Lassam – Capítulo 6: Verdades

Publicado em 11/03/2017
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cap6

6. Verdades

Os tribunais de Lassam ficavam em um enorme prédio do outro lado da cidade, que ocupava quase um quarteirão inteiro. Tinha dois andares além do térreo e a fachada era construída em um estilo moderno, com muitas linhas retas, apesar de, pelo menos na entrada principal, os projetistas terem se rendido à cultura damariana, ornando-a com diversas colunas. Aquilo fazia sentido, uma vez que o sistema jurídico atual do império havia nascido na antiga civilização de Damaria, então nada mais justo que prestar tributo àquele povo através da arquitetura.

Era um lugar impressionante. Daimar nunca estivera ali antes e apreciava os detalhes arquitetônicos, mas com certeza não desejava repetir aquela visita, se pudesse evitar.

Ele e o monitor Britano Eivindi, que continuava seguindo-o por todo lado, passaram pelo arco principal da entrada e viram-se num ambiente espaçoso, com muitos bancos e um balcão de madeira circular atrás do qual trabalhavam duas moças e um rapaz, todos com expressões entediadas enquanto pareciam copiar documentos usando pena e tinta.

Daimar se aproximou do balcão e uma das moças levantou para ele um lindo par de olhos verdes.

– Pois não? – A expressão entediada dela tinha desaparecido de repente, como que por encanto, dando lugar a um olhar surpreso, quase fascinado.

Ele sorriu para ela.

– Bom dia. Viemos para o julgamento de Bodine Gersemi.

A moça piscou e sorriu de volta, o que pareceu transformar completamente o rosto dela. Antes, ela lhe parecera ter uma aparência comum e discreta, mas o sorriso espontâneo a deixava bem mais atraente, quase… intrigante.

– Oh, sim, se puderem me informar seus nomes, eu vou registrar sua presença e chamar alguém para acompanhá-los.

Britano recostou-se no balcão e olhou ao redor, incomodado com a facilidade com que Daimar conseguia atrair a atenção das mulheres sem fazer nenhum esforço. Em menos de dez minutos, durante os quais o barão ficou conversando trivialidades com a moça, um soldado uniformizado apareceu e os conduziu até o tribunal.

Havia cerca de uma dezena de pessoas acomodadas, esperando o… espetáculo começar. Com certeza aquele não era nenhum dos grandiosos julgamentos que ele lera a respeito, onde as pessoas lotavam as tribunas para assistir. Daimar imaginou quem entre aquelas poucas pessoas seriam os familiares do réu.

Enquanto caminhavam por entre os bancos, Britano olhou para ele.

– Por que não perguntou o nome e o endereço da moça? Ela, com certeza os daria para você.

Daimar encarou o monitor, surpreso.

– E por que eu faria isso?

Britano sacudiu a cabeça.

– Esqueça, eu estava apenas pensando em quanto o mundo é injusto.

– Você se interessou por ela? Se for o caso, vá em frente, ela não é meu tipo.

– Deixa para lá. Mesmo que eu estivesse interessado, nunca conseguiria causar a mesma impressão que você.

– Acho que você está se subestimando.

Eles se acomodaram em um lugar vazio num dos cantos da sala, perto da mureta de madeira que separava a área dos espectadores da plataforma central, que se encontrava vazia. Bem à frente deles ficava o banco dos jurados, um pouco à direita ficavam as mesas da promotoria e da defesa, de frente para a grande e imponente mesa de carvalho escuro onde deveria sentar o juiz. Do outro lado ficavam os lugares dos escrivães e secretários. Na parede, de ambos os lados da mesa do juiz, havia grandes portas de madeira, no momento fechadas.

– Por falar nisso, como vão as coisas entre você e a Janica?

Britano olhou para ele de cara fechada.

– Você nos colocou numa posição bastante embaraçosa nos obrigando a morar juntos. Não vou compactuar com a sua noção pervertida de “diversão” fornecendo maiores detalhes.

Daimar riu.

– Calma, meu amigo, nem foi tão ruim assim. Eu até tive o cuidado de me certificar de que nenhum de vocês dois estava envolvido em algum relacionamento.

