Valena – Capítulo 25

Publicado em 13/01/2019
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25. Trancos e Barrancos

– Eu quero voltar. Eu preciso voltar!

– Esqueça, Sandora!

Valena e Gram caminhavam ao lado da bruxa. Felizmente, havia parado de chover por ali. O trajeto de volta até a vila tinha sido difícil, com Sandora adoentada e teimando em querer voltar para o santuário o tempo todo. Se além daquilo tivessem que encarar chuva também seria um inferno.

– Preciso saber o que há de errado comigo.

– Já falei não sei quantas vezes: foi o próprio guardião quem nos pediu para tirar você de lá. Não vamos te levar de volta, pelo menos não enquanto não melhorar.

– Mas eu…

– Escute, Gram está cansado, está bem? Não me force a pedir para ele carregar você de novo, que ele não aguenta mais – Na verdade, Valena não tinha a menor ideia se aquilo era verídico, uma vez que o morto vivo lhe parecia exatamente igual a quando tinham iniciado aquela viagem, na semana anterior.

Mas Sandora estava péssima. Quase não comia, reclamando de dor no estômago e tudo o que conseguia engolir colocava para fora logo depois. Quase não tinha forças para continuar caminhando e precisou ser carregada por boa parte do caminho. Estava pálida, com fundas olheiras e até suas roupas que normalmente se limpavam e consertavam sozinhas estavam parecendo trapos velhos.

Valena suspirou aliviada quando avistou as pequenas casas do vilarejo, à distância. Mas logo ficou alerta, quando viu Gram levantar uma das mãos esqueléticas, no tradicional gesto militar que indicava “pare”.

Com o coração batendo acelerado, Valena imediatamente olhou ao redor, em busca de abrigo. Gram lançou-lhe um breve olhar antes de sair caminhando, determinado, na direção da vila. Ela então tratou de sair da estrada, levando Sandora consigo e se embrenhando entre as árvores.

Não demorou muito para os sons de batalha chegarem até elas. Valena nunca tinha sentido tanta aflição em sua vida. Queria correr até lá e ajudar Gram, mas não podia deixar Sandora sozinha. Fugir carregando Sandora poderia ser perigoso, não dava para saber se não estavam cercados. Como a bruxa estava bem mais magra, talvez conseguisse voar carregando-a por algum tempo, como fizera com Evander logo que ganhara a marca – o que, diga-se de passagem, parecia ter acontecido há uma eternidade –, mas fazer aquilo atrairia ainda mais atenção.

Um longo tempo se passou enquanto ela ficava ali parada, de espada em punho, com Sandora à sua frente, recostada em uma árvore, parecendo ter caído no sono. Então os barulhos terminaram. Mais alguns longos e angustiantes minutos se passaram até que Gram surgisse, com marcas de combate por todo seu corpo esquelético.

Quando o morto vivo lhe fez um sinal para segui-lo, Valena ativou sua habilidade de aumento de força e pegou Sandora no colo, partindo atrás dele o mais rápido que podia.

Pilhas de cinzas podiam ser avistadas no chão por todo lado, juntamente com as marcas de batalha no chão ainda úmido por causa da chuva. Havia apenas uma explicação para aquelas cinzas: monstros. A vila devia ter sido atacada por monstros. E, pelo visto, Gram tinha acabado com várias dezenas deles.

Sem verem nenhum sinal de pessoas por parte alguma, trataram de correr até a ponte de vento.

– Sandora, acorde! Precisamos de você! Ative esse negócio e nos mande para longe daqui, de preferência para a Província Central. Temos que encontrar ajuda!

A bruxa abriu os olhos quando Valena a colocou em pé sobre a plataforma. Então abaixou-se e tocou a pedra esverdeada.

– Não tenho como ir para um lugar onde nunca estive. Não sem ajuda.

– Então nos mande para o norte, o mais próximo da fronteira que conseguir.

– Muito bem.

Enquanto Sandora ativava a ponte, Valena olhou uma última vez para as casas abandonadas ao redor.

Que a Fênix tenha piedade desse povo.

♦ ♦ ♦

A viagem até a Província Central se mostrou muito mais difícil do que o esperado. As vilas pareciam estar todas desertas e havia monstros agressivos e perigosos por toda parte.

