Lassam – Capítulo 7: Revoada

Publicado em 18/03/2017
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cap7

7. Revoada

Daimar contornou uma pilha enorme de lixo jogado na calçada e olhou ao redor, resistindo ao impulso de levar a mão ao rosto para se proteger do mau cheiro. Aquele lugar fedia não só a lixo, mas a esgoto e a podridão.

– Ei, senhor! – Ele acenou para um homem que passava montado em um cavalo que já vira dias melhores.

O homem fez a montaria parar, antes de olhar para ele de cima a baixo, analisando com cuidado seu uniforme acadêmico.

– Sim?

– Esta é a rua das Camélias?

– Por quê? Está procurando alguém?

– Sim, acho que é um alquimista. Sabe se tem algum por aqui?

– O Alquimista das Camélias? É naquele prédio lá – o homem apontou para uma construção de pedra à distância, cercada por terrenos baldios tomados pelo mato. – Mas se quer um conselho, rapaz, não fique andando muito por aí. Coisas ruins podem acontecer com você.

Dito isso, o homem cravou os calcanhares no lombo do cavalo, que saiu andando, num trote um tanto desengonçado.

Daimar não tinha medo de encarar um assaltante ou dois. Fazia tanto tempo que não entrava em uma luta de verdade que quase ansiava por uma oportunidade de enfiar seu punho na cara de alguém. Na última vez que fizera isso, acabara mandando o pobre Bodine para o hospital. Não que o idiota não merecesse, lógico. Mas não dava para chamar de “luta” quando o oponente caía com um único golpe.

Ele enfiou a mão no bolso e tocou o envelope. Tudo o que tinha que fazer era ir até aquele prédio e entregá-lo a quem quer que estivesse ali. E pronto.

Mas, de repente, ele percebeu que não era aquilo que queria. Podia muito bem esperar para ouvir as explicações direto de seu pai quando ele voltasse. Afinal, Delinger parecia estar bem, a carta que ele tinha mandado não continha nada fora do comum. As palavras do pai foram as mesmas de sempre, demonstrando preocupação com ele e discutindo um pouco dos negócios da família, encarregando Daimar de algumas tarefas administrativas num dos laboratórios deles em Lassam.

Não, definitivamente, não era por causa da carta de Delinger que ele estava ali. O que o estava incomodando a ponto de fazê-lo sair de sua rotina normal e vagar pela cidade daquele jeito era ela.

Passara a maior parte da noite acordado, esperando ansiosamente que Cariele viesse a seu encontro, como um tolo apaixonado. E despertara antes do nascer do sol, quando seus sentidos o avisaram que ela estava saindo do alojamento. Ele tinha corrido para fora do quarto e a procurado pela janela, vendo-a se afastar na direção dos prédios principais da academia, com passos longos e determinados, fazendo com que Janica quase tivesse que correr para não a perder de vista. Ele esperava que a monitora não tivesse complicações por causa daquele esforço, afinal, mal tinha saído do hospital após ter sido sequestrada e duramente agredida.

Estaria Cariele se metendo em mais uma missão perigosa? Mas se fosse o caso, ela não iria precisar dos simulacros que ela não veio pegar com ele?

Aquela mulher era um mistério. Era melhor esquecê-la por enquanto e voltar para a academia, o sol já tinha nascido há muito tempo e ele provavelmente chegaria atrasado para a primeira aula do dia.

Ele virou-se e se deu conta de que estivera tão entretido pensando em Cariele e em seu pai que se esquecera completamente de Britano. Teria ele despistado o monitor sem querer? Nem lembrara dele ao sair do alojamento.

Após virar uma esquina, ele se deparou com uma cena surpreendente. Britano Eivindi, com seu engomado uniforme de monitor, acabava de derrubar um homem com um violento soco no queixo. E havia outros dois, também nocauteados, caídos aos pés dele.

Britano então levantou a mão e disparou um pequeno projétil energético para cima. O construto alaranjado subiu uns vinte metros e explodiu com um estrondo, formando uma pequena chuva de partículas brilhantes, que durou alguns segundos antes de se desvanecer. Daimar reconheceu aquilo como o sinal militar padrão para chamar ajuda. Os guardas com certeza veriam aquilo e viriam correndo.

Atravessando a rua, apressado, Daimar se aproximou do monitor.

– O que houve?

– Nada de mais – respondeu Britano, massageando o punho direito. – Essas pessoas estavam perdidas e precisavam de informações. Nossos amigos do posto militar mais próximo irão ajudá-los, com todo o prazer.

Daimar viu duas espadas e um tipo de chicote caídos ali do lado, e notou que nenhum dos três atacantes parecia seriamente ferido.

– Você derrubou três assaltantes armados, sozinho?

Britano deu um de seus raros sorrisos.

– Conhece alguma forma melhor de iniciar um dia de trabalho?

♦ ♦ ♦

– Alta condicional? Como assim, alta condicional?

– Filha, não precisa gritar – ralhou Baldier Asmund.

– Você não pode estar falando sério! Eu… eu achei que tinha mais tempo!

