Valena – Capítulo 6

Publicado em 07/02/2018
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6. Mandachuva

A vida no submundo da capital do império não era nada simples.

Sileno Caraman era um imperador justo e fazia tudo a seu poder para coibir a criminalidade, incluindo forçar os prefeitos e governadores a investirem pesado no armamento e especialização das tropas. Essa atitude reprimia o crime, mas não o eliminava. E, se tem uma coisa que pode ser dita a respeito da humanidade é que ela tem uma impressionante capacidade adaptativa. Em meio a dificuldades, as pessoas sempre encontram formas criativas de se dar bem. Infelizmente, isso acontece tanto para o bem quanto para o mal.

Logo que se tornaram moradores de rua, Barlone e Valena descobriram que seria muito complicado sobreviverem daquela forma. Existiam gangues, formadas por jovens e adolescentes, que disputavam os territórios da cidade entre si. E a regra entre esses grupos, invariavelmente, era algo como “se você não está comigo, está contra mim”. O constante medo de serem presos pelo exército tornava aqueles jovens incrivelmente cruéis. Havia muitos mitos no submundo, criados a partir desse medo.

“Se eles te pegarem, você nunca mais verá a luz do dia”.

“Uma vez na prisão, você fará trabalhos forçados para o resto da vida”.

“Eles lançam um feitiço em você e o transformam em uma mula de carga”.

“Eles servem os prisioneiros como oferendas para matar a fome da Grande Fênix”.

Barlone precisou usar seus poderes diversas vezes para evitar que ele e Valena fossem espancados ou coisa pior. Depois de muitas desventuras, eles finalmente conseguiram fazer um acordo com uma determinada gangue, que os deixou dormir em um velho casarão abandonado no subúrbio.

O lugar, no entanto, estava em um estado tão deplorável que tiveram um pouco de dificuldade para encontrar um cômodo que não se parecesse com um banquete de cupins.

Ele colocou um pequeno cristal de luz contínua em um suporte de vidro na parede que, miraculosamente, ainda estava intacto, antes de lançar um olhar crítico ao redor.

– Esse lugar está uma bagunça.

Valena procurou um canto onde o chão e a parede pareciam razoavelmente firmes e sem mofo e soltou a trouxa de roupas sobre o piso. Então apoiou as costas na parede e cruzou os braços, antes de responder, sem olhar para ele.

– Depois de dormir tantos dias ao relento ou debaixo de pontes, isso aqui é uma maravilha.

Barlone olhou criticamente para ela. Valena usava um conjunto velho de trajes escuros e antiquados. A roupa era grande demais para ela e estava toda amassada, mas pelo menos estava razoavelmente limpa, já que ela havia lavado tudo no rio de manhã.

Algo na forma como ela se movia e falava lhe parecia estranha. Seria apenas cansaço?

– Você está bem?

Ela olhou para ele, com expressão neutra.

– Sim, por quê?

– Parece pálida. Está com fome?

Ela se abaixou e desamarrou sua trouxa, que era composta por uma pequena pilha de roupas enroladas em um pequeno e fino cobertor de peles. Deixando as roupas de lado, ela ajeitou o cobertor no chão enquanto respondia.

– Não. Além disso, a comida que Dariana nos deu já está acabando, não seria melhor racionar um pouco até conseguirmos mais?

Em meio à confusão com as gangues, um dia eles tinham ido até a casa da mulher e descobriram que Dariana estava metida em um relacionamento bastante patológico e abusivo. Ela havia dado a eles comida e roupas, implorando para que nunca mais voltassem lá.

Ver alguém daquele tamanho e com aqueles músculos morrendo de medo, normalmente, teria sido um choque para Valena. No entanto, depois de tudo o que acontecera, ela estava em um estado de apatia grande demais para se importar.

– Isso não vai adiantar de nada se você ficar doente – disse ele, colocando a própria trouxa no chão ao lado da dela.

– Sou mais resistente do que pareço – respondeu ela, levando a mão ao pescoço e desamarrando o pequeno cordão que mantinha unidas as duas partes da frente da túnica.

Ele arregalou os olhos.

– O que está fazendo?

– Tirando a roupa. É a única que eu tenho que não está imunda.

Barlone ficou vermelho.

– Mas precisa fazer isso na minha frente?

– Qual o problema? Você não visitava aquele… bordel o tempo todo? Devia estar cansado de ver mulher pelada.

Faziam semanas desde aquele episódio. Aquela noite parecia tão distante agora que mais se parecia uma espécie de sonho.

