Valena – Capítulo 22

Publicado em 23/12/2018
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22. Unhas e Dentes

Depois da surra que tomara de Sandora e do que quer que fosse que a bruxa tenha feito para curar o ferimento em seu peito, Valena acabou levando várias semanas para se recuperar.

No primeiro dia que conseguira pôr os pés para fora da cama e saíra do quarto, ela deu de cara com um esqueleto humano perambulando pelo ambiente, usando uma velha armadura vermelha caindo aos pedaços. A criatura virou o rosto esquelético para ela e, por um momento, Valena achou que iria dar o maior vexame, gritando a plenos pulmões ou, pior, desmaiando ali mesmo onde estava. Ou talvez as duas coisas. Aquilo, com certeza não cairia bem para a herdeira do trono.

Ao ver Sandora sentada ao redor de uma mesa rústica, calmamente levantando os olhos do livro que estava lendo, tratou de fechar os olhos por um momento e respirar fundo, tentando se controlar.

– Esse é Gram – disse a bruxa, fazendo um gesto de cabeça na direção do esqueleto, como se aquilo explicasse tudo.

Então, para surpresa de Valena, a criatura fez uma leve cortesia e se afastou, saindo da cabana e desaparecendo lá fora. Sentindo um certo alívio por aquela figura assustadora não estar mais ali, Valena voltou a encarar Sandora.

– E o que, exatamente, é ele?

– A vítima de uma maldição.

Valena considerou aquilo por um momento, antes de arregalar os olhos.

– Uma maldição que não tenha sido lançada por você, espero.

– Encontrei ele nessas condições, preso no interior de uma velha pirâmide. Libertei ele de lá e venho tentando descobrir como fazê-lo voltar ao normal desde então.

Valena não conseguiu segurar um suspiro de alívio. Pensando friamente, a bruxa podia estar mentindo, mas por alguma razão, não acreditava que fosse o caso.

Então, Sandora puxou um tecido grosseiro de sobre a mesa, revelando um prato com carne assada e uma caneca fumegante contendo algum tipo de chá.

Com a fome, subitamente, suplantando completamente suas preocupações, Valena se sentou e começou a comer. Tinha alimento ali suficiente para toda uma família, mas faziam dias que ela não tinha uma refeição decente, e ficou grata pela fartura. No momento, sentia-se capaz de dar conta de tudo aquilo e ainda repetir.

– Coma devagar – recomendou Sandora, com um tom de reprovação na voz. – A gula pode matar, como deve saber.

Valena engoliu um bocado e tomou um longo gole do chá. Tinha um sabor exótico, um pouco amargo, mas no momento lhe parecia a coisa mais deliciosa do mundo. Ela suspirou.

– Isso aqui é bom – disse, antes de voltar a atacar a carne tenra com vontade, sem se importar muito com a etiqueta.

Ignorando-a, a bruxa voltou a abaixar a cabeça e se concentrou no grande livro de capa vermelha que estava aberto à sua frente.

Valena continuou a comer até que concluiu que sua fome não era nem de longe tão grande quanto imaginara a princípio. O prato ainda não estava nem pela metade quando percebeu que não conseguiria comer nem mais um pedaço. Então reclinou-se na cadeira, limpando os lábios com a manga da túnica que usava.

Azelara Caraman teria um ataque se pudesse ver sua falta de modos. De qualquer forma, normas de etiqueta não tinham nenhuma utilidade naquele lugar, mesmo, não é?

Onde quer que fosse aquele lugar.

– Você disse que estamos em Ebora – disse, tentando puxar assunto. – Mas onde, exatamente?

– Chamam essa região de “Floresta Amaldiçoada”. A cidade mais próxima é Vale Azul, a dois dias de viagem para o leste.

– Sei. – Valena não sabia. Na verdade, nunca tinha ouvido falar, nem da floresta e nem da cidade. Deu mais uma olhada no prato. – Costuma alimentar tão bem os seus prisioneiros?

– É isso que pensa que é? Minha prisioneira?

– E não sou?

Sandora levou a mão a um bolso do pesado manto escuro que usava e tirou de lá uma folha de papel enrolada, que jogou em cima da mesa, ao lado do prato de Valena.

Curiosa, ela pegou o papel e o desenrolou devagar. E arregalou os olhos novamente, dessa vez, perplexa.

Afka quduuska ah ee wasakhda! Onde conseguiu essa soo saarid?!

Sandora a encarou por um momento, franzindo o cenho, antes de responder.

– Dizem que tem cartazes como esse em todas as grandes cidades do império desde que você desapareceu do palácio.

Valena olhou mais uma vez para o seu rosto, retratado com bastante perfeição, considerando que era feito com traços grossos, provavelmente de carvão. Abaixo dele, em grandes letras, estava escrito a palavra “procura-se”, e um pouco mais para baixo, havia seu nome e um aviso de que se tratava de uma pessoa muito perigosa e que qualquer informação sobre seu paradeiro devia ser repassada às autoridades imediatamente.

– Estão fazendo parecer que sou algum tipo de criminosa!

– E não é?

– É claro que não! Eu sou a herdeira do trono! Não sabe o que é isto? – Ela apontou para a marca da Fênix em sua face.