– Perdoe-me se não demonstrei minha gratidão por você estar xeretando o meu passado, além de metendo o bedelho na minha vida – disse Britano, sem muita convicção, enquanto olhava ao redor, o que fez Daimar imaginar se o monitor estava recebendo um pagamento grande o suficiente para valer a pena continuar com o trabalho de vigiá-lo. – Eu gostaria que isso começasse logo. Odeio esse tipo de lugar.

– E eu gostaria de saber por que, raios, me intimaram para vir aqui.

– Você foi intimado?

– Sim. Conhece a instrutora Cristalin Oglave? Ela apareceu no alojamento ao raiar do dia e disse algo como “estou aqui não como instrutora, mas como oficial do exército, e tenho uma intimação para você”.

Britano soltou um riso involuntário ante a imitação que Daimar fez do jeito de falar e da voz um tanto grave da instrutora.

– Mas você foi intimado para quê? Vai testemunhar?

– Não, segundo o documento que a instrutora me deu é só para eu assistir à sessão.

O monitor chegou a abrir a boca para responder, mas foi interrompido por uma grande algazarra. Olhando para trás, eles notaram a entrada de três rapazes falando alto e rindo. Daimar os reconheceu imediatamente como ex-membros da fraternidade. Todos os três tinham saído depois da expulsão de Bodine. Um dos soldados que guardava as portas da sala se aproximou deles e falou algo em tom de voz baixo, o que fez com que os três se apressassem em se sentar em silêncio.

Quase que ao mesmo tempo, as portas da plataforma central se abriram e diversas pessoas entraram, como se fossem um bando de formigas, preenchendo todos os lugares, exceto os bancos dos jurados. Bodine foi um dos últimos a aparecer, tendo as mãos imobilizadas atrás das costas por algum mecanismo que o soldado que o acompanhava só removeu quando ele chegou ao seu lugar. Ele parecia bem, mas o macacão esverdeado deixava ver as bandagens nos pulsos e no pescoço. Provavelmente levaria várias semanas ainda para se recuperar totalmente.

O grupo de ex-membros da fraternidade saudou o réu com gritos, assobios e provocações. Bodine olhou para eles e sorriu, levando as mãos à boca para responder, mas o advogado dele imediatamente o segurou pelo braço e o fez virar-se para a frente.

Finalmente, um homem franzino na casa dos quarenta anos entrou, usando a característica capa negra que o identificava como juiz. Ele não perdeu tempo, andou rápido até sua mesa e, ainda em pé, pegou uma concha amplificadora de voz e pediu silêncio, dando início aos procedimentos. Depois de alguns esclarecimentos sobre como a sessão transcorreria, o juiz passou a palavra para o promotor, que se aproximou, pegou a pequena concha e começou a falar, descrevendo rapidamente os acontecimentos que tinham levado ao encarceramento do réu.

– Acredito que temos aqui presente o senhor Daimar Gretel, o responsável pela denúncia inicial.

Sem alternativa, Daimar levantou a mão, o que chamou a atenção de todos, principalmente dos três rapazes barulhentos, que o encararam com raiva.

– O império agradece por sua colaboração – disse o promotor a Daimar, antes de retomar seu discurso, descrevendo os dias que Bodine precisou passar no hospital e a aplicação do encanto da verdade, sob o qual ele confessou ter cometido o crime.

Daimar olhou para Bodine, que havia se virado para ele e estava sorrindo presunçosamente. O que significava aquilo?

O promotor continuava discursando.

– No entanto, algum tempo depois o réu alegou que não estava pensando com clareza da primeira vez e exigiu que fosse repetido o procedimento. A promotoria não encontrou nenhuma razão para negar o pedido e um novo encanto da verdade foi aplicado, dessa vez em sigilo de justiça. As informações recebidas do réu nesse segundo depoimento foram valiosas para uma outra investigação que estava em andamento, e nesta madrugada, graças à colaboração de diversos cidadãos, um grupo de pessoas foi preso sob diversas acusações, incluindo assassinato, prática de hipnotismo, sequestro e uso ilegal de informação privilegiada. Esse grupo era formado por membros da família Lenart e por associados. A filha mais nova da família, que também está presa, se chama Ebe Lenart, e era a suposta vítima da acusação de estupro que pesa sobre o réu, Bodine Gersemi. Conforme apuramos mais tarde, várias provas confirmam que o réu foi apenas uma das muitas vítimas dessa criminosa, que utilizava artefatos ilegais criados pelos pais para implantar sugestões hipnóticas nos homens dos quais abusava, de forma que não lembrassem do que tinha ocorrido. No caso do réu, ela decidiu se divertir invertendo os papéis, fazendo com que ele acreditasse que quem havia cometido o abuso era ele.

