O Vale Encantado – Parte 1

Amondagar

Um conto de fadas. Aquilo tinha que ser um conto de fadas. Não havia outra explicação para aquelas luxuriantes florestas, majestosas montanhas e lindas cachoeiras de águas cristalinas. Uma sensação muito aprazível de paz e serenidade a inundava, compelindo-a a continuar deitada na relva e ficar ali para sempre, sentindo a brisa nos cabelos.

Era uma sensação curiosa, considerando que, no momento, ela não se lembrava de quem era e também não fazia ideia de onde estava. Mas, independente de seu passado, ela tinha certeza de que nunca em sua vida tinha se sentido tão leve, tão… livre.

Abrindo os olhos, ela respirou fundo e tratou de se sentar, observando atentamente os arredores. Os raios do sol nascente se infiltravam pelas folhas das enormes árvores, iluminando o leito do riacho, onde alguns animais silvestres bebiam água, enquanto outros brincavam.

Parecia mesmo um conto de fadas. Uma daquelas histórias fantásticas e emocionantes lidas para crianças. Era interessante ela lembrar de várias dessas histórias, sendo que não conseguia se recordar de sua infância. Na verdade, não se recordava de nada de antes de ter acordado ali, mas por alguma razão aquilo não parecia ter importância.

Se sentindo, de repente, cheia de energia, ela se levantou e correu até a margem de uma pequena lagoa. Fascinada, ajoelhou-se e encarou o próprio reflexo na superfície da água, admirando-se com a própria aparência. Era como se estivesse vendo a si mesma pela primeira vez, apesar de ela se reconhecer no rosto de pele escura, bastante castigada pelo sol, com olhos negros vívidos e marcantes, e emoldurado por uma indomável massa de cabelos escuros que caíam, totalmente desordenados, até seus ombros. Passando a mão pelos cachos, ela teve certeza de que nunca os deixava assim, soltos, mas no momento aquilo parecia não ter a menor importância. Avaliou-se a si mesma como tendo cerca de trinta anos e provavelmente tinha passado a maior parte da vida ao ar livre. Definitivamente não parecia nenhuma princesa de contos de fada que conhecia.

Ela olhou para o próprio corpo e se viu usando um vestido simples, de tecido barato, geralmente usado por camponesas que trabalhavam com a terra. Achou aquilo interessante, mas não o suficiente para continuar pensando nisso por muito tempo. Suas mãos eram calejadas e seus braços pareciam fortes, poderosos, provavelmente acostumados a trabalho duro.

Mas, no momento, ela não tinha passado nenhum. O que fazer quando você recebe uma chance de recomeçar sua vida do zero, como se toda a sua vida se transformassem numa folha em branco, na qual você pudesse fazer o que quiser, ser o que desse vontade, ter o que pudesse?

Olhou novamente ao redor. O que poderia haver além daquele vale? Que aventuras a aguardariam? Mal podia esperar para ver o que o destino lhe reservava, então, levantou-se de um pulo e correu, abrindo os braços e sorrindo como uma tola, enquanto os animais, assustados, tratavam de sair de seu caminho.

Então, subitamente sentindo-se observada, ela parou e olhou ao redor, ainda ofegante. E o viu.

Ele estava apoiado em uma árvore de tronco grosso e rugoso. Parecia um pouco mais velho que ela, tinha cabelos curtos e negros, assim como os olhos, que a observavam atentamente, sem demonstrar nenhuma emoção. A pele dele era moreno-clara, e o rosto apresentava algumas cicatrizes. Era bem mais alto do que ela e vestia trajes simples, que deixavam à vista a maior parte dos braços musculosos. Definitivamente, não era um príncipe encantado, parecendo mais um guerreiro. Forte, implacável, invencível.

Imediatamente ela se sentiu tentada a provocar uma reação dele, fazê-lo abandonar aquela expressão contida, que não revelava nada do que estava pensando. De alguma forma, ela percebeu que conhecia aquele homem, apesar de não se lembrar. Então lançou-lhe um sorriso zombeteiro.

“Você é meu príncipe?” Perguntou ela, com um sorriso zombeteiro.

“Dificilmente”, ele respondeu, levantando uma sobrancelha. “Mas tenho a impressão de que, no momento, você não precisa ser salva. E nem quer.”

“Você tem um nome?” Ela perguntou, aumentando o sorriso.

“Tanto quanto você, creio. Aparentemente somos prisioneiros do mesmo destino.” Ele falava com voz calma, sem muita emoção, mas com um tom familiar, profundo, envolvente.

“Então você não se lembra de nada, assim como eu?”

Ele assentiu.

Ela aproximou-se dele e o agarrou pelo braço, puxando-o para a trilha e, vendo que ele a seguia sem hesitar, entrelaçando os dedos de ambos.

“Vamos, meu guerreiro sem nome. Vejamos onde esse destino irá nos levar.”

Ela tinha total consciência que nada daquilo fazia sentido. Aquele lugar, aquele homem, aquelas sensações. Parecia tudo tão turvo, confuso, mas ao mesmo tempo parecia tão certo, tão agradável. Não tinha muito o que fazer, além de seguir em frente e ver onde aquela trilha os levaria. Tinha uma leve impressão de que deveria estar assustada, apreensiva, mas não conseguia resistir à sensação de paz.

“Isso aqui parece um paraíso”, comentou ela.

Ele a olhou com atenção, os olhos escuros pela primeira vez abandonando a inexpressividade e revelando um inesperado, mas muito bem vindo calor. “Sim”, concordou ele, simplesmente.

(continua…)

O Vale Encantado – Parte 2 (próximo)

Imagem cortesia de:
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