Valena – Capítulo 9

Publicado em 04/03/2018
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9. Fio da Meada

O oficial moreno de olhos azuis era um sargento bastante popular. Seu nome era Jeniliaro Lacerni, e classificava a si mesmo de forma irônica como um “faz-tudo” da Tropa Pacificadora de Aurora, como era chamada a força militar que cuidava da segurança da capital.

Apesar do que ele tinha lhe dito antes, Valena não foi mandada de volta à masmorra. Ao invés disso, foi levada até uma base da tropa, onde ficou confinada ao alojamento durante uma noite e quase o dia seguinte inteiro, antes do sargento finalmente aparecer, acompanhado de três outras pessoas trajando uniformes militares.

– Vimos que gosta de lidar com cavalos – ele disse, animado. – Sabe montar?

– Nunca tentei – Valena admitiu.

– Sem problemas, garanto que vai aprender rápido.

Os outros oficiais não pareceram nada animados com a perspectiva, o que fez com que Valena ficasse desconfiada.

– Por que quer que eu aprenda? Não estou entendendo nada.

– É simples: você conhece bem a cidade e nós precisamos de alguém assim, capaz de se mover rapidamente de um ponto ao outro. Aurora é a maior cidade do mundo, por isso precisamos de pessoas como você para nos mantermos informados do que ocorre por toda parte.

– Vão me obrigar a ficar correndo para cima e para baixo o dia inteiro?

Ele fez uma careta.

– “Obrigar” é uma palavra muito forte. Estamos oferecendo um trabalho para você. E um que lhe renderá muito mais do que ser ajudante de ferreiro.

Valena não estava gostando nada daquilo, não quando aqueles três oficiais atrás do sargento a encaravam com aquelas expressões de desconfiança. A mulher entre eles, inclusive, demonstrava mais do que isso, o rosto dela expressava hostilidade pura.

– Por que não me levam de volta para a masmorra?

Jeniliaro olhou para trás.

– Poderiam, por favor, parar com essas caretas? Estão assustando a garota.

– Sargento, isso é altamente irregular – disse um deles.

– Não tenho como consolidar uma defesa adequada à prisioneira numa situação como essa, sargento – falou o outro.

– Ela é uma delinquente, uma criminosa – disse a mulher. – Não fazemos favores a criminosos.

– Ora, vamos! Ela tem só treze anos de idade.

– Caso tenha esquecido, um menino de onze foi enforcado mês passado.

Valena se encolheu toda ao ouvir aquilo.

– Sim – concordou o sargento. – Depois de ter assassinado dezenas de pessoas. Não está mesmo querendo comparar esta garota com um louco descontrolado, está? – Ele olhou para Valena. – Diga, menina, já atacou alguém alguma vez na sua vida?

– Já – respondeu ela, baixinho, o que deixou o sargento sem palavras por um momento.

– Mas é claro que já – disse a mulher. – Ela se meteu em um monte de roubos e pilhagens, onde várias pessoas foram feridas.

– Deixa eu perguntar de outra forma – disse o sargento, depois de lançar um olhar enfurecido para a mulher. – Já atacou alguém que não tinha intenção de atacar a você ou aos seus… amigos?

– Não.

– Aí está!

– Sargento, isso não tem nenhuma validade legal – insistiu um dos homens. – É um claro caso de peierantibus fingantur.

Valena ficou olhando de um para o outro enquanto os quatro entravam numa discussão da qual ela entendia pouca coisa. Nada daquilo ali combinava com o que ela imaginava que fosse um “covil” do exército.

Exceto pelo fato de estar presa ali, nada de mal tinha acontecido com ela durante todo aquele tempo, o que já contrariava quase todos os boatos que corriam pelas ruas.