– Eu não ia lá o tempo todo!

– E por que não?

Ao ver que ela puxava o traje por sobre a cabeça, ele ficou de costas.

– Dariana sempre me deu uma impressão ruim.

– Aquele soldado disse que ela explorava menores. Ela tentou… você sabe…?

– Bom, ela veio assistir uma apresentação junto comigo uma vez e ficou se… esfregando.

– E o que você fez?

Como Valena parou de fazer barulho, ele achou que era seguro olhar para ela de novo. Então virou-se e viu que ela tinha se deitado sobre o cobertor, cobrindo com ele a parte superior do corpo e apoiava a cabeça sobre uma velha calça dobrada. Mas a coberta era curta demais e deixava a maior parte de suas pernas à mostra.

Ele engoliu em seco.

– Fiz ela… pensar que estava com fome. Aí aproveitei para ir embora quando ela saiu para buscar algo para comer.

Valena riu.

– Esses seus poderes podem ser bem úteis, às vezes.

– É – concordou ele, distraído.

Ela notou que ele encarava suas coxas.

– Ei – ela disse, em um tom de voz baixo. – Alguma vez você já… fez alguma daquelas coisas… que vimos naquele lugar?

Se alguém lhe perguntasse, Valena diria que não estava apaixonada. Na verdade, nem sabia direito se gostava dele. Barlone era o primeiro amigo que ela fizera na vida e o relacionamento deles era bastante estranho.

Primeiro, por causa dos poderes dele, que a faziam se sentir irrelevante. Ele era capaz de fazer qualquer coisa, manipular qualquer um. Ele havia lhe revelado que a mulher do festival, a que lhes dera comida, era uma das “vítimas” dele. Na primeira vez em que a vira, a mulher o tinha tratado com tando desprezo e falta de educação que ele resolveu fazer com que ela acreditasse que gostava dele como um filho.

Valena tinha perguntado a ele por que se dava ao trabalho de ajudar a mulher na loja, ao que ele respondeu que se sentia mal por aceitar a comida sem fazer nada em troca.

Aquilo era outra coisa que a fazia sentir-se, de certa forma, inferior a ele. Barlone tinha um senso de responsabilidade incomum, e fazia o possível para não causar mal a ninguém. Valena tinha certeza de que, se aqueles poderes fossem dela, ela não se importaria com nada e nem ninguém além de si mesma.

Ele, por outro lado, vivia compartilhando coisas com ela. Até mesmo aqueles momentos no bordel podiam ser considerados uma partilha, não? Afinal, ele poderia muito bem ter ido sozinho, mas preferiu levá-la com ele. Não fazia sentido pensar que ele a levara lá com segundas intenções, pois, considerando aquela habilidade de manipulação, ele poderia fazer o que quisesse com ela em qualquer lugar, até mesmo lá no abrigo.

Mas ele não era assim, ela tinha certeza. Ele nunca lhe parecera um aproveitador, na verdade, sempre lhe parecera solitário, carente.

E, naquele momento, a olhava com uma expressão desejosa, sedenta.

De repente, o mesmo clima que tinha surgido entre eles no aposento do bordel estava de volta. A curiosidade, a excitação, a euforia. Os olhos de ambos se encontraram sob a pálida luminosidade do ambiente. Então ele se aproximou e, ali na penumbra, apesar do local muito pouco apropriado, o relacionamento de ambos subiu para um outro nível.

♦ ♦ ♦

Não era muito difícil encontrar trabalho em Aurora para uma criança de 12 anos de idade. Ferreiros, tecelões, taberneiros, tintureiros, havia inúmeros estabelecimentos com bastante trabalho e pouca mão de obra disponível. Infelizmente, a situação era bem diferente quando você era um órfão sem teto, e, pior ainda, se for um foragido da justiça.

– Por que estamos sendo procurados? Não fizemos nada.

Valena chutou um pedaço do forro de madeira, que estava tão apodrecido que havia caído na noite anterior. Aquele aposento onde dormiam estava parecendo cada vez mais decadente, mas nenhum dos dois realmente se importava com aquilo.

– Devem ter prendido todo mundo que vivia no abrigo – respondeu Barlone. – Passei lá hoje cedo e estão derrubando a casa.

– E eu não consegui nenhum dinheiro hoje – reclamou ela. – O ferreiro viu meu rosto num cartaz de “procura-se” e me pôs para fora, mandando que nunca mais voltasse lá.

