Valena – Epílogo

Publicado em 16/01/2019
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Epílogo: Melhor que a Encomenda

– Como estão as coisas por aí? – Erineu Nevana quis saber.

Leonel desviou o olhar da imagem fantasmagórica do amigo e observou a movimentação dos soldados à distância, montando tendas e mais tendas.

– Muito bem, considerando as circunstâncias.

– Baixas?

– Não tinha como não acontecer, eu suponho. Havia uma quantidade surpreendente de bebês, pessoas doentes ou em idade avançada na cidade no momento do nosso confronto com Donovan. Alguns estão perecendo por falta de cuidados, outros estão piorando. Tivemos casos de pessoas presas debaixo de escombros que sucumbiram devido a ataques de pânico. Isso sem contar aqueles que se meteram em brigas. Algumas foram bem feias, diga-se de passagem. E houve também os acidentes, como crianças encontrando artefatos místicos no chão e brincando com eles, mandando a si mesmas e todos ao redor pelos ares.

– Ou seja, nada fora do normal numa situação como essa.

– Sim, mas o fato de ser “normal” não torna isso menos preocupante.

– E a imperatriz?

– Está exausta, mas não para de trabalhar. No momento está no meio da movimentação, supervisionando tudo e dando ordens. O que é ótimo para a moral, tanto das tropas quanto dos civis.

– Como estão reagindo à falta da marca no rosto dela?

– Com um pouco de confusão e uma certa desconfiança, mas nada preocupante. Os soldados se acostumaram rápido e a obedecem da mesma forma que antes, sem questionar. A população de Aldera não a conhece bem ainda, mas estão razoavelmente tranquilos devido à forma como ela está lidando com as coisas, e com o fato de o Dragão estar trabalhando ao lado dela. Ele ainda não era o governador na época da tragédia, mas já era bastante famoso na região.

– Ainda não consigo acreditar que Valena tenha sobrevivido.

– Ela alega que Sandora assumiu o controle sobre a divindade. E que foram tentados várias vezes a desistir de suas vidas para se tornarem parte permanente dela.

– O destino do portador é selado no momento em que o ritual se inicia. O fluxo dele passa imediatamente a ficar sob o domínio da entidade. Seu espírito pode permanecer por perto por algum tempo, mas sem energia própria, tende a se dissipar. – O capitão balançou a cabeça. – Colocar uma bloqueio místico sobre o mundo todo para evitar portais de se abrirem é um feito que exige um poder extremo, algo que a Fênix não tinha nesses últimos séculos. Pensando bem, é provável que nunca tenha sido tão poderosa assim. Mas devolver o fluxo de volta ao portador depois do ritual ter iniciado? Isso pode ser ainda mais complicado.

– Complicado ou não, parece que conseguiu. Mas ainda não entendi a razão de a marca ter sido transferida para Sandora, ela disse que não se lembra do que houve.

Erineu pensou por um instante.

– Espíritos itinerantes são conhecidos por fazerem coisas impossíveis. Talvez não tenha sido apenas a marca que tenha sido transferida. Você acha que essa moça estaria disposta a, digamos, sofrer o destino de Valena em seu lugar?

– Sacrificar a própria vida por ela, você quer dizer? Eu acho que sim. Principalmente devido ao fato de seu quadro estar piorando cada vez mais devido à gravidez. Ela acreditava que tinha pouco tempo de vida.

– Uma possibilidade é ela ter simplesmente desejado que trocassem de lugar, de forma que as consequências do ritual recaíssem sobre ela. Assim, uma assumiu o fluxo energético da outra.

Leonel franziu o cenho.

– Uma troca de fluxos energéticos? Isso é possível?

– Estamos falando de um espírito itinerante que por um momento teve poderes divinos. Nada me surpreenderia. Se foi mesmo isso que aconteceu, Valena ficou com o fluxo saudável e a outra moça ficou sem nenhum, tendo que desafiar o Eterno para conseguir tomar dele o fluxo vital que originalmente era de Valena. Isso explicaria a confusão e perda memória, que embates espirituais podem causar, como você sabe muito bem. E como os sete apresentaram esses sintomas, é possível todos tenham sido envolvidos nessa luta.

– Mas ainda assim, as duas retornaram a seus corpos originais. E Sandora continua com seus próprios poderes, apesar de conseguir também usar os da marca.

– Os poderes dela, assim como os de Evander, não têm relação com fluxo energético. São apenas anomalias devido à natureza de seus espíritos. O que as duas trocaram foram apenas suas afinidades místicas. Eu não me surpreenderia se Valena viesse a desenvolver habilidades místicas, coisa que ela não tinha antes de receber a marca.

Leonel olhou mais uma vez para a movimentação ao longe. Não era possível ver a imperatriz, mas sabia que ela estava por lá, trabalhando como nunca.

– De qualquer forma, isso está sendo difícil para Valena. Vai levar algum tempo para conseguir superar.

– A Valena que eu conheci não era boa em guardar segredos. Realmente acredita que ela vai conseguir se readaptar sem deixar ninguém ficar sabendo que a portadora da marca agora é outra?

– Sim, eu acredito. Ela não é mais a mesma. E as pessoas também sentem isso, precisa ver a forma como os soldados a estão tratando. Antes eles a admiravam e respeitavam, mas agora… agora é como se ela tivesse se tornado um deles.