– Estão dizendo que você é uma impostora, e que seu objetivo era se infiltrar no palácio e assassinar o imperador para assumir o lugar dele.

– Isso é uma calúnia!

– Não gosta de ser chamada de criminosa?

– É claro que não!

– Então você deve ter uma boa ideia da razão de eu não gostar de ser chamada de “bruxa”.

Valena olhou para a outra, surpresa e levemente envergonhada. Ainda não sabia direito o porquê, mas confiava nela.

– Você não vai estar em condições de viajar por algumas semanas – continuou Sandora. – A infecção no seu ferimento era grave demais para os meus poderes darem conta. Não entendo como ainda tinha forças para lutar. Por sorte haviam restado algumas das poções que peguei com os militares, mas você vai ficar fraca por bastante tempo ainda. Sair por aí nessas condições e com sua cabeça a prêmio não seria muito prudente.

– Parece que sim – admitiu Valena, suspirando. – E você está disposta a me deixar ficar por aqui? Até quando?

– Não pretendo ir a lugar algum, por muito tempo – respondeu Sandora, voltando a cobrir o prato de carne com um pano e o levando até uma prateleira improvisada em um canto.

– Certo – disse Valena, vendo a outra voltar a se acomodar na cadeira. – Escute, ontem você disse que pessoas demais morreram por sua causa. O que quis dizer com aquilo?

– Uma cidade inteira está morta por minha causa. Você sabe muito bem disso, não é essa a razão pela qual me abordou aquele dia?

Valena a estudou por um momento.

– Mas o que aconteceu, afinal? Você não parece o tipo de pessoa capaz de…

– E o que aconteceu com o “você vai responder pelo que fez”? Foi isso o que me disse antes, não foi?

Valena soltou um riso nervoso.

– Acho que não estou em condições de obrigar ninguém a nada no momento.

– Eu fui concebida em uma experiência de um velho maluco, cujo objetivo era abrir um portal para o inferno.

Aquela bruxa realmente tinha o dom de deixar os outros perplexos. Valena a encarou, incrédula. Tinha dito aquilo num tom calmo e comedido, como se não se desse conta do quanto aquilo soava absurdo.

– Antes mesmo de eu nascer – Sandora continuou, olhando para algum ponto distante na direção da porta –, ele concluiu que a experiência tinha sido um fracasso e abandonou minha mãe para morrer. Mas, feliz ou infelizmente, eu sobrevivi. – Enquanto falava, a bruxa ia ficando cada vez mais soturna. – Quando ele me encontrou novamente, agora já crescida, decidiu tentar tirar o máximo de proveito possível dos meus poderes, os mesmos que ele julgava inúteis. Então me incentivou a explorar minha afinidade, por fim descobrindo essa habilidade latente de criar brechas no espaço. Por fim, me iludiu a ativar essa habilidade na intensidade máxima, o que criou uma esfera de energia negra que engolfou toda a cidade de Aldera.

Ao terminar aquele breve relato, a respiração dela estava acelerada e os punhos cerrados. Valena viu um leve tremor em sua pálpebra esquerda, como se fosse um tique nervoso. Se a bruxa estava mentindo para conseguir sua simpatia, estava fazendo um ótimo trabalho.

Cobrindo a mão da outra com a sua, Valena disse, com suavidade:

– Isso deve ter sido… difícil.

Sandora voltou a encará-la.

– Venho tentando aprender sobre meus poderes desde então, para tentar entender o que houve e descobrir se há alguma forma de salvar aquelas pessoas.

– Entendo.

Sandora puxou a mão, rompendo o contato.

– Pronto, agora você já sabe o que aconteceu. Me matar ou me mandar para a masmorra não vai trazer a cidade de volta. – Ela fez uma pausa e sacudiu a cabeça, parecendo inconformada. – Não sei porque estou falando tanto, esse assunto nem é de sua conta.

– Ei, pode confiar em mim, está bem? Posso ser cabeça dura às vezes, mas eu ainda sou a sucessora do trono imperial, escolhida a dedo pela Grande Fênix. Tudo o que eu quero é ajudar.

As palavras de Valena surpreenderam até mesmo a ela própria. Não costumava fazer amizades tão rápido assim. Mas, no momento, a outra lhe parecia solitária e carente, o que fazia ter vontade de se aproximar e garantir que tudo ficaria bem.

O favor divino tinha colocado essa mulher em seu caminho por uma razão, não é? O Eterno às vezes trabalhava de formas misteriosas. Talvez sua ajuda fosse necessária para a bruxa conseguir atingir seu objetivo e restaurar a cidade.

♦ ♦ ♦

Do alto da colina onde estavam, era possível ver a movimentação dos dois exércitos. As tropas imperiais entravam em formação, se preparando para enfrentar a força combinada das demais nações, no que provavelmente seria a maior batalha da história, envolvendo centenas de milhares de soldados. Não era possível ver todo o exército inimigo devido à distância, mas Valena sabia que era tão grande e formidável quanto o seu próprio.

