Lassam – Capítulo 8: Impulsividade

Publicado em 25/03/2017
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cap8

8. Impulsividade

– Ai! – Com uma careta, Cariele Asmund virou um pouco a cabeça para conseguir encarar sua colega de quarto por sobre o ombro.

– Desculpe, esbarrei o cotovelo em você sem querer – explicou Malena Ragenvaldi, levando a mão a boca para tentar ocultar um bocejo. – Machucou?

– Está tudo bem – respondeu Cariele, voltando a olhar para o espelho sobre a mesa, acariciando as mechas prateadas do próprio cabelo, enquanto as segurava na frente do corpo para que Malena pudesse passar aquela gosma malcheirosa nas suas costas.

Seus cabelos continuavam tão sedosos e brilhantes quanto estiveram nos últimos anos. Sua pele também continuava branca, suave e macia. As maçãs do rosto apresentavam um corado saudável e os lábios e olhos continuavam com o formato certo. Investira tanto tempo e esforço para manter aquela aparência, mas só agora percebia que nunca tinha parado para realmente apreciá-la. Era como se tivesse se tornado uma estranha para si mesma. Observando-se agora, descobriu que gostava do que via. Pena só ter realmente notado isso quando corria o risco de perder tudo.

– Está muito escuro, deixa eu pôr isso aqui – disse Malena, colocando um candelabro sobre uma cadeira, ao lado dela. – Por que você tem que acordar tão cedo?

– Se não fizer assim, não vou ter tempo de me tratar. Ainda tenho que fazer meus exercícios.

– Não sei como você aguenta uma rotina como essa. Você foi dormir bem depois da meia-noite e aposto que ainda faltam horas para o sol nascer.

– Uma hora e meia, no máximo. Já estou atrasada.

Malena revirou os olhos e balançou a cabeça, passando a parte interna do braço pelos próprios cabelos, tentando organizar um pouco os cachos negros desalinhados, mas tomando cuidado para não os sujar com a gosma.

– Por que foi dormir tão tarde? Tem a ver com aquela gritaria que a Agneta fez?

– Não, é que eu estava com muita coisa na cabeça.

Na verdade, o escândalo de Agneta a tinha afetado muito mais do que ela gostaria de admitir. Pensara que tinha encontrado uma amiga que poderia manter, apesar das diferenças entre elas, mas se enganara muito.

Não sei como pude um dia pensar que gostava de você! Não sei como pude ser tão idiota! Os sinais estavam na minha frente o tempo todo! Fui uma tola em acreditar que você me trataria diferente das outras! Você nunca pensou nos sentimentos delas, assim como nunca pensou nos meus, tudo o que você quer saber é de farra e diversão, não está nem aí para ninguém! Só porque tem essa aparência você se julga melhor do que todo mundo! Estou cansada de você! Eu te odeio!

Cariele perdera todas as amigas que conseguira fazer nesses últimos anos. Algumas, de propósito, mas não todas. Ela sabia o tempo todo que o caminho que escolhera seria solitário, mas às vezes era bem difícil não se sentir para baixo.

– Eu ouvi ela gritando um monte de besteiras – disse Malena. – Se fosse você, eu teria dado uns tapas nela para tentar fazer ela voltar a raciocinar.

– Ela acha que eu seduzi o príncipe encantado dela.

– Se quer minha opinião, se você seduziu ele, acho que não fez mais do que a obrigação.

– Malena!

– É verdade! – A morena lavou as mãos numa pequena bacia e pegou um pano limpo para começar a remover o excesso do creme de cheiro forte, já que nem todo ele seria absorvido pela pele. – Eu acho que cada um tem que lutar por sua própria felicidade com todas as armas que tiver. Está certo que tentar competir com alguém como você é pura perda de tempo, mas isso não é desculpa para sair estragando amizades desse jeito.

Cariele riu.

– Pelo visto, você está se dando bem com o seu príncipe.

– Ah, Egil é um amor. Acho que ainda não me perdoou pelo episódio do pó de estrela, mas as coisas estão caminhando bem.

– Espero que você tenha desistido de fazer essas maluquices.

– Por enquanto, sim.

– Malena!

– Ora, o que seria da vida sem um pouco de aventura?

Pegando uma grande toalha, Malena cobriu as costas de Cariele com ela.

– Pronto, agora vamos começar com esses cabelos. Uau! Você é tão linda!

Cariele jogou os cabelos para trás e virou o rosto de leve para tentar observar no espelho o ponto atrás da orelha direita. Ela mesma não conseguia ver muita coisa, mas sabia que a falha continuava ali. Hadara dissera que, se ela seguisse o tratamento direitinho, existia uma chance de que o cabelo voltasse a crescer naquela área, mas Cariele conhecia o suficiente sobre física e anatomia para saber que a chance era negligível.

Acompanhando o olhar da amiga, Malena tocou o ponto em questão e sacudiu a cabeça de leve.

– É uma pena que isso tenha acontecido, mas acho que você está se preocupando demais. Se prender os cabelos um pouco de lado e não muito apertado, ninguém nem vai perceber. Nem precisa ficar usando esses lenços, chapéus e sei lá mais o quê.

– Não posso correr riscos.

– Mas me diga uma coisa – disse Malena, começando a espalhar um outro tipo de unguento pela cabeça de Cariele. – Você seduziu mesmo o barão?

Cariele riu de novo.

– Como se eu pudesse.

– Olha, amiga, se você não pode, duvido que alguém mais possa.

– Não é isso. Eu… ele… nós só não combinamos, está bem?

Aquilo era uma mentira tão grande que Cariele quase se engasgou com ela. Lembrou-se do dia anterior, primeiro do incômodo que sentira ao vê-lo agarrado com Agneta, depois da irritação por ele atrapalhar sua concentração olhando pelo túnel de observação, e finalmente do que sentira ao observar a batalha junto com ele. Seu coração acelerou ao lembrar-se dele ao seu lado, de olhos fechados, conversando com ela, dividindo aquele momento. Pareceu-lhe algo tão íntimo, tão pessoal, tão… revelador.

