Lassam – Capítulo 5: Arranjos

Publicado em 04/03/2017
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cap3

5. Arranjos

O supervisor de assuntos gerais da Academia de Lassam suspirou desanimado ao topar com Daimar Gretel esperando-o na soleira da sua porta pela segunda vez na mesma semana. Dessa vez, no entanto, o rapaz não parecia aborrecido. Na verdade, ele tinha um meio sorriso no rosto, parecendo divertido com algo, ou como se estivesse prestes a pregar uma peça em alguém. Aquilo causou uma pontada de apreensão no homem.

– Posso ajudar em algo, barão?

– Sim, pode, mas não se apresse –  respondeu Daimar. – Vamos entrar e sentar para conversarmos com calma. A menos, é claro, que o senhor tenha algum outro compromisso, nesse caso posso voltar numa hora mais oportuna.

A apreensão do supervisor aumentou ainda mais.

– Não, sem problemas. Só vou abrir esse lugar para arejar um pouco e já conversamos.

– Eu agradeço.

Com um sorriso tranquilo, Daimar seguiu o supervisor para dentro da sala e acomodou-se em uma cadeira em frente à grande mesa, que dominava o ambiente. Da outra vez, Daimar não tinha prestado muita atenção, mas havia mais duas escrivaninhas pequenas ali, lotadas de papéis, penas, tintas e outros materiais de escritório.

– Tem mais duas mesas de trabalho aqui. O senhor tem ajudantes?

O supervisor escancarou uma janela, deixando a luz do sol matinal entrar, antes de olhar para ele.

– Como? Oh! Sim, sim… Duas moças trabalham meio período e me ajudam com a burocracia.

– Certo.

Depois de alguns minutos, o supervisor terminou de ajeitar tudo e finalmente se acomodou atrás de sua mesa, cruzando as mãos sobre o tampo e encarando Daimar.

– Muito bem. Em que posso ajudá-lo?

– Quero modificar o estatuto da república Alvorada. Vamos transformá-la numa fraternidade mista.

O supervisor piscou e o encarou por alguns momentos, confuso. Obviamente não estava esperando por aquilo.

– Eu… devo dizer que esse é um pedido bastante incomum, barão. Qual seria a justificativa?

– Devido a dois incidentes recentes, quatro dos nossos colegas saíram. Estamos com pouco pessoal para tomar conta de todas as tarefas da fraternidade e, pensando no bem maior, decidimos que aceitar apenas homens limita bastante as nossas opções para recrutamento de novos membros.

– A sua fraternidade é uma das mais populares daqui, barão. Vocês até mesmo precisam recusar candidatos de vez em quando. Não consigo imaginar vocês com problemas para recrutar membros.

– Temos um membro no hospital e um ex-membro próximo a entrar no corredor da morte. No momento, nossa popularidade está mais baixa do que nunca.

– E modificar o estatuto iria mudar alguma coisa?

– Sim. Por mais que tenhamos procurado, não conseguimos nenhum candidato do sexo masculino, mas temos pelo menos cinco garotas interessadas.

– Entendo. – O supervisor coçou a cabeça e se virou para a janela, pensativo, por um instante. – Mas não sei se isso será possível.

– Por quê?

O supervisor virou-se novamente para ele.

– Fraternidades mistas têm regras mais rígidas, barão. Uma delas é que exista um monitor residindo em caráter permanente no alojamento para garantir a paz e evitar problemas. E não temos nenhum monitor disponível para esta tarefa.

Daimar sorriu.

– Ah, vocês têm sim.

O supervisor estreitou os olhos.

– Como assim?

– Tem um albino enxerido que me segue toda tarde até minha casa e que está lá me esperando no dia seguinte quando saio. Ele parece não ter nada mais importante a fazer do que ficar me seguindo, não importa para onde eu vá.

– E o que isso tem a ver com a fraternidade?

– Simples: eu vou me mudar para o alojamento. Como esse cara parece que tem a missão de ficar na minha cola, ele pode muito bem se mudar para lá também. Assim, pelo menos, ele faz algo de útil.

– Designamos uma escolta para você por uma razão, senhor Gretel.

– É mesmo? E qual seria ela?

O supervisor hesitou.

– Isso é confidencial.

– É mesmo? Bem, eu não me importo. Só coloque aquele branquelo como monitor permanente da república que eu tentarei me esquecer dele.

– E por que acha que iríamos atender a uma requisição como essa, rapaz?

O sorriso de Daimar aumentou.