– Nunca, na história do império, houve um monarca que não tivesse a marca da Fênix estampada em seu rosto. Mas o quadro que você está descrevendo me parece encorajador. – Erineu pensou um pouco e fechou o semblante. – No entanto, o fato de as coisas parecerem estar indo bem não significa que eu perdoei você. Luma não merecia ser sacrificada daquela forma.

Leonel piscou e engoliu em seco.

– Eu sei.

– Eu não entendo. Como pôde? Logo você?

– Escute, ela era minha companheira. Já me sinto culpado o suficiente, está bem? Além disso, perdi a conta de quantas vezes me acusaram de ser frio e calculista. Não podem me culpar agora por tomar uma decisão baseada em minhas emoções.

– E você também não pode me culpar por odiá-lo por isso.

Leonel suspirou.

– É justo. E vocês dois, como estão?

– Fisicamente, estamos bem. Jarim está emburrado ali. Até agora não falou nada sobre voltar para Atalia, o que é um bom sinal. Mas ele já não estava muito bem emocionalmente quando foi capturado por Dantena. Depois de tudo o que passamos naquela masmorra então…

– Fale para ele que, se quiser, temos um trabalho para ele aqui. Os poderes dele serão muito úteis para localizarmos e coletarmos artefatos místicos enterrados. Isso aqui vai virar o paraíso dos caçadores de tesouro, se não fizermos nada. E existem coisas poderosas perdidas sob os escombros, coisas que podem se tornar um sério problema em mãos erradas.

– Vou falar com ele.

– E você? Está tudo bem?

O capitão deu de ombros.

– A graça da Fênix revitalizou meu corpo, mas isso não é suficiente para mantê-lo funcionando por muito mais tempo. Não nesta forma, pelo menos.

Leonel assentiu, devagar.

– Está pensando em partir? Começar tudo do zero novamente?

– É o que sempre fiz.

– Não precisa ser assim. Todas as vezes que você recomeçou sua vida, invariavelmente voltou ao mesmo lugar. Você gosta de servir, de trabalhar por um bem maior. E estar entre a corte imperial é a melhor forma de fazer isso. Para que passar tantos anos longe, se você pode muito bem continuar por aqui?

– As pessoas tendem a ficar desconfiadas e a causar problemas quando descobrem minha real natureza, Leonel. Prefiro que ninguém mais saiba sobre isso. E não posso aparecer do nada com um novo rosto e sem um passado. Isso causaria ainda mais confusão.

– É claro que pode.

– Não vou discutir sobre isso, Leonel.

– Não está nem um pouco preocupado?

– Com o quê?

– Pense. A Fênix atendeu aos desejos de sete pessoas. Um desses desejos foi especificamente direcionado aos membros da antiga Guarda Imperial.

– E?

– Valena e Sandora são as únicas que têm alguma ligação direta conosco, mas ambas alegam que desejaram outra coisa.

Erineu estreitou os olhos.

– Você está dizendo que algum dos outros cinco se importa conosco o suficiente não nos querer mortos ou inconscientes.

– Segundo Valena, o desejo não foi apenas para benefício meu ou seu. Foi para todos, incluindo Jarim e até mesmo Galvan, Lutamar e Gaia, caso ainda estejam vivos. A meu ver, temos pelo menos uma pessoa dotada de grandes poderes querendo algo de nós, e não quer ou não tem coragem de pedir pessoalmente. Tem certeza de que deseja se afastar, mesmo sabendo disso?

♦ ♦ ♦

Depois que a maior parte dos sobreviventes de Aldera já estava alojada no assentamento temporário, Valena finalmente retornou ao palácio imperial. Então levou Falco até a sala do tesouro.

– Aí está – disse ela, quando os oficiais abriram a pesada porta do cofre, que continha vários baús com moedas de ouro e pedras preciosas. – Como o prometido, pode levar tudo o que puder carregar.

Ele arregalou os olhos e não fez nada além de encarar toda aquela riqueza, boquiaberto.

– Então, vai pegar sua recompensa ou não?

Falco saiu do transe e entrou na sala, apressado. Jester, que havia seguido os dois, se aproximou de Valena.

– Vai mesmo darrr toda essa ourro a ele?

– Ele fez sua parte, então vai receber o que lhe foi prometido.

– Mas não foi você quem fez esse prromessa.

Aquilo era verdade, quem convencera Falco a se unir a eles havia sido Sandora. Também havia sido ela quem convencera Valena a pagar o preço que ele pedira. Mas Valena precisava de aliados, principalmente agora que a bruxa havia desaparecido, junto com Evander e os amigos dele.

Ela encarou Jester.

– Por aqui, nós levamos promessas muito a sério. Pegue você, por exemplo. Depois de tudo o que fez, eu não deveria deixá-lo chegar nem perto de uma sala como esta, ou nem mesmo deste palácio para falar bem a verdade. Mas quando eu prometi libertar você, eu lhe dei um voto de confiança. Enquanto você não quebrar esse voto, será sempre bem-vindo entre nós.

