Lassam – Capítulo 21: Incursão

Publicado em 09/07/2017
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21. Incursão

Baldier Asmund bateu duas vezes na porta do reservado.

– Filha? Tudo bem por aí?

– Estou bem, pai – respondeu Cariele, numa voz abafada e trêmula que revelava que aquilo era, no máximo, uma meia verdade.

– Quer que chame alguém para ajudar?

– Não, pai, só preciso de mais um tempinho.

Ele suspirou, desanimado, e segurou firme o cabo de sua bengala, enquanto se virava e caminhava, lentamente, pelo corredor. A porta do quarto de Edizar Olger estava aberta, e Baldier olhou para dentro, vendo o velho sábio deitado em sua cama enquanto tentava montar uma espécie de quebra-cabeça composto por peças de metal, madeira e cristais multicoloridos, que estavam espalhados por sobre o lençol.

Intrigado, Baldier se aproximou.

– Parece frustrado, Olger. Precisando de alguma ajuda aí?

Edizar voltou os olhos cansados na direção dele. A julgar pelas olheiras, não dormia direito há dias.

– Não morreu ainda, Asmund?

Com um meio sorriso, Baldier entrou no quarto.

– Dei uma olhada na sua aparência e resolvi esperar um pouco antes de bater as botas. Pelo menos até que você morra primeiro. Assim vou ter alguém para esculachar por toda a eternidade.

Edizar soltou um riso abafado.

– Duvido muito que vá ter oportunidade para escarnecer de alguém no inferno.

– Por que não tenta descansar um pouco? Já não passou todas as instruções para os alquimistas do exército? Deixe que eles trabalhem um pouco, para variar.

Edizar voltou a olhar para as peças que segurava.

– Não posso. Tem um erro nessa configuração que eles querem usar. Estou perto, mas tão perto de resolver isso, que já posso quase ouvir o pedido de desculpas daqueles idiotas teimosos.

– E por que é você quem tem que resolver isso?

Edizar olhou para ele, sério.

– A vida de um amigo depende disso.

– Por que não tira um cochilo, pelo menos? Assim vai conseguir encontrar a resposta muito mais facilmente.

Edizar baixou os braços e olhou para o teto, suspirando.

– Não iria conseguir dormir, nem se quisesse. Como está sua filha?

– Um pouco melhor do que você, mas ainda não consegue manter nada sólido no estômago. O desgaste físico e emocional foi grande demais.

– Não é de se surpreender. Afinal, ela matou uma baracai. Sozinha. Você tem todo o direito de se sentir orgulhoso, diga-se de passagem.

– Segundo ela, o monstro estava bastante debilitado.

– Você nunca esteve numa batalha contra aquelas coisas. Eu já. Quanto mais perto da morte, mais traiçoeiros eles ficam. A propósito, viu o garoto Gretel hoje?

– Sim, ele também já está melhor que você. Consegue até mesmo ir ao reservado sozinho.

– Filho da mãe, sortudo, de uma figa.

Baldier riu e sentou-se numa cadeira ao lado da cama.

– A condição física dele está ruim. Provavelmente não vai poder usar os poderes por algum tempo.

– Parece que os dois deram tudo o que tinham nessa batalha.

– Pois é. Isso me lembra alguém que eu conheço.

Edizar fechou a cara.

– Não faça isso, Asmund. Eu não sou nenhum herói.

– Você me ajudou a manter minha sanidade. Ninguém pode considerar isso uma tarefa simples.

– Eu não consegui curar você.

Baldier riu e balançou a cabeça.

– Isso é porque não existia nenhuma cura para ser encontrada.

Edizar podia estar exausto, mas não o suficiente para não perceber o tom de tristeza pouco característico do velho amigo.

– Qual o problema? Vai me dizer que, depois de vinte anos de luta, resolveu desistir?

– Não há mais nenhuma batalha para eu lutar, Olger. Minha consciência já está se esvaindo. Pode ser que amanhã eu não consiga mais acordar.

Edizar franziu o cenho.

– E quanto àquela poção que você criou junto com os curandeiros? Ela curou sua filha, não?

Baldier voltou a balançar a cabeça.

– Cariele é um caso especial, um ponto fora da curva. Todo o benefício que aquela gosma pudesse ter em mim seria perdido em questão de minutos.

– Está mesmo desistindo, então.

– Não consigo mais nem mesmo me lembrar do que comi no almoço. Minhas memórias estão falhando, assim como todo o resto. – Baldier suspirou. – Sabe, fico feliz que você tenha mais uma vez bancado o herói e tentado salvar minha filha. Sinto muito que tenha vindo parar aqui por causa disso, mas, pelo menos, isso me deu a chance de me despedir de você da forma adequada.

♦ ♦ ♦

Cariele amaldiçoou veementemente e repetidas vezes a sua decisão de explodir aquele dragão por dentro. Sentiu Daimar se aproximando e abriu a porta, agarrando avidamente a pequena tigela que ele carregava e jogando um pouco de seu conteúdo na boca.

Ele sorriu e recostou-se na parede, enquanto observava ela mastigar.

– Não sabia que cascas de maçã serviam para combater enjoo.

– E não servem – respondeu ela, de boca cheia. – Mas pelo menos fazem eu me sentir melhor.

– Elas têm alguma propriedade mística oculta?

