso como um elogio. – Alvor se dirigiu até a porta. – Tem algo mais que eu possa fazer pelo senhor?

– Sim. Dê um fim naquela baracai. E resgate o alquimista, ele é a nossa única chance de encontrar Daimar Gretel e Cristalin Oglave.

– É mesmo? Achei que eles tinham optado por um… “caminho sem volta”, como disse o grande sábio.

Edizar balançou a cabeça.

– Eu já repliquei um portal baracai antes, posso fazer isso de novo. Faça o alquimista falar. Me consiga as coordenadas do mundo onde os dois podem estar que eu mando vocês para lá.

– Não seria melhor interrogarmos a baracai ao invés dele?

– Você assistiu às lutas de Delinger com os outros da tribo dele. Acha mesmo que seria possível capturar aquela maldita viva?

♦ ♦ ♦

Daimar se aproximou da carruagem assim que ela parou em frente ao posto militar. Cumprimentando o condutor, ele se aproximou da porta e a abriu. E teve uma grande surpresa.

Espantado, ele piscou os olhos por um instante antes de olhar ao redor. Vendo que não tinha ninguém por perto, ele entrou no veículo e fechou a porta, se sentando à frente de Cariele e analisando-a com cuidado.

Ela usava uma capa com capuz na cor azul marinho, sob a qual ela usava peças também azuis, mas de um tom um pouco mais claro. O tecido da capa e do capuz apresentava diversas formas abstratas desenhadas em um tom mais claro, que lembravam um pouco ramos de uma videira seca. No dedo médio da mão direita ela usava um anel com uma pedra de cor muito parecida com a do traje. Ela levantou a cabeça levemente, permitindo que a luz do sol que entrava por uma fresta da cortina lhe iluminasse o rosto. Os olhos dela estavam vendados por uma faixa de tecido da cor do céu. A dualidade de cor de pele do rosto dela contrastava de forma interessante com o azul. Ela exalava poder e mistério.

Ele limpou a garganta.

– Não sei se essa era sua intenção, mas você está linda.

Ela sorriu.

– Confesso que isso não é um efeito indesejado.

– Você comprou todo o tecido dessa cor que havia na cidade?

– Todo o que consegui encontrar, pelo menos. Foi o tom mais próximo que consegui das suas escamas.

Ele olhou para ela por um longo momento. No fundo, ele sabia que ela devia ter razões mais práticas para se vestir daquela forma, mas o fato dela fazer algo assim pensando nele o deixou emocionado.

– Isso foi… inesperado. E por que o anel?

– Eu preciso que você veja uma coisa.

– O quê?

– Apenas confie em mim e fique parado.

Ela enfiou a mão no interior do manto e tirou dele um pequeno bastão metálico. Daimar arregalou os olhos ao reconhecer o objeto. A algema que quase a tinha matado.

Sem nenhuma hesitação, Cariele levantou o braço esquerdo e bateu nele com o objeto, fazendo com que o metal flexível se enrolasse ao redor de seu pulso. Com toda a tranquilidade, ela terminou de enrolar o restante antes de levantar o dedo indicador e fazer uma pequena volta no ar. Com aquele breve movimento, o ar se aqueceu levemente e uma chama surgiu, como se estivesse consumindo seu dedo. Depois de alguns segundos, ela baixou novamente a mão e a chama desapareceu como se nunca tivesse existido.

Daimar soltou a respiração, que tinha prendido sem nem perceber.

– Você me deu um baita susto!

– Melhor aqui do que durante uma batalha. Preciso que você saiba que não estou mais correndo risco por causa desse negócio – disse ela, desenrolando a algema do pulso e voltando a guardá-la no bolso do interior do manto.

– Não imaginei que estivesse. Você não é nenhuma idiota.

– Lembre-se de que você está falando com alguém que acreditou por anos no conto de fadas do ritual de modificação corporal – retrucou ela, franzindo o canto do lábio, em desgosto.

