Valena – Capítulo 21

Publicado em 16/12/2018
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21. Coração Partido

Valena descobriu, da pior forma possível, o quanto as últimas semanas tinham exigido dela, o quão exausta estava, física e emocionalmente. Ou, pelo menos, isso é o que disse a si mesma, numa tentativa de resguardar seu orgulho.

Todo o seu treinamento, as habilidades místicas concedidas pela Fênix, seus instintos e reflexos, pelos quais tinha recebido tantos elogios nos últimos anos, nada daquilo tinha sido nem remotamente suficiente. Dizer que Sandora a tinha derrotado em batalha era o cúmulo do eufemismo. Valena tinha sido massacrada, humilhada da pior forma possível.

Não sentia uma frustração tão grande desde aquela luta contra Evander, tanto tempo atrás, onde ele a levou à loucura bloqueando todo e qualquer ataque lançasse contra ele. A diferença é que, contra Sandora, não era uma luta de exibição, para entretenimento de uma plateia. Não havia regras. Valena podia usar todos os seus poderes com toda a intensidade, e fizera isso. O que não lhe adiantou de absolutamente nada.

A bruxa não só conseguia antecipar todos os seus movimentos, como os neutralizava com facilidade. Ela conseguia conjurar uma espécie de chicote negro, que parecia se mover sozinho, expandindo-se a enormes distâncias, e cuja ponta podia se tornar rígida como aço. E para tornar as coisas ainda mais complicadas, ela podia desmaterializar aquela coisa a qualquer momento e voltar a invoca-la novamente, frustrando qualquer tentativa de danificá-lo ou prendê-lo entre as árvores.

Não era possível realizar ataques corpo-a-corpo, uma vez que não conseguia se aproximar de sua oponente. Pelo menos não sem receber inúmeros golpes daquele maldito tentáculo negro ou, pior, ser envolta e imobilizada por ele. E seus ataques à distância também não estavam sendo efetivos.

O professor Lutamar Romera sempre havia elogiado a habilidade de lançamento de bolas de fogo de Valena, a forma como ela conseguia realizar a invocação de forma quase instantânea. Era uma das pouquíssimas coisas na qual ela conseguia superar até mesmo o imperador Caraman. Mas, contra Sandora, o tempo de invocação parecia longo demais. A bruxa parecia estar sempre saber o que ela tentaria fazer a seguir, dificultando-lhe ao máximo o uso de seus poderes. E os poucos projéteis místicos que Valena conseguia invocar não conseguiam atingir o alvo, sendo bloqueados ou, simplesmente, errando o alvo.

A proteção concedida pelas chamas da Fênix absorvia boa parte dos impactos que recebia, mas não era, nem de longe o suficiente, pois aquele maldito chicote a golpeava sem piedade vezes e mais vezes sem conta. Misteriosamente, no entanto, Valena não sofreu nenhum arranhão durante toda a batalha. Apesar da rigidez, aquela coisa parecia não conseguir penetrar sua pele. Ao invés disso, cada vez que era atingida, o cansaço que sentia aumentava, até chegar ao ponto de não conseguir mais manter a forma da Fênix. Sua força e reflexos diminuíram. E ela finalmente foi envolvida e imobilizada.

Então, de alguma forma, a bruxa a lançou com violência contra um tronco. Valena viu a árvore se aproximar a grande velocidade, imaginando que aquilo não era justo. As coisas não podiam acabar daquela forma. Ainda tinha tanto a fazer, tantas pessoas a ajudar, tantas injustiças a corrigir. Mas talvez fosse melhor terminar assim. Se não conseguia nem mesmo proteger a si mesma, talvez não estivesse à altura de ser a imperatriz.

Aquela constatação doeu. Muito.

Felizmente, aquilo durou apenas por uma fração de segundo. No momento seguinte seu corpo atingiu o tronco e tudo escureceu.

♦ ♦ ♦

Quando voltou a abrir os olhos, viu-se dentro de uma construção rústica com paredes de pedra. Estava deitada sobre o que parecia ser um colchão de palha e seu corpo estava fraco, amortecido. Até mesmo mover a cabeça de um lado para o outro lhe parecia uma tarefa penosa.