– Sim. Elas são gostosas.

Ele soltou uma risada.

– E isso é uma propriedade mística?

– Claro que é. Se não fosse, os alquimistas não seriam capazes de criar sabores artificiais.

– Então vamos procurar um sabor artificial de casca de maçã e colocar na sua sopa, que tal?

– Eeeeeca!

Ele riu de novo.

– Você não disse que era gostoso?

– Sim, mas não é só por causa do sabor, também precisa ter, sei lá, consistência.

– Você está se contradizendo.

– E você está me confundindo, de propósito.

Ela fez menção de se afastar, mas ele se aproximou e a abraçou pela cintura.

– Acho que eu nunca tinha visto você assim, tão tranquila, tão relaxada.

Ela virou a cabeça e o encarou, com um olhar irônico, o que o fez voltar a rir.

– Tudo bem, tudo bem – concedeu ele. – Exceto depois de… – Ele se interrompeu e olhou ao redor. – Bom, deixa para lá, você entendeu.

Ela soltou uma risada.

– Estou feliz – ela admitiu, voltando a olhar para a frente, enquanto ele se aproximava mais, apoiando o queixo no ombro dela. – Feliz que essa missão tenha terminado. Aquilo foi um desastre, quase nada saiu como eu esperava.

– Mas nós vencemos.

– Sim, e isso foi um alívio. Estou realmente contente por tudo ter terminado. – Ela soltou um suspiro. – Mas não consigo deixar de pensar que, se o seu pai não tivesse dado uma boa sova naquela maldita antes, nós não teríamos a menor chance contra ela.

– Você, muito provavelmente, está certa.

– E eu tive que fazer a manobra mais nojenta da minha vida. Tenho dúvidas se meu estômago algum dia vai parar de se revoltar com aquilo.

– Então talvez seja melhor esquecer dessa parte.

Ela se desvencilhou e voltou-se para ele.

– Mas não sou só eu quem estou passando mal, não é?

Ele suspirou.

– É, eu estou meio acabado. Depois daqueles meteoros e de ser drenado por aqueles malditos arpões, sinto como se mal pudesse levantar um braço sem sentir dor no corpo inteiro.

– Estou contente que tenha conseguido resistir.

– Tanto quanto eu estou contente que você tenha vencido.

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, quase esquecida de que ainda segurava o recipiente com as cascas de maçã.

– Precisamos melhorar. Treinar mais, conhecer melhor nossos limites. Não quero mais ter que passar por uma situação daquelas. Nunca mais.

– Desde que você esteja comigo, posso encarar qualquer coisa.

Ela sorriu.

– É mesmo? Então que tal me pedir em casamento?

Ele sorriu de volta.

– Qualquer coisa, menos isso.

– Por quê? Quer que eu peça, é isso? Seu orgulho é grande demais para te deixar se colocar em uma posição vulnerável?

– Claro. Sou muito orgulhoso. Tenho um nome a zelar.

– Que bonitinho! Se fazendo de difícil. Então está bem.

Ela se aproximou até quase encostar a boca no ouvido dele e sussurrou:

– Quer se casar comigo?

– O quê? Assim? Não vai nem se ajoelhar no chão?

Ela riu e afastou-se, colocando a mão livre na cintura.

– Gente! Vejam só como ele é exigente. Me faz imaginar que tipo de marido você vai ser.

Ele tirou uma pequena caixinha de veludo do bolso e a estendeu para ela.

– Eu sou uma caixinha de surpresas.

Com um sorriso terno, ela entregou o recipiente a ele e pegou a caixa. Quando suas mãos trêmulas se tocaram, ambos sentiram o nervosismo um do outro. Na verdade, o elo mental tornava impossível que qualquer um dos dois conseguisse ocultar os fortes sentimentos de excitação, expectativa e apreensão, mas o toque físico era mais tangível, tornava tudo aquilo mais real. Apesar das gracinhas, ambos estavam muito conscientes da enorme importância daquele momento.

Ela abriu a caixinha e seu sorriso se ampliou ao ver o par de anéis dourados descansando sobre o veludo azul.

– É claro que eu quero me casar com você – disse ele. – Não saberia o que fazer do resto de minha vida se você não estiver comigo.

Voltando a fechar a caixinha, ela a colocou no bolso e voltou a envolver o pescoço dele com os braços.

– Eu também não – admitiu, enquanto aproximava seus lábios do dele.

– Com licença?

Surpresos, eles se voltaram na direção da voz e viram uma senhora que os observava, impaciente.

– Será que eu posso usar o reservado agora?

– Oh, claro, desculpe – respondeu Cariele, pegando na mão de Daimar e afastando-se junto com ele.

Depois de alguns momentos, ele não conseguiu mais segurar o riso.

– Meio inapropriado esse lugar que você escolheu para me pedir em casamento, não?

– O que eu posso fazer? Não poderia esperar mais nem que minha vida dependesse disso.

Ele também não conseguiria parar de sorrir nem que sua vida dependesse disso. Aquela era mais uma faceta de personalidade que ela raramente exibia. A Cariele tranquila, brincalhona e apaixonada. E ele a amava mais do que nunca.

– Achei que fosse querer colocar as alianças.

– Antes, vamos achar um local onde não sejamos interrompidos.