– Que bom que perguntou. Sabe, eu andei pensando. Por acaso o senhor já viu os novos simulacros que a turma de atividades complementares está usando? Nossa, são produtos de primeira linha. Até eu, que não tenho afinidade com essas coisas, consegui aprender a usar um deles. Imagine quantas coisas que instrutores competentes podem ensinar com ferramentas como aquela.

– Não estou entendendo onde quer chegar, barão.

– Sério? Bem, nesse caso, vou ser bem claro: não é meu pai quem toma decisões em relação aos negócios da minha família, supervisor. Sou eu. E nossas doações para esta academia são consideráveis. Aqueles simulacros, bem como diversas outros itens usados aqui, foram criados em nossas instalações e fornecidos a vocês como um gesto de boa vontade. Também fazemos diversas doações em dinheiro vivo, o que imagino que ajude a cobrir muitos dos custos desta instituição. – Daimar lançou um olhar significativo a uma das mesas menores, à sua direita.

O supervisor ficou vermelho.

– Está me ameaçando, rapaz?!

– Não. Só comentando fatos. Acredito que ficou sabendo que o imperador faleceu na semana passada, não? E como a candidata ao trono ainda não atingiu a maioridade, o país está em crise. Ainda mais com todos esses monstros surgindo aleatoriamente por aí, vindos sabe-se lá de onde. O exército está usando a maior parte dos recursos públicos para proteger as pessoas, duvido que vá sobrar muito para manter o orçamento de instituições como a nossa Academia, ainda mais considerando que ela nunca esteve entre as mais conceituadas de Mesembria.

– Ora, mas isso é…

– Vocês estão cada vez mais nas mãos de colaboradores civis, não estão? Até mesmo o fato de terem colocado uma sombra atrás de mim foi uma requisição de um certo ricaço, não foi?

– Não estamos infringindo nenhuma lei! A escolta é para sua própria segurança, ninguém está querendo violar sua privacidade ou qualquer outro direito que você tenha.

Ele não negou, pensou Daimar. O que quer dizer que a ordem para me seguir veio mesmo de alguém de fora. Bem, pensarei nisso depois.

– Como eu disse, não tem problema. Não pretendo fugir das vistas daquele branquelo. Só me faça um favor e coloque-o no alojamento da fraternidade. É um pedido bastante razoável, não acha, supervisor?

– Quem são essas moças que querem entrar? Cariele Asmund está entre elas?

– Por acaso, está sim.

– Não podemos aceitar isso! Vocês dois acabaram de se meter em um escândalo juntos…

– Que escândalo, homem? Encontrar dois colegas com sintomas de sobredose e levá-los a um hospital? Qualquer pessoa faria o mesmo.

– O problema é o histórico de vocês dois. Se não evitarem esse tipo de situação, as coisas só tendem a piorar e…

– É, foi isso que o branquelo me disse.

– O monitor tem um nome, sabia disso?

– Sim. Ele se chama Britano Eivindi, serviu o exército por um ano e saiu depois de um acidente que danificou permanentemente uma parte do músculo da coxa esquerda, o que dificulta que ele faça muito esforço com aquela perna. Se especializou em inteligência militar, trabalhou para diversas famílias na área de segurança e espionagem industrial até que cometeu um erro que dizem ter levado seu último empregador à falência. Depois disso ele veio trabalhar aqui, onde faz monitoria há mais de cinco anos. Ah, e devo admitir que ele é ótimo com disfarces.

– Onde conseguiu essas informações?

– Como eu disse, supervisor, eu dirijo os negócios da família, e sempre avaliamos com cuidado candidatos a cargos em nossos laboratórios. A propósito, nós também temos uma ficha sua, caso essa informação lhe interesse.

– Ora, mas isso é um desrespeito!

– Levantamos os seus dados quando pensamos em contratá-lo para uma de nossas novas unidades em Aldera.

– Ora, eu…

– Vamos lá, supervisor. O que estou pedindo não é nenhum absurdo. Isso pode ser feito, não pode?

– Isso é contra as normas!

– Não, não é. É apenas uma situação incomum, que vocês tentam desencorajar para não causar confusão.

– Eu não posso permitir uma mudança dessas sem uma boa justificativa…

– Eu já dei uma justificativa. E muito boa.

O supervisor suspirou e pensou por um instante.

– Certo. Então reserve mais um dormitório para um segundo monitor.

– Uau! Primeiro não tinha ninguém disponível, agora temos dois?