Alta condicional era um termo popular, que os sábios e curandeiros repudiavam, diga-se de passagem, para descrever uma situação em que a condição do doente tinha piorado tanto que não fazia mais diferença ficar sob os cuidados de profissionais da saúde.

– O tempo passa mesmo que você não esteja olhando, e isso é algo que ninguém pode evitar. Meus dias de professor de hospital estão encerrados, agora estou entrando na última etapa de minha jornada.

– Por que o senhor não me contou antes?

– Que diferença ia fazer? Você tem que cuidar de sua própria vida, filha. Não pode ficar se preocupando comigo. Além disso, não há nada que você possa fazer mesmo.

– E quando você vai voltar para casa?

– Devo ficar aqui até o fim da semana.

Cariele não conseguiu impedir que uma lágrima escorresse pelo rosto. Imediatamente, virou-se de costas, enxugando a face com a manga e tentando se recompor.

– Ei, ei! – Baldier se aproximou dela, carinhoso. – Para que isso?

– Eu… eu queria poder fazer alguma coisa… se eu tivesse mais tempo…

– Ei, olha para cá! Vamos, me olhe nos olhos! Isso! Agora me responda uma coisa: quem você pensa que é?

Cariele sobressaltou-se, surpresa com o repentino tom cortante da voz dele.

– Eu sou Baldier Asmund, um dos maiores sábios que já viveu. Você acha que pode desafiar minha posição? Acha que algum dia vai conseguir me superar?

– Claro que não!

– Acha que sabe mais do que eu?

– Lógico que não, pai! Por que está falando isso?

– Porque eu venho estudando essa doença há vinte anos. E, de repente, você chega para mim e me diz que podia fazer alguma coisa se tivesse “mais tempo”. Há! Quem você pensa que é para falar uma coisa dessas?

– Desculpe. Mas é que você fez tanta coisa por mim, não pode esperar que eu não queira retribuir…

– Ora, cale essa boca!

Cariele levou a mão aos lábios, agora assustada. Nunca tinha visto seu pai falar daquele jeito antes.

– Você acha que me deve alguma coisa? Pois deixa eu esclarecer para você: não importa quem tivesse nascido do ventre da sua mãe, você ou qualquer outra pessoa, eu trataria exatamente da mesma forma. E sabe por quê? Porque eu fui treinado para ser assim! Sabe o que eu fiz por você nesses vinte anos? Quase nada! Você acha que eu fiz direito meu trabalho como pai? Isso é porque você não conheceu sua avó. Minha mãe foi até as últimas consequências para nos manter vivos, alimentados e saudáveis. Você nem imagina pelo que passamos. Você não imagina pelo que ela passou, o que teve que sacrificar, até onde teve que ir para me dar um futuro. Mesmo que ela ainda estivesse viva até hoje eu ainda não teria conseguido retribuir nem uma pequena parte do que ela fez por mim. Acha que tudo o que eu fiz nesses últimos anos foi por você? Não foi. Foi por mim! Porque eu nunca conseguiria conviver comigo mesmo se não tivesse dado cada passo que dei. Você acha que me deve alguma coisa? Bobagem! A única pessoa para quem você deve algo é para si mesma. Você é a única com a qual eu quero que se preocupe. – Ele fez uma pequena pausa para recuperar o fôlego. – Você não entende? Isso dói! Ver você deprimida e desperdiçando momentos preciosos de sua vida por minha causa é horrível! Não faça isso comigo, por favor!

Obviamente, o pai estava tão ou mais assustado do que ela com a perspectiva de sua vida estar chegando ao fim, para perder o controle das emoções daquele jeito. Aproximando-se, ela o abraçou apertado, enquanto tentava controlar as lágrimas que agora caíam em profusão.

♦ ♦ ♦

Daimar olhou para ela pela enésima vez. Alguma coisa tinha acontecido. Ela parecia abalada, triste e ao mesmo tempo determinada, algo bem diferente da expressão usual dela. Normalmente ela agia como se não tivesse nenhuma preocupação na vida, parecendo displicente e até mesmo entediada, demostrando pouco ou nenhum interesse pelo estudo ou pela instrutora, e sem nunca perder uma oportunidade de bater papo com as amigas.

Agneta, que ele concluíra ser a melhor amiga dela, parecia tê-la abandonado e agora estava gravitando ao redor dele. Depois de Daimar ter dado a ela algumas dicas sobre um trabalho de História, a garota não perdia mais nenhuma oportunidade de ficar colada nele o máximo que conseguia.

– O que há com Cariele? – Já que a moça não o largava, ele resolveu perguntar a ela diretamente.

Agneta olhou para a amiga, do outro lado da sala, e deu de ombros.

– Acho que o pai dela piorou.

– Como assim?

– Ah, eu não sei direito, mas ele está internado no hospital há anos.

– O que ele tem?

– Não sei.

Ele olhou para ela, incrédulo.

– O quê? Sua melhor amiga está com o pai internado há anos e você nunca quis saber o porquê?

Agneta abriu e fechou a boca duas vezes, aparentemente sem encontrar palavras.