De repente, uma exclamação excitada chamou a atenção deles.

– Asmund, você é um gênio!

Daimar e Cariele se entreolharam por um instante, antes de se aproximarem da porta do quarto de Edizar Olger.

– Não seja exagerado, Olger. Só resolvi uma equação.

Baldier Asmund estava sentado em uma cadeira ao lado da cama, de costas para eles, enquanto Edizar trabalhava freneticamente tentando encaixar algumas peças de metal umas nas outras.

– Você levou cinco minutos para descobrir qual equação tinha que ser resolvida! Não importa o que você diga, isso foi genial!

Sorrindo ao ver a empolgação no rosto do sábio, Daimar perguntou:

– O que está acontecendo?

Edizar olhou para ele.

– Ah, vocês estão aí. Ótimo! Achem um guarda e peçam para chamar a tenente.

Cariele perguntou:

– Mas o que houve?

– Seu pai acabou de descobrir o caminho para Vindauga.

♦ ♦ ♦

– Vocês dois não deveriam estar aqui!

A tenente Ronia Sissel olhava, contrariada, para o casal. Cariele usava seu traje azul, que um dos empregados de Daimar tinha conseguido realizar a façanha de limpar, enquanto Daimar estava de volta à sua “quarta forma”, que o dispensava do uso de roupas.

– Todos os relatórios que eu recebi – continuou a tenente, com seus modos bruscos – apontam, de forma veemente, que vocês não estarão em plenas condições físicas ou emocionais por semanas. Têm consciência disso?

– Sim, senhora – responderam ambos, em uníssono.

– Estão cientes de que, se alguma coisa acontecer com vocês, eu que serei a responsável?

Os dois assentiram.

– Sinceramente, eu não sei porque estou fazendo isso. Por que querem tanto assim arriscar suas vidas se envolvendo numa missão de baixas chances de sucesso como essa?

– Delinger Gretel é meu pai, tenente. Eu quero ajudar. Eu sei que posso ajudar. Apesar da minha condição física, meus sentidos especiais estão funcionando perfeitamente. E Cariele compartilha essa habilidade comigo. Nenhum de nós dois será um estorvo para a equipe.

– Eu quero vocês dois de volta sãos e salvos, estão me entendendo? Porque vocês vão ficar me devendo essa, e eu quero cobrar esse favor. Vão, vão logo, antes que eu mude de ideia.

– Sim, senhora – responderam os dois, antes de se entreolharem e se dirigirem, satisfeitos, ao local onde estavam os oficiais das Tropas Especiais.

A tenente suspirou, frustrada. O aspirante Sigournei sorriu.

– É difícil não simpatizar com eles, não é?

Ronia balançou a cabeça e se virou para o outro lado, observando as árvores além da clareira onde estavam. Tratava-se de uma floresta fechada não muito longe da cidade.

– Jovens idealistas, apostando a vida numa tentativa de fazer o que acham correto. Eu também já fui assim. Me pergunto quando, exatamente, parei de… ah, deixa para lá!

– Ele é filho de um baracai. E esse pessoal tem uma resistência fora da escala.

– Estou vendo. Você me disse que ele não iria poder se transformar mais por um bom tempo, mas ali está ele, usando uma armadura de escamas.

– Os curandeiros também estão surpresos, mas não acho que ele tenha condições de fazer muitos outros truques além desse. De qualquer forma, o que ele disse é verdade, os sentidos dele poderão tornar nosso trabalho muito mais fácil. E quanto à senhora Asmund, bom, ela é um soldado. Nunca deixou de ser. E não só isso, é um dos melhores que eu já vi.

– Espero que tenha razão, aspirante. Lembre-se: quero todos vocês de volta, de preferência sem nenhum arranhão.

– Sim, senhora. Faremos o possível.

Ambos sabiam que fazer apenas “o possível” podia não ser o suficiente. Iriam para um lugar desconhecido e potencialmente hostil, onde as leis da física eram diferentes. Era, essencialmente, uma missão suicida.

– Tem certeza de que este aqui é o local correto para ativar aquela coisa?

– De acordo com o alquimista, sim. – Alvor apontou para onde Loren e os demais oficiais estavam trabalhando para montar um aparato feito com inúmeras peças de metal. – Foi bem ali onde se abriu o portal que trouxe a baracai de Vindauga para cá. Conseguimos captar as emanações residuais e os equipamentos estão reagindo de acordo com as previsões do sábio Olger.

Neste momento, a sargento Loren acenou para eles.

– Tudo pronto aqui, tenente!

– É sua deixa, aspirante. Boa sorte.

Ele sorriu.

– Obrigado, tenente. Mais tarde eu te pago uma cerveja, para comemorar nossa vitória.

– Assim espero.

Ronia ficou observando de longe enquanto Alvor se aproximava de seus colegas. Ela não gostava nem um pouco de ficar apenas observando enquanto outras pessoas arriscavam a vida para resolver problemas que eram da jurisdição dela. No entanto, a equipe de Alvor Sigournei era treinada para aquele tipo de situação. Eles eram os especialistas ali. Tudo o que ela podia fazer era deixá-los concluir seu trabalho sem entrar no caminho deles.