Dois dias atrás, quando alguns queriam força-la a revelar o esconderijo da gangue, o sargento interferira e lhe fizera uma proposta. Na verdade, um desafio: propôs que ela conversasse pessoalmente com Teorus para ver o que ele tinha a dizer sobre o fato de tê-la entregado aos militares. No fim, as previsões do sargento se mostraram acertadas e o delinquente confessara tê-la traído por motivos banais. E agora, ao invés de a colocarem numa cela e a castigarem, como ela imaginava que aconteceria, eles vinham com outra proposta estranha e ainda ficavam discutindo entre si.

Por um momento, ela se perguntou se tinha alguma coisa errada com a cabeça daquelas pessoas, porque nada daquilo parecia fazer sentido.

– Resumindo: ela está sob minha custódia – argumentava o sargento. – E eu acho válido dar a ela a chance de poder fazer algo de útil na vida. Vocês querem o quê? Que a tranquemos em uma cela? E depois? Quando ela sair de lá vai voltar para as ruas de novo. E aí? O que acham que ela vai ser obrigada a fazer para sobreviver?

– É para isso que o governador está dando essa indenização… – argumentou o homem que usava palavras difíceis.

– Não seja idiota – ralhou o sargento, interrompendo o outro. – Quanto tempo você acha que vai durar esse dinheiro? – Jeniliaro subitamente virou-se para Valena. – A propósito, alguém te contou que você tem direito a receber mil moedas de ouro?

Ela olhou para ele, apalermada, e balançou a cabeça.

– Se eu te desse as moedas agora e deixasse você ir embora com elas, o que faria quando estivesse longe daqui?

– Os cartazes… – ela disse, hesitante.

Os quatro oficiais a olharam, sem entender.

– Os que têm meu rosto neles.

– Ah! – Jeniliaro sorriu. – Quer dizer os avisos de “procura-se”, não é? Não se preocupe, já mandamos retirar todos. Vamos imaginar que você não tivesse participado de nenhum crime, e que não tivesse mais ninguém procurando você por causa daquilo tudo. Se tivesse mil moedas, o que faria?

Valena pensou em voltar para as ruas e descobriu que a perspectiva não a agradava. Depois que fora presa, ganhara roupas e comida sem precisar roubar ou ferir ninguém. Também tomara banho e tivera as melhores noites de sono de sua vida. Apesar de um tanto fria, a masmorra era muito, muito melhor do que os lugares onde vivera no último ano. Lá fora não conseguira nada além de abandono, sofrimento e traição. Para que iria querer voltar para lá?

– Eu ia querer voltar para a prisão.

Quatro pares de olhos arregalados a fitaram por um longo tempo.

♦ ♦ ♦

No fim das contas, Valena acabou meio que sendo “adotada” pelo exército. Passou a morar no alojamento junto com os soldados, a fazer refeições com eles e foi colocada na academia militar, junto com os cadetes. Nas horas vagas ela começou a ajudar no estábulo, escovando os animais, limpando e, às vezes, consertando uma ou outra coisa usando as parcas habilidades que havia adquirido na ferraria.

O sargento Lacerni decidiu, ele mesmo, dar lições de montaria a ela. Como ele previra, ela aprendeu muito rápido e em pouco tempo, para a surpresa de todos, já era capaz de controlar até o mais inquieto dos animais.

Valena adorava cavalos. O sargento comentara certa vez que ela gostava mais deles do que das pessoas, no que não estava exatamente errado. Todos ali dentro a tratavam com cortesia e educação, até mesmo aqueles que não gostavam dela, por incrível que pareça. Mas, apesar disso, ela não criou laços com ninguém. Conversava com os outros apenas o essencial, preferindo passar com os cavalos o tempo em que não estivesse trabalhando, estudando ou dormindo.

Valena tinha pouco interesse em se tornar um cadete. Entrar para o exército não era algo lá muito atraente, exceto pelos treinamentos físicos e de combate, dos quais ela gostava bastante, se orgulhando de ter um desempenho bem melhor do que a maioria dos outros adolescentes. Ou, pelo menos, se fosse considerado apenas o desempenho normal, sem o uso de habilidades místicas, que ela, ao contrário da maioria, não tinha nenhuma.

