Lassam – Capítulo 3: Laços

Publicado em 18/02/2017
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3. Laços

Já estava quase amanhecendo quando uma batida na porta do quarto fez com que Daimar se sobressaltasse.

– Entre – disse ele, massageando os olhos cansados enquanto deixava de lado o livro que estava lendo.

Delinger Gretel abriu a pesada porta de madeira e passou os olhos pela cama desarrumada e por livros e maços de papel espalhados pelo chão, antes de lançar um olhar crítico ao filho.

Daimar estava sentado à escrivaninha, em que também havia livros e papéis espalhados por todo lado, e fechava com cuidado um volume de História Contemporânea bastante gasto. O rapaz apresentava olheiras fundas e uma postura um tanto encurvada, o que denunciava um nível preocupante de cansaço.

– Você passou a noite acordado.

– Eu estava lendo. Acho que acabei me empolgando e esqueci de ir dormir.

– Já pedi para não tentar me ludibriar. Algo o está incomodando. O que é?

Tentar mentir para o pai sempre fora um esforço inútil. Daimar se espreguiçou, alongando os músculos doloridos. A última coisa que queria naquele momento era incomodar o pai por causa de um problema idiota como aquele.

– Não se preocupe, pai, não é nada.

– Você não costuma ter crise de insônia por causa de “nada”. O que aconteceu?

– É sério, não é nada que o senhor precise se preocupar. – Cansado, Daimar soltou um bocejo. – E com o senhor insistindo, isso fica cada vez mais embaraçoso.

Delinger apoiou o ombro no batente da porta.

– Fale logo de uma vez, que eu paro de insistir.

– Sim, senhor – respondeu Daimar, desanimado, e inspirou fundo enquanto tentava encontrar uma forma de contar o ocorrido que não o matasse de vergonha. – Conheci uma garota ontem.

– Você já saiu com várias garotas.

– Essa é diferente, não sei bem por quê.

– Como assim?

– Bom, não consigo me livrar do… cheiro dela. Parece que impregnou em mim de tal forma que nem tomar banho ou trocar de roupa resolve.

– Entendo.

– Parece que eu… – Daimar interrompeu o que estava dizendo e arregalou os olhos. – Hã? Como é que é? O senhor entende?

– Sim, entendo. Sentidos aguçados são uma herança da nossa família. Esse tipo de coisa é bastante comum entre os adultos. Na verdade, eu estava esperando que acontecesse com você já há algum tempo.

– Sério? Eu pensei que estava começando a enlouquecer.

– Não há nada de errado com você. Mas essa experiência intensa é um sinal de que seus sentidos começaram a se expandir, e que provavelmente continuarão se desenvolvendo. Você vai precisar se adaptar.

– Mas eu saí de perto dela há tantas horas e mesmo assim continuo sentindo o perfume como se ela estivesse do meu lado. Como me adaptar a isso?

– Seus sentidos estão apenas comunicando algo a você. Até que você entenda e faça algo a respeito, isso provavelmente não irá parar. Ou pode parar agora e voltar de novo amanhã ou depois.

– O senhor não está me ajudando.

– Por que não faz algo em relação a essa moça?

Daimar riu.

– Não sei se ela é o tipo de namorada que o senhor aprovaria.

– Você já atingiu a maioridade. Não precisa de minha aprovação para mais nada.

– Sim, eu sei, mas… – Daimar hesitou e encarou o pai por um momento, com olhar especulativo. – Me diga uma coisa… como conheceu a mamãe?

Delinger adentrou o quarto e sentou-se na beirada da cama desarrumada, antes de apoiar os cotovelos nos joelhos.

– Eu e sua mãe tínhamos ideais em comum. Ambos abandonamos nossas famílias e nos mudamos para esta cidade por causa deles. Creio que quase todo o nosso relacionamento teve como base a ajuda mútua. Não foi, exatamente, uma história romântica ou empolgante.

– Você também teve problemas com ela? Tipo o cheiro, quero dizer.

– Eu passei a sentir o aroma dela constantemente desde que começamos a nos envolver, e isso nunca parou, até hoje.

Daimar arregalou os olhos de novo. Seu pai encarou esse tormento por vinte e oito anos? E olha que já faziam quinze desde o falecimento de Norel Laine Gretel.

– Mas devo dizer que isso, em si, nunca me tirou o sono – continuou Delinger. – O que mais me causou problemas no relacionamento com Norel foi minha própria ansiedade. A vontade de fazer tudo o que a agradasse, a compulsão de querer acertar em tudo sempre, e a enorme frustração de quando algo saía errado. Sua mãe era uma mulher maravilhosa, mas se tem algo que eu posso te dizer com certeza é que são necessárias duas pessoas para forjar um relacionamento. É necessário comprometimento, esforço e aceitação de ambas as partes. Depois que eu aprendi isso, as coisas ficaram muito mais simples para mim.

– O senhor está me dizendo que… se eu chamar a garota para sair, isso vai melhorar?