Aquilo era uma meia verdade, e Valena sabia disso. Depois de terem compartilhado seus sentimentos mais íntimos enquanto estavam dentro da Fênix, ela percebera que não havia más intenções em nenhum deles, muito pelo contrário. Ela confiava em Jester porque sabia que ele, no fundo, era uma pessoa confiável.

– Nem todas as seus soldados pensam assim.

– Eles não conhecem você como eu. E têm razão em desconfiar, você cometeu crimes e não passou por um julgamento, como aconteceria com qualquer um deles se fizessem a mesma coisa. Se nos der um voto de confiança como o que dei a você, podemos todos ser amigos. Provavelmente poderemos até mesmo ajudar você a conseguir o que quer.

Ele deu um sorriso triste.

– Eu gostarria que fosse possívell. Mas não é. Não mais.

– Conta logo para ela, seu molóide – disse Falco por entre os dentes, lutando para carregar nos ombros um baú que parecia extremamente pesado.

♦ ♦ ♦

Já era tarde da noite quando Valena entrou em seu quarto, seguida por Valdimor.

– Ele pensa que isso – ele apontou para o chão – é um sonho?

Ela suspirou e se jogou sobre a cama, ainda um tanto atordoada pela história que Jester lhe contara.

– Pois é. Disse que nunca acreditou que nenhum de nós fosse real. Não ligava para nós ou para nossas leis porque achava que não fazia sentido, uma vez que não éramos pessoas de verdade. Ele não deu muitos detalhes, mas deu a entender que coisas ruins começaram a sair desse tal “sonho” e se manifestar em seu mundo, causando tragédias. Então ele encontrou uma forma de vir para cá para tentar impedir que mais dessas coisas escapassem. O desejo que selou as fronteiras entre os mundos o deixou frustrado, porque agora está preso aqui para sempre.

Valdimor soltou uma risada. Era a primeira vez que Valena o via rir daquela forma. Leve, sem preocupação. Aquele som repercutiu por todo o corpo dela, fazendo seus pelos se arrepiarem e um calor brotar em seu íntimo.

– Você encontra aliados estranhos – disse ele.

– Nem tanto – respondeu ela, olhando-o de cima a baixo.

O sorriso dele se ampliou e ele se aproximou dela, apoiando-se com uma das mãos, de forma indolente, na parede ao lado da cama e cruzando os tornozelos.

– Como confia em… nós?

– Depois da experiência que tivemos, como pode me perguntar isso?

– Podemos mudar. Nos tornar… menos.

– Isso vale para todo mundo, todos podem mudar. Mas podemos viver muito bem se concordarmos em manter votos de confiança. Eu propus a Jester o mesmo que a você.

– Julgamento?

– Sim. Se ele concordar em se submeter a um julgamento justo, provavelmente será absolvido e ficará livre. Os cidadãos do império ficarão convencidos de que ele realmente é inocente e não irão mais olhá-lo com desconfiança. E quanto a você? Ainda não me deu sua resposta.

– Por que pede? Quando pode nos… obrigar?

– Eu nunca faria isso com você. Voto de confiança, lembra? Além disso, não tenho mais meus poderes, sou literalmente incapaz de levar você a qualquer lugar que não queira ir.

Ele demonstrou desdém àquela afirmação com um grunhido. Ela o observou com um sorriso por um momento, mas então ficou séria.

– Eu não sou mais a mesma de antes. Não tenho a mesma energia, nem a mesma força. Agora sou só uma fracote que precisa ser protegida. Até mesmo a serva que limpa o meu quarto é mais poderosa do que eu. – Ela o encarou, com um olhar inseguro. – Tem certeza de que ainda tem interesse em estar aqui… comigo?

Ele apertou os lábios e soltou o ar pelo nariz, com força, olhando-a como se o tivesse ofendido.

– Quero você. Não seu poder.

Um largo sorriso se abriu na face dela.

– Acho que essa foi a coisa mais linda que você já me disse.

– Eu aceito.

– O quê? – Valena perguntou, confusa.

– Julgamento.

Ela soltou um gritinho excitado, coisa que nem se lembrava mais da última vez que fizera, e levantou o tronco, agarrando-o pela camisa e fazendo-o cair sobre ela, os dois rolando sobre a cama.

♦ ♦ ♦

Três semanas depois

– Como estou? – Loren perguntou, alisando seu uniforme de gala.

– Está linda – respondeu Iseo, com um sorriso, enquanto ajustava o colarinho de seu próprio traje.

– E gostosa – completou Beni, com seu costumeiro sorriso zombeteiro. – Por acaso está solteira?

– Aspirante – reclamou Loren, fingindo-se ofendida enquanto olhava para Alvor –, esse sargento aqui está me passando uma cantada.

– E daí? – Alvor perguntou, irônico. – Sua patente é maior que a dele, não precisa de minha ajuda. Além disso, eu compartilho plenamente dos sentimentos dele em relação à sua aparência.

– Vejo que estão todos prontos – disse Laina, se aproximando e avaliando os uniformes impecáveis que usavam. – Uau, Loren, você está um arraso.

– Eu não disse? – Beni provocou.

– Você também não está nada mal, capitã – disse Alvor. – Alguma ideia do motivo dessa convocação?

– Não, mas logo vamos saber. Estamos sendo chamados. Ah, e pelo menos finjam que são oficiais de verdade. Não me envergonhem diante do general, senão vou passar o resto da vida encontrando as formas mais humilhantes de me vingar de vocês.