O mais surpreendente, no entanto, foi a enorme muralha que encontraram no lugar onde parecia ser a fronteira. Não era um simples muro, era larga como uma torre e se estendia a perder de vista para ambos os lados, seguindo as ondulações do terreno.

Quando um novo grupo de monstros apareceu, Valena invocou a forma da Fênix e carregou Sandora por cima do muro, enquanto Gram usava sua agilidade para escalar a alta parede de pedra.

Surpreendentemente, os monstros não tentaram segui-los, nem mesmo alguns voadores que apareceram e ficaram dando voltas por ali, sem nunca ultrapassar a fronteira, como se houvesse uma barreira invisível acima da muralha que os impedia de passar.

– Alguma ideia do que possa estar acontecendo? – Valena perguntou a Sandora.

– Parece ser um bloqueio místico. Mas nenhum ser humano teria energia suficiente para erigir uma barreira tão grande quanto essa parece ser.

– Talvez seja uma bênção divina. É o tipo de coisa que a Grande Fênix faria para proteger pessoas.

– Faz sentido. Parece que apenas humanos conseguem atravessar.

Valena deu uma olhada de soslaio para Gram, imaginando se aquilo podia ser considerado um ser humano, mas antes que pudesse fazer um comentário, ouviu uma voz autoritária vinda das árvores.

– Quem vem lá?

Dois soldados imperiais se aproximavam, encarando os três com desconfiança. Valena tratou de abaixar a cabeça e se virar um pouco de lado, deixando que uma mecha de seu cabelo ruivo lhe caísse sobre a face e esperando que aquilo fosse suficiente para que não vissem a marca. Não podiam chamar atenção. Mas então se lembrou de Gram e quase soltou um gemido de frustração. Seria impossível alguém não reparar em todos aqueles ossos aparentes.

– Meu nome é Sandora Nostarius – a bruxa se apresentou. – Eu e minha amiga fomos atacados por monstros e tivemos que pular a muralha.

Os dois homens se entreolharam por um momento.

– Faz tempo que nenhum refugiado de Ebora passa por aqui. São só vocês duas ou tem mais alguém com vocês?

Confusa, Valena lançou um discreto olhar ao redor. Onde é que o morto vivo tinha ido parar? Não que eu esteja reclamando, pensou, com um suspiro de alívio.

– Não vimos mais ninguém enquanto fugíamos para cá – Sandora respondeu ao homem. – As cidades parecem estar desertas lá dentro. Sabem se as pessoas fugiram para este lado?

– Recebemos algumas centenas de refugiados nessa última semana, mas acho que isso está bem longe de ser todo mundo.

Pelo que Valena sabia, Ebora deveria ter alguns milhões de habitantes.

Sandora lançou um olhar para trás.

– Nunca tinha ouvido falar dessa muralha.

– Dizem que foi o ditador de Ebora quem mandou construir – respondeu o homem. – Ela foi concluída há umas três semanas.

O outro soldado olhou para Sandora com atenção.

– Você está bem?

– Só cansada. Não estamos nos alimentando e nem dormindo direito há dias. Foi uma fuga… difícil.

O homem assentiu, um sorriso de simpatia surgindo em seu rosto.

– Se seguirem por essa estrada por umas duas horas, chegarão a uma vila de agricultores. Não se preocupem, essa região é segura, não temos monstros desse lado da muralha.

Elas agradeceram e seguiram na direção indicada.

Valena se esforçou para deixar o lado direito do rosto sempre oculto. Percebeu que um dos homens lhe lançava um olhar de piedade. Provavelmente pensava que ela estava escondendo algum tipo de ferimento ou cicatriz. Eu é que não vou esclarecer o equívoco.

Quando estavam fora das vistas dos soldados, Gram reapareceu, caminhando tranquilamente por entre as árvores que margeavam a trilha.

– “Sandora Nostarius”, hein? – Valena riu. – Não achei que as coisas tinham ido tão longe entre você e o filho do general.

– E não foram. Minha mãe adotiva nunca me deu um sobrenome, mas soaria suspeito dizer isso aos guardas, se perguntassem.

– Sei.