Na academia aprendeu a ler e a escrever, atividades que considerou extremamente maçantes, além de inúmeras outras coisas que não fazia a menor ideia se teriam alguma utilidade em sua vida. Para sua surpresa, no entanto, o fato de saber de tudo aquilo a fez passar a enxergar o mundo de uma forma muito diferente. Em certo momento ela conseguiu olhar para trás e entender, realmente entender as causas de todas aquelas agruras que tinha passado durante toda sua vida. Descobriu que o mundo era injusto. Mas que não era injusto apenas com ela.

Os cadetes a consideravam estranha e pouco amistosa, uma vez que evitava ao máximo interagir com eles. Justiça seja feita, até que havia entre eles alguns garotos muito bonitos, atraentes e gentis, mas depois do que sentiu quando foi abandonada por Barlone, ela não tinha nenhuma intenção de voltar a se envolver com ninguém.

Certa vez ela fez algumas perguntas sobre Barlone ao sargento. Jeniliaro então fez uma pequena busca e descobriu que alguém com aquele nome havia se juntado à força anos atrás, mas que havia sido transferido para Mesembria, onde haviam academias especializadas para desenvolver habilidades como as dele. Quando foi oferecida a Valena a possibilidade de escrever uma carta para ele, ela recusou. Afinal, o caso deles tinha terminado há muito tempo, não havia razão para reavivar todos aqueles sentimentos. Saber que ele estava bem era suficiente para ela.

Depois de alguns meses de boa alimentação, treinamento físico e descanso apropriado, ela sentiu seu corpo muito diferente. Onde antes havia apenas magreza e flacidez agora haviam saudáveis músculos. Seu rosto se tornou mais cheio e as olheiras, antes constantes, agora haviam desaparecido por completo. Alguns dos garotos haviam até mesmo elogiado sua aparência, coisa que a deixou satisfeita e confusa ao mesmo tempo, uma vez que não sabia muito bem como lidar com aquilo.

Logo que aprendeu a montar, os oficiais começaram a lhe mandar entregar e receber mensagens pela cidade. A primeira vez em que saiu da base foi uma experiência estranha. Ao mesmo tempo em que estava excitada com a aventura, havia um irracional receio de retornar àquelas ruas. Também havia o fato de saber que soldados seriam enviados atrás dela caso demorasse demais para voltar ou tentasse fugir.

A ideia de voltar a se tornar uma fugitiva era intolerável. Decidiu que não ia fugir de ninguém, nunca mais. Por um momento ela se lembrou de tantas outras decisões que havia tomado e imaginou como seria capaz de cumprir todas aquelas promessas, mas logo decidiu que não importava.

O nome oficial dado à sentença que ela recebeu era “prisão quartelar”, um termo um tanto estranho que, pelo que entendeu, significava que a pessoa devia ficar confinada às dependências de uma base militar ou suas redondezas. O período de encarceramento a que foi condenada era de seis meses, mas praticamente nada mudou depois que esse tempo se passou. Ela foi informada que estava livre para ir quando quisesse, mas também que ninguém se importaria se ficasse.

De qualquer forma, ela já estava tão acostumada com o trabalho de mensageira que não o largaria por nada. Declinou da oferta de se tornar um soldado, uma vez que aquilo a obrigaria a ficar confinada na base por pelo menos metade do dia, e o que ela queria era liberdade, sentir a brisa no rosto enquanto agarrava na sela e fazia a montaria correr como o vento.

O dinheiro da indenização, que recebeu ao fim da pena acabou sendo guardado. Ela poderia ir para qualquer lugar agora e fazer qualquer coisa, mas não tinha muitos interesses além de se manter limpa, alimentada e apresentável. E como o salário que ganhava com o trabalho era mais que suficiente para conseguir alimento e pagar o aluguel de um pequeno quarto na cidade, bem como para, eventualmente, conseguir algumas roupas novas, não havia necessidade de gastar aquelas moedas que se tornaram seu pequeno tesouro. Ela tinha muita vontade de conseguir vestimentas mais duráveis e de melhor qualidade, mas se segurou como pôde para se virar apenas com seu salário.