– Você só depositou sua confiança em uma pessoa mais do que qualificada, e o resultado não poderia ter sido melhor – ele respondeu, sorrindo. – Mas como conseguiu imunidade à algema? É o anel?

– Sim. Originalmente era um artefato militar, com o objetivo de neutralizar campos de absorção de energia como o da algema. Conjuradores geralmente usam coisas como essa, para evitar que alguém anule suas habilidades e assim os deixe indefesos. Ganhei isso no dia em que fui enviada para a minha primeira missão externa. Você sabe… fora do posto militar.

– Por que “originalmente”?

– Eu fiz algumas modificações.

Ele riu.

– Você é mesmo cheia de recursos.

Levantando-se, ele se inclinou para a frente até colar os lábios aos dela, num longo beijo. Ambos estavam com a respiração ofegante quando se separaram.

– Já estava com saudades disso. E aí? Pronta para a festa?

– Estou sempre pronta.

Cariele prestou atenção aos arredores enquanto saíram da carruagem e se dirigiram ao posto. Usar os sentidos de Daimar não era a mesma coisa que usar seus próprios olhos, mas ainda era possível perceber as reações das pessoas ao redor, não necessariamente pelas expressões faciais, mas sim por outras reações, como movimentos do corpo e alterações no ritmo da respiração.

Aparentemente sua mudança de visual teve o efeito que ela esperava. Ao invés de encará-la com medo ou com pena, as pessoas agora sentiam apenas curiosidade ao olhar para ela.

A reação dos soldados também foi interessante. Como a maior parte deles já a conhecia, a reação inicial ao vê-la vestida daquela forma foi de admiração e de um respeito levemente temeroso.

– Hã… você está usando um traje bastante peculiar – foi o primeiro comentário de Alvor Sigournei.

– Ao menos, de olhos vendados, sou poupada de ter que olhar para sua cara feia. E, sim, sargento, posso vê-la acenando para mim com toda a clareza.

Loren soltou uma risada.

– Desculpe, não consegui evitar – disse a outra, não parecendo nem um pouco arrependida.

A reunião com os oficiais das Tropas Especiais foi breve e objetiva. Reviram os principais depoimentos recebidos de cidadãos de Lassam, que sugeriam que o possível esconderijo da baracai ficava numa propriedade rural a poucos quilômetros de distância da cidade.

– Vamos mandar alguém para olhar de perto e fazer um reconhecimento – disse o aspirante.

– Eu faço isso – Daimar se ofereceu. – Meus sentidos me permitem ver muito mais longe do que qualquer um de seus homens, e eu também tenho mais mobilidade, posso sobrevoar o local.

– Eu vou com você – disse Cariele, num tom que não admitia recusa.

– Delinger Gretel conseguia detectar a presença de outros baracais a grandes distâncias – lembrou o aspirante. – É possível que ela também possa. Se você se aproximar demais, ela vai saber que você está lá.

– Não se eu mascarar nossa frequência energética – disse Cariele.

Todos olharam para ela, surpresos. Alvor levantou a sobrancelha.

– Você sabe como fazer isso?

– Conversei com Edizar Olger antes de vir para cá. Ele me deu algumas dicas.

– E consegue ficar invisível também?

– Não completamente, mas posso mascarar a presença o suficiente para não sermos avistados de longe.

O aspirante sorriu.

– Isso é muito bom. Escutem, sei que a última experiência que vocês dois tiveram com o exército não foi boa. Mas eu realmente gostaria que trabalhássemos juntos nisso.

– Aqui – disse Cariele, estendendo ao aspirante um familiar objeto retangular com runas em relevo.

Ele pegou o objeto e olhou para ela, sem entender.

– Eu já tenho o coletor de emissões da pulseira do senhor Gretel.

– Fique com os dois. Se perceber que nos separamos, é porque atraímos a atenção dela.

– Não temos intenção de agir sozinhos – declarou Daimar. – Quando a hora chegar, vamos fazer o possível para afastar a infeliz dos prisioneiros. Precisamos que seus oficiais os resgatem.

