Lassam – Capítulo 9: Consequências

Publicado em 01/04/2017
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cap-9

9. Consequências

Cariele não estava de bom humor. Primeiro, porque estava cansada depois das consecutivas batalhas que teve que lutar para sair de dentro daquele antro de criminosos. Segundo porque estava com o corpo todo dolorido. Tomara diversos golpes, e a martelada que recebeu do lado direito do corpo tinha sido muito mais forte do que ela antecipara. O escudo corporal não foi capaz de absorver todo o impacto, e isso resultou em uma grande área que se tornava mais arroxeada e sensível a cada minuto que passava. Terceiro, porque estava sentindo náusea e dor de cabeça, sintomas provocados, com certeza, pela prolongada exposição à fumaça tóxica que ela mesma criara. Quarto, por Daimar Gretel tê-la visto nesse estado. E, por último, mas definitivamente não menos importante, pelos soldados da tenente Oglave a terem tratado como uma criminosa qualquer e a trazerem, algemada, até uma sala de interrogatório de um posto militar.

Quanto tempo iriam mantê-la sentada naquela cadeira desconfortável com a perna acorrentada ao chão, como se fosse algum tipo de animal descontrolado?

De repente, a porta se abriu.

– Finalmente! Eu… – ela se interrompeu, frustrada, quando encarou um rosto desconhecido. – Quem é você? Onde está a tenente?

O homem sorriu e fechou, calmamente, a porta atrás de si, antes de aproximar-se dela devagar.

Ele era muito alto e tinha longos cabelos castanhos. Era muito bonito, e parecia estar de bom humor enquanto se sentava calmamente diante dela. Usava um traje de boa qualidade em tons de verde e azul, que fazia ela se lembrar de contos que lera na infância sobre elfos e duendes.

– Prazer em conhecê-la – disse ele, com uma voz profunda que apresentava um sotaque característico de pessoas que vinham do sul. – Meu nome é Alvor. Aspirante Alvor Sigournei, da província de Ebora.

– Que raios? Por que você está aqui? Eu quero falar com a tenente!

– Sim, estou ciente disso, senhora Asmund. No entanto, temos algumas coisas para esclarecer, e acredito que a tenente esteja em tratamento neste momento, por isso fui enviado para conversar com você, de forma a não desperdiçar muito de seu tempo.

Cariele franziu o cenho.

– Tratamento? O que houve com ela?

– Ah, não se preocupe, não parece ser nada grave. Creio que tenha sido só uma pequena indisposição. Você poderá conferir por si mesma assim que terminarmos de colher o seu depoimento.

Ela cruzou os braços.

– Você não espera mesmo que eu responda qualquer coisa enquanto estiver acorrentada como uma criminosa, espera?

Ele arregalou os olhos.

– Acorrentada…? Oh, perdão! – Ele tirou rapidamente uma chave do bolso e ajoelhando-se ao lado dela, tratando de soltar o grilhão de seu tornozelo. – Pronto, espero que não esteja machucada.

– E eu espero que alguém me explique que raios está acontecendo aqui!

– Certamente. Estamos com cerca de 160 pessoas em custódia, que vão responder por diversas acusações, desde apropriação indébita até tráfico e produção de substância ilegal. Algumas eram procuradas por delitos mais sérios, como extorsão e assassinato. Sabemos que a senhorita foi responsável não apenas por identificar os suspeitos, mas também por… imobilizar quase todos eles.

Cariele suspirou.

– Escute, eu sou uma mercenária. Quando o exército oferece algum trabalho que pague bem, eu aceito. E tem uma recompensa em aberto pelo líder desse bando há quase um ano. Faz meses que estou procurando pistas sobre as atividades dele e ontem, finalmente, consegui encontrar o muquifo em que ele se escondia, apesar de eu não ter encontrado ele lá. Os soldados que me prenderam confiscaram tudo o que eu tinha, se olhar vai ver que eu gravei imagens da operação toda.

– Sim. Já assisti a toda a gravação. Foi por isso que demorei um pouco para vir falar com você. A propósito, o líder está sob custódia sim, ele era um dos que você… digamos… atacou com mais entusiasmo. Ele tinha mudado a aparência, deve ser por isso que não o reconheceu. Vai passar algumas semanas à base de sopa, até conseguirem fazer os dentes dele regenerarem.

– Ótimo, então não tenho mais nada a relatar. Posso pegar minha recompensa e ir embora?

– Eu gostaria de fazer mais algumas perguntas, se não se importar.

– Eu me importo!

Ele riu, divertido, não parecendo nem um pouco afetado pelas palavras dela. Mesmo furiosa, Cariele tinha que admitir que o homem tinha um certo charme.

– Me reportaram que a senhora já foi militar. Me parece que vem aperfeiçoando o seu treinamento desde então.

– Eu saí do exército há dois anos e vim a esta cidade para estudar. Faço esse tipo de trabalho ocasionalmente, apenas para conseguir um dinheiro extra.

– Se me permite, a operação que você levou à cabo essa noite foi muito eficiente e meticulosa. Uma demonstração impressionante de planejamento, técnica e capacidade de improviso.

– E daí?

– Estou curioso. Me pergunto porque não quis transformar todo esse potencial em uma profissão oficial. O exército tem muitas áreas que poderiam interessar a você. Guarda de Elite, Operações Especiais…

– Não estou interessada.

– E por que não?

– Escuta, eu sei como as coisas funcionam com os militares. Você disse que é um aspirante, não? Com essa patente, você tem pleno acesso à minha ficha, mesmo ela sendo confidencial, então imagino que você já leu tudo a meu respeito muito antes de entrar nessa sala.

Ele apenas sorriu novamente, o que confirmou a suposição dela e a irritou ainda mais.