O caminho até o vilarejo foi tranquilo, graças aos céus. Depois dos últimos dias, Valena não sabia se teria energia para enfrentar mais monstros. O lugar era pequeno, pouco mais de meia dúzia de casas no meio de uma grande porção de solo cultivado onde as pessoas trabalhavam debaixo do sol quente do verão.

Havia um curandeiro ali, que se prontificou imediatamente a fazer o que pudesse por Sandora, o que, infelizmente, não era muita coisa.

Conseguiram também algumas informações com alguns soldados que passaram por ali. Ficaram sabendo que o filho do general Nostarius havia derrotado o general Narode e acabado com os planos de dominação dele. Infelizmente, os conselheiros imperiais, sem ninguém para impedi-los, decretaram a dissolução do império. Ebora, Halias, Mesembria, as Rochosas, Lemoran e Sidéria agora eram países independentes, governados direta ou indiretamente pelos conselheiros. Eles só não dominaram a Província Central por medo das forças militares que marcharam na direção do palácio depois da derrota de Narode.

Valena se sentiu deprimida como nunca. Seu país estava fragmentado, as pessoas confusas e assustadas. E ela ali, se escondendo, como uma covarde.

E foi então que Leonel Nostarius apareceu, como uma resposta a suas preces. De repente, não havia mais acusações contra ela, nem recompensa por sua cabeça. Pelo menos não dentro dos limites do império, que agora era constituído apenas pela Província Central. Ela poderia finalmente voltar à capital e assumir o trono. Não seria uma tarefa fácil, não agora que as outras províncias haviam se tornado nações hostis. Era possível que houvesse uma guerra.

Após reencontrar Evander e, aparentemente, fazer as pazes com ele, Sandora havia recobrado completamente a vitalidade e determinação de antes. Valena sabia que devia ficar feliz por ela, mas não conseguia evitar de ficar um pouco ressentida. Passara tanto tempo tentando ajudar a outra sem sucesso e, do nada, o tenente aparece e ela fica bem. Não exatamente bem, pois as dores e enjoos continuaram, mas ela ao menos recuperara a vontade de viver.

Decidiu que iria encontrar uma forma de ajudá-la, nem que tivesse que esgotar os recursos da província para isso.

Também havia o mistério de Ebora para ser resolvido. A província estava cercada por todos os lados por aquela muralha e parecia estar povoada por monstros.

Os desafios eram muitos, mas Valena não se deixaria acovardar. Assumiria o trono, derrotaria os conselheiros imperiais e reconstituiria o império. E seria a melhor governante que esse país já teve.

♦ ♦ ♦

Oito meses depois que se tornara imperatriz, Valena se deu conta de que ainda não tinha cumprido a maior parte das promessas que fizera a si mesma.

O império continuava fragmentado, apesar de os ex conselheiros não serem mais ameaça. Ebora continuava isolada do resto do mundo, a muralha havia se tornado intransponível e não permitia mais a entrada ou saída de pessoas, resistindo a todos os esforços dos militares para rompê-la. E, o mais frustrante: Sandora continuava correndo risco de vida.

Teria sido por isso que a bruxa resolvera traí-la e roubar seus poderes? Seria aquilo uma vingança por Valena não ter sido capaz de cumprir sua promessa?

Decidindo que já havia chorado demais, ela respirou fundo, pressionando uma última vez o rosto ao peito de Valdimor antes de levantar a cabeça e encará-lo. Ele a olhou sem dizer nada, comunicando apenas através dos olhos aquilo que ela precisava saber. Que não se importava se ela tivesse ou não poderes. Que fosse ou não a imperatriz. Ele estaria ali por ela. Sempre.

Ela abria a boca para dizer algo quando um barulho fez com que olhassem para o céu. A tropa dos Cavaleiros Aéreos estava chegando para ajudar a lidar com os desabrigados de Aldera.

Valena ficou feliz ao reconhecer um deles. O quinto desejo que havia sido concedido pela Grande Fênix antes de ela deixar de existir fora o restabelecimento dos membros da Guarda Imperial. Assim, Leonel Nostarius tinha recobrado a consciência e, ao que parecia, também tinha recuperado muito de sua antiga vitalidade.

Ela se voltou para Valdimor e colou os lábios aos dele por um instante. Depois de trocarem um olhar carregado de promessas, eles se separaram. Valena se dirigiu ao acampamento improvisado enquanto Valdimor voltou para junto dos outros, que continuavam reunindo as pessoas e ajudando os que estavam presos entre os destroços.