– Então você realmente acha que os habitantes de Aldera ainda estão vivos? – Ela perguntou, falando a primeira coisa que lhe veio à mente, numa tentativa de amenizar a apreensão pela situação em que se encontravam.

– Aquele buraco é uma disfunção temporal – respondeu Sandora, esquadrinhando o horizonte.

Valena ponderou que o desastre de Aldera ficava insignificante, se comparado à quantidade de pessoas que poderiam morrer hoje.

– A cidade foi removida da nossa linha temporal – Sandora continuou. – Tudo o que precisamos fazer é encontrar uma forma de realinhar o fluxo e poderemos reverter o processo.

– Mas as pessoas estão desaparecidas há mais de um ano. Dependendo de onde tiverem ido parar, podem não ter sobrevivido.

Sandora sacudiu a cabeça.

– Você não está entendendo. A cidade foi removida do fluxo do tempo. Para nós, os habitantes estão inertes, imobilizados, sua força vital congelada. Quando os trouxermos de volta, será como se nada tivesse acontecido para eles.

– Como pode ter tanta certeza disso?

– Eu vi acontecer. Quando Jester ativou a esfera negra, eu percebi os efeitos. Eu fiquei horas lá dentro, até conseguir reverter o fluxo de energia, mas no momento em que a esfera se dissipou, Falco me disse que tinham se passado apenas alguns minutos. Além disso, eu reconheci a frequência do fluxo, estudei bastante sobre isso. Tudo se encaixa.

– Se existem livros sobre o assunto, por que nenhum dos sábios se deu conta de nada disso até agora?

– Porque nunca houve uma emanação dessas em tão larga escala. Um efeito como aquele seria impossível de causar apenas com a intensidade energética de uma pessoa. Ou de qualquer ser vivo.

– Se fosse impossível, não teria acontecido.

– Sim, mas o meu fluxo não é igual ao de uma pessoa comum.

– Alteza – chamou o general Camiro, se aproximando. – As tropas hostis começaram a se mover. É hora.

Valena suspirou.

– Certo. Vamos colocar o plano de Sandora em ação e tentar salvar meio milhão de vidas.

♦ ♦ ♦

Erineu Nevana recobrou a consciência, mas seu corpo estava pesado demais. Até o esforço necessário para abrir os olhos lhe parecia sobre-humano no momento e ele apenas ficou ali, imóvel e amaldiçoando o próprio destino.

Aparentemente, suas preces não foram atendidas e ele continuava vivo, para servir de cobaia para os experimentos de Dantena. Não tinha dúvidas de que a tortura recomeçaria assim que aquele desequilibrado se desse conta de que estava acordado.

Sentiu alguém lhe colocando algo na testa. Um pano úmido? Estavam… cuidando dele?

– Bom dia, capitão – sussurrou uma voz feminina. Uma que Erineu não reconhecia. – Está com aspecto bem melhor hoje.

– Olá, enfermeira – disse uma outra voz, masculina e, essa sim, muito familiar. – Como está nosso paciente?

– As leituras estão muito boas. É quase como se ele estivesse acordado.

– É mesmo?

O que está acontecendo? – Erineu pensou, forçando os olhos a se abrirem. A luz era ofuscante e ele precisou piscar diversas vezes até as imagens começarem a tomar forma.

– Capitão! – Exclamou o professor Maicar Isidro, entrando na sua linha de visão. A imagem ainda era um borrão indistinto, mas a voz era definitivamente a dele. – Como se sente?

– Isi… dro… – Erineu tentou falar, mas tudo o que conseguiu foi um sussurro quase ininteligível.

Alguma coisa foi colocada em sua boca. A enfermeira estava lhe ajudando a beber algum tipo de chá. O líquido desceu por sua garganta enviando tremores por todo seu corpo.

– Bem-vindo de volta, capitão! – Isidro exclamou, alegremente. – É tão bom vê-lo novamente! Ficamos muito preocupados desde que o senhor e os outros desapareceram durante a ocorrência em Aldera. Deve estar se perguntando onde estamos, não? Aqui é o palácio imperial. A imperatriz invadiu os domínios de Dantena e resgatou o senhor e mais uma dúzia de prisioneiros. Estamos felizes de ver que o senhor está se recuperando.

A letargia começava a abandonar o corpo de Erineu aos poucos. Seus olhos finalmente conseguiram focalizar no rosto angular do professor e em seus grandes óculos.

– Quanto tempo eu dormi? – Sua voz agora saiu bem mais firme e compreensível.

– Está aqui há três dias, mas já estava inconsciente quando foi resgatado, então não temos certeza.

– Dantena está morto?

– Infelizmente, ainda não. Mas a imperatriz está cuidando do assunto, pode ficar tranquilo.

Erineu Nevana sabia que estava com a aparência de um homem velho, entrando na casa dos 70. Raios, devia parecer o homem mais velho da história, já que existiam poucos registros de pessoas que conseguiram chegar a essa idade no império.

Com alguma dificuldade, ele conseguiu levantar uma das mãos e passa-la por seus longos cabelos loiros. Estavam limpos e macios, o que indicava que deviam ter-lhe dado um banho enquanto dormia.