– Não. Estou dizendo que você tem que perguntar a si mesmo o que há de errado. Descubra o que realmente o está incomodando e faça algo a respeito.

– Eu não entendo. O que há de errado com a nossa família? Eu não preciso de nada disso… já tenho problemas suficientes! Por que isso tinha que acontecer logo agora? Foi a primeira vez que encontrei a moça e ela nem gosta de mim! O que eu vou fazer?

– Você precisa descansar. – Delinger se levantou e tirou um pequeno recipiente cilíndrico do bolso, aproximando-o do rosto de Daimar, antes de abrir a tampa. – Aqui, aspire uma vez.

Sem entender direito, Daimar obedeceu e sentiu uma sensação refrescante se espalhar pelo interior de seu corpo, como se tivesse inspirado uma lufada de ar gelado. Sua cabeça de repente ficou leve e seus membros, extremamente pesados. A última coisa que teve consciência foi de seu pai o ajudando a deitar-se na cama, segundos antes de cair em um profundo e abençoado sono.

♦ ♦ ♦

Homens e mulheres vestidos em macacões verdes andavam de um lado para o outro, entrando e saindo das salas de ambos os lados do corredor, enquanto carregavam roupas, poções e cristais especiais. O cheiro característico de hospital invadiu as narinas de Cariele, causando uma sensação de náusea. Ela sabia que o odor era proveniente de ervas especiais que purificavam o ambiente, impedindo que energias com efeitos negativos pudessem atingir os doentes, o que era essencial para a cura de moléstias mais graves. No entanto, saber do que se tratava o cheiro era muito diferente de conseguir tolerá-lo.

Ela tentou apressar o passo, para chegar mais depressa a seu destino, mas foi obrigada a se espremer contra a parede de pedra para poder dar espaço a dois enfermeiros de expressão entediada que carregavam uma cama. Depois que eles passaram, ela moveu-se o mais rápido que pôde e virou à esquerda, entrando por uma porta que, graças aos céus, estava aberta. Ignorando completamente as pessoas que estavam ali, ela correu até a janela e pôs a cabeça para fora, respirando fundo e fazendo uma prece para que o mal-estar diminuísse.

Estava quase se sentindo humana de novo quando sentiu uma mão em seu ombro.

– Tudo bem com você?

– Sim, sim, tudo bem – disse ela, encarando o velho homem de barba e cabelos brancos que usava um uniforme verde com colarinho e mangas pretas. Tratava-se de um dos melhores profissionais de saúde que ela já tinha conhecido. – Eu só tenho um problema com o cheiro das ervas. Mas já estou me acostumando, não precisa se preocupar.

– Isso não é normal, eu já disse isso a você. Por que não deixa que um de meus ajudantes a examinem?

– Não há necessidade, estou bem.

– Bom, é melhor você se cuidar. Não queremos seu pai preocupado com a sua saúde, queremos?

Cariele virou-se na direção da cama, onde uma moça não muito mais velha do que ela, usando o uniforme de enfermeira, manuseava uma varinha com ponta brilhante, como se escrevesse no ar. Um tipo de pó fosforescente se desprendia do objeto e caía por sobre o corpo do homem idoso que parecia dormir tranquilamente.

Depois de alguns momentos, o homem soltou uma tosse fraca, indicando que estava recobrando os sentidos. O curandeiro e a enfermeira o ajudaram a se sentar, apoiado nos travesseiros, enquanto o homem abria os olhos e olhava ao redor.

Cariele se aproximou e o pai a reconheceu, encarando-a com aqueles olhos tão azuis quanto os dela.

– Pai.

– Cariele!

– Aqui, senhor Baldier, tome isso – disse a enfermeira, levando um copo aos lábios dele.

– Obrigado – agradeceu Baldier Asmund, depois de ingerir o líquido. Ele então cumprimentou a enfermeira e o curandeiro com um gesto de cabeça, antes de se voltar para a filha. – Você demorou um pouco mais dessa vez. Como estão indo os estudos?

O curandeiro dispensou a enfermeira e pegou uma pena para fazer uma anotação em um livro sobre uma mesinha lateral.

– Tudo sob controle – respondeu Cariele.

– Tem reservado um tempo para se divertir?

Ela sorriu.

– Sim, pai. Estou tendo uma estadia muito agradável na academia.

– Lembre-se do que eu disse, mocinha – disse o curandeiro, voltando-se para ela. – Quando foi a última vez que você fez um exame completo?

– Pelo que me lembre, foi há uns dois anos – respondeu ela, evitando encarar o homem.

– Senhor Baldier, eu recomendo que converse com sua filha em relação à necessidade de cuidar da saúde dela. Não é saudável ignorar os avisos que nosso corpo nos dá.

– Farei isso, obrigado.

Assentindo, satisfeito, o curandeiro saiu do quarto, deixando pai e filha sozinhos. Cariele sentou-se na beirada da cama e tomou a mão do pai entre as suas.

– Senti sua falta.