– Deixe para lá, desculpe − disse ele, balançando a cabeça.

Subitamente, Daimar se sentiu um lixo por estar ressentido com Cariele por sua falta de interesse nele, enquanto ela estava passando por uma crise familiar como aquela.

– Ela… ela não gosta de falar sobre isso – disse Agneta, em um sussurro. – Nem mesmo comigo.

– Entendo. Tudo bem, não se preocupe, eu exagerei. Isso não é da minha conta.

– Imagino, senhor Gretel, que o exercício que eu acabei de passar seja de sua conta! – A instrutora Cristalin Oglave apareceu do lado dele de repente, como se tivesse se materializado do nada. – Chega de conversa mole, quero todo mundo trabalhando!

Naquele momento, a porta da sala foi escancarada, assustando quase todo mundo. O monitor albino entrou e olhou diretamente para a instrutora, fazendo alguns rápidos gestos com as mãos.

Cariele arregalou os olhos ao reconhecer aqueles sinais militares.

Estamos sob ataque.

– Certo, pessoal! – Cristalin bateu palmas, atraindo a atenção de todos. – Uma coisa inesperada aconteceu e vamos precisar evacuar este andar. Vamos sair em fila, com calma, virar à direita e pegar a escadaria para subir até o telhado. Eu e dois outros monitores estaremos com vocês o tempo todo, então não precisam se preocupar. Por favor fiquem em silêncio e lembrem-se de seguir à risca qualquer ordem dada por mim ou por qualquer um dos monitores. Agora, vamos sair. Vamos começar com o pessoal à minha esquerda. Andem devagar e em fila, seguindo o monitor Britano. Vamos!

Sem entender muito bem o que estava acontecendo, os estudantes foram saindo um a um. Agneta seguiu Daimar de perto e, quando estavam no meio da escadaria, agarrou-se a seu cotovelo, recebendo dele um olhar questionador.

– Estou com medo – explicou ela, colando-se ainda mais a ele.

Resignado, ele permitiu que ela continuasse agarrada a seu braço enquanto terminavam de subir e atravessavam um corredor empoeirado e, depois, uma porta muita antiga, cheia de manchas de umidade. O terraço do prédio não continha nada de muito interessante além de algumas caixas d’água e de uma área com uma profusão de ervas secando ao sol, dispostas sobre toalhas e cobertores velhos. Mas o fato de estarem relativamente alto e não terem nenhuma obstrução além do parapeito proporcionava uma vista fabulosa das dependências da academia, principalmente dos jardins, bem como de boa parte da cidade para além dos muros da instituição. A oeste, o céu começava a tingir-se de várias cores, conforme o sol do fim da tarde baixava na direção do horizonte.

Cariele lançou um olhar intrigado a Daimar e Agneta, mas logo desviou a atenção para a porta ao ver os últimos estudantes e a outra monitora chegarem. Não foi surpresa nenhuma perceber que se tratava de Janica. Fosse qual fosse a emergência que estivesse ocorrendo, ela e Daimar pareciam nunca conseguir se ver livres daqueles dois.

– Fiquem juntos! – Cristalin sinalizou para que Janica fechasse a porta. – Mantenham-se à vista o tempo todo e não tentem sair do terraço. Neste momento, esse é o lugar mais seguro para vocês.

– Tem um pessoal lá embaixo que não sabe disso – comentou Daimar, apontando para uma pequena multidão que corria de forma desorganizada na direção dos portões.

– Não se preocupem com eles – disse a instrutora. – Existe pelo menos um monitor cuidando da proteção de cada uma das turmas e levando o pessoal para locais seguros. Nós ficaremos por aqui.

Cariele olhou para ela.

– E estamos fugindo do quê?

– Daquilo – respondeu Britano, apontando para além dos muros, onde era possível ver alguns pontos de luz, ao longe, entre os prédios.

Enquanto os demais estudantes murmuravam em voz baixa, tentando entender o que estava acontecendo, Cariele e Daimar se aproximaram da amurada para tentar ver melhor. Agneta tratou de seguir o seu príncipe e ficar grudada nele o máximo que conseguiu.

No horizonte, Cariele viu um ponto de luz que saiu voando para cima, sendo perseguido por outros.

– O que é aquilo?

Cristalin parou à direita dela, observando a cena ao longe com expressão séria.

– Consegue usar visão longínqua?

– Só se eu tiver um catalisador – respondeu Cariele.

– Crie um com isto. – Cristalin colocou um cubo dourado na mão dela.

Cariele arregalou os olhos, espantada. Tratava-se de um simulacro da mais alta qualidade, provavelmente o melhor que ela tinha visto na vida.

Obedecendo à ordem, ela pegou um lenço do bolso e rasgou um pedaço dele. Não era o melhor tipo de material para fazer um catalisador, mas pelo menos estava limpo e sem contaminação energética. Então ela levou o tecido à têmpora, ao lado do olho direito, onde ficou segurando-o com dois dedos enquanto apertava com força o simulacro com a outra mão. Em poucos segundos, o pedaço de pano já estava energizado o suficiente para servir como fundamento para que ela abrisse um túnel de observação. Concentrando-se, ela fez mentalmente os cálculos para ir ajustando progressivamente o encanto até que a imagem do que se passava há muitos quilômetros de distância ficasse clara.