Cariele já havia lutado contra monstros antes, mas nunca tinha visto criaturas tão imponentes e perigosas. Tinha sido assustador constatar a dimensão do corpo daqueles dragões e o fato de que com um simples gesto, por menor que fosse, uma criatura daquele tamanho poderia facilmente abreviar a vida de um ser humano. E tinha sido ainda mais impressionante vê-los lutando entre si, liberando toda aquela energia… e toda aquela violência.

O fato de Daimar estar ali do seu lado servira como uma âncora, mantendo-a presa à realidade e permitindo que observasse e até mesmo narrasse tudo até o final.

E, o que era ainda mais impressionante, fizera-a esquecer completamente de seu pai e do fato de ele estar voltando para casa. Do fato de não haver mais nada que os curandeiros pudessem fazer por ele. Da realidade de que a casa deles ficava do outro lado do continente e, apesar das pontes de vento tornarem a viagem para lá quase instantânea, não era algo que ela poderia fazer com frequência. Pelo menos não se quisesse poupar boa parte do dinheiro que conseguisse.

Talvez devesse procurar outra república, já que a doação mensal exigida na Alvorada faria um estrago nas suas economias se não encontrasse logo um trabalho grande. Talvez pudesse falar com o barão e pedir um desconto. Por um momento, a ideia lhe pareceu agradável, até perceber que quanto mais tempo passava com ele, mais se envolvia, e aquilo só iria atrasar seus planos. Não tinha tempo para se envolver com ninguém. Não mais.

Malena a fez pender a cabeça para trás para começar a enxaguar o unguento com a água da bacia, o que era um trabalho bastante demorado. Grata pela colega de quarto não insistir mais no assunto, Cariele fechou os olhos e deixou o pensamento vagar, lembrando da aparência impressionante daquele dragão dourado. Era óbvio, pelo que ele fizera na batalha e pelo comportamento de Cristalin, que aquela criatura havia lutado para proteger a cidade. As notícias que circulavam era que a guarda havia matado o monstro quando ele caiu no chão, fraco e muito ferido, mas ela não acreditava naquilo. Cristalin não era uma mulher que se encantava com qualquer coisa, e deu para perceber que estava muito mais envolvida com aquele dragão do que gostaria de revelar.

– Esse negócio deixa seus cabelos tão macios – comentou Malena, começando a fazer uma trança com as mechas molhadas. – Fica tão fácil de trançar, sem contar o brilho. Olha que bonito!

– Pode passar no seu, se quiser. Tem bastante de onde veio esse.

Cariele omitiu propositalmente o fato do unguento custar uma pequena fortuna e de ser relativamente complicado encontrar um caixeiro viajante disposto a trazer o produto do outro lado do país.

– Ah, não. Isso é muito caro – retrucou Malena. – Sem contar que seria um desperdício usar um produto tão bom numa vassoura como essa minha.

– Não seria mais justo se os melhores produtos fossem usados por quem mais precisa?

– Quem mais precisa é você. – Terminando de trançar o cabelo de Cariele e se levantando, Malena pegou um pano e enxugou as mãos. – Isso aí é um remédio, lembra? Pode se vestir agora.

– Obrigada.

– Espero que você não se importe de eu invejar você um pouquinho. Essa sua silhueta é um arraso.

Cariele sorriu e tratou de vestir algo para cobrir a parte de cima do corpo.

– Desde que esteja ciente de que você não faz meu tipo, tudo bem.

– Que os céus me livrem, vire essa boca para lá. Estou muito bem servida atualmente, obrigada, não preciso pender para esse lado, não. Ah, e pode deixar essa bagunça aí que eu arrumo quando eu acordar.

Dizendo aquilo, Malena jogou-se sobre a própria cama.

– Tudo bem. Obrigada pela ajuda.

– De nada. Ah, e sobre aquilo que você queria saber, parece que os caras vão se encontrar hoje à noite. Ouvi um deles comentando com os amigos na sala, ontem.

Cariele parou o que estava fazendo e encarou a colega de quarto.

– Tem certeza?

– Claro. Mas o que você está pretendendo fazer?

– Nada de mais – respondeu Cariele, pensativa. Depois de um instante, ela sorriu e voltou a se concentrar em vestir as calças. – Só ouvi dizer que eles sabem como dar uma festinha. Acho que vou dar uma de penetra.

– Ouvi dizer que esses caras são barra pesada. Não era você outro dia me dando sermão por querer me divertir de forma… aventureira? Olha que Hadara mandou você se cuidar, hein?

– Não se preocupe. Garanto que vou me divertir bastante sem colocar nenhum fio de cabelo meu em risco.

– Está bem – disse Malena, com um grande bocejo, antes de fechar os olhos. – Divirta-se.

Cariele terminou de vestir seu traje para exercícios, composto por uma túnica de mangas compridas e uma calça, ambas de cor escura, bem folgadas e de tecido leve, em seguida calçou as botas pretas e cobriu a cabeça com um lenço, também negro como a noite, o que contrastava fortemente com a cor clara dos cabelos. Saindo silenciosamente, ela dirigiu-se, determinada, até a porta do quarto dos monitores e bateu três vezes. Dez segundos depois, a porta abriu-se apenas o suficiente para deixar ver parte do rosto sonolento de Janica.

– Ah, é você – disse a monitora, com uma voz ainda mais sonolenta que sua aparência.

– Bom dia – Cariele a cumprimentou, animadamente. – Só passei para avisar que estou saindo. Até mais!

– Espere! Ah, droga!

Cinco minutos depois, Janica saía pela porta da frente do alojamento, ainda terminando de vestir um agasalho. Olhando ao redor, viu Cariele sentada em um banco no jardim, acenando para ela.