Viu a bruxa se aproximar dela, mas estava fraca demais para esboçar qualquer reação. Então sentiu algo sendo colocado entre seus lábios, um líquido adocicado invadindo sua boca e ela moveu a garganta, bebendo com avidez, enquanto fechava os olhos. Em poucos instantes, sentia um pouco de suas forças retornar.

Sandora afastou o recipiente de sua boca e aproximou-se, analisando seu rosto com atenção, antes de afastar para o lado o lençol que cobria Valena, expondo seu peito desnudo. A bruxa segurou com facilidade seus braços, impedindo sua tentativa de cobrir os seios, e lançou a seu busto outro olhar avaliativo.

Sentindo um rubor cobrir-lhe as faces, Valena baixou os olhos para si mesma, esperando ver as terríveis cicatrizes marcando seu peito. E piscou, surpresa, ao perceber que elas não estavam mais ali.

­– Mas o quê…?

– Você tinha um ferimento grave – disse a bruxa, voltando a cobri-la. – Estava infeccionado. Há quanto tempo foi ferida?

Valena lambeu os lábios. Sua língua parecia inchada.

– Não sei. Um mês, eu acho. Talvez mais.

– Poderia ter morrido por causa daquilo. Por que não procurou ajuda?

O que estava acontecendo? Por que aquela ur xun se preocuparia com ela?

– O que fez comigo? – Valena perguntou, passando a mão pelo peito e não encontrando mais nenhum sinal do ferimento.

– Tive que usar meus poderes para forçar seu corpo a reabrir a ferida e expulsar o pus. O ferimento não poderia se curar de outra forma, nenhuma poção ou habilidade mística curativa teria efeito. Por alguns dias, achei que você não sobreviveria.

– Você me curou? Como…? Por quê? Quero dizer, você me atacou…

– Não. Você me atacou. Eu estava apenas cuidando dos meus assuntos.

– Você destruiu Aldera!

– Isso é verdade. Mas não fiz isso de forma voluntária.

Valena a encarou por um tempo, confusa, antes de virar a cabeça devagar e olhar ao redor.

– Onde estou?

– Em minha casa.

– E onde, exatamente, ela fica?

– Ebora.

– Oh – aquilo era inesperado. Aparentemente, Valena estava longe de casa. Muito longe. – Por que me trouxe para cá?

– Porque precisava de cuidados. Você está sendo procurada, por isso não me pareceu boa ideia te deixar em algum hospital de Mesembria.

– E decidiu cuidar de mim você mesma? – Valena perguntou, incrédula.

– Se eu tivesse percebido aquele dia que seu caso era tão grave, não teria te trazido. Arrisquei usar meus poderes apenas porque me pareceu que mover você novamente poderia piorar ainda mais sua condição.

– E por que se deu a todo esse trabalho?

A bruxa deu de ombros.

– Já morreram pessoas demais por minha causa.

♦ ♦ ♦

– Como ela está?

Cariele Asmund pegou a caneca que Evander segurava e tomou um longo gole, antes de devolvê-la, soltando um suspiro.

– Teimosa.

Evander sorriu, balançando a cabeça e suspirando de alívio.

– Ela tende a falar grosso e usar aqueles trejeitos góticos assustadores quando dizem a ela o que fazer – ele sorriu. – Principalmente se a mandam ficar parada descansando.

– Ainda bem que não tenho medo de cara feia – retrucou Cariele, parecendo cansada. – A condição dela parece estar boa agora, o bebê está forte, saudável, se mexendo bastante. Mas isso não quer dizer que ela não possa piorar a qualquer momento. Leve-a para outra batalha como essa última e ela pode não retornar. Não é só a vida do feto que está em jogo, a dela também está. Eu já perdi pacientes teimosas antes, e, definitivamente, não quero ver isso se repetindo.

– Ela não está muito confiante de que tenha chances de sobrevivência, com ou sem sua ajuda.

Cariele bufou.

– Com uma atitude como essa, ela provavelmente não tem chance nenhuma, mesmo!

Ele levou a caneca aos lábios e sorveu mais um gole da cerveja.

Nesse instante, a sargento Jena Seinate entrou no aposento, a orbe prateada flutuando no ar atrás dela. Evander olhou para ela intrigado, notando a expressão aflita em seu rosto.