– Você já sabe tudo o que precisa saber a meu respeito! Por que, simplesmente, não me deixa ir embora?

– Eu gostaria de ter mais algumas informações em relação a suas motivações. Por exemplo: por que ainda faz esse trabalho? Depois de tudo pelo que passou, seria compreensível se quisesse apenas viver uma vida tranquila, sem exigir demais do seu corpo dessa forma…

– Isso não é de sua conta! E já chega dessa palhaçada! Se tem alguma acusação contra mim, me prenda logo, senão eu quero ir embora!

– A porta está destrancada e eu já a soltei. Pode fazer o que quiser.

Cariele se levantou e andou determinada até a saída, mas parou de repente e se voltou para ele.

– Espere aí! Você é da Tropa de Operações Especiais, não é?

Ele olhou para ela, surpreso.

– Como adivinhou?

– Você não está usando uniforme e fala de um jeito muito informal. Acho que passa muito mais tempo em campo do que a maioria dos outros na sua posição.

– Estou impressionado. – Ele sorriu novamente.

– Vocês estão me sondando.

Ele levantou as mãos.

– Apenas aproveitei uma situação incomum para fazer algumas perguntas.

– Balela! Foram vocês! Vocês contrataram uma espiã para ficar me seguindo por aí o tempo todo!

A expressão dele agora era quase cômica, de tão surpresa.

– Eu sabia –  disse ela, interpretando a reação dele como confirmação. – Vocês estão preocupados, achando que eu seja algum tipo de vulcão prestes a entrar em erupção. Acham que eu posso voltar a me descontrolar e sair destruindo tudo por aí. Estão com medo e querem me manter numa coleira!

– Desculpe, moça, mas não é bem assim…

– Pois fique sabendo que não têm com o que se preocupar! – Ela apertava os punhos, muito exaltada. – Não mais! Acabou! Não sobrou mais nada! Você viu a gravação, não viu? Agora eu não consigo fazer nada sem essas porcarias dessas parafernálias que custam o olho da cara! Eu não sou mais nada do que eu era! Não sirvo para nada! Podem largar do meu pé!

Enxugando as lágrimas que começavam a escorrer pela face, ela saiu da sala, provocando um estrondo ao bater a porta com toda a força atrás dela.

Surpreso com o desabafo, Alvor ficou ali sentado por um longo momento, imaginando quantas pessoas seriam capazes de completar uma missão complicada e perigosa como aquela com aquele nível de eficiência, apenas com o uso de “parafernálias”, sem nenhuma habilidade mística natural. Mas ele já trabalhara com muitas pessoas excepcionais antes, e aquilo não era tão surpreendente para ele. A real pergunta ali era o que teria acontecido para levar aquela garota a acreditar que “não servia para nada”.

♦ ♦ ♦

Nem um pouco surpreso, Daimar viu quando Cariele saiu, praticamente bufando, da sala de interrogatório e levantou-se, colocando-se no caminho dela.

O fato de vê-lo na sua frente não serviu em nada para melhorar o péssimo humor em que ela se encontrava.

– Que raios você está fazendo aqui?!

– Cristalin quer ter uma palavra com você. Poderia me acompanhar até a sala dela?

– Com muito prazer! – Ela saiu marchando pelo corredor e fazendo-o quase correr para poder acompanhá-la.

– Escute – tentou ele. – Tem algumas coisas que talvez eu deva explicar…

– Feche essa boca, antes que eu faça isso por você! E você aí! – Ela apontou para Britano, que estava encostado ao lado de uma janela, mastigando alguma coisa. – Venha também!

O monitor olhou de um para o outro por um instante e acabou optando por obedecer a ela sem dizer nada.

Uma curandeira estava colocando uma compressa na testa de Cristalin, no momento em que Cariele irrompeu pela porta, assustando as duas. A curandeira olhou para a expressão de Cariele e decidiu que seria melhor realizar uma saída estratégica.

– Já deve ser suficiente. Agora tome isso – ela apontou para uma caneca, cheia de um líquido verde e viscoso. – Até a última gota.

– Obrigada – respondeu Cristalin, apresentando uma palidez preocupante enquanto tomava um gole, fazendo uma careta de desgosto.

Satisfeita, a curandeira tratou de escapar da sala, cumprimentando os recém-chegados com um gesto de cabeça. Cariele esperou até a mulher fechar a porta para encarar a tenente e cruzar os braços.

– Quero fazer uma queixa formal!

Cristalin suspirou. Parece que aquela conversa seria bem pior do que tinha antecipado.

– Muito bem. Pode falar.

Cariele apontou para Daimar.

– Este cara está me perseguindo!

– O quê?! – Daimar e a tenente exclamaram, ao mesmo tempo, perplexos.

– Anda monitorando a hora que eu chego, a hora que eu saio e fica me seguindo por aí. – Ela olhou para Britano. – O monitor aqui pode confirmar.

– Sim, eu posso – concordou ele, com expressão neutra.

– Espere um pouco aí! – Daimar exclamou, fazendo cara feia para Britano.

Cristalin levantou uma mão, pedindo silêncio e suspirou novamente, antes de tomar mais um desagradável gole do líquido verde. Então, limpando a boca com a mão, ela encarou a moça.

– Está falando sério, Cariele? Você está nervosa, não é melhor pensar bem no assunto? Já vou avisando que não vou tolerar reclamações sem fundamento ou baseadas em algum tipo de briga de namorados.

– “Briga de namorados”? – Cariele desdenhou. – De que raio está falando?

– Por que está fazendo isso? – Daimar olhou para ela, confuso.

Ela se virou para ele, os olhos azuis faiscando de fúria.

– Quantas vezes eu falei para você me deixar em paz?

– Mas eu…

– Quantas, monitor?