– Eu também, filha, eu também. Mas ele tem razão, não tem? Esse seu enjoo está ficando mais forte cada vez que vem aqui. – Ao ver que a filha abaixava o olhar, com certa tristeza, ele levou uma mão ao queixo dela e a fez encará-lo. – O que foi?

– Talvez não seja nada de mais, mas voltei a sentir aquele formigamento atrás dos joelhos.

– E o que Hadara disse?

– Ainda não tive coragem de contar para ninguém.

– Cariele! Você precisa de ajuda!

– Pode não ser nada. Quando fiz o ritual, eu sabia que iria ter alguns sintomas por bastante tempo, talvez pela vida toda.

– Você não tem como saber se isso é um sintoma do ritual. Pode ser outra coisa, muito mais séria.

– Puxa, que otimista você está hoje.

– Vou pedir para Hadara te fazer uma visita.

Ela suspirou. Melhor fazer as coisas do jeito dele, para não o cansar muito.

– Está bem, pai. E como o senhor está?

Baldier estreitou os olhos, desconfiado. Não era do feitio de Cariele concordar tão fácil em ver um curandeiro. E nem tentar mudar de assunto daquele jeito.

– Estou como sempre. O ambiente do hospital minimiza os efeitos da doença e me deixa ter uma vida até confortável. De vez em quando preciso hibernar por um ou dois dias para ajudar com a medicação e por isso você me pegou dessa forma. Devia ter avisado que viria hoje, assim eu teria acordado um pouco antes e tomado um banho, pelo menos.

– Desculpe. Eu nem pensei direito, só queria passar um tempo com você.

– Aconteceu alguma coisa? Além do problema nos joelhos, quero dizer?

O que ela poderia dizer? Estou sofrendo de uma crise de paixonite aguda por um cara que acabei de conhecer?

– Não, nada de mais. Acho que é só saudade mesmo.

Foi a vez de Baldier soltar um suspiro frustrado. Mas não insistiu mais no assunto.

– Bom, de qualquer forma, fico muito feliz que tenha vindo. Agora me conte, quero saber tudo o que você aprendeu nessas últimas… o quê? Três semanas?

Baldier Asmund era um dos maiores matemáticos do império. Tinha uma verdadeira paixão por trigonometria multidimensional, e era um expert na elaboração e resolução de equações que descreviam o comportamento de flutuações energéticas. Cariele tinha herdado um pouco daquela paixão e, durante toda sua adolescência e juventude, discutira com o pai tudo o que aprendia na academia militar. Mesmo depois que ela pediu baixa do exército e se matriculou na academia de Lassam aquele hábito permanecera, mas, infelizmente, a doença do pai agora não permitia mais que ela o visitasse com frequência.

Assim, durante as duas horas seguintes, os dois discutiram sobre postulados, axiomas, vertentes teóricas confirmadas ou não e diversos outros assuntos relacionados à manipulação de energia mística e cujos efeitos podiam ser medidos e previstos através de trigonometria e álgebra. O pai pareceu satisfeito com o progresso das disciplinas do curso dela e, como sempre, mostrou-se muito orgulhoso da filha que tinha.

A despedida dos dois foi um pouco triste. De acordo com as regras do hospital para aquele tipo de situação, ela sabia que não teria permissão para vê-lo novamente dentro de um período menor do que dez dias.

– Como consegue não morrer de tédio aqui dentro?

– Trabalho. Cada vez aparecem mais enfermeiros e residentes precisando de aulas de reforço. Às vezes chego a ministrar cinco aulas por dia.

– Fico contente que a próxima geração de curandeiros tenha a oportunidade de estudar com um professor tão bom.

– E eu fico contente de você estar caminhando na direção de um futuro promissor. Que a Fênix a acompanhe e proteja, minha filha.

Depois que Cariele foi embora, Baldier ficou um longo tempo olhando para o teto, pensativo.

– Parabéns, senhor Baldier, você tem uma linda filha – comentou a enfermeira, quando entrou trazendo a bandeja com o almoço.

– Ela é um prodígio em várias áreas – disse ele, sem falsa modéstia. – Eu costumava pensar que ela tinha um futuro garantido, mas, ultimamente, estou tendo dificuldade em entender o que ela está pensando.

– Jovens são assim mesmo. Mudam objetivos como mudam de roupa. Ela tem namorado?

– Não que eu saiba.

– Então prepare-se, porque quando ela arrumar um que valha a pena, aí sim as coisas vão mudar para valer.

– Assim você acaba com a minha paz de espírito.

Ela sorriu.

– É bom estar preparado. E o que ela achou da alta condicional? Aposto que vai gostar de ter o pai só para ela por quanto tempo quiser.

Ele suspirou e desviou o olhar para a janela.

– Não pude contar a ela.

– Por que não?

– Ela está com algum tipo de problema, e parece sério. Sei que ela vai ficar preocupada ao saber que minha doença já chegou a esse ponto e não quero aumentar ainda mais o fardo dela agora. Vou aguardar até um momento mais adequado.