– Eles vão esquecer da gente depois de um tempo.

– Precisamos ir embora daqui. Achar uma cidade onde ninguém nos conheça.

– Não temos dinheiro para isso.

– Mas você podia…

– Não. Eu não quero usar esse poder. Já estou cansado dele. Para dizer a verdade, ficaria feliz se não precisasse usar isso nunca mais.

– O que você tem? Está esquisito. E já faz algum tempo.

– Não tenho nada.

– Quer parar de ser teimoso, seu xusuusnow?

– O que te importa, afinal?

– Como assim? Eu sou a menina que está dormindo com você há quase um mês, lembra?

A reação dele àquela colocação não foi, nem de longe, o que ela esperava. Ao invés de sorrir e fazer um comentário qualquer, ou lhe fazer algum carinho, ele a olhou como se nunca a tivesse visto antes.

– Eu encantei você.

– Hã?!

– Eu encantei você, assim como eu faço com todo mundo. Por isso você dormiu comigo!

Ela arregalou os olhos.

– Que história é essa?

– Deve ter acontecido desde o começo, quando eu ajudei você com os gêmeos. Desde então você não desgrudou mais de mim.

– Você usou seu poder em mim?!

– Eu não sei! Mas por que mais você estaria aqui comigo? Ninguém gosta de mim, ninguém se importa comigo, ninguém nunca me dá atenção a menos que eu obrigue.

– Isso é mentira! Eu gosto de você!

A expressão dele agora era de horror.

– Eu levei você comigo quando saí escondido do abrigo. Eu levei você naquele lugar! Eu… destruí a sua vida! E depois disso ainda me aproveitei de você!

Ela ficou sem ação, olhando para ele, completamente embasbacada, até que ele pegou uma pequena bolsinha de moedas e colocou nas mãos dela.

– O que é isso?

– O dinheiro que eu tenho. Vá até o alquimista da praça da ponte, amanhã. Fale que você me conhece. Ele vai vender um pergaminho para você.

– Para quê? Você quer que eu vá embora? Sozinha?

– Você não pode mais ficar aqui. Eu vou me entregar, e sem mim aqui, a gangue vai querer a casa de volta.

– O quê?! Shahwada, como assim, se entregar?

– Eu cansei de tudo isso, não quero mais viver assim. Não entende? Eu faço isso o tempo todo, com todo mundo, sem nem perceber. Por que acha que aqueles delinquentes deixaram a gente ficar aqui?

Bisadaha i yareeyeen! – Valena se aproximou dele. – Se é assim, eu vou com você! Vamos nos entregar juntos!

– Pare com isso, droga! – Barlone exclamou, dando-lhe um empurrão.

Tomada de surpresa, Valena caiu desajeitadamente para trás, batendo os ombros e a cabeça na parede. Gemendo, ela se sentou, levando uma mão à nuca e fazendo uma careta. Pensou em gritar com ele, mas então percebeu que lágrimas escorriam de seus olhos.

– Eu vou embora – disse ele, virando-se na direção da porta.

– Espera! De que vai adiantar se entregar? Você não sabe o que os militares vão fazer com você!

– Não me importo. Nada é pior do que fazer você sofrer.

Muito tempo depois, ela ainda estava ali, parada no mesmo lugar.

– Então, por que está fazendo isso, seu iimaan?! – Valena finalmente conseguiu gritar.

No entanto, não havia mais ninguém ali para ouvir sua voz, pois ele já tinha partido há muito tempo. Para nunca mais voltar. Ela achava que sua vida tinha se despedaçado quando perdera sua casa pela segunda vez. Mas nenhuma das inúmeras perdas que ela sofreu na vida se comparou a esta.

Desta vez estava realmente sozinha.

Ela e Barlone não tinham sido exatamente namorados, nunca haviam se declarado, nem mesmo conversado sobre isso. Mas aquele tempo de convivência tinha gerado uma ligação forte entre eles, que foi ainda mais aprofundada pelas suas… atividades noturnas. E agora, seu coração doía como se tivesse sido rasgado, arrancado do peito.

♦ ♦ ♦

Todo mundo sabia que no subsolo do palácio imperial, no coração da capital, existia uma masmorra. Afinal, todas as grandes construções administrativas do império tinham uma, o que era necessário para manter afastados da sociedade aqueles que quebravam suas regras.