O aspirante dava as últimas instruções à tropa:

– Tudo isso já foi discutido antes, mas vamos repassar mais uma vez. Estamos indo para um lugar onde existe distorção temporal. Existe a possibilidade de que vários anos já tenham se passado por aqui quando voltarmos. Se alguém tiver um encontro romântico marcado, espero que tenha mandado um recado dizendo que pode se atrasar um pouquinho.

Os oficiais soltaram um riso nervoso.

– Nossa missão é localizar e trazer de volta a tenente Cristalin Oglave e o senhor Delinger Gretel, que podem estar presos por lá. Cariele Asmund e Daimar Gretel irão nos acompanhar, mas ambos estão se recuperando da batalha anterior, e não terão condições de fazer muita coisa além de nos dar apoio estratégico. Então, se tivermos outra chuva de meteoros, somos nós que teremos que dar conta dela.

Mais risos.

– Vindauga é uma dimensão bastante irregular, não é possível abrir um portal, propriamente dito. Mas Edizar Olger conseguiu, sabe-se lá como, criar um dispositivo capaz de transportar todos na área de efeito lá para dentro. Para voltar, no entanto, o mesmo dispositivo não vai funcionar, por isso vamos utilizar um artefato ancorado, que ficará em poder da sargento Loren. Quando resgatarmos os alvos, formaremos um círculo e ativaremos a âncora, que nos trará de volta. – Ao ver que Cariele fazia um discreto gesto pedindo atenção, Alvor se virou para ela. – Pois não?

– Meu anel também está ancorado, mas o encanto é permanente. Se ficarmos lá dentro por muito tempo, eu posso ser trazida de volta inesperadamente. Se não houver energia suficiente, o anel voltará sozinho, ou, em último caso, vai se auto-destruir.

– Quanto tempo você tem?

– Entre quatro e cinco horas.

– Pode interromper o efeito?

– Sim, ele não é imediato, então se a âncora se ativar, basta eu retirar o anel do dedo e ele volta sem mim.

– Entendido. – Alvor voltou a olhar para sua equipe. – Vamos ter que, de novo, esconder a cara com tecido xadrez, porque esses mundos baracai costumam ter o ar venenoso ou rarefeito. Perguntas? – Ele fez uma pausa, olhando para todos. – Não? Então vamos acabar logo com isso. Coloquem as máscaras. – Ele colocou a dele e esperou que todos tivessem coberto a boca e o nariz com o tecido especial antes de acenar com a cabeça para Loren. – Pode ativar esse negócio.

Daimar provavelmente não precisaria da máscara, mas, por via das dúvidas, também colocou a dele antes de pegar a mão de Cariele e ambos se aproximarem, formando, junto com os outros oficiais, um círculo ao redor do artefato que Loren operava. O objeto em questão parecia um amontoado de peças de metal pregadas ao acaso ao redor de uma estrutura de madeira, e decorado com cristais de diversas cores em locais aparentemente aleatórios. Um leigo, provavelmente, pensaria se tratar apenas de uma escultura de muito mau gosto.

Loren colocou um simulacro esférico sobre o artefato e o empurrou de leve para baixo, fazendo com que ele se fundisse à estrutura. Imediatamente, a realidade ao redor deles começou a se modificar, transformando-se em um borrão, antes de assumir, aos poucos, a forma de uma outra floresta, bastante diferente.

A tenente Ronia observou, junto com os demais soldados que estavam por ali, enquanto o grupo desaparecia de vista, cada um deles se transformando em um ponto de luz que se desvanecia aos poucos.

Ela começava a abrir a boca para dar ordens aos soldados, quando um outro brilho apareceu de repente, e então uma cena de completo caos surgiu diante dela, fazendo-a arregalar os olhos e levar uma mão à boca.

– Pela misericórdia da Fênix!

♦ ♦ ♦

– Olha só para aqueles dois – reclamou Loren, apontando para Cariele e Daimar, que caminhavam na dianteira, atentos aos arredores. – Eu achei que, nas condições deles, só iriam nos atrasar, mas no final eles mostraram ter mais resistência do que eu.

Alvor riu.

– Isso não é demérito nenhum para você. Sabe disso, não? As pessoas são diferentes e reagem de forma diversa a situações inusitadas. Eu acho que eles precisavam era de estímulo para se recuperar. Em Lassam, eles provavelmente ainda estariam de cama, entediados e infelizes.

– Duvido que esses dois estariam “entediados” ou “infelizes” se estivessem em uma cama juntos.

Alvor riu.

– Com isso eu tenho que concordar.

Cariele e Daimar não se comportavam de maneira inapropriada, mas, ocasionalmente, trocavam rápidos olhares e sorrisos que sugeriam que podiam estar ansiosos para terem alguma privacidade. Também não havia passado despercebido a Alvor e a Loren o fato de o casal agora estar usando alianças no anular direito.

– De qualquer forma, neste momento eu gostaria de estar em minha cama, entediada ou não.

– Olhe para o lado bom. O tempo aqui, aparentemente, ainda está comprimido, então é bem provável que consigamos voltar a tempo de atender à convocação do capitão.

– Mas esse lugar é enorme. Mesmo com o detector, pode levar meses para encontrar alguma pista deles.

– Pelo menos o ar aqui é respirável e não precisamos ficar usando aquelas máscaras fedorentas. Garanto que, depois de um mês usando aquilo, o suicídio começaria a se tornar uma alternativa interessante.