Daimar viu-se de olhos arregalados. Aquilo era… inacreditável.

O julgamento prosseguiu por duas horas, o promotor detalhando todas as provas em favor do réu, para justificar o fato de todas as acusações estarem sendo retiradas. Em seguida, o advogado de defesa fez um discurso enaltecendo a ação impecável dos investigadores e a atitude acertada da promotoria, que não medira esforços para encontrar a verdade, mesmo que isso significasse perder uma condenação. Por fim, o juiz perguntou se alguém da plateia tinha algo a acrescentar ao caso e, como nenhum dos poucos presentes se manifestou, ele declarou o réu inocente, mandou soltá-lo imediatamente e encerrou a sessão.

Meia hora depois, os amigos barulhentos escoltavam Bodine – que agora usava suas roupas civis – para fora do prédio quando toparam com Daimar aguardando-os do lado de fora. Um deles imediatamente esbravejou:

– O que você quer?

Daimar olhou para Bodine.

– Eu ficaria grato se você pudesse me conceder um minuto do seu tempo.

O outro deu uma sorriso sarcástico.

– Para quê? Está arrependido do que fez, é?

– Sim.

Aquela palavra, dita sem nenhuma hesitação, fez com que Bodine esquecesse um pouco de sua raiva e encarasse o barão com atenção. Os outros rapazes começaram a lançar insultos a Daimar, mas Bodine levantou a mão e mandou todos calarem a boca, antes de voltar-se novamente para ele.

– Eu estou te devendo um soco. Ou dois.

– A hora em que você quiser. Mas vou avisando que a partir do segundo eu vou revidar.

Bodine arreganhou os dentes, e soltou uma risada exagerada, antes de puxar Daimar para um canto e falar baixinho no ouvido dele:

– Sabe, eu não gosto de você. Nunca gostei. Mas meu advogado me disse que você salvou a minha vida quando me mandou para o hospital e me denunciou para o exército. Se eu recobrasse o juízo e abrisse a boca para qualquer um sobre o que aquela vadia me fez, eu estaria debaixo do canteiro de flores dela, assim como a meia dúzia de outros caras que desenterraram de lá. Ele também me disse que você está no seu direito e que eu me daria mal se tentasse te bater, então não vou fazer isso. – Daimar lembrou-se dos curativos que o outro usava, que eram as consequências diretas de uma tentativa de bater nele, mas achou melhor se manter sério e não falar nada. – Mas pode ficar sossegado que vou pensar numa forma bem divertida de retribuir o que você me fez.

Daimar apenas assentiu. Bodine voltou a arreganhar os dentes e caminhou para junto de seus amigos.

– Deixem esse perdedor aí. Ele não vale a pena.

Depois de lançarem mais alguns insultos a Daimar, os outros três seguiram Bodine e se afastaram. Daimar ficou olhando-os por um longo tempo, imaginando se apenas se declarar arrependido do que fez realmente era suficiente para se redimir. Acabou concluindo que não havia muito mais o que fazer numa situação delicada como aquela. Não podia convidar eles de volta para a fraternidade, pois, se eles aceitassem, isso poderia colocar os outros membros em risco. Afinal, eles poderiam tentar algum tipo de retaliação pelo ocorrido.

Seus devaneios foram interrompidos quando ele pressentiu a aproximação de Cristalin Oglave. Ele se virou para encará-la, o que a deixou levemente surpresa.

– Instrutora. Imagino que esteve envolvida na captura da família Lenart.

– Sim − disse ela, parando diante dele e cruzando os braços.

Cristalin usava um uniforme do exército, de um tom entre alaranjado e verde, com uma insígnia metálica presa em seu peito, sobre o coração. O símbolo em relevo da peça representava um pássaro de fogo, e abaixo dele tinha algumas linhas e uma estrela, que indicavam a patente militar do oficial que as usava.

– O advogado de defesa elogiou bastante o trabalho de vocês.

– Sim, mas tivemos bastante ajuda − respondeu ela, encarando-o, séria. – Não imaginei que fosse querer acertar contas com Bodine, barão.

Ele deu de ombros.

