O Vale Encantado – Parte 4

Estrelas

Os dois permaneceram abraçados por algum tempo, enquanto uma suave brisa soprava, atenuando o calor e trazendo uma falsa sensação de normalidade. Parecia tudo tão real, tão normal, mas a existência daquele colossal abismo a pouca distância deles provava o contrário.

“Precisamos sair daqui”, disse ela.

Ele levantou uma sobrancelha. “Por quê?”

“Aqui não é seguro”, respondeu ela, afastando-se dele e lançando um olhar assustado para aquele céu estrelado que parecia servir de fundo para o abismo. “Temos que sair daqui”.

“É mais uma provação”, concluiu ele. Provavelmente alguma memória do passado. Não é real”.

“Preciso sair daqui”, disse ela, dando as costas ao abismo e entrando novamente na trilha da floresta por onde eles tinham vindo.

Estreitando os olhos, ele a seguiu.

Montanhas rochosas

Subitamente, era dia de novo. E não levou muito tempo para ambos perceberem que a trilha havia se modificado. Aquele, definitivamente, não era o caminho que tinham percorrido antes. O solo foi se tornando cada vez mais pedregoso e logo a floresta deu lugar a um terreno rochoso onde nada além de poucas ervas daninhas conseguiam crescer. Pouco mais adiante começava uma cadeia de montanhas com altos picos escarpados e aparência estéril, com pouquíssimos sinais de vegetação.

“Luma, para onde está indo?”

“Embora daqui.”

“Como?”

Ela virou-se para ele, furiosa.

“Eu não sei, Leonel! Eu não sei, está bem? Só sei que não vamos chegar a lugar nenhum ficando parados, por isso, tenho que ir em frente.”

“Por que você está tão nervosa?”

“Acho que eu tenho o direito, não tenho?”

“Vamos parar e discutir um pouco o assunto. Acho que esse ambiente está nos afetando. Precisamos manter a calma.”

“Para o inferno com sua calma! Não sou uma pessoa insensível como você! Eu tenho sentimentos, está bem? E, se não pode conviver com isso, sinta-se à vontade para ficar longe de mim!”

Ela virou-se e continuou a caminhar, furiosa. Leonel cruzou os braços e a estudou por alguns instantes, concluindo que eles já haviam tido uma conversa como aquela antes. Antes de virem parar naquele lugar e esquecerem de tudo.

Preocupado, ele saiu apressado atrás dela, tomando o cuidado de manter uma certa distância.

Depois de alguns minutos, ela parou e se escondeu atrás de uma rocha. Ele tratou de se abaixar também, ocultando-se atrás de algumas pedras de onde ele conseguia vigiar tanto a ela quanto a trilha à frente deles.

Logo apareceu um casal vindo na direção deles, andando a passos largos. A postura, a forma de caminhar, praticamente marchando, as grossas botas de couro e os uniformes mostravam tratar-se de militares. Ambos eram jovens, morenos e usavam turbantes ocultando os cabelos.

O homem olhou por sobre o ombro, antes de parar. “Agora, quero que me explique o que pretende fazer com essa joia”.

Ela parou também e olhou para ele. “Eu sou uma alquimista. Fui treinada para usar esse tipo de artefato”.

“Essa coisa é perigosa, o nível de poder está muito acima de qualquer arma mística permitida pelo exército, e você sabe muito bem disso”.

“Estamos lutando contra fanáticos que não pensariam duas vezes antes de usar uma coisa como essa contra nós. Você acha que devemos ficar esperando, impotentes, enquanto eles jogam, sabe-se o que mais, em cima da gente?”

“Eles não jogaram essa coisa contra nós. Somos melhores do que eles, estamos com a joia, não estamos? Tiramos deles antes que pudessem usar. E podemos fazer isso de novo, caso necessário. Não entendo porque você quer testar a sorte, escondendo esse artefato do tenente”.

“O tenente não está na linha de frente como nós. Ele fica lá sentado na tenda dele enquanto manda eu e você fazermos o trabalho sujo. Por que eu deveria ser leal a ele?”

“Certo, entendi. Esse assunto está encerrado, então. Eu nunca vi essa pedra antes, assim como não vi você se apossar dela”.

“Obrigada”.

“Não agradeça. A partir de agora você está sozinha. Não quero uma parceira na qual eu não possa confiar. Se você quiser ser exonerada, a escolha é sua, mas não envolva outras pessoas nos seus planos malucos”.

“Jeone, espere!”

“Adeus, Luma. Estou voltando para casa. Se quiser que eu continue calado sobre essa insubordinação, nunca mais me dirija a palavra”.