E assim os anos foram passando. Com 14 anos, ela já era considerada uma mensageira competente, já sendo aceita pelos outros mensageiros como uma igual, apesar de bem mais jovem. Aos 15 ela havia se tornado excepcional naquele trabalho, e seu campo de atuação deixou de ser limitado apenas à capital, sendo enviada também a outras cidades da província, como Talas e Linarea e até a outras províncias como Mesembria e Halias.

Recebera ofertas de outras bases militares, e até mesmo do palácio imperial, que gostariam de ter um mensageiro como ela. Estava considerando seriamente a possibilidade de aceitar a oferta de trabalhar com a tropa que servia diretamente ao imperador, quando recebeu aquela fatídica missão de entregar uma mensagem a um soldado em Linarea.

Na época não lhe pareceu nada demais, afinal, já tinha ido várias vezes até lá antes. Não tinha como adivinhar que os céus lhe preparavam mais uma peça e que sua vida mudaria para sempre. Mais uma vez.

♦ ♦ ♦

O aspirante Iseo Nistano permaneceu em coma por vários dias. Apesar dos poderes de Sandora o terem curado de forma miraculosa, o trauma que o corpo dele sofreu fora grande, e mesmo com os tecidos reconstituídos misticamente, levaria tempo para se readaptar. Até mesmo a velocidade com que a cura tinha ocorrido contribuía para o maior tempo de recuperação, uma vez que qualquer mudança abrupta no corpo era, de certa forma, traumática para o organismo como um todo.

A grande vantagem é que não havia nenhum risco de morte ou de complicações, ele apenas precisava dormir, fora isso seu corpo estava forte e saudável. Se não tivesse recebido socorro místico, mesmo se, por algum milagre, tivesse sobrevivido, levaria meses para se restabelecer, ao invés de dias. E mesmo assim carregaria sequelas para o resto da vida.

A investigação de quem havia sido responsável pelo ataque ao aspirante levou Valena, Sandora, Gram e Valdimor a visitarem as partes mais sujas e decrépitas da capital e de seus arredores.

No início, o governador Nostarius apresentara objeções a Valena se envolver pessoalmente naquilo, mas aos poucos foi ficando claro que aquele assunto era muito mais sério do que todos imaginavam. Foi descoberto que o aspirante havia sido atacado ao interceptar um mercenário cujo alvo era alguém muito mais importante.

O fato da imperatriz estar pessoalmente tratando daquele caso, aparentemente, fez com que os responsáveis se enfurecessem – ou, como Sandora gostava de dizer, se desesperassem. Ocorreram mais dois atentados, um contra a vida do senador Mantana e outro contra o tesoureiro Balbate, mas ambas as tentativas de assassinato foram frustradas pelo esquema de segurança elaborado pelo general Camiro.

Valena conseguiu capturar pessoalmente o perpetuador de um dos atentados e, após submetê-lo ao encanto da verdade, descobriram quem estava dando as ordens.

– O general Linaru mandou pelo menos três assassinos se infiltrarem no palácio imperial – dizia a capitã Imelde. – Não há garantias de que não existam outros.

– Alteza, será necessário tomar alguma providência imediata – recomendou o general Camiro. – Apesar dos nossos soldados serem leais, será impossível manter essa história em segredo. Amanhã mesmo o povo de toda a província estará sabendo do ocorrido e exigindo uma retaliação.

– Pode ser exatamente isso que esse general Linaru quer que façamos – opinou Sandora.

– O general não é o problema – disse Valena. – É com a viúva do conselheiro Rianam que devemos nos preocupar.