Seus olhos, de um azul claro que, segundo uma de suas falecidas esposas, lembrava a superfície dos lagos congelados da Sidéria, percorreram o ambiente ao redor.

– Onde estão os outros? Como está Jarim?

– Estão todos bem, mas o senhor foi o primeiro a acordar. O belator Ludiana está no andar de baixo.

Erineu soltou um suspiro e alongou os músculos, a letargia quase desaparecendo por completo. O que quer que fosse aquilo que o fizeram beber, tinha um efeito bem rápido.

A enfermeira o ajudou a se sentar e colocou uma bandeja diante dele, com um prato de sopa e fatias de pão. O cheiro da comida o fez salivar.

– Temos procurado pelo senhor por toda parte há mais de um ano.

– Fui teleportado para minha cidade natal durante a confusão em Aldera – respondeu Erineu, pegando a colher e tomando um gole da sopa. Estava deliciosa. – Mas eu não me lembrava de quem eu era, e como não tenho mais nenhum parente ou amigo vivo, ninguém me reconheceu. Vivi algum tempo por lá até que Dantena apareceu, me prometendo respostas. Quando recuperei a memória, já estava preso naquela masmorra. Esses últimos meses foram um inferno. – Erineu tomou mais algumas colheradas da sopa, enquanto o professor absorvia suas palavras em silêncio. – Eu sei que Jarim passou por uma situação parecida com a minha, já que estava preso na masmorra comigo, mas e quanto ao resto da Guarda Imperial? Dantena deu a entender que Leonel está vivo.

– Ah, sim. Bom, quero dizer…

Erineu congelou, com a colher a meio caminho da boca.

– O que houve?

– Ele e Luma foram encontrados já há bastante tempo. Passaram o último ano ajudando a imperatriz. Estavam bem até uns dias atrás, quando realizaram um ritual e, bem, desde então Leonel está inconsciente.

– Que tipo de ritual?

– Algo a ver com a espada dele. Ele a deu para uma moça, uma ex-oficial, espadachim muito habilidosa, diga-se de passagem.

– Leonel passou a espada para outra pessoa?!

– Bem, sim…

– E ainda está vivo?

Isidro agora estava desconfortável.

– Bom, ele está inconsciente e seus sinais vitais não estão muito bons…

– É claro que não! O idiota sabia muito bem que isso iria acontecer se tentasse se livrar da espada! Por que, raios, ele fez isso?

– Parece que o ex conselheiro Dantena conseguiu obter controle sobre a armadura do Avatar.

– O quê?!

– Leonel tentou usar o poder da espada contra ele, mas parece que não tinha vitalidade suficiente para vencê-lo. Então decidiu passar a arma para alguém que tivesse. Ele e Luma arrancaram algumas informações de Eliar Radal e as usaram para criar um ritual de passagem que fosse… seguro. Aparentemente não tiveram muito sucesso nisso.

– É claro que não! Foram confiar logo em Radal?! Céus! – Erineu largou a colher e passou a mão pelo rosto. – Ele está morrendo, não está?

– Leonel? Bom, creio que o prognóstico não seja muito bom…

– Misericórdia! Luma deve ter sofrido um baque e tanto. Onde ela está? Preciso conversar com ela.

– Bom, quanto a isso…

Erineu arregalou os olhos, alarmado.

– Isidro, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, me diga que vocês sabem onde Luma Toniato está!!

♦ ♦ ♦

Evander estava arrasado. Seu pai estava com as horas contadas e não havia nada o que ele pudesse fazer. Nada, exceto levar adiante a última vontade dele: derrotar Dantena e acabar com aquela guerra.

Uma familiar emanação energética se aproximou dele. Uma emanação que antigamente acompanhava seu pai onde quer que fosse, mas que agora estava inexoravelmente atrelada a outra pessoa.

Lucine Durandal parou a seu lado e ele a admirou. Ela parecia formidável. Seus aliados haviam unido seus poderes para concederem a ela toda a vantagem que pudessem.

Anéis brilhantes e multicoloridos brilhavam em todos os dedos de suas mãos, cortesia de Idan. Tratavam-se de manifestações físicas de diversas flutuações de proteção e suporte.

Um par de grandes asas emplumadas brotava de suas costas. Elinora, de alguma forma, havia transferido a ela suas habilidades de voo e sua forma angelical.

E Jena havia lhe “emprestado” o orbe, que assumira o formato de elmo, armadura, luvas e botas, envolvendo todo o corpo dela, exceto pelo rosto. Até mesmo as asas eram envolvidas pela proteção, o material metálico se moldando perfeitamente ao formato das penas. O nível de proteção concedido pelo artefato era maior do que qualquer armadura já criada.

Evander arriscava dizer que, no momento, Lucine provavelmente era o ser humano mais poderoso do império.

Normalmente, o orbe não podia se afastar muito de Jena ou ficaria sem energia para funcionar, mas um dos anéis místicos de Idan abria um canal de alimentação que amenizava o problema. Algo similar ocorria com os poderes de Elinora e do próprio Idan. Lucine teria autonomia para se afastar até pouco mais de uma dezena de quilômetros dos três.

– Vamos esperar que Dantena não resolva iniciar uma brincadeira de “pega-pega aéreo” – brincou ele. – Se eu pudesse, te levaria até ele pessoalmente.