Daimar e Agneta observaram com certa fascinação enquanto os olhos de Cariele escureciam cada vez mais, até atingir um tom brilhante de azul marinho, quando o encantamento se completou.

Os pontos de luz eram criaturas voadoras, que estavam disparando rajadas elétricas ou de fogo umas nas outras. Parecia que três delas estavam perseguindo a outra. Apesar de se moverem com velocidade e manobrabilidade similares, as criaturas tinham aparências bem distintas.

– São monstros – disse Cariele, em voz alta. – Enormes monstros voadores.

Daimar olhava para o céu, incrédulo.

– A cidade está sendo atacada por monstros?

– Ai, que medo! – Agneta agarrou o braço esquerdo de Daimar enquanto os demais estudantes murmuravam entre si, inquietos.

– Não, eu acho que eles estão brigando entre si – respondeu Cariele, fazendo mentalmente mais alguns cálculos para tentar estabilizar o encantamento e não precisar ficar corrigindo o foco o tempo todo.

A criatura maior era uma espécie de quimera, tendo o corpo de uma águia gigante de cor marrom com três cabeças que pareciam ser cada uma de um animal diferente, apesar de Cariele não conseguir uma visão muito nítida devido às muitas rajadas e explosões, sem contar a fumaça. A quimera liderava outros dois monstros, um que lembrava uma gigantesca arraia esverdeada e outro que parecia uma cobra gigante com asas.

Então, depois de um brilho intenso, a cobra subitamente mudou de forma, assumindo uma aparência draconiana, com grandes escamas azuis e brilhantes cobrindo todo o corpo.

– Um deles mudou de forma!

– Sim, são todos transmorfos – explicou Cristalin. – Consegue ter uma visão clara da batalha?

– Um dragão dourado está sendo perseguido por uma quimera, um tipo de arraia e agora um dragão azul. Mas é difícil de ver com clareza, com tantos brilhos e explosões.

Cristalin levou a mão aos lábios, surpresa.

– Três contra um?!

Conseguindo subitamente uma visão bem nítida do dragão que estava sendo perseguido, Cariele soltou uma exclamação, impressionada:

– Uau!

Ele era coberto por escamas muito grossas e brilhantes de cor dourada que apresentavam saliências que pareciam espinhos, como os de um ouriço. A cauda era comprida e terminava em uma estrutura que lembrava uma ponta de lança. Na parte de baixo do corpo, se é que ela podia chamar assim, as escamas eram muito menores e mais claras, o que destacava o peito e o abdômen. Possuía chifres na mesma cor das escamas mais escuras e quando abria a boca revelava fileiras assustadoras de dentes. As patas dianteiras possuíam garras que pareciam mortíferas, mas as traseiras não eram tão imponentes, sendo menores e, aparentemente, bem menos perigosas. Mas o mais impressionante na criatura eram as enormes asas, cobertas na maior parte pelas escamas pontudas. Ele deveria ter quase uns quarenta metros de envergadura, se os cálculos dela estivessem certos.

Daimar desviou os olhos de Cariele e contemplou os pontos de luz no céu à distância, tentando ignorar o calor do corpo de Agneta, ainda agarrada a ele. Não era desagradável ser tocado por uma mulher, e aquela era razoavelmente atraente, por isso ele estranhou um pouco a súbita vontade que sentiu de empurrá-la para o lado.

Os pontos continuavam se movendo no céu e ele, subitamente, sentiu alguma coisa, um tipo de familiaridade, de empatia.

– O dragão dourado foi atingido! Uma rajada da quimera o acertou em cheio, não vejo mais ele, apenas fumaça.

Daimar olhou para a sua direita e percebeu que Cristalin apertava os punhos com força, mas não deu muita atenção ao fato, pois a impressão de familiaridade persistia, intensificando-se conforme Cariele descrevia a batalha. Num impulso, ele fechou os olhos, concentrando-se naquela sensação.

Atrás deles alguns estudantes soltavam exclamações excitadas, enquanto outros pareciam aterrorizados. Os monitores estavam tendo trabalho para mantê-los quietos e controlados.

Sem se dar conta do que acontecia à sua volta, Cariele continuava observando a batalha. Percebeu que os outros monstros também tinham aparência impressionante, com tamanho igual ou maior que o do dragão dourado, mas não eram como ele. Pareciam mais velhos, mais… desbotados, era difícil descrever. E os três tinham manchas escuras em partes aparentemente aleatórias do corpo, que não pareciam ser machucados recentes.

– Os outros três estão começando a descer – disse ela em voz alta – vão atacar os prédios e… espere! O dourado reapareceu! Surgiu bem em cima da arraia e a atravessou com a cauda.