Soltando um suspiro frustrado, a monitora foi até ela.

– O que significa isso?

Cariele se levantou e apontou na direção dos prédios principais.

– Estou indo até a arena. Vamos?

As duas começaram a andar juntas, lado a lado.

– Posso saber o que quer fazer a essa hora da madrugada?

– O mesmo que venho fazendo todos os dias a essa hora. Imagino que esse seja o único lugar até onde você não me seguiu ainda.

– Eu preferia continuar ignorante desse fato. Por que me chamou?

– Para ver como ficava essa sua cara preta no escuro. Como estão as coisas com Britano?

Janica estreitou ainda mais os olhos.

– Não é de sua conta. Vocês já se divertiram o suficiente nos obrigando a dividir o quarto.

– A intenção era que um de vocês se recusasse a isso e pelo menos um de nós dois tivesse um pouco de liberdade.

– Você não vai arrancar informações de mim.

– À sua esquerda, do outro lado da cerejeira – disse Cariele, séria e em voz baixa, olhando para a frente.

Janica deu uma olhada discreta na direção indicada antes de voltar a encarar Cariele.

– É só um casal passeando, provavelmente querendo ver o sol nascer.

– Bobagem, são militares, e bem treinados. Achei que Cristalin tinha dito que era a única oficial aqui dentro.

Janica suspirou. Quando aceitara aquele trabalho, pensara que estaria acompanhando o dia a dia de uma pirralha inconsequente que tinha mais curvas do que miolos. Mas agora ficava cada vez mais óbvia a razão de quererem alguém de olho nela. A garota era afiada e cheia de recursos, o que a tornava muito perigosa. Era melhor responder com sinceridade.

– A tenente pediu reforços depois do ataque dos monstros. Deve ter patrulhas espalhadas por toda a cidade.

– Que ótimo – ironizou Cariele, torcendo os lábios. – Mais bisbilhoteiros para ficarem de olho na minha vida.

– Deve ser interessante acreditar que o próprio umbigo é o centro do mundo.

Cariele olhou para a outra, com um sorriso.

– Já ouviu falar da Teoria de Ravarki? Segundo ele, o mundo é um plano infinito em todas as direções, sem começo e nem fim. Como é infinito, qualquer ponto dele pode ser considerado seu centro. Partindo desse princípio, eu não apenas acredito ser o centro do mundo, eu sei que sou.

Janica soltou uma imitação irônica de risada.

– A-há-há!

As duas continuaram andando por mais dez minutos, até chegarem ao prédio circular no interior do qual era efetuada a prática de esportes em grupo. Cariele olhou para os lados antes de tirar uma grande chave de um bolso oculto da túnica.

Janica olhou para ela, espantada.

– Onde conseguiu isso?

Cariele usou a chave para destrancar um portão lateral do prédio.

– Pelo visto, a tenente não contou muito sobre mim a você, não é?

– Claro que não! Por que contaria?

– Entendo – respondeu Cariele, trancando novamente o portão de ferro depois que ambas entraram e tirando um cristal de luz contínua do bolso para iluminar o caminho. – Por aqui.

Seguiram por um corredor cheio de curvas, desceram alguns lances de escada e pegaram outro corredor até chegarem a mais um portão, que Cariele voltou a destrancar com outra chave que ninguém além dos instrutores deveria ter.

Assim, ambas entraram numa área circular a céu aberto, com uns dez metros de diâmetro e com o chão coberto de areia. Havia quatro estátuas de guerreiros antigos em tamanho natural junto às paredes, a intervalos regulares, como se estivessem observando tudo o que acontecia ali dentro. A pouca iluminação fazia com que o lugar parecesse muito sinistro.

Janica olhou ao redor, espantada.

– Uma área de treinamento para gladiadores! Não sabia que existia uma aqui, achei que tinham destruído todas depois que as lutas até a morte foram proibidas.

– Esta sobreviveu – disse Cariele, andando até as estátuas e colocando cristais brilhantes dentro dos suportes especiais que existiam em cada uma delas. Como resultado, o local ficou razoavelmente iluminado.

– Interessante. Você disse que vem aqui todos os dias?

– Sim, tenho que me manter em forma.

– E está me mostrando isso por quê?

– A princípio, para ver sua reação. Você me parece bastante surpresa.

– Com certeza.

– Me responda uma coisa… por que continua fazendo esse trabalho de me seguir, mesmo depois de quase ter morrido por causa disso?

Janica deu de ombros.

– Não foi minha primeira surra, e provavelmente não será a última. Eu aceitei fazer um trabalho, e pretendo fazê-lo até o fim.

– Escute, eu cometi um erro e não percebi que estava me seguindo. Eu sinto muito por aquilo.

Os olhos de Janica se arregalaram em total espanto.

– Achei que isso tudo já tivesse sido esclarecido.

– Eu não tive oportunidade de me desculpar.

– E eu nunca imaginei que você fosse do tipo que se desculpava por alguma coisa a alguém.

– Eu não estou na minha melhor fase – admitiu Cariele. – Estou cometendo erros. Não quero arrastar mais ninguém para uma situação daquelas, não importa quem seja. E já que você não vai parar de me seguir e não vai contar por que está fazendo isso ou por ordem de quem, prefiro que você esteja por perto, de forma que eu também possa ficar de olho em você.

– Tem ideia do quanto isso soa estranho?

– Eu costumava ser uma boa juíza de caráter. Espero não estar muito enferrujada nessa área, mas o fato é que eu confio em você.

Aquilo era a mais pura verdade. Janica sempre agira de forma profissional, apesar de tê-la irritado muito nessas últimas semanas. A monitora mantinha-se séria e comedida o tempo todo, tratando os estudantes de forma polida, mas firme. Se ainda fosse militar, seria um ótimo soldado. Mas claro que as informações que Daimar lhe passara sobre a negra tiveram um peso enorme na decisão de confiar nela.