Também era sabido que passar muito tempo confinado num local como aquele poderia enlouquecer uma pessoa. Não necessariamente pelo frio ou por supostas torturas que aconteciam ali, mas pela sensação de desorientação, da impressão de que se estava preso em uma espécie de caixa, já que as grossas paredes quase não deixavam passar nenhum som.

No entanto, apesar de tudo isso ser conhecimento público, muito poucas pessoas conheciam outras instalações que existiam no subsolo do palácio, além da masmorra.

A imperatriz Valena Delafortuna caminhou, determinada, pelos corredores úmidos até parar diante de uma porta de metal, com diversas runas em relevo, ladeada por dois soldados, que prestaram continência. Valena se virou para a mulher que a acompanhava, uma oficial das Tropas de Operações Especiais, e fez um pequeno gesto de cabeça na direção da porta.

A oficial hesitou, mas aproximou-se e encostou a mão sobre uma das runas, pronunciando algumas palavras incompreensíveis. O metal tremeu por um momento, antes de se deslocar para a direita, abrindo a passagem, com o ruído característico de ferro sendo arrastado sobre pedra, e revelando um aposento tão iluminado quanto um dia ensolarado.

Sem hesitar, a imperatriz entrou e aproximou-se de uma mesa sobre a qual estavam peças de uma enorme armadura dourada.

Ela levantou uma das mãos e fechou os olhos, tentando, mais uma vez, sentir alguma flutuação energética vinda daquelas peças, mas, como sempre, sem sucesso. Então, virou-se para a oficial que tinha parado ao lado dela.

– Nenhuma mudança nas leituras?

– Não, senhora. As peças estão completamente inertes.

– Isso não faz sentido – disse Valena, batendo com os nós dos dedos no peitoral de metal dourado, que parecia ter sido feito para um gigante muito entroncado, de pelo menos uns três metros de altura. – Isso aqui é um construto místico, não é?

– Sim, com certeza não é uma manifestação física padrão, como metal ou madeira.

– Construtos são como o brilho dos olhos, não?

A oficial olhou para ela, intrigada.

– Perdão?

– Quando a pessoa morre, seus olhos ficam opacos, o brilho desaparece. Construtos criados por ela deveriam sumir também, não é?

– Oh! Sim, é isso mesmo. Construtos são mantidos pelo fluxo energético do conjurador. Se a ligação do espírito com o mundo físico é cortada, o fluxo se encera e o construto desaparece. Fiquei surpresa com essa comparação que a senhora fez, mas é uma analogia bastante adequada.

– Foi o professor Romera quem me disse isso – respondeu Valena, lembrando-se do velho sábio de olhos verdes, integrante da antiga Guarda Imperial e que, no momento, estava desaparecido. – De qualquer forma, o fato da armadura ainda estar aqui é um indicativo de que o Avatar pode estar vivo.

– É difícil dizer, alteza, uma vez que não sabemos ao certo o que é, ou era, o Avatar.

Entre todas as lendas e histórias do folclore veridiano, os contos sobre o Avatar figuravam entre os mais famosos. Uma criatura de corpo invisível, que usava uma enorme armadura dourada e voava por todo o continente, ajudando as pessoas e derrotando monstros. Um ser misterioso que, aparentemente, tinha encontrado seu fim durante a batalha de Evander e Sandora contra o vilão Donovan.

– Oficial, eu vou mandar Sandora dar uma olhada nos seus sensores. Pode ser que tenhamos deixado passar alguma coisa.

A mulher estreitou os lábios, levemente contrariada, mas concordou.

– Sim, senhora.

– Você sabe quem eram os sábios de Mesembria que estavam estudando a armadura antes?

– Sim, senhora. Quer que eu faça uma lista?

– Sim, e entregue para a capitã Imelde. Vamos ver se conseguimos a colaboração deles novamente.

Aquilo pareceu deixar a oficial extremamente satisfeita.

– Sim, senhora!

– Quando detectarem qualquer mudança nas leituras, quero ser avisada imediatamente.

Valena virou-se e saiu do recinto antes que a oficial pudesse responder. Normalmente ela sentia uma enorme gratificação com as palavras “sim, senhora”, e não cansava de ouvi-las. Mas hoje, ouvir aquilo repetidamente a estava deixando irritada.

Passou por uma outra porta fortificada, também guardada por soldados e tomou um outro túnel lateral, que a levou até a masmorra.

Sandora, que estava em seu costumeiro lugar, debruçada sobre um livro, tratou de levantar-se assim que ela entrou.

– Precisamos conversar.