– Britano não vai conseguir cumprir os deveres de monitor de fraternidade tendo que se preocupar em ficar de olho em você. Vou colocar mais alguém para dividir as tarefas com ele.

– Deixa eu adivinhar… está se referindo à negra que está “protegendo” Cariele, não é?

– O nome dela é…

– Janica Fridiajova, três anos de serviço militar, pediu baixa por motivos pessoais e passou a trabalhar com segurança particular, formação em Inteligência, currículo bastante similar ao do nosso amigo albino. A diferença é que ela parece ter feito bem menos besteiras do que ele.

– Você está passando dos limites, rapaz.

– A propósito, o albino e a negra, por acaso são comprometidos? Algum dos dois tem um relacionamento sério?

– Por quê? Não leu isso nas fichas deles?

– Claro que sim, mas achei divertido perguntar. Afinal, vou colocá-los para dividir o mesmo quarto.

– Isso é ridículo!

– Não, não é. Ridículo é termos que desperdiçar mais um quarto num momento onde precisamos de mais pessoas. Ou devo lembrá-lo de que nossos membros fazem doações à fraternidade?

– Ora, mas isso é…

– Não é um problema meu. – Daimar levantou-se e dirigiu um último sorriso ao supervisor. – Foi ótimo negociar com você. Vou mandar alguém trazer a papelada mais tarde para as suas… secretárias.

♦ ♦ ♦

Cariele andava para lá e para cá do lado de fora do hospital, tentando controlar seu estômago. O cheiro de ervas era muito fraco ali, mas não era inexistente, e hoje, particularmente, sua intolerância a ele estava muito intensa.

Ela começava a pensar em se afastar dali quando Falcão e Egil saíram, rindo de alguma piada. Ambos ficaram sérios ao notarem a presença dela. Então Egil a cumprimentou, quase com reverência.

– Bom dia!

– Olá – foi o cumprimento educado de Falcão, antes de se virar para o amigo. – Vou até o bar ali da frente. Preciso tomar algo antes de ir para a aula, te espero lá.

Pelo visto, ainda está irritado com o fora que dei nele, pensou Cariele.

– Valeu! – Quando o amigo começou a se afastar, Egil se voltou para ela. – Veio buscar a Malena?

– Essa era a intenção, antes de eu começar a passar mal.

– Bom, se for para alguém passar mal, não consigo imaginar um lugar melhor para isso… –  gracejou ele, apontando para a entrada do hospital.

Cariele deu um sorriso forçado.

– É mesmo, não é?

Ele deu um sorriso sem graça, constrangido com a reação dela.

– Eu… não tive oportunidade de agradecer adequadamente pelo que você fez pela gente. Nós não queríamos vir para cá de jeito nenhum e vocês dois acabaram nos trazendo na marra e com isso meio que salvaram nossas vidas, então…

– Não se preocupe, não foi nada. Se quer agradecer alguém, agradeça ao seu barão, foi ele quem cuidou de tudo.

– Mas você socorreu a Malena, e aquilo foi importante…

– Foi só sorte de principiante. E se não fosse pelo barão, eu provavelmente não teria feito nada, de qualquer forma.

Egil franziu o cenho, confuso, uma vez que Cariele tinha claramente assumido o comando aquele dia, inclusive dando ordens que Daimar obedecera sem reclamar.

– É melhor você ir, senão vai se atrasar – lembrou Cariele. – Podemos conversar depois.

– Hã… certo! De qualquer forma, obrigado!

– Não tem de quê.

Cariele suspirou. Por que, raios, tinha que ter falado aquilo sobre o barão? Não deixava de ser verdade, mas… droga! Ela estava tendo sérias dificuldades em ser ela mesma desde que Daimar entrara em sua vida.

– Cari!

Voltando-se na direção da voz, ela viu Malena, saindo pela porta, acompanhada por Hadara. Vendo que a amiga parecia bem melhor, Cariele se adiantou e a abraçou, exclamando:

– Bem-vinda de volta à liberdade!

A velha curandeira notou a palidez de Cariele.

– Tudo bem com você?

– Sim, tudo bem. Mas vai ficar melhor ainda quando sairmos daqui. Vamos?

Malena saiu correndo na frente, antes de abrir os braços e dar uma volta em torno de si mesma, sorridente.

– Ah! Me sinto viva outra vez!

– Cuidado para não acabar se machucando – avisou Hadara.

– Se for para me machucar, nada melhor do que fazer isso perto de um hospital, não é?

Cariele soltou um riso involuntário.