Espantada, Cariele observou enquanto o dragão dourado segurava o monstro ferido com suas garras enquanto puxava a cauda pontuda de dentro do corpo dele, lançando no ar uma quantidade impressionante de sangue. A arraia então brilhou e pareceu encolher, transformando-se numa massa disforme e ficando, em poucos segundos, com menos de dois metros de comprimento. Então o dragão dourado fez uma manobra, lançando a criatura no ar antes de…

– Argh! Ele a comeu! – Cariele desviou os olhos e piscou, tentando se livrar da sensação ruim que a cena lhe deu. – Ela diminuiu de tamanho e ele a engoliu inteira!

Daimar abriu os olhos devagar, surpreso. Quase tinha conseguido visualizar a cena que Cariele descreveu.

– Um a menos! Consegue ver os outros dois?

A instrutora parece envolvida um pouco demais com essa luta, pensou Daimar, vendo Cariele voltar a se concentrar.

– Estão dando a volta e seguindo na direção do dourado. A quimera mudou de forma, virou um dragão também. Agora temos três dragões: um dourado fugindo de um verde e de um azul. Engraçado que todos eles são muito parecidos, apesar das cores diferentes.

– É uma forma estável, fácil de ser mantida – explicou Cristalin, distraída.

– Você parece saber muito sobre eles – concluiu Daimar.

– Estou no exército há 30 anos, rapaz.

– O dourado está indo cada vez mais alto, mas os outros dois o estão alcançando – disse Cariele. – Estão disparando rajadas nele.

Daimar voltou a fechar os olhos, concentrando-se na sensação de familiaridade e voltou a visualizar a batalha conforme Cariele a descrevia. Não tinha a menor ideia de como aquilo era possível, mas estava acontecendo. E tudo por causa daquela sensação estranha de proximidade com as criaturas que lutavam lá no céu.

– O dourado é muito ágil – continuou Cariele. – Consegue manobrar com muito mais facilidade que os outros e está se esquivando dos ataques.

Agneta aproximou a boca do ouvido de Daimar e sussurrou:

– Você está bem?

– Sim – respondeu ele, frustrado por ela tê-lo feito perder a concentração. – Só estava tentando captar imagens da batalha.

– Você consegue fazer isso? – Ela pareceu impressionada, quase esquecendo do próprio medo. – Você é demais, sabia?

Daimar olhou para ela e concluiu que precisavam ter uma conversa. E logo.

– Vou tentar me concentrar de novo, está bem?

– Sim, sim, desculpe – disse ela, não parecendo muito sincera.

Alguém atrás deles, parecendo em pânico, gritou:

– Céus! E se eles vierem para cá?!

Imediatamente, pôde-se ouvir a voz exasperada de Janica:

– Cale a boca! Vamos ficar todos calmos, está bem? Estamos nesse lugar por um motivo. Apenas fiquem quietos, todos vocês, e esperem!

Daimar sacudiu a cabeça, frustrado com tantas interrupções, e fechou os olhos novamente.

– Estão dando voltas – disse Cariele. – Espere! O dourado agora olhou para trás e soltou alguma coisa pela boca. Parece um tipo de gás esverdeado. Está formando uma nuvem enorme atrás dele.

Percebendo a cena com bastante clareza, Daimar notou quando o dragão azul tentou atacar o dourado soltando uma bola de fogo pela boca, mas quando o fogo entrou em contato com o gás, a nuvem entrou em combustão imediata, causando uma explosão espetacular.

– Agora ocorreu uma explosão enorme – continuou Cariele. – Tem muita fumaça, não estou conseguindo ver nada. Espere! O verde está saindo por cima! E agora o azul também.

– Eles estão feridos – comentou Daimar.

– Sim, a explosão parece ter causado um estrago neles – concordou Cariele. – Uau! O dourado apareceu por trás deles de repente e disparou um relâmpago pela boca. Acertou os dois em cheio! Mas eles já estão se recuperando e reiniciaram a perseguição. Só que agora não estão mais soltando rajadas.

– Sabe o que dizem sobre gato escaldado – comentou Cristalin, sorrindo.

– Tem algumas coisas presas nos dois – disse Daimar. – Parecem… arpões.

Cariele piscou e olhou para ele.

– Então é você que está se intrometendo em meu túnel de observação!

Ele abriu os olhos e a encarou.

– Como assim?

– Você está se aproveitando do meu encantamento. Está espiando através do meu túnel.

– Sério? Isso foi meio que por instinto, juro que nem sabia direito o que estava fazendo.

– Ah, esqueça ele! – Cristalin demonstrava impaciência. – O encanto já está estabilizado, ter outra pessoa olhando através do túnel não vai fazer diferença nenhuma. Foco, garota! Preciso saber o que está acontecendo lá em cima!

Usar um túnel místico aberto por outra pessoa não era nem de longe algo tão simples a ponto de se conseguir fazer aquilo por acidente ou por impulso, mas Cariele decidiu deixar para esclarecer aquilo depois e voltou a olhar para a frente, ainda segurando o pedaço de tecido contra a têmpora.