Todos riram, descontraídos, enquanto a seguiam pelo corredor, mas se aprumaram e adotaram automaticamente a marcha militar ao passarem pelas portas duplas da sala do trono. O lugar estava cheio de oficiais. Aparentemente, todos os coronéis, majores e capitães estavam presentes, bem como os generais das três províncias do império.

Eles marcharam até o centro do aposento, quando pararam e prestaram continência. O gesto foi retribuído por todos no salão por um momento, até que o general Camiro ordenou que ficassem à vontade.

A imperatriz também estava presente, envergando um vestido cerimonial vermelho com diversos pássaros de fogo bordados. Ela subiu até o pedestal onde ficava o trono e pegou uma concha amplificadora de voz, iniciando um breve discurso.

Depois de agradecer a todos pela presença, citando os nomes das principais autoridades, como era de praxe numa situação como aquela, ela se dirigiu a Laina.

– Capitã, estamos felizes por ter a senhora e sua tropa aqui conosco esta noite. Antes de entrar no motivo de termos solicitado sua presença, gostaria de declarar, para aqueles que ainda não sabem, que nas últimas semanas conseguimos entrar em acordos de paz com Halias, Lemoran e com as Rochosas. As hostilidades entre as províncias do império finalmente chegaram ao fim.

Houve uma onda de aplausos, antes de Valena voltar a se dirigir a Laina e sua tropa.

– Este feito só foi possível graças aos esforços de dedicados oficiais como vocês. Sabem, quando assumi o trono, uma de minhas primeiras decisões foi nomear vocês cinco como minha guarda pessoal. E esse foi um trabalho que realizaram de forma magistral. Eu e todo o império estamos gratos por sua dedicação.

Mais aplausos.

– No entanto, agora que a paz foi restabelecida, creio que não há mais a necessidade de manter oficiais como vocês a meu lado.

Valena fez uma pausa dramática enquanto Laina e os outros a encaravam com expressões de incredulidade e confusão.

– Estou oferecendo hoje a vocês a oportunidade de deixarem de ser apenas a guarda da imperatriz para se tornarem a nova Guarda Imperial. Sua função deixará de ser a proteção apenas dos meus interesses, passando a cuidar dos de todo o país.

Uma nova onda de aplausos pôde ser ouvida, enquanto os cinco oficiais trocavam olhares de incrédula alegria.

Depois que eles aceitaram a oferta, com entusiasmo, Valena passou a concha para o general Camiro, que subiu ao pedestal e fez um pequeno discurso elogiando os feitos da pequena equipe, desde o treinamento com o lendário capitão Dario Joanson até seu desempenho na última grande batalha. Por fim, os chamou um a um para lhes entregar suas medalhas de honra ao mérito, bem como seus novos distintivos, devido à promoção que cada um deles também estavam recebendo.

Quando a rápida cerimônia terminou, os expectadores foram dispensados e deixaram a sala. Valena cumprimentou cada um dos cinco e se despediu, deixando o general encarregado de passar-lhes os detalhes de sua primeira missão.

– Das sete províncias do antigo império, apenas três fazem parte dele atualmente, e firmamos acordo de paz com outras três – disse-lhes Viriel Camiro. – No entanto, uma delas está incomunicável desde que seu atual governante a cercou com uma muralha aparentemente impenetrável e quebrou a comunicação entre as pontes de vento deles e as nossas. Major Laina Imelde, a primeira missão de sua equipe, como Guarda Imperial, será se infiltrar em Ebora. Precisamos saber o que está acontecendo lá dentro e se há algo que possamos fazer para ajudar.

– Com todo o respeito, senhor – disse Laina. – Mas, pelo que sabemos dessa muralha, talvez não tenhamos os recursos para isso.

O general fez um sinal de cabeça para um guarda que estava em uma porta lateral.

– Em relação a isso, deixe eu lhes apresentar o membro honorário de sua equipe, pelo menos durante esta missão.

O guarda se afastou da porta, dando passagem a uma moça muito jovem e atraente, com cabelos loiros muito claros amarrados em um rabo de cavalo e olhos verdes e inteligentes. Ela carregava uma aljava de flechas nas costas e um arco composto em uma das mãos.

– Seu nome é Erínia. Não temos muitas informações sobre ela, exceto pelo fato de ter sido encontrada sem memória entre os sobreviventes de Aldera. Não conseguimos ainda encontrar nenhum parente ou amigo que a reconheça, mas sabemos que ela é um excelente soldado e possui uma habilidade especial que pode colocar vocês do lado de dentro da muralha de Ebora.

– Essa missão, de repente, ficou muito mais interessante – disse Beni, encarando a recém-chegada com um olhar de fascinação.

– Eu que o diga – disseram Alvor e Iseo, ao mesmo tempo.

A moça, que não parecia ter mais do que 16 anos, olhou para eles com um sorriso discreto.

♦ ♦ ♦

Cariele Asmund afastou as mãos do ventre de sua paciente quando ouviu um gemido abafado de dor.

– Sandora, eu sei que está sofrendo, mas preciso que me escute. Está me entendendo?