Leonel correu a seu encontro assim que a viu. Ao notar a culpa e a preocupação no rosto dele, as intenções de Valena de manter a calma foram por água abaixo. Ela, praticamente, se lançou contra ele e o abraçou apertado, enquanto voltava a chorar copiosamente. Ele passou os braços ao redor dela e pousou o queixo sobre sua cabeça.

– Sinto muito – ele disse.

Ela levou um longo momento para se controlar. Então, levemente constrangida, se afastou.

– Não pudemos salvá-la – choramingou. – Ela… o espírito dela já tinha partido. Não tinha nada que a Fênix pudesse fazer.

– Eu sei. Sinto muito ter feito você passar por isso.

– Não entendo – ela balançou a cabeça, uma expressão de ressentimento em seu rosto. – Por que não me contaram? Acharam que eu não tinha o direito de saber?

Ele suspirou e fechou os olhos por um momento, antes de voltar a encará-la.

– Posso ser sincero?

– Deve.

– Se você estivesse assumindo o trono hoje, eu e Luma não hesitaríamos em contar a verdade sobre o assassino do imperador.

Fret! Vocês passaram anos me treinando. O que mudou para só virem a confiar em mim agora?

– O que faria se revelássemos a você sobre o problema de Luma logo depois que se tornou imperatriz?

– Ora, que pergunta, eu…

– Seja sincera.

Ela franziu o cenho, confusa. No momento, sentia-se traída, enganada, usada. Não estava com cabeça para aquilo. Pensava em praguejar novamente, quando notou algo no olhar dele. Leonel estava falando sério, muito sério. O que aquilo queria dizer?

Ora, bolas, se soubesse que Luma era um perigo em potencial, ela teria tomado providências. Não era o que qualquer imperador sensato faria?

Mas então ela se deu conta da própria linha de pensamento e se sentiu mal consigo mesma. Sim, ela tomaria providências. Provavelmente colocaria a outra em algum tipo de prisão, onde não pudesse fazer mal a ninguém. Condenando a mulher a sofrer por crimes que, na verdade, não tinha cometido.

Não seria uma má decisão, considerando o perigo em potencial. Mas hoje, teria coragem de fazer algo assim?

Ela abaixou a cabeça, subitamente envergonhada.

– Eu era uma pessoa horrível, não era?

– De forma nenhuma. Era apenas uma jovem solitária descobrindo como o mundo funciona. E o fato é que você mudou muito desde então. Pensamos em conversar com você várias vezes, mas foram meses difíceis. Sinto muito.

– Entendo – ela pensou por um instante, antes de voltar a encará-lo. – Por que decidiu passar a espada para Lucine, mesmo sabendo do perigo?

Ele desviou o olhar e engoliu em seco.

– Luma descobriu que sua outra personalidade havia sido a responsável pela morte do imperador um dia antes da tragédia de Aldera. Não sei onde encontrou forças para lutar contra Donovan, mas estava lá ao nosso lado. Quando Romera usou o teletransporte em massa, ela foi jogada num espaço alternativo, habitado por uma entidade traiçoeira. Ela queria acabar com tudo, mas não podia tirar a própria vida, pois o monstro que vivia dentro dela havia se tornado poderoso demais e poderia assumir o controle no último momento. Então decidiu entregar seu fluxo para a entidade, que o recebeu de bom grado. Desde então, ela não foi mais capaz de gerar nenhuma flutuação, a entidade drenou seu fluxo a ponto de mal ser capaz de manter suas funções vitais. Achamos que, sem energia, o monstro não mais se manifestaria, e mesmo que se manifestasse, não seria capaz de fazer muita coisa. No fim, estávamos errados.

Valena pôs a mão no ombro dele.

– Agora acabou. Só lamento que a verdadeira personalidade dela…

– Não lamente – ela a interrompeu, com voz embargada. – Ela agora está descansando em paz, algo com o qual sonhou durante décadas. – Ele fez uma pausa e respirou fundo, tentando recuperar o controle. – Você tornou isso possível, e lhe sou eternamente grato.