– Seu namorado me disse algo parecido. Mas de qualquer forma, acho estranho você dizer isso, uma vez que tive que te trazer para cá praticamente arrastada.

– Detalhes, detalhes! – Malena esperou até que as três estivessem andando lado a lado e sem ninguém por perto antes de continuar. – Cari, Hadara me contou que você está doente.

Cariele suspirou.

– Sim – admitiu, relutante.

– E que você vai precisar de ajuda para usar umas ervas e tal.

– Sim – repetiu Cariele, olhando Hadara de lado. – Minha curandeira insistiu muito nisso, então não tenho escolha.

Hadara balançou a cabeça.

– Como pode ver, Malena, ela é teimosa demais. Por isso eu insisti em vir falar com você pessoalmente. Se deixarmos tudo por conta dela é bem capaz de ela arrumar alguma desculpa para não se tratar e acabar piorando.

– Nunca vou conseguir retribuir o que ela fez por mim, então eu quero ajudar no que puder.

– Eu agradeço – disse Cariele, que não gostava de depender de ninguém, porém não via nenhuma outra saída no momento. – Mas não quero que ninguém fique sabendo.

– Pode contar comigo! Mas onde vamos ficar? Eu soube que nós duas fomos expulsas da República das Hortênsias.

– Essa é a notícia boa. Eu já encontrei um lugar para nós, e para a sua alegria, vai poder morar pertinho do seu namorado.

♦ ♦ ♦

– Você não pode decidir isso sozinho! – O loiro valentão parecia muito exaltado.

– Foi uma decisão estratégica, e com a qual a maioria concordou –  retrucou Daimar sem se alterar, sentado calmamente na sua cadeira favorita da sala de reuniões e com os pés cruzados sobre a mesa. – Perdemos vários membros e temos que nos recuperar. Mudando o estatuto, teremos monitores residindo aqui, permanentemente. Com isso nossa reputação irá melhorar.

Um moreno de baixa estatura e de cara amarrada se manifestou.

– Mas isso vai tirar toda a nossa liberdade!

– Eu avisei para todos que, se quisessem aprontar, não me deixassem ficar sabendo. Não foi o que aconteceu.

O loiro voltou a retrucar.

– Então por que não expulsa os idiotas que fizeram caca, e deixa por isso mesmo?

– Porque a “caca” já está feita. Além disso, não sei se posso confiar que ninguém mais vai aprontar. E, se tivermos mais um escândalo que seja aqui, a fraternidade vai ser dissolvida e ninguém vai receber nota. Se querem ficar estudando por mais sabe-se lá quanto tempo, o problema é de vocês.

– Mas Daimar, alguns de nós tem namorada. Vai pegar mal se garotas vierem morar aqui com a gente –  argumentou um ruivo cheio de sardas.

Daimar sorriu.

– Ora, mas isso é muito fácil de resolver. Convidem suas namoradas para se juntar a nós.

Levou muito tempo para Daimar finalmente conseguir declarar aquele encontro encerrado. A reunião foi demorada e muito pouco produtiva, como ele tinha previsto. No final, perdera mais três membros e vários outros estavam pensando seriamente em sair também.

Mudar o estatuto da fraternidade era uma ideia que nunca lhe ocorrera, e por boas razões. Aquilo iria mudar a rotina dos membros, e aqueles riquinhos mimados não gostavam de mudanças. Outro problema era a supervisão. Ele tivera que abrir mão de alguns trunfos e contar algumas meias verdades para conseguir a aprovação. E, depois de ser manipulado daquela forma, o supervisor provavelmente dificultaria sua vida de todas as formas possíveis daqui para a frente. Nunca pensara em ir tão longe apenas por causa de algo tão trivial como uma fraternidade.

Por outro lado, aquilo poderia realmente ajudá-los bastante. Aqueles delinquentes estavam sem controle, e nada melhor do que ter mulheres e monitores por perto para coibir os impulsos deles. E os que não se adaptassem podiam simplesmente cair fora, o que também não seria ruim… desde que sobrasse a quantidade mínima de membros para que a fraternidade pudesse continuar existindo. Se Cariele realmente conseguisse trazer mais cinco garotas com ela conforme prometera, a situação ainda estaria sob controle, pelo menos por enquanto.

De qualquer forma, ele não estava muito satisfeito. Bastara ela fazer uma carinha de expectativa, como se fosse um cachorrinho pedindo comida, e ele concordara imediatamente em fazer tudo o que ela estava pedindo, mesmo sendo uma coisa complexa, trabalhosa e sem garantias de funcionar. Se aquilo terminasse em um desastre total, ele não tinha ninguém a culpar além de si mesmo.