– Que eu tenha presenciado? Pelo menos duas – Britano respondeu, calmamente.

– Que droga! Eu não fiz nada de mais… – começou Daimar.

– Então, o que está fazendo aqui?

– Eu… bom, eu…

– Você invadiu uma instalação militar – disse Cristalin, devagar, mas de forma incisiva – e se aproveitou da minha condição para tentar arrancar informações sobre Cariele.

Imediatamente, Cariele se voltou para a tenente, indignada.

– Mas que droga, Cris!

– Recomendo que dê o fora, rapaz – continuou Cristalin, ignorando Cariele e fazendo um gesto de cabeça na direção da porta. – Tenho duas acusações muito sérias contra você aqui. Se tem algum amor à própria pele, não me deixe pegá-lo por nenhuma infração desse tipo de novo.

– Cariele, por favor – insistiu ele. – Isso não precisa terminar assim!

– Eu já falei antes, você é que parece não entender! Eu não estou interessada em você! Vá fazer algo de útil da sua vida e me esqueça!

Ele a encarou por um instante, depois soltou um suspiro desanimado e saiu, balançando a cabeça. Britano olhou para Cristalin e, após um assentimento dela, saiu no encalço do barão.

Assim que ficaram sozinhas, Cariele encarou a tenente, furiosa.

– O que contou a ele sobre mim?

– Ele me perguntou do paradeiro de dois dos seus, e eu tive um lapso e me esqueci momentaneamente de que eles estavam oficialmente “desaparecidos” ao invés de “presos”.

– Droga! Já era ruim o suficiente ele saber sobre Ebe. E por que você mandou me prender?

– Queria que todos daquela vizinhança soubessem que você estava comigo? Eu fiz todos pensarem que se tratava de uma briga entre facções criminosas que saiu do controle. Sob a acusação de ser parte de uma facção, não tive problemas para trazer você para cá sem que ninguém além de pessoas de confiança visse o seu rosto.

– Confiscaram minhas coisas e ainda me deixaram acorrentada por horas!

– Procedimento padrão. Agora está na hora de você me dar algumas explicações, mocinha. O que você tem nessa cabeça? Por que foi invadir um antro de criminosos sozinha daquele jeito?

– Eu fiz meu trabalho! Entrei lá para fazer reconhecimento, encontrei brechas na segurança deles e me aproveitei disso. Que droga, seu departamento vai ser ainda mais popular agora!

– Mas que droga, garota! Quem impôs a condição de sigilo no seu trabalho foi você, não eu! Você não queria que seus antigos superiores te achassem aqui, só que ninguém sobe os degraus da hierarquia militar sendo um completo idiota! Ou você acha que todos vão falar “Uau, essa tenente Oglave é muito eficiente, olha como o crime está diminuindo na jurisdição dela”? Pois saiba que não é assim que funciona! As pessoas se perguntam “como” e “por quê”, ligam os pontos. Acha que esse aspirante gostosão veio parar aqui por coincidência?

– Eu não fiz nada de mais! Tive a situação sob controle o tempo todo, e tinha planos de contingência. Além disso, foi uma linha de ação bastante simples…

– Poupe-me, garota! Linha de ação simples uma ova! Sua arrogância é grande demais para perceber a diferença entre uma missão simples e uma suicida? Ou será que nós, pessoas normais, não somos dignas de compreender o que se passa numa mente “superior” como a sua? Faça-me o favor!

– Apenas me dê minha recompensa, que eu vou embora e paro de incomodar você.

– Não tenho nada para você.

– Como é?! Eu capturei o chefe da operação! O cartaz ainda está na parede! Você não pode fazer isso!

– Você se mete sozinha, sem autorização, num buraco com quase duzentos criminosos procurados, deixa todo mundo preocupado e ainda quer uma recompensa por isso?

As lágrimas voltaram a cair de novo, mas Cariele estava transtornada demais para percebê-las.

– Não pode fazer isso! Eu gastei tudo o que eu tinha! Meus dardos, meus simulacros… minhas armas estão todas danificadas! Não tenho como pegar mais nenhum trabalho desse jeito! Vou ter que gastar uma fortuna para poder reparar e repor tudo!

– Devia ter pensado nisso antes de se jogar naquela toca – disse Cristalin, antes de tomar mais um gole da caneca, enquanto Cariele apenas a observava, absolutamente chocada. – Por que você fez isso? A captura dos Lenart rendeu dinheiro suficiente para você se manter com conforto por… sei lá… um ano, talvez mais!

– A recompensa de hoje era vinte vezes maior!

– E para que quer tanto dinheiro?

– Não interessa! Você não pode fazer isso comigo! Tinham mercadorias naquele lugar no valor de, no mínimo, umas 300 mil moedas de ouro! A recompensa era só 12 mil, então não pode alegar que não tem dinheiro para me pagar!

– “Só 12 mil”?

– Achei que podia confiar em você!

– Que coincidência, eu também! Mas sabe o que eu descobri? Que você não sabe trabalhar em equipe, quer resolver tudo sozinha e não deixa ninguém ajudar você. Sabe o quanto isso é frustrante?

Cariele enxugou o rosto e olhou para a tenente, percebendo mais uma vez a palidez no rosto dela.

– Você está bem? O que houve com você?

– Só uma indisposição, mas já fui tratada, não se preocupe.

Cristalin respirou fundo e tratou de forçar o restante daquela coisa verde goela a baixo, depois fez algumas caretas, antes de suspirar aliviada por aquela tortura ter terminado e colocar, triunfantemente, a caneca de lado. Mais calma, ela voltou a encarar Cariele.

– Escute, o seu trabalho foi magnífico. Eu vou dobrar a recompensa e repor todo o material que você quiser, me faça uma lista.