– Eu nem sequer pensei na possibilidade de ele não ser culpado.

– Ninguém pensaria. A ficha de transgressões dele é bem extensa.

– Mesmo assim, fui injusto.

– Fico contente que pense assim, senhor Gretel, mas devo avisá-lo para tomar cuidado. Muitos estão ressentidos com você depois desse episódio. Recomendo cautela. E bastante atenção na escolha de suas companhias.

Daimar olhou para Britano, que estava encostado numa parede do outro lado da rua, olhando na direção dele e segurando uma caneca numa das mãos enquanto mastigava alguma coisa.

– Nesse caso, que bom que tenho um guarda-costas.

– Apenas pense no que eu disse, tudo bem? E não falte à aula de hoje à tarde.

♦ ♦ ♦

– Aqui está − disse o oficial, oferecendo uma bolsa grande e pesada, que Cariele recebeu com satisfação. – Não vá andar com isso pela rua, duvido que consiga chegar muito longe sem ser assaltada.

– Não se preocupe − respondeu ela, tirando um pequeno lenço preto do casaco com o qual ela envolveu a bolsa e a comprimiu de leve. O volume foi desaparecendo no interior do tecido opaco até que pareceu não restar nada. Ela então, calmamente, dobrou o lenço e o recolocou no bolso.

– Fundo infinito? – O soldado sorriu, impressionado. – Bem que eu gostaria de ter um desses, mas com meu salário…

– E quanto a meus simulacros?

O homem ficou sério.

– Desculpe, Cariele, mas não vou ter condições de repor.

– Mas fazia parte do acordo!

– Não é tão simples recarregar essas coisas, ainda mais três delas.

– Eu sei disso! E é exatamente por isso que eu fiz esse acordo!

– Desculpe, não posso fazer nada, ordens de cima.

– Ah, aquela… aquela… ela vai se ver comigo, ah se vai!

Usando um tom de voz conciliatório, o oficial disse:

– Por que não leva os simulacros até um laboratório? Se você seguir à esquerda até o fim da rua vai encontrar um, e ele é bastante confiável, pertence à família Gretel. Fale com eles, talvez façam um desconto para você.

Cariele estava se preparando para falar poucas e boas para ele, mas esqueceu de tudo ao ouvir o nome “Gretel”. Ela conhecia a reputação dos laboratórios da família, mas nunca tinha feito a ligação daquele nome com o do barão da Alvorada. Fazia todo o sentido, afinal, segundo as informações que tinha levantado, a riqueza da família dele era impressionante. Era até possível que existissem duas famílias ricas com o mesmo sobrenome, mas aquilo lhe parecia altamente improvável.

De repente ela percebeu que tinha ficado calada e pensativa por tempo demais, e voltou a encarar o oficial.

– Tem mais algum trabalho para mim?

– Achei que você fosse querer tirar umas férias depois desse pagamento gordo.

– Está brincando? Vocês nem repuseram o material que eu gastei.

O homem não parecia mais interessado em insistir naquele assunto.

– Bom, não tenho nada do que você costuma aceitar no momento. Mas posso avisar caso apareça algo.

Ela suspirou. Não adiantava nada ficar brava com quem só estava cumprindo ordens.

– Obrigada – disse, levantando-se e ajeitando a massa de cabelos que cascateavam a partir do turbante que usava. – Vou ficar aguardando, não se esqueça de mim.

Ele sorriu.

– Pode contar com isso.

Até que ele pode ser considerado um homem agradável, pensou ela, se deixar de lado o fato de trabalhar para uma sacana. Ao sair da sala dele e fechar a porta atrás de si, ela refletiu que isso era uma das coisas que considerava essenciais em um homem. Queria um parceiro que fosse agradável e descomplicado. E, claro, muito rico. Não era pedir muito, era?

Os soldados que trabalhavam no posto militar sorriram e a cumprimentaram enquanto ela passava por eles. Já tinha vindo ali tantas vezes nos últimos anos que era considerada “de casa” ali. Retribuindo os cumprimentos, ela caminhou na direção da porta de saída, que se abriu de repente para dar entrada à tenente Cristalin Oglave.

– Cari! – A recém-chegada adiantou-se para dar um abraço em Cariele. – Menina, que trabalho fenomenal!