Limpando as lágrimas que escorriam por seu rosto, Valena olhou ao redor. Os soldados montavam barracas para acomodar os desabrigados. Os cavaleiros alados deixaram suas cargas e partiram para buscar mais coisas. Roupas, suprimentos, poções, tudo o que pudessem.

Onde iriam assentar tanta gente? E será que ela ainda tinha o direito de decidir alguma coisa?

– O senhor encontrou Sandora?

– Sim. Ela e Evander partiram da capital. Não quiseram dizer para onde estão indo.

Valena o olhou, surpresa, depois estreitou os olhos.

– E qual será o plano dela agora? Achei que fosse se apossar do trono.

– Mesmo que esse fosse seu desejo, o que duvido muito, ela não teria a menor chance de concretizar algo assim.

– Ela tem a marca. A minha marca.

Você é a imperatriz. Em pouco mais de seis meses, conseguiu fazer um governo invejável, apesar da inexperiência e de todas as provações. As pessoas gostam de você, ainda mais agora que a Fênix reapareceu. Ninguém irá questionar o fato de ter desistido da marca para poder trazer a entidade de volta.

Como se a decisão de perder a marca tivesse partido dela.

– Vão questionar quando Sandora aparecer e mostrar o rosto.

Leonel colocou a mão no ombro dela.

– Você liderou nossas tropas na maior batalha da história do império. E, segundo o general Camiro, tivemos menos de cem baixas, e cerca de 500 feridos. Esse é um feito histórico, que será estudado e admirado por todas as gerações futuras.

– Foi ideia dela – Valena resmungou, por entre os dentes. – Todas as grandes ideias do meu governo vieram dela, ela sempre estava por perto, pensando em tudo. Se quiser tomar o trono, eu não tenho como impedir. Talvez… talvez ela seja mais digna desse cargo do que eu.

– Isso é bobagem – retrucou Leonel. – A função do imperador não é ter ideias, é tomar decisões. E encontrar aliados dignos para trabalharem a seu lado. Não foram os planos ou ações de uma única pessoa que nos trouxeram até aqui, foi o conjunto de tudo. Um conjunto que foi moldado pelas suas decisões.

Valena suspirou.

– Não tenho mais meus poderes.

– E quão relevantes seus poderes foram nessas últimas batalhas?

Valena abriu a boca e voltou a fechá-la. A bem da verdade, se não contasse o favor divino, seus poderes tinham feito pouco mais do que a ajudado a permanecer viva nessas últimas semanas.

– Eu não precisei muito deles – respondeu, finalmente. – Apenas dei cobertura aos meus aliados.

– Você preparou seus soldados e os mandou para lutar a guerra por você. É o que qualquer grande líder faria.

Lágrimas voltaram a cair de seus olhos e Valena se aproximou dele, que envolveu novamente em seus braços. Uma onda de afeto a invadiu. Se alguém lhe dissesse, anos atrás, que um dia iria enxergar Leonel como uma espécie de figura paterna, não acreditaria. Se ela havia mudado nesse último ano, ele havia mudado muito mais. Se tornara uma pessoa mais acessível, menos calculista, mais confiável, mais… humana. Era a primeira vez que ela sentia uma proximidade similar com alguém desde o imperador Caraman.

– Obrigada – disse, momentos depois, quando voltaram a se afastar.

– Não por isso. Ah, e mudando de assunto, você e seus amigos conseguiram impressionar muita gente hoje. Segundo Erineu Nevana, nunca, na história do império, o portador da marca sobreviveu ao processo de ressurreição, nem mesmo nas poucas vezes em que algo deu errado.

– Talvez seja porque a Fênix não tenha realmente ressuscitado. Sandora conseguiu assumir o controle e impediu o processo, provavelmente por causa daquela história de ser espírito itinerante. E, depois da luta, ela decidiu desfazer o ritual, temendo que perdêssemos o controle e continuássemos naquela forma para sempre.

– Erineu está convencido de que você não poderia sobreviver, mesmo assim.

Valena se afastou e franziu o cenho.

– Ele parece saber muito sobre o assunto.

– Isso é porque ele é bem mais velho do que aparenta. Já acompanhou diversas transições de governo. Ninguém conhece melhor a história do império do que ele.

– Oh.

Leonel a encarou, pensativo.