– Está falando sério? – Cariele franziu o cenho, tomada de surpresa.

– Leve suas armas na loja dos Gretel, pode consertá-las ou até trocar por novas, se quiser. Eu acerto tudo com eles depois e não farei perguntas.

Cariele encarou a tenente por um instante, antes de estreitar os olhos.

– Mas tem uma condição, não tem?

– Sim, tenho. A partir de agora você não trabalha mais para mim.

– O quê?!

– Lembra dos dragões de anteontem? Pois saiba que aquilo foi só o começo. Tem muito mais monstros de onde aqueles vieram. As coisas podem ficar muito feias e eu não quero lutar ao lado de pessoas em quem não possa confiar. Não quero mais ver você por aqui.

♦ ♦ ♦

Tem muito mais monstros de onde aqueles vieram.

O sol já tinha nascido, e Cariele ainda pensava naquilo quando chegou ao alojamento da fraternidade. Como não podia fazer nada em relação àquele assunto, ela decidiu deixar a preocupação de lado e resolver um outro assunto pendente.

Parou em frente à porta do quarto dos monitores, respirou fundo e bateu.

Janica abriu a porta quase imediatamente e, sem dizer nada, fez um gesto convidando-a para entrar. O lugar estava limpo e bem arrumado, com as duas camas encostadas uma na outra e com um cobertor estendido por cima, como se fosse uma cama de casal, inclusive com os dois travesseiros bem encostados um no outro. Em qualquer outra ocasião, Cariele acharia aquilo divertido e se sentiria orgulhosa por, de certa forma, ter dado um empurrãozinho para aqueles dois. Neste momento, no entanto, nada daquilo importava.

A monitora olhou para ela de alto a baixo, notando que usava as mesmas roupas vermelhas da véspera.

– Você esteve fora a noite toda? O que houve?

Cariele deu de ombros.

– Eu sabia que não ia conseguir dormir, então fui dar uma volta para esfriar um pouco a cabeça. – Ela fez uma pausa e respirou fundo, antes de encarar Janica. – Você tomou bronca por eu ter descoberto quem é o seu contratante?

A monitora não fez rodeios.

– Não. O aspirante foi bem simpático, na verdade.

– Ele disse o motivo de me acharem perigosa o suficiente para quererem ficar de olho em mim?

Janica levantou uma sobrancelha.

– Bom, depois do que você fez essa noite, acho que o motivo ficou bem óbvio.

Cariele piscou, confusa por um momento, mas depois se deu conta de que a monitora ainda não sabia de nada.

– E agora, o que vai acontecer?

– Bom, o aspirante me pediu para ficar por perto, mas apenas se você permitir.

– Nada mais de me espionar contra minha vontade, então?

– Foi o que ele disse.

– Você vai reportar tudo o que eu fizer para ele?

– Eu nunca fiz isso. Meu trabalho sempre foi investigar e reportar ocorrências incomuns. Desde que não esteja colocando ninguém em risco, sua vida particular não me interessa, e nem a ele.

– Entendo. Sabe, por um momento eu acreditei que você trabalhava para os bandidos.

Aquilo fez com que a monitora arregalasse os olhos, surpresa.

– Essa noite eu… meio que esperava estar caindo em uma armadilha – continuou Cariele.

– Se eu achasse que alguém estava me traindo, eu daria uma surra primeiro e faria perguntas depois.

– Não vi necessidade. Eu estava preparada, e não importava o que acontecesse, eu tinha certeza de que conseguiria minha recompensa.

– Minha função aqui nunca foi atrapalhar a sua vida. A intenção era que você nem percebesse minha presença, mas você é muito mais bem treinada do que eu.

– Mas eu não percebi você me seguindo da outra vez. E talvez tenha subestimado as consequências da ação de ontem. Ando cometendo muitos erros.

– Se quer minha opinião, você me parece bem mais confiável ultimamente.

Cariele encarou a outra, perplexa.

– O quê?!

– No começo era difícil de entender você. Agia como uma delinquente, mas era misteriosa, fechada, não deixava ninguém se aproximar muito. Parecia fria e egoísta na maior parte do tempo. Mas desde que conheceu Daimar, você mudou bastante.

– Como assim? Mudei de que jeito?

– Ah, começou a expressar mais as emoções, ficou mais confiante, mais alegre e parou de fazer aquele papel de “garota malvada”. Até sua aparência está melhor, parece que começou a se cuidar mais.

– Estou me cuidando por ordens da minha curandeira. Além disso, ninguém pode mudar tanto assim em tão pouco tempo. Conheço ele há o quê? Duas, três semanas?

– Semanas atrás não imaginaria você conversando comigo dessa forma. Ah, e seu desempenho nas provas da semana passada também foi melhor do que sua média, segundo os instrutores.

– Ah, droga! Sério?

– Sim, você está se parecendo muito mais com alguém da sua idade agora. Erros todo mundo comete, é parte do que nos faz humanos. Mas achei estranho quando soube que você terminou com ele.

– Com quem? Daimar? Nada a ver! Não se pode “terminar” algo que nunca começou.

– E por que nunca começou? Não venha me dizer que não está interessada.

– Eu não tenho tempo para essas coisas. E ele passou dos limites.

– Certo, certo. Britano comentou sobre isso. E está tudo bem entre você e a tenente Oglave?

– Não. Se quiser dinheiro agora, vou ter que procurar trabalho em outro lugar.

– Puxa! E o que você vai fazer?

Cariele sorriu.

– Vou encontrar um cara rico e me casar com ele.

– O quê?! Mas…

Cariele a interrompeu:

– Bom, agora que esclarecemos tudo, eu tenho que fazer meu tratamento de beleza. – Ela se levantou, dirigindo-se à porta. – Podemos tomar uma cerveja depois, se você quiser. Quase todas as minhas amigas… bem… não são mais minhas amigas.