Ela riu.

– No meu caso, não levaria nem uma semana para chegar nesse extremo.

De repente, Cariele virou-se na direção deles.

– Mais dois linces negros, vindo correndo por trás!

Os oficiais se viraram, sacando suas armas e se preparando para a luta. Os predadores logo surgiram de entre os arbustos, ferozes, fortes, rápidos e agressivos, mas em poucos minutos foram abatidos, como todos os outros que os haviam atacado nos últimos dias. Graças aos sentidos de Cariele e Daimar, eles nunca eram pegos de surpresa, e isso era uma vantagem e tanto ao lutar contra animais traiçoeiros como aqueles. No entanto, aquelas batalhas constantes não deixavam de ser cansativas.

Alvor olhou para a expressão de exaustão nos rostos de sua equipe e apontou para uma colina um pouco mais adiante.

– Ali parece ser um bom lugar para descansar. Vamos dar uma parada para o almoço.

Daimar se aproximou dele, falando em voz baixa.

– Se precisarem de ajuda, eu e Cariele podemos lutar também.

– Melhor não – disse Alvor, sério. – Podemos dar conta desses bichos, preciso que vocês guardem suas forças para quando surgir algo além das nossas capacidades.

– Ou para quando não aguentarmos mais parar em pé – resmungou Loren. – Sinceramente, estou cansada de ficar andando em círculos desse jeito.

Já fazia dois dias que estavam andando, seguindo um trajeto em espiral a partir do ponto onde chegaram. O argumento do aspirante, com o qual Daimar e Cariele concordavam, é que, se alguém ficar preso em algum lugar e não tiver escolha além de esperar pelo resgate, o mais inteligente seria ficar o mais próximo possível do local por onde entrou. Se as informações do alquimista estavam certas, eles tinham chegado ali no mesmo lugar por onde a baracai tinha saído. E como ela havia encontrado Delinger e Cristalin, era provável que o ponto de entrada deles não estivesse muito longe dali.

– Não creio que há muito o que possamos fazer – disse Daimar. – Eu até poderia me transformar e fazer um reconhecimento aéreo, mas ainda não tenho certeza se conseguiria me manter no ar por muito tempo.

– É melhor não arriscar – respondeu o aspirante, olhando para a colina, que estava cada vez mais perto.

Loren voltou a reclamar:

– Misericórdia, Alvor! Não acha que está sendo precavido demais, não? Porque insiste tanto em poupar o rapaz? O que de tão perigoso pode aparecer por aqui, afinal?

Cariele, que ia na frente, chegou até a beira do barranco, olhou para baixo e cobriu a boca com a mão. Ao visualizar a mesma cena que ela através do elo mental, Daimar arregalou os olhos e comentou, respondendo à pergunta de Loren:

– Talvez o responsável pela carnificina ali na frente.

Sem perder tempo, os soldados correram até a beirada e olharam para baixo, soltando exclamações de surpresa. Daimar, por sua vez, correu até Cariele, que se jogou contra ele e enterrou a cabeça em seu peito.

Você está bem?

Só me segure por um momento, sim? Meu estômago ainda não estava preparado para isso.

Não se preocupe, não pretendo ir a lugar nenhum.

Acho que estou ficando mole. Parece que não faço outra coisa além de abraçar você, toda vez que tenho que encarar uma situação ruim.

Isso é porque você não tinha ninguém para abraçar antes. Não há nada errado com isso.

Próximo à beirada do barranco, Alvor tirou uma luneta da mochila e analisou a cena abaixo deles por um longo momento.

– Não dá para saber direito quantos corpos são. Contei 26, mas o número real pode ser bem maior.

Loren estreitou os olhos, tentando enxergar melhor.

– Será algum tipo de cemitério a céu aberto?

– Acho que todos morreram mais ou menos na mesma época. – Ele passou a luneta para ela. – Parecem estar aí há meses.

Finalmente recuperando a compostura, Cariele se afastou de Daimar e respirou fundo, antes de cobrir a boca e o nariz com a máscara e se aproximar dos outros.

– Vamos descer até lá. Podemos encontrar alguma pista.

Alvor levantou uma sobrancelha.

– Tem certeza de que está bem?

– Não se preocupe comigo. Não podemos perder tempo.

Alvor pediu para um dos oficias conjurar uma queda suave e, no momento seguinte, Cariele e Daimar saltaram do barranco, atrás dos seis soldados.

Não havia restado nada além de ossos e pedaços de roupas. Obviamente, o que quer que tenha acontecido ali, fora há vários meses.

Loren perguntou:

– Será que foi algum animal selvagem?

– Não – respondeu Cariele, enfática.

A sargento colocou as mãos na cintura.

– E você sabe disso porque…?

– Quando ver o trabalho de um predador, você vai entender.

– É mesmo? Você parece bem entendida do assunto. Por acaso já saiu em uma caçada alguma vez?

– Loren – disse Alvor, num tom de aviso.

Cariele olhou para ela.

– Sim. Quando eu estava na ativa.

– Não sabia que existiam predadores na Província Central.

Agora não existem mais.

– É mesmo? E quando foi essa tal caçada?

– Loren! – Alvor tentou intervir novamente.

– Quando eu tinha 15 anos. E eu vi sangue e tripas suficientes por duas vidas. Podemos parar de falar sobre isso?