Alvor olhou de um para o outro por um momento, e sorriu. A atitude deles agora era diferente de antes. Não havia dúvidas ou hesitação. Estavam ambos em seu elemento, como se tivessem nascido para aquilo. Os dias calmos e tediosos deles como meros estudantes da academia pareciam ter ficado para trás.

– Nesse caso, podem contar conosco.

♦ ♦ ♦

A região de Lassam não era muito conhecida pela fertilidade de seu solo. Por isso, existiam muito mais pastagens do que plantações, o que ficava bem evidente ao observar tudo a 200 metros de altura. Os formatos irregulares das propriedades rurais pareciam grandes remendos em um gigantesco tapete verde escuro formado por florestas de pinheiros e de outras árvores que se adaptavam bem ao terreno arenoso.

Sentir o peso de Cariele sobre ele era reconfortante. Era muito mais agradável voar quando ela estava ali com ele. Aquilo parecia acrescentar um colorido, uma vibração, uma emoção intensa que tornava a experiência completamente diferente.

Daimar manobrava com cuidado, voando em círculos a uma distância razoável de um grupo de casas lá em baixo, protegido pelos encantos de ocultação que ela, de alguma forma, conseguira conjurar.

Parece que você conseguiu um monte de poderes novos – comentou ele.

Acha que você é o único que tem direito a isso?

A presença da baracai era óbvia para ambos. O elo mental entre os dois tinha se tornado tão intenso que Cariele conseguia utilizar a quase totalidade dos sentidos naturais dele como se fossem dela própria. A vontade de entrar em ação era grande, mas precisavam aguardar a chegada dos soldados.

Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco você nem vai mais precisar de mim.

Ela riu.

Eu não tenho afinidade com nenhuma dessas coisas, apenas conheço a matemática que rege os fenômenos. Não é nada fácil reproduzir os efeitos, pois, sem afinidade, tenho que fazer tudo de forma indireta. A propósito, vamos receber uma conta um pouco alta da ferraria este mês.

Deixa eu adivinhar: você pegou todos os simulacros que eles tinham por lá.

Isso e mais algumas coisas. E já gastei uma boa parte delas na nossa camuflagem.

Outra coisa que ambos podiam sentir com bastante intensidade é que a baracai estava ansiosa, parecia estar esperando por alguma coisa. Provavelmente, por eles.

Estou vendo que você vai ser uma esposa bastante dispendiosa.

Ah, mas não tem problema, pois você vai ser um marido generoso, não vai?

Espero não ir à falência.

Ambos ficaram perdidos em seus próprios pensamentos por alguns instantes. O assunto “casamento”, definitivamente, não era algo que nenhum dos dois considerava tão pouco importante a ponto de poder ser tratado em um momento como aquele.

A aproximação dos militares chamou a atenção de ambos, fazendo com que deixassem aqueles pensamentos de lado.

Chegaram, finalmente. É hora da festa – concluiu ele.

Se podemos sentir a presença dos oficiais, é sinal que ela também pode. Não há porque esperarmos mais.

Pode ser uma armadilha de novo.

E pode ser que tenhamos chegado antes do que ela esperava. Não podemos perder tempo.

Então se segura!

Daimar manobrou com facilidade, iniciando um mergulho na direção das construções abaixo deles, enquanto Cariele desativava o campo de ocultamento.

No chão, a sargento alertou o aspirante ao perceber uma mudança no coletor de emissões.

– Estão descendo!

Alvor olhou para o céu e viu o dragão azul aparecer no ar subitamente, com a cabeça virada para baixo e as asas fechadas, em plena queda livre. O espetáculo ia começar. Ele se virou para as tropas.

– Avançar!

Nesse momento, o céu pareceu mudar de cor, de repente.

– Alvor – chamou Loren, apreensiva. – Pelo amor da Fênix me diga que isso não é o que estou pensando!

– Recomendo que pense apenas no bônus que vamos ganhar depois que a missão acabar. Avançar! Continuem avançando!

Enquanto preparava seu arco, o aspirante olhou para cima por um momento, encarando, apreensivo, a nuvem alaranjada que tinha se formado a centenas de metros de altura.