Como era possível sentir-se atraído e compelido a ajudar uma mulher na qual não conseguia confiar, era uma incógnita para ele. No entanto, falando em incógnitas, ela não explicara por qual razão queria entrar na Alvorada. Apenas revelara que fora expulsa e pronto. Não seria muito mais simples tentar encontrar uma outra fraternidade feminina ou mista? Ele deveria ter perguntado, mas não! Estivera muito ocupado se deliciando com o cheiro dela para se dar ao trabalho de cogitar isso!

Tinha que parar de pensar nela e fazer algo de útil.

Saindo do alojamento, ele andou decididamente até um determinado ponto do jardim e olhou para a direita, onde uma figura familiar se encontrava estirada sobre um banco com um livro sobre o rosto.

– Você já me segue a tempo suficiente para saber que não adianta tentar se esconder de mim.

Bem devagar, o homem levantou o livro do rosto, revelando a face pálida e as sobrancelhas brancas do monitor chamado Britano Eivindi.

– E você já deveria saber o suficiente sobre mim para esquecer minha presença e me deixar em paz. O que quer?

Daimar não gostava muito dele, mas era obrigado a respeitá-lo. O homem tinha atitude e não se deixava intimidar, diferente de muitos que abaixavam a cabeça quando alguém de posição social superior falava qualquer porcaria.

– Me disseram que você vai ter que se mudar. Já recebeu o memorando?

O monitor estreitou os olhos.

– E o que você tem com isso?

– Eu estou me mudando para cá também e vou buscar as minhas coisas. Já que você vai ficar indo e vindo atrás de mim quer eu queira, quer não, tenho uma proposta.

O homem se sentou no banco e enfiou o livro num bolso do casaco. Considerando o tamanho do livro e o quanto o bolso era estreito, era certo que um dos dois, o bolso ou o livro, ou talvez ambos, tinham algum tipo de encantamento.

– Estou ouvindo.

– Me ajude a trazer minhas coisas para cá, depois eu passo no seu alojamento e ajudo você a trazer as suas.

– E por que você simplesmente não paga alguém para trazer sua mudança?

– Tenho coisas melhores em que gastar meu dinheiro.

– Rá, rá, rá – foi a resposta, em forma de uma irônica e propositalmente tosca imitação de risada.

– Além disso, nós dois ganharíamos pontos de reputação com o pessoal da fraternidade. Você, por chegar junto comigo me ajudando a carregar tralhas ao invés de simplesmente invadir o lugar. E eu, por mostrar a todos que estou de olho em você.

O homem deu um meio sorriso.

– Está com medo de que eu tire a sua autoridade?

– Não sei. Devo me preocupar com isso?

Depois de encarar Daimar por um longo momento, o monitor se levantou.

– Certo. Vamos acabar logo com isso.

♦ ♦ ♦

Cariele estava de ótimo humor. Nada melhor para se esquecer dos próprios problemas do que colocar uma pessoa irritante em uma posição constrangedora. A ideia de Daimar, de recrutarem o casal de monitores para ajudá-los na mudança, tinha sido genial. Primeiro, porque era muito melhor andar ao lado daquela negra do que senti-la às suas costas, o tempo todo. Segundo, porque ajudando a carregar as coisas dela, Cariele conseguiu aprender uma ou duas coisas sobre a mulher.

– Você não parece usar muito tratamento para cabelos – comentou Cariele, após depositar uma caixa de madeira sobre a cama, que a monitora imediatamente começou a esvaziar, colocando o conteúdo de forma não muito organizada dentro de um armário.

– Olhe para essa bucha que eu tenho na cabeça –  respondeu a mulher, referindo-se ao cabelo encaracolado. – Fazer tratamento para quê?

– Até fiquei com um pouco de inveja. Com essa minha cabeleira enorme, preciso investir uma quantidade considerável de tempo todo dia para cuidar dela. Acho isso um tédio.

A monitora Janica Fridiajova lançou um olhar cético a Cariele.

– Isso é ridículo. Se não gosta de cuidar do cabelo, porque simplesmente não o corta?

– Não posso. É um investimento para o futuro.

– Sei.

– Olha só, Britano – disse Daimar, aparecendo na porta do quarto, carregando uma caixa de madeira nos braços. – Parece que você já tem companhia.