– Evander, tem uma coisa que acho que você vai querer ver.

– O que houve?

– Seu pai e Lucine estão em um dos pátios de treinamento.

Ele franziu o cenho.

– Fazendo o quê?

– Acho que é melhor você ver por si mesmo.

♦ ♦ ♦

Valena sentia o sol no rosto e o vento nos cabelos. Podia ouvir o barulho dos pássaros e os ruídos distantes do palácio. Mas, no momento, nada lhe importava além do corpo pressionado contra o seu e das sensações que o calor dele lhe provocava.

O beijo terminou e ela afastou a cabeça, encarando os olhos negros de Valdimor. Ele tinha uma expressão apaixonada no rosto, estava tão afetado por aquela intimidade quanto ela, talvez mais.

Por sobre o ombro dele, ela podia ver a extensão de seus domínios. Além das ameias da torre onde estavam, estendia-se a cidade de Aurora, a maior e mais gloriosa metrópole do império. Mas, no momento, tudo aquilo parecia pequeno em comparação com a enormidade dos sentimentos que aquele homem despertava dentro de si.

– Tem uma coisa que eu preciso dizer.

Ele levantou a sobrancelha, mas não disse nada. Valena deu dois passos para trás, rompendo o contato. Imediatamente sentiu falta da sensação dos braços dele a seu redor, mas precisava de distância se realmente quisesse compartilhar aquilo com ele.

– Eu recebi um augúrio, muito tempo atrás – começou ela, abaixando os olhos. – A Fênix me disse que eu encontraria um companheiro, alguém com quem iria me unir. Alguém com quem eu iria compartilhar tudo e que me levaria a encontrar a plenitude completa.

Ele a olhou, surpreso, mas continuou em silêncio.

– Eu… – aquilo estava se mostrando muito mais difícil do que ela havia esperado. – Eu não sei se você é esse companheiro, mas eu acredito com todas as minhas forças que seja. O que eu sinto por você é tão intenso, tão perfeito…

Um leve sorriso se instalou nos lábios dele por um instante. Mas então ele pareceu notar a apreensão dela e franziu o cenho de leve, uma pergunta clara em seu semblante.

– Mas, esse “companheiro”, segundo o Eterno, não será o único.

Ele arregalou os olhos.

– Ela me disse que eu teria vários “companheiros”. E… todos ao mesmo tempo.

Valdimor deu dois passos para trás, chocado. Obviamente, não gostara nem um pouco da ideia, como Valena imaginava que aconteceria.

– Traição me mandou ao inferno – disse ele, por entre os dentes. – Não quero voltar lá.

♦ ♦ ♦

Uma pequena plateia havia se formado no pátio, observando, com diversos graus de curiosidade e preocupação, o complicado ritual que Leonel Nostarius e Luma Toniato realizavam, com a ajuda de Eliar Radal.

O ex-conselheiro parecia ávido em compartilhar tudo o que aprendera nos meses em que passara ao lado de Dantena, estudando os velhos pergaminhos damarianos. E alguns dos mistérios revelados naqueles documentos, aparentemente era a chave para a realização de um feito que Leonel e Luma tentavam idealizar há várias décadas.

Lucine Durandal estava suada e ofegante quando o ritual atingiu seu clímax. Ela levantou a espada, a mais bela e intrincada arma que ela jamais pusera os olhos antes, e sentiu seu potencial, seu fluxo, seu poder. E então foi subitamente envolvida por uma sensação extremamente desconfortável, nauseante. Sentiu que alguma coisa se apossava dela, invadindo seu corpo e seu espírito. Algo maligno e incrivelmente poderoso. Algo que desejava tomar o controle, que queria destruí-la para poder escapar e trazer o caos ao mundo.

Ela trincou os dentes e resistiu, precisando de toda a sua determinação para manter aquele ser vil sob controle, aprisionado. Levou algum tempo, mas finalmente a arma mística pareceu ceder a seu comando, a empunhadura recoberta por um tipo macio de couro parecendo se encaixar em sua mão, como se a reconhecesse como sua nova mestra.