Janica olhou ao redor, notando novamente as quatro assustadoras estátuas, que brilhavam de forma sinistra por causa do reflexo dos cristais.

– Certo, e o que, exatamente, vai querer fazer comigo aqui dentro?

– Com você, nada – disse Cariele, enrolando a trança loira na nuca, por sob o lenço, e prendendo-a com um pequeno objeto de madeira. – Pode fazer o que quiser, tem um banco de madeira ali, se quiser se sentar. Eu vou treinar um pouco.

Depois de observar Cariele iniciar uma longa série de alongamentos, Janica soltou um suspiro desanimado e tratou de sentar-se, contrariada.

A expressão da monitora, no entanto, foi se modificando com o passar do tempo, conforme Cariele iniciava a execução de um kata composto por uma variedade impressionante de golpes com os pés, punhos, joelhos e cotovelos. Para quem estava familiarizado com treinamento militar, era fácil reconhecer a maioria daqueles movimentos, assim como o nível de habilidade e prática necessários para executá-los daquela forma. Aquela sequência intercalava movimentos básicos com outros, extremamente avançados, com uma simplicidade e precisão impossíveis de serem adquiridos, senão através de muita prática e disciplina.

Cariele, obviamente, estava num nível muito superior ao dela, ou de qualquer soldado de primeiro escalão. Janica não demorou muito a perceber que poderia aprender muitas coisas apenas observando aquele treinamento.

Mais de quarenta minutos se passaram, enquanto Cariele, sem parecer nem um pouco cansada, completava diferentes sequências, intercaladas por alguns minutos de meditação. A resistência dela era impressionante, e o controle que tinha da respiração era fenomenal.

Então Janica subitamente levantou a cabeça, ao perceber uma presença intrusiva. Virando-se para uma determinada direção, ela se concentrou, levando os dedos à testa. Então, ao perceber do que se tratava ela relaxou, com certo alívio.

– Identificou quem é? – Cariele interrompeu o movimento que fazia para olhar para ela.

– Parece que o seu barão está interessado em saber o que você faz fora da cama a essa hora.

Ele estava ali, observando-a com aqueles sentidos especiais dele. Os mesmos que ele disse só funcionarem com ela.

Endireitando-se, Cariele sacudiu a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos, bem como a súbita onda de euforia que tomou conta dela. Então, sem dizer nada, tirou do bolso a chave do portão, arremessando-a para Janica, antes de retomar a posição para reiniciar a sequência de movimentos.

– Vocês dois vão acabar se dando mal por estarem invadindo instalações da academia sem permissão.

Cariele notou que Janica levantou a cabeça e fez um movimento rápido com os dedos. Sorriu consigo mesma, sabendo qual o tipo de encantamento que a outra tinha conjurado. Pelo visto, o casal de monitores já tinha ficado íntimo a ponto de combinarem formas de se comunicar à distância.

Mas, no momento, aquilo não era importante. Sabendo que era observada, ela visualizou o rosto arrogante do barão e começou a imaginar-se desferindo cada um daqueles golpes nele.

Quando Janica destrancou o portão para a entrada de Daimar e Britano, ela estava coberta de suor e respirando pesadamente, concentrando-se em cada movimento como se sua vida dependesse daquilo.

Os recém-chegados se entreolharam, perplexos, ao verem o que parecia uma imensa fúria sendo extravasada através de golpes poderosíssimos e movimentos bastante complicados, todos sendo executados numa velocidade quase sobre-humana.

Completando um dos katas mais difíceis que ela já tentara, e sem cometer nenhum erro sequer, Cariele sentia-se eufórica. Encerrou o exercício juntando as mãos na frente do peito e fazendo uma reverência na direção de algum ponto entre duas das estátuas.

Daimar olhava para ela, impressionado.

– Devemos aplaudir?

– Não – respondeu Cariele, olhando para ele. – Ao invés disso, que tal revelar o motivo de sua presença aqui? Achei que tinha deixado claro que não gosto de ser espionada.

Daimar olhou para Janica.

– Acho que essa alfinetada foi para você.

– Muito engraçado – disse Cariele, caminhando até as estátuas para recolher os cristais.

Os primeiros raios de sol já cruzavam o horizonte, e mesmo sem a luz contínua já era possível enxergar relativamente bem, depois que os olhos se acostumavam.

– Eu só estava curioso – explicou Daimar.

– Como conseguiu entrar aqui?

– Tenho meus métodos.

– É, infelizmente, ele tem – resmungou Britano, contrariado.

Cariele guardou os cristais no bolso e olhou de um para o outro, por um momento, antes de encarar Daimar.

– Interessante. Deixa eu adivinhar: um dos motivos de você ter uma ficha corrida tão extensa é porque gosta de entrar nos lugares sem ser convidado?

– Exato – responderam Daimar e Britano, em uníssono.

Ela sorriu, divertida.

– E você se orgulha disso?

– É um dom – respondeu ele, com um sorriso tranquilo. – Mas que moral tem você para me criticar? Já estava aqui dentro quando eu cheguei.

– Eu tenho autorização para entrar aqui.

Daimar e os dois monitores lançaram olhares incrédulos a ela.

– Que foi? – Ela colocou as mãos na cintura. – Se querem conferir, podem me denunciar na supervisão.

Daimar não consegiu esconder a surpresa.

– Sério?

– Está me chamando de mentirosa?

– Não – respondeu ele, com um sorriso provocador. – Mas já que tocou nesse assunto, você não compareceu no lugar que tínhamos combinado, então eu achei que deveria entregar isso a você. – Ele estendeu a mão, revelando três cubos que emitiam um brilho multicolorido, como se fossem arco-íris aprisionados dentro de pedaços de vidro.

Cariele olhou para os artefatos, desconfiada.

– Tem certeza disso?

– Eu disse que estava te devendo, não disse?