A outra assentiu, de olhos fechados, com a cabeça apoiada no colo de Gram, que lhe acariciava os cabelos. Evander observava tudo a alguma distância, com uma preocupação que beirava o desespero estampada em seu semblante. Lucine estava logo atrás dele, recostada na parede de pedra, de braços cruzados.

– Acabei de descobrir a causa de os tratamentos que ministramos a você por todos esses meses não terem sido suficientes. Você não vai ter um único filho, são gêmeos.

– O quê?! – Evander exclamou. – Como ninguém percebeu isso antes? Quero dizer, você várias vezes usou seus poderes para olhar dentro dela!

– Sim, também fiquei confusa. Acredito que um dos fetos estava oculto por algum mecanismo de defesa místico. Agora que ela entrou em trabalho de parto isso está se dissipando aos poucos. – Ela se virou para Sandora. – Escute, vai ser muito perigoso fazer isso da maneira natural. Os bebês não estão corretamente posicionados, vão precisar de ajuda para sair. Está me entendendo?

Sandora concordou, apertando os lábios, incapaz de falar, enquanto lágrimas corriam por sua face.

– Vamos dar algo para te ajudar a relaxar. Preciso que confie em mim e não resista. Suas defesas místicas são fortes, então preciso de sua colaboração para que isso tenha efeito.

Quando Sandora voltou a assentir, Cariele fez um gesto de cabeça para a enfermeira que estava ao lado e se levantou, aproximando-se de Evander.

Ambos observaram enquanto Gram ajudava Sandora a levantar o tronco e a enfermeira lhe dava algo para beber em uma caneca.

– Não vou conseguir tirar os bebês enquanto esse escudo místico de vocês estiver ativo – afirmou Cariele.

– O quê? – Evander respondeu, alarmado. – Mas não é como se pudéssemos desligar isso!

Lucine colocou uma mão no ombro dele, fazendo com que se calasse.

– Está sugerindo exaurir a aura de proteção até que ela entre em coma?

Evander arregalou os olhos enquanto encarava sua amiga. “Exaurir a aura” significava golpear a pessoa até que sua energia espiritual se esgotasse, o que faria o escudo místico se dissipar.

– Nem brinque com isso! Não sabemos o que pode acontecer com ela nesse estado!

– Façam – Sandora disse, com voz trêmula.

Os três se viraram para ela, surpresos.

– Se é… a única forma de salvar meus filhos… façam.

– Não podemos… – Evander começou, mas foi interrompido por Lucine.

– Eu faço. – Ela virou a cabeça na direção da porta. – Ei, vocês dois, estão aí fora, não estão? Venham aqui!

A pesada porta de madeira se abriu devagar. Idan e Jena colocaram as cabeças para dentro, apreensivos.

– Levem esse teimoso daqui – ordenou Lucine, apontando para Evander. – Para o mais longe que puderem.

– Você não pode… – ele voltou a tentar falar.

– Cale-se! Estamos perdendo tempo! Essa aura fica mais forte quando vocês dois estão perto um do outro. Vá fazer orações, treinar, ler ou o que quer que seja, mas bem longe. Quanto mais rápido sumir da minha frente, mais rápido resolveremos isso.

Ele olhou de Lucine para Cariele, constatando que ambas estavam mesmo determinadas a levar aquele plano maluco adiante. Engolindo em seco, ele se aproximou de Sandora e deu-lhe um breve beijo nos lábios.

– Concorda mesmo com isso?

– Sim.

Ele assentiu e se levantou, caminhando na direção da porta, mas antes de sair, parou e olhou para Lucine.

– Obrigado.

– Se querem mesmo me agradecer, não façam mais filhos.

Cariele, Jena e Idan tiveram que segurar o riso. Evander piscou e então assentiu novamente, com um leve sorriso, antes de marchar para fora e fechar a porta.

Lucine se aproximou de Sandora e desembainhou a espada que um dia fora de Leonel Nostarius.

– Sempre quis fazer isso.

♦ ♦ ♦

Valena encontrou Leonel Nostarius olhando, pensativo, por uma das janelas do corredor. Curiosa, ela se aproximou, sem dizer nada, e olhou por sobre o ombro dele.

A janela dava uma visão clara de um dos pátios de treinamento, onde Falco e Gerbera trocavam golpes, ele usando a falcione e ela, uma espada rústica que parecia ser feita de gelo.

– Ela melhorou bastante depois do episódio da Fênix – disse Leonel. – Parece estar se curando aos poucos depois que a loucura de Narode foi dissipada.

– Está com um ótimo aspecto – concordou Valena. – No início fiquei preocupada quando ele deu a entender que ela era escrava dele ou algo assim, mas parece estar cuidando bem dela.

– Realmente. Notou as roupas que ela está usando?

Valena olhou para a túnica, as calças e as botas que a mulher usava. Não era nada muito chamativo, mas se tratava de artigos de qualidade.

– Bem melhores do que as dele.

– Pelo que eu percebi até agora, ele se preocupa mais com ela do que consigo próprio. Veja a postura dele. A está desafiando, como eu fazia com você. Não está interessado em melhorar sua própria técnica, ao invés disso a está treinando. Fazendo com que se mova, obrigando-a a se exercitar.