Ignorando Alvor completamente, Loren voltou a provocar:

– Viu muito sangue é? Por quê? Você surta quando vê monstros mortos? Que tipo de caçadora era você, afinal?

Daimar abriu a boca, mas Cariele fez um gesto para que ele ficasse quieto, antes de respirar fundo e olhar novamente para a sargento. Ao notar a expressão dela, Alvor levou a mão à testa.

– Alguma vez você já teve que encarar os pedaços dos seus companheiros de pelotão? Alguma vez já precisou você mesma destroçar o corpo de suas melhores amigas? Se algum dia precisar passar por isso, talvez você me entenda.

Cariele precisou se interromper, quando uma onda de náusea a fez levar a mão à boca. Daimar lançou um olhar furioso à sargento antes de se adiantar e segurar Cariele pela cintura, afastando-a dali.

Loren ficou paralisada no lugar, pálida, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir. Os outros oficiais olharam para ela por um instante, depois se afastaram, ocupando-se em procurar pistas. Alvor se aproximou e colocou a mão no ombro dela.

– Pelo amor da Fênix, Loren! Poderia me fazer o imenso favor de, quando eu estiver no comando, me obedecer quando eu pedir para você manter essa boca grande fechada?

Vários minutos depois, Cariele e Daimar ainda estavam abraçados, a uma boa distância das ossadas. Ao perceber que a respiração dela finalmente estava voltando ao normal, ele decidiu fazer uma pergunta.

Então é por isso que você passa mal ao ver certas… situações?

Na época foi um inferno – admitiu ela. – Estou bem melhor agora, mas de vez em quando as imagens daquele dia voltam à minha mente e, bem…

Você nunca para de me surpreender, sabia?

Surpresa com aquilo, ela soltou um riso involuntário.

Só você mesmo para ficar admirado ao descobrir a fraqueza de alguém.

“Fraqueza”? Não pode estar falando sério. Não deixe que as palavras daquela sargento a façam duvidar de si mesma.

Cariele se afastou dele e removeu a máscara, antes de respirar fundo.

Acho que ela só está cansada. Assim como todos nós.

O aspirante se aproximou deles.

– Boas notícias!

Ele mostrou a eles um par de adagas bastante castigadas pelo tempo em que ficaram à mercê dos elementos. Instintivamente, Cariele estendeu a mão e Alvor lhe entregou uma delas.

– É militar – concluiu ela, antes de arregalar os olhos. – É uma das armas que a Cris costumava carregar com ela o tempo todo!

O aspirante sorriu.

– Excelente! Era exatamente o que eu queria ouvir.

Daimar olhou para trás, franzindo o cenho.

– Mas você encontrou isso lá? Acha que algum daqueles corpos pode ser o dela?

– Não, ela não está lá. Mas a julgar pelas marcas que encontramos nos ossos, é possível que boa parte daquelas pessoas tenham sido mortas por estas armas.

– Eu não me surpreenderia – disse Cariele. – O que faremos agora?

– Estamos recalibrando nosso detector a partir da leitura residual que conseguimos das adagas. O que quer que tenha acontecido aqui, deve ter sido bem traumático, porque deixou uma impressão mística bem forte. E nenhum dos cadáveres ali apresentou leitura compatível. Se ela sobreviveu àquilo, é quase certo que ainda deve estar por aí em algum lugar. E agora temos uma ótima forma de fazer o rastreamento.

♦ ♦ ♦

Daimar ficou satisfeito com o fato da sua “quarta forma”, agora que se acostumara com ela, poder ser mantida durante tanto tempo e com tão pouco esforço, porque foi necessário mais um dia de caminhada até o artefato detector finalmente dar sinais de que estavam se aproximando de seu alvo.

– Ora, ora, o que temos aqui? – Loren olhava para o que parecia uma família de linces negros, acomodados ao lado de um paredão de pedra.

– Tem alguma coisa estranha naquele paredão atrás deles – disse Daimar.

– Eles parecem estar vigiando ou esperando por alguma coisa. Não acho que vão sair de lá tão cedo, vamos ter que passar por eles – concluiu Cariele.

Alvor suspirou e olhou mais uma vez para sua equipe. Estavam todos exaustos, aquela missão estava sendo um desafio para todos eles, tanto física como emocionalmente.

– Estamos perto agora, pessoal, não vamos desanimar. Segundo a senhora Asmund aqui, ainda não se passaram mais do que três horas em Lassam, então, se terminarmos isso rápido, poderemos estar em casa para o almoço.

Os oficiais soltaram risos nervosos, mas prepararam suas armas, sem reclamar. No minuto seguinte, partiam para mais uma batalha.

Enquanto os soldados lutavam contra as feras, Cariele e Daimar conseguiram se esgueirar até o paredão. Ela pôs a mão sobre a rocha e sentiu resistência, mas não havia sensação de textura e nem de temperatura.

É uma parede ilusória – concluiu ela.

Consegue dissipar?

Vou tentar.

Algumas das feras se voltaram na direção deles, mas dois dos oficiais executaram movimentos de arrancada de forma a interceptá-los. Outros predadores estavam surgindo e a batalha ficava cada vez mais acirrada.