– Não sei se posso confiar em você.

– Isso não serve como um gesto de confiança? – Ele fez um gesto de cabeça na direção dos simulacros.

– Você só está querendo ver minhas armas.

Ele sorriu.

– Mas é claro. Você me deixou curioso.

Com um movimento muito rápido, ela pareceu tirar algo do bolso e levantou as mãos, onde materializou-se imediatamente um par de tonfas de madeira. Então, segurando as duas peças com uma das mãos, ela deu uma pequena pancada na lateral delas, fazendo com que um cubo colorido surgisse, parecendo sair de dentro da madeira sólida.

Entregando o simulacro exaurido para ele, ela pegou um dos novos e o inseriu nas armas, com uma facilidade impressionante, como se aquele acoplamento fosse algo corriqueiro e não um procedimento complexo e cheio de etapas bem definidas.

– Impressionante – disse ele.

– Essas coisas velhas?

– Não. Me referia à sua habilidade em manusear isso aí.

– Não estou tentando impressionar ninguém – disse ela, guardando as armas ainda mais rápido do que as tinha sacado.

– Bom, está conseguindo.

Daimar, Britano e Janica apenas observaram em silêncio enquanto ela repetia o procedimento de troca de simulacros para um par de luvas com punhos de metal e uma pequena besta sem arco, com abertura para três projéteis.

Conhecendo um pouco sobre armas devido aos negócios da família, Daimar sabia que bestas sem arco disparavam dardos usando energia mística para impulsioná-los, ao invés de um dispositivo mecânico.

– Quando foi a última vez que levou essas armas em um ferreiro? – perguntou Janica, de repente.

– Já faz um bom tempo.

– Imaginei. Elas já devem ter perdido mais da metade da eficiência.

Aquilo era verdade, pensou Daimar. Não que as armas estivessem fisicamente ruins, mas, nos dias atuais, em que a conjuração de efeitos místicos era considerada muito mais importante que o potencial de dano físico da arma, era necessário efetuar manutenções periódicas para manter abertos os canais invisíveis por onde a energia mística fluía.

– Isso explica porque você está gastando tanta energia para lutar com elas – concluiu Daimar.

– Não consigo entender como ainda consegue lutar com essas coisas, com ou sem simulacros – disse Janica.

– É um pouco complicado achar alguém que trabalhe com esse tipo de material, e a manutenção também sai muito caro.

– Nesse caso, deveria procurar armas mais baratas – sugeriu Britano.

– Temos uma ferraria no centro de Lassam – disse Daimar. – Por que não leva tudo lá para nosso pessoal dar uma olhada?

Cariele franziu o cenho.

– Não acha que está levando essa dívida de honra com Bodine um pouco longe demais, barão?

– Veja por esse lado: eu posso garantir que o meu pessoal trabalha bem e que vai cobrar um preço justo pelo trabalho.

– Vou pensar. Agora vamos embora antes que alguém encontre você aqui. Não queremos manchar ainda mais a sua ficha, queremos?

♦ ♦ ♦

No fim da tarde, Daimar voltou para o alojamento com certo desapontamento. Cristalin Oglave havia mandado mensagens a todos os membros da turma especial, avisando que ela iria ficar presa com algum tipo de burocracia militar e que por causa disso estavam todos dispensados da aula naquele dia. Era irônico ele se sentir desapontado por isso agora, sendo que tinha ficado tão irritado logo que lhe impuseram aquela carga extra de estudos.

Mas o fato é que havia se acostumado a observar Cariele, a senti-la por perto. E a sensação agradável que isso lhe dava acabara por fazê-lo esquecer de seu ressentimento e, nos últimos dias, tinha até mesmo se divertido com as aulas. Claro que grande parte do mérito daquilo era da instrutora, uma das melhores que ele já tivera na vida.

Ele caminhava pelo corredor na direção do seu quarto quando sentiu a presença familiar e levantou a cabeça, olhando para os lados até avistá-la saindo do próprio quarto, toda arrumada, provavelmente se dirigindo para algum tipo de encontro.

Ela estava linda em um conjunto muito chamativo, tanto pela cor vermelha quanto pela forma como parecia aderir à pele dela. Para os padrões da época, chamar aquela calça de “justa” era um eufemismo. Mas pelo menos ela se cobria da cabeça aos pés, ao contrário de muitas outras que abusavam de decotes e saias curtas, o que ele costumava achar um tanto vulgar. Os cabelos estavam presos pouco acima da nuca por um enfeite também vermelho, do qual pendia uma espécie de véu curto, que cobria a maior parte do lado de cima da cabeça.

Percebendo que era observada, ela levantou a cabeça e olhou diretamente para ele, franzindo o cenho.

Entendendo a indireta, ele levantou as mãos num pedido silencioso de desculpas e se voltou, retomando o caminho para o seu quarto.

Agora não posso nem a encontrar por acaso em lugar público sem tomar bronca.

Destrancando a porta, ele se pegou imaginando o que ela tinha que lhe chamava tanto a atenção. O corpo dela era maravilhoso, mas por alguma razão ele não se sentia particularmente atraído por aqueles belos atributos físicos. Acabou concluindo que o que mexia com ele mesmo era a voz, o perfume, a personalidade, a atitude, a presença dela.

O que há comigo? Como é possível estar e não estar atraído por alguém ao mesmo tempo?

Cariele, por sua vez, irritava-se com Daimar sempre que o via por causa de seus próprios sentimentos descontrolados. Enquanto andava, determinada, na direção dos portões, tentava esquecer as sensações que aquele olhar dele provocou nela e tratou de se concentrar em seu trabalho.