Vamos lá, vocês dois, me surpreendam!

Daimar abriu novamente as asas e interrompeu a descida, ao perceber uma onda poderosa de energia acima dele.

Mas que raios?!

Com alguns gestos rápidos, Cariele ativou um encanto de leitura energética. Diversas fagulhas luminosas apareceram no ar na frente dela.

Essa não!

Não me diga que alguma coisa vai sair dessa nuvem bizarra aí em cima.

Não vai sair “uma” coisa. Provavelmente sairão dezenas, talvez centenas de coisas. É uma chuva de meteoros.

Aquela conjuração apocalíptica que usavam para destruir cidades durante a guerra? Tem certeza?

Sim, venho estudando isso há anos.

Mas como a baracai conseguiria criar um negócio desses?

Cariele concentrou-se atentamente nas luzes coloridas que dançavam diante de seus olhos vendados.

Não sei, mas temos um minuto, talvez menos. Suba na direção da nuvem!

Por que não tentarmos tirar todo mundo daqui?

Não vai dar tempo! E os prisioneiros serão mortos!

Daimar bateu as asas com força, percorrendo um caminho em espiral conforme subia.

O que vamos fazer?

Vá mais rápido! Chegue o mais alto que puder. O encanto foi apressado, vai ter uma zona de ruptura bem grande.

E o que é isso?

Uma região onde os construtos estarão frágeis.

Você acha que consegue parar uma chuva de meteoros, destruindo eles um por um?!

Eu, não. Minhas reservas de energia são limitadas demais para isso. Mas as suas não são. Mais rápido!

E o que, exatamente, quer que eu faça?!

Primeiro, você vai precisar de mais cabeças.

O solo ficava cada vez mais distante deles enquanto Cariele passava mentalmente uma sequência de instruções. A formação energética crescia, devagar, filtrando a luz que chegava até o chão, dando a tudo um aspecto amarelado, esmaecido. Aos poucos, a nuvem começou a ficar mais densa, escura e a ganhar movimento, girando como se fosse um redemoinho.

Cariele ativou uma coluna de vento inversa, que a retirou dos ombros dele e a propeliu vários metros para cima, onde ela usou um encanto de queda suave. Após um momento, Daimar ativou seus poderes de transformação, torcendo para conseguir fazer aquilo direito.

Segundos depois, ele concluiu que o resultado acabou saindo melhor do que ele esperava. Essa forma era bastante similar à anterior, era apenas alguns metros maior, tinha escamas um pouco mais escuras… e tinha quatro cabeças com pescoços compridos, lembrando uma lendária criatura conhecida como hidra.

Seu sentido humano de visão não funcionava naquela forma, o que ele imaginava que era uma vantagem. Afinal, ver imagens de oito olhos de uma vez provavelmente seria bastante confuso.

Ele não teve muito tempo para se alegrar com a conquista da sua “quinta forma”, pois logo surgiu o primeiro meteoro, brotando da nuvem alaranjada envolto em chamas e vindo na direção dele. Tratava-se de uma rocha com formato arredondado com cerca de três metros de diâmetro. Mas ela não ficaria daquele jeito por muito tempo, pois a tendência era a rocha crescer a ponto de ficar com dezenas de metros, e ao cair no chão, além do dano causado pelo impacto, ela iria explodir com mais de cem vezes o poder de destruição de uma bola de fogo. Segundo os livros de história, a maior conjuração de meteoros conhecida gerou mais de 400 projéteis como aquele, e destruiu completamente uma grande cidade da província central.

Cariele, no entanto, duvidava que esta nuvem tivesse sequer um décimo daquele poder de destruição. Afinal, os livros diziam que a conjuração usada na grande guerra precisou de anos de preparativos.

Esperando que tivesse entendido direito tudo o que ela lhe disse mentalmente, Daimar fez um rápido cálculo e levantou uma das cabeças, abrindo a boca e disparando uma rajada elétrica para cima enquanto tentava manter a intensidade da energia utilizada no mínimo possível.