– Continuam em perseguição – disse ela, depois de um momento. – O dourado parece estar ficando mais lento e os outros estão se aproximando dele. Ah, e o barão tem razão, tem alguns objetos de metal fincados entre as escamas dos perseguidores. Ou os monstros não perceberam, ou não se importaram. Talvez sejam pequenos demais para causar dano.

Cristalin sorriu.

– Filho duma mãe!

Se ainda tivesse alguma dúvida de que a instrutora sabia mais sobre a batalha do que estava disposta a revelar, agora não teria mais, pensou Cariele.

Daimar espantou-se, de repente.

– O que foi aquilo?

– O verde e o azul parecem ter trombado em alguma coisa – respondeu Cariele.

– Uma parede invisível?

– É o que parece. Mas já estão se recuperando.

– O dourado vai atacar de cima!

– Sim, e com outro relâmpago. E, de novo, não teve muito efeito. Os outros estão retomando a perseguição, e agora estão muito perto.

– É, mas olha no corpo dos dois!

– O que tem… – Cariele franziu o cenho, ao perceber a que ele se referia. – Hã?! Não tinha tantos arpões no corpo deles antes, tinha?

– Não. Acho que o dourado está colocando eles lá, só não entendi como.

– Eles estão ignorando. Parecem só ter interesse na perseguição.

Cristalin desviou o olhar do céu e encarou Cariele e Daimar, surpresa com a forma como observavam a batalha juntos e trocavam impressões com tanta facilidade.

Sem muito interesse em uma briga de monstros voadores e subitamente sentindo-se deixada de lado, Agneta afastou-se deles e recostou-se a uma das caixas d’água, junto de outras garotas da turma.

Cariele continuava com a narrativa.

– O que há com o dourado? Não está manobrando muito bem. Essa não! Ele não viu o azul se aproximando e está virando do lado errado!

– Ai! O azul pegou ele de jeito – disse Daimar, preocupado. – Cravou os dentes na lateral do corpo dele e não quer largar.

– Acabou com as chances de ele escapar. O verde vai atacar também.

Preocupada, Cristalin exclamou:

– Pela misericórdia!

– Agora os dois estão com os dentes cravados nele – disse Daimar. – O que estão fazendo?

– Estão tentando voar para trás. Acho que querem arrancar pedaços dele. Espere, o dourado virou a cabeça para trás. Está soltando outra daquelas rajadas elétricas. Mas de que vai adiantar isso?

– Espere! Olha os arpões!

– É verdade! Estão brilhando!

– O brilho está envolvendo o corpo deles! Estão sentindo dor! Largaram ele!

– Ele está sangrando bastante, mas fora isso parece estar bem. Parou no ar e está observando os outros dois.

– Agora tem descargas elétricas saindo deles e indo para todos os lados. Eles brilham tanto que nem dá para ver direito.

– Estão caindo! O brilho está diminuindo, mas ainda não dá para ver o que aconteceu com os dois. Parece que estão encolhendo.

– É a mesma coisa que aconteceu com a arraia antes. O que quer que tenha sido esse ataque com os arpões de metal, foi extremamente efetivo.

– Não param de diminuir de tamanho, estão minúsculos! E agora o dourado está mergulhando na direção deles. Vai agarrá-los com as patas dianteiras.

– Argh! – Cariele virou a cabeça para o outro lado. – Não quero ver isso de novo.

– Uau! Acho que esse dragão não comia nada há semanas. Nem sequer sentiu o gosto, engoliu os dois sem mastigar.

– Pare com isso – reclamou Cariele. – Não quero ouvir!

Cristalin soltou o ar que estivera prendendo.

– O que ele está fazendo agora?

– Continua descendo, mas está desacelerando, acho que vai pousar – respondeu Cariele, depois de voltar a olhar. – Está brilhando igual aos outros quando se transformaram.

– O que aconteceu? Não consigo mais ver nada – declarou Daimar, confuso.

– Ele deve ter pousado – explicou Cariele. – Agora tem muitos obstáculos entre nós e ele, não vai dar para ver mais nada a menos que ele volte a subir.

Cristalin abaixou a cabeça e soltou um suspiro aliviado.

– Filho da mãe!

Instantes depois, Britano aproximou-se dela.

– A guarda mandou o sinal, tenente. Parece que acabou.

Cristalin levantou a cabeça e soltou mais um suspiro rápido, antes de encarar os estudantes.

– Muito bem, seus medrosos, a festa terminou. A monitora vai abrir a porta e soltar vocês. Estão todos dispensados, vão para casa e descansem. E não corram pelos corredores!

Enquanto os outros saíam, Cariele desfez o encanto, finalmente podendo desencostar o tecido do rosto e olhou para a mão que segurava o cubo energético. Tinha apertado tanto o objeto que fundas marcas avermelhadas tinham se formado na pele. O dedo mindinho estava apresentando uma tonalidade arroxeada, devido à falta de circulação. Ela pegou o objeto com a outra mão enquanto flexionava os dedos com cuidado, percebendo que a mão estava bastante dolorida.

– Aqui está – disse ela, devolvendo o cubo a Cristalin.