Ainda escondida atrás da rocha, Luma assistiu a si mesma levando as mãos ao rosto para controlar as lágrimas enquanto o homem mais decente que já tinha conhecido até então dava as costas para ela e se afastava. Depois de um longo momento, a jovem tirou do bolso um pequeno objeto envolto em um tecido negro. Um brilho avermelhado atravessava o tecido, dando ao embrulho um aspecto sinistro. Enquanto encarava o objeto, o olhar dela foi se aos poucos se tornando sombrio e determinado até que ela levantou a cabeça, olhando uma última vez para o companheiro que se afastava, antes de virar-se na direção oposta e sair andando, determinada, enquanto voltava a guardar o embrulho no bolso.

Luma levou um susto quando Leonel colocou uma mão sobre o ombro dela e deu um pulo, olhando para ele com expressão aterrorizada.

“O que ela vai fazer?” Perguntou ele.

“Uma coisa terrível. Temos que impedi-la! Vamos atrás dela!”

“Espere!” Gritou ele, sendo completamente ignorado, enquanto Luma saía em disparada, perseguindo a si mesma pela trilha acidentada. Leonel correu atrás dela, consciente de que o esforço era inútil, pois era impossível mudar o passado.

Castelo

Após alguns minutos de corrida desenfreada, chegaram a um vale impressionante. As montanhas ali não eram nuas, estéreis. Ao invés disso, a vegetação florescia, majestosa, cobrindo os picos rochosos. Havia um castelo ali. Uma impressionante construção encravada numa montanha rochosa, um local cujo único acesso parecia ser uma estrada que serpenteava montanha abaixo, cortando uma infinidade de campos e pastagens na planície que se estendia pelo espaço entre uma montanha e outra. O castelo era gigantesco. Deveriam morar milhares de pessoas ali.

A jovem Luma ignorou a estrada, pela qual caminhavam aldeões e soldados, e se embrenhou na densa floresta, até chegar à base rochosa, que começou a escalar cuidadosamente, tratando de se manter oculta. Era uma escalada quase impossível, que levou muitas horas. Leonel e sua companheira seguiram a moça, vendo todas as suas ações, mas sem conseguir alcançá-la ou interagir com ela. Ao chegar ao topo, ela estava com as mãos sangrando, bem como os pés, depois que foi obrigada a se livrar das botas, que haviam se rasgado nas rochas durante a subida.

Então ela encarou a paisagem diante dela por um momento: a caldeira de um vulcão inativo há milhares de anos. O chão era irregular, com rochas irregulares por toda parte, e com uma pequena lagoa no centro. Musgos e líquens cobriam todas as superfícies que não recebiam a luz do sol diretamente, e os restos de ninhos de aves de rapina podiam ser vistos em vários locais.

Pulando para dentro da caldeira, a jovem se aproximou da pequena lagoa e tirou o embrulho do bolso. Com cuidado, desembrulhou a pedra de cor escarlate e a expôs ao sol por alguns instantes, até que ela começou a brilhar intensamente, a ponto de não ser mais possível olhar para ela. Então, a jovem virou o rosto e lançou a pedra na água e imediatamente, um tremor agitou a montanha toda.

Levantando-se com dificuldade, depois de ter sido lançada ao chão pela força do tremor, a jovem Luma partiu numa corrida complicada, tentando evitar as rachaduras que surgiam por toda a parte enquanto o vulcão voltava à vida.

Luma e Leonel observaram, impotentes, enquanto a jovem corria montanha abaixo, usando artefatos místicos para se proteger das pedras e da lava, enquanto o vulcão lançava suas entranhas para o alto, cobrindo o céu de cinzas enquanto rochas incandescentes eram arremessadas em todas as direções.

Vulcão

O enorme castelo na base da montanha não teve a menor chance. As pedras e a lava o atingiram em questão de minutos, não dando tempo para que ninguém pudesse escapar. Logo, tudo o que restava era uma massa incandescente, correndo montanha abaixo como uma avalanche de fogo. Apenas os camponeses que tiveram o bom senso de abandonar tudo e correr pelas próprias vidas conseguiram escapar com vida.

Foi um massacre total.

“Quem eram eles?” Perguntou Leonel, apontando para o local onde ficava o castelo.

Luma, que não conseguia conter as lágrimas, sacudiu a cabeça, incapaz de falar, bem como de desviar os olhos daquela destruição.

“Era o povo que destruiu a sua aldeia?”

Ela assentiu, devagar.

“Entendo”.

Olhando para o outro lado, Leonel viu que a jovem Luma observava a destruição com a mesma expressão de choque e desolação que sua versão mais velha. De repente, a jovem virou-se e saiu correndo, embrenhando-se na floresta.

“Vamos!” Exclamou ele, segurando a companheira pelo braço e a levando com ele.

“O quê…?” Perguntou ela, confusa, enquanto lutava para acompanhar o passo dele.

“Atrás dela!”

Fim do mundo

Leonel não ficou nem um pouco surpreso ao perceber para onde estavam indo. Também não se surpreendeu quando, ao chegar no abismo, a jovem Luma não interrompeu sua corrida e se lançou no vazio.

(continua…)

O Vale Encantado – Final (próxima)

O Vale Encantado – Parte 3 (anterior)

Imagens cortesia de:
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