Seus esforços se mostraram válidos quando o enorme construto místico explodiu no ar ao ser atingido, seus fragmentos se desmaterializando logo em seguida.

Então, três novos objetos surgiram.

Ter quatro cabeças lhe permitia utilizar até quatro conjurações simultaneamente, mas não tinha nenhuma outra vantagem além daquela, pois sua mente continuava sendo uma só. As cabeças não tinham autonomia, ele precisava controlar cada uma delas individualmente, exercitando ao máximo sua capacidade multitarefa.

Com certa dificuldade, ele conseguiu posicionar as cabeças e lançar uma bola de fogo, um cone de frio e um relâmpago simultaneamente e em direções distintas. Os ataques tiveram sucesso e os meteoros se desmaterializaram.

Acho que estou pegando o jeito, mas não sei quanto tempo minha energia vai durar nesse ritmo.

Você vai ficar bem. Se surgirem muitos de uma vez, foque nos que tiverem mais chance de atingir as casas.

Cariele continuava caindo lentamente, enquanto mantinha-se concentrada no que acontecia acima dela. A nuvem continuava ficando mais densa, e mais meteoros continuaram surgindo, numa sequência preocupante.

♦ ♦ ♦

Os militares estavam entrando no quintal da propriedade quando as explosões começaram lá em cima. Mais uma vez, Alvor deu ordens aos oficiais para ignorarem o barulho e seguirem em frente. No entanto, ele mesmo não conseguiu evitar de lançar um olhar um pouco mais demorado para o céu.

Ele não sabia o que era mais impressionante: a quantidade de poder bruto que aquele rapaz possuía ou a forma precisa e eficiente com que ele o utilizava. Era difícil acreditar que ele havia descoberto as próprias habilidades apenas alguns dias antes.

Estava prestes a se juntar aos oficiais que se preparavam para invadir as casas quando, subitamente, o telhado de uma delas explodiu e uma gigantesca criatura saiu voando, fazendo com que ele e os demais soldados tivessem que usar suas habilidades para se protegerem dos escombros que foram lançados para todos os lados.

♦ ♦ ♦

Cariele e Daimar perceberam imediatamente que a baracai vinha na direção deles.

Não posso brigar com ela e com os meteoros ao mesmo tempo.

Eu cuido dela.

Dizendo isso, Cariele dissipou a queda suave e começou a cair, a força do vento descobrindo sua cabeça enquanto usava outros encantamentos para ajustar o ângulo da queda. Notou então que a baracai abria a boca, se preparando para lançar algo na direção dela.

Preciso de um relâmpago – pediu ela, esforçando-se para ajustar corretamente seu posicionamento. – Dispare contra mim com força total. Agora!

As experiências recentes fizeram com que o nível de confiança que tinham um no outro aumentasse dramaticamente. Eram quase como se fossem um só ser. Daimar deu cabo de mais dois meteoros antes de virar uma cabeça para baixo e, sem nenhuma hesitação, lançar uma descarga elétrica mortal na direção dela.

Cariele sentiu a carga energética percorrendo o espaço em uma incrível velocidade, dividindo-se em três “galhos” que a contornaram por diferentes direções antes de se juntarem novamente pouco à frente e atingir a bola de fogo lançada pela baracai.

Um breve pensamento passou por sua cabeça enquanto a energia se desviava dela, graças ao encantamento do anel: se aquilo fosse um relâmpago natural, o estrondo do trovão provavelmente a teria privado de sua audição naquele momento. Ou talvez até de algo mais vital do que isso. Felizmente, o som emitido por aquela rajada, apesar de alto, estava longe de ter um poder tão destrutivo.

As duas conjurações se chocaram e mediram forças por alguns milésimos de segundo, mas o raio de Daimar se mostrou mais forte e acabou por dissipar o fogo, antes de atingir o seu alcance máximo e se extinguir também.

Ela continuou caindo e atravessou a pequena nuvem de fumaça gerada pelo choque energético, enquanto sacava as suas tonfas.