– Evander me contou que Sandora ficou com a marca como resultado da realização de um desejo. E que o fato de eu estar vivo e conversando com você foi por causa de outro.

Ela assentiu.

– Antes de desaparecer, a Fênix concedeu um desejo a cada um de nós sete. – Ela apontou para a planície onde antes ficava a cratera. – Creio que aquele ali tenha sido o meu. O corpo de Gram foi reconstituído, apesar de ter… assumido uma outra forma. E os artefatos que o monstro absorveu foram devolvidos a seus donos de direito.

– E o que aconteceu com o machado? Segundo Evander, o seu dono original deixou de existir há tempos.

Ela arregalou os olhos.

– Não faço ideia. Não tinha pensado nisso.

– Não se preocupe. Tenho certeza que os sábios de Mesembria poderão rastreá-lo.

Ela suspirou e voltou a assentir.

– O sexto desejo foi a libertação de todos que ainda estavam sob o domínio do General Narode. Espero que isso facilite as coisas quando formos conversar com os governadores do norte.

– Excelente. Com isso, nos livramos das últimas pontas soltas desse assunto. Erineu e Jarim ficarão felizes, finalmente poderão descansar. E qual foi o último desejo?

– Um selo dimensional. Para impedir que portais para outros mundos voltem a se abrir.

Ela apertou os lábios, se dando conta de que Joara e Falco agora estavam presos neste mundo, impossibilitados de voltar para Chalandri.

– Vocês realmente fizeram um trabalho impressionante – disse Leonel. – Algumas dessas graças estavam muito além das capacidades da entidade em suas encarnações anteriores.

– Provavelmente porque não tinha Sandora lhe dando ideias – falou Valena, amarga. – Ainda não consigo acreditar que ela desejou ficar com meus poderes. O que vou fazer agora?

– Agora, você vai até lá – ele apontou para a movimentação dos soldados, ao longe – e supervisiona o resgate e assentamento dessas pessoas. Continue nos deixando orgulhosos e sendo a melhor imperatriz que este país já teve.

♦ ♦ ♦

Sandora percebeu o suave brilho emitido pela marca da Fênix em seu rosto quando levantou uma das mãos e redirecionou o fluxo energético. Uma flutuação mística surgiu no ar acima dela, no formato de um pequeno ponto de luz que explodiu, gerando pequenos construtos energéticos intangíveis em forma de penas avermelhadas. A luz multicolorida se projetava nas paredes do velho castelo, parecendo, por um momento, conceder vida às pedras frias e nuas.

A pequena chuva de penas caiu sobre ela, energizando-a, restaurando as ligações místicas entre corpo e espírito e revitalizando os tecidos seriamente danificados dentro dela.

Satisfeita por finalmente ter conseguido concluir com sucesso a parte mais complicada do plano, ela abaixou a mão e ativou uma outra flutuação, essa oriunda de seus próprios poderes. Seus dedos foram cobertos pela aura negra com propriedades curativas enquanto os encostou em seu ventre.

Sentiu todo seu corpo ficar dormente e a respiração congelar na garganta enquanto aquela energia potencializava o efeito de revitalização concedido pela marca da Fênix, e os tecidos recém revividos se multiplicavam, restaurando os diversos órgãos danificados, tanto dela quanto do feto.

Quando a dormência passou e voltou a recuperou o fôlego, ela olhou para o ventre distendido e o tocou com cuidado. Então soltou um suspiro de alívio ao constatar que a dor que sentira ali constantemente finalmente a havia abandonado.

Tinha dado certo. Ela conseguira combinar ambos os poderes em um efeito que funcionasse com ela. Pela primeira vez em nove meses, sentiu uma ponta de esperança. Por ela e por aquele bebê.

Uma mão foi colocada em seu ombro e ela levantou o olhar, encarando a expressão ansiosa de Evander por alguns instantes, antes de abrir o que, provavelmente, era o maior sorriso que já dera em sua vida e se lançar contra ele, abraçando-o pela cintura.

– Deu certo. Deu certo!

– Graças aos céus – ele respondeu, fechando os olhos enquanto a abraçava também.

Ficaram ali, naquele abraço afetuoso, por mais de um minuto, nenhum deles querendo quebrar o contato, como se os efeitos da cura pudessem ser comprometidos caso eles fizessem qualquer outra coisa além de permanecer colados, sentindo o calor do corpo um do outro.