Valena olhou para a direita, onde estava Gram. Ele, ou melhor, ela, havia terminado a escultura na madeira e agora estava esfregando nela um pano grosseiro, provavelmente para alisá-la.

– Depois – disse a imperatriz, dirigindo-se para a porta que levava às celas. – Tenho um assunto para resolver.

Sandora adiantou-se e segurou Valena pelo braço.

– Leonel Nostarius me procurou.

Ao ouvir aquilo, Valena imobilizou-se e fechou os olhos, já sabendo o que a bruxa falaria a seguir.

– Você não compareceu às últimas reuniões. Leonel, Luma e o general Camiro estão fazendo o possível para resolver os assuntos do império, mas eles não têm autoridade para colocar as decisões em prática.

– Eu sei.

– Se sabe, por que está negligenciando seus deveres?

Valena virou-se para ela, irritada.

– Eu não estou com cabeça para isso agora, está bem?

– Muitos assuntos podem ser deixados de lado, mas o governo de um país não é um deles. Se acha que isso é algo que não merece toda a sua atenção, é melhor abdicar logo do trono.

Aquele mero pensamento deixou Valena horrorizada.

– Eu não posso fazer isso!

– Nesse caso, o que está fazendo aqui?

Shahwada, eu tenho um problema para resolver!

– Valena, quando você tem um problema, o império tem um problema.

– Você não entende! Eu…

– Não entendo mesmo. Se acha que pode tratar seu cargo com esse desdém, por que se deu ao trabalho de pedir minha ajuda?

Valena estreitou os olhos.

– Como ousa?! Se não está satisfeita, pare de me atormentar e siga o seu caminho, sua dhilleysi!

Furiosa, Valena escancarou a porta e entrou.

Sandora olhou para Gram. A morta-viva levantou uma das mãos e bateu no lado esquerdo do peito duas vezes.

– Sim, eu sei – respondeu Sandora, calmamente. – Mas se eu não puxar a orelha dela, não estarei lhe fazendo nenhum favor.

Gram assentiu e voltou a trabalhar em sua escultura. Sandora voltou a se sentar diante do seu livro e aguardou. Vários minutos depois, a porta voltou a se abrir.

Valena olhou para ela de cenho franzido.

– Por que ainda está aqui?

– Porque eu imaginava que algo assim fosse acontecer – Sandora respondeu, levantando-se e gesticulando na direção do homem alto e musculoso que vinha atrás de Valena.

– Moreninha invocada – disse o homem que dizia chamar-se Valdimor, dando-lhe um sorriso irônico.

– Estou com pressa – disse Valena a Sandora – Não tenho tempo a perder com você. – Ela olhou para trás e fez um rápido gesto de cabeça para que o homem a seguisse. – Vamos.

Sandora ficou olhando com interesse enquanto Valena saía, apressada. Antes de segui-la, o demônio em forma humana lançou um olhar para Gram e fez alguns gestos que Sandora não conseguiu ver. Gram assentiu e levantou um punho fechado, num gesto que ela não compreendeu muito bem, mas que arrancou uma risada do homem.

Assim que ele saiu, Sandora franziu o cenho e encarou Gram por um momento. A morta-viva deu de ombros e voltou a esfregar sua escultura, aparentemente satisfeita. Com um suspiro, Sandora retirou um pequeno cristal do bolso, esfregou-o na calça e o colocou em cima da mesa. Pouco depois, a imagem do rosto de Evander surgiu no ar, pouco acima dele.

– E aí, como estão as coisas?

Ouvir a voz dele lhe trouxe aquela costumeira onda de paz e segurança. A julgar pelo forte vento que soprava nos cabelos loiros, ele deveria estar no alto de alguma torre.

– A mandachuva está levando a criatura para passear.

Como ela imaginava, ele compreendeu imediatamente a quem ela se referia e arregalou os olhos.

O quê?!

– Andar com ele pelo palácio causaria muita confusão, então imagino que estejam indo para fora.

– Sandora, não podemos deixar aquele monstro à solta, ele é um assassino!

– Eu sei, mas Valena parece ter um efeito calmante sobre ele. Tanto que ele saiu daqui na forma humana.

– Isso não quer dizer nada!

– Talvez não, mas contrariar a imperatriz, no estado em que ela se encontra, não parece ser uma boa ideia.

– O que não me parece ser uma boa ideia é deixar aquela coisa andar por aí livremente. Ele não é só um monstro, é um tipo de mercenário. Foi contratado para matar o capitão Joanson e agora, para fazer o mesmo com Valena. Vai saber o que ele vai aprontar em seguida.