♦ ♦ ♦

Daimar não estava em um de seus melhores dias. Dormira mal, acordara de mau humor e, como estava com o olfato mais sensível do que nunca, o cheiro das pessoas, principalmente o perfume de algumas garotas, estava lhe dando dor de cabeça.

Ao aproximar-se do alojamento, subitamente sentiu-se observado e olhou para o longo caminho através dos jardins, onde, ao longe, uma figura toda vestida de preto e com a cabeça coberta por um capuz parecia olhar diretamente para ele. Não dava para ver nada devido à distância, mas ele teve a impressão de ter ouvido uma risada sinistra, antes de a pessoa se virar e se afastar.

Era só o que faltava, agora estou começando a ouvir coisas!

Sacudindo a cabeça, ele tentou tirar da mente aquela cena surreal e retomou seu caminho, entrando no refeitório da fraternidade. Cumprimentando as pessoas com gestos de cabeça, ele se serviu de um prato de sopa e escolheu a mesa mais afastada, nos fundos, para tentar apreciar o seu almoço em paz. Felizmente, era o dia de Egil na cozinha, e o rapaz era um verdadeiro prodígio no preparo de refeições.

O humor dele piorou mais quando percebeu a entrada de Cariele. Ela estava mais linda do que nunca e, instintivamente, ele fechou os olhos e inspirou fundo. O aroma familiar provocou uma onda de sensações extremamente agradáveis, que percorreram seu corpo todo, espantando até mesmo a dor de cabeça.

Quão patético ele se tornara?

– Daimar Gretel!

Ele abriu os olhos e viu duas moças caminhando na direção dele, exibindo largos sorrisos.

– Brigite! Gerda! – Surpreso, ele levantou-se para recebê-las.

– Há quanto tempo! – Brigite exclamou, envolvendo-o em um apertado abraço, antes de colar os lábios aos dele por um momento. – Soube que ganhou um título de nobreza agora! As pessoas estão chamando você de “barão”!

Brigite era uma morena de estatura mediana, dois anos mais velha que ele e que tinha uma beleza incomum. Cabelos negros ondulados até o meio das costas, olhos verdes, nariz arrebitado, boca um pouco grande, mas com lábios delicados e muito bem desenhados. Ela era mestre em uso de maquiagem, conseguindo melhorar ainda mais seus atributos naturais com aplicação de cores discretas nos lugares certos.

– Isso não é título de nobreza – respondeu ele. – É só um outro nome para “escravo”. Nem imagina o quanto tenho que trabalhar por aqui. Mas você parece ótima, como sempre.

– Ah, não exagere.

– Bom te ver de novo, Daimar! – Gerda se aproximou e deu a ele o mesmo tratamento que a amiga, com a diferença de que Daimar tinha que olhar para cima para beijá-la.

Se ele tivesse que definir Gerda com uma palavra, seria “grande”. Devia ter quase dois metros de altura e, mesmo usando roupas folgadas, seria difícil ela conseguir esconder o porte atlético e musculoso. Os cabelos castanhos, bem cuidados, estavam amarrados em um rabo de cavalo e o rosto bem proporcional apresentava olhos de um tom castanho esverdeado e lábios generosos.

Por um momento, Daimar ficou olhando para as duas velhas amigas com certa perplexidade. Ambas eram muito atraentes, mas a beleza física delas não chegava nem aos pés da de Cariele. Então por que ele se sentia muito mais atraído fisicamente por essas duas do que por ela?

– Bom ver vocês também – ele disse, finalmente. – Sentem-se, sentem-se. Me deixaram curioso. O que as traz tão longe de casa?

Do outro lado do salão, Cariele tinha certeza de que iria passar mal. Ver aquelas duas mulheres lindas beijando o barão na boca lhe causou uma sensação tão ruim que foi quase uma dor física. Ver os três conversando com tanta intimidade era um quadro tão repulsivo que ela simplesmente não conseguia continuar olhando.

Por um instante, ela caminhou a esmo pelo salão com seu prato na mão até que se viu diante de uma mesa. Automaticamente, ela se sentou, preparando-se para comer. Só então percebeu que Falcão estava sentado na cadeira do lado oposto da mesma mesa, olhando-a com uma expressão estranha.

– Desculpe, eu estava distraída. Se quiser, posso procurar outra mesa.

– Não, não, pode ficar à vontade.

Ela assentiu e tentou engolir um pouco da sopa, mas parecia que aquilo não tinha gosto de nada.

– Dia ruim?

– Noite longa – respondeu ela.

– É mesmo? Pois você me parece muito bem. Quero dizer, exceto por essa expressão… preocupada.

Vendo que não iria conseguir comer, ela decidiu deixar a colher de lado.

– Escute, eu… queria dizer que sinto muito pelo que eu disse na última conversa que tivemos.

Ele levantou a sobrancelha, intrigado.

– É mesmo? Mudou de ideia sobre sair com pobretões?

– Não, não mudei. Mas realmente sinto muito por aquilo. Não é nada pessoal contra você…

– Você é estranha, sabia?

– É, andaram me dizendo algo parecido.

– Trocando uma ideia com Egil e o barão ontem, eu percebi uma coisa. Você sofre de síndrome de herói.

– Como é que é?

– Nunca ouviu falar? É quando a pessoa sente necessidade de ser inabalável, indestrutível, de resolver todo problema que apareça, não importando os sacrifícios que tenha que fazer para isso.

– Desculpe. Acho que não estou entendendo.

– Você tem expectativas muito altas de si mesma. Quer fazer coisas que outras pessoas nem sonhariam em conseguir fazer. Não é verdade?

– Ora essa, as pessoas são diferentes. Não tem como comparar essas coisas.