– Sim – Concordou Camiro. – Odenari Rianam vem de uma família de sábios e alquimistas, família essa que ficou famosa na Sidéria por seu histórico de traições e assassinatos. Quando ela assumiu o comando da província e se declarou rainha, os antigos líderes civis e militares desapareceram. Correm boatos de que foram todos mortos, apesar de não existir comprovação disso. Pelo que sabemos o regime de governo dela é muito restrito e rígido. Linaru é o único alto oficial que permanece na ativa depois da separação do império.

– Temos arquivos sobre Linaru, não? – Sandora perguntou. – De antes da separação?

– Sim – confirmou Camiro. – A ficha dele é invejável, era uma pessoa justa, correta e muito dedicada. Não é o tipo de pessoa que recorreria a assassinato. A tentativa de invasão de Mesembria que frustramos é bem mais típico de alguém como ele. Por isso acredito que as ordens para esses atentados devem ter vindo da rainha.

– Algo não parece certo – disse Sandora, pensativa.

– Concordo – falou Leonel Nostarius. – Qual era a chance de um atentado como os que sofremos ter sucesso? Me diga, alteza, qual o nível de habilidade de combate dos oponentes que enfrentou?

– Eram patéticos – respondeu Valena. – Bons o suficiente para poderem ser comparados os novatos das nossas Tropas de Operações Especiais, mas não seriam páreo para oficiais a partir do segundo escalão – ela olhou para Laina. – Seu subtenente teve azar por ter sido pego de surpresa, caso contrário duvido que conseguiriam encostar um dedo sequer nele.

Laina assentiu, mas continuou calada.

– A divisão de Sidéria do exército não tinha Tropas de Operações Especiais também? – Sandora perguntou.

– Sim, tinha – respondeu Leonel. – O que quer dizer que os operativos que mandaram não estão entre os melhores que a rainha tem à sua disposição. Esse é o meu ponto: qual a lógica? Deviam saber que a chance de sucesso era muito baixa.

– Há alguma forma de perguntarmos a razão disso diretamente à rainha? – Sandora indagou.

Valena torceu o lábio.

– Duvido. De qualquer forma, não quero negociar com aquela fret. Ela me odeia e não ouviria uma só palavra do que eu dissesse.

– Por quê? ­– Sandora quis saber.

Porque eu matei o marido dela, Valena pensou.

– Isso não vem ao caso agora.

– De qualquer forma, esses atentados podem realmente ser só um embuste, para nos forçar a tomar uma decisão apressada – opinou Camiro.

– Embuste ou não, eu quero depor essa rainha – disse Valena. – Nada de bom vai acontecer na Sidéria enquanto Odenari estiver no trono. E também não vou deixar que essa ku faraxsaneyn fique tocando o terror no meu país. Não agora, que estou pegando o fio da meada e tomando as rédeas desse império.

– Um ataque direto não seria nada eficiente – opinou Laina. – Os siderianos são bem adaptados ao clima frio e à grande altitude, sem contar as características peculiares do campo místico de lá, por isso, têm muita vantagem sobre nós. Não poderíamos fazer o mesmo que fizemos contra Radal, mesmo que não estivessem preparados para algo assim.

– Não, necessariamente – respondeu Sandora.

♦ ♦ ♦

Naquela noite, Leonel conversava com sua companheira enquanto se preparavam para dormir.

– Lembra quando invadimos o castelo de Berige?

Luma Toniato sorriu.

– Claro que sim. Bons tempos aqueles. As coisas pareciam tão mais simples.

– Estou chegando à conclusão de que não são os tempos que mudam, são as pessoas.

Ela lhe deu um sorriso irônico.

– Isso é redundante. As pessoas mudam com o tempo.

– Sim, mas o que quero dizer é que, para nós, que estamos mais velhos, os tempos parecem diferentes, para os mais jovens, não.

O sorriso de Luma foi se apagando.

– Vai me dizer que Valena pretende…

– Sim. Ela vai atacar a Sidéria.

– Mas nossas tropas não têm chance, já debatemos isso várias vezes antes.

– Parar Berige também era impossível. Mas nós fizemos isso.