De alguma forma, elas tinham se tornado amigas com o passar dos anos, depois que Cariele começou a trabalhar para ela ocasionalmente. Apesar de se darem muito bem, a relação de contratante e contratada entre elas exigia que fingissem não se conhecer quando se encontravam fora daquele lugar, principalmente na academia.

– Cris, sua vira-casaca! – Cariele afastou a outra e encarou-a de cenho franzido.

– O que foi? Não recebeu a recompensa? Mandei que deixassem tudo pronto para você.

– Você prometeu que iria repor o material que eu gastasse!

– Se me lembro bem, não foi exatamente isso o que eu disse. O que você precisa repor?

– Três simulacros boreais.

Cristalin fechou os olhos e suspirou, levando a mão à testa.

– Você tem treinamento militar, garota, por que fica gastando essas coisas? Sabe o quanto isso custa?

– É claro que eu sei! Mas minha vida estava em jogo, sabia? E eu capturei aquela vadiazinha e mais um monte de capangas sozinha!

– Não posso me responsabilizar por isso. Você não quis aguardar reforço.

Cariele soltou uma risada sem humor.

– Não acredito nisso.

– Você tem que aprender a ser um pouco mais razoável. Agir em equipe não vai te matar. Se continuar nesse ritmo, mais cedo ou mais tarde vai se dar mal.

Aquele discurso sobre sua incapacidade de trabalhar em equipe era uma constante na vida de Cariele. Já o tinha ouvido tantas vezes e de tantas pessoas que adquirira o hábito de ignorá-lo.

– Não posso pegar mais trabalho se não tiver uma fonte de energia para minhas armas.

– Você teria energia de sobra se deixasse de ser teimosa e fizesse um pouco de terapia espiritual.

– Sem chance. Não quero ninguém entrando na minha cabeça, obrigada.

Cristalin suspirou de novo, antes de pegar um pequeno objeto do bolso.

– Aqui – disse ela, jogando o pequeno cubo brilhante para Cariele. – Isso deve servir para você, pelo menos, se proteger por algum tempo.

Depois de analisar o objeto com atenção, Cariele sorriu, satisfeita.

– Uau! Esse é um dos bons! Tem mais energia aqui do que caberia em todos os meus juntos!

– Sim, e recebi como um presente pessoal de um grande amigo. Melhor cuidar bem dele, vou querer de volta.

– Obrigada. Mas vai ser uma pena gastar isso. Deve custar uma fortuna para recarregar.

Cristalin sorriu, maliciosa.

– Fale com seu amigo Daimar. Talvez ele te faça um preço camarada se você pedir com jeitinho.

Por um momento, Cariele se distraiu imaginando o que poderia fazer para convencer o barão a lhe fazer um favor como aquele. E, para seu horror, sentiu o sangue subir ao seu rosto. A tenente, obviamente, percebeu o fato, mas, felizmente, preferiu deixar aquilo de lado e mudar de assunto.

♦ ♦ ♦

Depois de se despedir de Cristalin e sair do posto militar, Cariele parou na calçada e olhou ao redor, com todos os sentidos em alerta. Tinha a nítida impressão de que alguém a estava observando. De repente ela se lembrou do que ocorrera durante a madrugada, e concluiu que ele estava por perto.

Sentiu um frio na barriga ao se lembrar de que, várias horas antes, ela usara seu treinamento militar para tentar localizar a fonte da sensação e se vira encarando o outro lado do corredor, mais especificamente, a porta do quarto do barão. As habilidades especiais de Daimar, obviamente, iam muito além do olfato. Ele tinha algo parecido com a técnica militar conhecida como percepção. Isso permitia que ele sentisse a presença dela à distância e a espionasse, mesmo sem poder vê-la.

Ao perceber que a habilidade dele talvez estivesse revelando muito mais sobre ela do que gostaria que ele soubesse, seu coração tinha se acelerado e seu corpo havia sido varrido por uma enxurrada de sensações que não lhe eram muito familiares. Então ela tinha se virado e corrido para o próprio quarto, quase implorando à Grande Fênix que não permitisse que ele a observasse ali dentro. Felizmente, assim que fechara a porta atrás de si a sensação sumira por completo e ela tinha respirado aliviada.

E agora ela estava ali, no meio da rua, sendo observada de novo, da mesma forma. Estreitando os olhos, ela olhou ao redor e percebeu que havia um bar na esquina, então ela se encaminhou para lá. Sem pensar duas vezes, entrou no estabelecimento e caminhou até o balcão, pedindo um copo de água ao atendente, antes de se recostar ali, olhando na direção da porta.