♦ ♦ ♦

Já passava do meio-dia quando Daimar acordou, sentindo-se um pouco grogue. No entanto, depois de um banho ele já se sentia bem melhor. Saindo do quarto, ele desceu as escadas para encontrar o pai sentado na cabeceira da mesa, analisando um maço de papéis, com uma caneca fumegante à frente dele. Pelo cheiro, ele conseguiu identificar que se tratava de um chá de ervas, provavelmente feito com o conteúdo da lata azul da prateleira de cima do armário da cozinha.

Divertido, ele se deu conta de que nunca havia se interessado por chá antes, muito menos em xeretar o conteúdo daquelas latas multicoloridas, mas ele tinha certeza de que tinha chegado à conclusão correta. Identificar coisas como aquela estava se tornando relativamente comum ultimamente, mas ele nunca tinha imaginado que isso pudesse ser uma característica hereditária. Será que a expansão de sentidos, como o pai tinha chamado, iria trazer outras surpresas?

Bom, primeiro tinha que agradecer a Delinger por cuidar dele.

– Olha, não sei o que era aquele negócio que o senhor me fez respirar, mas fez efeito que é uma beleza. Estou me sentindo bem melhor, obrigado.

O pai lançou-lhe um olhar avaliativo.

– Você parece bem.

– Estou morto de fome. Acho que vou até a cozinha ver se tem algo que eu possa…

– Daimar?

– Sim?

– Sente-se um pouco. Preciso falar com você antes de sair.

Curioso, Daimar puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do pai.

– Claro, pode falar.

– Eu preciso sair numa viagem para resolver um problema.

– Até aí, não vejo nenhuma novidade, o senhor está sempre viajando.

– Tenho muitas coisas para conversar com você. Coisas que você precisa saber. Infelizmente meu tempo está acabando. Aqui, tome.

Daimar pegou o pequeno envelope de papel que o pai lhe estendeu.

– Se eu demorar a voltar, quero que vá até esse endereço. Este homem poderá explicar tudo a você. Não abra isso em hipótese alguma, apenas entregue para ele.

Olhando do envelope para o pai, Daimar estreitou os olhos.

– O que está acontecendo? Tem algo a ver com essa história de expansão de sentidos?

Delinger suspirou.

– Sim.

– Entendo. Então, as coisas não são tão simples como imaginei.

– Infelizmente, não. Eu gostaria de passar um tempo com você e esclarecer tudo, mas estou no meio de uma emergência, e tem muitas pessoas dependendo de mim. – Delinger apontou para o envelope. – Se tiver algum problema, vá conversar com ele.

– Tudo bem.

Delinger terminou de tomar seu chá e se levantou, mas pareceu lembrar-se de algo e voltou a encarar Daimar.

– Ah, tenho um recado para você. Um garoto da sua fraternidade, chamado Egil, parece estar com algum tipo de problema. Um mensageiro enviado por ele veio aqui há cerca de meia hora, solicitando sua ajuda. É para você encontrar com ele no alojamento da fraternidade assim que possível.

Desanimado, Daimar deixou a cabeça pender para trás, apoiando-a no encosto da cadeira alta, enquanto fechava os olhos.

– Droga. O que será que foi dessa vez?

♦ ♦ ♦

Sendo o último dia de uma semana comum, pouquíssimas turmas tinham algum tipo de atividade, o que explicava o fato de a academia estar praticamente deserta. Até mesmo os alojamentos apresentavam movimento bem menor, uma vez que a maioria dos estudantes saía para passar o fim de semana com a família, ou, para aqueles que tinham parceiros, um interlúdio romântico na parte mais afastada e paradisíaca do império que a mesada deles conseguisse pagar.

Claro que isso era um privilégio para poucos. A grande maioria dos estudantes não tinha condições nem mesmo para sair da cidade, o que dizer da província. Pergaminhos de transporte pelas pontes de vento tinham ficado particularmente caros, recentemente. Esse é o nosso país, pensava Daimar. Você pode ir para qualquer lugar em um piscar de olhos, desde que consiga pagar por isso.

Egil estava andando de um lado para o outro, segurando um cantil nas mãos do qual ele volta e meia tomava um gole. Vestia roupas velhas e gastas, provavelmente algum tipo de pijama, e tinha os cabelos negros desalinhados e a pele morena dele parecia estar um pouco mais pálida do que a de costume. Daimar parou na porta da sala de reuniões e ficou observando o amigo por algum tempo, franzindo o cenho, ao perceber que Egil não iria notar a presença dele tão cedo.

– O que há com você?

O outro sobressaltou-se e deu um pulo para trás, derrubando o cantil, que rapidamente formou uma poça de água no chão.

– Que susto!

Com uma careta de desgosto, Daimar se adiantou, recolhendo o cantil do chão e o entregando ao amigo, antes de entrar por uma porta lateral e voltar, instantes depois, com um balde e um pano de limpeza, que tratou de usar para secar o chão.