– Dessa vez não é preciso – respondeu ela, sacando a espada que havia pertencido a Leonel Nostarius e encarando a lâmina por um momento. – Apenas garanta que ninguém morra. O resto, é comigo.

Ele assentiu e olhou a movimentação ao redor. Os cavaleiros alados se acomodavam em suas selas, as águias gigantes emitindo piados excitados, prontas para a ação.

– O que eu não entendo – disse Lucine – é porque Dantena resolveu arriscar tudo num confronto direto dessa forma. Não seria mais inteligente dividir as tropas e atacar diversos alvos ao mesmo tempo? Com todo o poder que tem, poderia teleportar pessoas para onde quisesse.

– Talvez, mas eu acho que ele não quer que suas tropas dominem o império, prefere fazer isso sozinho. O general acha, e eu concordo com ele, que Dantena está usando os soldados apenas como uma distração, para que ele possa atacar pessoalmente aqueles que são realmente ameaça para ele.

– Como Valena e o governador Nostarius.

– Não. Como Valena e você.

Nesse momento, um movimento próximo chamou a atenção de ambos para o capitão Renedo ­– o líder da tropa aérea –, que já estava montado e pronto para partir, sua águia gigante esticando as asas, ansiosa para sair do chão. O capitão saudou a ambos com uma continência, à qual eles retribuíram. Então, os cavaleiros aéreos decolaram.

Vendo as águias ganharem o céu, Lucine abriu suas próprias asas, num movimento instintivo, provavelmente também herança dos poderes de Elinora. O material metálico cobriu o rosto dela, tomando a forma de um elmo fechado, enquanto ela corria até o fim da colina, saltando no precipício e planando no ar por alguns instantes, antes de se lançar para cima e seguir os cavaleiros.

Saltando atrás dela, Evander materializou sua própria montaria aérea abaixo de si e se acomodou na sela, comandando o construto místico a leva-lo até o meio da formação central de infantaria, no chão, onde estavam Sandora e os outros.

Os soldados abriram caminho para que ele pudesse pousar. Sua montaria desapareceu enquanto ele se aproximava de sua amada e lhe dava um breve beijo nos lábios.

– Já detectaram Dantena?

– Sim – respondeu o general Camiro, antes que Sandora pudesse responder. – Parece que ele conseguiu reunir sua própria tropa aérea, entre cavaleiros imperiais renegados e outros que possuem poder próprio de voo ou controle sobre criaturas aladas gigantes.

– Nossos cavaleiros vão precisar de nossa ajuda, Dragão – disse Valena, lançando um olhar para Daimar Gretel.

O governador de Mesembria assentiu e se virou para a esposa, encostando a testa na dela por um momento. Em seguida, se afastou e invocou uma coluna vertical de ejeção, que o lançou para o ar, onde seu corpo brilhou por um instante, crescendo e assumindo sua forma reptiliana gigante coberta de escamas azuladas. Então, batendo suas enormes asas, tomou a direção da frente de combate.

Valena se aproximou de Sandora e perguntou, em tom baixo:

– Você ainda não me devolveu o anel.

Evander olhou de uma para a outra, curioso, mas não disse nada.

– Eu vou ficar com ele ­– respondeu Sandora.

– Mas eu posso precisar…

Sandora olhou ao redor e baixou o tom de voz, para que os outros não pudessem ouvir.

– Você não pode mais usar aquele poder. É o que matou todos os outros imperadores. Já abusou demais dele, mais uma tentativa pode ser fatal!

Ah, aquele anel, pensou Evander, lembrando-se do artefato capaz de transportar o portador instantaneamente de volta ao palácio. A simples posse do artefato era uma medida de segurança que ajudava a diminuir as restrições de uso do favor divino.

– Vamos enfrentar alguém com poderes divinos, será que não entende? – Valena insistiu.

– O poder pode ser divino, mas o portador não é. O plano vai funcionar.

– E se algo der errado?

– Lidaremos com isso. Mas e se Radal estiver certo? E se a Fênix realmente tiver sido destruída? Se for esse o caso, ninguém mais vai herdar a marca. Se você morrer, quem é que vai governar?

– Não venha com essa, as pessoas vão entender…

– Acho que ela tem razão, Valena – disse Evander, com cuidado, sabendo que a imperatriz estava tendo dificuldade em lidar com a possibilidade de a Grande Fênix realmente estar morta. – Alguns podem até aceitar bem o fato de não estarmos mais sendo protegidos pela entidade, mas a maioria, não. Isso levaria a discórdia e a rebeliões. Pessoas morreriam.

– Pessoas se adaptam!

– Não tão rápido – cortou Sandora. – Se você sobreviver, as pessoas poderão ir se acostumando com o tempo, mas não se você perecer aqui. Podemos protege-la de ataques normais, mas não dos efeitos de algo tão forte quando esse favor divino. – Sandora fez uma pausa e respirou fundo, provavelmente concluindo que não conseguiria convencer a outra apenas com a lógica. – Por favor, Valena!

A imperatriz soltou um longo suspiro.