Sandora lançou um olhar para Gram, que parecia prestar muita atenção à conversa. A morta-viva inclinou um pouco a cabeça para o lado, um gesto que Sandora aprendera a identificar como sendo de divertimento.

Depois de pensar por um instante, intrigada com o comportamento de sua velha aliada, Sandora voltou a encarar os lindos olhos castanhos de seu companheiro e pai do bebê que carregava no ventre.

– Tem algo que não se encaixa.

Evander suspirou.

– O mundo seria muito mais simples se as coisas fossem apenas preto ou branco, sem esse monte de cores intermediárias.

Ela sorriu.

– Se alguém entende disso, é você. Eu não tenho como argumentar a respeito.

Alguma coisa chamou a atenção de Evander, fazendo-o desviar o olhar.

– Espere, estou vendo os dois. Estão saindo do palácio, montados em cavalos. – As habilidades visuais de Evander eram excepcionais, mesmo a longas distâncias. – Valena está usando um manto com capuz, provavelmente para não ser reconhecida. Mas olha aquilo! O grandalhão que vem atrás dela sorri como se estivesse se divertindo. Não estou gostando nada disso.

– Isso foi rápido demais, eles acabaram de sair daqui – comentou Sandora. – Valena deve ter preparado essa “excursão” com antecedência. Você tem um tempo agora, não tem? Pode ficar de olho neles? Está com o pergaminho de ocultamento?

– Sim, pode deixar. Até que algo aconteça, eles nem vão saber que estou por perto – ele voltou a olhar para ela. – E quanto a você, trate de se alimentar direito.

Eu me alimento. É meu estômago quem se revolta e devolve tudo.

♦ ♦ ♦

Valena caminhou sobre a grama do velho parque. Faziam mesmo apenas cinco anos desde que estivera ali com Barlone pela última vez?

Ela se voltou para o homem que a seguia.

– Ainda não se lembra de nada?

Valdimor olhou ao redor, interessado.

– Lugar bonito. Bom respirar. Nada lembrar.

– Como pode ter esquecido de tudo, qeylinta?

Ele olhou para ela e riu.

– Princesa falar engraçado.

– Vamos até a velha loja. Tenho certeza que isso vai ajudar.

Na verdade, Valena não estava certa de absolutamente nada. Não saberia explicar como conseguiu convencer aquele homem a segui-la, muito menos a não matá-la na primeira oportunidade. Ele havia admitido que tinha sido comandado a tirar-lhe a vida, até mesmo a chamara de alvo.

Ela gostava de pensar que, no fundo, alguma lembrança do passado, do que viveram juntos, o estava levando a mudar seu comportamento. Ele parecia cada vez mais à vontade na presença dela, suas maneiras se tornando cada vez menos ameaçadoras a cada visita que ela lhe fazia na masmorra. Aquela seria a explicação perfeita.

Mas Sandora vivia insistindo para se afastar dele, dizendo que estava enganada, que Valdimor não podia ser Barlone, e por causa daquilo não conseguia evitar sentir uma ponta de dúvida. Precisava resolver esse assunto, a situação estava lhe deixando cada vez mais ansiosa, chegando ao ponto de não conseguir mais pensar em outra coisa.

Reconheceu a mulher de longe. Estava com os cabelos um pouco mais grisalhos, mas continuava atendendo os clientes com a mesma desenvoltura e simpatia de sempre. Era difícil imaginar que um dia aquela mulher havia maltratado uma pessoa como Barlone.

Valena se aproximou dela e levantou um pouco o capuz, para que ela pudesse ver-lhe o rosto.

– Bom dia.

A outra quase caiu para trás de susto.

– O quê?! Você! Você é a…?

Valena fez um gesto com as mãos, tentando acalmá-la.

– Por favor, fale baixo. Não se lembra de mim? Eu costumava vir aqui anos atrás. Você me conhecia como Val, eu acompanhava o Siom.

A mulher franziu o cenho.

– Val? Aquela que eu confundi com menino da primeira vez? Pela Fênix, não acredito! É você!

Valena fez sinal para que Valdimor se aproximasse. Parecendo divertido, ele se desencostou da coluna onde estava apoiado e caminhou até elas.

– Não se lembra dele?

A mulher deu um passo para trás, assustada.

– Não! Por que lembraria?

– Mas é o Siom!