E, durante todo esse tempo, Egil não fez nada além de olhá-lo com uma expressão de perplexidade e confusão.

– Não tem ninguém além de você aqui?

– Não. O pessoal convidou umas garotas… e foram todos para a cachoeirinha.

A uma distância de cerca de uma hora da cidade, um córrego serpenteava por uma região acidentada formando várias cachoeiras e pequenas lagoas. “Cachoeirinha” era o nome popular da queda d’água menor, que também era a mais próxima da cidade.

Daimar terminou o trabalho de limpeza e jogou o pano dentro do balde com força, antes de encarar o amigo.

– Certo. Agora vamos falar sério. O que está havendo? O que você andou tomando?

– Eu… Eu estou bem. Quem precisa de ajuda não sou eu. – Egil apontou para o corredor que levava aos quartos. – Se puder ver…

Subitamente, Daimar sentiu um cheiro familiar, que fez com que uma espécie de carga elétrica percorresse seu corpo inteiro. Não se surpreendeu quando ouviu o brado de Cariele Asmund vindo da porta aberta, às costas dele.

– Onde está Malena? – Ela irrompeu pela sala, com passos largos e decididos.

Daimar voltou-se para ela e teve o prazer de vê-la se encolher toda, arregalar os olhos e, ao menos por um momento, esquecer de toda a irritação que parecia estar sentindo quando entrou.

Em roupas casuais, ela de alguma forma conseguia ficar ainda mais bonita que no traje de noite. A túnica simples de cor branca tinha alguns babados nas mangas curtas e na bainha pouco abaixo da cintura. A calça em um tom marrom escuro era um pouco justa e de comprimento indefinido, uma vez que o cano das botas pretas em estilo militar chegava quase à altura dos joelhos. O decote um pouco mais pronunciado da túnica e a calça apertada davam à imagem dela um toque erótico bem difícil de ser ignorado. Ainda mais com aquela cascata de cabelos loiros amarrada com uma fita vermelha na nuca, mas que logo voltava a se espalhar pelas costas dela até a cintura, sem falar daqueles olhos azuis brilhantes, tomados pela surpresa.

Era ótimo para seu ego saber que era capaz de causar aquele efeito nela, uma vez que a reação que ela provocava nele não era muito diferente. No entanto, ela não demorou mais que um piscar de olhos para se recuperar.

– Então você também está aqui. Cadê a Malena? O que fizeram com ela?

– Eu acabei de chegar, assim como você. – Daimar, virou-se para Egil, que continuava parado, com cara de bobo, e apontou com o dedão por cima do ombro na direção de Cariele. – Você chamou ela também? – Ao ver Egil assentir, Daimar balançou a cabeça desgostoso, antes de voltar a falar. – Malena é a moça que estava com você ontem, não é? Onde está ela?

Aparentemente incapaz de falar, Egil virou-se e tomou o caminho dos quartos. Daimar lançou um breve olhar a Cariele antes de ir atrás dele.

Estreitando os olhos e perguntando-se no que estava se metendo, Cariele seguiu os dois. Ela notou que Daimar Gretel estava usando um conjunto esportivo em um tom mostarda que parecia realçar ainda mais os olhos castanhos dele. Por alguma razão, o barão parecia ficar atraente não importava o que vestisse. E aqui estava ela de novo, babando pelo cara, nem cinco minutos depois de encontrá-lo pela segunda vez. Aquilo era um mau sinal.

O quarto de Egil era pequeno, mal cabia uma cama, um pequeno armário e uma arara com várias roupas penduradas. Deitada na cama, de bruços, Malena Ragenvaldi tinha o rosto voltado para a porta, exibindo uma espécie de sorriso torto.

Egil posicionou-se perto da cabeceira da cama, olhando para a namorada sem saber direito o que fazer.

– Ela… ela não acorda. Já tentei até… jogar água no rosto dela.

Daimar segurou o amigo pelo ombro.

– O que houve ontem à noite, Egil? O que vocês tomaram?

Cariele empurrou Daimar para o lado e se ajoelhou do lado da amiga, abrindo-lhe uma das pálpebras e franzindo ainda mais o cenho ao notar a pupila muito dilatada. Então ela também se virou para Egil.

– Dolaneodiproma! Vocês tomaram dolaneodiproma, não foi?

Os dois olharam para ela com expressão confusa. Aquele nome era vagamente familiar a Daimar, mas ele não conseguia lembrar onde o ouvira.

Ela suspirou, como se reunisse paciência.

Pó de estrela!

Oh, aquilo, pensou Daimar. Aquele era o nome popular de uma substância alucinógena bastante perigosa, ilegal e, infelizmente, muito popular entre os jovens.

– Sim – admitiu Egil, engolindo em seco. – Só um pouco.

Cariele olhou para ele com expressão implacável.

– Quanto álcool vocês tomaram ontem à noite?

– Não sei dizer, mas acho que… exageramos um pouco.