– Claro que tem.

Ela estreitou os olhos.

– O quanto sobre mim o barão contou a você?

– Nem uma palavra. Daimar provavelmente é o cara mais confiável que existe dentro deste prédio. Se tem algo que você não quer que ele espalhe, provavelmente ele vai levar para o túmulo.

– Certo – disse ela, ameaçando se levantar. – Desculpe, perdi o apetite.

– Espere! – Ele a segurou pela mão. – Só me responda uma pergunta, está bem?

– Tudo bem. – Ela suspirou enquanto voltava a se sentar.

– Você tem interesse em arrumar um marido rico, certo?

– Certo –  respondeu ela, por entre os dentes.

– Eu nunca pedi um compromisso com você. Tudo o que eu fiz foi te convidar para sair, tomar alguma coisa, se divertir um pouco. Você estava disponível, e até onde eu sei não estava saindo com ninguém. Por que me dispensou? Eu sou tão entediante ou pouco atraente assim?

– É claro que não!

– Então, por quê?

– Eu não queria… dar falsas esperanças a você.

– Mas eu não pedi nada, não estabeleci nenhuma condição. Que eu me lembre, não dei a entender que estava procurando um relacionamento. Ou dei?

– Não, acho que não.

– E aí está meu ponto. Você se preocupou mais comigo do que com a sua própria diversão. Por isso me rejeitou.

– Isso não faz o menor sentido!

– Vou dar outro exemplo. Lembra daquela sua amiga Eivinde?

– Vai querer dizer o quê, agora? Que eu estava preocupada com ela quando saí com o… homem dela?

– Quanto tempo você ficou com ele? Um dia, se muito. Depois disso o cara sumiu, sabe-se lá para onde. Aí, depois de um tempo a Eivinde se encontra, começa a se cuidar, acha um pretendente muito melhor para ela e, praticamente, vira outra pessoa. Nem raiva de você ela tem mais. Até onde eu sei é você quem evita ela.

– Pare com isso!

– Só estou dizendo que ninguém espera que você saia ajudando todo mundo desse jeito. As pessoas gostam de você do jeito que é e…

– Quem? – Cariele o interrompeu, ríspida. – Quem gosta de mim? Ninguém! Ninguém me suporta, todos me acham uma interesseira e egoísta. Já cansei de ouvir isso por aí.

– Será mesmo? Será que são os outros que pensam isso de você ou será que isso é apenas o que você pensa de si mesma?

– Ora, cale essa boca! – De cara feia, ela se levantou e caminhou na direção da saída.

Não conseguiu resistir à tentação de lançar mais um olhar na direção de Daimar, e se arrependeu imediatamente disso ao ver as duas vagabundas praticamente em cima dele, tocando-o na perna e nos ombros enquanto se desmanchavam em sorrisos e o faziam rir de uma forma alegre e descontraída, algo que nunca vira ele fazer antes. Sentindo o estômago se revirar, ela tratou de apressar o passo, a náusea era incontrolável, tudo o que ela podia fazer era correr o mais rápido possível para algum reservado.

Daimar percebeu o momento em que Cariele levou a mão à boca e saiu correndo do salão e ficou imediatamente tenso.

– O que houve? – Gerda quis saber.

– Uma moça acabou de passar mal e saiu correndo. Me deem um minuto, sim? Preciso mandar alguém atrás dela, para ver se precisa de ajuda.

Sem esperar por uma resposta, ele se levantou e marchou até a porta da cozinha, onde Egil e a namorada lavavam panelas.

– Malena, você já pode sair? Cariele parece estar passando mal, talvez seja melhor você dar uma olhada nela, ver se precisa de algo.

– Céus! Posso sair sim, claro, onde ela está?

– Acabou de sair, se correr você ainda a alcança.

Novamente sem esperar resposta, ele andou determinado até a mesa onde Falcão estava parado, com uma expressão um tanto confusa no rosto.

– O que aconteceu aqui?

– Não sei, cara. Sério, acho que ela está com algum problema.

– Ela estava bem quando entrou. Sobre o que vocês conversaram?

O ruivo ficou vermelho e hesitou. Daimar olhou para os dois lados. Estava quase no fim do horário de almoço e tinha apenas mais umas cinco pessoas por ali. De qualquer forma, ele se sentou diante do outro, empurrou o prato quase intocado de Cariele para o lado e apoiou os antebraços na mesa.

– O que você fez, Falcão? – O tom de voz baixo deixou o rapaz ainda mais vermelho.

– Não foi nada de mais. Sério! Ela veio com um papo estranho, pedindo desculpas por ter me dispensado. Aí eu resolvi tirar uma onda com ela e falei um monte de baboseiras daquelas que a instrutora de psicologia tanto gosta. Sério mesmo, eu achei que ela ia se tocar e dar risada. Mas a guria quase surtou!

– Você não tem olhos não, cabeção? Ela estava acabada. Não passou a noite aqui, não deve ter dormido nada! Está com o pai seriamente doente e tem mais um monte de problemas pessoais.

– Ei! Eu não sabia de nada disso não, está bem? E de “acabada” ela não tinha nada, você está exagerando. Ela parecia um pouco confusa, mas…

– Vocês dois não acham melhor ir conversar lá fora? – Egil interrompeu, se aproximando enquanto desamarrava o avental da cintura.

Daimar olhou ao redor e repreendeu-se mentalmente. Tinham elevado a voz e atraído a atenção de todo mundo.

Gerda e Brigite se aproximaram.

– Você parece estar ocupado, barão, então não se preocupe conosco. Nos vemos mais tarde.

– Me desculpem por isso. Converso com vocês depois, obrigado – disse ele, dirigindo um rápido sorriso a elas, antes de voltar-se novamente para Falcão. – Vamos resolver isso lá fora. Egil, venha também.