Um outro pensamento fugaz veio à sua mente. Criar uma arma através de processos alquímicos era uma atividade que exigia bastante experiência e afinidade. Aquelas tonfas, no entanto, haviam sido produto de extrema afinidade com muita sorte, já que experiência ela não tinha quase nenhuma na época. Provavelmente ela nunca mais conseguiria criar outra arma do mesmo nível que aquelas em sua vida. Apesar de ter parte de seus poderes de volta, seu atual nível de energia era insignificante comparado ao de antes. De qualquer forma, tinha outros objetivos para sua vida agora. E não iria ficar com sentimentalismo por algo que não mais a interessava.

Ativou então o processo de disrupção, o que fez com que as tonfas começassem a brilhar intensamente. A emanação luminosa era tão forte que ela conseguia ver a luz mesmo através da venda e das pálpebras fechadas.

A baracai tentou fazer uma manobra evasiva para se afastar de seu caminho, mas Cariele tinha previsto aquele movimento e mudou a própria direção de forma a interceptá-la. Não que aquilo tivesse sido uma tarefa fácil. Tinham sido necessários três encantamentos diferentes para permitir aquela manobra, e dois simulacros já tinham se esgotado desde que ela tinha saído de perto de Daimar.

Ela não chegou a colidir com o dragão amarelo, ao invés disso, manobrou para passar acima dele, perigosamente perto, a pouco mais de um metro de distância. Ela fez um último giro com as tonfas e, pouco antes do encontro, bateu com uma na outra, completando assim o ritual de disrupção.

As armas se desmaterializaram, toda a sua energia acumulada sendo liberada em uma onda de choque na forma de um semicírculo que foi aumentando de tamanho por várias dezenas de metros, ficando cada vez mais fraca até se dissipar completamente. Mas não antes de atingir as asas da baracai.

Com certa satisfação, ela ouviu o barulho de ossos se quebrando, e o ensurdecedor rugido agoniado do dragão enquanto passava à toda velocidade por ele. Tinha muito pouco tempo para controlar a própria queda e não podia se distrair verificando se seu ataque tinha tido o efeito esperado. A distância era curta demais para um encanto simples como queda suave, então ela precisou gastar parte de suas energias criando um campo inerte.

Segundos depois, ela atingia o chão no meio de uma grande pastagem com enorme violência, abrindo um belo buraco e causando um grande estrondo, que serviu para fazer com que os animais que estavam por perto se assustassem e saíssem em disparada.

Comprovando que seu ataque tinha sido bem-sucedido, o dragão atingiu o chão pouco tempo depois, mas numa queda bem mais deselegante, espalhafatosa e barulhenta. Pelo visto, a baracai não tinha um campo de inércia para protege-la da queda.

♦ ♦ ♦

Os oficiais das Tropas Especiais e os reforços da unidade de Lassam agora se viam às voltas com um pequeno exército de golens de pedra.

A sargento Loren fez uma careta, frustrada.

– Expurgo não está funcionando!

– Então vamos ter que fazer isso do modo difícil – respondeu Alvor, atirando flechas para dar cobertura aos demais.

Cariele Asmund tinha conseguido neutralizar quatro deles com um único expurgo, mas, aparentemente, aquelas coisas tinham evoluído desde então. O grande problema era o fato de existirem pessoas dentro daquelas criaturas de pedra. E os soldados precisavam quebrar o invólucro rochoso para poder libertá-las, e ainda tinham que fazer isso com cuidado para não deixá-las mais feridas do que já estavam, se é que isso era possível.

Alvor percebeu vagamente o barulho de algo grande se espatifando no chão não muito longe dali, e esperou que não tivesse superestimado as habilidades do casal.

♦ ♦ ♦

Daimar já tinha perdido a conta de quantos meteoros tinha destruído e sentia suas forças no fim. O alívio o invadiu quando viu a nuvem começar a diminuir, mas aquele sentimento logo deu lugar ao pânico quando viu o que parecia uma infinidade de meteoros surgir de uma vez só, todos saindo do ponto central da nuvem e se afastando dela em diferentes direções.