– Seu tapado! – Daimar fulminou o amigo com o olhar, enquanto Cariele estava ocupada sentindo o pulso da colega de quarto. – Nunca te disseram que para usar esse negócio você precisa estar sóbrio? Essa porcaria já é perigosa por si só, potencializada por álcool então, nem se fala! Que tipo de bebida vocês tomaram?

– De… de tudo um pouco… eu acho. Cerveja… vinho… hidromel… umas três ou quatro de que eu não me lembro o nome…

– Resumindo, vocês resolveram provar de tudo que tinha no bar.

Cariele largou o pulso e começou a pressionar alguns pontos do rosto de Malena com cuidado, observando-lhe o tom da pele, enquanto dizia:

– Deixa eu adivinhar. Ela usou as velhas histórias de que “só se vive uma vez” ou “estamos na idade em que temos que aproveitar as coisas” ou “quando mal se der conta, já será um velho encarquilhado” e te convenceu a “ter uma noite inesquecível” com ela, não foi?

– Bem… – Egil estava muito vermelho, constrangido demais para conseguir concluir a resposta.

– Você parece conhecer bem sua amiga – comentou Daimar, levantando a sobrancelha.

– Ela é uma idiota – disse Cariele, examinando novamente os olhos de Malena. – Sofre de pressão alta, febre insular, tem sabe-se lá quantos tipos de alergia e ainda precisa tomar tônico quase todo dia. Mas não perde uma oportunidade de fazer besteiras como essa.

Egil ficou pálido. Daimar olhou para o amigo sem saber se sentia pena dele por ter sido manipulado ou raiva por ele ter sido tão estúpido. Não, na verdade ele não tinha dúvidas: a estupidez tinha sido grande demais para esse infeliz merecer pena.

– Há quanto tempo ela está assim?

– Fomos dormir uma ou duas horas depois da meia noite, mas de manhã eu acordei e ela, não. Ela tinha essa… expressão no rosto e quase não respirava… quando já era perto do meio-dia eu tentei acordar ela e não consegui, então pedi para chamar vocês dois.

– E por que, ao invés disso, não chamou alguém para levar ela direto para o hospital?

– Eu… não queria prejudicar a ela… quero dizer, dar entrada no hospital vai alertar o comitê…

– Ah, pela misericórdia! – Cariele encarou Daimar com uma expressão entre desgostosa e preocupada. – Me traga um cristal de luz contínua. Qualquer um serve! Nem que seja para quebrar o vidro de um poste lá de fora, mas seja rápido!

Considerando que ela parecia saber muito bem o que estava fazendo, Daimar não discutiu e saiu da sala, voltando momentos depois com dois cristais que ele removera de um dos lustres do refeitório. Ele entrou no quarto no momento em que Cariele terminava de virar a amiga na cama, deixando-a deitada de costas. Malena continuava com aquele sorriso torto, como se estivesse satisfeita consigo mesma por pregar uma peça em alguém. No entanto, com os olhos dela fechados, aquela expressão facial ficava com um aspecto macabro.

Cariele pegou um dos cristais das mãos de Daimar e, com movimentos rápidos, embrulhou-o em um lenço que ela tirou do bolso. Fechando os olhos, ela segurou o pequeno embrulho entre as duas mãos e fez alguns movimentos aparentemente aleatórios para cima e para baixo, enquanto resmungava alguma coisa ininteligível. Depois de algum tempo, ela abriu os olhos e encarou Daimar.

– Venha para a frente e segure a cabeça dela. Bem firme. Isso não vai machucar, mas ela vai se debater um pouco.

– Vou precisar me proteger de algo?

– Não, isso não tem efeito em agentes que estejam em equilíbrio. Egil, vá buscar água. Se ela acordar, vai estar morta de sede.

O rapaz assentiu, parecendo muito confuso com aquilo tudo, enquanto saía pela porta.

Então Cariele desembrulhou o cristal, que agora tinha um aspecto completamente diferente. Parecia maior e emitia uma luz vermelho escura. Ela aproximou a pedra do rosto da moça, que estremeceu.

– Firme! Segure firme!

Ela então levantou uma das pálpebras da amiga e aproximou o cristal do olho dela. A moça adormecida teve uma espécie de convulsão por um momento e involuntariamente tentou virar a cabeça para fugir da luz. Cariele e Daimar a seguraram o melhor que puderam para forçá-la a receber a energia avermelhada, primeiro num olho e depois no outro. Depois de muito trabalho para conseguirem conter os espasmos involuntários dela, Malena finalmente começou a relaxar e Cariele pôde ver as pupilas diminuindo de tamanho até voltarem ao normal. Então ela soltou a amiga e voltou a enrolar o cristal no tecido, guardando-o no bolso da calça.

Egil acabava de voltar e estava na porta, segurando uma jarra numa mão e uma caneca na outra.

– Ela está melhor?

Cariele voltou a se aproximar de Malena e tocou um ponto na testa dela com dois dedos.

– Malena! Malena? Pode me ouvir?