Os três saíram e caminharam por alguns minutos, até chegarem a um local do jardim que ficava deserto àquela hora.

– Você está exagerando, cara – disse Falcão, jogando-se sobre uma grande pedra polida pintada de branco que fazia as vezes de banco em frente a uma mesa que parecia ter sido esculpida, sabe-se lá como, de um bloco sólido de basalto. – Foi só uma brincadeira de nada.

Com uma expressão entre preocupada e curiosa, Egil se recostou num poste. Daimar deu uma boa olhada ao redor, antes de sentar-se no banco de pedra do outro lado da mesa.

O que você disse a ela?

– Ah, sei lá, cara – respondeu Falcão. – Eu só fiquei pensando na nossa conversa de ontem. Meio que deu a impressão de que ela poderia ter sumido de propósito com aqueles caras para ajudar as amigas. Depois do jeito que ela socorreu a Malena, me pareceu possível. Aí eu disse que ela tinha síndrome de herói.

Daimar lembrou-se do que aconteceu na noite anterior e praguejou baixinho. Depois de Cariele ouvir Falcão dizendo aquilo, a carapuça provavelmente serviu. Ela devia estar bastante abalada.

Egil cruzou os braços.

– Depois disso ela passou mal e saiu correndo?

– Praticamente –  respondeu Falcão.

Egil olhou para Daimar.

– Acho que você deveria conversar com ela. Tem algo errado, ela sempre foi um poço de autoconfiança, não iria ficar assim por causa de uma bobagem como essa. Falcão tem razão, em um dia normal ela provavelmente iria rir disso.

– Se depender da minha ajuda, ela vai é continuar passando mal –  resmungou Daimar.

– O quê?! – Falcão e Egil exclamaram, ao mesmo tempo.

– Ela fez uma queixa contra mim no posto militar ontem.

Rapidamente, e tentando ocultar os segredos de Cariele o máximo que pode, Daimar fez um resumo dos fatos.

– Espera aí, deixa eu ver se entendi – disse Egil. – Você seguiu ela três vezes, sendo que nas duas primeiras ela deixou bem claro que não queria você atrás dela. É isso?

Vendo a situação daquela forma, parecia embaraçoso. Se bem que da primeira vez, no dia do julgamento de Bodine, ele não a seguiu. Pelo menos não exatamente. Foi mais como se ele tivesse sido atraído por ela. Na manhã do dia anterior, ele realmente a havia seguido até a arena. E à noite, bem… ele fizera algo um pouco pior do que simplesmente segui-la.

Assumindo o silêncio dele como admissão, Falcão perguntou:

– Por que fez isso, cara?

– Ah, não sei! Acho que estou interessado nela ou algo assim.

– Então por que não a chama para sair?

– Já fiz isso. Ela recusou.

– E você andou seguindo ela por aí depois de ela ter dispensado você?

– É… acho que sim.

– Nesse caso, eu acho que você não tem moral para chamar ninguém de “cabeção”.

– É isso aí, Daimar – concordou Egil. – O que você fez foi uma baixaria, e das grandes. Do jeito que ela é, lógico que ia tomar uma atitude. E está coberta de razão.

Sim, realmente fora um erro, ele admitiu consigo mesmo. Tudo por culpa daqueles sentimentos absurdamente intensos que ela despertava nele e que o impediam de raciocinar direito.

– Escutem – ele perguntou, de repente. – Vocês acham que seria normal… tipo, um cara olhar para o corpo dela e não se sentir… atraído?

Os outros dois riram.

– Não seria muito normal, não – disse Falcão. – Mas a atração entre duas pessoas é o resultado da intercalação de diversos fatores, então tudo é possível.

– Pois eu acho é que você anda lendo livros de filosofia demais – retrucou Egil.

– Não, é sério. Pessoas diferentes têm níveis de exigência diferentes. Eu posso gostar de uma mulher ao mesmo tempo que você a considere horrível.

– Mas é de Cariele Asmund que nós estamos falando, e não de qualquer uma.

Daimar ficou calado, apenas ouvindo os dois amigos tagarelarem, enquanto dava mais uma olhada nos arredores.

– Veja bem: ela rejeitou Daimar – insistiu Falcão. – Faz sentido ele não se sentir mais atraído, porque ele não quer correr o risco de ser rejeitado de novo.

– Isso é besteira. Ela também rejeitou você. Vai dizer que agora você também não tem mais nenhum interesse nela?

– Bom, tem isso. Mas no caso do Daimar ele já conseguiu encontrar uma substituta. Aliás, uma não, duas.

– É verdade, barão! – Egil encarou Daimar, sorrindo de forma provocativa. – Quem são aquelas coisinhas lindas que estavam com você?

Daimar deu de ombros.

– Eram vizinhas nossas lá na minha cidade natal. Estavam de passagem por Lassam e vieram me fazer uma visita.

– Se tivesse duas beldades daquelas na mira, eu provavelmente também não iria querer olhar para nenhuma outra.

– Menos, Falcão – retrucou Egil. – A “outra” é Cariele Asmund, lembra?

– E você não está sendo muito enfático nisso não? Você nem deveria estar reparando tanto em outras mulheres, lembre-se de que agora é um cara comprometido e… – Falcão se interrompeu, ao ver Daimar olhar de um lado para o outro mais uma vez. – Ei, o que foi, cara? Por que está olhando tanto em volta desse jeito? Está com medo de ser assaltado ou algo assim?

– Mais ou menos. Antes do almoço, eu vi uma figura encapuzada andando por aí que me deu uma sensação ruim.

– Andam comentando que tem algumas pessoas estranhas passeando pelas dependências da academia ultimamente – comentou Egil.

