O Vale Encantado – Parte 2

Amondagar2

Ela correu por aquela planície, rindo e girando, como uma criança que há muito não conhecia a liberdade. A grama alta arranhava seus pés descalços e seus tornozelos, mas ela mal notou, enquanto dava a volta ao redor de um pinheiro solitário, agarrava uma pinha no chão e a arremessava na direção de seu companheiro, que a seguia a uma certa distância com expressão impassível.

“Sorria!” Gritou ela, rindo, quando ele segurou o pequeno objeto no ar e dirigiu a ela um olhar indagador. “Alguém já lhe disse que você é muito sério? Você tem que se divertir um pouco”.

“Se você quer brincar”, disse ele, olhando por sobre o ombro dela, “talvez seja uma melhor ideia pedir a eles do que a mim”.

Ela virou-se e viu um grupo de crianças correndo entre as árvores à distância. Intrigada, ela se aproximou deles, devagar, tentando imaginar quem seriam e como chegaram até ali. Trajavam vestes largas e finas, do tipo usado em climas muito quentes e a maioria deles usava chapéus de palha ou turbantes para proteger a cabeça dos raios inclementes do sol.

Um dos meninos tropeçou em uma raiz e caiu um tombo feio, caindo de lado de lado sobre um dos braços e começou a chorar. Uma menina se aproximou dele e gritou algo para os outros, que pararam de brincar no mesmo instante, formando um círculo ao redor do colega machucado. A garota era morena, alta e magra, usando um turbante com uma pequenina pedra de cristal de rocha pendurada na parte da frente, que ficava balançando sobre a sua testa. Havia uma bolsa de couro presa às suas costas por correias.

Levando uma mão por sobre o ombro, ela tirou um pequeno objeto do bolso e o esfregou suavemente no braço machucado, ignorando os protestos do garoto. Depois de alguns instantes, a dor parecia ter passado, pois ele já se levantava, sorridente, e agradecia à menina com um gesto de cortesia, unindo as mãos no peito e inclinando-se de leve para a frente, antes de voltar a sair correndo e gritando junto com os outros.

A garota morena ficou para trás, observando a brincadeira dos amigos por um momento, antes de virar-se na direção do casal que presenciara tudo a pouca distância dali. Ela arqueou a cabeça de leve para o lado, parecendo intrigada, antes de sorrir e correr na direção deles, tirando da bolsa um pedaço grande de tecido que ofereceu à mulher.

“Para proteger os cabelos do sol, senão você pode ficar doente”, disse a menina, antes de dar um último sorriso e se afastar, correndo na direção dos coleguinhas.

Surpresa, a mulher olhou para o tecido, depois para seu companheiro, que apenas deu de ombros. Então, ela levantou o tecido, e, com uma facilidade e prática que a surpreendeu, enrolou a longa peça de tecido na cabeça, escondendo completamente os cabelos negros. O tecido era leve e confortável, e ao invés de aumentar ainda mais o calor que ela sentia devido à intensidade do brilho do sol, pareceu refresca-la. Com certeza não se tratava de um tipo de pano comum.

Insegura quanto à própria aparência, ela olhou para o companheiro, que assentiu satisfeito.

“Eu conheço você”, disse ele. “De antes”.

“Eu sei”, respondeu ela. “O que será que é isso? Estamos em um sonho?”

“Talvez. Por que não perguntamos para ela?” Ele apontou na direção da menina.

A partir daquele momento, o tempo pareceu se acelerar, os eventos se encadeando sucessivamente enquanto eles não podiam fazer nada além de observar.

Começaram a caminhar sob o sol escaldante, seguindo as crianças, que corriam na direção de uma estrada que cortava a floresta. Viram as crianças serem abordadas por uma velha carregando uma grande trouxa. Viram quando a idosa brincou com os pequenos e perguntou-lhes se os pais sabiam onde eles estavam. Viram a mulher tirar um pacote de biscoitos do bolso e sugerir que as crianças dividissem entre si. Viram as crianças pedindo para a velha senhora lhes contar uma história. E viram a idosa contar uma fábula sobre um velho túmulo no alto de uma colina próxima, que abençoava e trazia proteção ao vilarejo deles. E viram a velha senhora se despedir e as crianças rumarem para casa, excitadas com a fantástica história sobre magia, força e heroísmo que tinham ouvido.