Cinco minutos depois, Daimar Gretel entrou, encarando-a com um sorriso enquanto se recostava no balcão ao lado dela e pedia uma cerveja.

– Começou a me espiar à distância agora, barão?

– Imaginei mesmo que você perceberia.

O atendente colocou um copo diante dele e o encheu com o conteúdo de uma jarra. Ele jogou algumas moedas para o homem e fez um sinal para Cariele em direção a uma mesa mais afastada das outras, perto da janela.

O estabelecimento estava praticamente vazio àquela hora da manhã, o que tornava aquele lugar propício para o que ela queria falar para ele, então o seguiu até a mesa, onde sentaram-se de frente um para o outro.

Ele lhe lançou um olhar especulativo.

– Você tem ligação com os militares, não tem? Percebi que estava conversando com a instrutora Oglave.

– Você está usando habilidades especiais para me espionar – disse ela, ignorando a pergunta. – Por quê?

– Não é proposital, eu juro – disse ele, levantando as mãos. – A primeira vez que isso aconteceu foi quando você voltou ao alojamento essa noite. E, por mais que eu tente, parece que só consigo fazer isso com você.

O coração dela voltou a bater descontroladamente.

– Isso não é nada lisonjeiro.

– Desculpe.

– Não quero que faça isso de novo.

– Não tenho muito controle sobre isso…

– Então aprenda a se controlar!

Sem saber direito como responder àquilo ele acabou falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

– Você participou da prisão da família Lenart, não é?

Cariele suspirou.

– E você acha isso por…?

– Você passou boa parte dessa madrugada fora do alojamento. Além disso, você acabou de sair do posto militar, e estava conversando com a tenente, que me deu a entender que era responsável pelo caso.

– Está bem – admitiu ela, querendo encerrar logo aquela conversa. – Fui eu que prendi aquele traste da Ebe Lenart. Finalmente.

Ele a estudou por um tempo, tentando digerir aquilo.

– Você sabia que ela era criminosa há bastante tempo, não sabia? Por isso se irritou comigo quando expulsei Bodine da fraternidade.

– Sim, eu sabia. Mas ainda estava juntando provas. Então eu rastreei a dolaneodiproma que nossos amigos tomaram e descobri que tinha vindo de um dos laboratórios deles. Daí até conseguir uma autorização para busca e apreensão foi um pulinho.

– Você investigou a origem da droga que mandou eles para o hospital?

– Sim, por que a surpresa?

– Na época, isso nem me passou pela cabeça.

– Não se pode pensar em tudo o tempo todo.

– Há quanto tempo você faz isso? Trabalhar para o exército, quero dizer? Você não é oficial, é?

– Eu fui. Pedi baixa há alguns anos e me mudei para cá. Desde então eu trabalho como mercenária.

Ele arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Ao perceber a reação dele, ela sorriu.

– O que foi? É um trabalho perfeitamente legal. Eles me contratam quando tem algum trabalho importante que eles mesmos não conseguem fazer por falta de pessoal.

– Então é disso que você vive?

Ela deu de ombros.

– Praticamente.

– Não é perigoso?

– Viver é perigoso. Sabia que teve dois casos ontem de homens morrendo por terem caído do cavalo?

– Se pensa assim, por que saiu do exército?

Ela tomou um gole da água e olhou pela janela, sem responder. Ele também tomou um gole de sua própria bebida e aguardou um pouco, mas o silêncio prosseguiu e, por fim, ele decidiu não insistir naquilo.

– No trabalho da noite passada… você teve que lutar?

– Claro – disse ela, voltando a encará-lo. – Eu prendi mais de dez criminosos, muitos em flagrante delito, acha que viriam pacificamente se eu pedisse?

– Pelos céus! E você estava sozinha?! Foi ferida?

Ela sorriu ante à preocupação dele.

– Só em minhas economias. Acabei gastando muito mais energia do que eu previ e agora vou ter que pagar uma pequena fortuna para conseguir novos simulacros. A propósito, a tenente sugeriu que eu seduzisse você para conseguir um desconto. O que acha? Isso funcionaria?

Ele riu, divertido.