– Que seja – disse, irritada, se afastando, antes de olhar para o casal por sobre o ombro. – Mas, pelo menos, façam esse negócio direito. Estamos contando com vocês dois. – Ela então se virou para Cariele, Gram e Falco, que estavam parados ao lado da capitã Imelde e sua equipe. – E vocês, tentem manter esses cabeças duras seguros.

Idan, Jena e Elinora estavam por ali também, apesar de que não poderiam ajudar muito, uma vez que precisavam se manter concentrados em Lucine. Aquilo, é claro, não impedia a protetora de lançar olhares glaciais para Valdimor. E nem ele, de retribuí-los com sorrisos irônicos.

Evander notou que Valena e Valdimor se encararam por um instante, ambos tensos. Aquilo não era um bom sinal.

Por fim, ela deu-lhe as costas e se virou para o general e deu a ordem para avançar, enquanto assumia a forma da Fênix e ganhava os ares.

Os soldados que não permaneceriam ali com ele e Sandora começaram a marchar.

Cariele se aproximou e, sem dizer nada, entregou um embrulho para Sandora. Ela o pegou, desamarrando a fita que o prendia e desenrolando o tecido que protegia o misterioso artefato em forma de machado. Segurando a peça com as mãos levemente trêmulas, ela se aproximou dele. Evander colocou as mãos sobre as dela e ambos se concentraram, ativando o gatilho mental que haviam praticado inúmeras vezes no dia anterior.

Os outros assumiram uma formação quase circular ao redor dos dois, dando-lhes as costas, atentos a qualquer possível ameaça iminente.

O machado brilhou e tremeu por um instante, antes de emitir uma aura energética escura e semitransparente que foi crescendo, devagar a princípio, depois cada vez mais rápido, atingindo as pessoas e agitando suas roupas como uma leve brisa. Evander podia sentir a bolha de energia como se fosse uma extensão de si próprio. Sentiu quando Lucine e os cavaleiros aéreos foram envolvidos e, logo depois, quando a aura atingiu os soldados inimigos, envolvendo e afetando a todos, apesar dos esforços de alguns para tentar expurgar o encanto. Depois de cerca de alguns minutos, o poder do artefato já tinha se expandido por toda a planície, num diâmetro de dezenas de quilômetros.

O campo de batalha estava pronto.

♦ ♦ ♦

Foi uma batalha difícil. Ambos os lados estavam bastante equilibrados, apesar de o império estava com uma leve desvantagem numérica. Apesar de a população combinada das Rochosas, Lemoran e Halias ser consideravelmente menor que a das províncias imperiais, Dantena não se preocupava nem um pouco em manter soldados para proteger as cidades, como Valena o fazia. O império contava com, praticamente, metade de seu contingente total, enquanto Dantena atacava com todo o poder que tinha.

Se o campo de proteção de Evander e Sandora não funcionasse, independente do resultado final da batalha, as províncias do norte estariam arruinadas, porque praticamente toda a sua população capaz de se defender estava ali e acabaria morrendo.

Felizmente, esse não foi o caso. O campo energético de proteção, que potencializava a aura energética natural de Evander e Sandora, cobria toda a planície. Todos dentro daquele campo estariam protegidos contra ferimentos físicos. Diferente da aura normal deles, no entanto, o campo do machado não perderia o efeito quando a pessoa perdesse os sentidos.

As tropas aéreas entraram em combate primeiro. Depois de mais de meia hora de luta, boa parte dos oponentes de ambos os lados já estavam fora de combate, mas Valena não tinha visto ainda nenhum sinal de Dantena.

Lá em baixo, as tropas terrestres se engalfinhavam em diversas frentes diferentes. O amplo terreno com relevo variado apresentava muitas possibilidades estratégicas que ambos os lados buscavam aproveitar.

Por fim, o Avatar apareceu. Ou, pelo menos, o que as tropas do norte pensavam ser o Avatar. O corpo frágil e fora de forma de Dantena podia ser visto pelas aberturas da enorme armadura dourada, o que formava um quadro patético. Mas os poderes dele eram uma ameaça real.

Valena não saberia descrever com palavras como aquela batalha procedeu. Ela não sabia nem mesmo dizer se tinha entendido direito metade do que aconteceu.

A única coisa que se lembrava com clareza era de sua própria postura durante o combate. Até pouco mais de um ano atrás, ela teria tomado a frente, atacando com todas as suas forças, chamando para si a responsabilidade de acabar com aquilo, agarrando com unhas e dentes qualquer oportunidade ofensiva que encontrasse.

Mas aquilo fora antes de Sandora. A bruxa tinha lhe provado, da forma mais impactante possível, que Valena não era invencível, que existiam poderes maiores do que o dela e que nem sempre atacar cegamente era a melhor forma de vencer uma batalha. Quando conseguira aceitar aquilo, tinha percebido que, na verdade, seus poderes não a definiam. Que sua vida era mais importante do que qualquer combate. Que ela era mais importante. E também que ela não poderia vencer todos os desafios sozinha. Que ela não precisava vencer sozinha.