– Obrigada. Mas… o que é isso? O que você fez? Isso está quase completamente descarregado!

– Bom, a distância era grande – Cariele tentou se justificar.

– Céus, menina! Ninguém te ensinou a canalizar o fluxo de energia do seu próprio corpo, não? Esse negócio aqui era só para dar um empurrãozinho no começo, não precisava drenar ele desse jeito!

– Acho que ainda tenho muito o que aprender – disse Cariele, dando de ombros e dirigindo-se calmamente à saída.

Daimar aproximou-se de Cristalin, enquanto olhava a moça se afastar.

– Ela consegue mesmo fazer esse tipo de coisa só calculando e resolvendo fórmulas matemáticas de cabeça? Quero dizer, ela parece ter tanta facilidade para usar essas coisas. – Ele apontou para o cubo na mão da instrutora.

Cristalin olhou para ele, de cenho franzido.

– Andou matando as aulas de física, barão?

– Digamos que esse não é meu forte.

– O que move o mundo é a causalidade. Causa e efeito. As coisas tendem a ficar paradas e inertes a menos que alguma força atue sobre elas. E tudo ao nosso redor seria estéril, imóvel e disforme, se não tivesse surgido uma infinita fonte de energia que nós chamamos de “vida”. Praticamente, tudo foi moldado pela vida. De certa forma, a vida também foi moldada pelo mundo, mas o pontapé inicial foi da vida. Não sabemos qual foi a entidade que deu origem a tudo o que conhecemos, mas sabemos que ela fez um trabalho sensacional. Cada ser vivo possui um fluxo inesgotável que afeta a tudo à sua volta, mas nada disso é aleatório. A vida, a energia e o movimento obedecem a leis muito bem definidas. Conheça essas leis e você poderá mudar a realidade.

– Acho que já ouvi isso tudo em algum lugar.

– Espero que tenha ouvido mesmo. Agora vá embora, não posso mais perder tempo com vocês, tenho que encontrar a guarda e exigir alguns relatórios.

– Aquele dragão dourado era diferente dos outros monstros – insistiu Daimar. – Parecia, sei lá, bem mais jovem. E você estava torcendo por ele.

– Sim, eu o conheço – admitiu ela, dirigindo-se para a porta, antes de olhar para ele por sobre o ombro. – Como eu disse, já andei muito por aí.

♦ ♦ ♦

Daimar encontrou com Agneta num dos corredores do alojamento da fraternidade.

– Posso conversar com você um minuto?

– Claro – respondeu ela, sem muita animação.

Ele a conduziu até o jardim, que era iluminado pelo suave brilho alaranjado dos cristais de luz contínua no alto dos postes. Ela sentou-se ao lado dele em um banco de madeira, parecendo nervosa.

– Escute – começou ele. – Você parece interessada em um relacionamento, mas eu devo dizer que neste momento não vou ser capaz de retribuir esse tipo de interesse. Me desculpe.

– É por causa dela, não é?

Dela?

– Eu vi o jeito que você olha para ela. Vocês estão se dando muito bem, ficam ótimos juntos.

– Está falando de Cariele? Escute, isso não tem nada a ver com o que estou tentando dizer…

– Ela é assim mesmo, não é? O que eu poderia fazer? Ela escolhe o alvo e ataca com tudo o que tiver até atingir o objetivo! Eu não deveria estar surpresa…

– Do que você está falando? Eu disse que não tem nada a ver…

Ela se levantou, visivelmente alterada.

– Eu sabia que era furada querer ser amiga dela. Sabia que ela não tinha jeito, mas eu fui boba o suficiente para gostar da infeliz. Maldita seja!

– Aí você já está sendo cruel!

– Cruel? Você não sabe de nada! Primeiro foi aquele cretino do Erlano. Ela assediou o cara por semanas até conseguir roubar ele da Eivinde. E quando ele caiu na rede ela não quis mais saber dele, no fim o cara teve que se mudar de cidade. Depois foi o Crisler. Esse, depois que ela o fez abandonar outra amiga dela, ninguém sabe que fim levou, provavelmente voltou para a Sidéria. E antes ainda teve o… ah, esquece! Aquela lá não se importa com ninguém além de si mesma. Você vai se arrepender de se envolver com ela!

Dizendo isso, Agneta virou-se e saiu pisando duro.

Daimar achou melhor não tentar dizer mais nada. Apoiando os braços no encosto do banco, ele ficou ali por um longo tempo, pensando. A figura que Agneta tentou pintar não combinava com Cariele. Ele tinha certeza de que ela não era nem de longe tão superficial e egoísta a ponto fazer aquelas coisas, mas, de alguma forma, ele duvidava que algo naquele desabafo de Agneta fosse mentira. Como era possível?

Quando estavam observando juntos a batalha ele sentira uma espécie de compatibilidade entre os dois. Não era nada tão romântico como Agneta pensava, uma vez que Cariele não tinha interesse nele. Mas os dois pareciam se dar muito bem quando trabalhavam juntos. Parecia-lhe inconcebível a ideia de que estivesse julgando erroneamente a personalidade dela. Deveria haver uma boa explicação, e ele iria descobrir qual era.