– Fico imaginando se todo aquele ouro que dei a ele ainda está naquela torre. Ele não parece estar gastando muito consigo mesmo. E pelo que os servos dizem, nunca passa as noites fora.

– Eu diria que é um homem com uma missão. Talvez tenha sido isso que Sandora viu nele.

– Falando em Sandora… o senhor… falou com ela?

– Pessoalmente? Não. Mas sei que ela está bem.

Valena assentiu, sem dizer nada.

– Ela não vai voltar – disse Leonel, baixinho. – Não enquanto estiver com aquela marca. Sabe que causaria problemas se alguém a visse.

– Eu sabia que todos os desejos eram puros. Nenhum deles tinha nem um pingo de egoísmo. Por que eu acreditei tão fácil que ela tinha me traído?

– Ela estava com algo que lhe pertencia e fugiu sem se explicar. Ficar magoada com isso me parece uma reação natural.

– Eu queria estar lá com ela.

– Eu sei que ela também gostaria que estivesse. Mas no fim das contas ela está fazendo isso tudo por você. Vamos pensar de outra forma: antes, você me disse que todas as boas ideias do seu governo vieram dela. Por que não aproveita esta oportunidade para tirar a prova, para mostrar a si mesma e a todos que é capaz de governar sozinha?

Ela balançou a cabeça.

– Eu sei que não posso governar sozinha. Preciso de pessoas como o senhor do meu lado.

Ele sorriu.

– Fico lisonjeado, alteza, mas não foi isso que eu quis dizer.

– Eu sei – ela retribuiu o sorriso antes de voltar a olhar para o pátio. – Teve alguma notícia do capitão Nevana ou do belator Ludiana?

– Erineu disse, e repito aqui as exatas palavras dele, que nunca mais veríamos sua cara feia de novo. Creio que esses últimos meses foram intensos demais, a ponto de um exílio voluntário ter se tornado uma alternativa atraente. Inclusive ele me ameaçou de morte se mandasse alguém atrás dele. Jarim decidiu viajar pelo império, disse ter algumas ideias para tentar encontrar Lutamar, Galvan e Gaia. Ao menos ele me prometeu mandar notícias de tempos em tempos.

– E quanto ao senhor? Desculpe, eu fiquei tão atolada em meus próprios problemas que nem me lembrei de perguntar. Essas últimas semanas devem ter sido difíceis, não?

Ele abaixou o olhar e pensou por um momento.

– Como bem sabe, também estive bastante ocupado ultimamente, então não tive muito tempo para pensar no assunto. – Ele suspirou. – O que posso dizer? Eu sinto a falta dela. Muito. Como até um ano atrás eu não sentia praticamente nada, essa situação é um tanto… singular para mim. Mas, de qualquer forma, estou aqui, com você, fazendo a diferença, então estou satisfeito.

– Não sente falta de seus poderes?

– Você diz, por causa da espada? – Ele olhou para ela, que assentiu. – Não, não, minhas habilidades não dependiam daquela arma, apesar de ela conceder algumas vantagens. Mas isso não faz muita diferença para mim. Já estou chegando na casa dos sessenta. Vivi muito mais do que deveria, e o tempo está começando a cobrar seu preço.

Neste momento, no pátio, Falco interrompeu o treinamento de Gerbera e deu um sorriso irônico enquanto acenava para alguém. Olhando naquela direção, Valena viu os membros da nova Guarda Imperial caminhando na direção da ponte de vento.

Enquanto Laina lançava um olhar de desdém a Falco, Alvor, Loren, Iseo e Beni o ignoravam, conversando animadamente e rindo. Erínia olhou diretamente na direção de Valena e imediatamente se imobilizou, prestando continência. Os demais membros da equipe perceberam o gesto da novata e imediatamente o repetiram.

– Aquela garota parece estar levando essa missão a sério – Valena comentou, enquanto retribuía o gesto, assim como Leonel.

– Eles estão em boas mãos – respondeu ele, com um leve sorriso.

Imaginando que o governador se referia à liderança da major Imelde, Valena apenas assentiu, enquanto os oficiais subiam na plataforma e ativavam a ponte, partindo para sua primeira missão como Guarda Imperial.

– O que pretende fazer em relação a ele? – Leonel perguntou, com um gesto de cabeça na direção de Falco.

– Ele será meu convidado por enquanto. Quero mantê-lo por perto para ficar de olho nele. Não sei ainda o que ele quer, mas tenho a impressão de que poderá precisar de ajuda. Além disso, ele é amigo de Jester, e precisamos ficar atentos a ele também.

– Mas o que irão fazer? Se forem forçados a ficarem dentro do palácio sem uma função definida, poderão começar a ver isso aqui como uma prisão.

Valena sorriu.

– Ah, não se preocupe com isso. Agora que não temos mais uma equipe “caça monstros”, podemos dar essa tarefa a Valdimor e a esses dois. Recebemos um pedido de ajuda de Lemoran a respeito disso, não? Sobre a aparição de algum monstro gigante cuspidor de fogo?

Leonel a encarou, levantando a sobrancelha.

– Está pensando em montar uma equipe com três ex criminosos superpoderosos? E mandá-los para um local remoto sem nenhuma supervisão?

Ela deu de ombros.

– Um desses “ex criminosos” está vivendo comigo, então, não faria muito sentido eu desconfiar dele, faria?