No início, Dantena se dedicou apenas a usar os poderes divinos sobre as tropas no chão, não importando se eram aliadas ou inimigas. Enquanto a tropa aérea não conseguiu chamar-lhe a atenção, os soldados do chão sofreram com a fúria dos elementos numa escala jamais vista. Terremotos, inundações, tempestades elétricas, nevascas e outros desastres naturais varreram grande parte da planície.

Mas, depois de ser atingido diversas vezes, Dantena voltou sua completa atenção para os voadores, derrubando em poucos minutos a maior parte dos cavaleiros alados. Lucine Durandal era a única com agilidade e resistência suficiente para escapar de seus ataques, também era a única que conseguia ultrapassar as fortes defesas externas da armadura do Avatar. Valena e o Dragão se mantiveram afastados, lançando ataques estratégicos para tentar dar cobertura a ela.

A estratégia funcionou bem o suficiente para mantê-los no ar e inteiros por algum tempo, mas era óbvio que aquilo não duraria para sempre. Para acabar com aquilo, Lucine teria que usar o poder total da espada, mas isso exigiria um tempo de concentração, tempo esse que ela não tinha.

Valena viu o Dragão fazendo-lhe um sinal para que lhe desse cobertura. Ela então se juntou a Lucine e envolveu as duas em um cone de chamas. Imediatamente Dantena invocou uma de suas tempestades glaciais, lançando uma terrível combinação de frio e gelo na direção delas. Valena deu tudo de si para manter a barreira ativa enquanto Lucine avançava à sua frente, abrindo caminho pela tempestade até se chocar com Dantena, os dois girando pelo ar durante algum tempo até se recuperarem e voltarem a se encarar.

Então, neste momento, inúmeras cópias de Lucine surgiram por todos os lados, cercando o inimigo.

Mais tarde, Valena ficaria sabendo que aquilo tinha sido obra de Evander e Sandora, especialistas em criar construtos místicos, colocando o poder quase ilimitado daquele machado para trabalhar. O Dragão havia contatado telepaticamente a esposa, pedido apoio, e aquele havia sido o resultado.

Enquanto Dantena erradicava os construtos, a verdadeira Lucine teve tempo suficiente para se concentrar e efetuar um fulminante movimento de arrancada, de uma forma que deixaria Leonel Nostarius orgulhoso. Dantena não pôde fazer nada além de arregalar os olhos, perplexo, ao ver a espada encravada na armadura, que aos poucos foi perdendo a forma, sendo completamente engolida pela arma. Imediatamente, ele começou a cair.

Valena, o Dragão e Lucine suspiraram, aliviados. O que se mostrou ser um grande erro. O corpo de Dantena, subitamente começou a brilhar e então explodiu de forma espetacular, na maior liberação de energia que qualquer um deles jamais vira. Não que tivessem conseguido ver muito dela, uma vez que foram atingidos imediatamente, o campo de proteção protegendo seus corpos, mas incapaz de evitar que perdessem a consciência enquanto eram lançados violentamente para cima.

Valena não saberia quanto tempo ficou desacordada, mas ao voltar a abrir os olhos, seu primeiro pensamento foi um praguejamento voltado aos sábios imperiais. Por que, raios, nenhum deles conseguiu prever que uma explosão como aquela pudesse acontecer?

Ela se levantou com dificuldade e olhou ao redor. Aparentemente, a explosão tinha sido forte o suficiente para abrir uma pequena cratera no solo. Ela estivera acima de Dantena no momento da explosão, o que fez com que fosse arremessada numa direção quase vertical. A julgar pela depressão no solo onde estivera, deveria ter sofrido uma queda e tanto. O chão estava quente, fumegante até, a terra e as rochas escurecidas. Era difícil respirar, um cheiro forte e desagradável tomando conta de tudo. O Dragão estava se levantando ali perto, parecendo tão esgotado quanto ela. Tinha retornado à forma humana e usava aquele estranho traje que parecia feito de escamas azuladas.

Então sons de batalha chamaram a atenção dos dois, levando-os a sair da cratera, escalando com dificuldade as pedras escaldantes. Por sorte, o campo de proteção conjurado por Evander e Sandora conferia uma certa resistência a frio e calor, o que os permitia tocar aquele solo sem problemas. A maior dificuldade mesmo era o extremo cansaço.

Por fim, terminaram de escalar o barranco e viram que Dantena também tinha sobrevivido à explosão, e agora lutava contra o grupo da capitã Imelde.

– Vou ter que providenciar um agrado para Cariele, por ter pensado em enviar eles para cá – disse o Dragão.

Valena balançava a cabeça, sentindo-se impotente.

– O que vamos fazer? Não sei se posso enfrentar mais uma batalha.

– Os soldados parecem saber muito bem o que estão fazendo.

Daimar Gretel estava certo. Beni, Loren e Iseo tentavam manter o homem ocupado enquanto Alvor lançava flechas especiais que aos poucos iam dissipando o campo de proteção dele. Laina usava sua varinha para dissipar algumas das estranhas conjurações que o homem fazia.

Aqueles não eram os poderes do Avatar. Pareciam versões deturpadas de habilidades comuns de qualquer conjurador, mas feitas com algum tipo de energia escura.

– Ele está morto – disse o Dragão, parecendo perplexo.