Lucine cortou o ar com a espada diversas vezes, sentindo um enorme alívio ao perceber que aquilo tinha acabado, que sua aptidão natural havia sido suficiente para dominar o uso daquele artefato e conter os diversos prisioneiros que ele carregava.

Ela olhou para Leonel, perplexa com o tamanho do fardo que ele havia carregado por tantos anos. Se ele tinha conseguido manter algo daquela magnitude sob controle por tanto tempo sem sucumbir ao impulso quase irresistível de abraçar todo aquele poder, de deixar que o envolvesse, o consumisse, de ser completamente possuído por ele, o homem era muito mais impressionante do que jamais imaginara.

Duvidava que estivesse ao mesmo nível dele. Não sabia por quanto tempo conseguiria se controlar. Mas se aquele era o preço que tinha que pagar para que o ex conselheiro Aumirai Dantena pudesse finalmente ser derrotado, para que Evander tivesse a paz que merecia, ela iria, de bom grado, dedicar cada momento de sua vida a controlar aquele poder.

A pequena multidão no pátio se abriu para dar passagem a Evander, que a encarou de olhos arregalados, reconhecendo a arma que havia sido do pai dele e que agora ela empunhava com determinação. Apesar de sua expressão não ocultar seu medo e preocupação, ele não disse nada. Apenas a olhou por diversos instantes, avaliando-a. Provavelmente tentando descobrir se ela precisava de algum tipo de ajuda.

Aquilo aqueceu seu coração. Ela sabia que a disposição dele em ir até as últimas consequências para ajuda-la não tinha, necessariamente, relação com ela. Sabia que ele faria o mesmo por outras pessoas. Droga, ele provavelmente era idiota o suficiente para fazer aquilo por qualquer um. Mas, mesmo assim, não pôde evitar a sensação de bem-estar. De ser apreciada. De ser necessária.

O sentimento fortaleceu a sua determinação e ela brandiu a arma mais uma vez, conseguindo agora enterrar de vez dentro de si os “prisioneiros” da espada, que tentavam de toda forma minar sua coragem e enfraquecer sua resolução, querendo desesperadamente a liberdade. A sensação de náusea foi diminuindo e as vozes desconexas em sua cabeça foram desaparecendo.

Ela suspirou e embainhou a espada, antes de se virar para Leonel Nostarius, que a encarava com um misto de preocupação e orgulho. Subitamente, ele lhe pareceu cansado, esgotado.

– Está feito – disse ele, numa voz hesitante. – Esse poder agora é seu, bem como a maldição que está ligada a ele. Use-o com sabedoria.

Ao vê-lo oscilar, ameaçando perder o equilíbrio, Luma o segurou pela cintura e o ajudou a caminhar para fora do pátio.

Evander encarou Lucine, ainda sem dizer nada, mas ela pôde ver a pergunta em seus olhos. Uma pergunta que ela se sentiu compelida a responder.

– Aquela cabeça-dura não vai parar de lutar enquanto Dantena continuar à solta – explicou. – E por causa disso você também não vai ter paz. Eu vou acabar com isso.

– E você acha que vale a pena passar por tudo isso – ele apontou para a espada amaldiçoada em sua cintura – apenas para me trazer paz?

Ao invés de responder, ela deu-lhe as costas e saiu caminhando.

♦ ♦ ♦

Valena entrou no quarto de Sandora, seguida pela capitã Imelde, e ficou surpresa ao encontrar Falco ali em pé, ao lado da cama onde a bruxa estava deitada.

– Achei que estivesse se divertindo com a sua… escrava.

O sorriso zombeteiro, que parecia estar quase constantemente no rosto dele, falhou por um momento. Ele parecia estranhamente sensível quando o assunto era a ex conselheira Gerbera. O que era muito curioso, uma vez que não fez segredo de seu desejo de se aproveitar da condição mental dela e usá-la para satisfazer seus caprichos. Aquela havia sido a segunda condição dele para lutar ao lado do exército imperial.

Valena, normalmente, nunca concordaria com uma coisa daquelas, mas Sandora, por alguma razão, parecia acreditar que aquele homem não era tão ruim quanto ele próprio dava a entender, e havia intercedido a seu favor.

– Eu estava apenas verificando se a nossa beledana estava sendo bem cuidada.