Recuperando-se rapidamente, ele analisou o que tinha embaixo dele, grato, mais do que nunca, por seus sentidos poderem perceber coisas à distância em qualquer direção.

Ele concluiu que o grupo de pedras que estava diretamente acima dele era o que tinha mais chance de atingir as pessoas lá em baixo, e dirigiu todos os seus ataques naquela direção, com força total, tentando atingir a maior quantidade de construtos que pudesse. Como resultado, meia dúzia de meteoros foram destruídos, mas cerca de dez ou doze acabaram escapando, passando ao redor dele e saindo da área de ruptura enquanto cresciam cada vez mais.

Poucos segundos depois, os enormes projéteis se chocavam contra o chão, explodindo e causando muito barulho e destruição. Grandes trechos de florestas e plantações foram dizimados. Terra, poeira, rochas, pedaços de madeira e outros tipos de destroços voaram por todos os lados, formando uma enorme nuvem. Felizmente, os meteoros caíram a uma boa distância de onde estavam os soldados, mas mesmo assim, o local todo foi rapidamente encoberto por poeira e fumaça.

Daimar só esperava que os soldados tivessem mesmo retirado todos os camponeses e suas famílias das redondezas antes da batalha começar, como disseram que iriam fazer.

Acima dele, a formação energética de origem dos meteoros se dissipava, o que o fez agradecer aos céus. O cataclismo finalmente tinha chegado ao fim.

Bem como as energias dele. Mal podia continuar batendo as asas, e tentou apenas planar, lutando para conseguir manter aquela forma tempo suficiente para chegar até o chão.

♦ ♦ ♦

Cariele se levantava e começava a caminhar na direção da baracai quando os meteoros caíram, fazendo com que o chão tremesse violentamente e formando um grande círculo de destruição ao redor. Ela manteve o equilíbrio com certa dificuldade, enquanto a densa nuvem de poeira e fumaça cobria todo o lugar, a obrigando a pegar no bolso a máscara especial de tecido xadrez e a amarrar atrás da cabeça, cobrindo a boca e o nariz.

A baracai tinha revertido à forma humana e estava bastante ferida. Manchas arroxeadas e outras mais escuras cobriam quase todo o corpo jovem e magro da garota. Ela tinha um ferimento na cabeça e os curtos cabelos castanhos estavam cobertos de sangue, que lhe escorria pelo rosto.

Infelizmente, ela ainda respirava, mas aquilo seria resolvido em breve.

De forma desafiadora, a jovem levantou a cabeça, como se estivesse olhando na direção de Cariele. No entanto, não haviam olhos abaixo de suas sobrancelhas, apenas pele com hematomas.

Cariele ficou grata por estar vendada, pois não apreciaria ver aquela cena com mais detalhes do que os sentidos especiais lhe permitiam. Ela sabia sobre a deficiência visual das pessoas da tribo baracai, e já vira ferimentos de batalha em quantidade suficiente para não se impressionar com cortes e machucados, mas as evidentes marcas escuras causadas pela degeneração provavelmente lhe revirariam o estômago.

Aqueles sentidos especiais funcionavam de uma forma curiosa. Eles lhe permitiam perceber as coisas com bastante precisão, mas tudo chegava a ela de uma forma estranha, impessoal, quase como se alguém estivesse descrevendo tudo para ela. O que tinha uma certa lógica, se considerasse que aqueles sentidos, na verdade, pertenciam a outra pessoa.

A garota deu um sorriso débil antes de levantar uma das mãos e pronunciar algumas palavras ininteligíveis. Uma súbita aura amarelada a envolveu e ela começou a desvanecer.

Cariele correu até ela, mas quando chegou lá a baracai já tinha desaparecido, restando apenas um brilho no ar, composto por energia residual, mas que também já estava sumindo.

Concluindo que não era hora de poupar energia, Cariele ativou seu aumento de força com intensidade máxima e enfiou a mão direita no brilho, seu punho desaparecendo no ar. Ficou satisfeita quando conseguiu agarrar o braço da baracai, onde quer que ela estivesse.