Sem nem mesmo perceber, Cariele abriu um sorriso brilhante, enquanto fazia um gesto para que Daimar entrasse e depositasse a caixa sobre a outra cama.

– O que significa isso? – Janica olhou de um para o outro, confusa.

– Eu é que pergunto – disse o monitor albino, depositando a caixa que carregava no chão, antes de enfiar a cabeça no quarto e lançar um olhar fulminante na direção de Daimar. Ao ver que o barão não lhe dava atenção, pois parecia mais interessado em ficar trocando sorrisos com Cariele, ele se voltou na direção de Janica. E ficou de queixo caído.

Os dois nunca tinham se encontrado sem estarem usando uniforme antes. Ainda mais usando roupas tão leves, devido ao esforço físico e ao calor que fazia hoje. A surpresa deixou ambos sem ação por um longo instante.

– Senhor Britano, acho que já conhece a nossa amiga Janica – disse Cariele, divertida. – Vocês vão ser colegas de quarto a partir de hoje.

– Mas o que…?

– Como assim?

Daimar riu.

– Parece que o supervisor esqueceu de esclarecer algumas coisas. Ou talvez vocês não tenham lido o memorando inteiro. O fato é que estamos reservando uma ala só para as meninas e com isso estamos remanejando os quartos. Como eu também estou me mudando para cá, acabamos ficando apenas com este quarto disponível para vocês. Espero que não se importem de dividi-lo.

– Isso é um ultraje!

– Não vou admitir isso!

– Tudo bem – disse Daimar, pegando Cariele pela mão. – Venha, vamos deixar que eles se entendam com os chefes deles e decidam o que fazer.

Depois de saírem do quarto, Daimar virou a cabeça na direção do casal de monitores, que trocavam um olhar confuso.

– Ah, e se precisarem de mais alguma ajuda, podem nos chamar a qualquer momento. Nós dois estamos dispensados das aulas de hoje por causa da mudança, então, estamos à disposição. Até mais tarde.

Daimar e Cariele andaram apressados até chegarem à cozinha, onde pararam, se encararam por um instante e caíram na gargalhada. Ele se recostou à parede e olhou para ela.

– Você viu a cara dela?

– E ele, então? Ficou vermelho como um peru! – Aquilo fez com que ambos voltassem a rir por alguns instantes. – Você pediu segredo ao supervisor sobre eles terem que dividir o quarto?

– Eu, não. Sabe-se lá que confusão foi essa, mas não foi culpa minha.

– Bom, com certeza foi engraçado.

– Quase compensou toda a irritação que eles nos fizeram passar antes.

Cariele não se sentia tão bem há meses, talvez anos. A peça que planejaram pregar nos monitores saíra mil vezes melhor do que o esperado. Mas tinha uma informação que surgiu durante aquela cena que ela precisava confirmar.

– Você vai mesmo se mudar para cá? – Ao dizer aquilo, ela sentiu o coração subitamente acelerado.

– Sim, eu não te contei?

Estando do lado dela dessa forma, Daimar não sabia como faria para passar suas noites daqui para frente, porque dormir subitamente lhe pareceu uma impossibilidade. Se mesmo longe dela, a memória de sua fragrância já o acompanhava a noite toda, o que aconteceria agora, que ele poderia sentir o cheiro real dela o tempo todo?

– Acho que você omitiu essa parte – respondeu ela, devagar.

Ele se aproximou. Não conseguiu se impedir de fazer isso. Parou bem de frente para ela, os rostos a um palmo de distância.

– Isso é um problema para você?

– Não. – A voz dela se assemelhava a um suspiro.

– Cariele…

– Sim…?

– Quer… você sabe… sair comigo?

Subitamente, Cariele sentiu-se como se tivesse recebido um soco no estômago. Aquilo era tudo o que ela queria ouvir naquele momento, e ao mesmo tempo, era tudo o que não podia ouvir.

– Não – disse ela, afastando-se na direção da porta.

Ele pareceu magoado.

– Importa-se de, pelo menos, me dizer o porquê?

Ela parou.

– Não posso fazer isso. Eu tenho… planos. Tenho coisas para fazer, tenho que pensar no meu futuro. E você… você não vai querer alguém como eu.

Dizendo isso, ela saiu do aposento, apressada, deixando-o parado ali olhando para a porta.

♦ ♦ ♦

Falsa, mentirosa, idiota!