– Sei… – resmungou Valena, desconfiada. O motivo de ele ficar chamando Sandora por aquele nome era um mistério. E o infeliz se recusava a explicar o que a palavra significava.

– Como está Joara? – Sandora perguntou, sentando-se na cama.

– Pelo visto, vai ficar inconsciente por algum tempo ainda. Não conseguimos descobrir uma forma de fazer com que ela e os outros acordem.

– Que bom que não temos pressa – disse Falco. – Com o farol destruído, não temos como voltar para Chalandri, mesmo, então deixe a princesa descansar mais um pouco.

– Está com medo do que ela pode nos contar quando acordar? – Valena inquiriu, estreitando os olhos.

– Eu não tenho medo de nada ­– a voz dele, no entanto, não estava muito firme, o sotaque se intensificando.

– Por que estão aqui? – Sandora perguntou, encarando Valena.

– Luma Toniato conseguiu encontrar uma forma de ativarmos o poder do machado. As tropas vão marchar para o norte amanhã. A luta é inevitável, e essa será a maior batalha da história do império. Precisamos decidir a melhor forma de utilizar esse poder a nosso favor. Luma, Cariele, os senadores e os sábios imperiais estão aguardando na sala do trono para discutirmos opções. Queremos que você participe.

Sandora assentiu e se levantou, devagar. Seu ventre parecia ter aumentado consideravelmente nos últimos dias, como se o bebê tivesse passado por um desenvolvimento acelerado.

– E quanto a Eliar Radal?

Valena cerrou os dentes.

– Não gosto de ter aquele homem por perto. Não posso esquecer de tudo o que ele fez nesses últimos anos.

– Isso não importa agora, precisamos do conhecimento dele.

Valena suspirou e se virou para a capitã.

– Vou pedir para trazerem ele – disse Laina, hesitando por um momento e olhando para Falco. Ela não tinha parado de lançar olhares desconfiados para ele desde que entraram.

– Eu não mordo, belezinha – disse ele, com olhar zombeteiro. – Pelo menos não se você não pedir.

A capitã olhou para Valena e depois para Sandora e suspirou, virando-se para sair, mas não antes de lançar ao homem um rápido olhar por sobre o ombro.

– Saia da linha uma vez que seja, e eu vou atrás de você de novo. Vou te pegar, com ou sem espada mágica. E, dessa vez, não vai haver nenhum acordo.

– Vocês não adoram uma mulher determinada? – Falco disse, rindo, enquanto Laina saía, pisando duro.

Ignorando-o, Valena olhou para a bruxa.

– Precisa de ajuda?

– Não, obrigada – respondeu Sandora, caminhando devagar, mas com determinação na direção do corredor.

Valena a seguiu. Gram e Valdimor estavam recostados à parede do lado de uma janela e saudaram as duas com gestos de cabeça quando se aproximaram.

Franzindo o cenho, Valena olhou, primeiro para Valdimor e depois para Gram. Em seguida, encarou Sandora. Então se voltou e viu Falco se afastando.

O que era isso que estava sentindo?

– O que houve? – Sandora perguntou.

– Não sei. Apenas uma sensação estranha.

Valdimor lançou-lhe um olhar preocupado, mas manteve-se à distância.

♦ ♦ ♦

– Você não está em condições de participar de uma batalha! – Cariele Asmund vociferou na direção de Sandora.

Estavam sentados ao redor de uma mesa de reuniões, na sala do trono.

– Por mais que eu concorde com isso, precisamos dela – disse Evander. – Não tenho a afinidade mística adequada para ativar o machado. E se quisermos mesmo expandir nossos poderes de proteção, isso precisa ser feito por um de nós dois. Pessoalmente. E o mais próximo possível do campo de batalha.

– Podemos usar uma flutuação diferente – insistiu a esposa do Dragão. – Algo ofensivo, por exemplo.

– Não, se quisermos salvar vidas – retrucou Sandora, séria.

Valena lançou um olhar para Luma Toniato, que assentiu.

– A ideia de Sandora parece ser a melhor opção.

Neste momento, um soldado se adiantou.

– Com licença, alteza?

– Diga, soldado – respondeu Valena.

– O governador Nostarius está pedindo a presença da senhora Toniato.