Áurea Armini fez isso, e, para falar a verdade, não entendi direito como até hoje. Eu, no lugar dela, teria matado aquela mulher, o que provavelmente teria causado uma guerra com milhares de mortos.

– Na época nós não nos preocupávamos tanto com isso. Há tanto que os jovens ignoram. E às vezes fico em dúvida se isso é bom ou ruim.

– Nós não éramos exatamente “jovens” naquela época. Mas qual o problema? Está com vontade de ir com eles?

– Não, exatamente.

Leonel levantou a mão direita e fez menção de fechar o punho. Em questão de segundos, uma espada longa se materializou entre seus dedos. Ele virou a lâmina trabalhada de um lado para o outro, fazendo com que a luz contínua suave dos candelabros incidisse sobre ela, dando a impressão que a arma brilhava com luz própria. Não tinham informações sobre quando aquele artefato havia sido criado, provavelmente há séculos, mas parecia ter saído da forjaria no dia anterior.

– Eu já disse várias vezes que a minha era chegou ao fim, mas sinto que ainda não deleguei a esses jovens tudo o que eu deveria.

– Leonel, você está me assustando.

Ele caminhou até uma cômoda e abriu uma gaveta, de onde tirou uma bainha na qual colocou a espada, com cuidado.

– Toda jornada um dia chega ao fim, Luma, você mesma me disse isso várias vezes.

– Sim, e em todas elas você me persuadiu a continuar caminhando.

♦ ♦ ♦

Sandora e Valena observavam enquanto os soldados amarravam os braços e as pernas de Valdimor numa cadeira.

– Essas amarras não vão ser capazes de segurar o monstro se ele decidir se transformar – comentou a imperatriz.

– A intenção não é mantê-lo preso – respondeu Sandora. – Apenas segurá-lo por tempo suficiente para que possamos colocá-lo para dormir.

– Isso é mesmo necessário?

– A sugestão foi dele, não foi?

– Ele está cooperando, não está? Não seria mais humano dar um voto de confiança?

Sandora franziu o cenho e encarou a outra.

– Ele tentou te matar, já esqueceu disso?

Valena suspirou. Não entendia porque estava preocupada com aquele homem. Mas deitado ali com as mãos atadas ele parecia ainda mais jovem, ainda mais sorrindo para os soldados daquela forma, como se estivessem fazendo um favor a ele.

– Não, não esqueci.

– Você está se arrependendo de ter tomado essa decisão.

– Eu… não sei.

Sandora deu as costas a Valena e se aproximou de Valdimor. Assim que ele olhou para ela, curioso, ela perguntou:

– Última chance. Quer mesmo continuar com isso? Assim que o encantamento for concluído, você não será capaz de mentir ou evitar responder a qualquer pergunta que fizermos a você.

– Quero.

– Por quê?

– Não lembro nada, de antes – ele hesitou e engoliu a saliva algumas vezes. Seu domínio da língua do império tinha melhorado muito nos últimos dias, mas se expressar ainda parecia trabalhoso para ele. – Ficar aqui está clareando pensamentos. Mas muita coisa ainda misturada. Encanto pode ajudar lembrar.

– Isso é verdade, se ainda tiver algum efeito místico obstruindo seus pensamentos, o encanto irá dissipá-lo. Mas não se incomoda com o fato de podermos descobrir qualquer segredo que tenha?

– Você não me matou.

– Não. Deveria?

– Em seu lugar, eu teria matado.

– Ainda posso vir a fazer isso, se achar necessário. Não estou aqui para lançar o encanto em você. Minha função é pará-lo caso se torne ameaça para alguém.

– Obrigado.

Concluindo que aquilo deveria significar que ele confiava nela, Sandora assentiu, satisfeita, e retornou para junto da imperatriz.

– Você ouviu.

Valena moveu a cabeça num gesto afirmativo, mas meio à contragosto. Não satisfeita com aquela reação, Sandora insistiu:

– Se quisermos ser bem-sucedidos na Sidéria, precisamos de todas as informações que pudermos, incluindo o que ele sabe.