– Com certeza, não. A ideia da sedução é interessante, mas não faço essas coisas quando sei que minha parceira tem segundas intenções.

– Que pena.

Na verdade, aquela resposta a fez sentir-se um pouco aliviada. Ali estava um bom motivo para manter-se longe dele.

– Você disse que derrotou mais de dez pessoas sozinha?

– Não. Eu disse que prendi mais de dez pessoas. E foi uma de cada vez. Ou melhor, a maioria foi.

– Para gastar mais de um simulacro, imaginei que tinha saído soltando bolas de fogo para todo lado.

Ela deu de ombros de novo, desta vez sentindo-se desconfortável.

– Aconteceram… imprevistos.

– Sei. – Ela, obviamente, não queria que ele insistisse naquele ponto, então ele olhou pela janela e viu Britano parado do outro lado da rua, conversando com uma moça que vendia flores. Ele foi associando uma coisa a outra e percebeu algo que não tinha notado até agora. – Ei, onde está Janica? Ela não deveria estar seguindo você, como sempre?

– Ela está no hospital – respondeu Cariele, automaticamente, antes de se dar conta de que não devia revelar essa informação.

– O quê? O que houve com ela? Espere… ela participou da ação com você?

Cariele suspirou e levou a mão à testa, desanimada. Agora que já falara demais não fazia sentido ocultar o resto.

– Ela me seguiu. Quando me dei conta do que estava acontecendo ela tinha sido capturada por aqueles sádicos.

– Então você a salvou?

– Eu consegui libertá-la, mas já tinham dado uma surra e tanto nela. Eu a levei para o hospital, mas, exceto por alguns hematomas, ela está bem. Ficou lá apenas para observação e deve receber alta daqui a umas duas horas.

– Você está dizendo que atacou a casa de uma família que tinha um grupo grande de seguranças, libertou uma refém e a protegeu enquanto derrotava todo mundo, sozinha? Tudo isso sem sofrer nenhum arranhão?

– Eu não sou nenhuma amadora, sabia? Eu tinha planos de contingência.

– Isso explica porque precisou de tanta energia. O exército não deveria dar novos simulacros para você?

– Parece que isso não estava no contrato. Alegaram que eu não segui as regras.

– Pelo que me disse, você salvou uma vida. Isso não é uma justificativa adequada?

Ela se empertigou.

– Eles não precisam saber disso.

– Como é?!

Cariele suspirou.

– Ela estava lá por culpa minha. Eu me garanti para sair do alojamento sem ser percebida, mas acho que ela deduziu que eu ia sair e ficou escondida em algum lugar do lado de fora, esperando. Depois que me afastei do prédio eu não ativei minha percepção para economizar energia, e ela me seguiu. Se a Cris ficar sabendo que isso aconteceu eu nunca mais vou conseguir trabalho com ela de novo. E você tem que manter segredo!

Ele tomou um gole da cerveja morna, pensativo. Imaginara diversos cenários que pudessem explicar a postura e a forma de se mover de Cariele, mas nunca poderia imaginar que ela ganhasse a vida daquela forma, fazendo os trabalhos que nenhum soldado queria fazer. E ela, aparentemente, era muito competente nisso.

– Eu acho que você está exagerando. A culpa não é sua, é de quem a colocou para seguir você. Não acho que Cristalin iria despedir você só por causa disso. Aliás, você não pensou em pedir para ela investigar quem mandou o supervisor colocar Janica na sua cola?

Cariele soltou um riso sem muito humor.

– Não creio que ela tenha interesse em me deixar saber dessa informação.

Ele estreitou os olhos.

– Você acha que ela está envolvida?

Dando de ombros, Cariele terminou de tomar sua água e largou o copo sobre a mesa, voltando a olhar pela janela. Depois de algum tempo, ele decidiu mudar de assunto.

– Por que não me dá os simulacros? Eu darei um jeito de recarregar eles para você.

Ela olhou para ele de cenho franzido.

– Como assim? De graça?

Foi a vez de ele dar de ombros.

– Eu mandei um cara inocente para o hospital e depois para a masmorra. Você prendeu a verdadeira criminosa e, assim, tirou ele de lá. Acho que eu te devo essa.