Não demorou muito para ela encontrar seu alvo dessa noite. Também não foi nada difícil se colocar entre o infeliz e a pretendente dele. A garota não ficou nem um pouco satisfeita em ser trocada por outra e fez um pequeno escândalo, mas ela não se importou, tratando de agarrar o cara pelo braço e afastá-lo dali o mais rápido possível. Convencê-lo a levá-la até a festinha em que ele iria com os amigos também foi muito simples. Algumas frases bem colocadas e ela se tornara uma loira com muitas curvas e pouco cérebro, o que, obviamente, era o tipo de mulher favorito dele.

O lugar era um pardieiro. Tratava-se de uma construção grande, mas muito velha e caindo aos pedaços, cercada por terrenos baldios cheios de lixo. Dois homens e uma mulher, todos com muitas tatuagens no corpo, vigiavam a entrada, enquanto fingiam bater papo e flertar. Dava para ouvir, vindo de lá de dentro, sons de piano e uma voz feminina, surpreendentemente bela, cantando uma canção popular.

A mulher tatuada aproximou-se e revistou Cariele, enquanto seu pretenso acompanhante recebia o mesmo tratamento de um dos homens.

Cariele imaginou que coisas como bolsos infinitos não deviam ser nada comuns para essas pessoas. Provavelmente nenhum deles tinha visto algo assim, então não dava para culpá-los por estarem deixando uma caçadora de recompensas fortemente armada entrar na festinha deles.

Agora é a hora da verdade, pensou ela, consigo mesma. Ela tinha dois palpites sobre quem havia contratado Janica para ficar atrás dela. O primeiro palpite era Cristalin, mas aquilo parecia cada vez mais improvável, por isso restava apenas o segundo, e, se ele estivesse certo, Cariele estava caminhando diretamente para uma armadilha. Mas era melhor confirmar isso agora, quando ela tinha um plano de contingência preparado, do que ser pega de surpresa mais tarde.

Assim, ela entrou naquele lugar, não se surpreendendo ao ver quantos jovens e adolescentes havia por ali. A aparência interior do prédio não era muito melhor que a exterior, mas todos pareciam “altos” ou bêbados demais para se importarem. Depois de ficar um tempo na festa e ser apresentada a uma infinidade de pessoas, muitas delas obviamente sob efeito de entorpecentes ilegais, ela conseguiu escapar com a velha desculpa de ir ao banheiro.

Ao se ver sozinha, tratou de esconder-se nas sombras e vasculhar o lugar. Não demorou muito para conseguir a primeira evidência sólida que precisava: uma fumaça adocicada e levemente cítrica que parecia vir de um andar subterrâneo.

Tratando de cobrir a boca e o nariz com um lenço especial, que amarrou atrás da cabeça, ela tirou do bolso um artefato em formato de octaedro, que absorvia mais luz do que emitia, tendo, por causa disso, uma aparência escura, quase desfocada.

Ela lançou o pequeno objeto no ar e o deixou flutuar por alguns segundos, até ter certeza que tudo o que ela via, ouvia e cheirava tinha sido gravado. Aquilo lhe dava uma justificativa, perante a lei, para investigar mais a fundo o lugar, até mesmo à força, se necessário.

Enquanto isso, no telhado de um prédio a algumas quadras de distância, Janica baixou a luneta com a qual estava vigiando a entrada do lugar onde Cariele tinha entrado e olhou para cima, analisando a posição da lua no céu. O tempo estava se esgotando.

♦ ♦ ♦

Daimar ainda pensava em Cariele quando desceu até o refeitório, encontrando Egil e Falcão sentados a uma mesa no canto, batendo papo. Os dois o saudaram efusivamente e o convidaram a se sentar com eles, oferta que ele resolveu aceitar.

– O que há de novo?

– Nada de mais – respondeu Falcão. – Mas talvez seja bom você ficar ciente.

– O que houve?

– Parece que Cariele andou criando polêmica de novo. Deixou uma aluna do primeiro ano de Artes soltando fogo pelas ventas.

– O que ela fez?

– Ora, Daimar – disse Egil, com um sorriso. – Você conhece aquela figura. O que volta e meia ela faz que deixa outras mulheres bravas?

– “Bravas” é um eufemismo – alfinetou Falcão.

– Sei lá! – respondeu Daimar. – Rouba o namorado delas?

Falcão levantou um dos braços.

– E temos um vencedor!

Daimar levantou uma sobrancelha.

– Sério? Ela fez isso de novo?

– Ela é bastante competente nesse departamento – comentou Egil, rindo.

Daimar pensou por um momento.

– Essa história se repete bastante, não? Ouvi falar sobre vários caras que ela “roubou”, incluindo um camarada chamado Erlano. E depois teve outro, acho que o nome era Crisler.

– Pff! – Falcão fez um gesto de pouco caso. – Esse Erlano era um tranqueira. Se quer minha opinião, Cariele fez um favor para a ex-namorada dele. Hoje ela parece uma pessoa completamente diferente, está namorando um boa pinta e pensando em casamento. Antes a coitada parecia um espantalho, vivia com medo de todo mundo. Eu acho que o cara abusava dela.

Egil levantou uma mão.

– Opa, mas ninguém tem provas disso!

– Não, mas que o cara não valia nada, isso não valia.

Daimar lançou um olhar curioso para os amigos.

– Onde está esse cara? Vocês sabem o nome inteiro dele?

– Acho que o nome era Erlano Larsoni. Agora, onde ele está, ninguém sabe – respondeu Falcão. – Provavelmente foi procurar uma outra gangue, ou teve uma sobredose, sei lá. Dizem que foi para outra cidade, mas se foi isso, ele foi embora sem levar nada além da roupa do corpo. A pocilga onde ele morava foi interditada pelo exército por causa de algum crime cometido por lá, e dizem que tudo o que ele tinha continua lá até hoje.

Daimar assentiu, impressionado com a quantidade de informações que o ruivo tinha.

– E quanto a esse Crisler?

– Crisler… Crisler… – disse Egil, tentando se lembrar.

– Rideliam – disse Falcão. – Crisler Rideliam. Cariele perdeu uma boa amiga por causa dele.