– Não, não é – respondeu a mulher, categórica. – Eu me lembro bem daquele garoto. E esse homem é velho demais para ser ele.

– Como pode dizer isso?

A mulher encarou Valena com o cenho franzido, mas então pareceu ter uma ideia.

– Espere um pouco, deixa eu buscar uma coisa.

Valena estava confusa. Como a mulher podia não o reconhecer? Seria por causa dos poderes dele? Talvez o fato de Barlone ter influenciado a mente dela tenha, de alguma forma, bagunçado suas memórias.

Ela virou-se para olhar para ele, que no momento estava de costas, olhando para o céu. Com certeza ele tinha crescido bastante e os anos que passou no exército haviam lhe dado muitos músculos, mas fora isso ele não tinha mudado quase nada.

Então ele fez uma pergunta estranha.

– Princesa voar?

Com a convivência, ela estava aos poucos aprendendo a entendê-lo, mais pela forma que ele falava do que pelas palavras em si, já que ele parecia ter dificuldade para se expressar oralmente.

– O quê? Se eu posso voar? Sim, mas, por quê…?

Então ele soltou aquele urro característico que ela odiava, pois significava que estava novamente assumindo sua forma demoníaca. As pessoas que estavam na rua correram de perto, assustadas.

Valena poderia ter reagido. Ela deveria ter reagido. Mas a confiança visceral que tinha nele fazia com que não se sentisse ameaçada. Nem mesmo quando ele tocou seu peito com uma das garras e uma espécie de energia avermelhada envolveu seu corpo. Ela não expressou nada além de confusão enquanto ele, de alguma forma, fechava as garras e segurava aquela energia com força, antes de puxá-la. Mesmo enquanto era levantada no ar como se não pesasse quase nada, Valena não sentiu a menor sensação de perigo.

Valdimor deu duas voltas ao redor de si mesmo, tomando impulso, antes de soltá-la, arremessando-a dessa forma para o alto, enquanto gritava algo que ela não entendeu.

Levemente tonta, ela levou alguns instantes para perceber que iria se esborrachar contra alguma coisa se não tomasse uma atitude, então acionou a forma da Fênix. O fogo místico dissipou completamente a aura avermelhada que Valdimor tinha colocado ao redor dela, e então as asas flamejantes se abriram e bateram com força, a projetaram para cima. Sem pensar duas vezes, ela manobrou para dar a volta.

Ao ver que Valdimor estava lutando contra alguma coisa, ela se sentiu aliviada. Finalmente conseguiu discernir o que ele tinha gritado quando a arremessou para longe. Tinha sido uma palavra: fugir. Aquele era o Barlone que conhecia, fazendo tudo o que podia para protegê-la, mesmo quando ela não queria. De repente, se sentiu culpada por alimentar dúvidas, mesmo que ínfimas, sobre a identidade dele. Aquilo era tudo culpa de Sandora. Se não fosse pela bruxa, ela nunca sonharia em duvidar daquele que fora seu primeiro e único amante.

Decidida, ela voou à toda velocidade na direção dele, demorando demais para perceber que não estava muito bem. Sentia a cabeça muito leve e a tontura ainda não tinha passado por completo, sua boca estava seca e uma leve sensação de enjoo começava a incomodá-la. Ela nem percebeu direito quando perdeu a conexão com o poder da Fênix e as chamas ao redor dela se dissiparam. Quando deu por si, estava caindo novamente, e agora sem ter como fazer nada a respeito.

Como num sonho, ela viu o chão gramado da praça se aproximando cada vez mais. Não sentia medo, nem raiva, nem mesmo confusão. Uma apatia imensa a dominou. De repente, nada parecia mais importante do que ficar quieta e fechar os olhos.

Então, de repente, não estava mais caindo. Alguma coisa, subitamente, a havia segurado no ar. Sentia-se segura, aquecida. Havia uma voz falando alguma coisa, mas não importava. Estava tão confortável e relaxada que não conseguiu resistir ao sono.

♦ ♦ ♦

Evander Nostarius havia ficado estarrecido quando Valdimor arremessou Valena para tão longe com tanta facilidade. Felizmente, ela ativou seus poderes, caso contrário não teria a menor chance de sobreviver àquela queda.

Então ele viu uma forma passar na frente dele, vinda de cima. Praguejou mentalmente, por não ter lançado sequer um olhar para as nuvens e, assim, tendo permitido que uma provável ameaça chegasse tão perto. Mas espere! Aquilo… era um dos protetores! Teria vindo para prender o monstro?