Almeje o infinito, mas mantenha os pés no chão.

O encanto conhecido como âncora parecia ter funcionado, pois a abertura parou de se fechar. Sem aquele anel, ela provavelmente teria perdido o braço. Mas agora era hora de testar o quão poderoso aquele artefato realmente era.

Usando toda a sua força ampliada, ela puxou. A abertura dimensional resistiu por alguns instantes, mas logo se ampliou o suficiente para que o corpo da garota passasse, sendo arremessado a vários metros de distância enquanto soltava um grito horrível. O corpo dela era extremamente resistente, mas mesmo não tendo o braço arrancado do corpo por aquele puxão, parecia estar sentindo uma dor excruciante.

Cariele concluiu que o anel tinha passado no teste com louvor, enquanto via o portal se fechando lentamente, até desaparecer por completo. Precisava se lembrar de agradecer ao ferreiro.

Então ela se virou, aproximando-se da garota, devagar.

– Se quisesse escapar, devia ter feito isso logo que os meteoros começaram a cair – disse Cariele, com a voz abafada pela máscara.

A garota soltou um grunhido. Aparentemente, os poderes de adaptação baracai também funcionavam contra poeira, pois ela não parecia ter dificuldade para respirar. De qualquer forma, caída no chão, nua, toda machucada e segurando o ombro esquerdo que deveria estar lhe causando uma dor dos infernos, ela não parecia nada impressionante.

– Por que ficou aqui? Se Daimar não tivesse neutralizado a maior parte da conjuração, você também teria sido atingida. Ou acha que poderia sobreviver àquilo? – Cariele apontou na direção do ponto de impacto mais próximo delas.

Com certa dificuldade, os lábios da garota se curvaram num sorriso provocador.

– E por que eu teria medo da morte?

♦ ♦ ♦

Um dos oficiais da Tropa de Operações Especiais conjurou um furacão. O encanto fez com que uma grande massa de ar de centenas de metros de altura se deslocasse até o chão na direção deles. O forte vento afastou a fumaça e a poeira, restaurando a visibilidade e permitindo que os soldados pudessem voltar ao ataque.

Alvor analisava a batalha, preocupado. Aqueles golens estavam dando muito mais trabalho do que o esperado. Por um instante, ele observou a destruição a seu redor. As casas, praticamente, não existiam mais, suas paredes tendo perecido ante os impactos dos ataques tanto dos golens quanto dos oficiais.

E o número de soldados feridos estava crescendo assustadoramente.

– Começo a imaginar se o tal bônus vale a pena todo esse sacrifício – reclamou Loren.

– Que nada – respondeu ele, tentando não se deixar abalar, enquanto pegava outra flecha na aljava. – Vamos ter histórias para contar para o resto da vida.

♦ ♦ ♦

A aterrissagem de Daimar tinha sido vergonhosa, de tão ruim, mas pelo menos ele ainda estava inteiro. Voltou a assumir a “quarta forma”, grato por não precisar aparecer pelado na frente dos soldados. Se bem que, no meio daquela poeira toda, ninguém conseguiria ver nada.

O ar estava denso, carregado com partículas de terra, cinzas, fumaça e sabe-se lá o que mais. Felizmente, seu corpo conseguia se adaptar a esse tipo de situação. Ele tentou não pensar em que tipo de metamorfose suas narinas tinham passado para conseguir respirar normalmente ali.

Então ele percebeu uma pessoa se aproximando dele.

Levantando-se o mais rápido que o corpo dolorido lhe permitiu, ele se virou na direção da figura que tinha o rosto totalmente coberto por um tipo de turbante.

Nesse momento, uma forte corrente de ar os atingiu, empurrando toda a poeira para longe. Quando o vento finalmente cessou, o recém-chegado descobriu o rosto e olhou para Daimar com uma expressão de tristeza.

– Sinto muito, filho, mas isso acaba aqui – disse o alquimista Dafir Munim.

— Fim do capítulo 19 —
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