O rosto de Egil se iluminou ao se lembrar do ocorrido.

– Ah, verdade! Mas não foi essa amiga aí que não levou nem uma semana para ir morar com outro cara?

– Acho que foi essa mesma. E se a intenção dela foi se vingar do infeliz, acho que não adiantou nada, porque depois descobriram que ele tinha feito as malas e se mandado no dia seguinte. Dizem que voltou para a Sidéria.

Intrigado, Daimar perguntou:

– Esse cara era gente boa?

– Ah, sei lá, nem lembro direito, mas ele parecia meio estranho – respondeu Egil.

– Fiquei sabendo que ele foi preso uma vez, por tráfico – disse Falcão. – Mas foi solto logo depois, por falta de provas.

Então é isso.

– Vejo vocês mais tarde –  disse Daimar, levantando-se de repente.

Falcão riu daquela atitude intempestiva, tão incomum ao barão.

– O que deu em você?

– Preciso falar com uma pessoa.

♦ ♦ ♦

O lugar era imenso. Devia ter sido uma espécie de abrigo construído durante uma das grandes guerras do passado. Depois de mais de uma hora de exploração, sendo que a maioria desse tempo ela passou escondida ou driblando os numerosos vigias, Cariele conseguiu chegar até o terceiro nível subterrâneo, que, felizmente, parecia ser o último. O cheiro ali era forte o suficiente para ela sentir, mesmo através do lenço.

Ela usou novamente o octaedro negro para registrar o lugar, antes de se aventurar pelos corredores estreitos, úmidos e escuros e precisou usar um de seus itens especiais para lançar sobre si um encanto chamado caminho das sombras para poder passar por dois vigias de expressão entediada sem ser percebida. Após isso, ela examinou seus bolsos e percebeu que já tinha gasto energia demais. Seus artefatos de poder estavam quase todos no fim da carga. Tinha que terminar aquilo logo, ou estaria em sérios problemas.

Suspirou, com misto de alívio e empolgação, quando finalmente descobriu o laboratório em que as substâncias ilegais estavam sendo produzidas. Havia muitos ruídos e fumaça vindo de dentro, indicando que havia várias pessoas ali e a produção estava ocorrendo a todo vapor.

Deixando o laboratório de lado momentaneamente, ela seguiu em frente pelo corredor e encontrou outras câmaras, que serviam como depósito. A quantidade de mercadorias legais e ilegais armazenada ali era impressionante. Obviamente, aquela operação deveria ser bem lucrativa.

Concluindo que não restava mais nada a fazer além de acabar com a festa daquela quadrilha, ela voltou silenciosamente até onde estavam os vigias, sacou suas tonfas e tratou de colocá-los para dormir da forma mais rápida e discreta que conseguiu.

Em seguida voltou ao laboratório e escancarou a porta, surpreendendo as cinco pessoas que estavam ali dentro. Um homem e duas mulheres estavam atrás de uma mesa, usando panos para cobrir o rosto enquanto mexiam no conteúdo de pequenos potes de cerâmica. Outros dois se encontravam mais perto da porta, à sua esquerda, conversando.

Lançando o octaedro no ar para gravar tudo, ela levantou a besta e disparou três dardos com precisão impecável, derrubando os três que estavam mais longe, antes de largar aquela arma e sacar novamente as tonfas para encarar os outros dois. Com esses ela não teve tempo para ser gentil, o que era ótimo, já que estava precisando mesmo extravasar um pouco de toda aquela tensão acumulada.

Com todos inconscientes, ela recolheu a besta e os dardos e olhou em volta. Era hora de dar um jeito de colocar para dormir o máximo possível de pessoas que estivessem naquele lugar, e também de assegurar sua fuga dali.

Num canto da sala havia um caldeirão grande, que estava pendurado sobre uma fogueira e do qual saía a maior parte da fumaça que se espalhava pelos corredores. Identificando com facilidade as substâncias que havia nos desorganizados armários, ela juntou alguns potes, destampou-os e despejou seu conteúdo no caldeirão, junto com um dos pequenos simulacros esféricos que havia por ali e que aquelas pessoas provavelmente usavam para catalisar a mistura de ingredientes. Imediatamente, a fumaça branca mudou de cor, assumindo um tom esverdeado, e o volume dela que saía do caldeirão começou a aumentar.

Um rapaz apareceu na porta da sala de repente e parou, aturdido.

– Mas o quê?

Ela mal teve tempo de sacar suas armas, quando, após arregalar os olhos, o jovem virou-se e saiu correndo.

Soltando um praguejamento, ela saiu correndo atrás dele.

♦ ♦ ♦

Cristalin Oglave estava sentada em sua sala no posto militar, com as botas sobre a mesa e os braços cruzados atrás da cabeça. Depois dos eventos da noite anterior, sentia-se exausta e enfraquecida, mas a sensação de bem-estar e satisfação era tão grande que valia a pena qualquer sacrifício.

Sua porta foi escancarada de repente, o que fez com que ela abrisse os olhos… e topasse com o olhar desconfiado de Daimar Gretel.

Imediatamente ela se endireitou.

– O que está fazendo aqui?

Ele entrou e fechou a porta atrás de si, lançando a ela um sorriso provocador.

– Achei que estava sobrecarregada com burocracia. Resolveu negligenciar seus deveres como instrutora só para poder ficar cochilando em sua cadeira?

– Tive muitos assuntos para… resolver hoje. O que você quer? Como entrou aqui?

Ele se aproximou e o sorriso irônico desapareceu do rosto dele, substituído por genuína preocupação.

– Você está bem? Está pálida.

– Excesso de burocracia pode exaurir uma pessoa. Agora, quer, por favor, responder minhas perguntas? Onde está Britano?

Ele a encarou por mais um instante, antes de assentir e dirigir-se à janela, sorrindo e fazendo um gesto brincalhão de cumprimento para alguém do lado de fora.

