Lassam – Epílogo: Destino

Publicado em 09/07/2017
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Epílogo: Destino

– Você parece ser a única capaz de acalmar essa menina – comentou Daimar, sentando-se ao lado de Cariele no banco, nos jardins do hospital.

– Nem eu entendo como isso pode ser possível – respondeu ela, olhando, terna, para o rostinho adormecido. – Nunca precisei lidar com crianças antes. Na maior parte do tempo não tenho ideia do que fazer.

– Deve ser instinto maternal. – Ele sorriu para ela e acariciou-lhe o rosto por um momento, antes de suspirar e se acomodar no banco. – Acabei de vir do posto militar. A irmã da tenente está mesmo desaparecida. Colocamos uma recompensa por informações sobre ela, mas os oficiais não acham que isso vá adiantar muito.

Cariele acariciou de leve os finos fios de cabelo da criança que apareciam por baixo da touca.

– Isso quer dizer que a coitadinha não tem mais ninguém com quem contar além de nós.

– Sim.

Ela suspirou.

– Sabe, desde que fiquei sabendo que nunca poderia engravidar, eu deixei de pensar sobre maternidade. Com o tempo me acostumei a considerar que nunca carregaria uma criança no colo, não a veria crescer, nem nada dessas coisas que as mães fazem tanta questão de dizer que acham tão importantes. Eu me acostumei com isso e achei que esse tipo de coisa não me faria falta.

– Vai dizer que, depois de carregar a cunhadinha nos braços pela primeira vez, mudou de ideia?

Ela deu um meio sorriso e o encarou.

– Ela pode ser nossa única chance de ter algo similar a um filho.

– Estar com você é tudo o que me importa. – Ele a encarou, terno, por um longo instante, antes de olhar novamente para o rosto do bebê. – Mas, de qualquer forma, ela é meio baracai, como eu. Eu não gostaria de abrir mão dela, mesmo que alguém da família da tenente estivesse disponível. Eventualmente, ela vai precisar de mim, e eu quero estar aqui para ela quando esse dia chegar.

– Então, está decidido – ela sorriu.

– Como vamos chamá-la?

– Que tal “Brinia”?

– Oh? Parece que alguém já andou pensando bastante no assunto.

– Sim, eu pensei. Mas você não respondeu. O que acha do nome?

– “Brinia Gretel”? Soa bem, gostei. A propósito, vamos ter que morar no alojamento da fraternidade por algum tempo, até nossa nova casa estar pronta.

– Hã? Você está construindo uma casa?

– Sim, eu comprei o terreno onde ficava a nossa mansão e coloquei meu administrador para cuidar do trabalho. Era para ser apenas um laboratório, você sabe, para trabalharmos no meu projeto e então podermos financiar sua pesquisa. Mas vimos que é possível acrescentar um piso onde possamos morar.

O sorriso dela se alargou.

– Parece ótimo. Não achei que, com essa confusão toda das últimas semanas, você tivesse achado tempo para pensar nisso.

– Está brincando? Minha vida com você é a coisa mais importante do mundo para mim.

– E agora, essa gracinha aqui vai fazer parte disso também.

– Claro.

– Nesse caso, precisamos terminar logo nosso curso na academia para podermos dar início ao trabalho.

– Ah, vocês estão aí – disse Edizar Olger, se aproximando deles com dificuldade, apoiado em uma bengala.

– Senhor Olger – disse Daimar. – Que bom ver que está se recuperando.

O sábio olhou para Cariele com uma expressão séria.

– Sinto muito, filha, mas trago más notícias.

♦ ♦ ♦

“Aqui jaz Baldier Asmund, grande sábio e amado pai”.

Cariele leu o epitáfio com dificuldade. Lutando para controlar as lágrimas, ela leu a outra frase em relevo na lápide, uma das favoritas de seu finado pai.

“Ninguém nunca conhece a própria força até o momento em que não tenha outra alternativa além de ser forte”.

Então, sem conseguir resistir, ela enterrou o rosto no peito de Daimar e deixou que as lágrimas rolassem. Ele fechou os olhos e a segurou, em silêncio, por longos minutos. Já havia se passado dois dias desde o enterro, mas a dor da perda não dava sinais de que algum dia iria diminuir.

Ao lado do túmulo de Baldier, o exército havia erguido outros dois, em honra a Delinger Gretel e Cristalin Oglave. Daimar não se sentia, particularmente, ligado àquelas lápides, pois sabia que nenhum dos dois estava enterrado ali, mas de qualquer forma, sentia-se grato pela homenagem.

Estavam se preparando para ir embora, quando a tenente Sissel, o aspirante Sigournei e a sargento Giorane se aproximaram. Respeitosamente, manifestaram novamente suas condolências, ao que Cariele e Daimar agradeceram.

Então Alvor declarou:

– Viemos nos despedir. Estamos partindo para Talas.