♦ ♦ ♦

– Uau! Que lindo!

Idan sorriu da exclamação excitada de Jena enquanto corria na direção da pequena lagoa no meio da floresta, na qual a água de um riacho caía, formando uma pequena cachoeira.

– Você tinha razão, amigo – disse Evander, apreciando o pequeno arco-íris formado pelos raios de sol que incidiam nos respingos de água. – É um belo lugar.

– É tranquilo, seguro e isolado. Poderemos viver sossegados aqui por um bom tempo, relaxar, comungar com a natureza.

– Já vou avisando que “comungar” com insetos e animais selvagens não é, exatamente, a minha praia.

Idan soltou uma risada.

– Você já derrotou inimigos tão poderosos quanto. Vai se dar bem.

– Me diga uma coisa, Idan, depois de tudo o que descobrimos, ainda está determinado a prosseguir com sua missão?

O paladino balançou a cabeça.

– Eu não acredito que o Espírito da Terra tenha realmente deixado de existir. Eu ainda posso sentir sua presença e invocar suas bênçãos.

Evander assentiu.

– Sinto muito não ter conseguido ajudar mais. Já faz quase um ano que prometi viajar com você em busca de respostas, mas até agora não conseguimos fazer nada além de correr atrás dos problemas de outras pessoas.

– Não é assim que eu vejo. Aproveitamos todas as oportunidades que tivemos para conseguir informações, só não tivemos sorte.

– Está mesmo disposto a deixar sua busca de lado e passar um tempo aqui, descansando?

Idan olhou para suas mãos enluvadas. A Fênix pode ter devolvido os seus braços, mas pouco fez para ajudá-lo a superar o trauma causado pelas horas em que ficou sem eles.

– Preciso de algum tempo para meditar. Além disso, não posso perder a oportunidade de conhecer e mimar um pouco seus filhos.

Evander passou a mão pelo cabelo loiro e lançou um breve olhar para a trilha por onde vieram. Será que aquilo ainda iria demorar muito?

– Idan, esse lugar é maravilhoso! – Jena exclamou, correndo na direção deles, o orbe metálico flutuando atrás dela.

– Vejo que está se sentindo melhor – Evander comentou, referindo-se ao fato de ela ter passado por um trauma similar ao de Idan, quando teve a esfera metálica tomada dela.

Jena deu de ombros.

– Vou ficar bem. Não é a primeira vez que passo por isso.

– Mas parece que cada vez que acontece, fica mais difícil para você se recuperar.

Ela balançou a cabeça.

– Estou viva, é o que importa, não é?

– Odeio ver vocês dois nessa situação. Eu vou encontrar uma forma de resolver isso.

Antes que Jena pudesse responder, o som de passos determinados vindo pela trilha lhes chamou a atenção.

– Está feito – disse Lucine, parando a alguma distância deles. Quando os três a fitaram com expectativa, ela bufou, irritada. – Parem de me olhar desse jeito e voltem para a fortaleza. A bruxa não se aguenta de vontade de exibir suas crias para quem quiser ver.

♦ ♦ ♦

O governo de Valena, no ano seguinte, foi melhor do que a encomenda, excedendo as expectativas mais otimistas.

Apesar de a grande batalha ter terminado, praticamente, em um empate, com a maior parte das forças de ambos os lados incapacitada, o sentimento geral é que ela tinha muito mais força e competência do que qualquer imperador antes dela. Além de ter conseguido derrotar o falso Avatar, o campo de proteção que havia idealizado salvara centenas de milhares de vidas, tanto de aliados quanto de supostos inimigos.

Pressionados pela vontade popular e receosos com o impressionante poderio militar do império, os governantes das províncias do norte foram aos poucos desistindo de suas pretensões até finalmente assinarem acordos de cooperação. Levaria tempo ainda para as coisas voltarem a ser como eram anos antes, mas Valena estava otimista de que, em um futuro não muito distante, o império estaria completamente reunificado.

Como Leonel havia previsto, o fato de Valena não estar mais com a marca da Fênix acabou servindo a seu favor nas negociações. O povo estava impressionado com o fato de ela ter desistido de seus poderes, potencialmente perdendo o direito ao trono, para poder acordar a Grande Fênix e fazê-la novamente abençoar seu povo e eliminar uma terrível ameaça. Os bardos e fofoqueiros de plantão se encarregaram de espalhar e aumentar aquela história de formas ora heroicas, ora assustadoras e ora hilárias. Durante muito tempo, aquele foi o assunto principal das conversas em todo o continente.

E o respeito pela imperatriz apenas crescia enquanto, com a ajuda dos governadores e do senado, ela firmava acordos, estabelecia novas rotas de comércio, construía plataformas de transporte e gerenciava o escoamento da produção agrícola e distribuição de bens e insumos.

A bem da verdade, ela não propôs nada de novo, longe disso. O imperador Caraman governou daquela forma por anos. Mas depois do sofrimento causado pela dissolução do império – em muitas regiões pessoas haviam passado fome – a volta daquela organização teve um impacto muito grande na opinião pública.

Sua vida pessoal, no entanto, não foi, nem de longe, tão bem-sucedida.