– Ei, parem com isso, vocês dois – reclamou Falcão. – Estão tentando me assustar, é?

♦ ♦ ♦

– Então você resolveu dar as caras novamente – disse Delinger Gretel, saindo de trás do tronco de uma grande árvore.

A mulher encapuzada parou abruptamente, surpresa, mas se recobrou rápido e colocou um sorriso arrogante nos lábios.

– Então é aí que você está – disse ela, inclinando um pouco a cabeça para o lado, como se o estivesse avaliando.

Assim como da outra vez, ela estava vestida em trajes escuros e pesados, mas hoje usava um capuz no lugar do chapéu. Também não usava o tapa-olho, e um pouco da parte degenerada de seu rosto podia ser vista, apesar de os olhos estarem totalmente encobertos.

– Cinco de vocês já pereceram. – Ele colocou as mãos na cintura. – Não acha muita idiotice andar por aqui, sabendo o destino que levou aqueles que tentaram invadir minha cidade?

Um súbito vento frio soprou, agitando-lhes as roupas e tornando as palavras de Delinger ainda mais sinistras. Aquele lugar onde estavam era um dos pontos mais remotos dos jardins da academia. Raramente alguém vinha por aqueles lados, e os sentidos dele confirmavam que não havia nenhuma outra pessoa nas proximidades.

– Estive observando o seu filho – respondeu ela, ignorando o tom de ameaça da voz dele. – Parece bastante saudável. E também não se parece em nada com você.

Delinger sorriu e cruzou os braços.

– É mesmo? Não sei, para mim ele parece ter os meus cabelos, meus olhos e meu tom de pele.

– Você fala como se essa fosse sua aparência real. Além disso, ele pode enxergar.

– E daí?

– Os outros sentidos dele não se desenvolveram. E ele não pode se transformar. É um fraco.

– Isso depende da sua definição de “força”.

– Os anciãos vão gostar de ter essa informação.

– Mas você é muito presunçosa mesmo, não? Por que acha que eu deixaria você viver?

O sorriso desapareceu do rosto dela.

– Eu não vim aqui para lutar com você.

– Não se preocupe, eu nem sonharia em entrar numa briga com uma fêmea. E doente, ainda por cima. Você parece bem pior que da outra vez. Por que está degenerando tão rápido?

– Vamos ver se você vai continuar tão arrogante quando a doença pegar você. Ou seu filho.

– Espere… você andou tomando o elixir negro?

– E o que você tem com isso?

Ele levou uma das mãos à testa.

– Céus! Eu não queria acreditar que seriam tão estúpidos. A fonte de força no mundo das pedras, vocês não queriam usar aquilo para atacar a cidade, não é? Queriam aquilo para fazer mais dessa poção maldita!

– É graças a ela que estamos vivos!

– Agora tudo faz sentido. Por isso meus avisos não tiveram efeito. Aquela porcaria já afetou todos a ponto de perderem a razão! Achei que depois que acordassem da hibernação, os anciãos voltariam a raciocinar com um pouco mais de clareza, mas vejo foi uma esperança em vão!

– O que o faz pensar que você é tão superior? Você está tomando algum remédio também, não está? Por isso consegue lutar tão bem. Você encontrou a cura e prefere a manter para você mesmo, enquanto prejudica seu próprio povo!

– Não encontrei cura nenhuma. Isso não existe. Somos amaldiçoados, nada pode curar isso! Existe uma única forma de a nossa raça sobreviver, eu avisei a todos vocês muitos anos atrás.

– Misturar o nosso sangue com o de… humanos? Não me faça rir. Não sei como você conseguiu viver tantos anos ao lado deles! E ainda morando na mesma casa que aquela… coisa! – Ela apontou na direção dos prédios da academia.

– Você nunca teve um filho. E nunca terá. Por isso, nunca irá entender.

– Os humanos são a causa da nossa desgraça! Por que você não pode compreender isso? Você deveria se unir a nós! Poderíamos exterminar todos eles!

– E depois? Quando o último humano morrer, o que vai acontecer? Vamos todos enlouquecer lentamente até que comecemos a matar uns aos outros? Ah, não, desculpe, você gosta de tomar o elixir, então prefere enlouquecer bem mais depressa, não é? Na verdade, eu acho que você  enlouqueceu. Não existe nenhuma razão para você se colocar em risco vindo até aqui sozinha. Você foi compelida a vir aqui pela sua raiva, não foi?

– Eu não tenho mais nada a dizer a você! – Ela tentou passar por ele.

– Não tão rápido. – Ele agarrou-a pelo pescoço com uma das mãos, levantando-a do chão. – Acho curioso o fato de, mesmo com tanta raiva de mim, você não ter coragem para me atacar. Você foi muito bem domesticada, não?

– Você disse… que não queria lutar…

– Sim, não quero. E nem vou precisar, pois você não vai sobreviver ao primeiro golpe.

– Como pode… matar seu próprio povo?

– Eu matei minha própria esposa, a pessoa que mais amava no mundo. Por que acha que eu iria poupar você?

– Você está… louco…

– Será mesmo? Sabe, essa maldição que nós temos é muito cruel. Ela mata o espírito, mas mantém o corpo vivo. Enfraquecido, mas vivo. Norel reviveu, sabia? Duas vezes ela voltou a respirar depois de eu desferir o golpe fatal. Eu vi minha esposa morrer três vezes, pelas minhas mãos. E sabe por que eu tive que passar por isso? Porque não tinha sobrado nada dela além da resiliência e da sede por violência. Então, acredite: estou lhe fazendo um favor.

Como os jardins estavam vazios, não havia ninguém por perto para ouvir os terríveis urros, gemidos e rosnados que ecoaram por entre as árvores nos instantes seguintes.

— Fim do capítulo 9 —
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