Cariele assentiu.

– Boa sorte para vocês.

Loren se adiantou, insegura.

– Eu gostaria, você sabe, de me desculpar pelo que eu disse aquele dia. Eu estava… com os nervos à flor da pele. Mas nada justifica meu comportamento.

Cariele sorriu.

– Não se preocupe com isso.

– Não – a sargento insistiu. – Quando eu vi você… salvando a vida do bebê daquele jeito, mesmo depois de tudo o que você disse que tinha passado… eu vi que fui uma grande idiota. Creio que… ainda tenho muito o que aprender.

– Por isso ainda é uma sargento – respondeu Cariele, o que fez com que todos rissem. – Mas não precisa mesmo se preocupar com isso. De verdade.

– Obrigada.

– Vocês podem ficar com isso aqui – Alvor estendeu para Daimar os coletores de emissões, capazes de rastrear a pulseira de Daimar e o anel de Cariele.

– Fique com eles – disse Daimar.

O aspirante arregalou os olhos, surpreso. Cariele declarou:

– Como já dissemos antes, aspirante, não temos nada a esconder. Sabemos que o exército não pode se dar ao luxo de deixar que pessoas como nós andem livres por aí sem supervisão. E, se vamos ser monitorados de qualquer forma, preferimos que seja por alguém em quem possamos confiar.

Alvor olhou para a tenente. Ronia assentiu.

– Nesse caso, fico muito grato pela confiança.

A tenente limpou a garganta.

– Antes de irmos, senhora Asmund, temos uma proposta para a senhora.

– É mesmo?

– A tenente Oglave havia despachado um pedido de reintegração em seu nome.

Cariele arregalou os olhos.

– O quê? Quando?

– Logo que eu vim para cá – respondeu Alvor. – Lembra da sua última missão, quando prendeu todos aqueles criminosos numa única noite?

– Mas ela… ela disse que nunca mais queria trabalhar comigo depois daquilo!

– Sim, mas acho que ela estava se referindo apenas ao arranjo que vocês tinham – respondeu Alvor. – Ela realmente pensava em você como uma espécie de filha. Então, dar uma bronca de vez em quando faz parte, você sabe.

Ronia voltou a falar.

– De qualquer forma, o pedido foi aprovado pelo capitão, mas na ausência da tenente, eu preciso autorizar a execução. Fui aconselhada pelo aspirante Sigournei a prosseguir com o processo, se a senhora concordar. Quer voltar a integrar as fileiras do exército imperial, Cariele Asmund?

Muito surpresa, Cariele olhou para Daimar, que apenas sorriu para ela. Ainda sem conseguir acreditar, ela perguntou:

– Mas… por quê?

– Eu sugeri isso porque seria uma forma interessante de ficarmos de olho em vocês – admitiu Alvor. – Nunca imaginei que fossem confiar os coletores a mim. A propósito, se quiseram que eu devolva, é só pedir.

– Eu também recebi relatórios interessantes em relação à forma como o senhor Gretel lida com seus poderes – disse a tenente, olhando para Daimar. – É verdade que foi ela quem o ensinou?

– Sim, senhora – respondeu ele, enfático.

– Estamos recrutando novos soldados para a unidade de Lassam – continuou Ronia, olhando para Cariele. – E precisaremos de bons instrutores. – Ela fez uma pausa, desviando o olhar por um instante para a lápide da falecida tenente. – Cristalin Oglave é insubstituível, pois era uma das melhores da província. No entanto, gostaríamos de saber se você não está interessada em seguir os passos dela.

♦ ♦ ♦

Os meses seguintes passaram num ritmo intenso. Às voltas com os cuidados com Brinia, o último semestre na Academia, a recente reintegração à tropa e os preparativos para o casamento, Cariele achou que ficaria completamente louca.

Felizmente, pôde contar com suas amigas de fraternidade, principalmente Agneta.

A “aposta” que Cristalin Oglave tinha proposto e que havia colocado toda a turma especial contra Daimar e Cariele acabou terminado de uma forma inesperada. Logo depois de fazerem a apresentação final, a pontuação que o casal conseguiu foi muito melhor que a do resto da turma, no entanto, o supervisor suspendeu os efeitos da aposta, com a justificativa de que um dos outros membros da turma havia entrado com um pedido de anulação, por achar os termos injustos. E o mais surpreendente era que aquele pedido havia sido feito logo no dia seguinte à aposta. Aquele gesto altruísta acabou salvando doze estudantes de terem que encarar aulas por um semestre adicional.

O supervisor nunca revelou o nome de quem pediu a anulação, mas Cariele tinha certeza de que havia sido Agneta.

Depois que a amiga deixou o hospital, as duas voltaram a ser as melhores amigas. Na verdade, a amizade agora havia se aprofundado muito mais, pois depois das experiências pelas quais haviam passado, ambas acabaram amadurecendo bastante.