♦ ♦ ♦

A carruagem, preta, reluzente e puxada por cavalos muito bem cuidados, parou em uma rua mal iluminada do subúrbio. O condutor ficou olhando atento para as redondezas daquela região perigosa, enquanto a tenente Cristalin Oglave descia, usando um vestido vermelho justo e decotado, e andava na direção de uma velha casa de pedra caindo aos pedaços. Qualquer observador imaginaria tratar-se de uma ricaça atrás de algum tipo de aventura, o que não era exatamente incomum naquela sociedade.

Tirando do bolso um pequeno bastão com um cristal de luz contínua na ponta para iluminar o caminho, ela percorreu alguns cômodos da habitação há muito abandonada, até chegar no que deveria ter sido o quarto de alguém. Colocando o bastão sobre uma velha mesa, ela tirou do bolso outro pequeno objeto, cujo brilho alaranjado refletiu nos pedaços de um velho espelho quebrado, formando inúmeros padrões de luz e sombra nas paredes sujas. Então uma parte do piso subitamente começou a se tornar transparente, até desaparecer por completo, revelando uma escadaria.

Pegando novamente o bastão, ela desceu por ali e chegou em um longo corredor com paredes de pedra, contendo pesadas portas de madeira a intervalos regulares, de ambos os lados. As portas tinham pequenas aberturas com grades, o que revelava a real natureza do lugar: era uma antiga masmorra.

Determinada, ela caminhou até uma cela específica e empurrou a porta, surpreendendo Delinger Gretel, que aparentemente tinha acabado de tomar banho. Estava com os cabelos molhados e usava uma calça velha e desbotada, e no momento estava no processo de vestir uma camisa igualmente velha. O quarto estava iluminado por vários candelabros nas paredes, que continham cristais brilhantes ao invés de velas, o que deu a Cristalin uma boa visão dos horríveis hematomas que ele tinha no ventre e do lado direito do peito.

– Você deu um espetáculo e tanto para meus estudantes hoje.

– Espetáculo maior seria se eu não estivesse lá.

– Você disse que eles não teriam coragem para fazer um ataque direto.

– Acho que superestimei a inteligência dos anciãos. Era óbvio que eles não tinham chance contra alguém que não está em degeneração. E agora já perderam cinco de seus membros mais fortes.

Ele terminou de abotoar a camisa e sentou-se na cama rústica, soltando um gemido de dor.

– Teria sido muito mais fácil se você tivesse me deixado ir junto.

– Não dá, tenente. Se eles descobrirem como eu estou combatendo a doença… – Ele balançou a cabeça. – Não quero nem pensar nas consequências.

Cristalin aproximou-se e sentou ao lado dele.

– Cris.

– Não vou adotar intimidades com você, tenente, já deixei isso bem claro.

Ela suspirou.

– Teimoso! Escute, você tinha razão, estão recrutando humanos. Tentaram atacar Daimar hoje cedo.

Ele fechou a cara.

– Eu sabia! Como ele está?

– Desconfiado. Britano conseguiu se antecipar e não teve muito trabalho para derrubar os três atacantes. Depois de algumas horas na solitária eles estavam ansiosos para contar tudo. A descrição que eles deram de quem os contratou bate com a daquela mulher que veio até você no dia da sua mudança. Seu filho pensa que foi apenas uma tentativa de assalto, mas não vai demorar muito para ele começar a ligar os fatos. Ele foi até a Rua das Camélias hoje cedo, mas aparentemente mudou de ideia e voltou sem entrar na loja do alquimista.

– Eu queria poder estar com ele, mas não posso ficar andando por aí.

Delinger sabia que, com os sentidos aguçados característicos de sua raça, seria muito simples determinarem a localização dele, a menos que se mantivesse em um tipo especial de abrigo, como aquela masmorra.

– Seu filho assistiu a maior parte da sua luta.

– É mesmo?

– Uma das alunas abriu um túnel de observação e ele usou os próprios sentidos para espiar através dele – ela sorriu. – Ele percebeu que eu estava torcendo por você e eu tive que revelar que o conheço.

– Tome cuidado.

– Hei, eu sou uma profissional treinada, lembra? E por que você está com essa cara? Você venceu! Agora eles não vão mais poder atacar a cidade, sobraram tão poucos deles que você acabaria com todos de uma vez, se tentassem. Talvez resolvam voltar para a caverna e nos deixar em paz.

Ele suspirou.

– Isso nunca vai acontecer, e você sabe disso. Tenho que terminar o que comecei.

– Tudo bem – resignou-se ela.

– Quer mesmo continuar me ajudando? Daqui para frente vai ficar cada vez mais perigoso.

– Eu já disse que vou com você até o fim, e nada vai me fazer mudar de ideia.

– Muito bem. Nesse caso acho melhor você tirar esse vestido, se não quiser sujá-lo.

— Fim do capítulo 7 —
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Uma opinião sobre “Lassam – Capítulo 7: Revoada

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