Bem devagar, a moça abriu os olhos e piscou diversas vezes.

– Cari? O que está fazendo aqui?

Egil suspirou, aliviado, enquanto Daimar observava a cena, fascinado pela presença de espírito e pelo óbvio conhecimento de cura daquela loira. Ela era uma caixinha de surpresas, volta e meia revelando uma faceta diferente de sua personalidade. Quantos segredos mais ela ainda guardava?

– Como se sente? – Cariele gentilmente virou o rosto da amiga de um lado para o outro enquanto a olhava atentamente.

– Estou um pouco tonta e minha cabeça… dói. Acho que… bebi um pouco demais. Estou com sede…

– Aqui – disse Egil, se aproximando e oferecendo a caneca cheia de água, parecendo bem mais proativo agora que a namorada estava acordada.

– Obrigada, – agradeceu Malena, com um sorriso, antes de ingerir todo o conteúdo da caneca em tempo recorde e voltar-se novamente para Cariele. – Você veio me buscar?

– Você andou tomando entorpecentes, sua doida?

Malena sorriu, sem graça, enquanto fazia um gesto para Egil pedindo mais água.

– Uma ou duas doses de pó não são nada.

Daimar arregalou os olhos.

Duas doses?

Cariele, praticamente, gritou:

– Depois de tomar todo o álcool que tinha no bar?!

– Foi uma experiência e tanto – disse Malena, com uma careta, enquanto voltava a tomar água com avidez.

– Acho que o maior problema foi o álcool, não o pó – disse Cariele, olhando para Daimar. – Alguma das bebidas devia ter alguma impureza. A combinação causou um desequilíbrio que fez com que o corpo dela se desalinhasse do fluxo primordial.

Malena estava confusa.

– O que isso quer dizer?

– Quer dizer que você dormiu e não acordava mais.

– Acho melhor levar vocês dois ao hospital – declarou Daimar.

Egil protestou.

– Não!

– Não podemos ir lá! – Malena ainda fazia caretas devido à forte dor de cabeça. – Todos vão ficar sabendo o que fizemos, o comitê disciplinar vai nos punir!

– É melhor enfrentar uma punição com saúde do que ficar com tontura e dor de cabeça por sabe-se lá quanto tempo – interveio Cariele.

– Mas ela já está melhor agora, não está?

– Eu não fiz nada além de estabilizar o fluxo. Foi só uma espécie de primeiros socorros. Eu não tenho a mínima ideia de o quanto essa “aventura” danificou o corpo de vocês dois, seus idiotas. Não sou curandeira e nem tenho instrumentos adequados para fazer exames. Droga, e mesmo que tivesse, eu não tenho treinamento para usar essas coisas.

Egil olhou para Daimar.

– Por favor, cara! Não quero perder o semestre por causa de uma bobagem.

Daimar o encarou de volta, muito sério.

– Lembra do que eu disse aquele dia? Eu disse “se quiserem aprontar, não me deixem ficar sabendo”. Isso valia para todo mundo, inclusive você.

– Achei que fosse meu amigo.

– Caso você não saiba, o conceito de amizade também envolve evitar que o outro faça idiotices, além de incentivá-lo a lidar com as consequências das bobagens que ele faz. Para o hospital, os dois. Agora!

♦ ♦ ♦

Daimar nunca tomara uma decisão tão acertada na vida quanto a de trazer aqueles dois cretinos para o hospital. Ambos precisaram ser internados, pois estavam com sérias complicações internas que precisavam ser tratadas antes que causassem danos permanentes. O curandeiro elogiou efusivamente a atitude de Cariele de fazer um tratamento energético de equilíbrio na amiga, e chegou até a dizer que aquilo provavelmente havia salvo a vida dela.

Já era o fim da tarde quando a desintoxicação terminou e o casal foi colocado em um quarto isolado e monitorado para passar a noite. Daimar e Cariele, que permaneceram ao lado dos amigos por todo o tempo que puderam, estavam exaustos.

– Devo dizer que você foi incrível hoje – disse Daimar, abrindo a porta e fazendo sinal para que ela passasse primeiro.

Saindo do prédio bem a tempo de ver os últimos raios do sol poente colorindo as nuvens com diversos tons de roxo, ela perguntou, desanimada:

– Incrivelmente inepta?

– Você salvou uma vida.

Ela soltou uma risada sem humor, enquanto tomava o caminho da academia. Ele a seguiu por um bom tempo, em silêncio.

– Eu não consegui perceber a gravidade da situação dela! Eu… eu não tinha ideia do que estava fazendo – admitiu, passando a mão pelos cabelos que, mesmo depois de tanta agitação, continuavam brilhantes e cheios de vida.

– Isso é bobagem!

– É sério. Eu nunca fiz nada assim antes. Fiquei só indo de um lado para o outro tentando imaginar o que alguém competente poderia fazer numa situação como essa.

– Você me pareceu bastante competente enquanto examinava ela.