Cariele não conseguia evitar de se sentir mal consigo mesma por tê-lo recusado, mas tinha que usar a razão. Daimar era orgulhoso, nunca iria aceitar alguém com a reputação dela como esposa. E mesmo que conseguisse seduzi-lo a esse ponto, se o ritual estivesse mesmo se revertendo como temia, ele perderia totalmente o interesse nela assim que visse sua aparência real. E a perspectiva de ele vir a rejeitá-la lhe parecia insuportável.

Ela investira tudo para obter uma aparência respeitável e um corpo atraente, mas tinha sido uma aposta de risco: o ritual só podia ser feito uma vez na vida e, dependendo da estrutura corporal, podia não ser permanente, o que parecia ser o caso dela. Mas seu objetivo já estava quase alcançado, só precisava de mais um pouco de tempo.

Só mais um ou dois anos. Depois disso, não precisarei me preocupar com mais nada.

A chave para conseguir seu objetivo era ficar longe dele. Daimar a afetava demais, a fazia se sentir vulnerável, engraçada, competente, viva. E tudo aquilo só servia para confundi-la e fazê-la perder o foco. Precisava esquecê-lo. Precisava de… um homem! Talvez, depois de se divertir um pouco, ela voltasse a raciocinar com clareza. Muitas mulheres não diziam que a atração era assim, como uma fome que precisava ser saciada? Ela nunca sentira esse tipo de… necessidade antes. Claro que saíra com homens e se divertira com eles, mas era como se tudo fosse parte de um jogo, no qual ela tinha total controle das emoções. Nunca fora afetada dessa forma. E o pior era que, no momento, não estava com o menor ânimo para se envolver em jogos amorosos com algum cara aleatório. O que faria?

– Cari! – Agneta veio, praticamente, dançando na direção de Cariele, cumprimentando dois rapazes que cruzaram por ela no corredor com um gesto de mão e um sorriso brilhante, que lhe rendeu alguns assobios e cantadas de brincadeira, que ela fingiu ter ignorado. – Menina, eu a-do-rei esse lugar! Que máximo!

Cariele olhou ao redor, dando-se conta pela primeira vez que o alojamento era imaculadamente limpo e organizado. Ela estivera preocupada demais com os próprios problemas, senão teria percebido isso antes. Parecia haver alguém fazendo limpeza ou consertando algo o tempo todo. Nesse momento, por exemplo, dava para ver dois rapazes limpando uma janela do corredor enquanto cantavam uma música antiga com vozes desafinadas. Felizmente eles estavam do lado de fora e o vidro fechado abafava o som o suficiente para não prejudicar seus tímpanos.

– Agora que você falou, aqui é bem arejado e… limpo.

– Eles são suuuuuper organizados! Viu um papel grudado numa das paredes do refeitório? É uma escala de trabalho pelo próximo mês e tem o nome de todos os membros da fraternidade lá. Tudo organizadinho, com divisão igual de tarefas entre todos! Agora que nós entramos, provavelmente o barão vai colocar a gente para trabalhar também. Ele é demais, não é?

– Realmente – respondeu Cariele, distraída. Será que algum dia seria capaz de encontrar algum defeito naquele homem?

Bom, ele não se dá bem com matemática, mas isso não conta, não é?

– Se eu soubesse que as instalações eram tão boas e que as coisas eram tão organizadas eu já teria tentado vir para cá antes.

– Considerando a contribuição que vamos ter que fazer para a república todo mês, é bom que as instalações valham a pena.

– Puxa vida! Eu tinha esquecido completamente disso! Vai ficar muito pesado para você? Quer dizer, eu tenho minha mesada e as outras garotas são bancadas pelos pais, e tal.

– Não se preocupe, eu vou dar um jeito.

A maioria das fraternidades era “gratuita”, mas o mesmo não podia ser dito da Alvorada. Ali era exigida uma contribuição mensal de um valor bastante salgado, o que garantia que apenas os filhos das famílias mais ricas conseguissem um lugar.

A mesada que Cariele recebia de seu pai era suficiente apenas para alimentação e vestuário, mas isso não era um problema, pois ela sempre conseguia um ou outro trabalho por fora. Agora, por exemplo, tinha uma verdadeira víbora para capturar, e aquilo lhe renderia moedas mais que suficientes para pagar a contribuição por vários meses.

– Cari, a misteriosa! Espera, vai me dizer que está extorquindo grana de algum bofe?

– O quê? – Cariele fez uma expressão chocada. – Claro que não! Bofes servem para diversão, não trabalho.