Tratava-se de uma mulher, uma ruiva alta, usando uma armadura prateada e uma lança brilhante.

O demônio deu um salto e levantou o punho, uma aura avermelhada o envolvendo. O golpe dele se chocou violentamente com ponta da lança da protetora, causando um enorme estrondo. O demônio se estatelou no chão, chegando a afundar na terra fofa do gramado.

A mulher foi projetada para cima e precisou de vários segundos para conseguir recuperar o controle do voo. Então ela olhou para a lança e percebeu que a ponta da arma tinha se desintegrado no impacto. Com um grito de frustração, ela arremessou a lança para longe e desembainhou uma espada.

A essa altura, Valena estava retornando. Mas então algo estranho aconteceu e a forma da Fênix se desfez, e a imperatriz começou a cair, indefesa.

Imediatamente, Evander comandou sua montaria alada a descer, mas o demônio foi mais rápido. Com um salto impossivelmente preciso, ele interceptou Valena, agarrando-a em pleno ar e caindo em pé, com ela nos braços, sobre o calçamento, quase atingindo um grupo de carroças e fazendo com que pessoas e animais saíssem em disparada para todos os lados.

O monstro colocava a imperatriz no chão com cuidado quando a protetora voltou a voar na direção dele, com a nítida intenção de atacá-lo pelas costas.

Concluindo que já tinha visto o suficiente para saber do lado de quem deveria lutar, Evander avançou na direção dela.

♦ ♦ ♦

Valena acordou em sua cama. Tentou sentar-se, mas a tontura fez com que desabasse de novo no travesseiro.

– Devagar – disse Sandora, segurando-a para que ficasse no lugar.

– O que aconteceu?

– Você desmaiou. Tome um pouco disso aqui.

Um pouco contrariada, Valena bebeu um gole da xícara que Sandora levou à sua boca e fez uma careta ao sentir o sabor amargo do chá.

– Como vim parar aqui?

– Ele te trouxe – Sandora apontou para o outro lado da cama, onde Valdimor se encontrava, em sua forma humana, recostado na parede ao lado da janela. – Depois de quase ter te matado.

Ele olhava para Valena com sua costumeira expressão de divertimento.

– Barlone!

Ao ouvir aquele nome, ele ficou sério e balançou a cabeça. Sandora olhou para ela, com expressão desgostosa.

– Ainda insiste nessa história?

– O que?

– Aqui – Sandora pegou um caderno de cima da mesinha de cabeceira e entregou a ela.

Havia um desenho feito com carvão no papel. Um esboço de um retrato. Tratava-se de um garoto com sobrancelhas grossas e expressão séria.

– É o Barlone! – Valena exclamou, sentando-se e agarrando o caderno com mãos trêmulas. – Era assim que ele era com 12 anos! Onde conseguiu isso?

– Uma mulher entregou para Evander depois que… bom, depois que você desmaiou. Ela disse que conheceu você anos atrás.

Então devia ter sido aquilo que a mulher da loja fora buscar naquela hora.

– Que bacana da parte dela, não sabia que era artista. Mas, espere um pouco, você disse que eu desmaiei? Quanto tempo fiquei dormindo?

– Dois dias.

– O quê?! Mas… por quê?

– Porque, Valena, você estava tão exausta que seu corpo não aguentou mais. Quando foi a última vez que dormiu a noite inteira? Ou que fez as três refeições do dia?

– Ei, eu sou a imperatriz! Tenho muitas coisas para resolver…

Sandora poderia falar umas poucas e boas sobre como ela ficou procrastinando suas responsabilidades por dias, mas aquilo não vinha ao caso agora.

– Não sei como pude ser tão estúpida a ponto de não perceber isso antes. Não é à toa que você confundiu Valdimor com seu namorado de infância.

– Pare com isso, não há confusão nenhuma. É ele!

– Olhe para esse retrato, Valena. Então olhe bem para o rosto dele e me diga qual é a semelhança que você consegue enxergar, porque eu não vejo nenhuma.

Valena olhou para o desenho. Depois para o rosto preocupado de Valdimor. E depois novamente para o papel. Então arregalou os olhos e levou a mão à boca. Quando voltou a olhar para ele, seus olhos estavam úmidos, o que fez com que ele desviasse o olhar.

E então Valena começou a chorar. Um choro sofrido e compulsivo que parecia não ter mais fim.

— Fim do capítulo 6 —
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