Ela tinha que dar crédito a Valdimor: ele realmente não se importava com os poderes dela, ou, no caso, com a falta dos mesmos. Infelizmente, o mesmo não podia ser dito a respeito dela própria.

No início, o relacionamento dos dois foi muito bem, mas com o passar das semanas, vendo-o combater ameaças juntamente com Falco e Jester, as suas inseguranças foram crescendo e ela foi se tornando cada vez mais insatisfeita consigo mesma. Começou então a se dedicar a treinamentos físicos cada vez mais intensos, na ânsia de se livrar daquela sensação de inferioridade, até que acabou se machucando e ficou impedida de realizar exercícios por um período prolongado.

Sua frustração chegou a níveis extremos e, depois de uma briga particularmente intensa, Valdimor finalmente se cansou de ser alvo do humor cada vez pior dela e decidiu partir, sem dizer para onde ia.

Os meses seguintes foram uma grande provação para ela.

Sandora continuava incomunicável, tudo o que sabia era que tivera um casal de gêmeos e que as crianças nasceram saudáveis. Joara continuava em coma, os curandeiros imperiais desconfiando que alguma força externa mantinha a consciência dela cativa, assim como a de alguns dos outros ex prisioneiros de Dantena.

A solidão se abateu sobre Valena com uma força esmagadora. Para manter sua sanidade, ela concentrou toda a sua atenção no trabalho, dedicando-se de corpo e alma a resolver os problemas de seus súditos. A presença sólida e tranquila de Leonel Nostarius a seu lado foi crucial nesse período. Não sabia o que teria acontecido a si mesma se não fosse por ele. E tinha a impressão de que o sentimento era mútuo, uma vez que o homem também havia sofrido uma grande perda, sem contar o fato de seu filho estar escondido sabe-se lá onde.

No seu aniversário de 19 anos, quando já estava completamente recuperada e havia retomado seus treinamentos físicos, ela conseguiu, meio que por instinto, lançar um encantamento de aumento de força em si mesma.

Ela sabia que grande parte do sentimento de inferioridade que tinha desde a infância tinha raízes no fato de ela nunca ter manifestado habilidades místicas antes de receber a marca da Fênix. Por isso, aquela pequena flutuação, por mais simples e insignificante que tivesse sido, mudou completamente a forma de enxergar a si mesma.

Nos meses seguintes, ela continuou treinando com os instrutores do exército e conseguiu dominar diversas habilidades novas. Curiosamente, os poderes que estava adquirindo eram os mesmos que lhe tinham sido concedidos pela marca da Fênix. Os sábios não tinham certeza da razão daquilo, mas teorizavam que ela estava tendo um “desabrochar tardio”, como era chamado quando as habilidades do indivíduo despertavam apenas depois de já adulto, e que a experiência que tivera com os poderes da Fênix havia, de certa forma, moldado suas afinidades, fazendo com que replicasse os poderes que um dia tivera.

Independente de qual fosse a explicação, no entanto, Valena estava mais do que satisfeita com os resultados. Em pouco tempo, ela já conseguia realizar a maior parte das flutuações de antes, exceto pelo augúrio, a forma da Fênix e o favor divino. Ainda precisaria de muito treino e prática para conseguir usar essas habilidades com alguma competência, mas estava progredindo, e isso lhe dava uma sensação fantástica.

Um dia, depois de conseguir acertar uma bola de fogo no alvo com uma boa precisão pela primeira vez, foi surpreendida por uma voz familiar atrás de si.

– Está pronta para mim agora?

Seu coração foi parar na garganta enquanto se virava e encarava os olhos avermelhados de Valdimor, que se aproximava dela em sua forma demoníaca.

Uma felicidade como nunca sentira antes se apossou dela, enquanto sacava sua espada e invocava sua lâmina flamejante, assumindo posição de combate.

– Estava mesmo pensando em ir atrás de você para te trazer de volta, à força, se necessário. Obrigada por me poupar a viagem.

Uma pequena plateia se formou ao redor deles quando começaram a trocar golpes. Falco e Jester, que aparentemente vieram escoltando Valdimor, ficaram assistindo de perto, e fazendo comentários um para o outro. Leonel e o general Camiro se posicionaram ao lado deles, lançando sorrisos encorajadores a Valena.

Aquilo era todo o incentivo que ela precisava.

Seus novos poderes ainda precisavam melhorar muito para chegarem ao ponto de realmente serem úteis, mas os anos de treinamento com Leonel e seus amigos ajudavam a equilibrar as coisas. Depois de vários minutos de muitas esquivas e poucas oportunidades de contra-ataque, ela finalmente conseguiu bloquear um dos golpes e jogar a força de Valdimor contra ele mesmo, jogando-o no chão e aplicando com perfeição a chave de braço que havia aprendido com Galvan Lemara.

Quando ele finalmente bateu o outro braço no chão, concedendo-lhe a vitória, ela o soltou e o ajudou a se levantar, encarando-o com um enorme sorriso.

Ele sorriu de volta, com uma expressão de alívio em seus olhos, que fez com que o coração dela cantasse de alegria. Ele finalmente a havia perdoado e estava de volta. E, se dependesse dela, nunca mais teria razão alguma para ir embora de novo.

– A partir de agora, estarei sempre pronta. Sempre. E para sempre.

— Fim —
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