Ela refletiu sobre aquilo por alguns instantes. Trocando favores daquela forma eles acabariam se aproximando ainda mais e ela não queria isso, apesar de ter uma parte dela que se sentia muito excitada com a ideia. Se ela recusasse a oferta ele provavelmente não ia gostar, pois aparentemente se sentia mesmo responsável pela prisão indevida de Bodine. Era curioso, inclusive, ele estar demonstrando um senso de responsabilidade tão grande.

– Como você consegue convencer as pessoas de que é um delinquente?

Ele riu.

– Não sei. Talvez da mesma forma que você convence os outros que é uma caçadora de fortunas.

Ela ficou séria.

– Eu não tento convencer ninguém disso. Não preciso, porque é exatamente isso o que eu sou.

Ele quase engasgou com o gole de cerveja que estava tomando.

– Você está brincando?

– Não.

– Eu não entendo. Por quê?

– Não é de sua conta.

Ele suspirou, impaciente.

– Você é cheia de segredos.

– Assim como você.

Ficaram se encarando, desafiadoramente, por um longo momento, até que ele resolveu mudar de assunto.

– A instrutora permite que você a chame de “Cris”? Não deveria ser “oficial” ou “tenente”?

Aquela pergunta a pegou totalmente de surpresa. Ela hesitou um momento, antes de dar de ombros e responder:

– Depois de tanto tempo trabalhando com ela, acho que abolimos as formalidades.

Voltaram a ficar em silêncio, se avaliando.

E ele já estava ficando farto daqueles silêncios desconfortáveis.

– Você vai me dar os simulacros?

– Estão em minhas armas. – Ela sorriu. – E você não vai querer que eu saque elas dentro de um bar, não é?

– Carrega suas armas com você para todo lado?

– Claro.

– Espere… você anda armada dentro da academia? Até nos alojamentos?

– Quantos militares você já conheceu?

– A ponto de chamar de “amigo”? Nenhum.

– Se conhecesse algum, saberia que isso é procedimento padrão.

– Certo – disse ele, não parecendo muito convencido. – Mas se os simulacros estão descarregados, porque estão equipados nas suas armas?

– Planos de contingência, lembra? Eu tenho muitos deles.

– Então porque não vamos para um lugar onde não tenha ninguém por perto para que você possa me mostrar suas… armas?

Ela sorriu.

– Que tipo de proposta é essa, barão? Tem algum lugar em mente?

– Talvez. Que tal meu quarto no alojamento?

– Tenho que passar no hospital e depois tenho aula.

– Eu também. Porque não me deixa acompanhá-la? Podemos deixar essa conversa sobre as armas para a calada da noite, que tal?

Cariele não se lembrava de alguma vez ter flertado tão abertamente com um rapaz apenas por diversão, sem ter nenhum real interesse em se envolver com ele. Também não se lembrava de algum dia ter se divertido tanto com uma troca de palavras de duplo sentido.

Daimar, por sua vez, se sentia muito bem consigo mesmo. Ela continuava escondendo muita coisa dele, mas ele tinha a impressão de que hoje tinha feito enormes progressos na árdua tarefa de entendê-la. Assim, permanecera pelo resto do dia em um estado de satisfação e ansiedade pelo que aconteceria à noite.

Aquilo o fez sorrir com a reação de Britano ao ficar sabendo que Janica estava no hospital. E mais ainda quando conseguiu convencer o monitor a comprar algumas flores para ela.

O fez rir da expressão exagerada de surpresa no rosto de Janica ao receber as flores.

Fez com que se divertisse com a expressão de Cariele quando a monitora declarou que continuaria fazendo seu trabalho de vigilância, mesmo agora que sabia que tipo de trabalho a outra fazia.

Mais tarde, o fez achar interessante o comportamento de Cariele e Cristalin, que realizavam um ótimo trabalho em fingir que não se conheciam durante as aulas.

Já à noite, fez com que apreciasse muito a beleza do céu estrelado enquanto voltava para o alojamento.

Também o fez achar comovente uma carta anônima com uma declaração de amor que alguém colocou em seu quarto por debaixo da porta.

E, por fim, fez com que ficasse muito, mas muito decepcionado quando finalmente concluiu que Cariele não viria em seu encontro naquela noite.

Na manhã seguinte, recebeu uma carta de seu pai. Delinger Gretel lamentava pela ausência prolongada e avisava que provavelmente ficaria fora por mais algumas semanas. E ainda pedia para Daimar não tentar localizá-lo.

— Fim do capítulo 6 —
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