Foram necessárias três tentativas, até Cariele finalmente conseguir acertar a frequência e dissipar o encanto. Parte do paredão imediatamente desapareceu e ambos então conseguiram ter uma visão clara do que tinha ali.

Deitada no chão, sobre uma pilha de peles, Cristalin Oglave olhava para eles com um meio sorriso, segurando a enorme barriga enquanto respirava de forma ofegante. As roupas dela estavam rasgadas e havia sangue escorrendo por entre as pernas dela.

Daimar exclamou, perplexo:

– Ela… ela está grávida!

– Pior do que isso – respondeu Cariele, correndo na direção dela. – Está em trabalho de parto. Chame ajuda!

Ele virou-se para os outros.

– Precisamos de um curandeiro! Ou parteiro, sei lá!

Alvor fez um sinal afirmativo para uma das oficiais, que tratou de guardar suas armas e correr para junto deles.

– Cris! – Cariele segurou a mão da tenente. – Você está bem?

– Vocês… vieram! – Cristalin olhava para ela com uma expressão de alívio nos olhos marejados. – Vocês… são reais, não são?

– Sim, somos. Vai ficar tudo bem.

A oficial se ajoelhou ao lado delas.

– Não se preocupe, tenente! Vai dar tudo certo, vou examinar você agora, tudo bem? Sabe me dizer há quanto tempo começaram as contrações?

– Horas… dias… nem sei mais…

Daimar se adiantou.

– Sabe onde está meu pai?

– No meio da… nuvem negra… ele está dizendo… que é muito bom ver você de novo… e que tem muito orgulho de você.

Ele imediatamente se virou e começou a se afastar. Cariele o chamou:

– Daimar, espere! Espere! Volte aqui, droga!

Mas ele a ignorou completamente e usou o encanto de vácuo para se lançar no ar, assumindo a forma de dragão e se dirigindo para a região central do lugar, que era coberta pela névoa escura.

– Tem algo errado com o bebê – concluiu a oficial, fazendo com que Cariele esquecesse seu companheiro para se concentrar no problema mais urgente.

Cariele pôs a mão direita sobre o ventre dilatado de Cristalin e uma sensação curiosa a invadiu. De alguma forma, os sentidos especiais a permitiam visualizar a criança no interior do útero com uma impressionante clareza de detalhes.

– É uma menina – revelou ela. – E está virada ao contrário, a cabeça está para cima. O… cordão está enrolado ao redor do pescoço dela. Ela… está sofrendo.

– Tem certeza?

– Sim. Meus sentidos me permitem ver. – Cariele apontou para uma pequena protuberância no ventre da tenente. – Este aqui é o joelho esquerdo. E a cabeça está ali.

– Isso é ruim.

– Não… se preocupem comigo… – disse Cristalin, com voz fraca. – Só salvem… o meu bebê… levem ele… para casa…

– Chegamos tarde demais, ela está muito fraca e perdeu muito sangue –sussurrou a oficial. – Não vai sobreviver, de qualquer forma. – Ela então apontou para o ventre protuberante. – Mas se cortarmos aqui, talvez consigamos salvar a vida da criança.

– Não é melhor voltarmos para Lassam? Levar ela para o hospital?

As duas olharam para o lado e viram que mais feras tinham surgido, e os soldados estavam embrenhados numa luta ainda mais violenta do que antes.

– Não há tempo. A tenente está por um fio, se ela se for, não haverá esperança para a criança. – A moça respirou fundo. – Nunca fiz isso antes, você pode usar seus sentidos para me guiar?

Cariele sacudiu a cabeça.

– Não, não posso. Eu iria passar mal olhando para isso.

– Mas não temos escolha.

Cariele voltou a colocar sua máscara.

– Sim, temos. Me dê sua adaga. Eu faço isso eu mesma. Enquanto mantiver minha concentração, eu posso ignorar todo o… resto.

– Delinger… diz… – murmurou Cristalin, entre gemidos – que está muito feliz por Daimar ter encontrado uma companheira como você.

Cariele olhou para a oficial.

– Consegue fazer detecção mística?

– Sim, claro.

– Ela parece ter um elo mental com o senhor Gretel. Veja se consegue detectar as emissões e confirmar a direção onde ele está.

– Certo.

– Cris – disse Cariele, acariciando de leve os cabelos desgrenhados da tenente. – Vamos tirar o bebê agora, está bem? Você foi muito valente sobrevivendo até aqui, mas precisamos que aguente mais um pouco, tudo bem?

– Obrigada… eu sempre soube que você… era excepcional… uma em… um milhão… apesar de você mesma… não acreditar nisso…

– Tudo bem, Cris, obrigada.

– Você… foi como uma filha para mim… eu amo… você…

Cariele limpou as lágrimas dos próprios olhos.

– Eu também amo você. Agora, cale essa boca, Cris! Senão eu não vou ser capaz de fazer isso!

Alvor, Loren e os demais se sobressaltaram ao ouvir o grito agoniado de Cristalin Oglave, quando Cariele fez a primeira incisão.

♦ ♦ ♦

No momento em que Daimar retornou, quase uma hora depois, encontrou os oficiais cercados por outro grupo de predadores. Havia sangue e cadáveres de monstros por toda parte, e dois dos oficiais estavam caídos, aparentemente muito feridos.