– Isso se ele conseguir mesmo se lembrar de alguma coisa.

– Tem certeza que superou aquela ideia de achar que ele era seu namorado de infância?

Valena abriu a boca para responder, mas se interrompeu ao olhar para o sorriso que Valdimor trocava com uma oficial que falava com ele. Subitamente teve uma revelação que fez com que arregalasse os olhos e levasse uma mão ao peito.

– Não!

Não é possível! Isso não pode estar acontecendo! A Fênix não permitira uma coisa dessas! NÂO PODE permitir!

Sandora olhou para ela, alarmada.

– O que foi?

– Ah, nada. Não é nada. Se isso é o que ele quer, vamos em frente.

Muito agitada e sem saber direito o que fazer, a imperatriz se voltou para Gram, que estava recostada à parede. O capuz vermelho não lhe cobria totalmente o rosto, de forma que a horrenda face mumificada podia ser vista por qualquer um. Como as pessoas presentes já conheciam sua natureza e estavam acostumadas com sua presença, simplesmente a ignoravam.

Valena apontou-lhe o dedo indicador.

– Você. Não sei porque gosta dele, mas isso aqui é importante. Não quero feri-lo, mas se ele se descontrolar, precisaremos pará-lo, e de forma violenta, se necessário. Ele mesmo pediu isso. Você entende?

Gram inclinou a cabeça para o lado por um instante, antes de levantar uma das mãos enluvadas e balançar os dedos num sinal de “mais ou menos”.

Ao ver Sandora trocar um olhar com a morta-viva, Valena imaginou que teria que se contentar com aquilo. Afinal, Gram obedecia à bruxa, não é? Não havia a possibilidade dela se aliar ao demônio caso ele…

– Tudo pronto, Alteza – informou um dos oficiais, interrompendo seus pensamentos.

Valena suspirou novamente.

– Ótimo. Vamos acabar logo com isso.

– Seria melhor se você ficasse longe daqui – falou Sandora, repetindo algo que já havia dito várias vezes.

– Não. Ele é minha responsabilidade. Eu o trouxe para cá. Se isso der errado e alguém acabar morrendo, prefiro que esse alguém seja eu.

Sandora achava aquela atitude estúpida, ainda mais vinda de alguém que deveria priorizar o que era melhor para o país ao invés de suas próprias convicções pessoais. Mas não pôde deixar de perceber que aquelas palavras surtiram um efeito extremamente positivo nos oficiais, cujo respeito por sua imperatriz parecia aumentar dia após dia.

Imaginando que não havia mais o que fazer, Sandora adiantou-se para tomar seu lugar, próximo aos oficiais. Só esperava que aquilo terminasse rápido e sem incidentes.

Infelizmente, aquela esperança foi em vão.

Tudo ocorreu tão depressa que foi difícil de acompanhar. Logo que o encanto foi concluído, as cordas que prendiam Valdimor se soltaram, aparentemente sozinhas. Livre, ele correu até Sandora e, sem dar tempo para que reagisse, a agarrou pelo pescoço, arremessando-a na direção de Gram e fazendo com que as duas voassem até se chocarem contra a parede oposta da sala. No momento seguinte, Valena estava deitada no chão com ele sentado sobre seu quadril, enquanto segurava seus braços acima de sua cabeça.

Nesse momento ele já estava completamente transformado. Sem nenhum traço do comportamento pacífico de antes e com o rosto demoníaco tão próximo que ela podia sentir o calor de sua respiração, ele exclamava, destilando maldade em cada palavra:

– Você vai gritar! Vou fazer você sentir dor! Tanta que não vai aguentar! Então você vai me implorar por parar, e aí eu vou te matar! Depois vou te trazer de volta e matar de novo! E de novo! Não vou parar até que seus gritos satisfaçam a minha sede!

— Fim do capítulo 9 —
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