Considerando que ela estava querendo agarrar um “bofe” rico para si para ter acesso ao dinheiro dele, ela não conseguia impedir de se sentir uma hipócrita por falar aquilo. Agneta parecia ter pensado a mesma coisa.

– Se você diz… A propósito, aquele bonitinho da turma de Artes está magoado com você. Veio chorar as mágoas comigo, reclamando que você não tem comparecido aos encontros com ele.

Cariele lembrou-se de que não teve ânimo nenhum para sair com o garoto e acabou faltando ao encontro. Então ele remarcou para o outro dia e ela faltou de novo.

– Preciso falar com ele, terminar o relacionamento e acabar logo com isso.

– Uau! O que ele te fez? Espera… vai me dizer que está interessada em outra pessoa?

Cariele limpou a garganta.

– Não, só estou sem vontade, mesmo.

Ah, como gostaria que aquilo fosse verdade.

♦ ♦ ♦

Tem algo diferente nela.

Daimar não sabia exatamente o que era, mas algo tinha mudado, ele tinha certeza. O perfume dela estava mais intenso, mais penetrante, menos… artificial. A voz dela também parecia ter se tornado um pouco mais grave, mas era uma diferença quase imperceptível. A aparência continuava a mesma… exceto pelo fato de que ela parecia ter adquirido o hábito de usar lenços e chapéus. Nos últimos dias ela estivera sempre com a cabeça coberta o tempo todo.

Ele esperava, com todas as suas forças, que ela voltasse ao normal logo. Aquelas mudanças nela, principalmente o cheiro, o estavam deixando louco. E como ela não estava interessada nele, não tinha nada o que ele podia fazer a respeito. No entanto, seus sentidos diziam a ele que ela tinha, sim, um certo interesse, mas que tentava ignorá-lo a todo custo.

Onde será que ela está?

Seus sentidos haviam notado o movimento dela, quando deixara o quarto bem depois da meia-noite e saíra pela porta dos fundos, sem fazer barulho. Aparentemente ela conseguira ludibriar a vigília de Janica, já que ele não ouvira ninguém mais sair do alojamento além de Cariele.

Teria ela ido se encontrar com alguém? Aquela possibilidade o deixava desconfortável, e aquilo o irritava. De que adiantava ficar pensando nela? E daí que ela já estava fora há mais de uma hora? Ele tinha coisas mais importantes para se preocupar.

Seu pai, por exemplo.

Delinger não havia dado notícias desde que saíra, o que não era, necessariamente, incomum, mas aquilo o deixava inquieto. Ele avisara aos empregados da casa que estava se mudando para o alojamento e que informassem seu pai disso assim que possível, mas provavelmente isso só aconteceria quando ele retornasse. Os administradores que Daimar conhecia também não tinham notícia do paradeiro de Delinger. O homem parecia ter desaparecido no ar.

Os sentidos de Daimar tinham se desenvolvido bastante nos últimos dias, agora ele era capaz de reconhecer boa parte dos seus conhecidos através do faro. Até mesmo as garotas que entraram na fraternidade tinham perfumes característicos que ele conseguia diferenciar, apesar de que, se fosse para comparar o cheiro delas com o de Cariele para decidir qual era o melhor, nenhuma delas conseguia chegar nem perto.

Ele se perguntou, não pela primeira vez, se deveria ir logo àquele endereço do envelope e falar com o homem misterioso que seu pai recomendou. Mas estava indeciso. De alguma forma, tinha a assustadora impressão de que aquilo iria mudar sua vida para sempre… e não para melhor.

De repente, uma pequena vibração quase imperceptível no ar o avisou de que Cariele tinha retornado.

Daimar levantou-se da cama e colou o ouvido à porta do quarto.

Ela era incrivelmente silenciosa. Se isso estivesse ocorrendo semanas antes, ele não teria percebido nada, mas agora, com os sentidos mais aguçados do que nunca, ele conseguia percebê-la com uma clareza impressionante. O calor do corpo dela. A respiração e o pulso acelerado. Ela estava animada, alegre, excitada. Algo de bom acontecera com ela.

Ele percebeu quando ela parou na intersecção dos corredores e olhou na direção do quarto dele. E ficou ali parada, por um tempo, só olhando, o que fez com que ele se arrepiasse da cabeça aos pés. Então ela se virou, entrando no que agora era a ala feminina e, pouco depois, destrancando com cuidado a porta do quarto dela.

Daimar voltou para a cama e deitou-se de costas. Aquela seria uma longa noite.

— Fim do capítulo 5 —
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