Louco para extravasar sua frustração, ele aterrissou no meio da confusão fazendo a terra tremer e levantando uma grande nuvem de poeira, assustando os monstros e fazendo com que batessem em retirada. Então ele moveu a cabeça com incrível velocidade, engolindo vivo um dos linces negros que não conseguiu fugir a tempo, e lançando repetidas bolas de fogo nos demais, até que sua energia se esgotasse e ele ser obrigado a reverter à “quarta forma”.

Então, tudo o que ele conseguiu foi ficar ali, deitado no chão, no meio da fumaça, encarando a silhueta das ilhas flutuantes no céu.

– Tragam ele para cá – ordenou Alvor.

Um oficial se aproximou e entrou no campo de visão de Daimar.

– Tudo bem, senhor Gretel? Consegue se levantar?

Daimar levantou a mão direita, que o oficial segurou, ajudando-o a se colocar de pé.

Cariele se aproximava, carregando um bebê enrolado em peles. A criança chorava, desesperada.

– Você conseguiu – disse Daimar, forçando um sorriso.

– Sim. Sinto muito por seu pai.

Daimar balançou a cabeça.

– Então essa é minha irmãzinha?

– É o que tudo indica.

Daimar olhou para o rostinho vermelho, ainda sujo de sangue e outras coisas que ele preferia não tentar identificar. Hesitante, ele tocou de leve a bochechinha rosada e o bebê subitamente parou de chorar, passando a emitir alguns resmungos.

Ele desviou os olhos para Cariele.

– E a tenente?

– Não sobreviveu. Ela usou todos os recursos que tinha e até mesmo alguns que não tinha para proteger a filha. Estava subnutrida, anêmica e… bem, o corpo dela não iria conseguir continuar funcionando de qualquer forma. Nós chegamos tarde demais para poder salvar a vida dela.

O aspirante colocou a mão no ombro de Daimar.

– E quanto a Delinger?

– Está morto – respondeu ele, amargo. – Petrificado no meio do pântano junto com o outro baracai. E acho que está lá há muito, muito tempo.

– Sinto muito.

– Eu também.

– Cris pensava que a consciência dele ainda estava com ela – revelou Cariele, triste. – Mas não encontramos nenhum sinal de que o elo entre eles ainda existia.

– Então ela se forçou a acreditar nisso para permanecer viva – concluiu Daimar.

– Não consigo pensar em outra explicação.

Os soldados feridos, depois de receber tratamento, levantaram-se, fazendo caretas de dor.

– Vocês pareciam estar com a situação sob controle quando eu saí – Daimar comentou, olhando para Alvor.

– Aquela era só a primeira leva. Essa aqui foi a terceira. Bom, deixa isso para lá, vamos buscar o corpo da tenente. Não há mais nada a fazer aqui, temos que voltar para Lassam.

Cariele sacudiu a cabeça.

– Ela disse que não queria voltar. Preferia permanecer aqui, junto com… o companheiro. – Ela voltou o olhar para Daimar. – Sei que isso é muita coisa para pedir a você, mas… acha que consegue voar até onde está seu pai mais uma vez?

Cerca de uma hora depois, quando já tinha recuperado um pouco de suas forças, Daimar finalmente levantou voo, levando um importante fardo em suas garras, enrolado em peles.

Os quinze minutos do trajeto aéreo até o centro do pântano foram os mais tristes de sua vida. Ele podia sentir a presença reconfortante de Cariele através do elo mental, e era muito grato por isso. Nem conseguia imaginar como seria passar por aquilo sem ela.

Ao se aproximar do local, ele desceu, entrando na nuvem escura e sobrevoando as árvores petrificadas o mais baixo possível. Então, sentindo um aperto no peito, ele soltou sua carga, que caiu lentamente, graças ao efeito de um artefato que um oficial tinha colocado no meio das peles. Daimar então manobrou, dando meia volta, e deixou seus sentidos examinarem a cena lá em baixo mais uma vez.

Ele tinha errado o alvo por alguns metros, mas não havia muito o que fazer em relação a isso. Era o mais próximo que ele conseguiria deixar aqueles dois. O embrulho permaneceu boiando sobre o líquido venenoso, mas os efeitos petrificadores dele já eram evidentes. As peles começavam a desbotar e enrijecer. Seu trabalho ali estava concluído.

Obrigado por tudo, pai. Sinto muito não ter sido capaz de fazer nada mais por vocês.

♦ ♦ ♦

Quando a âncora foi ativada e o grupo finalmente deu adeus ao mundo chamado Vindauga, a primeira coisa que Daimar registrou foi a exclamação de surpresa da tenente Ronia Sissel.

– Pela misericórdia da Fênix!

Ele então olhou para si mesmo e para o resto do grupo e percebeu o quão patéticos eles pareciam. Estavam todos sujos, machucados, cheirando a suor e, com exceção dele, com as roupas ensanguentadas e em farrapos. Dois deles nem conseguiam ficar em pé sozinhos. E Cariele carregava um bebê nos braços que berrava a plenos pulmões.

Um dos soldados que estava ali perguntou:

– O que aconteceu? O transporte não funcionou?

– Muito pelo contrário – respondeu Alvor, adiantando-se e prestando continência para a tenente. – Missão cumprida!

— Fim do capítulo 21 —
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Uma opinião sobre “Lassam – Capítulo 21: Incursão

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