Mas então, um sentimento de apreensão fez com que ela se afastasse.

– Eu não devia estar fazendo isso. Esses poderes não são meus.

– Não é como se você pudesse devolvê-los, não é? A marca agora está ligada a você, apenas a Fênix poderia transferi-la para outra pessoa. E, para isso, vocês teriam que revivê-la novamente.

Sandora se lembrou de toda a dificuldade que tivera para conseguir manter a todos vivos durante aquele ritual. Mal acreditava que tiveram sucesso frente a tudo o que tiveram que enfrentar, evitando as incomensuráveis tragédias que poderiam ter ocorrido caso dessem um passo em falso sequer.

Ela balançou a cabeça.

– Não. Isso colocaria todos em risco novamente. E eu sinto que existe uma razão muito boa para eu ter desejado ficar com isso – ela apontou para o próprio rosto.

– Sobreviver a essa gravidez é uma ótima razão.

– Não acho que tenha sido isso.

As memórias dela estavam fragmentadas, não conseguia se lembrar direito do que aconteceu desde que decidira dissipar o fluxo até o momento em que se viu de volta em seu corpo. Mas algo lhe dizia que, se aquele desejo realmente tinha sido seu, não estava pensando em si mesma e nem no bebê quando o fizera.

Ela balançou a cabeça novamente, tentando deixar aqueles pensamentos de lado, enquanto se aproximava de Gram, que estava deitada sobre alguns cobertores. Apesar do leve sorriso em sua face, era possível ver que não estava bem, sua pele se tornando cada vez mais azulada conforme o tempo passava.

Sandora então repetiu as invocações que havia realizado antes, mas dessa vez sobre Gram ao invés de si mesma.

Aquilo não era nada fácil. O ritual, de alguma forma, parecia ter mexido com seu fluxo energético, seus sentidos místicos estavam diferentes, as vibrações pareciam erradas, invertidas, fora de contexto. Estava tendo trabalho para se reacostumar a usar seus poderes, se adequando àquela nova condição meio que aos trancos e barrancos. Além disso, havia também os poderes concedidos pela marca da Fênix, que não eram, nem de longe, tão simples ou intuitivos quanto os seus próprios. Levaria um bom tempo para se acostumar com eles, sem ter que repassar mentalmente cada etapa do complicado processo toda vez. Processo esse, que ela só conhecia por causa das conversas que tivera com Valena nos últimos meses sobre o assunto.

Felizmente, o pouco que conseguira dominar daqueles poderes nas últimas horas pareceu ser o suficiente. Gram rejuvenesceu quase que instantaneamente, sua pele se livrando daquele arroxeado mórbido enquanto adquiria um tom muito mais saudável, apesar de ainda muito pálido.

Tendo recuperado suas forças, Gram deu um largo sorriso e se levantou, alongando os músculos, parecendo satisfeita. Estava usando uma das roupas velhas de Lucine, que eram muito grandes para ela. Parecia uma adolescente experimentando os trajes da mãe. Mas, apesar de estar com um aspecto muito melhor, sua aparência não deixava de ser um tanto perturbadora, com aquelas íris vermelhas, o sorriso que revelava os caninos avantajados, cabelos brancos caindo até os ombros e aquelas unhas que mais se pareciam com garras. E havia também o fato de ela não ter funções vitais, como respiração ou batimentos cardíacos, e sua pele ser fria ao toque.

Sandora a analisou atentamente.

– Conseguiu se lembra de algo do seu passado?

Gram sacudiu a cabeça, mas não pareceu nem um pouco preocupada com aquilo. Sorrindo, juntou as mãos na frente do peito e fez uma leve reverência, num gesto de profunda gratidão. Então, com passos decididos, saiu do aposento.

– Ao menos, ela parece feliz – comentou Evander.

– Eu tive tantos poderes à minha disposição – disse Sandora. – E havia tanta coisa para ser feita.

– Eu acho que você se saiu muito bem, se focando no problema maior.

– Talvez. – Ela suspirou. – Creio que tenho muito o que aprender.

Ele sorriu.

– A boa notícia é que, agora, temos todo o tempo do mundo para isso.

— Fim do capítulo 25 —
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