Luma se levantou com um sobressalto, derrubando a cadeira para trás e chamando a atenção de todos.

– Desculpe, alteza, mas gostaria de pedir sua licença – disse ela. – Ele não interromperia essa reunião se não fosse algo importante. Preciso…

– Está tudo bem – respondeu Valena, ao ver Luma tendo dificuldade para concluir uma frase pela primeira vez desde que a conhecera. – Me deixe saber se precisarem de alguma coisa.

Ao ver Evander fazendo menção de se levantar também, Valena levantou uma mão na direção dele, pedindo silenciosamente para que ficasse onde estava. Ele olhou para Luma, que se despediu com uma breve cortesia e caminhou na direção da porta, apressada. Então, com resignação, ele voltou a se acomodar ao lado de Sandora.

– Se me permite fazer uma colocação, alteza – disse o senador Olger, que usava seu tradicional chapéu pontudo –, em relação ao assunto em pauta, me parece uma decisão muito séria e que pode colocar vidas em risco. Talvez fosse prudente consultarmos uma vontade superior.

– Quer dizer, como um augúrio? – Quis saber o senador Ajurita, acariciando sua longa barba branca.

– Posso tentar – disse Valena, apertando os lábios. Tivera dificuldade em conseguir arrancar alguma informação útil da Grande Fênix nas últimas vezes em que tentara.

– Vocês estão seriamente pensando em perder tempo com isso? – Eliar Radal exclamou, incrédulo, enquanto agitava os punhos, que estavam presos por uma algema. O aspirante Alvor Sigournei, que montava guarda atrás dele, o segurou pelo ombro, impedindo que se levantasse.

– Tem algo útil para acrescentar, Radal? – Valena perguntou, franzindo o cenho.

O homem lançou um olhar para as outras pessoas, ao redor da mesa.

– Vocês sabem que as grandes entidades foram destruídas, não sabem?

O salão caiu em um silêncio chocado.

– Do que está falando, homem? – Perguntou o general Camiro.

– Tanto a Grande Fênix quanto o Espírito da Terra deixaram de existir anos atrás, logo que Narode se apoderou da Godika Geonika. A primeira coisa que ele fez foi invadir o espaço alternativo onde as entidades viviam e erradica-las. Se não fizesse isso, ele nunca conseguiria ter êxito em seus planos de dominação.

– O que está dizendo? – Valena perguntou, levantando uma das mãos. Uma chama avermelhada brotou de sua palma, queimando de forma intensa por alguns segundos antes que ela fechasse a mão e o fogo desaparecesse. – É a Fênix quem me concede meus poderes e mantém esta marca – ela apontou para o rosto.

– Você não sabe mesmo, não é? – Radal balançou a cabeça. – Quando estava morrendo, a Fênix procurou pela pessoa mais próxima que tivesse o nível de afinidade necessário para receber a marca. Ela transferiu todas as forças que ainda tinha para você, numa última tentativa de lutar contra Narode.

Um pequeno caos reinou no salão por alguns instantes. Alguns dos senadores se levantaram, furiosos, exigindo que Radal fosse calado ou retirado da sala. Os demais presentes murmuravam entre si enquanto lançavam olhares preocupados na direção de Valena. Alguns pareciam amedrontados, outros confusos. Evander e Sandora trocaram um olhar sério.

– Silêncio! – Valena exigiu, levantando-se.

– Ele está dizendo a verdade? – Sandora perguntou para Evander, quando os demais se calaram.

– Sim – ele assentiu, devagar, sem tirar os olhos de Radal. – Ou, pelo menos, o que pensa ser a verdade.

Uma sensação horrível começou a crescer no peito de Valena. Ela lançou um olhar cortante ao casal.

– Isso não é verdade! A Fênix se comunica comigo. Eu tenho certeza que…

– A Fênix nunca se comunicou com você – insistiu Radal. – Estava morta muito antes de você sequer se dar conta de que tinha recebido essa marca.

– Você não sabe do que está falando. Eu posso realizar augúrios. Venho fazendo isso há anos!

– Isso não quer dizer nada. Seus poderes apenas tomaram forma devido ao seu desejo de ser como os outros imperadores. Você ouviu apenas o que queria ouvir. Ou talvez, palavras que a Fênix tenha desejado que ouvisse, palavras que plantou dentro de você quando lhe concedeu a marca.