– Depois de dez minutos eu não conseguia mais me lembrar de nenhuma medição que eu fazia.

– Mas você chegou a um diagnóstico e pensou num tratamento.

– Esse tratamento é para vítimas de paralisia, matéria do período passado, em que Malena bombou, diga-se de passagem.

– E por que você resolveu aplicá-lo?

– Porque ela não se mexia. E estava com pulso baixo. E os músculos do rosto estavam… daquele jeito. E porque a pele estava com pouca elasticidade. E também porque… se eu estivesse errada, a luz contínua pelo menos não iria causar mais danos. O cristal era pequeno demais para afetar alguém de forma negativa.

– Me parece que você tomou uma decisão bastante lógica e muito bem pensada.

– Você não entende! – Ela fechou os punhos e abaixou os braços com força. – Eu não faço esse tipo de coisa! Não saio por aí salvando amigos com problemas! Eu não me importo com ninguém além de mim! Não entendo o que está acontecendo comigo! Desde que conheci você, eu não consigo me reconhecer mais!

Ela parecia prestes a chorar. Daimar tratou de engolir a onda de sentimentos causados por aquela revelação dela.

– Escute, hoje foi um dia muito cansativo. Talvez o melhor seja esquecer esse assunto e descansar um pouco. Amanhã pode ser que você tenha uma perspectiva melhor sobre as coisas.

– Que a Fênix o permita! Não vejo a hora de tomar um longo banho, comer algo e ir para minha cama.

Daimar parou de repente e olhou para trás.

– O que foi? – Ela se virou também, mas não notou nada de estranho.

– Droga. Parece que nosso casal de “fãs” está vindo para cá.

Aquela parte da cidade era bastante tranquila, com casas modestas dividindo espaços com árvores e com crianças e cachorros correndo pelas ruas.

Cariele olhou na direção indicada por Daimar e viu duas figuras virando a esquina. O homem tinha cabelos e sobrancelha brancos e a mulher tinha pele e cabelos escuros. Por identificar duas pessoas àquela distância, o “olfato sensível” de Daimar realmente era impressionante.

O casal olhou na direção deles e começou a se aproximar, com passos decididos.

– Monitores – suspirou ela. – Tudo o que eu precisava para terminar bem o dia.

Instantes depois, o casal parou diante deles e Daimar os saudou, irônico.

– Ora, ora! Se não são nossos sanguessugas favoritos. A que devemos o desprazer deste encontro?

– Você não está nos prestando o merecido respeito. – A negra cruzou os braços, indignada.

– Passei o dia todo no hospital hoje, conforme vocês devem saber muito bem. Estou cansado e com muito pouca disposição para ser sociável. Ou razoável.

– Nesse caso, não precisa se preocupar – disse o albino. – Só viemos dar um recado a vocês.

– Sim, e decidimos vir pessoalmente porque, diferente de vocês, nós sabemos tratar os outros com educação – completou a monitora.

– Ah, me poupe! – Cariele revirou os olhos.

– Qual é o recado? – Daimar colocou as mãos na cintura, impaciente. – Desembuchem logo e nos deixem em paz.

O monitor albino abriu um irritante sorriso.

– Parece que vocês se meteram em mais uma confusão. E dessa vez envolvendo drogas ilícitas.

– Como assim? – Cariele apontou na direção do hospital. – Tudo o que fizemos foi trazer os dois para o curandeiro!

– Sabemos que vocês quatro saíram juntos ontem à noite – respondeu a monitora.

Daimar bufou.

– Vocês viram muito bem que não ficamos o tempo todo com eles. Vocês mesmos nos mandaram embora, não lembram?

– Isso não importa – retrucou o homem. – Vocês dois já se meteram em tantos problemas que a partir de agora, qualquer insinuação de deslize é razão suficiente para aplicar uma punição.

Cariele estreitou os olhos.

– Como é que é? – Cariele apontou para Daimar. – Esse cara aqui se transferiu para cá há umas duas semanas. Não tem como ele estar com a ficha tão suja quanto a minha em tão pouco tempo!

Os monitores sorriram um para o outro.

– Pelo visto ele não te contou o quanto ele aprontava na academia anterior, não é? – A negra parecia muito satisfeita consigo mesma. – Ele era um estudante tão… peculiar, que não conseguiu anistia por nada durante a transferência. Posso garantir, querida, que perto da dele, a sua ficha parece a de uma aluna exemplar.

Daimar suspirou.

– Essa conversa vai chegar a algum lugar? Senão vou para casa.

– Então vamos ao que interessa – disse o albino. – Vocês dois vão cursar aulas complementares a partir da próxima semana.

– E como um favor a vocês, decidimos deixar que frequentem essas aulas na mesma turma – completou a mulher. – Animem-se. Vocês não terão mais tempo para farras noturnas e as aulas às vezes ocorrem até nos finais de semana, mas a boa notícia é que estarão juntinhos, do jeito que vocês parecem gostar tanto.

— Fim do capítulo 3 —
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