– Olha ele lá. Quer dar um oi?

– Não, quero saber é como entrou aqui.

Ele afastou-se da janela, sentando-se em uma das cadeiras na frente da mesa dela.

– Os soldados lá na frente pareciam muito ocupados, então eu não quis incomodá-los, uma vez que eu só queria ter uma conversa com você.

– Você invadiu uma repartição militar. Isso é um crime grave.

– Só queria fazer algumas perguntas.

– Espero que seja algo importante. Se não for, você vai ter problemas.

– Certo, então vamos lá. Como sabe, eu me mudei para Lassam há menos de um mês. Logo no final da minha primeira semana na academia, o barão anterior renunciou ao cargo e acabaram me colocando na liderança da fraternidade. O fato, tenente, é que venho percebendo que muitos criminosos escolheram a academia como área de atuação e isso me deixou preocupado. Os casos de Bodine e Ebe Lenart parecem ser ocorrências preocupantemente comuns.

Cristalin cruzou as mãos sobre a mesa, séria, mas aquela palidez e o cansaço evidente davam a ela um ar de fragilidade que contrastava muito com a postura.

– Certo, barão. Onde quer chegar?

– Eu gostaria de um relatório de atividades ilegais registradas na academia nos últimos seis meses. Preciso saber no que estou me metendo.

– Esse é um pedido válido, senhor Gretel. Por que não o faz através dos canais regulares?

– Achei que poderia obter sua colaboração para agilizar as coisas.

– Certo, vou repassar seu pedido adiante. Mais alguma coisa?

– Os criminosos que foram presos… eu gostaria de saber para onde foram enviados.

– E por que eu lhe daria essa informação?

Ele sorriu.

– E por que não?

Ela suspirou.

– Ebe Lenart foi para a masmorra militar em Boars, junto com a família dela. Provavelmente vão ser todos enforcados até o fim do mês.

– Ótimo. E quanto aos outros? Erlano Larsoni e Crisler Rideliam, por exemplo.

– Larsoni pegou perpétua e Rideliam não pode mais prejudicar ninguém.

Ele sorriu.

– É mesmo?

Cristalin percebeu que tinha falado mais do que deveria.

– Mas o quê?! Que raios você quer, barão?

– Foi Cariele quem prendeu os dois, não foi?

Ela suspirou, desanimada. A exaustão era tão grande que devia estar prejudicando seu raciocínio. Definitivamente, deveria ter ficado em casa hoje.

– Isso é assunto mais do que sigiloso, garoto. Se uma palavra sobre esses casos se espalhar, a vida dela não valerá mais nada. Consegue entender isso?

– Claro que sim – respondeu ele, sério.

Um soldado bateu na porta, antes de abri-la.

– Tenente! – O oficial foi entrando, mas ficou subitamente paralisado, sem saber o que fazer, ao perceber a presença de Daimar.

– Fale – ordenou ela.

– Busca e apreensão sendo efetuada no distrito Coroados. Parece que é algo grande. E seu operativo está envolvido.

Cristalin levou uma mão à testa.

– Ah, droga!

♦ ♦ ♦

Perseguindo o rapaz, Cariele acabou topando com dois dos vigias do andar superior. Um deles tinha um bastão que parecia ser do tipo que emite rajadas elétricas e o outro um enorme martelo de batalha. Ela tentou atingi-los com dardos, mas o cara do martelo se adiantou e os defletiu, mostrando que aquela arma não tinha só tamanho e força bruta. Com cuidado, ela equipou suas luvas e assumiu posição de luta, andando ao redor do homem, olhos fixos no martelo. Com um sorriso presunçoso, ele avançou sobre ela e desferiu um poderoso golpe, atingindo-a em cheio do lado direito do corpo e arremessando-a contra a parede do outro lado.

Aproveitando a inércia, ela caiu rolando pelo chão e puxou um dardo do bolso, que arremessou com incrível precisão na garganta do outro homem. Ele pareceu ficar engasgado por alguns segundos antes de perder a consciência, o perigoso bastão rolando de sua mão enquanto ele desabava no chão.

Aliviada por ter neutralizado o perigo maior, ela se levantou bem no momento que o homem do martelo a atacava novamente, dessa vez com um golpe de cima para baixo. Num movimento rápido, ela levantou a mão enluvada e segurou a ponta do martelo no ar. O impacto entre o martelo e a luva provocou um estrondo enorme, mas graças ao movimento especial de Cariele e de muita energia do simulacro, toda a força de impacto foi devolvida ao atacante, que acabou sendo violentamente arremessado para trás.

Sem tempo a perder, ela saiu correndo para a saída, em meio à névoa verde, levando o pesado martelo consigo.

♦ ♦ ♦

Soldados cercavam a velha construção, da qual a fumaça verde parecia sair por cada fresta. Poucas pessoas conseguiram sair antes de desmaiarem por causa do gás e boa parte delas tinha sido capturada pelos militares.

Cristalin desceu da carruagem com a ajuda de Daimar, que insistira em ir junto e ela acabara concordando para poder ficar de olho nele. Britano, que veio com eles, desceu em seguida.

Janica imediatamente veio correndo até deles.

– Então foi você quem nos chamou – concluiu a tenente.

– Cariele me pediu para dar o alerta se demorasse demais para sair de lá – respondeu a negra, olhando, preocupada, para a velha construção.

De repente, uma das paredes laterais explodiu, lançando pedras para todos os lados, e uma figura vestida de vermelho saiu pelo buraco, largando um enorme martelo de batalha no chão e andando, cambaleante, na direção dos militares.

Ao reconhecer Cariele, Daimar olhou para Cristalin.

– Céus! No que foi que você a meteu dessa vez?

– Não faço ideia. Mas vou descobrir.

— Fim do capítulo 8 —
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2 opiniões sobre “Lassam – Capítulo 8: Impulsividade

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