Colina

Seguiram as crianças até um vilarejo, onde a garotinha que falara com eles antes foi recebida por seu pai. Viram o pai explicar à filha que iria sair da vila junto com diversos outros aldeões para fazer algo muito importante e que cabia a ela cuidar de sua mãe. Viram dezenas de homens e mulheres se armarem e, praticamente, marcharem para fora do vilarejo, com diferentes graus de raiva, indignação, frustração e resignação.

E viram a garotinha correr para a casa e perguntar para a mãe o que estava acontecendo. A mãe disse a ela apenas que tudo ia ficar bem e que seu pai cuidaria do problema, mandando que a filha entrasse e começasse a descascar as batatas para o jantar.

Então eles aproximaram-se da mãe, que não pareceu nem um pouco surpresa por ver dois forasteiros andando pelo vilarejo. Ela apenas lhes sorriu e contou a triste história.

Havia um grupo de pessoas que queria expulsá-los dali, dizendo que aquela terra era sagrada. Diziam que estavam cometendo um sacrilégio, que o Espírito da Terra os amaldiçoaria por invadirem o que chamavam de “Terras Intocáveis” e que haveria guerra se não queimassem todas as casas e fossem embora o mais rápido possível. Aquelas pessoas desprezaram o fato de vários monges da Irmandade da Terra morarem no vilarejo e atestarem que a entidade em questão não manifestava nenhum descontentamento, que as alegações dos estranhos não passavam de folclore e que não havia razão para aquela gente pobre e humilde ter que procurar outro lugar para morar.

A mãe então pediu desculpas e entrou em casa, deixando o casal ali, refletindo sobre aquilo. E então eles perceberam que a garotinha tinha ouvido toda a história, escondida atrás de uma árvore, e saía correndo para chamar seus amiguinhos.

Tentaram alcança-la, mas foi em vão. Conseguiram apenas ver a garotinha chamando duas amiguinhas para acompanha-la e partindo na direção da colina. A mesma colina da história que a velha senhora havia lhes contado.

Com crescente preocupação, eles seguiram as crianças, vendo-as se esforçando para subir a encosta íngreme, uma tarefa que levou horas, entre muito suor, lágrimas e reclamações, até que finalmente encontraram o túmulo no cume da montanha.

A garotinha morena tirou então um objeto de madeira, um talismã que havia recebido dos monges da irmandade muito tempo atrás, e colocou-o sobre o túmulo, ajoelhando-se ali e pedindo para que as outras duas meninas fizessem o mesmo. Juntaram as mãos e cantaram a canção que a velha senhora tinha lhes ensinado, que pedia paz e proteção.

Nesse momento, um grupo de pais e mães cansados e preocupados apareceu, dando graças aos espíritos quando encontraram as crianças sãs e salvas. Então as levaram de volta para casa, entre broncas e promessas de castigo.

Ao chegarem de volta na aldeia, o grupo de aldeões armados estava voltando. Não haviam encontrado vestígio dos inimigos. E assim, a noite chegou e todos foram para suas casas.

No meio da noite, os dois aldeões que tinham ficado de vigia perceberam algo estranho. A imagem da lua cheia tinha ficado curiosamente desfocada, como se estivesse sendo vista através de uma janela de vidro. Andaram ao redor e viram que toda a vila estava cercada pelo que parecia ser uma barreira transparente. E viram também que os inimigos estavam ali próximos, observando.

A garotinha com a mochila de couro, que tinha mais uma vez fugido da cabana de seus pais, viu com alegria que seus esforços tinham sido recompensados, ao ver os invasores golpearem inutilmente a barreira. A velha que a garotinha tinha encontrado mais cedo estava entre eles.