– Se isso fosse verdade, o imperador Caraman teria me dito!

– Caraman nunca teria sido derrotado se a Fênix estivesse viva. Ele tinha uma conexão muito forte com ela, coisa que você nunca teve porque ela não mais existia. Não sei porque o imperador nunca revelou nada disso a você, mas ele sofreu bastante quando a conexão com a entidade foi cortada. Achamos que ele fosse morrer de desgosto, mas aquela esposa dele conseguiu, de alguma forma, lhe dar alento.

Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Valena. Sabia que não devia dar ouvidos às palavras daquele homem. Ele devia ter enlouquecido, assim como os demais ex conselheiros. No entanto, saber daquilo não ajudava a afastar a horrível sensação de perda e vergonha que se apoderava dela.

– Isso é bobagem! Eu fui escolhida por ser digna! Estou melhorando a vida das pessoas! Estou reconstruindo o império!

– Você apenas estava apenas no lugar errado na hora errada!

♦ ♦ ♦

– Tudo indica que nossas precauções não foram suficientes – disse Leonel, com uma voz fraca. – A ideia de Radal… não deu certo.

Alarmada, Luma olhou para o curandeiro.

– Já fizeram exames? Não descobriram ainda o que pode ser?

– Sim, mas até agora não recebemos nenhuma leitura que não fosse natural, exceto pelo volume do fluxo energético. O corpo dele não está recebendo força vital suficiente para mantê-lo funcionando.

– Sabíamos que isso era uma possibilidade, Luma – falou Leonel, num tom conformado. – O artefato ficou vinculado ao meu corpo por tempo demais e fiquei dependente do fluxo energético dele.

– Por que você tinha que fazer aquilo? – Luma tinha perdido a conta de quantas vezes tentara fazê-lo mudar de ideia. – Poderia muito bem continuar com a espada!

– Meu tempo… está se esgotando… eu estou velho demais… para isso… pelo menos agora… os jovens têm uma chance… de lutar…

– Para o inferno com os jovens! O que vai ser de mim sem você?

– Nós… conversamos sobre isso…

Sim, eles haviam conversado. Haviam concordado que aquela era a melhor linha de ação. Juntos, haviam planejado diversas ações de contingência. Mas nada daquilo lhe servia de consolo no momento.

Parecendo sentir a dor dela, ele levantou uma mão e acariciou o rosto dela com um dedo.

– Estou feliz… pelo menos… por algum tempo fui capaz de… amar você…

Depois de décadas lutando lado a lado, passando por incontáveis situações de vida ou morte, eles finalmente tinham conseguido vencer os traumas passados e construir um relacionamento. Até pouco mais de um ano atrás, nenhum dos dois se considerava capaz daquilo.

Um ano. O melhor ano da vida de ambos. As lágrimas começaram a escorrer, abundantes, pelo rosto dela.

– Não… – a palavra soou como se tivesse sido arrancada dela contra a vontade.

Então ele não foi mais capaz de manter os olhos abertos.

O curandeiro imediatamente se aproximou, fazendo um sinal para que ela se afastasse, e começou a medir os sinais vitais, enquanto gritava algo para as enfermeiras.

Luma ficou no canto do aposento, olhando a movimentação, com uma expressão estupefata no rosto. Podia ouvir o que diziam, mas não conseguia entender nada. Não fazia questão de entender nada. Aquilo não mais importava.

Não era justo. Por que não era ela ali naquela cama ao invés dele? Por que as pessoas boas têm que morrer enquanto os monstros sobrevivem? Por quê?!

O que faria agora? Como poderia continuar vivendo, quando a vida da única pessoa com quem realmente se importava estava se esvaindo em frente a seus olhos?

Então ela sentiu uma dor horrível, como se seu coração estivesse sendo rasgado ao meio. Ela sabia o que estava acontecendo, mas não tinha forças para lutar contra. Não tinha mais um motivo para lutar. Sem ele, ela não via mais qualquer razão para sua própria existência.

E nem para qualquer outra.

— Fim do capítulo 21 —
< 20. Jogando a Toalha Sumário 22. Unhas e Dentes >

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