– Como é? – Valena estranhou.

– Aquilo não é Dantena. É um tipo de morto-vivo. Ele não tem pulso, nem respiração. Está frio. Seu corpo não se mexe sozinho, está sendo controlado por uma força externa.

– Mas, como?

O Dragão franziu o cenho e ficou parado por alguns instantes, provavelmente em uma conferência telepática com a esposa.

– A teoria de Cariele é que ele tomou o controle de uma quantidade muito grande de fluxos energéticos para poder controlar a armadura. Quando ela deixou de existir nesta realidade, os fluxos se descontrolaram e boa parte da energia foi liberada de forma súbita, causando a explosão. O corpo dele provavelmente foi destruído no processo. Mas a violência da explosão também produziu o que chamam de “energia negativa”. Essa força necromântica reconstruiu o corpo dele, gerando um morto-vivo. E esse corpo ainda está com a energia que não foi gasta.

Naxariis! E o que ela tem a dizer em relação ao fato de não ter previsto nada disso?!

– Dê um desconto, alteza. Se tivéssemos respostas para todas as perguntas, o império não precisaria investir tanto ouro em pesquisas, não acha?

Em certo momento, o morto-vivo conseguiu atingir seus oponentes com uma onda de choque, derrubando-os, e conjurou uma enorme nuvem negra vibrante de uma eletricidade púrpura, lançando-a na direção deles. Um movimento à distância chamou a atenção de Valena e ela viu Lucine. Ela estava sem as asas, anéis e a armadura metálica, mas ainda tinha a espada, que usava para cortar o ar, num movimento muito similar ao que Valena vira Leonel Nostarius fazendo antes.

A nuvem negra dissipou-se completamente sem provocar qualquer dano, dando a Alvor a oportunidade de se recuperar e disparar mais duas flechas, que finalmente romperam a barreira que envolvia o corpo de Dantena. Iseo imediatamente bateu seu martelo no chão, fazendo com que inúmeros cipós brotassem do solo e envolvessem o morto-vivo, imobilizando-o. Laina então pode se aproximar dele usar sua varinha para conjurar uma onda de energia positiva, que caiu como uma chuva multicolorida sobre o local. O corpo desmorto foi enrijecendo cada vez mais até se transformar em uma espécie de estátua. Depois de alguns segundos, ele se desintegrou, transformando-se em um monte de cinzas no chão.

Os cinco soldados levantaram as mãos e vibraram, soltando gritos de alegria, antes de começarem a se abraçar alegremente. Loren tentou dar um abraço em Lucine, mas mudou de ideia quando viu a espada dela apontada ameaçadoramente em sua direção. Então ela se limitou a agradecer pela ajuda.

Valena soltou um suspiro, seus lábios se curvando em um sorriso enquanto se voltava para o Dragão, mas ficou séria ao notar a expressão dele.

– Ainda não acabou – ele disse, sombrio.

♦ ♦ ♦

Dantena havia causado um desequilíbrio grande na batalha, nocauteando uma enorme quantidade de soldados imperiais. Devido a isso, a batalha acabou chegando até Sandora.

Ela fazia o possível para manter a concentração, junto com Evander, enquanto seus amigos lutavam para repelir as forças inimigas, quando ouviram o barulho da explosão à distância. Quase que imediatamente, Idan e Elinora recuperaram seus poderes e o orbe de Jena reapareceu ao lado dela. A conclusão lógica era que algo deveria ter acontecido com Lucine, mas eles não tiveram tempo para se preocupar com isso.

As forças inimigas eram muito numerosas e nem mesmo o incomensurável poder de Falco com aquela falcione estava sendo suficiente para equilibrar a batalha.

E foi então que a criatura apareceu, voando na direção deles. Tinha forma humanoide e era envolvida por uma aura energética dourada tão intensa que tornava difícil distinguir seu formato. Apenas o grande número de protuberâncias em forma de chifres em grande parte de seu corpo era claramente visível.

Sandora a reconheceu imediatamente pela descrição que Valena lhe fizera: era o ser misterioso que havia assassinado o imperador Caraman.

A criatura sobrevoou o campo de batalha e logo ficou óbvio que tinha um campo invisível de pavor ao redor de si. Quando as pessoas se encontravam dentro desse campo, começavam a tremer e convulsionar violentamente, até perder os sentidos.

Falco tentou lutar contra ela, mas a criatura fez um gesto e a espada simplesmente escapou de suas mãos e flutuou até ela. O artefato desapareceu depois de alguns segundos, como se ela o tivesse absorvido. Destino similar se abateu ao orbe de Jena, e depois aos dois braços cristalizados de Idan.

Antes que o pavor a atingisse, Sandora comandou mentalmente o machado a se teleportar dali.

Logo todos estavam caídos, exceto Gram, que saltou na direção da criatura tentando ataca-la, mas foi recebida por uma violenta onda de choque que acabou por dilacerar seu corpo mumificado, lançando para longe seus pedaços.

Sandora, Evander e Cariele não conseguiam fazer nada além de tremer incontrolavelmente enquanto a figura se aproximava deles.

— Fim do capítulo 22 —
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