Agneta e Falcão tinham assumido “oficialmente” o namoro e pareciam estar felizes juntos.

E, falando em “oficializar”, depois que saíram do hospital, a primeira coisa que os monitores Britano Eivindi e Janica Fridiajova fizeram foi exatamente isso. E da forma mais discreta possível. Ninguém ficou sabendo de nada até que Cariele questionou o fato de estarem usando alianças na mão esquerda e eles admitirem alegremente que estavam casados.

Egil e Malena também continuavam namorando firme. A experiência de quase morte nas mãos da baracai havia sido bastante traumática, principalmente para Malena, mas há males que vem para bem. A garota agora tinha deixado um pouco de lado seus impulsos rebeldes e aventureiros, disposta a não se meter mais em encrencas.

As pessoas que tinham recebido o encanto necromântico da baracai –o qual o alquimista admitiu que ele é quem tinha ensinado a ela – passaram a se encontrar semanalmente, para compartilhar suas experiências e superarem juntos o trauma pelo qual haviam passado. Depois de algum tempo, a maioria foi capaz de deixar a experiência para trás e viver vidas produtivas. Infelizmente, não foi possível evitar que alguns deles enveredassem por caminhos destrutivos, como alcoolismo, uso de entorpecentes ou até mesmo suicídio.

O ex-tenente Nielsen Ivar havia procurado Cariele e Daimar. O homem não parecia estar atrás de perdão, mas sim de punição, chegando a desafiar Daimar abertamente a um acerto de contas. Cariele acabara perdendo a paciência e nocauteando o homem ela mesma. Depois que as coisas esfriaram um pouco, Daimar havia deixado claro para Nielsen que não gostava dele e que não queria vê-lo nunca mais em sua frente, mas que nunca o havia culpado pelo que tinha feito quando estava sob o controle da baracai. A última notícia que tiveram é que o ex-tenente havia se mudado para a província gelada da Sidéria. O que talvez fosse uma boa ideia, pois, na opinião de Daimar, o homem precisava mesmo esfriar um pouco a cabeça.

Edizar Olger estava escrevendo um livro, narrando toda a heroica luta de Delinger e culminando com a derrota da última baracai e o resgate de Brinia. Ele também incluiu um compilado de todas as lendas dos baracais que foi capaz de arrancar de Dafir Munim. Sua obra prometia ser um grande sucesso.

Alvor Sigournei e Loren Giorane voltaram para a Província Central para integrar um novo, importante e sigiloso pelotão. Cariele e Daimar não ouviram falar deles por muito tempo, exceto por curtas mensagens que o aspirante ocasionalmente mandava, geralmente de felicitações pela passagem de alguma data ou pela ocorrência de algum evento importante.

Já o alquimista Dafir Munim, infelizmente, nunca mais voltou ao normal. Ele não causava problemas, mas parecia ter perdido a sanidade depois de tudo o que a baracai havia feito com ele. Volta e meia insistia no fato de Sana estar presa em alguma masmorra e reclamava que ninguém o deixava vê-la, mas esses rompantes logo passavam e ele voltava a ser nada além de um velho calmo e introspectivo, que passava a maior parte do tempo lendo seus preciosos livros de física. Ele perdeu completamente o interesse em seu próprio trabalho e Daimar acabou levando-o para morar com eles, a fim de ficar de olho em seu pai natural.

Cariele decidiu deixar de lado a ideia de encontrar uma cura para sua doença e se dedicou a levantar informações sobre gravidez e parto. Afinal, muito mais vidas poderiam ser salvas se encontrassem formas de evitar as terríveis complicações que se abatiam a uma porcentagem assustadora de mulheres. No entanto, sendo uma pessoa de ação, ela não suportava ficar fechada dentro de um laboratório por períodos muito prolongados, então, dividir seu tempo entre a pesquisa e seu novo trabalho como instrutora militar acabou sendo um arranjo mais do que perfeito para ela.

Daimar, por sua vez, começou a se interessar por algo que nunca imaginou que tivesse a menor aptidão: a política. Usando sua influência, ele fez com que vários problemas estruturais da cidade fossem resolvidos, o que fez com que ganhasse ainda mais popularidade entre os cidadãos. Assim, quando o antigo prefeito precisou sair do cargo por motivos de saúde, os cidadãos o aclamaram como o novo governante de Lassam.

Não foi nada fácil conciliarem seu trabalho com sua vida familiar e tinham que fazer verdadeiras “acrobacias” para conseguirem cuidar de Brinia e passar um tempo diário juntos. Mas, como os dois eram bons em resolver problemas, aquilo acabou sendo apenas mais um desafio, que ambos encararam de bom grado.

O casamento de Cariele Asmund e Daimar Gretel foi o acontecimento do ano em Lassam. Mas, para o casal, apesar de ter sido um momento inesquecível, aquilo foi apenas o início de uma grande aventura.

— Fim —
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