Então, um daqueles homens levantou uma das mãos e recitou um encantamento. Subitamente, os telhados de palha da maior parte das casas explodiram em chamas. Em questão de segundos, tudo virou um caos, com pessoas gritando e tentando escapar, ou tentando salvar seus entes queridos.

Fogo

No centro do vilarejo havia um poço, um buraco de cerca de 10 metros de profundidade, que alcançar lençol de água subterrâneo. Aquele buraco era a fonte de água potável dos aldeões, que haviam cercado o local e construído um telhado de palha sobre ele. A primeira explosão tinha destruído completamente a pequena cobertura do poço. A garotinha foi pega por uma das explosões subsequentes e arremessada diretamente para dentro dele. Após se chocar contra as paredes de pedras duas vezes, ela mergulhou na água. Ao voltar à superfície, ela se agarrou um dos pedaços de madeira chamuscados que flutuavam na água e olhou para cima. Ela não viu quando os invasores invocaram um outro encanto que dissipou completamente a barreira. Mas ela viu, com o horror, o mar de fogo escaldante que varreu o vilarejo quando o ar externo entrou, alimentando e potencializando a força das chamas.

Em total estado de choque, ela passou o resto da noite ali, sem conseguir se mexer, sem conseguir pensar, sem conseguir sequer chorar.

Quando ela foi resgatada na manhã por viajantes que passavam por ali, a garotinha se viu diante de uma cena de morte e destruição como nunca havia imaginado. Não houveram sobreviventes, além dela.

Grave

O casal observava de longe os soluços da garotinha enquanto chorava no colo de um estranho.

“Ela acha que tudo isso aconteceu por culpa dela”, concluiu a mulher.

“Sim.”

“Eu tenho que falar com ela!”

“Não”, disse ele, segurando-a pelo ombro.

“Mas eu tenho que fazer alguma coisa!”

“Diga-me”, disse ele segurando-a pelos dois ombros e olhando profundamente nos olhos dela. “O que você quer dizer para ela? ”

“Que ela não tem culpa de nada, que foi usada por aqueles malfeitores, que só precisavam de alguém de dentro da vila para ativar a barreira. Ela foi usada. Qualquer pessoa faria o mesmo que ela fez. “ Ela foi interrompida pelos próprios soluços, quando ele a abraçou e ficou segurando-a em silêncio por um longo tempo, até que as lágrimas finalmente pararam.

Ela separou-se dele então e olhou ao redor. De alguma forma estavam novamente à beira do riacho, no local onde eles tinham se encontrado.

“Aquela garotinha… sou eu, não é?”

“A semelhança é inegável”, concordou ele.

“Eu não tinha percebido.” Ela suspirou, balançando a cabeça. “Eu ainda não me lembro de nada. Mas sei que carreguei por minha vida toda esses sentimentos de raiva, frustração e…”

“Desejo de vingança?” Sugeriu ele, vendo a hesitação dela.

“Sim.”

“E agora?” Perguntou ele. “Acha que, quando se lembrar, vai conseguir se perdoar?”

Ela olhou ao redor, viu aquele cenário paradisíaco, sentiu a fresca brisa que agitava as folhas, ouviu o canto dos pássaros. A experiência que tinha acabado de ter a tinha abalado muito, mas tudo parecia muito melhor agora. Tudo o que tinha testemunhado há poucos minutos parecia cada vez mais com um sonho distante.

“Sim”, respondeu ela. “Sim!” Ela repetiu, com mais convicção. “De alguma forma, eu sinto que um peso está sendo tirado de minhas costas”.

“Isso é bom.”

Ela olhou ao redor novamente. “Isso não é um sonho, não é? Este lugar, essas coisas que vimos… O que significa tudo isso?”

“Ainda não sei.” Respondeu ele. “Mas creio que muitas surpresas ainda nos aguardam.”

(continua…)

O Vale Encantado – Parte 3 (próximo)

O Vale Encantado – Parte 1 (anterior)

Imagens cortesia de:
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